
O Regresso do Intrépido Explorador das Dúzias
- E a fantástica descoberta de mais um novo bicho, que irá enriquecer a já tão vasta fauna suburbana da Margem Sul -
Já perdi a conta aos posts sobre o regresso, profundos e cheios de significado, que escrevi para depois apagar. Nada disso tem mais sentido do que dizer apenas que resolvi aparecer. Não sei se por muito ou pouco tempo; mas a vida sem blog pode ser tão aborrecida quanto o ter que pensar em algo para publicar aqui regularmente.
Durante estes seis meses pouco se passou que seja digno de nota. Fiz praia, trabalhei, escondi-me um tempo na serra e ajudei a combater um incêndio durante o qual tive um episódio cósmico com um ouriço; o que me fez reavaliar um monte de outras coisas que nada tinham a ver com o assunto.
Mas estes primeiros tempos da “Segunda Vinda”, não deverão ser tão aborrecidos assim. Pois além de nos encontrarmos em plena época venatória no que diz respeito à classe política. Nenhum dos principais candidatos merece mais credibilidade que o seu colega do partido ao lado; o que na prática equivale a dizer que desta vez não existem espécies protegidas.
Irei também falar-vos mais em pormenor de uma nova idiossincrasia do mundo animal.
O “Decibélico Celular Ambulatório” é uma espécie cujo habitat pode ser estabelecido em qualquer zona mais “chunga”, embora eu os tenha observado principalmente na região do Bairro Amarelo (onde predominam as variantes “Africansis” e “Romani”) e a bordo do Grande Trem da Selva (também conhecido como MTS).
Mas uma vez que comecei a falar dele, o melhor é despachar já o assunto.
O Decibélico Celular Ambulatório (ou DCA) é uma ave canora que compensa a sua fraca plumagem com a exibição de dispositivos de alta tecnologia (normalmente um telemóvel), de onde emite os seus apelos de acasalamento e/ou de desafio territorial em tom “Techno”, “Kuduro ou “Kizomba”.
Devido à originalidade dos seus rituais e ao volume com que emite os seus chamamentos, o DCA começa já a ser alvo de caçadores furtivos e traficantes de animais raros; que normalmente operam disfarçados de revisores do MTS.
Hoje, por exemplo, seguia eu muito descansadinho no MTS em direcção à Selva Amarela (e rosa, e branca, etc.) quando fui surpreendido por um súbito “Huntzzz-huntzzz” que se ouvia cerca de dois bancos atrás de mim. Instantaneamente reconheci o canto característico do Decibélico Celular Ambulatório, na sua fase de desafio territorial.
Para os que ainda não tiveram a insólita experiência de encontrar um destes animais, aviso que a sua primeira tendência será a de se levantar, dar-lhe um par de tabefes e atirar a merda do telemóvel pela janela.
Mas não consideramos aconselhável esse tipo de abordagem; pois embora ainda não seja uma espécie protegida, é quase maioritariamente composta por espécimes muito jovens. O que normalmente desperta a piedade e subsequente repulsa sobre o agressor, por parte de todos os organismos de protecção ao ambiente e associações de pais.
De qualquer modo, as janelas do Grande Trem da Selva também não abrem. Isto talvez por causa das serpentes ou apenas devido a este ter ar condicionado.
Mas dizia eu… Ah!... Mal ouvi os primeiros trinados desta ave assaz irritante, olhei disfarçadamente o reflexo no vidro da janela; constatando que o espécime em causa era um jovem de cabelo oleoso (sem dúvida da variedade Romani), que exibia aos seus amigos um telemóvel de onde saia toda aquela cacofonia; tão ao gosto de antropólogos e assistentes sociais, Que julgam através dos sons assim emitidos, adivinhar a personalidade e estado de espírito da referida bicheza.
Mas entretanto a composição estava a chegar à estação onde normalmente saio. Um local semi-devastado por selvagens indígenas, que sistemática e regularmente vandalizam as cercanias. Tendo já partido o relógio e o quadro eléctrico dos horários; assim como os vidros do abrigo junto à bilheteira, que já foram substituído várias vezes.
Preparei-me para sair. Mas por alguma razão desconhecida as portas não se abriam.
Entretanto, logo atrás de mim, o DCA e os seus amigos um pouco alvoroçados, carregavam freneticamente no botão de abertura das portas; enquanto lançavam olhares inquietos para o outro extremo da composição.
Os meus sentidos treinados por inúmeros anos de permanência na selva (trabalho no Bairro Amarelo há 12 anos), fizeram-me notar um caçador furtivo disfarçado de revisor do MTS, que displicentemente encostado a um varão brincava com o leitor de cartões.
Passei por ele, e dirigi-me a outros dois que se encontravam a bloquear a única porta aberta no extremo da composição; a quem mostrei o passe enquanto saía para a rua.
Atrás de mim, o Decibélico Celular Ambulatório gaguejava algumas justificações que não evitaram o preenchimento do impresso de multa. Ficando desta vez provado, que além da fraca plumagem e do seu estridente sistema de comunicação, o DCA tem também o hábito de tentar andar nos transportes públicos sem bilhete.
Música de Fundo
Big Sur - The Thrills
- E a fantástica descoberta de mais um novo bicho, que irá enriquecer a já tão vasta fauna suburbana da Margem Sul -
Já perdi a conta aos posts sobre o regresso, profundos e cheios de significado, que escrevi para depois apagar. Nada disso tem mais sentido do que dizer apenas que resolvi aparecer. Não sei se por muito ou pouco tempo; mas a vida sem blog pode ser tão aborrecida quanto o ter que pensar em algo para publicar aqui regularmente.
