Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2010


O Bisavô Halley (quando era novo) e "acompanhante" sendo cumprimentados por Nixon; um famoso prestidigitador daquela época.

Foto: Net


Monólogos de Alzheimer – 1
- As Visitas de Natal do Bisavô Halley - Histórias sempre presentes num futuro quase sempre bem passado –

Eram 18h no mostrador analógico do relógio da cozinha, onde um sol composto por centenas de LEDs, atingia o ocaso através de um alvéolo de nuvens acrílicas lanosas como ovelhas. Seguindo a pré-programação, os colectores solares instalados no exterior do satélite, começaram a dobrar-se nas armações como asas de libélulas, e o frio começava a invadir todo o casco enquanto as vigias se cerravam automaticamente para compensar a perda de calor.

As crianças aproveitando a imponderabilidade, flutuavam por entre a fumegante tubagem dos sistemas de apoio como mosquitos num canavial. - Chiquinho! – Chamou a mãe – Vai outra vez lá dentro dar um chuto nos hidráulicos do bisavô, porque o exosqueleto está a fazer uma chiadeira infernal. Até parece a nora de um poço.

O miúdo mais novo aplicou a planta do pé na antepara, impulsionando-se em frente com a graça de um nadador olímpico, até à escotilha que dividia o módulo habitacional da secção de armazenamento. – Esqueceram-se outra vez das manutenções intercalares. Foi o que foi… - Lamentou-se o rapaz com um trejeito de desaprovação – Está ali com as luzes vermelhas todas ligadas. E podem apostar que não tem uma gota de líquido refrigerador nos depósitos.

Também para percorrer milhões de quilómetros sempre congelado – Retorquiu a mãe, retirando um peru semi-petrificado do contentor de vácuo na cozinha – bastava que lhe pusessem umas luzes de sinalização, e até o podíamos prender lá fora para não ocupar muito espaço no módulo de comando. Mas esse “bip bip” é que é irritante e mete-se pelos ouvidos adentro. Até parece uma daquelas sondas “beatnik”, que mandaram para o cosmos cheias de banda desenhada e música punk, para chatear os ET’s que fossem encontrando...

Ó mãe – disse finalmente a mais velha levantando o nariz de um jogo 3D, no qual um grupo de mulheres pouco vestidas e ar selvagem se digladiava com cutelos; no que parecia ser o primeiro dia da temporada de saldos nuns grandes armazéns – Acho que o bisavô descongelou. Ia jurar que o vi piscar o olho no meio de toda aquela condensação na viseira.

O bisavô acordou… - Cantarolou o mais novo tirando a ficha e o cabo presos na traseira do enorme dispositivo e pondo-o a recarregar como a um vulgar telemóvel – Acho que já podemos ligar-lhe os manipuladores e ainda vai ter tempo de ajudar a montar a árvore de Natal.

Feliz aniversário bisavô! – Disseram os miúdos em coro ao mesmo tempo que as luzes por detrás da viseira se acendiam sucessivamente, e um murmurar reconfortante era emitido pelos dispositivos de filtragem.

Olá malta! – Saudou uma voz aguda e ofegante, que se notava ser amplificada electronicamente – No ano passado por esta altura estavam a atravessar o mar de poeiras de Kandor; onde é que nos encontramos desta vez? E de quem é esta meia garrafa de vinho branco que puseram aqui a refrescar?

Estou farta de te dizer para não refrescares o vinho no sistema criogénico do bisavô – Disse a mãe dos miúdos para o marido que acabara de entrar - Ainda no ano passado foi uma despesa doida, quando gastaste as nossas reservas de nitrogénio líquido para gelar as minis durante o Campeonato Galáctico.

Ou era isso – Respondeu ele enquanto descalçava as botas magnéticas – ou ter que ir lá fora de cada vez que quisesse beber uma; e mesmo assim arriscava-me a que uma chuva de micro-asteroides me partisse as garrafas.

Mas era de borla! – Disse ela já um pouco agastada – Deus quando criou o universo decretou que “O frio quando nasce é para todos”. E assim é totalmente escusado gastar dinheiro a refrescar minis, quando basta pendurá-las num cordel e deixá-las do lado de fora da nave. Olha, vai mas é lavar as mãos que o jantar está quase pronto.

E vocês dois – Acrescentou para os filhos – Em vez de estarem aí a atazanar o bisavô, empurrem-lhe a consola até à mesa para poder participar na consoada. Que eu no fim deixo-o ficar ligado mais uns minutos para poder contar-vos uma história.

