Foto: John A. Alonzo
Crime no Lar! (Conto Gerontológico)
- Como não terei tempo até segunda para escrever um post, deixo-vos um conto mais ou menos policial escrito há sete anos e que poucos de vós conhecem; a menos que tenham andado a explorar os arquivos (mas como duvido que isso tenha acontecido, façam de conta que eu não disse nada) -
Um
Eram seis da tarde e a enfermeira Arlete passava-me os "santos óleos" pelas articulações ancilosadas, enquanto repuxava os tendões, tenazmente. No deck tocava uma velha cassete dos Tangerine Dream, misturando-se no ar com o odor a sândalo que se evolava de um pau de incenso.
Com um estrondo enorme, a porta bateu contra a parede quando o Chefe Aniceto catapultou as suas banhas para dentro da enfermaria.
Mataram a Alice costureira - comunicou o ex-chui - encontrei-a toda torcida, parece uma torta de Azeitão. Lá estás tu a pensar em comida - disse eu enquanto vestia as calças apressadamente - não tentaste por acaso pôr-te em cima dela? Era morte certa, coitada.
Despedi-me da enfermeira Arlete, dando-lhe uma terna fisgada com o cinto-de-ligas - Mais logo passo por cá para brincar aos médicos – e descemos as escadas fazendo gincana por entre dois ou três catatónicos, até ao piso de baixo onde nos dirigimos ao sector dos acamados.
Não era bonito de se ver. Acendi uma cigarrilha (contra todas as proibições da cabra da Dona Francisquinha) olhando em volta, não fosse o Pide Leontino estar nas redondezas e ir a correr fazer queixinhas.
Pobre Alice! Alguém lhe tinha esmagado o crânio com uma arrastadeira de aço inox, e roubado a preciosa colecção de dedais em porcelana de Sévres (Colecções Philae). A janela estava aberta. Encostei-me à ombreira aspirando o fumo. A rua estava húmida de chuva. Carros passavam sem destino.
Fui buscar a gabardina e o boné aos quadrados. Á confiança enchi o "pocket flask" com Jack Daniel's e saí... Já não ia brincar aos médicos nessa noite.
Dois
Almada, cidade ex-metalúrgica. Frente a Lisboa mas com um rio no meio. O próprio Cristo-Rei vira-lhe as costas, e abrindo os braços parece que se prepara para mergulhar e fugir a nado.
Percorri as ruas um pouco ao acaso, atravessando uma irritante chuvinha "molha tolos" enquanto ordenava as ideias. Não é fácil fazê-lo num lar. (A não ser que um tipo se feche no duche. Mas a última vez que o fiz, o sistema anti-acidente bloqueou acidentalmente e só me conseguiram desencarcerar horas depois).
Desemboquei no jardim do castelo, encostado ao dito e sobranceiro ao Tejo. Olhei o rio em baixo. Era uma queda e peras, cerca de 100 metros; só que eu não estava ali para atentar contra o equilíbrio ecológico do local. Também não sabia se valeria a caminhada, tinham passado demasiados anos.
Foi então que avistei o Bebé. Sei que é idiota chamar Bebé a um velho de 67 anos, mas ele tinha essa alcunha há 50, e nunca pensámos em arranjar-lhe outra. assentava-lhe como um fato de bom corte.
Cara redonda, cabelo ralo e espetado, olhos esbugalhados. Um "retrato robot" de qualquer criança há muito desaparecida. O luar inexistente mascarava os restantes pormenores, mas era ele. Ainda pensei em fazer-lhe a velha partida do assalto, mas parei a tempo. Já somos poucos, e eu não estava disposto a perder mais um por uma parvoíce qualquer.
Aproximava-me silenciosamente quando pressenti algo atrás de mim. O que me fez virar de repente, já com os dedos enfiados na velha "soqueira" de latão. Demasiado lento. ..
O coreto do jardim pareceu subitamente explodir na escuridão. Senti uma dor aguda por baixo da orelha direita, e foi tudo. Lembro-me de notar enquanto caía, duas pedrinhas pequenas e brancas que se aproximavam muito depressa.
