Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

Um dia virá em que todos/as sereis julgados (Isaías. ou ali perto)

Foto: Net


2012
Mensagem de Ano Novo de Sua Velocidade TheOldMan, Pontifex Maximus da Fé. Que se endereça aos Fiéis num dia gélido e envergando apenas uns finíssimos calções de Verão.

Irmãos. Se ligarmos ao que os Incas diziam, o fim do mundo não tarda aí. Pelo que penso ser este ano propenso à satisfação de todos os desejos reprimidos, e à vingança de todas as pequenas afrontas (reais ou imaginárias) que têm afligido muita gente nos últimos tempos.

O ano que passou deixou-nos assistir a alguns momentos memoráveis. Como é o exemplo flagrante da família de Sócrates, que em poucos anos atingiu uma desafogada posição financeira; e sem que o seu mais proeminente membro tivesse que tirar uma licenciatura, ou se rebaixasse a jogar futebol por um qualquer clubzeco ranhoso.

Outro acontecimento importante passou-se na Coreia do Norte, onde governava aquele rapaz gorducho, o Quim. Que deixou o negócio de família para o filho que curiosamente também se chama Quim. Infelizmente o rapaz não herdou a sagacidade dos seus maiores. Pelo que o pessoal do comando estratégico já foi instruído para não fazer lançamentos sem segunda confirmação. Não vá o rapaz confundir o botão dos mísseis, com o que serve para alertar a copa que lhe envia os cheeseburgers.

Mas como isto é um blog sério e não quero ser acusado de parcialidade, aqui vai a resenha do ano passado, apresentada de um modo mais ou menos cronológico e isento.

Janeiro

- Pela primeira vez no Brasil, elevam uma mulher ao posto mais alto da nação, sem que seja para melhor lhe mirar o traseiro.

- Se a personalidade é como um bom vinho, sem dúvida que as de Carlos Castro e Renato Seabra seriam “de pacote”; pelo que nunca se percebeu porque raio é que este último usou um saca-rolhas.

- Cavaco Silva é reeleito Presidente da República por todos os abstencionistas que num esforço hercúleo para perpetuar o sistema, ficam a dormir até tarde numa percentagem que não há memória ter ocorrido antes.

- No Egipto, a população exige que Hosni Mubarak seja embalsamado com todas as honras devidas a um Faraó. As Nações Unidas recusam-se a permitir que tal seja feito com o ditador ainda vivo.

Fevereiro

- Após nove anos morta no chão da sua cozinha, uma idosa ultrapassa a barreira do silêncio. Permitindo que finalmente se comece a falar desses casos que afinal são bem mais frequentes do que se pensa.

- O Bloco de Esquerda informa que vai apresentar uma Moção de Censura ao Governo. – Porreiro, pá!... – Foi a pronta resposta do Primeiro-Ministro.

- Hosni Mubarak abandona o Egipto com “armas e bagagens” (e mais uns trocos), deixando para trás 685 mortos e cerca de 5000 feridos. Os Líbios pensando que Khadafi é como Mubarak, tentam também correr com ele. Este responde apenas – Não me façam rir, que injectei agora o botox…

Março

- Khadafi contra-ataca. Alguns líbios começam a arrepender-se de ter comprado o franchising aos egípcios.

- O Bloco de Esquerda vê a sua moção de censura chumbada no Parlamento. Louçã faz uma birra ao bom estilo da velha UDP; e afirma que ainda um dia lhe pedirão para assumir o cargo de 1º Ministro. Entretanto um paramédico mede-lhe a tensão arterial, ostentando um semblante grave e expressão preocupada.

- Um sismo de magnitude 8.9 assola o Japão. Provocando um desastre nuclear de consequências graves; e acabando por mostrar ao mundo o que significa honra e abnegação (dois vocábulos que no nosso país apenas se encontram em obras literárias antigas).

- José Sócrates esvazia as gavetas da sua secretária em São Bento. E tirando da parede o diploma emoldurado, decide trocá-lo por uma licenciatura em filosofia.

- Devido a uma cunha metida por S. Pedro, Artur Agostinho passa a relatar todos os jogos da Liga Angélica a contar para a taça dos Pecadores Arrependidos. Começa a constar pelo Céu, que nem ali se está a salvo da praga das cunhas.

Abril

- Pelo menos num dia deste mês sabemos que o que nos dizem é mentira.

