Sexta-feira, 18 de Maio de 2012





Foto: Net

Contribuições para um Verão mais Quente
- Onde no seguimento de uma política de desanuviamento, o autor tenta levantar o véu (e o resto da roupinha também) que cobre aquilo a que algumas mulheres chamam o “Mistério Masculino” (M&M) -

Génese – Adagietto

Estávamos eu e o Apóstolo há uns dias em pleno planeamento das actividades balneares para este Verão, quando levantando subitamente o olhar do suplemento de uma edição dominical que estava a consultar, este me perguntou absolutamente de chofre – Já reparaste que todos os anos por esta altura publicam um monte de tretas sobre como agradar às mulheres, e que ninguém se preocupa com o que é importante ou não para os homens?

E não é que tinha razão?... Acabei por ter que admitir que existia uma enorme lacuna no conhecimento que a maioria das mulheres pensa ter sobre nós. Lacuna esta, disfarçada pelo aparente sucesso da dualidade cacete/cenoura que desde a idade da pedra tem mantido os homens (mais ou menos) na linha.

Esclarecimento Prévio – Andantino

Ora desde que no início da minha adolescência li “A Nossa Vida Sexual” do pantomineiro do Dr. Fritz Kahn, tive ao longo do resto da minha vida que desaprender um monte de teorias erradas ou que não considero funcionais. Excepto talvez para indivíduos a quem tenham seccionado as ligações entre os lobos frontais e o tálamo.

Embora não me considere uma sumidade no que respeita ao “Eterno Feminino”, sou suficientemente homem para saber do que gosto e o que é melhor para mim (embora nem sempre ambos os factores se encontrem em conjunção).

Pelo que, do cimo da cátedra que me é conferida pela minha provecta idade e pelas múltiplas cicatrizes recebidas em indescritíveis batalhas (indescritíveis, porque ficaria muito mal da minha parte descrevê-las aqui), atirarei como milho aos pombos algumas considerações gerais, que penso poderem ajudar a desvendar o “Mistério Masculino” (M&M), àquelas mulheres que se interessem por aquilo que sentimos. E que não nos consideram apenas um palminho de cara mal barbeada, ou um pedaço de carne com o qual podem dar largas aos seus mais básicos e selváticos instintos.

Prólogo – Allegro ma non troppo

Ora, para a mulher que está habituada a confiar na informação veiculada por outras mulheres (mãe, colegas e amigas) em relação aos homens, só tenho a dizer uma coisa. – Pfavor!... Confiar noutras mulheres? E é a isso que você chama informação fidedigna? Senão, vamos por partes.

Por mais dedicadas que as amigas e as colegas lhe sejam, nunca estas iriam colocar em seu poder (mesmo que a tivessem) o equivalente à “Arma do Juízo Final”. Seria o mesmo que os Americanos em Agosto de 1945, se virarem para os Russos e dizerem. – Bem, isto da bomba atómica até correu benzinho com os japoneses. Olhem! Como não somos egoístas, estão aqui os planos para vocês poderem também construir a vossa.

E quanto à sua simpática e bem intencionada mãe, não estou aqui para falar dela. Para já, porque isto de falar de mães alheias é uma situação tão volátil como deixar o frasco da acetona ao pé da fogueira, enquanto se pinta as unhas dos pés no parque de campismo. Mas assim como quem não quer a coisa, consulte as suas recordações e tente referenciar algum indício de que ela compreenda verdadeiramente o seu pai.

Pelo que tenho observado, os dados que as mulheres possuem sobre a composição do imaginário e âmago do pensamento masculino, são na maioria inexactos; raiando às vezes os limites da mitologia. Embora na maior parte dos casos se trate apenas de desinformação e propaganda.

De qualquer modo, nunca eu iria encarnar o papel de traidor ao meu género e colocar a nu os segredos da masculinidade. Principalmente porque isso poderia ser aproveitado pelos últimos grupos de feministas radicais (que se escondem em caves e só saem nas noites de Benfica/Sporting, em que podem realizar à vontade os seus rituais satânicos), para causarem tanto dano como conseguiram com as “teorias do relacionamento” que espalharam no final dos anos 70 e princípio de 80 do século passado.

