TheOldMan No País Dos Brinquedos
- Onde todos os meninos crescidos tarde ou cedo vão brincar… -
Eram seis e meia da manhã quando saí de casa. O tempo estava chuvoso e Meu Amo levava um enorme guarda-chuva atravessado no banco de trás da viatura.
Apesar deste início pouco auspicioso, a coisa nem teria seguido mal se após chegados ao local da concentração não nos tivessem enfiado num autocarro ranhoso ao mais puro estilo salazarista (e sem direito ao garrafão da praxe).
Senti-me como um daqueles tipos do interior, a quem traziam antigamente para as manifestações com a única missão de agitar uma bandeirinha, em conjunto com outros 79.999 durante cinco minutos.
Para piorar as coisas, dois dos convidados atrasaram-se uma hora; após a qual apareceram com um ar perfeitamente natural, e sem se justificarem ou desculparem ocuparam os respectivos lugares. Por esta altura pensei que as coisas iam animar, pois já se rosnava em surdina lá para o banco detrás, mas todos acabaram por se distrair com a paisagem.
Devido ao atraso caímos em plena hora de ponta na IC19 e CREL, pelo que conseguimos fazer o trajecto Alcoitão/Alverca no tempo recorde de duas horas. Quando saímos para tomar café na área de serviço seguinte, Meu Amo aproveitou para nos brindar com os seus dotes de comediante, tropeçando à entrada do bar e precipitando-se por ali adentro empunhando à sua frente o gigantesco guarda-chuva; que visto do interior parecia o nariz do Graff Zeppelin a tentar penetrar pelas portas.
Ficámos todos muito mais bem dispostos e seguimos viagem com mais animação, mandando-lhe uma piada ocasional ou tecendo considerações sobre “A influência dos guarda-chuva amarelos, no aumento de incidência da homossexualidade em homens de meia-idade”. Esta malta das obras sempre foi muito intelectual…
Mas a nossa alegria em breve se esfumou. Pois após contarmos cinco acidentes, era já meio-dia e todo o programa de actividades matinais se encontrava comprometido; especialmente se levássemos em conta o facto de estarmos nessa altura ainda a passar por aquele frigorífico gigante em aço inox que se encontra há anos abandonado no acesso a Coimbra.
É realmente incrível que ainda ninguém tivesse tido a ideia de remover dali aquele mono…
Vi nessa manhã a entrada da Exponor. Aliás a manhã já tinha passado e como eram 13h, fizemos agulha para o restaurante onde se tinha sido já marcado o almoço. Almoço este de boa qualidade mas incaracterístico, que teve como bons pontos um Esteva Reserva e um queijo regado com azeite a ferver tão perigoso para o meu colesterol, que mal o coloquei na boca logo recebi um SMS da Dr.ª Inês a perguntar se estava tudo bem comigo.
Chegámos finalmente à “Concreta”. E eu poderia aproveitar para vos chagar o juízo com aquela história do tipo que inventou o betão, lhe ter dado o nome de “concrete” por a sua filha se chamar Concretia; e já agora o monte de piadas que isso deve ter proporcionado à pobre rapariga após ter crescido, e tal… Mas não estou para aí virado.
Mal entrámos fomos logo atacados por um espanhol. Aparentemente tínhamos sido invadidos durante a hora de almoço, e um terço dos stands estavam ocupados por castelhanos ou seus testas de ferro. Mas também, se seria para estarem vazios antes assim.
Fui então obrigado a apreciar a performance da diabólica “Putzmeister Sika-PM500PC” que projectou reboco sobre quase toda a assistência; e digo quase, porque nessa altura já me estava a esgueirar para o Stand do nosso anfitrião, onde vira uma loura a distribuir cafés e sorrisos.
Sorri-lhe também e avancei de braço estendido para pegar na chávena, quando Meu Amo e mais dois energúmenos me manietaram levando-me a visitar o Stand da Markado onde durante vinte minutos apreciei contra gosto a textura das paredes em pinho nórdico, e os bons acabamentos das casas pré-fabricadas.
Aproveitei um momento em que todos escutavam um cuspinhoso “comercial” para sair rapidamente; meu amo ainda tentou dissuadir-me com um – “Vêm já com os tubos postos e tudo…” – mas eu encontrava-me sob influência dos meus instintos mais básicos, que me diziam ser altura de beber um café oferecido pela loura, e informar-me sobre as delícias dos sistemas de bombagem com protecção cerâmica.
