Foto: Net
Memórias da Clandestinidade (3)
- Nome de código "Elton John" -
(numa série de posts alusivos ao 25 de Abril)
Tenho tendência a confundir um pouco as datas. Mas após conferir uns escritos antigos posso afirmar que foi realmente em Janeiro de 73.
Trabalhava já há um ano como paquete (contínuo "júnior") numa das empresas do Grupo Tenreiro, quando me acenaram com a justiça da causa e com a vida de aventura ao serviço do proletariado internacional. Era mais uma variante do famoso "alistem-se, alistem-se...", mas ao estilo James Bond.
Não que a minha parte fosse muito perigosa; consistia principalmente em aproveitar o circuito de recados e distribuição de correspondência, para fazer circular alguns papéis que não deveriam passar pelos Correios, ou papaguear algumas palavras que não devessem passar pelos fones dos TLP.
Eu também não fugia muito á norma. A minha farpela favorita era uma camisola de gola alta em "mousse", calça "boca de sino" em veludo canelado grosso e um maxi-casaco em napa castanha; tudo isso assente sobre a sólida base de uns "Eltonjohns", uns sapatões cuja sola tinha três centímetros e meio de espessura, e um salto com (sem exagero) uns oito.
Era um rapaz do meu tempo e a mulher que eu amava, chamava-se Suzi Quatro...
Nesse fresquinho dia de Janeiro, tinha passado toda a manhã a circular por Lisboa distribuindo um monte de correspondência. O único "contrabando" que trazia, era o rascunho de uma convocatória; isto sem contar com a "História Universal da Pulhice Humana - Os Egípcios" do José Vilhena, que era o que eu lia na época e me arrancava sonoras gargalhadas no Cacilheiro. Fazendo com que algumas pessoas me olhassem com a desconfiança devida a um lunático, mas eu não me importava. Era feliz assim.
Encontrava-me no tombadilho superior do "Rio Jamor" a apanhar o vento na melena cortada "á tigela", e vendo o cais de Cacilhas aproximar-se lentamente. Um tipo de óculos redondos e gabardina que não parava de me mirar, começava já a enervar-me. Pois pelo aspecto só podia ser bufo ou maricas, e nenhuma das hipóteses me animava por aí além.
Peguei na pasta de cabedal com a papelada e desci a escadaria para o tombadilho inferior. A embarcação oscilava um pouco mas nada de grave. Estávamos quase a atracar.
Era quase hora de almoço, e comecei a sentir uma certa urgência no meu jovem estômago. Assobiando "In the Summertime" de Mungo Jerry, dirigi-me á proa onde existia uma saída que costumava usar; bastava para isso soltar uma pequena corrente e saltar para o cais.
Infelizmente, fui traído!
Quer se seja um homem de acção ou empregado de mesa na "Primorosa", estaremos decerto habituados a confiar naquelas pequenas coisas que tomamos como certas. Seja a Walter PPK, o saca-rolhas do Brandy Constantino ou mesmo um "Eltonjohn".
E foi este último que me traiu.
Mal o casco do Cacilheiro embateu no pontão, aproveitei a embalagem e lancei-me á abordagem. Até aí nada de especial, pois tratava-se de um exercício habitual; e embora a proa devido ao seu formato ficasse sempre cerca de um metro desviada, não era uma nesgazita de água que preocuparia o antepassado dos meus bisnetos. Mas foi...
Ao assentar pujante os dois pés no metal do pontão, o aspirante a agente secreto tornou-se mergulhador por mérito próprio. E de um modo muito simples. O tacão esquerdo (não esquecer eram são 8cm) partiu-se com o embate, proporcionando à surpreendida assistência a visão de um mergulho encarpado de costas com pirueta lateral esquerda.
Felizmente que já nadava desde os seis anos.
Após uma curta estadia nas águas esverdeadas do Tejo a minha cabeça emergiu, apresentando na face um ríctus de nojo (já tinha visto boiar coisas bem estranhas ali...).
Visto que tinha derivado escassos metros, dirigi-me ao pontão a nado (nem poderia ser de outro modo) segurando a pasta bem alto na mão esquerda, enquanto com a direita tentava avançar em braçada única. Disseram-me mais tarde que o meu azar foi não ter sido observado por Manoel de Oliveira. Pois logo o mestre ali me teria contratado para alguma produção sobre Camões.
Quem sabe se hoje seria um segundo Joaquim de Almeida... ou pior ainda... Uff!
Mas adiante que a água era fria pois estávamos em Janeiro.
O último contratempo foi provocado por um velho marinheiro do rio. - Blog! Como detesto os velhos marinheiros do rio! Além de se enganarem sempre nas previsões meteorológicas e darem falsas indicações sobre as direcções a seguir, ainda se metem debaixo dos nossos pés em todas as alturas.
Estava eu a tentar içar-me para o pontão à força de pulso, quando aquela espécie de arenque fumado (Bismark) me aparece à frente, empunhando um grossíssimo cabo de amarração seguro com as duas mãos, com que aparentemente me ameaçava. - Agarra-te aqui! Agarra-te aqui, rapaz! - Do modo como ele o empunhava esta cena tinha um ar altamente suspeito. Não só isso como me atrapalhava imenso na subida.
Lá consegui livrar-me dele e de um monte de curiosos que aparecem sempre, se calhar para tentarem ficar na fotografia...
Fiz um breve inventário aos meus pertences e aos meus órgãos vitais, mas só faltava o salto do maldito "Eltonjohn". Peguei na pasta que tinha pousado perto dos pés, e desanimado encaminhei-me para a empresa coxeando ligeiramente, produzindo a cada passo um ruído que soava mais ou menos como "Chuic, chuic"...
Tratou-se apenas de um contratempo durante o último estertor do fascismo, não produzindo qualquer efeito na sublevação que conduziria ao processo revolucionário.
Por isso um dia em que passeis por Cacilhas, além de provar a famosa ginjinha do Malaquias (agora falecido), não deixeis de fazer uma pequena pausa junto à muralha perto da "Cervejaria Farol". Local onde tombou um jovem antifascista, vítima da moda e dos maneirismos burgueses.
Jovem esse que hoje um pouco mais velho, ainda não pode ouvir falar do cabrão do Elton John...
Música de Fundo
Devil Gate Drive - Suzi Quatro (link)


2 comentários:
:))) adorei a parte do mergulho encarpado de costas com pirueta lateral esquerda :) claro que só por saber nadar e no final acabar tudo bem :) excepto para o salto :)
beijinho
Gábi
Gabi. Não terá sido um mergulho assim tão elegante, mas a descrição teve que ser reformulada para benefício do estilo (encarpado).
Apenas posso garantir que durante o evento não proferi aflitivamente onomatopaicas em voz fininha.
;-)
Beijo
Enviar um comentário