Três
Tanta humidade ia dar-me conta do reumático. Ainda ouvi os passos arrastados de alguém que se afastava em direcção ás escadinhas do Ginjal; tentei levantar-me, mas o meu livro da 3ª classe estava errado. Querer não é poder (se não, escreviam-se do mesmo modo).
Cambaleei até ao muro do miradouro tentando focar a vista, enquanto à minha frente, as luzes de Lisboa evoluíam coreograficamente quais pirilampos bêbados. Num banco ao lado, um junkie olhava placidamente as águas, cambaleando igualmente mas por motivos diferentes.
Dando um golo rápido do frasco corri em direcção à escadaria, e desci para o Ginjal em direcção a Cacilhas; com uma incómoda dor de cabeça, e uma orelha que inchava ao ritmo da inflação. Saltitei evitando a maior parte das poças de água no cais, e precipitei-me para um Cacilheiro que partia.
Pela vazante corriam sargaços e restos de caixas de fruta. Ao nos aproximarmos da outra margem, reparei num cargueiro fundeado que descarregava sabe-se lá o quê. A Lua apareceu, mas agora não fazia falta nenhuma. Sacudindo a gabardina esperei que as portas abrissem. Os velhos espertos não saltam de barcos (reminiscências...).
Entrei no primeiro táxi de uma fila, e dirigimo-nos para o Largo da Graça. Estava na hora de reatar velhos conhecimentos.
Isaura a "Bruxa" (agora diz-se cartomante) habitava as águas furtadas de um edifício rococó em mau estado. A escada que já vira melhores dias, rangia como a cama de uma pensão de 3ª. Quando consegui chegar lá acima, pequenas gotas de luz desfilavam à minha frente. Na minha idade, subir cinco andares a correr já quase dá alucinações.
Fiz uma pausa para respirar, premindo de seguida o botão da campainha; o que desencadeou algo que me pareceu uma réplica dos carrilhões de Mafra. Era típico dela.
Isaura saltou-me ao pescoço, enquanto inúmeros gatos se apresentavam repuxando-me as calças. Iria mentir se dissesse que o tempo não parecia ter passado por ela. Mas disse-lho na mesma.
- Também tu continuas jovem e belo... - disse-me ela piscando o olho a gozar descaradamente a situação. Somos velhos cúmplices, e estas piadas caem sempre bem.
Não tive coragem para lhe contar da Alice. Nos loucos anos 70, tinham ambas vivido com o "Cara de Empadão" numa casa de praia na Caparica. Subsistindo com uma dieta de música, sexo e imensos charros (não necessariamente por esta ordem).
Sentei-me no sofá, e inventei um álibi para a orelha inchada. Declamei em bom estilo, um alexandrino que incluía uma janela e um golpe de vento. Mas não me sentia nada bem; o que afectava um pouco a minha capacidade ficcionista.
Em cima do aparador, o velho Satã - o patriarca da gataria - olhava fixamente, agora embalsamado; enquanto a sua descendência evolucionava pela sala de cauda no ar. Isaura chegou da cozinha com um saco de gelo e dois generosos gins. Sentando-se no braço do sofá colocou um LP no prato.
Quatro
A Renault 4L, titubeava pelas ruas de Lisboa como uma rameira em dia de festa. Isaura conduzia de Português Suave ao canto da boca, o que, juntamente com a boina azul no alto da cabeça, lhe dava o ar conspiratório e determinado de uma heroína da resistência. Por alguns momentos senti-me Marat/Lamballe (tenho que deixar de ler para adormecer), mas a realidade impunha-se dura, por entre qualquer imagem de estilo que eu construísse.
Ainda tens aquele emprego idiota? - inquiriu ela espalhando cinza pelo tablier - Que raio te havia de dar, para ires meter-te num sítio daqueles… Estás a tentar marcar lugar?
Não ia continuar uma discussão interrompida há anos. Dei-lhe um beijo no pescoço, e pedi-lhe para me deixar dois quarteirões adiante. Não protestou. Estava habituada à minha falta de explicações.
