Um Verão Estranho- … ou afinal devia ter tirado as férias todas de uma vez… –Há uma coisa que eu tenho e que já me foi por diversas vezes cobiçada. Trata-se da janela do meu gabinete na empresa que dá directamente para a rua, e que mercê da sua blindagem em chapa de aço perfurada me permite ver sem ser visto.
Até aqui tudo bem. A maioria de vós sem dúvida que considerará isso uma benesse inestimável; mas garanto-vos que é o suficiente para abalar toda a fé que possam ter na condição humana.
Sem dúvida que é gratificante ver como num dia de calor, uma mulata que se senta à sombra da varanda e com a maior das descontracções se dedica a apreciar a sua recente depilação ás virilhas. Garanto que é de fazer ganhar o dia a um tipo. Mas aquele mecanismo que preside ao equilíbrio de todas as forças do universo, já me tem enviado imagens de estarrecer (
algumas delas ainda me fazem acordar de madrugada banhado em suor).
Estava eu hoje muito descansado a apreciar a diferença entre o bronzeado e o tom natural de pele de uma vizinha nossa, quando reparei que meu amo se encaminhava para a porta do escritório acompanhado por uma figura de aspecto tétrico, pálida e de olhar esgazeado. Ele trazia o Nosferatu até nós…
Para que não haja confusões passo a informar que não se trata do verdadeiro (
o do Murnau), mas sim de um nosso ex-empregador que ganhou essa alcunha mercê do seu feitio bisonho e odor levemente putrefacto.
Fiquei depois a saber que meu amo quiçá movido por motivos altruístas, tinha decidido admitir ao serviço esse refinado filho da puta cuja missão passará a ser a de lhe servir como ilustração para a frase – “
Vejam bem. Quem diria que uns anos depois sou eu a dar-lhe emprego a ele. As voltas que o mundo dá…”
Mas voltemos à janela.
Nos dias de sol, há velhotas que ao regressarem do mercado aproveitam para poisar os sacos e descansar um pouco. Infelizmente (
após olharem em volta) lembram-se também de escarafunchar o nariz ou procurar algo no decote; o que ultrapassa largamente a resistência deste vosso torturado narrador.
Hoje era um desses dias. Mas juro que apesar da Ti Floripes se ter sentado no canteiro em frente à janela a ajeitar as “
meias de descanso”, ninguém me conseguiu convencer a sair do gabinete por pretexto algum.
As coisas começaram a desenrolar-se cerca de cinco minutos após meu amo e o Nosferatu terem entrado na sala de reuniões. O VH apareceu no patamar do 1º andar, e perguntou para baixo se alguém tinha encomendado pizza, pois havia no ar um cheiro a refogado; tendo-se retirado incomodado.
Instado mais tarde, meu amo confidenciou que ao lhe ter perguntado ele lhe disse usar uma “
eau de toilette” chamada “
Violetas de Parma”; embora eu estivesse capaz de jurar que se trava de extracto de queijo parmesão bem curado.
Desde longa data que o tipo cada vez que entra numa sala provoca sempre um estranho efeito em todos os presentes. Os cães uivam, a maior parte das pessoas começam a ficar muito pálidas e com dificuldade em respirar; e suspeito mesmo que ele não será alheio à “
condição” que começou a afectar um dos meus peixes; que agora só nada de lado e com ar de quem está a fazer um grande frete.
À medida que decorria a entrevista, reparei (
apesar de ter a porta fechada e os ver apenas através do vidro) que o ambiente da sala de reuniões se alterava ligeiramente.
Meu amo apesar da sua prática na instalação de sistemas de bombagem de esgotos e fossas sépticas, parecia encontrar-se prestes a ter um dos seus famosos ataques de asma; o que sem dúvida o iria matar, pois não duvido que uma inspiração profunda naquela maléfica atmosfera seria equivalente a uma boa dose de gás cianídrico.
Cerca de seis minutos depois disto, Miss Entropia declarou que tinha que ir dar sangue urgentemente e desapareceu sem ter ainda regressado. Só a mãe dela parecia não estar minimamente incomodada com os mortais eflúvios, tendo declarado quando lhe perguntaram – “
Cheira assim um bocadinho a queijo, mas não me pareceu nada de especial”.
Aparentemente só eu consegui escapar incólume a este ataque de guerra bacteriológica, pois quando meu amo bateu à porta para me informar da admissão do velho cromo, coloquei-me ostensivamente de costas para a janela interior e fingi que os auscultadores do leitor de MP3 não me deixavam ouvir nada.
Já de saída o tipo parou em frente à janela blindada e introduziu a mão na camisa para coçar um sovaco, cheirando-a de seguida.
E eu iria jurar que o vi sorrir.
Acho que vou ter um Verão muito atribulado…
******
(No meio disto tudo, quase me esquecia que o Leonel Vicente comemora hoje o terceiro aniversário do seu “Memória Virtual” nascido como Aaanumberone mas sempre dedicado à informação. Parabéns pá!)
******
Música de Fundo
“
Crazy” –
Gnarls Barkley