Não foi ainda desta. Um tipo com quem eu já tinha trabalhado, interceptou-me quando eu passava pelo stand da M@gnisoft para dar uma mirada ao módulo de orçamentos e desviou-me do meu caminho. Aparentemente a Aquatherm GmbH estava a oferecer kits de termofusão, e segundo ele isso é uma oportunidade mais preciosa que o cometa Haley.
Á semelhança de Odysseu, eu estava condenado a ser distraído do meu objectivo pelas coisas mais insignificantes e comezinhas. Aguentei estoicamente as demonstrações do Fusiotherm, do Aquatherm Firestop e do Fusiolen, como se fossem algo mais importantes que miseráveis tubos em polipropileno. Um gajo tem a sua reputação a manter!...
Ao menos ali estava sentado. Mas a calma durou muito pouco tempo; pois vi pelo canto do olho que Meu Amo corria perigo de morte. Tendo sido apanhado pelos insidiosos sicários da Rothenberger, que não só ofereciam um presunto espanhol na compra de cada máquina de cravar (5.100,00€), como este era entregue pessoalmente por uma demonstradora (Uma morena de cabelo cor de azeviche e o porte de uma égua de tiro) envergando um conjunto de Lycra em vermelho, cor característica da marca.
Parti logo em seu auxílio, e em boa hora; pois já se encontrava a ler o catálogo enquanto simultaneamente estudava o traseiro da demonstradora, que se assemelhava a um tomate colhido na zona do Entroncamento, mercê das suas proporções avantajadas.
- Esta Supertronic 2000 fazia-nos bastante jeito, não achas? – Perguntou-me com uma expressão ausente, dirigindo-se ao copo de cerveja que tinha na mão. – Nunca se sabe quando será preciso fazer uma rosca e não haja mais nada à mão…
Respondi-lhe que haviam modos mais económicos de conseguir roscas bem feitas, e pegando-lhe pela aba do casaco, afastei-o daquele antro de perdição. Principalmente porque de vermelho apenas conseguiria a tal Supertronic 2000, e teria que a pagar bem paga.
Escapámo-nos à Infinitech, e conseguimos ultrapassar o stand da Hilti tendo recebido apenas um conjunto de porta-chaves; acabando por percorrer em pânico os últimos metros que nos separavam do stand do nosso anfitrião. Não sem antes termos sido assediados por uma representante do arquitecto Márcio Paiva, que desenhava candeeiros para cozinhas, e que gostaria imenso de ter a nossa opinião sobre os mesmos.
Foi quando eu a vi.
Confesso que nunca gostei da cor amarela; mas existem alturas em que temos que deixar para trás certos preconceitos. E ela era linda…
De formas esguias e elegantes, o seu único braço apontava para mim num convite sem palavras; com a pá aberta qual mão estendida numa oferta de proximidade. Chamava-se Caterpillar 385CL, embora convenhamos que é muito mais sexy a sonoridade do termo “retro-escavadora”.
Mal a montei transformei-me num animal. Todos os meus atavismos vieram à superfície e deixei-me arrastar pelos sentidos. Ela fazia tudo o que lhe pedia, conseguindo colocar-se nas posições mais inverosímeis devido aos seus conjuntos hidráulicos, comandados por controlador digital.
Acabei por ser delicada mas firmemente removido do cockpit para dar lugar a outro (era uma Caterpillar de aluguer), e de orelha murcha lá consegui finalmente chegar ao local aprazado onde me deram uma seca enorme sobre diâmetros de passagem de sólidos, caudais e alturas manométricas. De vez em quando suspirava ao recordar a sensação que era ter a 385CL debaixo de mim.
Quando estava quase a cair no sono, ofereceram-me um copo de cerveja tão alemã como os equipamentos de bombagem (era Sagres, que eu vi o barril da imperial arrumado a um canto), e a Sónia (é giro, mas eu acho que elas inventam sempre “nomes artísticos” para estes eventos) ofereceu-me alguns “pretzels” com um sorriso triste.
Após inquirida, confiou-me que os sapatos rasos que calçava a estavam a martirizar; pois estava habituada a saltos altos, mas tivera que usar aquelas chanatas para ligar com o conjunto saia/casaco e assim parecer uma mulher executiva que distribuía aperitivos.
