Um banho com “Leitmotiv”
- Ou como um simples banho de imersão pode ser prejudicial para a sanidade mental … -
Um pouco à semelhança dos rebates de consciência, é raro que me doa a cabeça; mas quando tal acontece, toma geralmente proporções exageradas.
Após um cansativo sábado a trabalhar, durante o qual incubei um microorganismo desconhecido que fez o meu tom de voz descer ao nível da vocalização de Dart Vader; preveni-me com mezinhas caseiras e deitei-me cedo. Talvez não devesse ter insistido em ler para adormecer, mas o certo é que quando acordei no domingo tinha uma dor de cabeça do tamanho da nossa dívida externa.
Achei que a melhor solução para este problema seria um banho de imersão.
Em minha casa, tomar banho de imersão é algo fora do comum. Pois há gerações e desde que um dos meus antepassados foi agraciado com a “Ordem do Duche”, que nos dedicámos de alma e coração a essa modalidade; pelo que os sais já tinham cerca de três anos de embalagem (analisando agora os acontecimentos em retrospectiva, penso que tudo possa ter acontecido devido aos sais).
Enchi então a banheira, e derramei nela o pó multicor que esforçadamente tirei do frasco, utilizando uma chave de fendas para desfazer os pedaços que tendo solidificado, se agarravam teimosamente ás paredes de vidro como cerâmica pré-colombiana.
Deitei-me com a água a dar-me pelo queixo.
Lembro-me que na altura ainda pensei colocar duas rodelas de pepino sobre os olhos. Mas veio-me à mente a imagem de Marat morto no banho, exactamente devido à sua mania de pôr rodelas de pepino sobre os olhos; e achei que não seria boa ideia. Não fossem os membros de algum blog rival, irromperem pela casa de banho empunhando armas automáticas.
O vapor de água que enchia a pequena divisão fazia-a parecer maior, e emprestava-lhe um pouco de ambiente sebastianista; no que era ajudado pela cortina da banheira decorada com motivos árabes. Deixei o meu espírito vogar sem destino; embalado pelo marulhar das águas e impulsionado pela morna carícia que se espalhava por todo o meu corpo (tenho que fazer isto mais vezes, mas com companhia).
Estava quase a mergulhar no sono induzido por todo este cálido ambiente, quando comecei a ouvir uma melodia sinuosa que chegava até mim através da parede onde está o bidé. Só podia vir do apartamento ao lado para onde se mudaram há uns meses três mulheres (mãe e duas filhas), e que ao fim de semana me obrigam a ouvir aquele tipo de música melosa, tão apreciada pelas adolescentes e mulheres mais velhas em fase de acasalamento.
Foi com horror que reconheci os primeiros acordes de “you're beautiful” de James Blunt, aparentemente emitidos pelo respiradouro metálico que fica ao nível do chão entre o bidé e a sanita. Sem dúvida que seria o sítio mais indicado para a origem daquela música, mas eu detesto a maneira como o tipo canta.
Encontrava-me pois confinado a uma banheira de água quente, como qualquer doente mental em tratamento, e o meu espírito era massacrado com enormes vagas de James Blunt. Só os prisioneiros da NKVD nos longínquos anos trinta deviam compreender aquilo pelo que eu estava a passar.
Um velho truque ensinado pelos monges tibetanos para resistir à tortura, é fantasiar a situação de modo alternativo, fazendo o espírito afastar-se lentamente da dolorosa realidade. E assim fiz.
Imaginei que me encontrava numa praia juntamente com a equipa que se encontrava a rodar o vídeo-clip para o single.
Estávamos todos chateados porque chovia como o raio. E o sacana do artista estava ali sentado no chão a despir-se meticulosamente enquanto cantava aquela melodia idiota, que se conseguia insinuar nos nossos ouvidos apesar dos lenços de papel, pedaços de miolo de pão, e manteiga de amendoim com que tentávamos insonorizar os nossos indefesos pavilhões auditivos de tão traiçoeira agressão.
Pelo canto do olho reparei que embora o tipo ainda não tivesse acabado a canção, já alguns assistentes se afadigavam a empacotar adereços, embora de um modo discreto. – Passa-se alguma coisa? – Perguntei à “script girl” que estava a meu lado, tirando-lhe para que me ouvisse, o cotonete que ela tinha enfiado no ouvido esquerdo e ao qual enrolara papel higiénico.
- Shiu! Deixa-os acabar de filmar que já vais ver. – Respondeu ela com um sorriso maroto – Prepara-te para bazar assim que eu te disser.
E assim foi.
