O Dilúvio
- Crónicas do futuro duvidoso –
O retinir da campainha que assinalava a mudança de marcha soou entre os gritos das gaivotas. O radarista Mendes saiu do refeitório dos praças com uma “sagres” na mão, e parando a meio da tolda viu à sua frente uma estrutura em ferro forjado – Nunca subi o elevador de Santa Justa… - disse a seu lado o “pastilhas” que era da Mealhada.
- E por este andar – respondeu-lhe ele – da próxima vez só o visitas de escafandro; que esta merda gelada tão cedo não deixa de subir. Com tanto satélite e tanta alta tecnologia, bem podiam ter notado que a parte interior do árctico estava liquefeita e só à espera que o gelo à volta se partisse.
O navio reduziu a marcha confundindo-se com as águas cinzentas, enquanto a seu lado desfilavam os telhados vermelhos.
Da “asa" da ponte a estibordo, o grumete Velez espreitou mais uma vez pelos binóculos e confirmou – Sr. Imediato, são seis e estão agarrados ao mastro da bandeira. Um deles está de “canadianas”…
O tenente Figueiredo, olhou aborrecido a estátua de D. Pedro IV que ia ficando para trás como um banhista com água pela cintura, e resmungou – Pavões do caralho! Tinham que continuar com as visitas oficiais mesmo em estado de emergência. – Voltou-se para dentro e ordenou – Parem a máquina e arreiem o escaler!
A campainha soou novamente, e o navio perdeu a pouca velocidade que levava, detendo-se a cerca de trinta metros do Teatro D. Maria II. O guincho de bombordo foi posto em funcionamento, enquanto a tripulação do escaler envergando os coletes de salvamento se perfilava empunhando os croques.
- Porque é que parámos? - Perguntou o comandante Noé, aparecendo na escotilha de meia-nau ainda a contas com uma tosta mista meio comida – Dei ordem para rumar à barra, e não para andar a brincar aos salvamentos pelo meio de Lisboa. Não temos espaço para bocas inúteis.
- Sr. Comandante – Explicou o imediato – Trata-se de uma delegação oficial que ficou encurralada no telhado do Teatro Nacional; temos que os resgatar.
- Isso é que era bom!... - contrapôs o comandante – Nem que fosse a Fernanda Serrano. Pensando bem; para ela ainda arranjava um espacinho no meu camarote. Agora esses tipos, não servem nem para lastro.
- Sr. Comandante! – gritou novamente o grumete Velez – Um deles está a agitar as “canadianas” e a tentar dizer qualquer coisa.
- Recolham o escaler! – ordenou o comandante Noé – Não podemos arriscar as nossas poucas embarcações nesta água cheia de destroços. Vamos dar meia volta, e eles que mergulhem e apanhem o Metro. Isto não é a Arca de Noé.
- Mas. Ó comandante… - tentou ainda o imediato – Um deles parece-me o Pri…
- Tás a ver se me chateias, Figueiredo? – Atalhou o Capitão-de-fragata deveras irritado – As ordens que me deram através da rádio, foi para não recolher ninguém e manter o navio de prontidão. – sorrindo, deu mais uma dentada na tosta – Todo o comandante deve manter-se com o seu navio. Eu sigo com o meu; e ele que se afunde com o dele. Máquina à ré, a toda a força!
O navio de guerra começou a afastar-se do edifício, enquanto os “encalhados” gesticulavam e emitiam brados que à distância soavam como guinchos de roedores enfurecidos.
- Rumem à barra e alcancem as doze milhas que eu vou “passar pelas brasas” até ao jantar. Quando chegarmos à Figueira da Foz virem à direita. Quero ver se estou em Gouveia amanhã por esta hora…
Música de Fundo
“Sunday Morning” – Maroon Five
- Crónicas do futuro duvidoso –
O retinir da campainha que assinalava a mudança de marcha soou entre os gritos das gaivotas. O radarista Mendes saiu do refeitório dos praças com uma “sagres” na mão, e parando a meio da tolda viu à sua frente uma estrutura em ferro forjado – Nunca subi o elevador de Santa Justa… - disse a seu lado o “pastilhas” que era da Mealhada.
- E por este andar – respondeu-lhe ele – da próxima vez só o visitas de escafandro; que esta merda gelada tão cedo não deixa de subir. Com tanto satélite e tanta alta tecnologia, bem podiam ter notado que a parte interior do árctico estava liquefeita e só à espera que o gelo à volta se partisse.
O navio reduziu a marcha confundindo-se com as águas cinzentas, enquanto a seu lado desfilavam os telhados vermelhos.
Da “asa" da ponte a estibordo, o grumete Velez espreitou mais uma vez pelos binóculos e confirmou – Sr. Imediato, são seis e estão agarrados ao mastro da bandeira. Um deles está de “canadianas”…
O tenente Figueiredo, olhou aborrecido a estátua de D. Pedro IV que ia ficando para trás como um banhista com água pela cintura, e resmungou – Pavões do caralho! Tinham que continuar com as visitas oficiais mesmo em estado de emergência. – Voltou-se para dentro e ordenou – Parem a máquina e arreiem o escaler!
A campainha soou novamente, e o navio perdeu a pouca velocidade que levava, detendo-se a cerca de trinta metros do Teatro D. Maria II. O guincho de bombordo foi posto em funcionamento, enquanto a tripulação do escaler envergando os coletes de salvamento se perfilava empunhando os croques.
- Porque é que parámos? - Perguntou o comandante Noé, aparecendo na escotilha de meia-nau ainda a contas com uma tosta mista meio comida – Dei ordem para rumar à barra, e não para andar a brincar aos salvamentos pelo meio de Lisboa. Não temos espaço para bocas inúteis.
- Sr. Comandante – Explicou o imediato – Trata-se de uma delegação oficial que ficou encurralada no telhado do Teatro Nacional; temos que os resgatar.
- Isso é que era bom!... - contrapôs o comandante – Nem que fosse a Fernanda Serrano. Pensando bem; para ela ainda arranjava um espacinho no meu camarote. Agora esses tipos, não servem nem para lastro.
- Sr. Comandante! – gritou novamente o grumete Velez – Um deles está a agitar as “canadianas” e a tentar dizer qualquer coisa.
- Recolham o escaler! – ordenou o comandante Noé – Não podemos arriscar as nossas poucas embarcações nesta água cheia de destroços. Vamos dar meia volta, e eles que mergulhem e apanhem o Metro. Isto não é a Arca de Noé.
- Mas. Ó comandante… - tentou ainda o imediato – Um deles parece-me o Pri…
- Tás a ver se me chateias, Figueiredo? – Atalhou o Capitão-de-fragata deveras irritado – As ordens que me deram através da rádio, foi para não recolher ninguém e manter o navio de prontidão. – sorrindo, deu mais uma dentada na tosta – Todo o comandante deve manter-se com o seu navio. Eu sigo com o meu; e ele que se afunde com o dele. Máquina à ré, a toda a força!
O navio de guerra começou a afastar-se do edifício, enquanto os “encalhados” gesticulavam e emitiam brados que à distância soavam como guinchos de roedores enfurecidos.
- Rumem à barra e alcancem as doze milhas que eu vou “passar pelas brasas” até ao jantar. Quando chegarmos à Figueira da Foz virem à direita. Quero ver se estou em Gouveia amanhã por esta hora…
Música de Fundo
“Sunday Morning” – Maroon Five

