Foto: Net
Nada se complica quando tudo pode ser dito numa só palavra
- Reflexões ociosas de um passageiro do “Comboio da Selva” -
Durante muito tempo, a minha chegada ao local onde trabalho, era como desembarcar no apeadeiro de Taman Negara.
O jardim que fora construído entre o Bairro do Plano Integrado e a linha do Metro de Superfície, pela constante falta de manutenção, acabou por se tornar numa espécie de “floresta de transição” ou “cerrado”, que desencorajava qualquer exploração fora dos carreiros delineados pelo quotidiano pisar dos habitantes.
Não poucas vezes ao passar por ali (conhecedor da topografia original do local), me interroguei jocosamente sobre o tipo de coisas inomináveis que se poderiam esconder por detrás da muralha verde (com mais de dois metros em alguns locais); ou se as crianças do bairro aproveitariam todo aquele emaranhado de capim, canas e árvores de pequeno porte, para exercitarem as suas capacidades no “faz-de-conta” (o simulador mais perfeito e barato que alguma vez usei).
A partir de certa altura deixei de utilizar o carreiro, pois o precoce ocaso das pardacentas tardes de Inverno, facilitaria a qualquer um a tarefa de emboscar e assaltar o eventual incauto que por ali passasse. No entanto, e de um modo algo estranho, seduzia-me a imagem de um tal caos “urbano-vegetativo”.
Por exemplo, um pouco fora do “jardim” e encostada ao viaduto do Metro, erguia-se (e ainda lá está) no talude uma horta em socalcos; laboriosamente escavada por um casal de cabo-verdianos não mais velhos que eu. Monumento involuntário ao trabalho e ao engenho de todas as pessoas humildes, que tentam sobreviver por esse mundo fora.
A vegetação fora-se adensando de tal modo, que no Verão passado um princípio de incêndio quase atingiu os prédios que se encontram na periferia; fazendo com que mais um grupo de vozes iradas, se juntasse ao já caudaloso cortejo de descontentes e revoltados.
Mas o Município finalmente decidiu-se a resolver o problema. E começou a notar-se um pouco habitual movimento de veículos; ao mesmo tempo que uma área na zona superior era desmatada para a construção do estaleiro das obras para a reformulação e plantio do parque.
Há alguns dias quando a composição subia em direcção à “Estação Beirute” (não tem esse nome, mas já foi vandalizada tantas vezes que parece encontrar-se sob um constante fogo de artilharia), notei que as equipas de limpeza tinham já atingido uma cota mais baixa do terreno; perto de um pequeno grupo de árvores.
Dois tubos de considerável diâmetro, desaguavam num pequeno delta formado no início da vala de drenagem.
E na margem deste pequeno ribeiro (agora a descoberto, após o corte da vegetação excedente) erguiam-se orgulhosos alguns pés de cana-de-açúcar, acompanhados por couves diversas e uma bananeira já quase com dois metros de altura, que dava sombra a duas cadeiras de plástico branco.
No chão, uma garrafa vazia de “pinga” completava o cenário duplicado de uma paisagem longínqua.
Senti um sorriso formar-se involuntariamente, enquanto saboreava a sonoridade quase esquecida de uma única palavra – Morabeza!
Música de Fundo
“Paper Planes” – M.I.A. (link)


2 comentários:
Gostei.
Há dias estava a tentar lembrar-me da palavra "morabeza" a propósito da palavra saudade, por estar a pensar como seria falar da saudade, se a palavra não existisse na nossa língua e lembrei-me de morabeza por não termos uma palavra que a traduzisse.
"Morabeza" é um daqueles raros vocábulos que transportam em si múltiplos significados; mas que essencialmente traduz um tipo muito particular de mentalidade e filosofia de vida.
Pode usar-se para vários fins. Mas no fundo é um pouco como a palavra "amor".
Um termo incompleto; porque aquilo que representa dificilmente pode ser expresso por meras palavras.
;-)
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