Meti as mãos nos bolsos e atravessei a rua. Estava no Conde Redondo, nas imediações do covil de JV "O Sonso".
JV era humorista. Não muito bom, é certo. Mas a ironia com que se atrevera a escrever durante o regime de Salazar (era assim tão velho), granjeara-lhe uma aura de herói, que ele tinha acabado por pôr a render. E aqui para nós... Não era só isso que ele tinha a render.
O meu estômago rosnava mal-humorado. O gin começava a fazer efeito, e já não me lembrava quando tinha comido a última refeição. Mais acima, um furgão de aba aberta comerciava comestíveis (ou não tanto...); onde os clientes da noite rasca, se abasteciam de hidratos de carbono e toxinas de duvidosa proveniência.
Mulheres deambulavam casualmente em serviço. Empunhando um Chipicao meio-comido, entrei no "Trombinhas" e dei o brinde ao porteiro - Toma! É um pião.
Enquanto ele ficava a olhar surpreendido para a mão, acerquei-me do bar e perguntei à ruiva de serviço onde encontrar o JV. Respondeu-me que não sabia; com um sotaque Moldavo e um abanar de cabeleira. Ali seguiam-se as tendências da moda.
Tomei rumo aos lavabos, e entrei na porta da arrecadação que ficava ao lado. Estava frio. O Bebé também... Frio e roxo.
Parecia que tinha sido apanhado a meio da sua última birra. Mas não lhe servira de nada pois só eu estava lá para o ver; e não queria demorar pois o roxo nunca me assentou bem.
Preparava-me para sair, quando ouvi vozes que se aproximavam. Agachei-me num recanto entre grades de Corona e caixas de espumante barato (lembrei-me de Tintim e o "Caranguejo das Tenazes de Ouro"). Entraram dois calmeirões indiferenciados, seguidos por JV. E ao lado deste... a enfermeira Arlete.
Cinco
- Tirem-me esse anjinho daí! - disse ele apontando para o Bebé, e logo de seguida para o local onde eu me escondia - E tu, ó metediço, vê lá se queres que mande o Huginho e o Zézinho trazerem-te ao colo.
Estava a descoberto e sem fuga possível. A Arlete sorria, trocista. Levantei-me sacudindo a poeira da roupa um pouco constrangido, e olhando-os ora a um, ora a outro.
- Que se segue agora? Vais entregar-me ás Ucranianas para me torturarem. Ou tentas matar-me de aborrecimento com as tuas anedotas?
- Não querias mais nada... - respondeu JV enfadado - Não são para o teu dente. Aqui a miúda explica-te o que tens que saber, e desandas assim que puderes. Já me deste chatices que cheguem para uma semana!
Arlete ficava tão bem sem farda como com ela. Aliás. Sem farda era bem melhor, embora perdesse um pouco do seu fetiche. - Anda! - disse-me - Temos que sair daqui antes que se comece a armar confusão; não é bom para o negócio.
- Porquê? Tens sociedade? – perguntei belicoso - Não! Ele é meu pai! – respondeu-me já de costas e saracoteando o traseiro em direcção à saída. Segui-a imediatamente. Não fosse o "Sonso" mudar de ideias e mandar atrás de mim os sobrinhos do pato Donald.
Esgueirando-nos pela sombra, saímos pelo acesso dos fornecedores e entrando logo de seguida edifício caquéctico. Uma espécie de relíquia do estado novo ainda com secretária para o porteiro, agora vazia. Era o "Matadouro", como lhe chamava o JV.
Longos corredores de tábuas centenárias, e quartos individuais distribuídos estrategicamente. Entrámos num deles, cheio de espelhos e almofadas num estilo Kitch (ou seja, de gosto duvidoso).
Ela ajudou-me a tirar a gabardina. Usava um perfume com um ligeiro toque de frutas. Por momentos, lembrei-me daquelas borrachas escolares que apetecia sempre morder. Ia dizê-lo, mas não foi preciso. Ela lia-o nos meus olhos... e eu esqueci imediatamente o que ia dizer, ocupado como estava em ajudá-la a despir-se.