- O único acontecimento de nota neste mês não é tanto o casamento do Príncipe William com Kate Middleton; mas o facto de a irmã desta (Pippa) ter na verdade um traseiro maravilhosamente bem feito. A boa nova percorre quase toda a Europa.

Maio

- Barack Obama transforma Osama Bin Laden em mais uma inspiração para videojogos, dando novo alento ao já estafado termo “headshot”. 

- Dominique Strauss-Kahn é vítima de uma armadilha que impede a sua candidatura à presidência da República Francesa. Em sinal de agradecimento, as empregadas de limpeza do Eliseu oferecem a Sarkozy uma almofada ortopédica quase nova.

Junho

- O PSD ganha as eleições com 38,63% dos votos. Pedro Passos Coelho sorri por cinco minutos, até começar a ter a sensação que ganhar eleições pode não ser propriamente considerado uma vitória.

- Angélico Vieira morre em acidente de viação. E pela primeira vez (no que me diz respeito) presencio um costume estranho que consiste em aplaudir funerais entusiasticamente. Só o tempo dirá se é uma epidemia de mau gosto ou apenas um caso pontual.

- O governo anuncia a criação de um imposto especial de 50% sobre o subsídio de Natal acima do salário mínimo nacional. Esta iniciativa provoca imediatamente descontentamento e repúdio por parte do meu patrão (e outros que tais), que desde 2009 se habituou a guardar esse dinheiro para si próprio em vez de o ter que entregar ao estado (ou a nós).

Julho

- Após uma tal Ingrid ter ido à sua página no facebook acusá-lo de ter um pénis minúsculo, Anders Breivik destrambelha de vez e mata 77 pessoas em Oslo, na Noruega; assegurando um lugar nos anais da psicopatologia.

- Amy Winehouse consegue finalmente emular completamente Janis Joplin. Desde os desaires amorosos até à dependência de tudo o que é substância; acabando por morrer com a mesma idade e deixando para trás uma igualmente numerosa série de broncas. Também cantava muito bem.

Agosto

- Uma vez que a crise económica impediu os britânicos de passarem as suas habituais férias no estrangeiro, estes decidiram virar-se para o mercado interno. Dando origem a uma onda de “overbooking” em hotéis, ao aumento do cheiro a urina e vomitado nas vielas londrinas, e a uma já esperada onda de pilhagens que se prolongou por toda a época balnear. Para solucionar este problema, a câmara alta decide atribuir um subsídio no ano seguinte para que todos eles voltem a ir fazer distúrbios para a terra dos outros.

Setembro

- Após se ter esquivado o máximo que lhe foi possível, o Governo português lá decide a contra-gosto admitir que Alberto João Jardim poderá ter gasto um pouco mais do que devia. (No momento em que isto é escrito, encontra-se já em curso um plano de contingência, que consiste em mandar-lhe mais algum dinheiro)

Outubro

- Morre Steve Jobs, que não sendo exactamente simpático; pelo menos contribuiu substancialmente para o progresso da tecnologia de informação (bastante mais do que se poderá dizer sobre a maioria de outros “ilustres” defuntos).

- Passos Coelho avisa os pensionistas e funcionários públicos, de que o Natal se encontra oficialmente adiado “sine die”.

- Inebriado por doses industriais de veneno de “peixe balão” (botox), Khadafi toma-se pela encarnação de Salah al-Din Yusuf ibn Ayub, e sai à rua para um “banho de multidão”. Multidão esta que acaba por o executar com grande “requinte oriental”. Já não há ditadores como antigamente.

- Cristina Kirchner é reeleita presidente da Argentina. Encarando uma possível morte por cancro na tiróide, decide virar-se para as Falkland e recomeçar a chatear os Ingleses na esperança que estes lhe abreviem a sua já miserável existência.

- Duarte Lima livra-se finalmente da fama de santarrão que lhe teria sido injustamente atribuída. Provando indubitavelmente que o facto de se conseguir resistir a um cancro, não transforma ninguém automaticamente em boa pessoa.

- O Primeiro-Ministro grego decide tentar desresponsabilizar-se da bronca em que o país está metido; à conta de um referendo. Ângela Merkel aconselha-lhe “juizinho”, dizendo que quem viveu tanto tempo de ruínas e colunas caídas, também pode aguentar mais uns anitos.