Assim, em vez de começar aqui a despachar receitas como se fosse um desses estranhos seres que na televisão fingem ensinar as mulheres a cozinhar (quando na verdade o seu objectivo é ganharem fama de homens “mais razoáveis”), e impingir a minha opinião sobre o que agrada ou não aos homens; cobrir-me-ei antes com o capote da modéstia, para enunciar algumas coisas que as mulheres (erradamente) acreditam saber sobre os homens.

A Coisa em Si (salvo seja) – Vivace

Ele não me respeitará se tivermos sexo no primeiro encontro. Tratar-me-á como a um objecto descartável e nunca mais olhará para mim; a não ser que o faça ver que não sou das que “cedem” facilmente – A verdade é que isso não interessa. Uma vez que o sexo é algo que se processa (quando é um impulso autêntico e espontâneo) a um nível básico que pouco tem a ver com a interacção social ou o conceito judaico-cristão de “respeito”. E quanto ao “ceder”?... Não estamos no cerco de Siracusa!

Lembre-se porém, qualquer que seja a sua decisão, que esta deve ser tomada com base naquilo que quer e/ou acredita, e não no que outros possam pensar. Nomeadamente amigas invejosas, parentes afastados que esperam que você morra de aborrecimento enquanto espera “pelo tal”, ou aqueles senhores que usam saias e passam o tempo todo a falar de Deus, do céu e dos meninos do coro dos Pequenos Cantores de Viena.

Os homens adoram o processo de conquista sem o qual pouco valor dão ao que obtêm. Dá-lhes prazer o acto de arranjar coragem para se aproximarem de uma estranha e arriscarem-se a ser humilhantemente rejeitados – Náaaa! Minhas amigas, deixem de projectar os vossos anseios. São as mulheres que adoram a conquista.

Principalmente porque são o único tipo de “caça” que lucra em ser apanhada e pela qual todos os dias se digladiam candidatos. Candidatos que muitas das vezes não caçam porque gostem, mas porque lhes ensinaram ser esse o único modo de obterem o que querem ou precisam (a muito conhecida “álgebra da necessidade”).

O curioso de tudo isto, é que o caçador considerado mais capaz e perto da perfeição, após alcançar e “conquistar” a sua presa é convertido em troféu e exibido às restantes até que perca a sua “panache” (não confundir com panaché) e seja substituído por outro; ou por algum animal doméstico de pequeno porte.

Homem nenhum consegue ser amigo de uma mulher sem tentar levá-la para a cama (ou para a mesinha de café, ou o sofá da sala, ou o parapeito do Miradouro de Almada, etc.) - Este é um tema que ainda é objecto de aceso debate no meio masculino. Mas o consenso é, que a premissa de que não se consegue manter uma relação entre um homem e uma mulher sem tensão sexual, é absoluta treta.

Não vou fingir que numa amizade homem/mulher, um deles ou ambos não pode ou não achará o outro atraente. Mas isso não terá que inexoravelmente acabar em fricção de mucosas e troca de fluidos. Sem dúvida que tenho amigas com as quais não me importaria nada de tentar novas experiências exploratórias.

Mas por outro lado também tenho daquelas (Não tenho assim tantas amigas. Apenas as suficientes para poder exemplificar o meu ponto de vista) com as quais nunca sonharia encetar qualquer tipo de intimidade física. Não porque sejam feias (não existem mulheres “feias” minhas senhoras), mas apenas porque por inúmeras causas prováveis não se processa a necessária reacção química entre os dois elementos.

É tão simples quanto isso.

Os homens preferem que se deixe algo a cargo da imaginação – Quem foi o/a idiota que inventou isto? Claro que quase todos os homens respondem ao estímulo de uma saia curta, uns jeans apertadinhos, uma fantasia de “french maid” ou mesmo uma prosaica toalha de banho por cima da pele molhada. Mesmo o acto de vocês se maquilharem cuidadosamente ou vestirem uma “lingerie” arrojada apenas para uma ida ao cinema, é assaz excitante.

