A Trovoada
Perto do velho depósito de água a chuva recomeçou a cair, ricocheteando violentamente no solo.
Dois raios cruzaram o negrume como um sorriso fugaz, iluminando o verde do arbusto. O homem saiu do prédio, puxando a gola do casaco para cima e deixando a cabeça á chuva, como uma bola de cristal anunciando infortúnio.
Em direcção à esquina, as botas ao caminhar produziam o ruído de um beijo húmido que se repetia a cada metro de alcatrão.
Toda a cidade estava ás escuras. Os telhados eram como barragens descarregando caudais excessivos, enquanto na direcção do mar, as trevas e a luz se defrontavam na sua eterna luta.
Debaixo de uma varanda, aproveitou para acender uma cigarrilha enquanto esperava, Não devia faltar muito... As instruções tinham sido claras. A hora, o local, tudo...
Pouco mais tarde um único farol riscou a noite, aproximando-se ruidosamente como um catarro persistente, espalhando água em todas as direcções.
O homem preparou-se, e lentamente levou a mão ao bolso interior, num movimento fluído e silencioso. O casaco negro de pele confundia-se com as sombras, destacando-se apenas do conjunto um par de olhos que brilhavam atentos.
A moto deteve-se com um soluço, e imediatamente o ocupante saltou para o passeio encharcado, confundindo-se com o edifício.
Após se certificar da identidade do recém-chegado, o homem aproximou-se silenciosamente deste, que aproveitando o abrigo tirara o capacete olhando em volta apreensivo.
Sobressaltado pela súbita aparição, o rapaz sentiu a desconfortável sensação da água a escorrer-lhe para dentro do colarinho, e entregando-lhe o embrulho proferiu – Porra!! Que raio de noite para encomendar uma pizza.
Musica de Fundo – “Rock Lobster” B52’s
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