Novembro

- Sílvio Berlusconi decide finalmente aproveitar a merecida reforma e almejar a uma velhice tranquila, juntamente com o seu gineceu de assistentes e um suprimento astronómico de vasodilatadores.

- Portugal bate nos desgraçados dos Bósnios, apenas para ir fazer mais uma figura triste no Campeonato Europeu de Futebol.

- O ajudante do Rei de Espanha, agora chama-se Rajoy (Sapatero dava-lhe um ar mais democrático e produtivo)

Dezembro

- Inexplicavelmente ocorrem casos de combustão espontânea em algumas portagens por esse país afora. Teresa Guilherme jura que não foi nenhum concorrente da “Casa dos Segredos”

- Falha o acordo para revisão do tratado de Lisboa. Mais tarde concluir-se-á que o problema era o nome.

- Cesária Évora parte, deixando atrás de si apenas “sodade”.

- Morre o Quim segundo, filho do primeiro e pai do terceiro. Como têm todos as mesmas trombas, ninguém na Coreia do Norte irá notar a diferença.

E já agora, passem um bom ano se puderem!...

Música de Fundo
It's The End Of The World As We Know It  - R.E.M. (link)

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

Spring Flowers by Norman Rockwell


Auld Lang Syne
(by Robert Burns)


Should old acquaintance be forgot,
and never brought to mind ?
Should old acquaintance be forgot,
and old lang syne ?

For auld lang syne, my dear,
for auld lang syne,
we'll take a cup of kindness yet,
for auld lang syne.

And surely you’ll buy your pint cup !
and surely I’ll buy mine !
And we'll take a cup o’ kindness yet,
for auld lang syne.

We two have run about the slopes,
and picked the daisies fine ;
But we’ve wandered many a weary foot,
since auld lang syne.

We two have paddled in the stream,
from morning sun till diner ;
But seas between us broad have roared
since auld lang syne.

And there’s a hand my trusty friend !
And give us a hand o’ thine !
And we’ll take a right good-will draught,
for auld lang syne.



E bom 2012 para todos!


Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

Mais um para o "Clube dos Ditadores Mortos"



Foto: Net

Como me encontro a meio de uma fase “não-produtiva” – e também porque Kim Jong-Il não merece um post – aqui vai o repost de um texto já com cinco anos. Escrito igualmente em Dezembro para assinalar o auspicioso desaparecimento de Augusto Pinochet.

A Patuscada

- Um reencontro de velhos amigos, um desfiar de reminiscências, uma celebração da amizade… -

Era uma fria manhã de Dezembro. Na velha cabana construída com musgosos troncos, nas escarpas inacessíveis de uma qualquer sinistra e anónima montanha; um velho de nariz adunco vigiava a frigideira onde fritava camarões.

Algures atrás de si, a porta ecoou duas sonoras pancadas como se fosse um gongo chinês, assustando as gralhas das árvores em volta; o que provocou um reboliço parecido com um congresso de bruxas em aceso debate.

Olhando de relance o calendário onde dois gatinhos assinalavam o mês de Dezembro, encaminhou-se para a fonte do ruído arrastando pelo chão as solas das botas de modelo italiano e resmungando entre dentes. Girou a chave quatro vezes para a esquerda na fechadura de aspecto moderno, e escancarando a porta contemplou o recém-chegado por cima dos óculos.

- Só te esperava para amanhã – Proferiu, dirigindo-se a um ancião de aspecto gorducho que transportava consigo duas garrafas de vinho branco – Até pensava que era o miúdo, pois mandei-o há pouco comprar malaguetas à vila…

- Despachei-me mais cedo. Aliás, a coisa estava a tornar-se aborrecida e decidi apanhar o transporte um dia antes – respondeu o interlocutor, entortando o bigode num sorriso quase imperceptível – Imaginas que aqueles pelintras, em vez de me oferecerem a festa de despedida com procissão e tudo como estava combinado, se limitaram a fazer-me um churrasquinho? – Depois um pouco mais calmo, continuou – Bem… Trouxe-te duas garrafas de “Santa Inés” branco para acompanhar os camarões. O tipo da alfândega queria deitar-lhes a luva, mas quando lhe disse que eram para ti acagaçou-se.

- Fizeste bem, Augusto – Respondeu o anfitrião – Esses gajos têm memória curta, e ás vezes é preciso refrescar-lha. Mas entra, que isso aí fora está um gelo que não se pode… Deixa as garrafas a refrescar na soleira, que aqui ninguém rouba nada.