Isso, qualquer mulher sabe.

Agora o que gostamos mesmo? Despir-vos tudo isso do modo mais sôfrego e por vezes desajeitado (dou graças a Blog, pela abolição dos colchetes que eram a minha “Némesis”).

É claro que qualquer homem gosta de imaginar uma mulher despida. Mas ele gostará muito mais (mesmo muito, e mesmo mais) de a ver despida, utilizando o sentido do tacto para confirmar se é verdade o que os seus olhos vêem. Que isto nunca se sabe, pois as aparências ás vezes enganam.

Os homens sentem-se intimidados por mulheres independentes e enérgicas – Na verdade isso acontece a muitos. Mas também existem muitos outros para os quais tal coisa é totalmente indiferente (excepto talvez se uma delas me pegar ao colo e conseguir atirar para cima da cama a três metros de distância). Porque na realidade, isso de ter que ser o homem a prover todas as necessidades não passa de uma convenção social, ditada por circunstâncias que se perdem nas névoas malcheirosas da pré-história.

Tudo neste capítulo se resume ao quanto cada um se importa com o que os outros pensam, e à particularidade de cada situação, que depende apenas da soma dos seus dois componentes mais importantes (got it?).

Por isso, minha amiga. Se quiser convidar para jantar o objecto da sua afeição e pagar integralmente a conta, assim como a do quarto de hotel sem parecer que o está a querer comprar. Diga-lhe apenas que essa é a sua noite de “predadora”. E já agora, seja pro-activa também no resto. Porque qualquer um de nós pode calcular que, se a seguir a isso se deitar na cama e tentar imitar uma estrela-do-mar morta na vazante, o efeito geral poderá ficar um pouco estragado. E nós não queremos isso, pois não?

Os homens têm tendência para adormecer depois do sexo, porque são uns brutos insensíveis e egoístas. Incapazes até, de olhar para uma mulher sem a verem como um mero objecto de prazer – Oh minhas amigas… insensíveis? Isso é porque nunca viram um homem com lágrimas nos olhos após dar uma formidável martelada num dedo, enquanto tentava pendurar-vos na parede um quadro representando gatinhos num cesto.

Mas quanto à sonolência. Isso tem uma explicação científica, que como quase tudo o que diz respeito a homens e mulheres (Sim, meninas. Vocês também), remonta à alvorada da humanidade. Aquela altura em que os tigres tinham dentes de sabre, o fogo era a novidade da moda e ainda não se tinha inventado o termo “depilação brasileira”.

Como sabem, na pré-história a moca era o instrumento multi-usos do homem, que tanto lhe podia servir para caçar, como para “telefonar” num tronco oco, ou para encontrar a “alma gémea” que o acompanharia pelo resto da sua (curtíssima) vida.

Ora a metodologia adoptada neste primitivo jogo de sedução, era algo que dava imensas dores de cabeça às mulheres. E se estão a pensar que me refiro a um ocasional “galo” provocado por um macho mais desajeitado com a sua moca, estão enganadas minhas senhoras.

Já nesses tempos recuados, o acasalamento era algo quase tão ritualizado quanto o teatro “Kabuki” (que infelizmente ainda não tinha sido inventado); e a moca apenas aflorava a cabeça da “eleita”, numa representação algo estilizada do difícil acto que era caçar algo desejável e graciosamente esquivo (estou a sair-me bem, não estou?).

Ora a chatice, é que isso estragava imenso aqueles penteados à “B-52’s” que se usavam na altura. Mas com isto já me desviei do assunto, que era o da sonolência do macho após o coito.

Apesar de tudo o que se possa dizer a favor das boas intenções dos meus antepassados da pré-história, estes ainda eram uns tipos muito pouco civilizados e com pouca empatia pelas necessidades físico/emocionais das suas parceiras. Coisa que muitas vezes resultava em rejeição, ciúme e violência doméstica. O que convenhamos é uma situação difícil resolver para qualquer agente da autoridade, especialmente se o agressor for uma bisarma com cento e vinte quilos envergando peles mal cheirosas, e empunhando uma moca do tamanho de uma “lambretta”.