A porra daquela chuva miudinha sempre a cair como se tivesse sido encomendada, e nós ali a ouvir o tipo a lamentar-se como um borrego mal desmamado… Finalmente chegou à parte em que ele se virou, e dizendo – “But it’s time to face the truth, I will never be with you.” – acabou por mergulhar do cais abaixo para a água gelada.
Agarrámos nas nossas trouxas e entrámos à pressa no autocarro, enquanto se ouvia o tipo protestar lá de baixo – Quem é que tirou a merda da escada? Está aí alguém? Malta?.. Vá lá. Não tem piada nenhuma e a água está gelada à brava…
Fechei os olhos e lentamente regressei ao meu tépido e matinal banho de imersão, soltando um suspiro deliciado.
Foi quando se fizeram ouvir novamente através da grelha metálica, os primeiros acordes da detestável cançoneta. Com a surpresa quase engoli um pirolito; o que poderia ser-me fatal devido aos sais de oriental proveniência (quem os tinha oferecido esquecera-se de tirar o autocolante “made in China”).
A música estava em “repeat” e pouco havia a fazer.
Saí do banho, e passando pela cozinha dirigi-me à porta que abri silenciosamente. Com passos lentos, atravessei o patamar deixando atrás de mim um rasto de água e espuma, que terminou no tapete de cor verde e com desenhos de gatinhos a brincar.
Passei o cutelo para a mão esquerda e toquei à campainha. Ouviu-se um ruído de chave a girar em fechadura, e eu compondo o meu melhor sorriso comecei a entoar em voz um pouco rouca - My life is brilliant. My love is pure…
Nota: A música de fundo é para ser ouvida durante o jogo do qual fica aqui o link.
Durante a redacção deste post não foram molestadas quaisquer vizinhas (maduras ou adolescentes), embora neste momento se desconheça ainda o paradeiro do patinho de borracha amarelo, que o meu filho me tinha emprestado.
Este texto é dedicado a todos os que tal como eu, já não podem ouvir James Blunt.
Música de Fundo
“You're Beautiful” - James Blunt
- Ou como um simples banho de imersão pode ser prejudicial para a sanidade mental … -
Um pouco à semelhança dos rebates de consciência, é raro que me doa a cabeça; mas quando tal acontece, toma geralmente proporções exageradas.
Após um cansativo sábado a trabalhar, durante o qual incubei um microorganismo desconhecido que fez o meu tom de voz descer ao nível da vocalização de Dart Vader; preveni-me com mezinhas caseiras e deitei-me cedo. Talvez não devesse ter insistido em ler para adormecer, mas o certo é que quando acordei no domingo tinha uma dor de cabeça do tamanho da nossa dívida externa.
Achei que a melhor solução para este problema seria um banho de imersão.
Em minha casa, tomar banho de imersão é algo fora do comum. Pois há gerações e desde que um dos meus antepassados foi agraciado com a “Ordem do Duche”, que nos dedicámos de alma e coração a essa modalidade; pelo que os sais já tinham cerca de três anos de embalagem (analisando agora os acontecimentos em retrospectiva, penso que tudo possa ter acontecido devido aos sais).
Enchi então a banheira, e derramei nela o pó multicor que esforçadamente tirei do frasco, utilizando uma chave de fendas para desfazer os pedaços que tendo solidificado, se agarravam teimosamente ás paredes de vidro como cerâmica pré-colombiana.
Deitei-me com a água a dar-me pelo queixo.
Lembro-me que na altura ainda pensei colocar duas rodelas de pepino sobre os olhos. Mas veio-me à mente a imagem de Marat morto no banho, exactamente devido à sua mania de pôr rodelas de pepino sobre os olhos; e achei que não seria boa ideia. Não fossem os membros de algum blog rival, irromperem pela casa de banho empunhando armas automáticas.
O vapor de água que enchia a pequena divisão fazia-a parecer maior, e emprestava-lhe um pouco de ambiente sebastianista; no que era ajudado pela cortina da banheira decorada com motivos árabes. Deixei o meu espírito vogar sem destino; embalado pelo marulhar das águas e impulsionado pela morna carícia que se espalhava por todo o meu corpo (tenho que fazer isto mais vezes, mas com companhia).
Estava quase a mergulhar no sono induzido por todo este cálido ambiente, quando comecei a ouvir uma melodia sinuosa que chegava até mim através da parede onde está o bidé. Só podia vir do apartamento ao lado para onde se mudaram há uns meses três mulheres (mãe e duas filhas), e que ao fim de semana me obrigam a ouvir aquele tipo de música melosa, tão apreciada pelas adolescentes e mulheres mais velhas em fase de acasalamento.
Foi com horror que reconheci os primeiros acordes de “you're beautiful” de James Blunt, aparentemente emitidos pelo respiradouro metálico que fica ao nível do chão entre o bidé e a sanita. Sem dúvida que seria o sítio mais indicado para a origem daquela música, mas eu detesto a maneira como o tipo canta.