Tinha a pele suave como a de um pêssego, provocando-me descargas de electricidade estática. Passei-lhe a língua pela curva dos seios, as ancas e as coxas. E introduzi-me; viajando nela como um comboio num túnel alpino, enquanto lhe dava pequenas e vorazes dentadas. A sua respiração caía brusca nos meus ouvidos, como rajadas de vento sopradas contra uma janela. O corpo oscilava, flectindo-se ao ritmo desse mesmo vento interior que a agitava.
Por fim rolámos pelas almofadas, vencidos pelo cansaço. Não ia estragar o momento com um cigarro. Por isso... adormeci.
Seis
Mas não por muito tempo, pois o quarto estava terrivelmente frio; e mal ela se levantou fiquei completamente desperto. Tomámos um duche rápido e saímos. A noite estava igual a antes; nós também.
Enquanto o táxi (este conto está a ficar-me caro em táxis) nos levava para a Margem Sul, contou-me finalmente algumas coisas que há muito eu desejava saber. E outras, que francamente bem poderia ter omitido. Certas visitas ao passado são uma autêntica exumação.
No final dos anos sessenta (nota-se que estes tipos, são quase todos um pouco mais velhos que eu) durante a "Primavera Marcelista", JV era tido como um tipo intratável mas de confiança, por parte de alguma esquerda.
Tinha então aberto um bar, onde caíam espécimes de todos os quadrantes à cata de sensações fortes; o Bebé era o barman. O "Sonso" aproveitava algumas inconfidências de homens do regime passando-as à oposição. E algumas delas, passava-as também à prensa em belos fascículos (nem sempre apreendidos), mas com os nomes dos personagens prudentemente alterados.
Um dia descobriu que o Bebé fazia o mesmo aos seus amigos democratas, elaborando lindas redacções para o Pide Leontino; e a coisa deu para o torto. O Bebé escorraçado e sem emprego, foi engrossar as hostes do Silva Pais. Tendo sido igualmente escorraçado do quarto da Alice Costureira, que na altura "alternava" no bar (ou seja, costurava para fora), e com quem vivia.
A Alice, embora analfabeta de pai e mãe, escondeu as cópias de todos os relatórios do Bebé. Bem como alguns outros roubados aos arquivos do JV, naquilo que pensava ser um Plano inovador de Poupança/Reforma. E tudo correu sem grandes alaridos, até que vinte anos depois, alguns excertos começaram a vir a lume num periódico independente.
Caiu o Carmo, a Trindade e a Portugália.
O JV conseguiu infiltrar a filha enfermeira por meio de cunhas (o que não é de estranhar), no Lar onde se encontravam hospedados, Alice, o Pide Leontino e outros jimbras sem interesse algum para esta história. Instituição essa onde o vosso narrador, coincidentemente prestava serviços de manutenção e segurança (beneficiando de magníficas massagens orientais, nas horas vagas).
A ideia base era subtrair toda a documentação comprometedora; antes que a Alice vendesse também os relatórios do "Sonso". Esses sim, muito mais sumarentos e comprometedores, porque alguns dos intervenientes ainda aparecem em "tempo de antena".
Mas as coisas não correram conforme planeado. Alguém tinha despachado a Alice para o céu das costureiras, e abandonado o Bebé (já roxo) à porta do "Trombinhas".
E eu voltara à estaca zero ainda mais confuso que antes. À porta do Lar, com uma orelha inchada e menos 30 euros no bolso. Maldito "fogareiro"... Entrámos.
Sete
As luzes de presença encontravam-se ligadas. Uma delas zumbia e piscava mensagens crípticas, como se transmitisse em linguagem de mosquito, pelos corredores vazios como túneis de Metro. Separámo-nos em direcções opostas após uma breve troca de sinais.
Abri a porta do quarto e acendi a luz. Sentado na minha cama, o Chefe Aniceto limpava nervosamente a sua Astra 6.35.
- Ia começar sem ti, Sabes? - Comentou ele do fundo dos seus 130 quilos de febras. Continuando - Andam em grandes manobras na zona do Centro de Dia. Objectos a cair, barulhos estranhos... Um autêntico carnaval!