Isso… - Respondeu o "crio-ancião", por entre uma cacofonia de trinados causados por interferência na aparelhagem. – Contaram-me uma anedota sobre um frade capuchinho e uma rigeliana de tentáculos sugadores…

Nada de histórias porcas ao pé das crianças sua múmia espacial. – Atalhou a mãe falsamente escandalizada – Encoste-se à mesa e faça sair os colectores de abastecimento, que o jantar de hoje é peru assado e vai-me custar imenso a enfiar-lho pela tubagem acima. Caramba!... Bem podia ter instalado o modelo de alimentação por osmose. Com uma reforma dessas e a armar-se em pelintra… Ainda gostaria de saber o que é que você faz ao dinheiro.

Hesitante, o velho pilotou a enorme caixa de acrílico (parecida com uma incubadora para nascituros precoces) e titânio em direcção à mesa, e ajustou os adaptadores das mangueiras a um alimentador automático Braun; no qual as crianças já se encontravam a introduzir pernas e asas de peru. De mistura com puré de batata e ervilhas estufadas. – Desta vez não despejem molho, pois no ano passado vi-me aflito para expulsar o excedente de Sulfureto de Hidrogénio; e os tipos da manutenção dizem que deixa mau cheiro nos filtros do ar.

Já no fim da refeição os miúdos começaram a insistir para que ele contasse uma história. – Sim. Conta aquela que explica porque é que fazes anos no Natal. – Pediu a mais velha. - Nada disso! – Atalhou o miúdo. Conta-nos antes como era o Natal no teu tempo.

Lembro-me de muito pouca coisa. – Desculpou-se o ancião, pouco à-vontade. – Os Natais não eram como agora; e tínhamos o aquecimento global o que era muito chato, porque gastava-se um dinheirão em ar condicionado.

Mas ó “bizavô” conta lá – Insistia o miúdo com as bochechas cheias de açúcar e canela das rabanadas; o que o fazia parecer um “Senhor da Ferrugem” de Eridanus4. – É verdade que o Pai Natal entregava as prendas com um míssil intercontinental de ogiva múltipla.

É verdade – Confirmou o bisavô – O pai Natal vivia na Coreia do Norte com os seus ajudantes que eram uns minorcas macilentos e amarelados; assim uma espécie de duendes com hepatite e os olhos em bico. E os americanos fartavam-se de chatear o Pai Natal, por causa do excesso de CO² que os constantes testes de entrega de prendas enviavam para a atmosfera. Eram tempos conturbados…

Os miúdos com os olhos brilhantes de entusiasmo e a cara apoiada em ambas as mãos, ouviam as histórias do pretérito imperfeito. A mãe acabava por meter à força a última peça de louça na máquina de lavar; e o pai subia a escada do compartimento da propulsão auxiliar, empunhando uma preciosa garrafa de bagaço caseiro.

Entretanto o bisavô, prisioneiro da caixa de plástico e das suas recordações passadas encontrava-se lançado - Era no Natal que os miúdos costumavam ir ao Circo do Benfica…

Boa!... Gritaram os miúdos com entusiasmo – Conta-nos a história da Leopoldina.

Está bem. – Disse ele – Mas já me podem desligar da corrente, que o conversor taquiónico está devidamente calibrado e abastecido. E assim já posso ir passar a Páscoa com os vossos primos ás Nuvens de Magalhães. Mas onde é que eu ia?...

Ah, o Benfica… Bem. O Benfica era um circo onde os meninos gostavam muito de ir no Natal. Costumava-se até dizer que quando o Benfica ganhava era Natal. E tinham uma águia como mascote: a Leopoldina.

Leopoldina!... Leopoldinaaa!...

Chiu! Calem-se seus micróbios espaciais! – Agastou-se o bem acondicionado ancestral - A Leopoldina era filha da Ellen Degeneres (que tinha um programa no qual representava uma lésbica destrambelhada sem qualquer jeito para a comédia) e de um ASIMO que subitamente se curto-circuitara a meio de uma entrevista. E costumava ir muito ao estádio do Benfica, porque se alimentava dos frangos normalmente lá deixados pelas equipas visitantes; até que a contrataram como mascote e para figurar no presépio (a Babá Pitta recusou-se a fazer de Maria enquanto Eusébio fosse o S. José).

Nessa altura ainda não nos tínhamos espalhado pelo cosmos e todos os países tinham um governo. Era assim uma espécie de concurso de talentos, mas no qual nunca se eliminava ninguém; e com a agravante de também não abundar propriamente o talento por aqueles lados.

O último foi o Governo do Alegre. Presidido por um tipo que fizera fortuna com a importação de bacalhau, e mais tarde apareceu no famoso programa do Júlio Isidro; onde ganhou milhares em prémios.

