Um Verão Diferente
- Versão “light” do caderno de viagem, para consumo casual e sem contra-indicações de qualquer tipo para as dietas de Verão. -
Nesta segunda parte das férias aproveitei para ler “La Rebelión De Las Masas” de José Ortega y Gasset. Independentemente da obra, achei imensa piada ao facto de a leitura poder ser uma espécie de “processamento assistido”; como se alguém se tivesse prontificado a ler para nós numa dicção clara e repousante.
Quando se trata de livros em português ou mesmo em inglês isso não me acontece pois são duas línguas em que me habituei a pensar, e a coisa flúi com naturalidade e sem qualquer tipo de “delay”. Mas tanto o francês como o espanhol são para mim línguas de estranhos com as quais pouco convivi, e sou por isso obrigado a utilizar entidades virtuais que me leiam aquelas palavras quase alienígenas.
Li até agora oito capítulos que ecoaram na minha mente com a voz calma de Fernando Rey, um pouco (penso que até de um modo bastante apropriado) ao estilo de Buñuel. Mas o local é por demais belo para que um tipo se consiga concentrar na leitura por muito tempo.
Kahf el Esfar (a caverna amarela) é uma espécie de praia algarvia, mas com menos gente e com o sol ao contrário. É também um local para onde se deve levar o mínimo possível; pois os dispositivos de alta tecnologia têm uma estranha tendência para se desvanecerem misteriosamente no ar (tirei todas as fotos com uma minúscula “Smart Mini3”).
Para ilustrar a advertência que Mamoud me fizera logo que cheguei, ficou o caso de um Italiano da Agip que passava imenso tempo a fotografar a namorada com uma daquelas máquinas digitais tipo “point and shoot”; e que estando numa zona praticamente isolada, foi vítima de uma proeza digna de David Coperfield.
Deduzimos mais tarde que alguém escalara o rochedo onde eles se encontravam “entretidos” e sub-repticiamente fez mão baixa do aparelho. Tive pena. Aliás a barriga dele parecia que tinha sido feita para servir de apoio à máquina; e após o desaparecimento desta, deixou de ter piada alguma.
Face a isto acabei por bater apenas algumas “chapas” com a webcam, e fiz o mosaico que está ali em cima (e que podem ver aqui em versão um pouco maior) sobre o qual coloquei o cartão do restaurante de Monsieur Nouar.
Monsieur Nouar é mais um dos inúmeros primos de Mamoud. E estou neste momento preparado para garantir a qualquer um que “primo” em dialecto berbere significa “alguém que nos paga percentagem”; mas a vida é tão miserável neste local e tão barata para os que aqui se aventuram, que não pensei sequer em contrariar a tendência. Deve ser difícil ganhar a vida quando pouca vida há para ganhar.
Proprietário do restaurante “Le Rocher” em Port Salamandre (Mostaganem), Monsieur Nouar aparentemente ficou a sentir por mim uma imensa simpatia. Se não fosse o seu bigode profusamente engraxado de “negro antracite”, ainda eu seria induzido a desconfiar da sua masculinidade.
Mas a razão pela qual nasceu a nossa eventual amizade, sem dúvida que viria a eliminar qualquer suspeita.
Foi inicialmente por causa de Edmond Ladoucette; e verdadeiramente por outro motivo bem mais interessante.
O nome, bem o sei, é pouco conhecido. Aliás também não o mereceria, pois o tipo em causa era daqueles que aproveitavam o trabalho de outros para servir de substrato ao que tentavam impingir aos seus leitores.
Mas na data em que me chegou às mãos “Le Masque de Fer – La Guerre des Camisards” (fim dos anos setenta), eu não fazia a mínima ideia de que o autor era apenas mais um dos abutres que debicavam o já esmifrado cadáver de Alexandre Dumas.