Mas a natureza nunca se engana. Ou pelo menos, quando isso acontece é sempre por (relativamente) pouco tempo.

Para evitar cenas desagradáveis e redução do número das fêmeas (que a procura era muita) da espécie, o mecanismo evolucionário do homem foi dotado de um novo processo. Que consiste na produção (logo após o sexo) de serotonina, noradrenalina, óxido nítrico e prolactina, prontamente libertadas no corpanzil do quase sempre apatetado macho.

A prolactina é uma hormona que produz a sensação de relaxamento, necessária para a preparação de (esperançosamente) uma nova erecção. Quanto maior for a quantidade de prolactina libertada durante o orgasmo masculino, mais tempo será necessário para recuperar do mesmo. É também pelo facto de os níveis de prolactina aumentarem durante o sono, que este é induzido pelo organismo após o clímax (uma espécie de ciclo vicioso).

E também, minhas queridas amigas. Para (principalmente) permitir à desiludida mocinha pôr-se a andar a toda a velocidade, evitando assim ficar novamente ao alcance daquela particular moca tão mal manejada (há casos, eu sei).

Por isso, minha senhora. Quando o seu querido após toda aquela “ópera italiana”, foguetório e tremores de terra, começar a respirar compassadamente enquanto um sorriso beatífico lhe invade a face como espuma do mar numa manhã de Verão. Tem duas opções à escolha.

Se não valeram a pena toda a preparação e logística investidas para aquele momento, pegue nas chaves do carro ou chame um táxi. Aproveitando previamente para eliminar quaisquer pistas que o possam conduzir novamente a si.

Mas se valeu a pena, também não precisa de fazer muito. Ovos mexidos e sumo de laranja devem bastar.

Agradecimentos e Genérico - Prestissimo

No que concerne a bibliografia, apenas foi consultado o “Manual de Utilização de Solimão I - O Magnífico”, escrito pela sua esposa favorita Roxelana (cujo nome de solteira era Aleksandra Lisowska), para uso das restantes residentes do serralho.

Cumpre-me porém agradecer a todos os canalizadores, ajudantes de pedreiro, operadores de retro-escavadora, rebitadores e marteleiros entrevistados para a elaboração desta modesta monografia.

Um especial beijinho a todas as leitoras que após lerem isto, não se sintam inclinadas a espetar agulhas benzidas em fotos impressas a partir do meu avatar. E também (tal como já fez o Júlio Iglésias) mas de um modo mais profundo, para as que desde a minha juventude me “ajudaram” no estudo desta disciplina.


Música de Fundo


20th Century BoyT-Rex


Sexta-feira, 4 de Maio de 2012


Outdoors de Honestidade Política II
(Série de Ficção - ou não...)




Terça-feira, 1 de Maio de 2012





TheOldMan no Misterioso Deserto da Margem Sul
- Um post talvez não tão futurista quanto se possa imaginar… -

Segundo alguns ministros do PS e a maioria do PSD, a “Margem Sul” é algo equiparado a um deserto.

Para aqueles que não tiveram a felicidade de ler o conto (Roadside Picnic) dos irmãos Strugatsky ou a paciência para ver o filme (Stalker) de Tarkovsky, tenho apenas a dizer o seguinte - Exceptuando o perímetro abrangente aos blocos habitacionais, toda a restante área desta desértica “zona” se encontra afectada por uma “intermitência multi-dimensional”.

É normal percorrermos um caminho que termine abruptamente na franja de uma falésia, ou passar durante anos pelo mesmo troço de cem metros de estrada, que por falta de votos no candidato certo nunca verá alcatrão; transformando o percurso numa espécie de introdução ao voo planado.

É assim a “Zona”. Por um lado a normalidade invade-nos os sentidos, enquanto a nossa visão periférica se surpreende com marginais imagens de coisas que a imaginação se recusa a reconhecer. Na maioria dos casos é apenas sujidade e laxismo, eu sei. Mas na fronteira do que todos vêm, existe uma área neutra que apenas alguns se aventuram a percorrer.

