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TheOldMan

 ...

28.6.06

Um Verão Estranho
- … ou afinal devia ter tirado as férias todas de uma vez… –

Há uma coisa que eu tenho e que já me foi por diversas vezes cobiçada. Trata-se da janela do meu gabinete na empresa que dá directamente para a rua, e que mercê da sua blindagem em chapa de aço perfurada me permite ver sem ser visto.

Até aqui tudo bem. A maioria de vós sem dúvida que considerará isso uma benesse inestimável; mas garanto-vos que é o suficiente para abalar toda a fé que possam ter na condição humana.

Sem dúvida que é gratificante ver como num dia de calor, uma mulata que se senta à sombra da varanda e com a maior das descontracções se dedica a apreciar a sua recente depilação ás virilhas. Garanto que é de fazer ganhar o dia a um tipo. Mas aquele mecanismo que preside ao equilíbrio de todas as forças do universo, já me tem enviado imagens de estarrecer (algumas delas ainda me fazem acordar de madrugada banhado em suor).

Estava eu hoje muito descansado a apreciar a diferença entre o bronzeado e o tom natural de pele de uma vizinha nossa, quando reparei que meu amo se encaminhava para a porta do escritório acompanhado por uma figura de aspecto tétrico, pálida e de olhar esgazeado. Ele trazia o Nosferatu até nós…

Para que não haja confusões passo a informar que não se trata do verdadeiro (o do Murnau), mas sim de um nosso ex-empregador que ganhou essa alcunha mercê do seu feitio bisonho e odor levemente putrefacto.

Fiquei depois a saber que meu amo quiçá movido por motivos altruístas, tinha decidido admitir ao serviço esse refinado filho da puta cuja missão passará a ser a de lhe servir como ilustração para a frase – “Vejam bem. Quem diria que uns anos depois sou eu a dar-lhe emprego a ele. As voltas que o mundo dá…

Mas voltemos à janela.

Nos dias de sol, há velhotas que ao regressarem do mercado aproveitam para poisar os sacos e descansar um pouco. Infelizmente (após olharem em volta) lembram-se também de escarafunchar o nariz ou procurar algo no decote; o que ultrapassa largamente a resistência deste vosso torturado narrador.

Hoje era um desses dias. Mas juro que apesar da Ti Floripes se ter sentado no canteiro em frente à janela a ajeitar as “meias de descanso”, ninguém me conseguiu convencer a sair do gabinete por pretexto algum.

As coisas começaram a desenrolar-se cerca de cinco minutos após meu amo e o Nosferatu terem entrado na sala de reuniões. O VH apareceu no patamar do 1º andar, e perguntou para baixo se alguém tinha encomendado pizza, pois havia no ar um cheiro a refogado; tendo-se retirado incomodado.

Instado mais tarde, meu amo confidenciou que ao lhe ter perguntado ele lhe disse usar uma “eau de toilette” chamada “Violetas de Parma”; embora eu estivesse capaz de jurar que se trava de extracto de queijo parmesão bem curado.

Desde longa data que o tipo cada vez que entra numa sala provoca sempre um estranho efeito em todos os presentes. Os cães uivam, a maior parte das pessoas começam a ficar muito pálidas e com dificuldade em respirar; e suspeito mesmo que ele não será alheio à “condição” que começou a afectar um dos meus peixes; que agora só nada de lado e com ar de quem está a fazer um grande frete.

À medida que decorria a entrevista, reparei (apesar de ter a porta fechada e os ver apenas através do vidro) que o ambiente da sala de reuniões se alterava ligeiramente.

Meu amo apesar da sua prática na instalação de sistemas de bombagem de esgotos e fossas sépticas, parecia encontrar-se prestes a ter um dos seus famosos ataques de asma; o que sem dúvida o iria matar, pois não duvido que uma inspiração profunda naquela maléfica atmosfera seria equivalente a uma boa dose de gás cianídrico.

Cerca de seis minutos depois disto, Miss Entropia declarou que tinha que ir dar sangue urgentemente e desapareceu sem ter ainda regressado. Só a mãe dela parecia não estar minimamente incomodada com os mortais eflúvios, tendo declarado quando lhe perguntaram – “Cheira assim um bocadinho a queijo, mas não me pareceu nada de especial”.

Aparentemente só eu consegui escapar incólume a este ataque de guerra bacteriológica, pois quando meu amo bateu à porta para me informar da admissão do velho cromo, coloquei-me ostensivamente de costas para a janela interior e fingi que os auscultadores do leitor de MP3 não me deixavam ouvir nada.

Já de saída o tipo parou em frente à janela blindada e introduziu a mão na camisa para coçar um sovaco, cheirando-a de seguida.

E eu iria jurar que o vi sorrir.

Acho que vou ter um Verão muito atribulado…

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(No meio disto tudo, quase me esquecia que o
Leonel Vicente comemora hoje o terceiro aniversário do seu “Memória Virtual” nascido como Aaanumberone mas sempre dedicado à informação. Parabéns pá!)

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Música de Fundo
Crazy” – Gnarls Barkley