Sempre a arrastar as botas pelo soalho, conduziu o visitante a um cadeirão perto da lareira. – Serve-te de um porto, que o miúdo deve estar aí a chegar e eu mando-o acender a lareira.

- Miúdo? Mas qual miúdo, António? – Perguntou finalmente o outro

- O Rosa Casaco. Lembras-te? Aquele que me fez o servicinho do general aviador e da secretária brasileira. – Respondeu o do nariz adunco – É um puto porreiro! Até emprestou umas fotos minhas ao Múrias, para este fazer um livro comemorativo do centenário. O Adolfo encontrou-o por aí e enviou-mo (o Casaco, claro). Tem sido uma grande ajuda, que eu nesta idade não posso fazer trabalhos pesados.

- O Adolfo? Não me digas que o Adolfo está cá. - Disse Augusto, surpreendido – Eu tinha uma admiração pelo gajo… Era doido como uma catatua, mas fazia uma “kartoffelsalat” de se lhe tirar o chapéu…

- Então não sabes? O Adolfo agora é Presidente da Junta. – Informou António com um sorriso maroto – Chamou para cá toda a malta dele, e estabeleceram-se com um negócio de montarias ao javali, para turistas. Trouxe o Heinrich, o Herman gordo…

- Quem? O Herman José?

- Não, pá! O Hermann Göring. Aquele tipo que andava agarrado ao pó, e usava o cinto pelos sovacos como o Obelix. – António, casquinhou uma risada escarninha; mais parecendo o som de um par de maracas – Ainda me lembro quando lhe trocámos a heroína por “fluorescente trifósforo”. O gajo durante um tempo quando saía à noite, até parecia um pirilampo gigante com aquela peida enorme a brilhar no escuro.

Augusto suspirou de alívio – Se eu soubesse que vocês se divertiam tanto, tinha vindo mais cedo. Ainda por cima, já estava a ficar com falta de desculpas para faltar às audiências. E ia metendo em sarilhos aquele rapaz do Supremo que me andava a fazer o jeito.

Entretanto a porta abriu-se intempestivamente, dando entrada a Rosa Casaco que afogueado se dirigiu ao fogão com expressão preocupada – O Professor Salazar desculpe a demora, mas eles não tinham malaguetas e só consegui trazer pimenta de cayenne. Espero que os camarões não se tenham queimado…

- O quê? - Berrou Oliveira Salazar na sua voz de velha – Não tinham piri-piri? Isto é uma choldra! Bem dizia o Américo Thomaz que esta merda aqui é um inferno. Só tenho coisas que me ralem…

Música de Fundo
Bang Bang You’re Dead” – Dirty Pretty Things (link)

  

Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2011



Anjo de Aço

É contra mim que exerço esta violência em não escrever. Como se ao amordaçar-me punisse alguma transgressão eventualmente cometida.

Mas não sinto culpa alguma que justifique esse facto.

Culpa seria curiosamente desculpa para essa espécie de culpado silêncio, e logo por ela própria obviamente desculpado. Mas não.

Nada do que sinto é publicável. Nada do que escrevo é compreensível, senão para mim. E eu, compreendo-me perfeitamente sem qualquer necessidade de escrever seja o que for.

Sejam estas linhas, uma história divertida ou uma acesa diatribe contra qualquer um desses óbvios alvos, que facilmente se podem escolher entre todas as coisas que estão mal feitas neste mundo.

É este o meu modo de ser violento. Não falar, não escrever, não estar aqui.

Voltarei, novamente, quando a raiva voltar a adormecer... mais uma vez.

Até já.

 Música de Fundo
Vision (O Euchari In Leta Via) - Hildegard Von Bingen (link)


Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

Foto: NET



11 do 11 do 11
- Post feito de encomenda para este passatempo e que pressupostamente estaria já “Redigido & Publicado”, aí pelas 11 horas e onze minutos do dia 11 de Novembro de 2011 (Mas não… Azarucho!) –

Carta de amor a disfarçar à brava, mas na verdade a dar com os pés…

Meu amor, é tal a angústia que me aflige em relação ao que tenho para dizer que a única e aflitiva imagem que me vem à mente, é a do Duarte Lima a tocar órgão em ceroulas e utilizando uma máscara com o rosto do Marinho Pinto ao mais puro estilo do Fantasma da Ópera.