A Zona é razoavelmente policiada. De qualquer modo não há muito sentido em investir demasiado em vigilância quando se fala de uma península. Um local onde a população se encontra confinada e sujeita aos caprichos do poder político, das grandes empresas, ou de reduções drásticas nos transportes colectivos.

Foi mais uma manhã de BTT como as outras.

Quando regressava a casa passando pelo Pragal notei um vozear pouco usual. Mas tratava-se apenas do início dos Novos Jogos da Fome, cuja Primeira Eliminatória se desenrolava no Pingo Doce existente no interior da Estação.

As competições a contar para a Taça, tinham-se iniciado à hora de abertura em todas as dependências existentes no concelho. Dizem que é assim que se inicia o domínio da sociedade pelas corporações de serviços e produtos essenciais. Uma espécie de neo-corporativismo cyberpunk, em que as pessoas se combatem mutuamente para mais tarde apreciarem o seu próprio desempenho no Youtube; através de imagens colhidas pelas câmaras de segurança existentes nos supermercados.

 Mas o domínio iniciou-se muito antes disto. Num tempo que agora não interessa pois já ninguém sabe bem em que ano foi ou quem desencadeou os acontecimentos.

A chuva que começava a cair fortemente ensopava-me o “hoodie”, e escorria pelos meus óculos escuros prejudicando-me a visão. Pedalei com mais força tentando chegar a casa antes de ficar totalmente encharcado; mas ainda fiz mais uma paragem.

Na área limítrofe da Zona. Um veículo apanhado numa distorção do espaço-tempo, aparecera subitamente no meio do viaduto do Comboio da Selva. Dois polícias de ar aborrecido (que achei não apreciarem se os fotografasse) montavam guarda contra eventuais saqueadores.

É assim a Zona. Pelo menos esta que chega quase à minha porta.

Há quem diga que o perímetro continua a expandir-se, e que um dia engolfará todas as outras áreas em redor. Em verdade, o que eu acho é que se trata apenas de uma bolsa, onde os fenómenos são mais notórios devido a uma elevada concentração de algo que ninguém quer identificar. Pois lá bem no fundo nós sabemos que todos vivemos nela. Na Zona.

Entalados entre a Espanha e o mar.

Música de Fundo
Gymnopedie No. 1. - Erik Satie


Segunda-feira, 30 de Abril de 2012



Outdoors de Honestidade Política I
(Série de Ficção)



Quarta-feira, 18 de Abril de 2012


A ratoeira não persegue o rato, mas este raramente lhe escapa.

Foto: Net
Acabamento: Me



A Última (ou não…) Conversão do “Flakhelfer” Joseph Alois
- Ou das muitas coisas que são mais fáceis de apanhar que um deficiente motor (vulgo coxo) … -

As águas de um azul-turquesa que embatiam mansamente na muralha, acompanhavam ritmicamente a constante brisa que transportando o aroma das “chichachirritas” a fritar, o misturava com o cheiro acre a fumo de tabaco, que pairava sobre a mesa qual nuvem premonitória.

 O ancião pigarreou obviamente para ganhar tempo. Iniciando a sua narrativa numa voz que apesar de sumida e arrastada, ecoava na pequena praça estranhamente deserta.

- Vou confessar-lhe uma coisa… – rouquejou um pouco arfante – já o teria convidado mais cedo para aparecer por cá, se a Nikita não me tivesse dito tanto mal do vosso clube. Mas agora que nos conhecemos, posso confiar-lhe que tudo isto não passou de uma estúpida embirração.

Lembro-me bem que a bronca rebentou exactamente a 1 de Janeiro, no ano em que o Paul Anka lançou “Lonely Boy” – Era uma piroseira mas fazia um enorme êxito nos bailes e as gajas adoravam… – Bem. Adiante!

Sempre fui um patriota. E apesar de o Fulgencio (o nosso patrão) não ser tipo de quem se troçasse impunemente; o certo é que comecei a achar que ele dava demasiada confiança aos turistas que paravam aqui na tasca; e que o negócio não dava o lucro que podia dar.

