A vida imita a arte
- Onde se prova que a realidade é por vezes bem mais estranha que a ficção -
Estou quase a chegar à conclusão que afinal não fui de férias. Um pouco à semelhança daquelas paixões das quais se sai tão esfarrapado que parece não ter havido um único momento bom; começo a achar que nunca fui de férias em toda a minha vida.
Possivelmente o único membro da minha família que gozará verdadeiras férias, será o meu filho e talvez apenas num futuro longínquo.
Decerto ressentido do tom de pele acobreado e aspecto saudável com que vim das férias, meu amo aproveitou para pedir com voz lamentosa um pequeno sacrifício na forma de serões quase todos os dias até daqui a duas semanas.
É claro que nada disto teve grande impacto. Os industriais de construção civil se não nascem iguais perante Deus, pelo menos no seu trajecto em direcção à fama e fortuna acabam invariavelmente por adquirir como bagagem cultural a mesma mala de cartão cheia de tijolos. Mediante isto, podemos sempre contar com um razoável coeficiente de previsibilidade nas suas acções.
O que não me tinha sido possível prever foi a visita de outro industrial (parece que desde a revolução industrial, não nos podemos virar para lado nenhum sem tropeçar num deles), este do ramo dos transportes e por tal possuidor de um Mercedes topo de gama; de longe bem melhor que a humilde viatura de meu amo (um pobre “E” qualquer coisa).
Fomos jantar ao restaurante do costume (que para evitar publicidade desnecessária, chamarei apenas de “O Manhoso do Monte”) mas a refeição acabou por se prolongar para além do que eu tinha previsto.
Estávamos já no início do digestivo e a meio da segunda hora de repasto, e nenhum deles dava qualquer indício de se querer levantar nos próximos tempos; antes pelo contrário.
Quando regressei dos lavabos tinham-se recostado nas cadeiras e iniciado uma “desgarrada” de chamadas de telemóvel, ostentando ambos no canto da boca os famosos “palitos da casa”; e contemplando em simultâneo o televisor com uma atenção digna de alunos de 20 valores.
No bom interesse da empresa que represento (e apesar de o CEO se estar nas tintas) fiz sinal ao “manhoso” para que mudasse de canal, pensando assim que ao perder o jogo de futebol se lembrassem dos seus afazeres, e pudéssemos enfim ir terminar o trabalho deixado a meio.
Tudo indicava que sim; para mais o zapping tinha calhado numa reportagem sobre jogos tradicionais.
Infelizmente os dois industriais já tinham ultrapassado a barreira da razão; e sem se importarem com o objectivo da noite, comentavam com bonomia as diversas actividades descritas por um apresentador de bigode nietzschiano.
Comecei a achar aquela noite um enorme desperdício de tempo (tal como outras em que ali já tinha estado) e decidi colaborar com o inevitável. Virando-me para o visitante sugeri ao mais puro estilo “Construção Civil” – Esses gajos têm mesmo falta de imaginação! Então não tinha muito mais piada em vez de perseguirem um porco ensebado, largarem ali uma estrela pop bem untada com KY; tipo Britney Spears ou assim?...
Fez-se um profundo silêncio durante quase um minuto, enquanto a informação lutava desesperadamente para lhes percorrer a distância dos ouvidos ao cérebro; após o que soltando uma sonora gargalhada, o visitante se pôs a discorrer sobre o tema enquanto meu amo ia propondo variantes, tanto para a identidade da estrela em questão como no tipo de actividades a adoptar.
É claro que o “Manhoso” não gostou nada do ambiente informal que se tinha instalado na sala, e apareceu oportunamente com a conta; pelo que aproveitei para os pastorear até aos respectivos automóveis, esperançoso num breve regresso.
Mas os industriais quiçá contagiados pelo espírito desportivo do documentário, recusaram-se ambos a deixar-me na empresa; tendo solicitado a minha presença para testemunhar uma demonstração das capacidades dos respectivos automóveis.
A última cena deste burlesco episódio passou-se na rua onde moro já tarde na noite (cerca da uma da manhã).
Após um quase interminável calvário em que ambos gritaram, buzinaram, travaram e soltaram diversos impropérios em voz estrondosa, quase fui agraciado com um manjerico envasado que falhou a minha pessoa por escassos centímetros.