- Dá cá isso, antes que me faças algum furo no calendário da Pirelli - retorqui enquanto o livrava do malicioso objecto. As armas são tão úteis como qualquer ferramenta, mas como estas, só se devem usar quando for estritamente necessário.
Pendurei a gabardina no busto de Nietzsche, guardei a automática no bolso e saí com o idoso à arreata; não fosse ele tomar alguma decisão de cariz policial.
Vogámos quase silenciosos pelos corredores. Algures um rádio murmurava lamentosamente. No quarto 36, o Major Nogueira lia Catulo com a porta entreaberta; cabeceando, é claro.
No Centro de Dia, os cadeirões encontravam-se completamente esventrados, como passados a sabre por um bando de irascíveis cossacos. Quadros caídos, livros rasgados no chão. Uma caixa de costura tombada revelava o seu conteúdo heterogéneo (é engraçado como memorizamos quase sempre esses pormenores insignificantes).
Comecei a temer por Arlete. Pedi ao Chefe Aniceto que a fosse avisar para ficar no quarto, e de seguida telefonar ao filho (igualmente membro da corporação) a pedir apoio logístico. Os indícios não auguravam nada de bom.
Cheguei pé ante pé ao gabinete da Administração no piso superior, e abri a porta de mansinho. Precaução inútil. O aposento encontrava-se deserto com excepção da cabra da Dona Francisquinha. Que jazia caída de nariz sobre a secretária, ostentando um enorme hematoma na têmpora. Felizmente para ela, a queda tinha sido amortecida pela sua velha boina do Movimento Nacional Feminino. As velhas recordações dão sempre jeito.
Não havia já muito onde procurar. A cozinha encontrava-se fechada, e tudo levava a crer que se tratava de um assalto feito a partir do exterior. Reparei então que a janela se encontrava entreaberta; ouvindo-se vindo de cima, um ruído de bater de asas como um bando de gaivotas em sobressalto.
Segurei-me à velha escada de emergência que levava ao telhado, e preparei-me para subir. Uma dor aguda mordeu-me o flanco esquerdo, cortante como uma garra. Consegui virar-me a tempo...
Oito
O Major Nogueira, empunhando um canivete suíço preparava-se para repetir a dose. Depositei-lhe uma patada certeira no nariz romano, o que o fez desfalecer sobre a cabra da velha. Faziam um belo par assim adormecidos.
Iniciei então a subida da decrépita e oxidada escada. A chuva que caía, incómoda, tinha revestido os telhados de um vidrado resplandecente. As luzes difusas da cidade, emprestavam sombras e cores aos edifícios incaracterísticos. Mas eu não podia dar-me ao luxo de poéticas distracções.
Fui-me equilibrando pelas telhas inclinadas e meio soltas em direcção ao pombal, situado junto ás águas furtadas do sótão. Um vulto encharcado semeava a confusão entre as aves, destruindo ruidosamente as divisórias de madeira.
Claro que só podia ser o Pide Leontino. Que empunhando a machadinha dos bifes, subtraída à sorrelfa da cozinha, partia metodicamente o soalho do pombal. Tinha já em seu poder dois embrulhos envolvidos em plástico, que cingia contra si com o braço esquerdo.
Por momentos perdi o equilíbrio e agarrei-me a uma gárgula de zinco, que se soltou da parede produzindo um som de vidro em ardósia. Um ruído persistente e irritante, que se propagou em redor .
Precipitei-me sobre o velho segurando-o num abraço; mas ele envergava um fato de oleado escorregadio e libertou-se facilmente. E aproveitando o momento em que tive que me agarrar à rede de arame para não cair, tentou atingir-me com a machadinha; o que quase conseguiu.
Recebi uma cotovelada na ferida aberta pelo canivete do Major (estava a tornar-se excessiva a facilidade com que toda a gente malhava em mim), o que me encheu de uma fúria irracional.