Encontrava-me pois confinado a uma banheira de água quente, como qualquer doente mental em tratamento, e o meu espírito era massacrado com enormes vagas de James Blunt. Só os prisioneiros da NKVD nos longínquos anos trinta deviam compreender aquilo pelo que eu estava a passar.
Um velho truque ensinado pelos monges tibetanos para resistir à tortura, é fantasiar a situação de modo alternativo, fazendo o espírito afastar-se lentamente da dolorosa realidade. E assim fiz.
Imaginei que me encontrava numa praia juntamente com a equipa que se encontrava a rodar o vídeo-clip para o single.
Estávamos todos chateados porque chovia como o raio. E o sacana do artista estava ali sentado no chão a despir-se meticulosamente enquanto cantava aquela melodia idiota, que se conseguia insinuar nos nossos ouvidos apesar dos lenços de papel, pedaços de miolo de pão, e manteiga de amendoim com que tentávamos insonorizar os nossos indefesos pavilhões auditivos de tão traiçoeira agressão.
Pelo canto do olho reparei que embora o tipo ainda não tivesse acabado a canção, já alguns assistentes se afadigavam a empacotar adereços, embora de um modo discreto. – Passa-se alguma coisa? – Perguntei à “script girl” que estava a meu lado, tirando-lhe para que me ouvisse, o cotonete que ela tinha enfiado no ouvido esquerdo e ao qual enrolara papel higiénico.
- Shiu! Deixa-os acabar de filmar que já vais ver. – Respondeu ela com um sorriso maroto – Prepara-te para bazar assim que eu te disser.
E assim foi.
A porra daquela chuva miudinha sempre a cair como se tivesse sido encomendada, e nós ali a ouvir o tipo a lamentar-se como um borrego mal desmamado… Finalmente chegou à parte em que ele se virou, e dizendo – “But it’s time to face the truth, I will never be with you.” – acabou por mergulhar do cais abaixo para a água gelada.
Agarrámos nas nossas trouxas e entrámos à pressa no autocarro, enquanto se ouvia o tipo protestar lá de baixo – Quem é que tirou a merda da escada? Está aí alguém? Malta?.. Vá lá. Não tem piada nenhuma e a água está gelada à brava…
Fechei os olhos e lentamente regressei ao meu tépido e matinal banho de imersão, soltando um suspiro deliciado.
Foi quando se fizeram ouvir novamente através da grelha metálica, os primeiros acordes da detestável cançoneta. Com a surpresa quase engoli um pirolito; o que poderia ser-me fatal devido aos sais de oriental proveniência (quem os tinha oferecido esquecera-se de tirar o autocolante “made in China”).
A música estava em “repeat” e pouco havia a fazer.
Saí do banho, e passando pela cozinha dirigi-me à porta que abri silenciosamente. Com passos lentos, atravessei o patamar deixando atrás de mim um rasto de água e espuma, que terminou no tapete de cor verde e com desenhos de gatinhos a brincar.
Passei o cutelo para a mão esquerda e toquei à campainha. Ouviu-se um ruído de chave a girar em fechadura, e eu compondo o meu melhor sorriso comecei a entoar em voz um pouco rouca - My life is brilliant. My love is pure…
Nota: A música de fundo é para ser ouvida durante o jogo do qual fica aqui o link.
Durante a redacção deste post não foram molestadas quaisquer vizinhas (maduras ou adolescentes), embora neste momento se desconheça ainda o paradeiro do patinho de borracha amarelo, que o meu filho me tinha emprestado.
Este texto é dedicado a todos os que tal como eu, já não podem ouvir James Blunt.
Música de Fundo
“You're Beautiful” - James Blunt

24 comentários:
Na altura achei que o cutelo iria dar para "quebrar o galho", JP.
;-)
ahahahahah
e nem te lembraste de levar o bidé contigo e enfiar-lho pela peida
da mãe
ou das filhas
à escolha
ahahahaha, que me engasgo com o viskezito
;-)
Dei muita risada com teu texto, Old, mesmo desconhecendo ( porém imaginando) o tal James Blunt.Quanto 'as preferências musicais, cuidado com as generalizações.Você mesmo vive a corrigir-me sobre isso....;)
quem é James Blunt?
Perdoai-me a ignorância, mas o prazer de te rever faz-me ter estas brancas.
Eu não generalizo em relação ao James Blunt, querida Agatha.
Mas à semelhança das músicas da Dido, é preciso estar com uma disposição muito "especial" para ouvir aquilo em altos berros e de modo que a vizinhança ouça.
