Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011



O Navio Cinzento
- Um curto episódio de uma longa história -

O meu nome é Freyja. E é talvez esse o meu maior segredo.

Mas não é apenas sobre mim, ou sobre o facto de ser a única mulher arqueiro de toda a Terra das Neves, que confio esta mensagem às águas; é sim sobre o gosto ferroso a sangue que a vingança nos deixa na garganta. Ou talvez seja sobre tudo isto e ainda mais. Embora verdadeiramente a ninguém interesse, excepto àqueles cuja saga confio a esta garrafa que deitarei às águas.

Este nome antigo foi-me dado pela minha mãe quando nasci. Mas foi o meu padrasto que acabou por traçar o meu destino (e também o seu próprio), quando uma noite já bêbado a meio de uma discussão com ela, desembainhou a espada e a fez descer sobre a nossa desgraça.

Tinha eu nessa altura treze anos e uma alegria simples que nunca mais senti. Uma alegria que morreu no momento em que para socorrer minha mãe, a empurrei para trás salvando-a da morte. Empunhei a faca com que escamara o peixe para o jantar, e fiz frente ao estúpido do meu padrasto, que no meio da sua loucura falhou o alvo golpeando-me no peito.

Senti como se todo o meu corpo gritasse o lamento de uma lyra perdendo todas as suas cordas num só instante. Rodopiei e apunhalei-o; desfalecendo logo em seguida.

Conseguiram a custo evitar que eu morresse da perda de sangue, e passei oito semanas em delírio; torturada nos meus pesadelos pelos demónios do gelo.

Quando finalmente despertei fraca e reduzida a uma ossuda carcaça, descobri que nunca mais fugiria a rir das atrevidas investidas dos rapazes da aldeia; pois o seio esquerdo fora-me cortado rente. E no lugar dele ficara uma enorme ferida cauterizada – pois fora o único método de a fechar – que se assemelhava ao emaranhado de raízes de uma árvore vermelha.

Nenhum homem me quereria dar filhos. Não mais seria Freyja, pois perdera o meu nome e o que o caracterizava.

O modo como cheguei ao “Urso dos Gelos Flutuantes” (um Snekkja de aspecto sólido e cor indefinida), foi decerto igual a qualquer outro tripulante; embora nenhum deles seja de confiança nas histórias que conta.

Especialmente Einarr, que passa o tempo a lançar as runas ou a estudar as velhas sagas e lendas a mando de Rögnvaldr. Um antigo “jarl” renegado e transformado em saqueador; que nos tem comandado através de centenas de sanguinárias e lucrativas vitórias. Vitórias estas que nos proporcionaram um valioso espólio de sortidas preciosidades, usado como lastro para o navio, enquanto não terminar a missão para a qual fomos escolhidos.

Quando ele me encontrou numa infecta taberna do porto de Aarhus, já eu carregava a negra reputação de ser o arqueiro mais certeiro e mortífero dos Mares do Gelo. Uma vez que passara a vestir-me como homem (nenhum mestre arqueiro ensinaria uma mulher), e me tornara exímia no uso do valioso arco longo que roubara quando uma vez estivera em Jorvik com o resto da tripulação.

Os desembarques foram-se tornando cada vez mais espaçados entre si.

Rögnvaldr, cego pela obsessão de encontrar o navio que incendiara a sua aldeia e lhe matara toda a família, fazia viagens cada vez mais longas e arriscadas; chegando ás vezes, até à terra onde os espíritos dançam no céu. Mas não dávamos a isso muita importância, porque qualquer um de nós que fosse reconhecido seria abatido à vista; e apenas se estivesse num dia de sorte.

Ránnulfr o Skald, foi dado aos cães ainda vivo; quando uma noite teve a imprudência de se gabar à criada de uma estalagem em Björköby.

De resto, raramente nos conseguiam provocar baixas na tripulação. Todos eles uns impiedosos filhos de uma porca, que o comandante recrutara durante a sua já longa campanha de vingança contra o misterioso navio.

Uma noite encontrávamo-nos nós em Askvoll a beber no “Túnsvín Sæhrímnir”, quando o pequeno Agni (um parricida adolescente que nos servia de pau para toda a obra) entrou a correr esbaforido, para avisar que o “Cinzento” fora visto ao passar o Vilnesfjord rumando a norte. Pelo que montámos os cavalos que alugáramos numa quinta, perto da reentrância onde o “Urso dos Gelos Flutuantes” se encontrava escondido e completamente abastecido (o cauteloso é um herói que sobrevive), tendo sido esta a última vez que pisámos terra.

Ainda mal saíramos do abrigo do fjord, quando três knarrs completamente carregados com homens de Haraldr nos cortaram o caminho, fazendo brilhar ao sol os escudos da amurada, no meio de vozes de comando e gritos de incitação à batalha.

Acho que nunca lutámos tão bem. Comecei por escolher a minha melhor flecha de pena castanha, e com todo o vagar, abati o timoneiro do navio do lado exterior. Que guinou bruscamente e embateu num dos outros, enquanto eu disparava uma sequência rápida de flechas mais pesadas sobre os homens que se lançavam aos remos, numa vã tentativa de rectificar a manobra.

