Terça-feira, 18 de Maio de 2004

O Cerco
- Um pouco medieval, e tal… -

Estava hoje a tentar libertar uma vespa do ar condicionado (ou vice-versa), quando o telemóvel fez soar a melodia dos Carrilhões de Mafra; era o Apóstolo.

Ao princípio não consegui perceber grande coisa. Parecia-me ouvir como ruído de fundo o disparo de armas automáticas, mas vivo numa terra de gente pacífica e isso era altamente improvável.

- Estamos cercados, pá! – comunicou ele por entre o ruído da metralha – cavaram um fosso à nossa volta e cortaram-nos as comunicações. Nem TVCabo, Net ou telefone; atingiram-nos mesmo de surpresa. Não sei quanto tempo é que vou aguentar…

A sua voz soava-me como o brado desesperado dos sitiados “Del’Álamo”. Tentando manter a calma, pedi-lhe um relatório completo da situação, que se provou na realidade ser grave.

- Não sei quantos são… - comunicou ele – Estão fardados de azul, acamparam aqui há cerca de uma hora e começaram a escavar um fosso à nossa volta. Temos todas as comunicações cortadas; só o telemóvel é que funciona, e hoje esqueci-me de carregar a bateria.

Fechei de imediato o estaminé, para correr em socorro do meu castelo e da melhor ligação à Net que possuo. Infelizmente Blog não me abençoou, e como motorista calhou-me logo o Xico Zé que é especialista em atalhos, e nos conseguiu encravar na única fila de trânsito que existia àquela hora.

Entretanto o telemóvel emudecera. Comecei a deixar-me invadir pela inquietação; a integridade das cinco famílias que compõem a guarnição estava ameaçada. E nos tempos que correm é difícil arranjar boa vizinhança; quase tão difícil como encontrar uma boa empregada doméstica (perguntem à Vertigem, que ela diz-vos)…

Depois de obrigar o motorista a efectuar algumas manobras perigosas, que lhe poderiam custar a sua imerecida licença de condução; lá chegámos ao local do confronto, que na realidade parecia um verdadeiro campo de batalha.

Um blindado pintado de amarelo, bloqueava a entrada com um enorme monte de terra, enquanto o fosso circundava o prédio, deixando à vista as entranhas das nossas preciosas infra-estruturas, onde alguns cabos arrancados demonstravam já a selvajaria dos sitiantes.

A Dona Maria do Carmo lamentava na sua voz de cana rachada a quase perda do conteúdo da arca frigorífica, pois tinham também cortado a electricidade; apenas a água e o gás se aguentavam ainda, sabe-se lá durante quanto tempo.

Na verdade o ambiente ainda não era muito carregado, pois não vi ninguém a tentar lançar azeite a ferver sobre os invasores, apesar de eu achar que o mereciam em absoluto.

Ao ver-me apear de um veículo totalmente carregado com material de construção, o sitiante mais graduado aproximou-se para parlamentar ao abrigo do código de conduta do pessoal das obras. – Ouça lá! Diga-me aí a esses gajos que não vale a pena estar a fazer esse cagaçal, que daqui a pouco já ligamos a merda da luz. – Sem dúvida que se tratava de um diplomata, e eu teria que o respeitar como a um igual.

Utilizando o meu mais apurado sotaque de Alfama (a que recorro ainda ás vezes em casos de emergência), interpelei-o utilizando a mesma terminologia técnica, de modo a que entendesse o que eu tentava transmitir.

- Deixe lá os gajos trate-me mas é dessa merda depressa; ou está a tentar ganhar horas extra? Esses dois kosovares aí encostados ás pás já deviam estar a tapar a vala na entrada. É hora de chegar toda a gente do emprego, e eu quero vê-lo daqui a pouco a dizer ao Manuel polícia que não vai poder ir esta noite aos sites porno, ou pior, diga ás mulheres que hoje não há telenovela da TVI!

O tipo embatucou. Lá polícia era uma coisa, agora mulheres sem novela complicava tudo. Iria colidir com os valores da nossa raça, e quiçá render-lhe ainda um bombardeamento de ovos ou de restos do congelador.

Um pouco pálido mandou recuar a retro-escavadora, e empurrou o electricista para a vala com o fito de estabelecer a corrente eléctrica.

Por fim ainda tive que ir a casa buscar umas fichas BNC, porque o electricista contava com os tipos da TV Cabo e estes não apareceram. Mas mercê das minhas reservas de material informático, lá ficámos operacionais; e apenas por isso posso estar a escrever este relato de verdadeiro heroísmo.

De qualquer modo ficámos avisados. O progresso não espera, e para permitir que as obras do Metro de Superfície continuem no prazo previsto, amanhã a partir das nove deixa de haver água durante umas horas.

Não sei se esta guerra irá durar muito. Talvez tenha que deixar crescer a barba…

Música de Fundo
“Starship Trooper”YES

Sem comentários:

Creative Commons License
Todos os textos desta página estão protegidos por BLOG e por uma Licença Creative Commons.

theoldman.blogspot.com Webutation