Sábado, 10 de Julho de 2004

Sábado
- Diários de Esquecimento -

Foi quando me virei para o outro lado, que reparei na luz intermitente do despertador ali expressamente para me lembrar que teria que ir trabalhar.

Sentia os músculos doridos e o corpo pegajoso, como se em vez de descansar tivesse estado a pé toda a noite em constante actividade.

Abri a torneira do duche e aguardei que a água tépida levasse consigo toda aquela estranheza. Os despertares começavam a tornar-se cada vez mais estranhos, caóticos; com recordações nocturnas fragmentadas, de mistura com restos de pesadelos.

Pesadelos em que o meu corpo se tornava inadequado para conter tudo o que o preenche, expandindo-se para tomar outras formas, por entre um rugido interior como o rumor surdo de uma erupção vulcânica.

Saí sem comer. Estava demasiado atrasado, e tinha que pôr em dia camadas sedimentares de papel que tenho descurado nos últimos tempos. No táxi tive um curtíssimo flash, que quase me permitiu distinguir um cheiro conhecido ou uma sombra.

Semi-cerrei as pálpebras enquanto o carro arrancava. Associado ao cheiro assaltou-me o sabor; um gosto doce como chocolate derretido, mas mais líquido, esbocei um sorriso enquanto o saboreava.

E finalmente lembrei-me de toda a noite passada enquanto sentia os lábios humedecerem-se-me; olhei o retrovisor e reparei na mancha de sangue vermelho que alastrava na T-shirt branca, pingando gota-a-gota do local onde um canino me perfurava o lábio…

Música de Fundo
“Apocalypse Please”Muse

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