E é assim neste fatídico dia tão esperado pelos amantes da numerologia (pois é mais uma fonte de receita), que o grosso cabo que segurava o meu coração rompeu os últimos fios que o ligavam a algo tão belo que nunca o expressámos por palavras. Não fosse tal coisa quebrar o encantamento que envolvia o nosso mundo.

A confirmar as palavras de Ellie Crystal, uma blogueira que se apresenta como exploradora da metafísica do mundo ("Existe uma sincronia interessante no fato de que muitos eventos estão associados com o número 11"), venho anunciar-te que o nosso amor acabou.

Não acabou no convulsivo estertor de uma acutilante punhalada, mas definhou sim, como se uma insidiosa anemia o consumisse; fazendo-nos contemplar diariamente a sua pálida face. Num repetido prenúncio de morte.

É tão fácil desculparmo-nos com qualquer coisa insignificante (basta olhar para a frase da parva da Ellie), que não resisto ao fascínio da data (da hora não, pois já passa das 11h 11m) e às potencialidades que se apresentam às inúmeras actividades que poderão ser dinamizadas em determinados dias expressamente dedicados a isso.

Diz o jornal SOL (esse famoso blog pago e em papel) que hoje é o “dia dos solteiros, uma altura em que quem está sem par sai em busca do romance”. E como vês, daqui a pouco já é meio-dia e ainda não consegui terminar esta carta; de modo a poder iniciar a minha nova actividade de sair em busca de romance.

Infelizmente é um pouco como ir à caça. Pois quem sai em busca de romance, trá-lo para casa já morto como se fosse uma perdiz ou um pato-marreco (o que em alguns casos, pode ser assustadoramente similar).

Combinámos em tempos que se isto acontecesse, não usaríamos aqueles subterfúgios do tipo - “a culpa é toda minha”, “não é por causa de ti”, etc – Mas a verdade é que me estou nas tintas pois a nossa relação atingiu uma tal apatia, que a minha expressão apaixonada pode ser copiada por qualquer jogador de poker e usada por ele durante os campeonatos da modalidade.

O 11 do 11 do 11 é realmente um dia fatídico, mas apenas se não compartilhares comigo o infinito tédio que me provoca a nossa relação. Penso aliás que o tédio é o único sentimento que compartilhamos actualmente, e que devíamos apreciá-lo devidamente; pois é algo de belo que se for acarinhado, nos transformará (espero) em absolutos estranhos que não se reconhecerão ao se cruzarem um dia na rua.

Desejo-te então um feliz 11 do 11 do 11… Eu sei que vou ter.

Música de Fundo
Everybody’s Changing – Keane (link)


Terça-feira, 1 de Novembro de 2011

foto: NET


O Incomparável Mr. Tweety
- ESPECIAL “Dia de los Muertos” –

Mr. Tweety não morre!

Embora não seja exactamente eterno, o meu canário é como o “Duende que Caminha”. E renova a sua existência de cada vez que substituo uma bola de penas amarelas por outra exactamente igual, atribuindo-lhe a mesma designação (penso que este é o 4º). O que vai perpetuando a dinastia, assim como o nome que corre de boca em boca pelas varandas da vizinhança; tal como o do “Fantasma” pelos trilhos verdejantes da selva.

Mas chega de BD e vamos ao que interessa.

Há seis meses Mr. Tweety começou a morrer. Uma manhã aproximei-me da gaiola para lhe dar a dose diária de “vitaminas” (um eufemismo para frutose, dextrose e outros “speeds” naturais) que o ajuda a “aquecer os reactores”, e reparei que tinha uma pequena ferida no abdómen (se é que as aves têm disso); mesmo junto à junção com uma das patas.

Sem grandes preocupações agarrei-o, e com um “cotonette” apliquei mercurocromo sobre a lesão.

Aparentemente foi o mesmo que aplicar uma compressa quente na face exposta de um glaciar. Pois alguns dias depois a chaga tinha-se transformado num alto, que após duas ou três semanas se transformara numa esfera envolta em penas que se assemelhava a algo saído de um dos filmes da série “Alien”. A qualquer momento eu esperava que o sólido se cindisse, revelando uma criatura gritante e ameaçadora com duas, três, ou mesmo quatro fileiras de dentes assustadoramente afiados (tenho fotos para documentar o facto, mas garanto que são assaz repugnantes).