Estava então eu (já no Séc XXI) a meio de um peixe grelhado, e a explicar a Monsieur Nouar que lera pela primeira vez em francês guiado pelo sotaque sensual (porque como imensa gente, tinha a mania de falar francês colocando os lábios em configuração “cu de galinha”) de Jane Birkin, quando este olhou para mim com um olhar estranhamente afectuoso; puxou uma cadeira e sentou-se à mesa. Começando por confidenciar-me que também tivera por ela uma arrebatadora paixão de adolescente.
Manifestei-lhe uma absoluta concordância, especialmente quando comentou casualmente que ela tinha - …un merveilleux petit cul…
A partir daí a qualidade da minha estadia melhorou significativamente. Para começar, foi-me retirada da frente a sobremesa manhosa que ele próprio aconselhara; e disponibilizou-me mais tarde o seu acesso (pirateado) à net. Mas o sistema era muito “LowTech” para o que eu estou habituado, e assim apenas o usei quando estritamente necessário.
Mesmo assim já não foi mau. Mas quando tentei falar de Camus, foi-me respondido que apesar de argelino nunca ele o tinha lido. Talvez (calculo eu) por ser um “pied noir”, ou porque representasse uma época que gostariam de ver ali esquecida.
No último dia da minha permanência confeccionou-me (claro que não foi ele) um almoço especial, para que trouxesse comigo uma recordação duradoura:
Começámos com uma entrada de “poivrons farcis aux anchois” (uns diabólicos pimentos vermelhos recheados com anchovas), seguida de “Tadjine Kasbah” que é basicamente borrego rodeado de grão-de-bico, mas com um insólito travo a canela; tudo isto regado por um “Chateau Beni Chougrane” (Coteaux de Mascara), e coroado por um subtil “Glace au Jasmin”.
Pela minha parte, temo que a única recordação que lhe tenha deixado, além das nossas conversa, seja uma inscrição a marcador indelével num azulejo por debaixo do lavatório da casa de banho dos homens, onde se pode ler a enigmática frase – “O Alberto esteve aqui!”
Música de Fundo
“Trankillement” – Fatal Bazooka
- Versão “light” do caderno de viagem, para consumo casual e sem contra-indicações de qualquer tipo para as dietas de Verão. -
Nesta segunda parte das férias aproveitei para ler “La Rebelión De Las Masas” de José Ortega y Gasset. Independentemente da obra, achei imensa piada ao facto de a leitura poder ser uma espécie de “processamento assistido”; como se alguém se tivesse prontificado a ler para nós numa dicção clara e repousante.
Quando se trata de livros em português ou mesmo em inglês isso não me acontece pois são duas línguas em que me habituei a pensar, e a coisa flúi com naturalidade e sem qualquer tipo de “delay”. Mas tanto o francês como o espanhol são para mim línguas de estranhos com as quais pouco convivi, e sou por isso obrigado a utilizar entidades virtuais que me leiam aquelas palavras quase alienígenas.
Li até agora oito capítulos que ecoaram na minha mente com a voz calma de Fernando Rey, um pouco (penso que até de um modo bastante apropriado) ao estilo de Buñuel. Mas o local é por demais belo para que um tipo se consiga concentrar na leitura por muito tempo.
Kahf el Esfar (a caverna amarela) é uma espécie de praia algarvia, mas com menos gente e com o sol ao contrário. É também um local para onde se deve levar o mínimo possível; pois os dispositivos de alta tecnologia têm uma estranha tendência para se desvanecerem misteriosamente no ar (tirei todas as fotos com uma minúscula “Smart Mini3”).
Para ilustrar a advertência que Mamoud me fizera logo que cheguei, ficou o caso de um Italiano da Agip que passava imenso tempo a fotografar a namorada com uma daquelas máquinas digitais tipo “point and shoot”; e que estando numa zona praticamente isolada, foi vítima de uma proeza digna de David Coperfield.
Deduzimos mais tarde que alguém escalara o rochedo onde eles se encontravam “entretidos” e sub-repticiamente fez mão baixa do aparelho. Tive pena. Aliás a barriga dele parecia que tinha sido feita para servir de apoio à máquina; e após o desaparecimento desta, deixou de ter piada alguma.
