Foto: Net
O Saguão
- No dia da criança, nada mais natural do que relembrar o tempo em que se era outro… -
O saguão escavava-se no prédio, como se lhe tivessem roubado um pedaço e recoberto com uma multicolorida clarabóia de vidro poeirento.
Raramente se abriam as janelas que o rodeavam e apenas no Inverno se estendia lá roupa, pois o local era húmido e escuro como o poço de uma mina. Uma espécie de limbo, onde ás vezes me debruçava perscrutando as trevas lá no fundo.
Ainda hoje me espanta como nunca me espetei do 6º andar, em cima dos anárquicos montes de tralha ali empilhada e pertencente ao armazém de louças que ficava no rés-do-chão.
Teria talvez uns seis anos. Quando apanhava a minha avó distraída, abria a janela e apoiando as coxas no parapeito e o peito nos fios metálicos do estendal, ficava ali de braços abertos numa perigosa e estranha imponderabilidade; sentindo o vento sibilar à minha volta.
Por mais que me concentrasse, nunca conseguia relacionar as janelas fechadas com as pessoas que sabia lá morarem. Para mim essas janelas encerravam outras coisas; passagens para outros locais. Mas nunca os mesmos.
Um dia, a portada interior em madeira do 4º Andar estava aberta. E vi através dos vidros a minha amiga com quem costumava brincar ás famílias e aos médicos.
As suas tranças negras tinham sido empurradas contra o vidro da janela, enquanto o pai a esbofeteava repetidamente com uma expressão misto de raiva e satisfação.
Com a surpresa ar abandonou os meus pulmões, para reentrar com força redobrada; fazendo-me balançar como um avião desgovernado. Segurando-me aos ferros do estendal, ali me deixei ficar deitado nos arames, enquanto grossas lágrimas me deslizavam pela cara.
Nunca tive coragem de lhe contar o que tinha visto.
Sinto que algumas dessas lágrimas ainda hoje não chegaram a atingir o fundo; estando algures a meio do caminho, perdidas nas trevas do saguão.
Música de Fundo
When You Were Young - The Killers (link)


14 comentários:
Senti algo parecido, quando era criança e iamos a casa da minha avó em Lisboa. Quando espreitávamos pela marquise que dava para as traseiras daquele e de vários prédios, ou sobretudo por uma das janelas que dava para uma rua estreita, via passagens para outros locais que muitas vezes não eram os mesmos (ao lembrar-me disso agora, voltou a sensação também de sentir algo ameaçador, naquela rua estreita e escura).
Aquela casa (não é por ter lá nascido) sempre me fascinou, Gabi.
Não só tem esse enorme poço escuro que ocupava o centro do edifício, como ainda um telhado delimitado por um corrimão de calcário para onde eu às vezes me esgueirava.
E a vista para o rio é dificil de descrever em poucas palavras.
;-)
ahhh...
memórias de saguão...
vincadas memórias são.
;)
Ah... Francisco. Por momentos fizeste-me relembrar o venerável Yoda.
May the schwartz be with you!...
;-)
Há tanto tempo que não te lia. Os teus textos continuam fabulosos. Quando eu tinha 14 anos, trabalhei em Lisboa num armazém de revenda que tinha um saguão. Já nem me lembrava disso e este texto trouxe-me outras memórias. Algumas com raiva também mas felizmente sem a mesma violência que retrataste, mas outras (bem menores). Abraço meu caro Tom.
Eu recordo-me de quando era puto e subia as escadas do prédio onde morava pelo lado do vão, agarrado às grades. Até ao dia em que a minha mãe descobriu. Não fui encostado a nenhuma janela, mas até merecia...
Abraço!
Era um tempo em que os pais ainda davam aos filhos hipótese de se "meterem em sarilhos", Rafeiro.
Se fosse agora nem à rua te deixavam ir sozinho.
Abraço
;-)
Realmente há imenso tempo que não "falávamos", Constantino.
E olha... A avaliar pela descrição, aquele tipo que encontraste na ponte de Brooklyn até podia ser eu (sim, também uso o velho "trrim-trrim").
Abraço
;-)
É bem verdade que os textos continuam com a mesma frescura de antigamente...já aqui não vinha há uma catrefada de tempo !!!! Paz e saúde hoje e sempre.
Obrigado, Anónimo.
Um abraço.
;-)
Ultimamente tenho compensado o pouco tempo que disponho para a leitura de livros - tenho, há meses, três na minha mesinha de cabeceira e ainda só vou a meio do primeiro- com a leitura de bons textos na blogosfera.
Casualmente vim dar ao seu blog e adorei os seus textos que são fabulosos.
Este sensibilizou-me especialmente, pelo humanismo como descreve o que sentiu.
A última frase é comovente.
Já o tenho nos meus favoritos, se me permitir cá voltarei para o ler e comentar.
Cumprimentos.
Janita
Obrigado, Janita.
O blog tem estado um pouco parado devido a férias e à recente perda de alguém próximo, mas não vai tardar a apanhar o ritmo.
Passe sempre que quiser.
;-)
Caramba TOM, eh sempre um prazer aqui vir ler-te. Parabens a um dos poucos resistentes da escrita bloguistica que ainda sobrevive para alem do post(it) comentarista e da digitalizaçao dos egos.
Um abraço
Olá, Zé.
Tento sempre ser um pouco mais original do que copiar o que vejo na TV (mas nem sempre tenho paciência) ou leio nos jornais.
Depois a publicação ressente-se, é claro.
Abraço
;-)
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