Imagem: Instituto de Meteorologia, IP
A Incerteza do Amanhã
- Devaneio matinal de um ciclista de fim-de-semana, com uma personalidade levemente obsessiva -
Sou como um agricultor. Em vésperas de fim-de-semana ou de feriado, podem ver-me à janela de nariz no ar a cheirar a humidade marítima vinda de Noroeste, ou a franzir o cenho a uns nimbos de configuração pouco recomendável.
À noite, devoro avidamente as fotografias da Península Ibérica tiradas pelo satélite meteorológico, e confiro-as com as existentes no site do Instituto de Meteorologia; não vão eles terem-se enganado na previsão para o dia seguinte.
Mas as minhas semelhanças com um agricultor são assaz limitadas.
A chuva não é minha amiga, e estou-me nas tintas para o orvalho e a geada (excepto literariamente; pois considero o orvalho e a geada algo quase tão sexy quanto o sabor salgado que fica nos lábios após um banho de mar), pois nada trazem de significativo à minha actividade velocipédica.
Mal acordo vou logo à janela ver que tempo faz.
Não raras vezes, constato agastado que a natureza não tem qualquer respeito pelo trabalho investido naquelas previsões em que eu tanto confio para enfrentar a estrada montado em algo feito de arames, alumínio e algumas tiras de borracha. Uma espécie de fisga.
A Natureza é uma daquelas gajas que querem ser amadas incondicionalmente, desde que não tenham que mexer uma palha ou preocupar-se com isso. Instável e mimada. Mas esta comparação termina logo que os automóveis deixam de se ouvir através do filtro sonoro dos auscultadores.
É algo inexplicável a sensação que se tem no cimo de uma falésia batida pelo vento ou ao pedalar por um carreiro bordejado de ramos baixos e gotejantes. Não há necessidade de música ou qualquer outro ruído (também por isso pedalo sempre sozinho), pois sentimo-nos preenchidos como se não houvesse mais espaço na nossa vida para o que quer que fosse.
Toda e qualquer comparação é inadequada, pois a natureza é mesmo assim e não se trata de nenhum número de teatro de revista.
Interrompo-me para olhar novamente a previsão para amanhã. Neste momento e na Estação de Observação de Superfície da Praia da Rainha existem 93% de humidade, temperatura 5º Celsius e vento de Nordeste com uma velocidade de 2,5Km/h.
Segundo a carta acima, amanhã pela madrugada as regiões do litoral Centro e Sul começarão a ser atingidas por uma superfície frontal de baixas pressões. O que em conjunto com a baixa temperatura e a descida da humidade relativa, talvez me dê margem para dar uma volta bem alargada até por volta das 14h.
Tenho já a mochila preparada com todas aquelas coisas que só fazem falta quando delas nos esquecemos. Remendos para câmara-de-ar, jogo de ferramentas, canivete suíço, barra de cereais vitaminados… e por aí adiante.
Ao seu lado e como se fosse o equipamento de um pára-quedista à espera de ser verificado, estão já dobrados os calções, o “hoodie” e as luvas…
Mas nada disto importa verdadeiramente, pois o que interessa é que eu sou como um agricultor. Pego na pasta e saio de casa com o nariz no ar a tentar detectar o aumento da percentagem de humidade, ou subtis alterações na temperatura e direcção do vento.
Observo judiciosamente os cirros, nimbos e cúmulos, como se fossem ovelhas numa pastagem e sigo carinhosamente o seu percurso enquanto aguardo a chegada do transporte. Agito o passe em frente ao sensor que me saúda com um trinado cordial acompanhado por uma piscadela do seu olho vermelho.
Isto do animismo é tudo uma questão de predisposição.
Talvez amanhã não chova…
Música de Fundo
Are You Gonna Be My Girl – Jet


10 comentários:
Talvez... Mas eu, há uns dias atrás, vi o um sol radiosos entrar-me pela janela e digo cá para os meus calções: está um bom dia para uma pedalada. Assim fiz. Monto a ginga e fiz-me à estrada. Menos de um quilómetro percorrido e mergulho num nevoeiro pegajoso e mais húmido que os entrefolhos da São e às tantas vejo os braços a ficar cobertos de gelo... Na... Bicicleta requer boas condições climáticas...
Boa sorte!
Espero que sim..que não chova e que dês um óptimo passeio,que te lave a alma e inspire para uma nova semana.
Um beijo e bom domingo.
Aparentemente os nossos percursos são idênticos, Boaventura.
No Sábado correu tudo muito bem... até começar a correr mal, claro. E lá me consegui safar à justa de uma "molha" monstruosa mesmo quase no fim, mas só à conta de ter metido a bicicleta no Metro em Corroios.
Abraço
;-)
De qualquer modo safei-me, Monalisa.
Já deu para enxaguar um bocadinho; embora nada por aí além, claro.
Beijo e boa semana.
;-)
Um verdadeiro ciclista, amante da natureza, não teme uma molha monstruosa. Quando chega a casa, passa a bicicleta e o corpo por água e ficam prontos para outra...
Música de Fundo
Raining Blood – Slayer
Bem...espero então que amanhã e no amanhã seguinte e assim sucessivamente não chova por ai.
Eu não sou própriamente "amante" da natureza, SOD. Gosto dela, mas nada de grandes efusões.
Quanto à "molha", uma das coisas que o tempo me deu (juntamente com um monte de cabelos brancos) foi a noção do risco desnecessário; porque além de molhado aínda me arrisco a ser corrido da estrada por algum automobilista mais apardalado pela chuva (é por isso que lhes chamam condutores de fim-de-semana).
;-))
Slayer é fixe
Foi "meio por meio", Redonda. Mas fugir da chuva ´sempre é um bom incentivo para fazer uns "sprints".
;-))
Sobe na tua bicicleta, leva as barras de cereal e as luvas e os óculos e segue os passos da Redonda, que me faz visitas à minha Casadacogra e eu a ela. Verdade que terás de atravessar um oceano mas estou certo de que pedalarás com mais força...afinal aqui terás a chance de ver o Vasco da Gama jogar...:>))
Já passei algumas vezes pela Casadaçogra (e também já atravessei o oceano), mas compreendo que sem deixar comentário tal é difícil de provar.
Mas futebol, não é a minha colher de chá.
;-)
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