Comecei a pensar para que teria que ser uma mulher de ar executivo a distribuir os aperitivos, mas calculei que a resposta não seria agradável, e pegando com uma mão em Meu Amo e com outra no saco dos catálogos inúteis dirigi-me para o autocarro.
Mesmo à saída, quais Testemunhas de Jeová, dois representantes do Pinhol Gomes & Gomes, Lda. entregaram-me um catálogo, e com a sua bênção lá seguimos viagem.
Era quase hora de jantar; e tal como eu calculava ficámos presos na VCI.
Depois de quase uma hora de claustrofóbico martírio, conseguimos sair do Grande Porto e entrar na auto-estrada onde após desligadas as luzes o autocarro se transformou num bólide. Não que andasse mais depressa; mas porque o ruído do motor era enriquecido por sonoros roncos de construtores adormecidos, o que dava ao ambiente um ar de pista de corridas.
As horas que se seguiram, foram passadas num sono inquieto percorrido por sonhos estranhos em que aparecia a 385CL, intervalado por breves e sobressaltados despertares.
Lembrei-me então porque já há muito tempo não me apanhavam num evento destes. Deve ser uma das maneiras mais idiotas de desperdiçar um dia inteiro; excepto para os arquitectos, que no dia seguinte têm uma visão totalmente diferente no que toca à estética de W.C.
E foi esta espécie de Barca de Caronte que chegou à Mealhada, tarde e a más horas, para se bater com o leitão assado.
Passado um jantar sem história, foram mais umas horas (francamente, já pensava que atravessar o Atlântico de avião fosse mais fácil) até casa; onde Meu Amo me deixou, levando consigo toda a tralha que tínhamos acumulado durante o dia.
Quando acordei no dia seguinte, olhei para o lado e ali estava ela em toda a sua elegância, sobre a mesa-de-cabeceira e mesmo ao lado do despertador. Estendi a mão para a acariciar quando ouvi a voz do meu filho no quarto ao lado. – Fogo, man!... Quem é que levou a minha retro-escavadora telecomandada?...
Música de Fundo
“Links 2, 3, 4” – Rammstein
- Onde todos os meninos crescidos tarde ou cedo vão brincar… -
Eram seis e meia da manhã quando saí de casa. O tempo estava chuvoso e Meu Amo levava um enorme guarda-chuva atravessado no banco de trás da viatura.
Apesar deste início pouco auspicioso, a coisa nem teria seguido mal se após chegados ao local da concentração não nos tivessem enfiado num autocarro ranhoso ao mais puro estilo salazarista (e sem direito ao garrafão da praxe).
Senti-me como um daqueles tipos do interior, a quem traziam antigamente para as manifestações com a única missão de agitar uma bandeirinha, em conjunto com outros 79.999 durante cinco minutos.
Para piorar as coisas, dois dos convidados atrasaram-se uma hora; após a qual apareceram com um ar perfeitamente natural, e sem se justificarem ou desculparem ocuparam os respectivos lugares. Por esta altura pensei que as coisas iam animar, pois já se rosnava em surdina lá para o banco detrás, mas todos acabaram por se distrair com a paisagem.
Devido ao atraso caímos em plena hora de ponta na IC19 e CREL, pelo que conseguimos fazer o trajecto Alcoitão/Alverca no tempo recorde de duas horas. Quando saímos para tomar café na área de serviço seguinte, Meu Amo aproveitou para nos brindar com os seus dotes de comediante, tropeçando à entrada do bar e precipitando-se por ali adentro empunhando à sua frente o gigantesco guarda-chuva; que visto do interior parecia o nariz do Graff Zeppelin a tentar penetrar pelas portas.
Ficámos todos muito mais bem dispostos e seguimos viagem com mais animação, mandando-lhe uma piada ocasional ou tecendo considerações sobre “A influência dos guarda-chuva amarelos, no aumento de incidência da homossexualidade em homens de meia-idade”. Esta malta das obras sempre foi muito intelectual…
Mas a nossa alegria em breve se esfumou. Pois após contarmos cinco acidentes, era já meio-dia e todo o programa de actividades matinais se encontrava comprometido; especialmente se levássemos em conta o facto de estarmos nessa altura ainda a passar por aquele frigorífico gigante em aço inox que se encontra há anos abandonado no acesso a Coimbra.