Ignorando momentaneamente a dor e machadinha, apliquei-lhe um pontapé no queixo, o que o projectou através da janela para dentro do sótão. Saltei logo atrás dele pronto para lhe arrear mais umas quantas, mas não era necessário.
O Pide Leontino participara na sua última missão. Jazendo placidamente de costas com os braços abertos, e envergando a capa roxa em oleado, assemelhava-se de um modo tragicómico ao velho Cardeal Cerejeira. Da órbita esquerda saía-lhe um pedaço de vidro pertencente à janela.
Peguei nos embrulhos. Eram papéis velhos escritos à mão em caligrafia miúda de burocrata. Transcrições de conversas, comentários e pareceres para posterior intervenção. Não tinham sido a "reforma" da Alice, mas talvez me viessem a servir de seguro de vida.
Enfiei-os dentro das calças por uma questão de segurança e abri a porta para a escada interior. No patamar, JV fumava calmamente um cigarro na companhia dos calmeirões do costume - Olá abelhudo! - saudou entredentes - Vi há pouco a cassete do quarto "egípcio". Ou não sabias que todos os quartos do "Matadouro" têm câmaras? Acho que temos muito que conversar...
Nove
Os dois encorpados mocinhos, preparavam-se já para elaborar uma complicada coreografia sobre a minha pessoa, quando se ouviu do fundo das escadas algo que lembrava levemente uma velha locomotiva a vapor.
Subindo a escadaria vinham dois agentes e um graduado da PSP, precedidos de um afogueado Chefe Aniceto, este já com falta de pressão na caldeira.
O "Sonso" demonstrando um considerável sangue frio, mandou recuar os manos Donald e anunciou ás forças da lei. - Não se apressem, cavalheiros! Aqui a situação já se encontra controlada. - após o que iniciou a descida não sem antes me dizer "sotto voce" - Não faças nada de que te possas vir a arrepender...
Finalmente descontraí-me. Á minha frente e visivelmente preocupado, um clone mais jovem do Chefe Aniceto (que eu calculei ser seu filho) fazia-me as perguntas da praxe.
- Deixa o homem, Alípio! Não vês que está ferido? - Admoestou-o o pensionista sem respeito pelo posto de subchefe. E depois para mim enquanto o outro se afastava - Viste!? Subchefe, e tudo. Diz lá que o rapaz não tem pinta.
Aproveitei para não responder pois traziam já o Pide Leontino; que envergava agora um saco cinzento com fecho de correr.
Dirigi-me à enfermaria pois necessitava de trabalho especializado.
Arlete suturava-me a ferida que afinal não passava de um pequeno corte. Aproveitando a acalmia, retirei a papelada das calças e fiz um embrulho que colei ao peito com duas tiras de adesivo. - Então? - perguntou ela - o que vais fazer com isso?
- Para já, nada. - respondi enquanto começava a vestir-me - Vou guardar os relatórios em lugar seguro, para serem divulgados caso me aconteça algum "lamentável acidente". Por mim, o caso morre aqui.
Quando voltei ao átrio a “ramona” levava o Major Nogueira, que sendo reformado não tinha direito a tratamento especial. E mal a sirene da polícia deixava de se ouvir já outra parecia ouvir-se. Mas era apenas a laringe da cabra da Dona Francisquinha, que fazia a sua imitação da Oberwatchtmeister Helga de Dachau.
- Tem alguma boa explicação para todo este contratempo? - Por acaso tinha, mas não lha ia dar. Virei costas e fui ao meu quarto fazer a mala. Deixei o busto e as cassetes, ensaquei alguma roupa e o "Pela Estrada Fora" de Kerouac, e desci para a garagem onde guardavam as cadeiras de rodas e o furgão dos “transportes especiais”.
Tirei a poeira à velha Kawasaki "sete-e-meio", pisei o pedal e saí pelo jardim. Vislumbrei fugazmente numa janela do primeiro andar, o rosto da Arlete apoiando-se contra o vidro.
Era já manhã. Fiz-me à estrada mas havia fila como de costume. Merda!!!!
Música de Fundo
Harlem Nocturne – The Lounge Lizards