Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010




Foto: Net

O Tempo Dos Amnésicos
- …ou a História contada por quem não nasceu ontem –

Ah, os inquietos anos oitenta… Época de maus penteados, políticos esquizofrénicos e economistas de “vão de escada”. Ou seja, parece que foi nem há quinze minutos.

A palavra “austeridade” começava então a ser usada tão amiúde, que se arriscava a perder o significado. Coisa que sem dúvida aconteceu. Pois hoje em dia apenas o povo (que é assim uma espécie de irmão mais novo a quem calham todas as coisas em desuso) é “austero”; em contraponto a todos os outros, que se comportam como qualquer herdeira milionária a “tripar” LSD.

Na altura, Mário Soares (o nosso “Senador”) estava na mesma posição que hoje se encontra Sócrates. O que me traz à memória, o já tão referido episódio em que no mercado de Almada, lhe espetaram com um peixe nas trombas ao mais puro estilo de “Ordralfabetix”. Tudo isto, anos antes da tarte de Bill Gates ou mesmo do sapato de Bush (em alguma coisa haveríamos de ser percursores).

Cavaco representava então o mesmo papel que Passos Coelho (com um bocadinho mais de coragem; eram outros tempos…), sabendo que o poleiro não tardaria a ser seu. Uma vez que o outro já se tinha praticamente incinerado, à conta das medidas impopulares que tivera que tomar para nos garantir a entrada na CEE.

A saber: completa destruição da agricultura, pescas, e de praticamente todos os restantes sectores de produção. O que nos colocou nesta bela situação de país que quase nada produz, mas que gasta como se aguardasse a herança de uma moribunda tia milionária.

Cavaco subiu finalmente ao poder. Comportando-se como se tivesse ele próprio (e não o seu bochechudo antecessor) feito aparecer do nada o dinheiro da Europa; talvez mercê do seu sorriso afável e olhar vivaz. Infelizmente estragou tudo logo de início; pois gastou o dinheiro (que ainda não eram euros, mas sim “Ecus”) quase todo em alcatrão, em vez que reforçar a nossa débil auto-suficiência económica.

Foi pena não ter comprado também umas almofadas de penas, pois seria mais fácil colocá-lo numa carroça coberto com ambos, e deixá-lo na fronteira de Badajoz à boleia para Estrasburgo.

Foram tempos muito complicados para largos milhares de famílias que estes dois tipos condenaram a passar fome e outras privações, com a desculpa de um futuro melhor. Futuro este que como vocês já devem ter reparado é exactamente hoje.

A oposição aos dois partidos do poder (sim, meninos e meninas. Quando um deles não está no poder, é apenas porque está a descansar enquanto o outro o substitui) também não era muito melhor que hoje.

O BE da altura chamava-se UDP. Também fumavam “ganzas” (mas às escondidas) e utilizavam o mesmo discurso demagógico e populista. A título de curiosidade, um dos seus principais líderes passou-se posteriormente para o PS. O que descredibilizou totalmente aquela coisa do “traço ML”, “Somos Povo” e aquela horrífica moda das botas de camurça e casacos de flanela com quadrados berrantes.

O PCP é exactamente a mesma coisa que era na altura. Um partido em manutenção de oposição (papel no qual o considero inestimável), e que nunca chegará ao poder por eleições livres; pois quase toda a gente sabe (excepto aqueles militantes mais esclerosados) que nos faria retroceder até ao início da revolução industrial.

Já o CDS era um pouco diferente. E aqui me penitencio quanto a Freitas do Amaral, pois nunca esperei vê-lo substituído por tal abominação. Talvez devido aos meus inúmeros contactos com a antiga classe dominante, adquiri a noção que à direita ortodoxa apenas restava a dignidade. Bem… mais uma vez estava enganado. Foi-se mesmo tudo!

Acho que já mencionei todos os que são “alguém” no Parlamento. Pois os outros partidos não passam de sinecuras para uns poucos eleitos, que se comportam como rémoras políticas em troca do mandato seguinte.

Por isso não pensem que Passos Coelho (que se parece de modo inquietante - como já frisei antes - com o senador Palpatine) irá melhorar seja o que for na vida deste país.

É apenas mais um ciclo a completar-se, e tudo voltará a ser como dantes (até o mau gosto das farpelas).

Aguentem, “mexilhões”!


Música de Fundo
Vídeo Killed The Radio Star
The Presidents Of The United States

2 comentários:

I. disse...

Eu, que tenho memória, vivi esses anos, assino por baixo e manifesto o mais profundo pesar por estarmos condenados a isto, ao eterno retorno da baboseira institucional.
E agora, depois de as terem abatido à maluca, volta-se a plantar oliveiras. Raça de país, foge.

TheOldMan disse...

Olá, I.

Acho que com todo este "vai-e-vem", nos podemos considerar um país apenas preso por elásticos.

;-))

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