Mr. Tweety estava condenado!

A morte que eu lhe vaticinava, estava pois pendente dos caprichos da genética; sendo apenas uma questão de tempo.

Levado pela minha filosofia pessoal, ponderei durante algum tempo as hipóteses de:

a) Libertá-lo deixando a resolução de todo o caso nas mãos do cosmos.
b) Rapidamente e de modo indolor “abreviar-lhe” o sofrimento; ou
c) Deixar a natureza seguir o seu curso (a famosa “Lei do Menor Esforço”) e aguardar os consequentes resultados.

Ganhou a hipótese c). Reforçada pelo argumento de a presente condição não lhe estar (aparentemente) a provocar qualquer dor. Apenas o desconforto inerente a ter algo como uma bola de ping-pong a desestabilizar o precário equilíbrio sobre o seu poleiro favorito.

E os dias foram passando como nuvens sobre um campo de girassóis (homenagem a Inês Pedrosa), arrastando consigo a poeira do tempo e uma ténue nuvem de insignificantes realidades.

Começámos pois a preparar a sua sucessão.

Mas a morte não vinha. E Mr. Tweety continuava teimosamente a viver; tal como uma daquelas tias endinheiradas que todos os parentes esperam que morra, mas que de cada vez que eles abrem todas as janelas na esperança que ela apanhe uma pneumonia, apenas ganha mais vitalidade com o ar fresco da manhã.

Consequentemente as nossas atenções foram-se dispersando noutras direcções, até que uma manhã em que me debrucei sobre a gaiola para - como é hábito - assobiar alguns acordes da “Flauta Mágica” de Mozart (é uma das minhas experiências sobre “condicionamento animal”, mas os resultados são patéticos), descobri no fundo da gaiola uma indefinível massa de aspecto ignóbil, de onde despontavam trocistas algumas penas amarelas.

No seu poleiro habitual a um canto da gaiola, Mr. Tweety absolutamente incólume e escorreito, debicava com uma expressão “blasé” a orla do plástico que resguarda o seu habitat, para que não me encha a cozinha de alpista e outras merdas.

Debati com o meu filho a hipótese de dissecar aquela abominação que jazia inocentemente no fundo da gaiola como um ovo de serpente à espera de ser chocado. Mas o bom senso prevaleceu. E para evitar conviver com aquela repugnante incógnita, despachámo-lo lestamente pelo “túnel de porcelana”; não fosse o tal ovo eclodir e provar ser alguma espécie de embrião vudu que se apoderasse de todos nós durante o sono.

Mr. Tweety voltou ao seu velho hábito de titubear pelo poleiro ao som da música que ponho a tocar na cozinha enquanto preparo o jantar. Caindo ocasionalmente (já o fazia antes) no fundo da gaiola, e levantando-se bruscamente para aparentar um ar digno e imperturbável. Voltou também a acompanhar-me enquanto assobio a “Flauta Mágica” de Mozart ao pequeno-almoço. E pela parte que lhe toca, é como se todos os acontecimentos que decorreram nos últimos meses, tivessem acontecido a um qualquer outro canário que não ele.

Tudo isto vem reforçar a minha teoria de que Mr. Tweety não morre. Ele é o verdadeiro “Duende que Caminha”!

Feliz “Dia de los Muertos”.

Música de Fundo
Life at LastPaul Williams (Phantom of the Paradise - OST)


Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011

Foto: TheOldMan


A Igreja do Imaculado Blog
- A Confissão de TheOldMan – “Sou o Prof. Marcelo do Bairro Amarelo” –

Irmãos! Mal seria se este sermão não começasse com uma “mentira parcial” (ou “meia-verdade”, como gostam de lhe chamar os adeptos do “copo meio-cheio”), pois é do conhecimento geral que em todas as religiões que se utilize a confissão (inclusive a famosa “auto-crítica” na extinta UDP), quem a ela normalmente recorre aproveita para confessar pecadilhos insignificantes ou informações que lhe dá jeito divulgar; deixando no silêncio os verdadeiros pecados “hardcore”, e aquelas coisas que o poderiam envergonhar frente ás catequistas (e escuteiras) da vizinhança.

