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O Post dos Nove Anos
Naquele dia soube que tinha
chegado a meio. A única analogia que considerava mais aproximada era a daqueles
dias em que costumava pegar no seu bólide feito de tábuas e com rodas de rolamento de
esferas para subir o monte.
O monte tinha uma estrada
solitária da base ao topo, como se tivesse sido cuidadosamente penteada pela
relva com o risco ao meio.
A recordação que fora ele, arrastava o veículo até ao topo espantosamente sem tropeçar nos atacadores frequentemente
mal apertados; puxando-o pela corda que servia para mudar de direcção.
Subia sempre o monte a pensar no
prazer da descida. Uma ideia motivadora que o impelia incansável. Uma subida…
Correspondia sempre a uma descida. Àquela sibilante vertigem que dava uma
sensação de imponderabilidade. Sendo, claro está, “imponderabilidade” apenas
mais um vocábulo que ainda nada lhe dizia.
Apesar de durante muito tempo não
ter pensado nesses dias despreocupados, a comparação ocorria-lhe agora pois
outra não havia que mais se adequasse.
Ao longo dos anos deixara o fio
dessas recordações esticar-se, tornando-se mais ténue à medida que com outros
ia interagindo e incorporando-se nas suas vidas. Do mesmo modo que estes o
tinham feito em relação a ele.
Algumas vezes se interrogara
sobre o sentido de tudo aquilo. Mas não muitas. Tal como no tempo do carro com
rodas de rolamento, sentia a existência de um qualquer mecanismo invisível que
mantinha o equilíbrio de todas as coisas por detrás da realidade. Os bons e os
maus momentos, alternavam-se como os dias e as noites, as subidas e as
descidas, a dor e o prazer.
Mas naquele dia sentiu que
chegara a meio.
Por momentos voltou ao topo do
monte (que na sua perspectiva mais madura era apenas uma ladeira um pouco mais
inclinada) com o vento a segredar-lhe nos ouvidos palavras de um mar distante.
Sempre soubera de algum modo que
todas as ladeiras mereciam ser subidas. E era isso que mais uma vez via. Não o
que lhe custara a subida ou o tempo dispendido. Mas o caminho de volta, que
percorreria agora de um modo veloz com o qual o tempo pouco teria a ver. Nem
sequer a distância ou o espaço.
Era uma descida algo intemporal e
difícil de explicar. Uma vez que, embora sentisse que a estava agora a iniciar,
na realidade já a concluíra. E olhando para baixo via-se a si próprio olhando
para cima com um sorriso nos lábios. Como que à espera de si próprio.
Para se completar.
Música de Fundo
The Last Good Day of the Year - Cousteau