Face a isto acabei por bater apenas algumas “chapas” com a webcam, e fiz o mosaico que está ali em cima (e que podem ver aqui em versão um pouco maior) sobre o qual coloquei o cartão do restaurante de Monsieur Nouar.
Monsieur Nouar é mais um dos inúmeros primos de Mamoud. E estou neste momento preparado para garantir a qualquer um que “primo” em dialecto berbere significa “alguém que nos paga percentagem”; mas a vida é tão miserável neste local e tão barata para os que aqui se aventuram, que não pensei sequer em contrariar a tendência. Deve ser difícil ganhar a vida quando pouca vida há para ganhar.
Proprietário do restaurante “Le Rocher” em Port Salamandre (Mostaganem), Monsieur Nouar aparentemente ficou a sentir por mim uma imensa simpatia. Se não fosse o seu bigode profusamente engraxado de “negro antracite”, ainda eu seria induzido a desconfiar da sua masculinidade.
Mas a razão pela qual nasceu a nossa eventual amizade, sem dúvida que viria a eliminar qualquer suspeita.
Foi inicialmente por causa de Edmond Ladoucette; e verdadeiramente por outro motivo bem mais interessante.
O nome, bem o sei, é pouco conhecido. Aliás também não o mereceria, pois o tipo em causa era daqueles que aproveitavam o trabalho de outros para servir de substrato ao que tentavam impingir aos seus leitores.
Mas na data em que me chegou às mãos “Le Masque de Fer – La Guerre des Camisards” (fim dos anos setenta), eu não fazia a mínima ideia de que o autor era apenas mais um dos abutres que debicavam o já esmifrado cadáver de Alexandre Dumas.
Estava então eu (já no Séc XXI) a meio de um peixe grelhado, e a explicar a Monsieur Nouar que lera pela primeira vez em francês guiado pelo sotaque sensual (porque como imensa gente, tinha a mania de falar francês colocando os lábios em configuração “cu de galinha”) de Jane Birkin, quando este olhou para mim com um olhar estranhamente afectuoso; puxou uma cadeira e sentou-se à mesa. Começando por confidenciar-me que também tivera por ela uma arrebatadora paixão de adolescente.
Manifestei-lhe uma absoluta concordância, especialmente quando comentou casualmente que ela tinha - …un merveilleux petit cul…
A partir daí a qualidade da minha estadia melhorou significativamente. Para começar, foi-me retirada da frente a sobremesa manhosa que ele próprio aconselhara; e disponibilizou-me mais tarde o seu acesso (pirateado) à net. Mas o sistema era muito “LowTech” para o que eu estou habituado, e assim apenas o usei quando estritamente necessário.
Mesmo assim já não foi mau. Mas quando tentei falar de Camus, foi-me respondido que apesar de argelino nunca ele o tinha lido. Talvez (calculo eu) por ser um “pied noir”, ou porque representasse uma época que gostariam de ver ali esquecida.
No último dia da minha permanência confeccionou-me (claro que não foi ele) um almoço especial, para que trouxesse comigo uma recordação duradoura:
Começámos com uma entrada de “poivrons farcis aux anchois” (uns diabólicos pimentos vermelhos recheados com anchovas), seguida de “Tadjine Kasbah” que é basicamente borrego rodeado de grão-de-bico, mas com um insólito travo a canela; tudo isto regado por um “Chateau Beni Chougrane” (Coteaux de Mascara), e coroado por um subtil “Glace au Jasmin”.
Pela minha parte, temo que a única recordação que lhe tenha deixado, além das nossas conversa, seja uma inscrição a marcador indelével num azulejo por debaixo do lavatório da casa de banho dos homens, onde se pode ler a enigmática frase – “O Alberto esteve aqui!”
Música de Fundo
“Trankillement” – Fatal Bazooka