A chatice toda é que eu ganhava à comissão e isso estava a afectar-me. Pois andava sempre sem cheta e a Mirita já tinha ameaçado pôr-me as malas no patamar e um molho de lenha à cabeça. Lá as malas ainda vá, que a tipa tinha mau dormir e sofria de flatulências nocturnas; agora a lenha é que não podia ser. Pois eu tinha uma reputação a manter e quando se soubesse havia de ser o alvo de chacota de toda a clientela.

Foi por essa altura que tive a melhor ideia da minha carreira de empregado de mesa. Chamei de parte o Ernesto que era o nosso lavador de pratos e propus-lhe sociedade se me ajudasse a correr com o idiota do Fulgencio. Se na altura eu soubesse no que isto ia dar, nunca me teria metido em tal sarilho.

Mas a impaciência começava a consumir-me, pois além da perspectiva de poder vir a ostentar uma armação digna de um tricerátopo, custava-me ver os turistas todos os dias a encharcar em tabasco os “moros & cristianos” feitos com tanto amor, e (ainda tremo só de me lembrar) a contaminar com Coca-Cola o maravilhoso rum de sete anos.

A coisa ao princípio nem correu muito mal. Pois o plano que era assustar o patrão de modo a que este vendesse a tasca por tuta-e-meia, e arrancasse para a parvalheira onde tinha nascido, até se desenrolou a contento.

Eu e o Ernesto que tínhamos comprado dois conjuntos de barbas postiças e boina de pára-quedista, acendemos uns charutos para compor o disfarce e entrámos pela tasca de catana em punho a gritar que tinha havido um golpe de estado e que todos os burgueses que ganhassem mais que o ordenado mínimo iriam ser executados.

O tipo apanhou um cagaço tão grande que desapareceu de circulação. Deixando a um primo ordens para vender o negócio o mais depressa possível. Soubemos mais tarde que afinal ele é que se safou bem; pois enquanto estávamos por aqui a tentar fazer pela vida, o gajo com o dinheiro da venda foi esconder-se na Ilha da Madeira onde deu um curso intensivo (dizem que o Alberto João foi quem teve melhores notas) sobre fuga ao fisco e intriga política. Acabando por ir passar uma temporada ao Estoril, antes de se fixar definitivamente em Espanha.

Foram os nossos melhores anos. Corremos com os labregos dos turistas americanos e passámos a servir uma selecta clientela, que tendo gostos mais refinados, muito melhor conseguiriam apreciar os nossos petiscos.

Infelizmente acabámos por nos meter em sarilhos com o gajo do bar americano, que não tendo espaço para armazenar o vasilhame, queria que lhe guardássemos as grades das cervejas no nosso armazém.

Só que nós tínhamos um arranjinho com a Nikita do bar de alterne aqui ao lado, que consistia em deixar as raparigas dela utilizarem o armazém quando recebiam visitas (eram muito populares). E o tipo quando soube (ele e a Nikita não se gramavam nem um bocadinho) foi o cabo dos trabalhos; pois queria mandar-me dois Porto-riquenhos para me partirem as rótulas com um cabo de picareta. E só me safei, mas mesmo à recta, quando lhe garanti que não tinha nada com a fulana do alterne e lhe mostrei o armazém cheio de caixas de rum e grades de hortaliça.

A partir daí foi sempre a descer.

A Nikita nunca mais veio às boas (Sim, que a Mirita tinha-se pirado com o nosso “Fidelito” e nunca mais os vi) embora ainda me falasse. E quanto ao John F. do Bar Americano… Uma bela noite apanhou o pobre Ernesto (já com os copos, coitado) a fazer uma mijinha contra a Muralha Velha, e espetou-lhe à traição um monte de balázios no “toutiço”, sem que o pudessem incriminar por falta de testemunhas.