;-)
Obrigado pela lisonja, Lazuli. Não me imaginava capaz de ofuscar o brilho de um tal cantor romântico.
;-)
Mestre, esse gajo quase que me destrona os Evanescence do meu altar de ódios de estimação.
Temos pena, temos...
Eu é que não tenho pena nenhuma, Vanus de Blog.
E se pudesse deixava o fulano dentro de água, até que ele provasse que consegue fazer música de jeito...(sei que isto deveria demorar um bocado; mas é problema dele).
;-)
De facto,aqueles agudos não são normais num homem daquela idade... Deve cantar de coquilha mal apertada!
TOM, ouvir esse chato chorão é uma tortura cruel e injusta. Acho que estão a quebrar os supostos mebros da ALQEDA em Guntamano em 2 dias só de porem esse gajo a tocar. E a ONU ja considerou isso de uma desumanidade quase tão grande como passar os grates hits (?) do Nel Monteiro.
Acredito que poderias pedir solicitamente que, se querem se sentir bonitas, vão a uma festa de aldeia depois das 2h da manhã que os gajos que lá tão diriam tudo para não terem de ir ter com a ovelha (sorry Vanus) outra vez...
Se isso não resultar, executa o leitor de cd's onde esse sacriégio é tocado
Abraços, Mestre
;)
Sabes, Vintage. Analisando bem o video-clip consegue perceber-se o porquê de tão agudo registo.
É que a dada parte, o infeliz está sentado no chão em posição de lótus; chão este que é de tábuas velhas, frias, e cheias de farpas.
Daí que o seu tom de voz não seja o mais saudável.
(por outro lado, uma recente escola de pensamento sugere que os indivíduos de características efeminadas ou com um "piquinho a azedo" têm mais sorte com as mulheres).
;-)
Caro Terapia, se há crueldade que eu não consigo imaginar-me a cometer, seria a de executar alguém apenas porque lê (mesmo que só leia a merda dos CD's do James Blunt).
Apesar da tua teoria sobre as torturas cometidas pelos nossos irmãos cowboys, vou contar-te (aqui que ninguém nos ouve) a verdadeira história de James Blunt.
O tipo é um "adormecido". Ou seja, um agente islâmico infiltrado. Que foi escolhido entre 180 eunucos de voz fininha, para quando se tornasse necessário poder vingar afrontas reais ou imaginárias, sem piedade alguma pelos inimigos da fé.
PS - Has-de dizer-me em que terra é que é isso das ovelhas, para eu lá mandar as minhas vizinhas.
Abraço.
;-)
Terapia, estás àvontade. Eu sou uma ovelha especial, além de conseguir falar entre balidos, ainda sei fazer uns truques com os dentes e em duas patas só ;)
Mestre, este link do post é do melhor, especialmente o fim; ovelha que é ovelha nunca se deixa ficar :p
Eu sei, Vanus de Blog. Aquela última e heróica ovelha, tem todo o meu respeito e gratidão. E terá no paraíso de blog, um lugar naquele canto especial reservado para as melhores e mais lânzudas ovelhas.
Amén (ou isso)
;-)
Por via das dúvidas e uma vez que o James Blunt me lembra sempre "Il Castrati", deliciei-me a fazer-lhe pontaria com os tomates para onde mais falta lhe parecem fazer ;-)
:-)
Eu só consegui acertar-lhe com 188 tomates. Como não tem som, irei tentar outra vez... ;-)
Eu tentei acertar-lhe nas trombas, Hipatia. Mas o jogo seria melhor se ele ripostasse.
;-)
Eu aínda não consegui uma pontuação tão boa como tu, Cap.
Começo a rir-me, e isso dá-me cabo da concentração.
;-)
Se há posts brilhantes, este, é sem dúvida, um deles.
Fantástico.
Vivesses tu no meu "bairro" e estarias a provocar uma "micro-causa", essa coisa brilhante, inventada já neste século no mundo da blogosfera.
Teríamos então: "Importam-se as vizinhas e as senhoras em idade casadoira de explicar à sociedade porque razão o James Blunt faz parte dos seus quotidianos?".
As respostas viriam, em forma de guerra ou de decreto-lei!
Agora a brincar: Já não se aguentam os gemidos desse gajo!
Obrigado, Mad. Foi apenas uma pequena contribuição para um estudo mais alargado sobre a "álgebra da necessidade"...
LoL
;-)
Nikonman, meu caro. A provar-se que um homem tenha alguma vez fingido um orgasmo; será ele decerto o James Blunt. O tom de voz, pelo menos é o ideal...
;-)
Old Man,
como diria o bicho, és lindo!!
Vê lá se queres levar também com uma ovelha, ó Sniper...
;-)
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