Durante estes seis meses pouco se passou que seja digno de nota. Fiz praia, trabalhei, escondi-me um tempo na serra e ajudei a combater um incêndio durante o qual tive um episódio cósmico com um ouriço; o que me fez reavaliar um monte de outras coisas que nada tinham a ver com o assunto.
Mas estes primeiros tempos da “Segunda Vinda”, não deverão ser tão aborrecidos assim. Pois além de nos encontrarmos em plena época venatória no que diz respeito à classe política. Nenhum dos principais candidatos merece mais credibilidade que o seu colega do partido ao lado; o que na prática equivale a dizer que desta vez não existem espécies protegidas.
Irei também falar-vos mais em pormenor de uma nova idiossincrasia do mundo animal.
O “Decibélico Celular Ambulatório” é uma espécie cujo habitat pode ser estabelecido em qualquer zona mais “chunga”, embora eu os tenha observado principalmente na região do Bairro Amarelo (onde predominam as variantes “Africansis” e “Romani”) e a bordo do Grande Trem da Selva (também conhecido como MTS).
Mas uma vez que comecei a falar dele, o melhor é despachar já o assunto.
O Decibélico Celular Ambulatório (ou DCA) é uma ave canora que compensa a sua fraca plumagem com a exibição de dispositivos de alta tecnologia (normalmente um telemóvel), de onde emite os seus apelos de acasalamento e/ou de desafio territorial em tom “Techno”, “Kuduro ou “Kizomba”.
Devido à originalidade dos seus rituais e ao volume com que emite os seus chamamentos, o DCA começa já a ser alvo de caçadores furtivos e traficantes de animais raros; que normalmente operam disfarçados de revisores do MTS.
Hoje, por exemplo, seguia eu muito descansadinho no MTS em direcção à Selva Amarela (e rosa, e branca, etc.) quando fui surpreendido por um súbito “Huntzzz-huntzzz” que se ouvia cerca de dois bancos atrás de mim. Instantaneamente reconheci o canto característico do Decibélico Celular Ambulatório, na sua fase de desafio territorial.
Para os que ainda não tiveram a insólita experiência de encontrar um destes animais, aviso que a sua primeira tendência será a de se levantar, dar-lhe um par de tabefes e atirar a merda do telemóvel pela janela.
Mas não consideramos aconselhável esse tipo de abordagem; pois embora ainda não seja uma espécie protegida, é quase maioritariamente composta por espécimes muito jovens. O que normalmente desperta a piedade e subsequente repulsa sobre o agressor, por parte de todos os organismos de protecção ao ambiente e associações de pais.
De qualquer modo, as janelas do Grande Trem da Selva também não abrem. Isto talvez por causa das serpentes ou apenas devido a este ter ar condicionado.
Mas dizia eu… Ah!... Mal ouvi os primeiros trinados desta ave assaz irritante, olhei disfarçadamente o reflexo no vidro da janela; constatando que o espécime em causa era um jovem de cabelo oleoso (sem dúvida da variedade Romani), que exibia aos seus amigos um telemóvel de onde saia toda aquela cacofonia; tão ao gosto de antropólogos e assistentes sociais, Que julgam através dos sons assim emitidos, adivinhar a personalidade e estado de espírito da referida bicheza.
Mas entretanto a composição estava a chegar à estação onde normalmente saio. Um local semi-devastado por selvagens indígenas, que sistemática e regularmente vandalizam as cercanias. Tendo já partido o relógio e o quadro eléctrico dos horários; assim como os vidros do abrigo junto à bilheteira, que já foram substituído várias vezes.
Preparei-me para sair. Mas por alguma razão desconhecida as portas não se abriam.
Entretanto, logo atrás de mim, o DCA e os seus amigos um pouco alvoroçados, carregavam freneticamente no botão de abertura das portas; enquanto lançavam olhares inquietos para o outro extremo da composição.
Os meus sentidos treinados por inúmeros anos de permanência na selva (trabalho no Bairro Amarelo há 12 anos), fizeram-me notar um caçador furtivo disfarçado de revisor do MTS, que displicentemente encostado a um varão brincava com o leitor de cartões.
Passei por ele, e dirigi-me a outros dois que se encontravam a bloquear a única porta aberta no extremo da composição; a quem mostrei o passe enquanto saía para a rua.
Atrás de mim, o Decibélico Celular Ambulatório gaguejava algumas justificações que não evitaram o preenchimento do impresso de multa. Ficando desta vez provado, que além da fraca plumagem e do seu estridente sistema de comunicação, o DCA tem também o hábito de tentar andar nos transportes públicos sem bilhete.
Música de Fundo
Big Sur - The Thrills

6 comentários:
Quel maravilhe.É que é tudo tal e qual, tal e qualinho. Palmas.
Dei uma valente gargalhada na parte dos tabefes e atirar o aparelho pela janela. Quem nunca sentiu essa tentação?
Ai, ai.
:)))
(senti a tua falta, velhote)
O Grande Trem da Selva é um manancial de matéria para posts, I.
Aliás, como toda a área onde passo o meu dia.
;-))
Olá, Hipatia.
É bom estar de volta.
;-))
Ourico?
Essa historia deve merecer post!
Por falar em especies protegidas, eu hoje vi 3 bambis a travessar a rua.
Bjs
Giso
Olá Giso, talvêz dê lá mais para a frente; num "Igreja do Imaculado Blog" ou assim...
Mas foi giro.
Quanto aos bambis... Vê-se que estás um pouco (LoL) longe. Lá por onde estive era mais salamandras e javalis.
;))
Bjs
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