Nunca mais esta tasca foi a mesma sem o pobre Ernesto. Olhe, fizemos-lhe uma pintura de homenagem naquela parede. Está mesmo catita, com a boina as três pancadas e charuto na boca…

- Ó senhor Castro – disse o segundo ancião que já estava pelos cabelos por causa dos perdigotos que o outro lhe enviava à mistura com o monólogo – A sua sorte é que o inferno foi uma invenção das gerências anteriores para manter o pessoal na linha. Senão era lá que iria passar a eternidade a chamuscar esse traseiro hipócrita e escanzelado.

Música de Fundo

“Sixteen Saltines” – Jack White



Quarta-feira, 28 de Março de 2012

Paul Gauguin - Te Vaa (La Piroga)


O “Efeito Piroga”
- Ou sobre a extensão/representação do pénis nas culturas que se acredita carecerem de sofisticação cultural, tecnológica ou económica (eu queria escrever “Culturas Primitivas”, mas parece que o termo foi banido como politicamente incorrecto) -

Talvez um pouco influenciado pela visão colonialista de Jorge Brum do Canto, durante  a minha tenra infância eu imaginava que o Gungunhana teria um Baobá como piroga.

Apoiada pela propaganda do regime e pelas alarvidades que a Dona Alice (uma professora primária/primata, que ajudou a formar o meu mau feitio) nos injectava em doses maciças, esta ideia firmou as suas raízes em mim como se de um verdadeiro embondeiro se tratasse.

Estava escrito! O “régulo sanguinário” derrotado na aldeia nguni de Chaimite, além de não gostar de se sentar no chão (o que só abona a seu favor) era um gordo enorme no meio de súbditos magros e esfaimados. Não interessando de modo algum à nossa cinematografia a exactidão do facto, mas apenas o belo contraste que fazia no “preto & branco” da tela do cinema.

O que quer dizer que (segundo a minha juvenil e fértil imaginação) Gungunhana teria que ser possuidor de uma enorme piroga que transportasse o seu corpanzil pelo Incomáti, em cujas margens os colonos aterrorizados hesitavam já perante o simples e recreativo acto de açoitar um qualquer preguiçoso mainato.

É assim o imaginário das crianças. Uma ou duas aldrabices bem contadas, e lá vão elas na direcção errada, talvez pelo rio errado e dentro de uma piroga feita de embondeiro.

Deve ser mais ou menos por esta altura que alguns de vós se interrogarão sobre o que será o “Efeito Piroga”, ou se mais uma vez e à semelhança do Correio da Manhã, utilizei um título falacioso como chamariz para vos convencer a ler um texto sem qualquer interesse.

Na verdade nem sei. Pois como é hábito estou para aqui distraído e a desviar-me do assunto, como se fosse o saudoso Professor Vitorino Nemésio (gostaria, mas nem sequer lhe chego aos calcanhares).

Tudo isto começou num belo dia de Dezembro em 2010. Quando impulsionado pela nebulosa recordação de um programa do Jô Soares, em que Paulo Silvino apresentou uma divertida cançoneta/lenda índia - a “Lenda (“da treta”, claro) da Piroga de Cristal” - decidi escrever um post sobre o assunto.

Procurei pela Net uma imagem que se relacionasse com o tema em questão. E o melhor que encontrei na altura (estava com um pouco de pressa), foi uma foto (aliás, havia várias) da "Piroga do Cabral". Um bar que, acho, fica na ilha do Sol em Cabrália, na Bahia.

Foto esta (que mal se procura por “piroga do Cabral” no Google, é logo a primeira a aparecer) em que uma sorridente mulata se encontrava esparramada sobre a tão gabada piroga; que apesar de não ter pertencido ao famoso descobridor, não deixaria de fazer orgulhoso o seu proprietário. Uma vez que é incrível a quantidade de “mulherame“ que faz gala em sentar na já supracitada extensão freudiana atribuída ao meu conterrâneo.

E estamos conversados quanto à foto. Quanto ao post, a coisa não ficou por aí.

Apesar de o único comentário ser de um parvo qualquer (que além da falta de sentido de humor, acha que ninguém em Portugal conhece a “Ópera do Malandro” de Chico Buarque), o post foi na realidade um sucesso em terras de Vera Cruz.

