A Redacção da Primavera
- Onde a estação é invadida pelo libertino de meia-idade, que lhe faz tudo menos comprar bilhete –
A Primavera é uma deliciosa confusão onde nada pára quieto; em que pelo ar vogam estranhos perfumes, como se montes de tias comichosas tivessem gasto várias embalagens de Brise.
E os poetas?
Os poetas, é vê-los a entrar e sair como marçanos afadigados com os seus cestos de compras… É uma estação inquieta em que tudo é permitido. Cheia de incertezas e promessas feitas, entre a frescura verde da relva recém-cortada e o morno toque do sol através de umas calças de ganga.
Primavera é corpo de flores e odores, como o Verão o é de frutos sumarentos.
A Primavera é uma rapariga de vestido ás flores, e não é preciso ser-se poeta para o dizer. Qualquer matrona por mais assexuada que seja, vê que se trata da altura em que o mundo borbulha como um tacho de “bouillabaisse”; é tempo de tirar a roupa e ficar um bom bocado sem a vestir.
É mesmo coisa de gajo comparar a Primavera a uma mulher. Sim, porque as mulheres não conseguem imaginar a Primavera, senão como a personificação delas próprias. É por isso que eu gosto da Primavera; e gosto tanto que já repeti a palavra três vezes neste parágrafo… São gostos…
A Primavera é facultativa, gratuita e completamente à borla, e só não a tem quem não quer. Mas devia ser permitido engarrafá-la. Assim, os mais desfavorecidos (os que nada conseguem sentir que os satisfaça) poderiam comprar um frasquinho dela, e à noite em casa, fazer uma festa com a primavera dos outros.
Começou hoje oficialmente a minha Primavera. E rio-me como um idiota nas trombas de tudo o que é aborrecido e bafiento, nas barbas de todos os pensadores sisudos que catalogam as ideias, as pessoas, a poesia e o amor… apenas para os tentar reduzir a uma miserável dimensão que é a sua.
Quando um tipo sente que todas as suas extremidades se rebelam como se tentassem alcançar a luz do sol, e os sentidos se aguçam a ponto de conseguir cheirar mudanças de humor… Bem, se não é a Primavera, então estou metido num lindo sarilho.
Música de Fundo
“Feeling Good” – Muse