Como já decerto concluíram, eu vou fazer exactamente o mesmo. Pois a nossa religião quer manter-se a par com as outras. E se tanto os católicos como os judeus ou os muçulmanos têm direito à hipocrisia, nós não somos menos que ninguém e reclamamos igualmente o direito de usufruir dessa benesse inerente a todas as religiões.

Mas isto é um sermão em novo formato, por isso não me posso deixar arrastar para as habituais divagações; embora aparentemente haja clientela para tudo.

Pois. Nos últimos tempos após ter abandonado os pequenos-almoços na cafetaria da D. Odete (Madame Salmonela para os amigos), e ter atravessado a rua em direcção à concorrência, deram-se acontecimentos prodigiosos.

Além de me terem oferecido uma assinatura gratuita (com validade de seis meses) do Jornal de Notícias; a clientela que no outro tugúrio era constituída por decrépitas pensionistas e um ou outro bêbado matinal. É no local onde agora desjejuo (valha-me Blog! Nunca pensei aqui escrever “desjejuo) maioritariamente composta por pessoas que se dirigem aos empregos (os que os conseguem ainda conservar), matinais apreciadores de moscatel e um ou outro desempregado adepto do “Sistema D”.

A presença deste cadinho de almas amalgamadas a “trouxe-mouxe”, em conjunção com a já citada oferta do JN, fundiu-se numa congregação de fiéis a BLOG (embora a maior parte deles só utilize a Net para ver pornografia ou para uma rápida “saltada” ao Facebook) que bebe os ensinamentos DELE, como se fossem o também já anteriormente citado moscatel.

Mas como todo o bom pregador, a determinada altura deixei-me tentar pelo lado negro (é claro que os que me conhecem, já estão neste momento a desfiar piadas sobre isto como se fossem as contas de um rosário) e sucumbi à tentação de utilizar aquelas almas sedentas da Palavra, para difundir ideias que contrariam a urbanidade, o bom-tom e a concórdia (que confesso, já agora que estamos em maré, não serem assim tão importantes para mim).

Ainda há poucos dias, encontrava-me eu a meio de uma divertida e inspirada homilia, sobre os motivos que levam alguém a interessar-se pela vida íntima de José Castelo Branco; quando na TV apareceu a característica carantonha do “Mussolini dos Carnavais”. E se começou a fazer ouvir o habitual chorrilho de imbecilidades, característico de uma mente perturbada não só pelo exercício continuado do poder despótico, como pelo consumo desregrado do álcool de cana.

Não pensem que isso despertou em mim ira ou maledicência. Até porque na nossa FÉ, fomos abençoados com uma tolerância desmedida para com os pobres espírito (que como sabeis, ganharão qualquer coisa não se sabe o quê, mas só lá mais para o fim…), os boçais, os incultos e aqueles que por infelicidade tenham contraído sífilis. E assim vejam destruídas as suas faculdades cognitivas; a ponto de por piedade os seus semelhantes (termo que como já repararam, neste caso pode ser insultuoso) terem imenso pejo em os desancar como na verdade ás vezes merecem.

Pedi ao Irmão David que mudasse o canal da TV para a SIC Mulher. Pois acho a Oprah muito mais divertida do que o referido emplastro, e a sua voz não me provoca a mesma sensação de um garfo de aço inox a raspar uma placa de vidro temperado. Mas o demo está em todo o lado para nos tentar. E que local seria melhor para isso do que o Bairro Amarelo?

A um canto o “calhordas” que já ia no sétimo “Favaíto”, levantou do Record os olhos míopes que brilhavam atrás de duas verdadeiras vigias de batíscafo, e inquiriu num tom insidioso que nunca alguém lhe ouvira (nessa altura eu deveria ter suspeitado que o demo se apoderara da sua mente calcinada por uma rigorosa dieta de moscatel e jornais desportivos) – E a Madeira? Afinal o que é que você fazia para resolver o problema da Madeira?

Logo no café se instalou um desconfortável silêncio, apenas interrompido pelos esporádicos estalidos provocados pelos mosquitos e melgas presentes, que desesperadamente corriam a suicidar-se no electrocutor suspenso no meio da sala.

Bem… – arenguei eu à congregação, adoptando o dialecto local imbuído de pitoresco coloquialismo – Vocês sabem o que o Daniel de Oliveira disse há uns dias sobre o possível resultado das Eleições Regionais… Aquela cena de os madeirenses ao porem novamente o tipo no poleiro, estarem a afirmar que aprovam todas aquelas trafulhices e que são cúmplices do gajo… – Um unânime e afirmativo aceno percorreu a massa de rostos sérios e expectantes – Pois eu acho que se o tipo ganhar as eleições, devemos alugar a Madeira aos Chineses!