Bem… Se calhar foi mesmo só a foto.

Comecei a reparar que a maioria dos leitores chegados a este blog e vindos do Google.com.br, tinham efectuado buscas por “piroga”, “o que é piroga”, “piroga do Cabral” e “piroca do Cabra”. Embora este último caso se possa dever a dislexia ou a alguém com fetiche por maus rapazes.

Entristeceu-me um pouco esta evidência, de que em terra de índio houvesse tanta gente que parece ignorar o que é piroga, enquanto tanta mulher vai sentando nela e tirando foto para colocar na Net. Dá um pouco que pensar, não dá?

De qualquer modo já estou a ficar com falta de tempo. Por isso e embora não tenha explicado em pormenor (nem de qualquer outro modo) o dito “efeito”, quem aqui aparecer pelo Google sempre poderá ler o post.

Ou como diria o Chico (mas o Anysio, claro) se lesse isto:
 - "Se contente com a jangada, que a piroga está ocupada".


Música de Fundo
"História dos Pescadores"

 


Dorival Caymmi apresentado por Vinícius e acompanhado pelo Quarteto em Cy (com filmagem dos pescadores efectuada por Orson Welles)









Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Cartoon Expresso (Facebook) - "Os parasitas do Dzzzzzzemprego no olhar sempre mordaz do nosso cartoonista Rodrigo"

Cartoon: Rodrigo de Matos
                (Tirado Daqui)



O Vinho Salazar e a Garrafeira Balsemão
Não sei se isto é ou não um dito popular, mas “uns bebem do que podem enquanto outros, do que gostam”. E pelos vistos a primeira colheita do tão anunciado vinho marca “Salazar”, tem já clientela garantida.

Talvez o melhor cliente venha a ser o grupo Impresa, em cujas catacumbas (leia-se “server”) se escondem os últimos zombies do imaginário de Santa Comba. A lembrar que aquilo a que se chamava antigamente “Ala Liberal”, seria apenas um pouco menos fascizóide que o regime de que se alimentava.

Sem dúvida que até o NSDAP terá tido uma “Ala Liberal” que seria contra o gazeamento dos Judeus, alegando que o gasto em Zyklon “B” iria aumentar o Orçamento de Estado.

Assim é a “Ala Liberal” da direita portuguesa. Sempre pronta a colaborar em cházinhos e campanhas, desde que os pobrezinhos mantenham a cabeça convenientemente baixa. E a “putas das criancinhas analfabetas”, não chorem muito alto nem pinguem ranho no colo das “Gertrudes” do século XXI.

Resta-me esclarecer que todo este vitríolo (apesar de ser pura realidade) foi destilado a partir de um cartoon que o Expresso colocou na sua página do Facebook.

As redes sociais são o laboratório ideal para testar tendências, modas e auscultar a opinião pública sem (pensam eles) a responsabilidade que é colocar em letra de imprensa algo que possa voltar atrás e “morder no traseiro” o seu imprudente autor.

Neste caso um cartunista com nome de fadista (Rodrigo de Matos) e que fez tarimba no Correio da Manhã. Pasquim onde aparentemente prestou provas até ser autorizado a “vender a mão direita” a Pinto Balsemão.

Uma vez que não sou rancoroso e nunca estive desempregado muito tempo, só lhe posso desejar uma boa estadia e que nunca tenha que recorrer ao “pote de mel”. Já que isso seria integrar a famigerada “irmandade de parasitas” que tanto parece desprezar.

Só me espanta que alguém que se diz influenciado por Robert Crumb, Sérgio Aragonés e Quino, tenha alegadamente bebido da técnica plástica (embora nada dele eu tenha visto que se aproxime de Crumb em qualquer aspecto a menos de dez quilómetros) esquecendo coisas bem mais importantes que a mera forma.

Acho que temos aqui mais um “Manelito”; ou se calhar um Philipp Rupprecht…

Música de Fundo
Tempo Volta para TrásEduardo José Dantas (Dedicado ao Artista e seus Patronos)


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