Clepsidra
- Marcos históricos no percurso do tempo –
Quem me conhece, sabe que nem sou um tipo muito culto; mas disfarço tão bem que talvez um dia venha a ser citado nos livros da especialidade (os que falam dos tipos que fingem ser cultos).
E é nesse contexto que vos venho falar de um tema clássico. Não só porque tudo o que é clássico beneficia a vossa cultura; mas também porque esta história identifica talvez, um ponto onde o tempo parou por momentos para dar início à Idade Moderna.
Estava-se na época AC. O que quer dizer que ainda Jesus Cristo não tinha nascido; e consequentemente não havia pares de testemunhas de Jeová a tocar à campainha, para nos estragar os domingos e feriados.
Roma dominava o mundo conhecido; e o seu poderio só seria comparável mais tarde com o dos Estados Unidos.
Tinham ambos em comum o facto de comerem o frango à mão e falar com a boca cheia. Tendo começado com a melhor das intenções, acabando por roubar toda a gente com a desculpa de andar a manter a paz (como vêem, nem sequer é uma desculpa muito original).
Mas adiante, que eu não vim para aqui perder tempo com americanos.
Clepsidra era uma prostituta. Não daquelas que andam por aí a abanar a mala ao pé do IST, mas uma verdadeira hetaira; uma profissional que pagava impostos, com sede própria e certificada pelo IRQ (Instituto Romano para a Qualidade) para servir os três pratos, bem como todas as entradas possíveis.
Á porta do seu estabelecimento eram exibidos todos os certificados, bem como as sacramentais placas do Rotary’s e do Lion’s Club (aceitamos Visa). O que demonstrava sobejamente o gabarito e qualidade do atendimento ali proporcionado.
Porém, havia algo que impedia o negócio de desabrochar e dar os merecidos frutos; Não existia ainda um modo de rentabilizar o tempo e normalizar o tipo de serviço. Esta limitação colocava o domínio da prestação do lado do cliente, que desde que fosse dos duros ou estivesse razoavelmente bebido, poderia estar por ali o tempo que quisesse desde que se fosse contendo.
Admitamos que por cinco sestércios (ou “un duro” como diziam os Hispânicos) valia bem a pena.
Certa vez por altura das calendas, tinham chegado do Egipto as tropas de Pompílio “o porco” (como afectuosamente lhe chamavam as legiões de admiradores) e o porto estava cheio de trirremes e galeras carregadas de despojos. Para Clepsidra e as suas “meninas” era um pouco como a época dos saldos, e não tinham mãos (e os consequentes complementos) a medir.
Segundo os oráculos, previa-se um acréscimo nas vendas de permanganato de potássio e de Tantum Verde.
Por volta da segunda noite o estabelecimento estava à cunha com legionários e amanuenses endinheirados, e Clepsidra estava de serviço ás toalhas e à gaveta do dinheiro devido a uma momentânea crise de herpes; quando uma das raparigas se veio queixar.
Caius Glaucus um dos decuriões estava sem cheta porque tinha perdido tudo aos dados, e tinha solicitado a abertura de uma linha de crédito. Ora como se sabe no negócio de bens perecíveis e serviços, dar fiado é muito mau negócio pois não há nada para recuperar em caso de incumprimento.
Clepsidra suspirou. Ia ser complicado, pois o eunuco que fazia a segurança estava com baixa e tinha ido a uma consulta de urologia; e como estava retirada do “circuito” cabia-lhe a ela o papel de mediadora neste tipo de situações.
Ao entrar no “cubiculum”, constatou que talvez não fosse assim tão difícil resolver o problema.
Caius Glaucus além de estar já um bocado entaramelado devido a algumas doses de vinho de Samos (feito de figos doces), carregava consigo um saco com despojos de guerra que tinham escapado à voracidade do jogo, e que ainda não tinha conseguido converter em numerário.
Convidada a escolher o que lhe aprouvesse para pagamento dos serviços, recusou a máscara funerária de Amenófis II (que era parecida com Ferro Rodrigues) e mais algumas tralhas sem valor, até que o seu olhar treinado para formas invulgares pousou sobre um artefacto deveras estranho.
O decurião não lhe conseguiu explicar bem do que se tratava, aliás porque para ingressar na legião bastava saber contar pelos dedos e declamar “rosa, rosae, etc”; mas lá conseguiu transmitir a ideia base de que servia para medir o tempo. Pelo que não lhe achava utilidade alguma, pois segundo a propaganda oficial o Império iria durar até ao fim dos tempos.
Com um apurado faro comercial (ou não fosse ela uma prostituta), Clepsidra escolheu algumas pulseiras de lápis-lazúli e deitou a mão ao aparelho com toda a calma, dizendo que embora este fosse inútil ficaria bem na sua câmara, pois ligava com as cortinas e os bibelots.
Embora não viesse com manual de utilização, o aparelho tinha um funcionamento bastante elementar.
Bastava encher o reservatório superior com a quantidade de líquido necessária para a meia horita da praxe, e esperar que este se escoasse enquanto comia tremoços e contava as tábuas do tecto, ou reflectia sobre a cor da próxima túnica que iria comprar; enquanto o cliente fazia pela vida como se não houvesse amanhã.
E não havia mesmo, pois a partir desse momento o tempo passava a estar contado. Dando origem também a alguns problemas dos tempos modernos, como a pressa, o stress e a ejaculação precoce…
Devido ao seu novo sistema o negócio floresceu, e todas as patroas de casas de passe adoptaram a “clepsidra” (nome pelo qual ficou a ser conhecido o relógio de água, em honra da primeira mulher que lhe deu alguma utilidade) nos seus estabelecimentos.
Outros tipos de casas de prostituição como fábricas e escritórios, adoptaram igualmente o sistema refinando-o ao ponto de incluir um mecanismo de registo, mais tarde conhecido como “relógio de ponto”; mas isso já é outra história, e hoje já não posso escrever mais.
Desculpem lá, mas acabou-se a meia horita…
Agradecimento – Este post não seria possível sem a prestimosa colaboração dos especialistas em cultura clássica de que a nossa Igreja (A do Imaculado Blog) tanto se orgulha. A todos eles(as), um grande bem-haja.
Música de Fundo
“I Want Your Love” – Transvision Vamp