Após esta bombástica declaração dediquei toda a minha atenção à bica dupla, enquanto se instalava um aceso debate cujo gradual vozear ultrapassava já as portas do estabelecimento; fazendo com que algumas curiosas (coscuvilheiras” não soaria tão bem, embora se aproximasse mais da verdade) vizinhas viessem alternadamente à janela. O que por momentos me fez lembrar aquele divertido jogo, em que se bate com um martelo em roedores que alternadamente saem do tampo de uma mesa.

- Hrrãmmm! – Pigarreei eu tentando captar a atenção dos fiéis, que mercê de uma prodigiosa imaginação viam já o “ajardinado” Funchal pejado de restaurantes chineses e lojas de “inutilidades”. – Escutem! Desde que ocupámos Macau em meados do séc. XVI que temos uma dívida de honra para com o “Celeste Império”. Dívida esta que agora temos possibilidade de saldar, regressando aos áureos dias do "Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português" que como todos vocês sabem (esta foi descaradamente para “ganhar” a audiência) só foi assinado 1887; após uma já longa e abusiva ocupação, por parte dos nossos mais manhosos mercadores.

Por esta altura quase todos eles escutavam de olhos luminosos (quem sabe, se do Favaíto…), e “abanos” oscilando como girassóis sob a brisa primaveril das minhas palavras (esta é para ti, Inês Pedrosa).

Continuei – O que proponho, é a cedência temporária do arquipélago da Madeira (com todo o recheio e electrodomésticos) aí por cerca de 400 anos apenas. Passando pois a chamar-se transitoriamente "Região Administrativa Especial da Madeira, da República Popular da China" (RAEM). Tudo isto pela módica quantia de €370,36 mil milhões; que a acreditar nos últimos relatórios é mais ou menos a soma da nossa dívida externa.

- Os Madeirenses que quisessem continuar em Território Nacional (embora muitos deles achem que o local onde actualmente vivem não é Território Nacional, mas sim uma espécie de propriedade privada cercada de água por todos os lados), seriam bem recebidos no Continente onde após “boa cobrança” do cheque chinês, talvez conseguissem arranjar emprego e habitação decentes; integrados no inevitável “boom económico” resultante do aluguer de uma pequena parcela do nosso território, que parece apenas produzir chatices e despesas mal justificadas.

- Os nossos amigos chineses, ficariam por seu lado na posse de um precioso “estaleiro de obra”, onde poderiam guardar os contentores destinados às inúmeras obras que têm na República Popular de Angola. Podendo até aos fins-de-semana convidar o simpático Presidente José Eduardo dos Santos a beber uma “poncha” com eles, e tentar “esfolá-lo” no Casino cuja exploração teríamos cedido ao nosso grande amigo Stanley Ho.

- Tudo isto serviria para acabar com os nossos problemas financeiros mais imediatos; e quem sabe até sair do Euro… O que devido à nossa posição (esquerda baixa) em relação ao resto da Europa, nos permitiria fechar facilmente as fronteiras e começar a cobrar entrada a todos os turistas que quisessem variar da arruinada Grécia, da caótica Espanha e da impotente (é mais o presidente) Itália. Elevando este “jardim (este e não o outro) à beira mar plantado” à glória de outras eras, realizando finalmente o destino do Império, do qual tanto falava Pessoa. E agora desculpem-me, porque tenho que ir trabalhar um bocado…

Com estrelas cintilando no olhar, a irmã da Tininha contemplou-me como se eu fosse um “double Big Mac” com queijo extra (infelizmente a antiga “Miss Traseiro Dourado” sucumbiu aos prazeres terrenos da “junk food”, matando cruelmente uma das minhas mais acarinhadas fantasias) e proferiu em voz maviosa. – Que bonito! Até parece o “Professor Marcelo do Bairro Amarelo”…

Foi nesse momento que o Demo me tentou; e em vez de negar com veemência, fiquei calado…

Sinto que a Fé de Blog se encontra ameaçada, pois a partir de agora dificilmente me levarão a sério por aquelas paragens...

Música de Fundo
Weapon of ChoiceFatboy Slim (link)


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