A Igreja do Imaculado Blog
- A banhos com o Apóstolo -
Um vento fraco fazia drapejar a lona dos abrigos multicores espalhados pelas areias do Mar de Blog.
O Apóstolo parou, e com o “dedão” do pé direito empurrou uma pequena concha que rolou pela vaza; baixando-se de seguida para a apanhar. – Estás a ver esta merda? – Perguntou num tom levemente indignado. – Quando eu era puto bastava arrastar os pés pela areia para apanhar um monte de cadelinhas.
Não lhe respondi logo, pois estava imerso em considerações estatísticas sobre a média das mulheres que andam pela praia a ajeitar sistematicamente a parte inferior do bikini; encontrando-me nesse momento em atenta análise de um “case study” que circulava a cerca de dez metros.
– Sim… Deliciosas cadelinhas… - Respondi um pouco ao acaso, acabando por retomar o fio à meada – Mas sabes bem que isso da cadelinha “à babugem” é um mito como o das santolas da Trafaria. Eu só tenho menos sete anos que tu, e na minha altura isto já era um depósito de conchas vazias.
- Mas eu lembro-me, pá! – insistiu – nasci aqui e lembro-me que antigamente vínhamos à praia apanhar cadelinhas, e fazíamos depois umas belas patuscadas.
- Pois a minha melhor recordação dessa altura era o teatro D. Roberto – Respondi eu, sentindo um sorriso involuntário avançar inexoravelmente em direcção às minhas orelhas – Apesar de ser sempre o mesmo argumento, eu nunca me cansava de ver aquilo. Ainda consigo ouvir a discussão entre os fantoches, e o som nítido dos cacetes a baterem nas cabeças de madeira. Uma vez o tipo conseguiu surpreender-nos no fim do espectáculo; quando veio agradecer cá fora (e fazer o peditório, claro) trazia um olho pintado de roxo como se tivesse “levado” também…
- Pois – atalhou o Apóstolo que nisto de reminiscências é muito pragmático – Hás-de escrever isso no blog, que até fica bem. Mas eu tenho a certeza que aí por meados de 63 isto estava cheio de cadelinhas. Lembro-me, pá! Juro!...
O sol ia já alto, e os aromas de iodo e sal que pairavam no ar começavam já a fazer efeito sobre o nosso apetite; considerei eu. – E se fossemos ao “Camões” mandar abaixo uma dose de cadelinhas ou amêijoas?... – Perguntei ao Apóstolo – Têm é que ser bivalves. Que essas merdas de camarões e gambas, sabem quase sempre a pescada congelada
- Boa! – Concordou ele entusiasmado - Pelo caminho podemos ouvir uma colectânea de músicas do Adamo, que saquei ontem da net e passei para CD. Se quiseres até posso fazer-te uma cópia…
Contei mentalmente até dez missionários; e disfarçando um pequeno suspiro perguntei – Eu sei que quando morrer vou direitinho para o inferno. Mas é mesmo necessário antecipar a coisa?...
Música de Fundo
“Watch The Tapes” – LCD Sound System
- A banhos com o Apóstolo -
Um vento fraco fazia drapejar a lona dos abrigos multicores espalhados pelas areias do Mar de Blog.
O Apóstolo parou, e com o “dedão” do pé direito empurrou uma pequena concha que rolou pela vaza; baixando-se de seguida para a apanhar. – Estás a ver esta merda? – Perguntou num tom levemente indignado. – Quando eu era puto bastava arrastar os pés pela areia para apanhar um monte de cadelinhas.
Não lhe respondi logo, pois estava imerso em considerações estatísticas sobre a média das mulheres que andam pela praia a ajeitar sistematicamente a parte inferior do bikini; encontrando-me nesse momento em atenta análise de um “case study” que circulava a cerca de dez metros.
– Sim… Deliciosas cadelinhas… - Respondi um pouco ao acaso, acabando por retomar o fio à meada – Mas sabes bem que isso da cadelinha “à babugem” é um mito como o das santolas da Trafaria. Eu só tenho menos sete anos que tu, e na minha altura isto já era um depósito de conchas vazias.
- Mas eu lembro-me, pá! – insistiu – nasci aqui e lembro-me que antigamente vínhamos à praia apanhar cadelinhas, e fazíamos depois umas belas patuscadas.
- Pois a minha melhor recordação dessa altura era o teatro D. Roberto – Respondi eu, sentindo um sorriso involuntário avançar inexoravelmente em direcção às minhas orelhas – Apesar de ser sempre o mesmo argumento, eu nunca me cansava de ver aquilo. Ainda consigo ouvir a discussão entre os fantoches, e o som nítido dos cacetes a baterem nas cabeças de madeira. Uma vez o tipo conseguiu surpreender-nos no fim do espectáculo; quando veio agradecer cá fora (e fazer o peditório, claro) trazia um olho pintado de roxo como se tivesse “levado” também…
- Pois – atalhou o Apóstolo que nisto de reminiscências é muito pragmático – Hás-de escrever isso no blog, que até fica bem. Mas eu tenho a certeza que aí por meados de 63 isto estava cheio de cadelinhas. Lembro-me, pá! Juro!...
O sol ia já alto, e os aromas de iodo e sal que pairavam no ar começavam já a fazer efeito sobre o nosso apetite; considerei eu. – E se fossemos ao “Camões” mandar abaixo uma dose de cadelinhas ou amêijoas?... – Perguntei ao Apóstolo – Têm é que ser bivalves. Que essas merdas de camarões e gambas, sabem quase sempre a pescada congelada
- Boa! – Concordou ele entusiasmado - Pelo caminho podemos ouvir uma colectânea de músicas do Adamo, que saquei ontem da net e passei para CD. Se quiseres até posso fazer-te uma cópia…
Contei mentalmente até dez missionários; e disfarçando um pequeno suspiro perguntei – Eu sei que quando morrer vou direitinho para o inferno. Mas é mesmo necessário antecipar a coisa?...
Música de Fundo
“Watch The Tapes” – LCD Sound System