É realmente incrível que ainda ninguém tivesse tido a ideia de remover dali aquele mono…
Vi nessa manhã a entrada da Exponor. Aliás a manhã já tinha passado e como eram 13h, fizemos agulha para o restaurante onde se tinha sido já marcado o almoço. Almoço este de boa qualidade mas incaracterístico, que teve como bons pontos um Esteva Reserva e um queijo regado com azeite a ferver tão perigoso para o meu colesterol, que mal o coloquei na boca logo recebi um SMS da Dr.ª Inês a perguntar se estava tudo bem comigo.
Chegámos finalmente à “Concreta”. E eu poderia aproveitar para vos chagar o juízo com aquela história do tipo que inventou o betão, lhe ter dado o nome de “concrete” por a sua filha se chamar Concretia; e já agora o monte de piadas que isso deve ter proporcionado à pobre rapariga após ter crescido, e tal… Mas não estou para aí virado.
Mal entrámos fomos logo atacados por um espanhol. Aparentemente tínhamos sido invadidos durante a hora de almoço, e um terço dos stands estavam ocupados por castelhanos ou seus testas de ferro. Mas também, se seria para estarem vazios antes assim.
Fui então obrigado a apreciar a performance da diabólica “Putzmeister Sika-PM500PC” que projectou reboco sobre quase toda a assistência; e digo quase, porque nessa altura já me estava a esgueirar para o Stand do nosso anfitrião, onde vira uma loura a distribuir cafés e sorrisos.
Sorri-lhe também e avancei de braço estendido para pegar na chávena, quando Meu Amo e mais dois energúmenos me manietaram levando-me a visitar o Stand da Markado onde durante vinte minutos apreciei contra gosto a textura das paredes em pinho nórdico, e os bons acabamentos das casas pré-fabricadas.
Aproveitei um momento em que todos escutavam um cuspinhoso “comercial” para sair rapidamente; meu amo ainda tentou dissuadir-me com um – “Vêm já com os tubos postos e tudo…” – mas eu encontrava-me sob influência dos meus instintos mais básicos, que me diziam ser altura de beber um café oferecido pela loura, e informar-me sobre as delícias dos sistemas de bombagem com protecção cerâmica.
Não foi ainda desta. Um tipo com quem eu já tinha trabalhado, interceptou-me quando eu passava pelo stand da M@gnisoft para dar uma mirada ao módulo de orçamentos e desviou-me do meu caminho. Aparentemente a Aquatherm GmbH estava a oferecer kits de termofusão, e segundo ele isso é uma oportunidade mais preciosa que o cometa Haley.
Á semelhança de Odysseu, eu estava condenado a ser distraído do meu objectivo pelas coisas mais insignificantes e comezinhas. Aguentei estoicamente as demonstrações do Fusiotherm, do Aquatherm Firestop e do Fusiolen, como se fossem algo mais importantes que miseráveis tubos em polipropileno. Um gajo tem a sua reputação a manter!...
Ao menos ali estava sentado. Mas a calma durou muito pouco tempo; pois vi pelo canto do olho que Meu Amo corria perigo de morte. Tendo sido apanhado pelos insidiosos sicários da Rothenberger, que não só ofereciam um presunto espanhol na compra de cada máquina de cravar (5.100,00€), como este era entregue pessoalmente por uma demonstradora (Uma morena de cabelo cor de azeviche e o porte de uma égua de tiro) envergando um conjunto de Lycra em vermelho, cor característica da marca.
Parti logo em seu auxílio, e em boa hora; pois já se encontrava a ler o catálogo enquanto simultaneamente estudava o traseiro da demonstradora, que se assemelhava a um tomate colhido na zona do Entroncamento, mercê das suas proporções avantajadas.
- Esta Supertronic 2000 fazia-nos bastante jeito, não achas? – Perguntou-me com uma expressão ausente, dirigindo-se ao copo de cerveja que tinha na mão. – Nunca se sabe quando será preciso fazer uma rosca e não haja mais nada à mão…
Respondi-lhe que haviam modos mais económicos de conseguir roscas bem feitas, e pegando-lhe pela aba do casaco, afastei-o daquele antro de perdição. Principalmente porque de vermelho apenas conseguiria a tal Supertronic 2000, e teria que a pagar bem paga.