O Alegre era conhecido pela sua risada arrepiante, que quando ouvida precedia sempre o desaparecimento de alguém ou algum “lamentável acidente”. Transformou-se assim o governo numa espécie de ditadura. Mas como éramos todos obrigados a andar alegres, não se notava muito e os turistas julgavam-nos um povo trabalhador e extremamente alegre (logo dois erros de uma vez) que tinha apenas um presidente para todos os portugueses.

Foi nessa altura que começou a Época dos Descobrimentos. Um adolescente de Fernão Ferro, que se encontrava certa noite agarrado ao telescópio então apontado para a casa de uma vizinha (uma jovem professora de educação física), por distracção olhou mais para o lado descobrindo o rasto de um cruzador Klingon, que fazia uma aterragem de emergência numa horta mesmo ao lado.

Os Klingon que eram seres pacíficos (parecidos com simpáticos Koalas de peluche cor-de-rosa) e vinham em paz, foram dominados pela claque do FCP que se encontrava no Hotel Orion do Seixal, a fazer um estágio de artes marciais para o Benfica-Porto que era daí a dois dias. Após isso adaptámos a sua tecnologia às nossas necessidades e todos os portugueses fugiram para o espaço, deixando os outros países perplexos com o acontecido; mas na posse de um belo rectângulo ajardinado mesmo ao lado da Espanha.

Nessa altura deu-se também a Revolução Paulina. Em que Paulo Portas juntamente com o seu irmão Miguel tomaram de assalto o transporte de vinhos (Miguel Portas nunca mais recuperou dessa) “Santa Maria”. Realizando assim um sonho antigo de serem os primeiros irmãos ginecologistas com consultório numa nave de transporte de vinho do porto (uma Rabela).

Os portugueses espalharam-se então pelo espaço sideral (assim chamado em homenagem à famosa bebida “Carbo Cidral”) levando a cruz a todos os planetas habitados deste lado da galáxia. – Mas ó “bizavô”… – Perguntou o miúdo – Porque é que tínhamos que levar a cruz a todos os planetas habitados.

Ah, isso é uma coisa dos católicos – Respondeu distraidamente o velho, enquanto os apêndices manipuladores iam abrindo as ligações dos colectores de abastecimento, e se começava a dirigir para a escotilha de saída – Como não gostam de sofrer sozinhos, teimaram que todas as espécies, raças e planetas haveriam de ter (por isso se diz “todos temos a nossa cruz”) a mesma religião que eles para não se ficarem a rir.

Já dentro da comporta estanque e pronto a ser impulsionado para o exterior, o bisavô Halley acenou prometendo – Agora tenho que ir para não perder a conjunção com Marte, ou vou ficar preso no trânsito.

No próximo Natal conto-vos o resto. - A escotilha exterior abriu-se finalmente, deixando sair a caixa que soltava finos rastos de vapor enquanto a escotilha se ia embaciando lentamente – A história de como Sócrates roubou o Natal, e foi perseguido por Durão Barroso o Vespão Verde e a Popota.

Ah, a Popota! Aquilo é que era uma mulher… Parecida com a Ferreira Leite, mas com mais carne… Adeus! – Despediu-se ele à medida que se ia perdendo no vazio pontilhado de estrelas – Se cá passar o tio Arménio peçam-lhe a morada da oficina a que ele costuma ir. Estes hidráulicos andam a fazer uma barulheira tal, que parecem a nora de um poço. Ou uma picota, ou assim…

Bom Natal, malta!...


Música de Fundo
Christmas Was Better In The 80’sFutureheads





6 comentários:

Eira-Velha disse...

Obrigado!
PS Não sei se me escapou algo devido ao enviesado da leitura mas pareceu-me ver por ali a cauda de um cometa ;)

TheOldMan disse...

Bom Natal, Boaventura.

Era a cauda de um cometa, sim.

calhar é boa altura para desejar que não te acabem com a corporação à "má fila", como andam a tentar (li ontem).

Abraço

;-)

monalisa disse...

Que bom presente de natal..TOM no seu melhor :DDD

Amigo, desejo-te um feliz natal com tudo de bom para ti e para quem mais amas.

Well..playtime is over..this slave is going back to the kitchen :))
E pelo que parece,nem nos tempos vindouros nos safamos, não se inventava por aí um perú em comprimido ou something???:DD

Um beijo grande com muitos jingle bells.

Klatuu o embuçado disse...

Feliz Natal e Boas Festas!
Abraço!

TheOldMan disse...

Obrigado Monalisa. Bom Natal e Bom Ano.

Este ano calhou-me o almoço de Natal, e realmente tens razão. Em comprimidos era muito mais prático.

Beijos

TheOldMan disse...

Obrigado Klatuu e bom 2011.

Abraço.

;-)

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