Foto: NetUm Tédio De Post
- Onde o autor começa por se mostrar aborrecido ao bom modo queirosiano de Dâmaso Salcede, dando depois a impressão que dissertará sobre um dos mais prementes debates da blogosfera, acabando por se pirar “à francesa” em direcção à noite que chegará breve -
Eu devia escrever aqui algo
Mas uma das coisas a que me habituei ultimamente, desde a minha desistência da “escrita pública” no princípio do ano, foi sublimar isso em relaxantes passeios ou na leitura de um livro.
Infelizmente neste momento não é o caso. Porque por muito que desejasse caminhar por entre as gentes, ou quase atropelar alguns com a bicicleta, um emprego é algo restritivo e embora goze de uma relativa liberdade, há sempre que manter uma certa auto-disciplina.
E como não posso pôr-me para aqui a ler como se estivesse confortavelmente em casa, escrevo. Escrevo o que me vem à cabeça e que possa aqui publicar sem ferir susceptibilidades. Mas tenho que confessar que esta coisa azul em que me estão a ler me entedia profundamente.
Por isso escrevo sobre sentimentos insignificantes, como o tédio, o enfado e uma comichão no mindinho que me leva a crer estar a começar a adivinhar alguma coisa (é o meu dedo adivinho).
Poderia escrever sobre o amor, a crise, o Natal, o sexo, ou apenas papaguear o que leio nos jornais e vejo na TV. Mas o meu projecto privado de escrita absorve todos os meus textos. E quanto ao resto tenho que manter um certo standard, se quero continuar a criticar os outros sobre esse mau hábito, que é insistir em publicar noticias (aqueles a quem chamo “Os Bloggers do Óbvio”) que outros já deram anteriormente.
Vou pois falar-vos da privacidade e do anonimato (mas só um “cadinho”).
Já há tempo que venho a assistir ao aumento das guerrinhas entre anónimos, pseudo-anónimos e entidades reais. Sendo estas últimas bastante escassas devido a um dos principais motivos que trazem as pessoas para a blogosfera; dizer aqui algo que não podem ou não querem dizer noutro lado.
Não interessam agora para o caso os múltiplos possíveis motivos que possam mover cada um, mas basicamente esta é uma via de comunicação alternativa; e durante muito tempo utilizei-a para “medir o pulso” à minha escrita. Isto para não ter que fazer como Walt Whitman e impingi-la porta-a-porta.
Mas sou o que se chama “um indivíduo sob declarada identidade falsa”. Existem ainda “indivíduos sob identidade falsa não declarada” (os tais que juram por todos os santinhos que o seu nome é mesmo “de Ayres-Miguéis”), os de “identidade delirante” (que dizem ser de outro sexo e talvez oriundos de uma galáxia distante) e finalmente uma escassa minoria composta por pessoas que são quem (embora nem sempre “aquilo”) na verdade dizem ser.
Estes últimos dividem-se ainda entre três sub-espécies. Figuras públicas, cidadãos privados e “wannabes”. Sendo este último caso (para os que não se encontrem familiarizados com o termo) o de alguém que sendo cidadão privado, veio para aqui na mira de se tornar figura pública ou reforçar a sua imagem sem nada de concreto em que apoiar tal pretensão (e a quem eu acho mais divertido apelidar de “poseurs”).
E é então entre esta babilónia de tipos e sub-tipos, que se tem travado uma guerra surda ao estilo das rapariguinhas da C+S. Com insultos, intrigas, cibernéticos puxões de cabelos, e os inevitáveis “Odeio-te! Odeio-te! Odeio-te!”. O que é divertidíssimo; pois a maior parte deles parecem ser homens já de uma certa idade.
Mas como já anteriormente vos disse (se a memória não me falha), tenho nos últimos meses achado o “mundo analógico” muito mais interessante e descomplicado. Coisa que não me motiva para longas dissertações blogosféricas sobre a privacidade (coisa em que a “Electronic Frontier Foundation” está bem mais informada que eu), ou seja lá sobre o que for.
De qualquer modo está na hora de terminar esta pequena pausa e voltar ao que estava a fazer, antes que fiquemos aqui todos a bocejar em coro.
E eu tenho que me manter desperto que hoje é sexta-feira (at last).
Música de Fundo
“All The Right Moves” – One Republic