Escapámo-nos à Infinitech, e conseguimos ultrapassar o stand da Hilti tendo recebido apenas um conjunto de porta-chaves; acabando por percorrer em pânico os últimos metros que nos separavam do stand do nosso anfitrião. Não sem antes termos sido assediados por uma representante do arquitecto Márcio Paiva, que desenhava candeeiros para cozinhas, e que gostaria imenso de ter a nossa opinião sobre os mesmos.
Foi quando eu a vi.
Confesso que nunca gostei da cor amarela; mas existem alturas em que temos que deixar para trás certos preconceitos. E ela era linda…
De formas esguias e elegantes, o seu único braço apontava para mim num convite sem palavras; com a pá aberta qual mão estendida numa oferta de proximidade. Chamava-se Caterpillar 385CL, embora convenhamos que é muito mais sexy a sonoridade do termo “retro-escavadora”.
Mal a montei transformei-me num animal. Todos os meus atavismos vieram à superfície e deixei-me arrastar pelos sentidos. Ela fazia tudo o que lhe pedia, conseguindo colocar-se nas posições mais inverosímeis devido aos seus conjuntos hidráulicos, comandados por controlador digital.
Acabei por ser delicada mas firmemente removido do cockpit para dar lugar a outro (era uma Caterpillar de aluguer), e de orelha murcha lá consegui finalmente chegar ao local aprazado onde me deram uma seca enorme sobre diâmetros de passagem de sólidos, caudais e alturas manométricas. De vez em quando suspirava ao recordar a sensação que era ter a 385CL debaixo de mim.
Quando estava quase a cair no sono, ofereceram-me um copo de cerveja tão alemã como os equipamentos de bombagem (era Sagres, que eu vi o barril da imperial arrumado a um canto), e a Sónia (é giro, mas eu acho que elas inventam sempre “nomes artísticos” para estes eventos) ofereceu-me alguns “pretzels” com um sorriso triste.
Após inquirida, confiou-me que os sapatos rasos que calçava a estavam a martirizar; pois estava habituada a saltos altos, mas tivera que usar aquelas chanatas para ligar com o conjunto saia/casaco e assim parecer uma mulher executiva que distribuía aperitivos.
Comecei a pensar para que teria que ser uma mulher de ar executivo a distribuir os aperitivos, mas calculei que a resposta não seria agradável, e pegando com uma mão em Meu Amo e com outra no saco dos catálogos inúteis dirigi-me para o autocarro.
Mesmo à saída, quais Testemunhas de Jeová, dois representantes do Pinhol Gomes & Gomes, Lda. entregaram-me um catálogo, e com a sua bênção lá seguimos viagem.
Era quase hora de jantar; e tal como eu calculava ficámos presos na VCI.
Depois de quase uma hora de claustrofóbico martírio, conseguimos sair do Grande Porto e entrar na auto-estrada onde após desligadas as luzes o autocarro se transformou num bólide. Não que andasse mais depressa; mas porque o ruído do motor era enriquecido por sonoros roncos de construtores adormecidos, o que dava ao ambiente um ar de pista de corridas.
As horas que se seguiram, foram passadas num sono inquieto percorrido por sonhos estranhos em que aparecia a 385CL, intervalado por breves e sobressaltados despertares.
Lembrei-me então porque já há muito tempo não me apanhavam num evento destes. Deve ser uma das maneiras mais idiotas de desperdiçar um dia inteiro; excepto para os arquitectos, que no dia seguinte têm uma visão totalmente diferente no que toca à estética de W.C.
E foi esta espécie de Barca de Caronte que chegou à Mealhada, tarde e a más horas, para se bater com o leitão assado.
Passado um jantar sem história, foram mais umas horas (francamente, já pensava que atravessar o Atlântico de avião fosse mais fácil) até casa; onde Meu Amo me deixou, levando consigo toda a tralha que tínhamos acumulado durante o dia.
Quando acordei no dia seguinte, olhei para o lado e ali estava ela em toda a sua elegância, sobre a mesa-de-cabeceira e mesmo ao lado do despertador. Estendi a mão para a acariciar quando ouvi a voz do meu filho no quarto ao lado. – Fogo, man!... Quem é que levou a minha retro-escavadora telecomandada?...
Música de Fundo
“Links 2, 3, 4” – Rammstein