Decidi recolher a casa quer eles se fossem embora ou não. E enquanto abria a porta do prédio fiz um último apelo ao bom senso – É pá, por favor não façam corridas de Mercedes na minha rua. Queria ver se por enquanto não ficava muito mal visto…
Música de Fundo
“Hellraiser” – The Sweet
- Onde se prova que a realidade é por vezes bem mais estranha que a ficção -
Estou quase a chegar à conclusão que afinal não fui de férias. Um pouco à semelhança daquelas paixões das quais se sai tão esfarrapado que parece não ter havido um único momento bom; começo a achar que nunca fui de férias em toda a minha vida.
Possivelmente o único membro da minha família que gozará verdadeiras férias, será o meu filho e talvez apenas num futuro longínquo.
Decerto ressentido do tom de pele acobreado e aspecto saudável com que vim das férias, meu amo aproveitou para pedir com voz lamentosa um pequeno sacrifício na forma de serões quase todos os dias até daqui a duas semanas.
É claro que nada disto teve grande impacto. Os industriais de construção civil se não nascem iguais perante Deus, pelo menos no seu trajecto em direcção à fama e fortuna acabam invariavelmente por adquirir como bagagem cultural a mesma mala de cartão cheia de tijolos. Mediante isto, podemos sempre contar com um razoável coeficiente de previsibilidade nas suas acções.
O que não me tinha sido possível prever foi a visita de outro industrial (parece que desde a revolução industrial, não nos podemos virar para lado nenhum sem tropeçar num deles), este do ramo dos transportes e por tal possuidor de um Mercedes topo de gama; de longe bem melhor que a humilde viatura de meu amo (um pobre “E” qualquer coisa).
Fomos jantar ao restaurante do costume (que para evitar publicidade desnecessária, chamarei apenas de “O Manhoso do Monte”) mas a refeição acabou por se prolongar para além do que eu tinha previsto.
Estávamos já no início do digestivo e a meio da segunda hora de repasto, e nenhum deles dava qualquer indício de se querer levantar nos próximos tempos; antes pelo contrário.
Quando regressei dos lavabos tinham-se recostado nas cadeiras e iniciado uma “desgarrada” de chamadas de telemóvel, ostentando ambos no canto da boca os famosos “palitos da casa”; e contemplando em simultâneo o televisor com uma atenção digna de alunos de 20 valores.
No bom interesse da empresa que represento (e apesar de o CEO se estar nas tintas) fiz sinal ao “manhoso” para que mudasse de canal, pensando assim que ao perder o jogo de futebol se lembrassem dos seus afazeres, e pudéssemos enfim ir terminar o trabalho deixado a meio.
Tudo indicava que sim; para mais o zapping tinha calhado numa reportagem sobre jogos tradicionais.
Infelizmente os dois industriais já tinham ultrapassado a barreira da razão; e sem se importarem com o objectivo da noite, comentavam com bonomia as diversas actividades descritas por um apresentador de bigode nietzschiano.
Comecei a achar aquela noite um enorme desperdício de tempo (tal como outras em que ali já tinha estado) e decidi colaborar com o inevitável. Virando-me para o visitante sugeri ao mais puro estilo “Construção Civil” – Esses gajos têm mesmo falta de imaginação! Então não tinha muito mais piada em vez de perseguirem um porco ensebado, largarem ali uma estrela pop bem untada com KY; tipo Britney Spears ou assim?...
Fez-se um profundo silêncio durante quase um minuto, enquanto a informação lutava desesperadamente para lhes percorrer a distância dos ouvidos ao cérebro; após o que soltando uma sonora gargalhada, o visitante se pôs a discorrer sobre o tema enquanto meu amo ia propondo variantes, tanto para a identidade da estrela em questão como no tipo de actividades a adoptar.
É claro que o “Manhoso” não gostou nada do ambiente informal que se tinha instalado na sala, e apareceu oportunamente com a conta; pelo que aproveitei para os pastorear até aos respectivos automóveis, esperançoso num breve regresso.
Mas os industriais quiçá contagiados pelo espírito desportivo do documentário, recusaram-se ambos a deixar-me na empresa; tendo solicitado a minha presença para testemunhar uma demonstração das capacidades dos respectivos automóveis.
A última cena deste burlesco episódio passou-se na rua onde moro já tarde na noite (cerca da uma da manhã).
Após um quase interminável calvário em que ambos gritaram, buzinaram, travaram e soltaram diversos impropérios em voz estrondosa, quase fui agraciado com um manjerico envasado que falhou a minha pessoa por escassos centímetros.
Decidi recolher a casa quer eles se fossem embora ou não. E enquanto abria a porta do prédio fiz um último apelo ao bom senso – É pá, por favor não façam corridas de Mercedes na minha rua. Queria ver se por enquanto não ficava muito mal visto…
Música de Fundo
“Hellraiser” – The Sweet
