Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

(Posto que me será bastante difícil escrever algo minimamente aceitável antes da próxima sexta-feira, aproveito esta pequena paragem para um conto)

Hiato no Tempo
- Um dia provar-se-á ser o tempo aquilo que mais valor tem em todos os universos. Pois sem ele nada existe; nem mesmo o amor. Esse sentimento para o qual todos devíamos ter tempo… -

Cautelosamente ela olhou o céu onde as nuvens se tornavam já esparsas após o aguaceiro pré-programado; e dissimulando-se na sombra do toldo, esgueirou-se por entre as cadeiras que empinadas sobre as mesas da esplanada do “Bistro des Bons Amis”, aguardavam o início de mais um turno.

Algures esquecidas entre as poeirentas páginas dos antigos livros de história, encontravam-se tanto a data como o motivo pelo qual a humanidade começara a viver repartidamente. Mas fora sem dúvida uma solução eficiente; pois o mundo tornara-se mais confortável, mais limpo e (diziam) mais livre.

Evitando ruídos que poderiam tornar-se denunciadores, abriu uma das portas de serviço entrando na área de lazer dos funcionários onde se encontrava a entrada do armazenamento temporário; e centenas de corpos hirtos se alinhavam dentro de cilindros acrílicos, percorridos por uma suave neblina azulada de gases raros bombeados a baixa temperatura.

Reconheceu-lhe o cheiro mesmo antes de sentir a mão, que apoiando-se-lhe na cintura a fez voltar-se.

Introduzindo-lhe as mãos violentamente por entre os botões da camisa, percorreu-lhe com elas as últimas costelas como teclas num piano até terminar nas costas. A respiração dele junto ao seu cabelo fez-lhe descer pelo pescoço uma gota de frio, que na base da coluna vertebral se transmutou em fogo líquido desaguando para o interior das virilhas.

Uma ligeira convulsão de desejo impulsionou-lhe o diafragma num pedido quase verbalizado, que ele rapidamente abafou nos seus lábios grossos e escuros como os de um ídolo de terracota.

Sofregamente as bocas confundiram-se, enquanto as mãos buscavam contacto como silenciosos animais das profundezas oceânicas. Percorrendo-se assim mutuamente, como que a recapitular corpos esquecidos na urgência de um tempo demasiado breve. Empurrou-o docemente até um banco comprido que se encontrava perto da parede onde o fez sentar.

Apoiando-se-lhe nas coxas musculadas e utilizando-as como sela, entreabriu a túnica e introduziu-o em si. Cavalgando numa ânsia desvairada. Entrecortada apenas por pequenos gemidos, que eram já abafados pelo ruído dos ventiladores cujos motores se haviam entretanto ligado.

Os algarismos do relógio na parede adquiriram uma coloração fosforescente, iniciando uma contagem inversa de 160 segundos; enquanto do exterior vinham já os sons habituais do rádio e do balcão frigorífico que tinham entrado automáticamente em funcionamento.

O peito explodiu-lhe num grito que rapidamente escondeu na boca dele. Este, num frenesim mudo cingia-a pelas nádegas, onde as suas mãos se imprimiam na pele rosada como pálidas estrelas-do-mar.

O zumbido dos últimos 60 segundos fez-se ouvir através dos altifalantes de parede.

Com um último beijo ela soltou-se, e sempre silenciosamente correu para a área de armazenamento temporário; onde entrou numa das cabinas que instantaneamente se tornou opaca. Acendendo automaticamente o painel de presença para a contagem.

Deitado no banco comprido, o homem contemplava o tecto com a mente totalmente vazia e os olhos perdidos algures numa memória esquiva.

O zumbido dos últimos 60 segundos terminou com duas notas de carrilhão; transmitindo a informação que o tempo voltara a reajustar-se. Os utilizadores autorizados para o turno que se iniciava começaram a sair das suas cabinas, perdendo-se nas ruas em direcção às suas vidas e ocupações habituais.

Passando pela esplanada onde os primeiros frequentadores se sentavam já, o homem não conseguiu evitar um sorriso melancólico à vista dos outros que descontraidamente iniciavam o seu dia. Como se o mundo não fosse agora um enorme hotel onde se dormia por turnos, e os amantes se escondiam nas breves transições entre realidades.

Onde o amor era finalmente possível, mas apenas em tempo suspenso…


Música de Fundo
Stop And Stare” – One Republic

26 comentários:

vanus de Blog disse...

Está tão, mas tão bonitinho, meu Mestre :)
A ideia é belíssima, especialmente por ser até tão simples, mas com todas as possibilidades de imaginarmos para lá do texto, e isso, como sabes, é o que acontece quando a escrita é grande.
nem preciso de falar nas palavras ou no que elas despertam, na forma como estão escritas e nos levam, cheias de si e nós.
realmente muito farmer: muito corpo, muito dois, muito suspenso entre a realidade; há sempre uma forma, há sempre alguém ;)

És o maior. És o Mestre, ainda, sempre.
Beijo

TheOldMan disse...

Obrigado, Vanus de Blog.

Aínda bem que gostas, pois antes de oito dias é pouco possivel que haja post (tou mesmo quase de férias).

Sou apenas um "velhote" que escreve...

;-))

Beijo

maria_arvore disse...

Posso bater palmas?... (é que fiquei suspensa e não consigo dizer mais nada :)

cap disse...

Trata mazá de segurar o copyright antes dos mamaricanos te levarem o tema para um novo Matrix. ;-)

Abraço!

cap disse...

mazá=mazé

Catró disse...

