A escrita pode ser feminina ou masculina. A escrita pode ser o que quisermos dela, senão porque lhe chamaríamos…CriaçãoEV4 não sabia o que era um orgasmo. Ou talvez o soubesse de um certo modo empírico, o que para o caso iria dar ao mesmo.
As gravações tinham-lhe explicado o que a conjunção dos factores necessários faria ao seu sistema. A mistura química que fluía através de si seria alterada, e o fluxo tornar-se-ia mais rápido.
A permuta de informação com o módulo explorador iria aumentar a rapidez do processo, o que arrastaria todo o ciclo numa espiral desenfreada em que a mistura de fluidos dos dois módulos se culminaria numa única explosão geradora de vida.
As gravações eram já antigas mas nada do que transmitiam se tinha tornado obsoleto; tratava-se apenas de um conjunto de sensações preparadas para servirem de veículo a meia dúzia de instruções básicas. Como estas últimas implicavam auto-destruição, o processo tinha sido obrigatoriamente objecto de uma alteração cosmética.
Mas apesar de tudo EV4 tinha dúvidas. Pois nem mesmo as máquinas se encontram alguma vez preparadas para de morrer.
No seu princípio base o processo era simples. O módulo AD (exploração) era lançado num sistema estrelar que se considerasse prometedor, e ao ser encontrado um astro que reunisse as condições necessárias, colocar-se-ia numa órbita estacionária iniciando via rádio a transmissão das coordenadas.
O módulo EV (laboratório/reactor) que se encontrasse mais próximo, acorreria de imediato colocando-se igualmente em órbita, e ao confirmar a exactidão dos dados transmitidos realizaria a acoplagem com o módulo explorador. Após o que interligariam os sistemas em simultâneo para a permuta química. O que os levaria a atingir a massa crítica, transformando a estrela numa supernova e espalhando por todo o sistema os ingredientes criteriosamente reunidos no seu interior, de modo a que eventualmente estes pudessem ajudar a criar vida
Nenhuma das máquinas tinha na realidade consciência de si própria, embora se pudessem identificar como individualidade em relação aos outros; mas apenas por uma questão de localização e procedimento.
Na realidade nenhum deles estava vivo. Mas por alguma razão desconhecida, talvez causada por avaria ocasional ou deficiência nos circuitos lógicos, EV4 continuava a emitir mensagens de erro.
O chefe de turno consultou a estreita língua de papel que saía da consola, e por momentos pareceu pouco à vontade. O funcionamento dos módulos “Novo-Mundo” tinha nítidas semelhanças com o do cérebro humano. De um modo até um pouco exagerado, diria ele se lho perguntassem.
Mas para lidar com a miríade de variáveis envolvidas neste tipo de actividade, apenas esse modelo de programação poderia funcionar de um modo minimamente aceitável. Embora não fossem novos os casos de módulos que desapareciam em explorações não solicitadas, ou que inexplicavelmente se lançavam em “buracos negros”, todos os módulos eram providos do mesmo tipo de instruções base.
Ocasionalmente alguns deles solicitavam informação adicional a meio da programação; mas segundo os técnicos tratava-se apenas de manifestações de instabilidade electrónica. E todos os casos poderiam ser resolvidos, a partir de algumas respostas tipificadas
EV4 não via necessidade alguma para a sua eliminação física. E isso poderia constituir um problema, quando chegasse o momento correcto para a deflagração que iniciaria o bombardeamento de elementos-base sobre o núcleo da supernova.
Para colmatar a maioria das imperfeições do programa motivacional, a sub-rotina final era composta para além de instruções base, também por uma transcrição em símbolos matemáticos de todo o histórico e filosofia-base do projecto.
Largando a listagem o chefe de turno indicou ao computador que iniciasse o input da última fase, passando a verificar os mecanismos de lançamento; enquanto com um trinado subsónico, as instruções eram repetidas e codificadas em linguagem-máquina.
A quem cruzasse o caminho de qualquer um dos dispositivos, era possível ficar a saber que a missão a que estes se destinavam era exclusivamente pacífica. Era-lhes pedido que não interviessem, pois era limitado o número de módulos que poderiam ainda ser lançados. Explicando tratar-se de uma comunidade de máquinas, que tentava perpetuar o legado dos seus criadores após o seu desaparecimento.
Munidos de gravações sensoriais encontradas nos arquivos, tinham iniciado um projecto para semear vida onde tal fosse viável. Tinham criado a maquinaria necessária a partir do modelo dualista humano, em que apenas pela união das duas metades se poderia completar o processo.
Além de servir para diminuir a margem de erro na avaliação das situações, isso evitava que se dessem explosões não controladas; pois era necessária a acoplagem dos dois módulos, e a consequente mistura de elementos armazenados em ambos para que tal acontecesse.
Era igualmente explicado, que a criação de vida mesmo que por métodos naturais, se tratava de um processo dependente de variáveis tão estranhas e indefiníveis como espontaneidade e amor.
Este tipo de explicação dificilmente seria entendido por quem deparasse com a mensagem. Tratava-se apenas da repetição de instruções muito antigas que os operadores actuais não compreendiam, mas que por uma questão de procedimento continuavam a fazer parte do projecto.
Pouco preocupado com o facto de ignorar o que fosse espontaneidade ou amor, o autómato chefe de turno parou a transmissão e desligou o sistema, deixando apenas a impressora a emitir o relatório de operação numa enorme língua de papel. Os módulos “Novo-Mundo” estavam finalmente prontos.
No meio de todos os outros e com a sua programação completa, EV4 aguardava em "sleep mode" enquanto recapitulava em background todos os procedimentos base. Sem dúvida que iria dar uma boa mãe… O que quer que isso significasse…
Música de Fundo
“
Wonderful Life” -
Black