Até ao dia em que se acorda e temos um bilhete em cima da mesa a dizer "Fui para casa. Depois falamos."

TheOldMan disse...

Obrigado, Maria Árvore.

Faz parte dos "festejos comemorativos".

;-)

TheOldMan disse...

Não vale a pena, CAP.

São ideias que dão bastante trabalho a explorar; por isso não deve haver esse perigo.

;-)

Abraço

TheOldMan disse...

Isso faz parte da natural dinâmica dos pares (e triades), Catró.

Fazer com que não aconteça, está geralmente ao alcance dos interessados (que podem por sua vez não estar interessados).

É um outro tipo de conto.

;-)

The F Word disse...

Gosto tanto, tanto.

A hipótese de se querer/poder against all odds é qualquer coisa de pueril que continua teimosamente a agradar-me.

Excelente abertura das festas. :)

TheOldMan disse...

Também me agrada imenso, "the f word".

Embora dispense largamente a música do Phill Collins... (e o filme era fraquito).

;-)

efe disse...

viver à vez? caminhamos para lá. Portugal vai ser pioneiro e o teu conto deixa de ser ficção.

;)

TheOldMan disse...

Obrigado, Francisco.

Só estou à espera que o Sr. "Enginheiro" reconheça o valor do projecto e se chegue à frente.

;-)

efe disse...

se te chegares à frente, o suficiente, ele dá-te um vale de 1000 L s/chumbo para a tua bicla. Se te chegares demasiado, apanhas com 1000 zagalotes de chumbo, que nem a bicla desvairada em ladeira abaixo te salva.

;D

este país é uma peça cómica, só que nós não estamos na plateia mas sim no placo.

TheOldMan disse...

O quê? Francisco de Blog... Ficar de costas para o "enginheiro"?

Já te esqueceste do que dizem em relação ao Diodgo Infante? Eu nestes casos mantenho-me saudávelmente perto das paredes.

Sim, e cada vez há mais falta de adereços... Esta Produção é uma merda.

;-)

efe disse...

Artaud, Beckett, Adamov e Ionesco são simples amadores, comparados com os encenadores PS (pandilha socretina).
E o público gosta!!! É absurdo!

TheOldMan disse...

É natural, Francisco de Blog.

A Maçonaria ao longo dos anos acumulou não só uma imensa rede de contactos e apoiantes, como também um notório àvontade no que diz respeito.

Bem dizia o Jacques Bergier que a forma de governo usada no futuro será a "Sociedade Secreta".

;-)

TheOldMan disse...

O "àvontade" era com a psicologia de massas.


Vê lá bem a influência deles, que até conseguiram cortar-me parte da frase.

;-)

naked sniper disse...

e eu a pensar q a cena da sexta-feira era um bluff...

TheOldMan disse...

Não, Sniper.

O meu trabalho é uma amante muito exigente, embora tenha alturas em que mais se compara a uma furiosa "ex" munida de uma machadinha afiada.

(Não ligues. Isto sou apenas eu cheio de trabalho. É o S.A.F.2008)

;-)

efe disse...

A maçonaria, em regime democrático, não é uma associação de malfeitores?
Gente que se reúne secretamente para discutir "negócios" públicos e privados à sombra do conhecimento público???

Pois, vamos verificando que os "alucinados" Charroux, Powells, Bergier e outros, tinham razão. Estou à espera que as teorias das "Desaparições Misteriosas" se concretizem no estrato político nacional, mas parece-me que quem vai desaparecendo...é o povo.
É o "Despertar dos Mágicos", tá visto.

;D

TheOldMan disse...

Segundo os estatutos, Francisco de Blog, é uma associação de trolhas não sindicalizados que há centenas de anos cochicha pelos cantos sabe-se lá o quê.

Têm porém algumas funções cumuns às agremiações mutualistas (tal como os Ismaelitas); apostando muito na mútua ajuda (omertá) como frase de choque para a suavização da imagem semi-mafiosa que mesmo assim transmitem.

O "despertar dos mágicos" (neste caso) está directamente dependente da "sonolência do público"; mas parece que o pessoal só se mexe quando as chamas lhes lambem o traseiro (é a puta da natureza humana).

Podes crer que vivemos naquilo que se pode fácilmente chamar de "realismo fantástico". Uma espécie de surrealismo mas em vertente socio-política.

;-)

efe disse...

Oh Mestre, "Realismo Fantástico" ainda dá confusão com a invenção do
cubano Alejo Carpentier "O Reino deste Mundo - 1949" e seus seguidores, como García Márquez. Troquemos isso por Realejo Fantástico, que se enquadra melhor neste jardinzinho litoral.

TheOldMan disse...

Temos pena mas não pode ser, Francisco de Blog.

"Realismo Fantástico" é um termo que se aplica há já cerca de 55 anos, relativamente ao imaginário hermético que impulsionava todo o regime nazi.

Foi o Bergier que o inventou.

Mas "Realejo Fantástico" é algo que assenta no Sócrates como um preservativo (especialmente se pensarmos na parte do macaquinho...)

;-)

efe disse...

Ora, então e o estatuto de precedência?

Mas tá bem, desde que entre um macaquinho na coisa, o statu quo mantém-se. Continua tudo normal no jardim.
;)

TheOldMan disse...

Ora, Francisco de Blog.

O Tipo merece muito mais receber o macaquinho; e o bicho até se pode pendurar nas alças do avental e tudo...

;-)

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