O terceiro navio conseguiu posicionar-se favoravelmente para a abordagem, e tudo passou a resumir-se a cortar, espetar e bloquear e cortar novamente; numa sucessão repetitiva de movimentos. Pela parte que me toca, tinha posto de parte o arco antes que se danificasse na refrega, e usava uma pequena “leggbítr” como punhal; combinada com movimentos de escudo, para lançar ao mar quantos conseguissem ultrapassar a primeira linha de defesa. Onde sobressaía o machado de dois gumes empunhado por Rögnvaldr, que quando abria largas brechas no grupo de abordagem, se assemelhava a uma metálica e feroz ave de amplas asas.

Matámos até nos doerem os braços e o convés se tingir de vermelho, mas o ímpeto dos atacantes não diminuiu durante muito tempo, pois víamos embarcações miúdas trazerem cada vez mais homens em armas, indiferentes ao destino dos seus predecessores. Sem dúvida que fôramos descobertos por alguém que tinha uma grande afronta a saldar connosco; pelo menos a avaliar pelos recursos que dispusera para nos lançar tal quantidade de guerreiros.

Tivemos a prova disso, quando ao nos livrarmos do último atacante nos esgueirámos entre os cascos de dois navios à deriva cheios de cadáveres, se começou a ouvir um cântico monocórdico trazido pelo vento. Fora afinal para ganhar tempo que todos aqueles homens se tinham sacrificado. Para permitir que um velho Gothi subisse ao cimo da escarpa e iniciasse a sua maldição.

Todos temos um pouco de superstição enterrado em algum lugar profundo das nossas negras almas. E eu não sou assim tão diferente dos outros.

Sentindo uma angústia que me oprimia o seio inexistente, peguei na minha penúltima flecha longa e retesei o arco; pensando na expressão do meu padrasto quando lhe perfurara o fígado. A flecha partiu com um sussurro, como um beijo furtivo; trespassando-lhe a garganta e fazendo terminar o cântico num lamento gorgolejante.

Mas fora tarde de mais. Nuvens negras conjuraram-se sobre as águas, soltando sobre estas ofuscantes raios, como ziguezagueantes espadas de prata. Rögnvaldr, apesar de coberto de sangue animou-se de uma inusitada fúria, apontando para um ponto no horizonte que identificámos imediatamente.

Lançámo-nos uns para os remos e outros para ajustar a vela, dirigindo o “Urso dos Gelos Flutuantes” como um aríete, através do mar inquietantemente liso e escuro como um olho do gigantesco Lyngbakr.

Conseguíamos já distinguir o vulto do outro comandante, que tal como o nosso, se encontrava na proa gritando instruções ao resto da tripulação.

Voltei-me para Rögnvaldr, que me retribuiu o olhar com uma expressão que não consegui identificar, e me acenou com a cabeça. Era tempo de fazer o meu trabalho pois já o arqueiro do outro navio - cuja reputação era ser infalível – escolhera uma flecha e retesava lentamente a corda do arco.

Escolhi uma de pena azul e talvez um pouco leve demais, pois quando apontei ao arqueiro e disparei, esta falhou-o por pouco mais de um palmo e foi espetar-se no convés. Felizmente, ele também falhou o tiro. Embora eu tivesse ainda ouvido um curto silvo, perto do meu ouvido esquerdo.

Einarr olhou-me apreensivamente pois nunca me vira falhar antes; e remexeu de um modo algo nervoso, um colar de contas que segurava junto com o punho da espada de gume largo.

A escuridão das águas que nos separava, começou a adquirir um padrão em espiral, revelando um profundo e vertiginoso Maelstrom de proporções assustadoras, que inexoravelmente atraía as duas embarcações para o seu centro.

Peguei na última flecha longa que poupara propositadamente para quando tivesse que enfrentar o arqueiro do “Cinzento” – uma beleza de veio fino com duas pequenas fitas vermelhas – e lentamente puxei-a junto com a corda até sentir no pulso direito a vibração do arco. Tomei desconto ao vento. Reparando tangencialmente, que o outro não demonstrava qualquer sinal de nervosismo, e rectificava a pontaria.

Ouvi o murmúrio nervoso dos homens atrás de mim e decidi-me. Retive a respiração e fiz a flecha partir num sopro quase inaudível.

Senti como que um murro no peito e caí para traz. Pelo canto do olho vi alguns homens do navio cinzento rodeando o arqueiro inimigo que agonizava. Os homens à minha volta soltaram exclamações desanimadas, e vi debruçado sobre mim o pequeno Agni, que com uma expressão compenetrada tentava estancar a hemorragia com um pedaço de estopa e um pano.

Os navios aproximaram-se de flanco e os homens soltaram rugidos furiosos que se transformaram em exclamações de surpresa enquanto se lançavam ao ataque.

No meio da névoa que me toldava a visão, reparei nas duas fitas vermelhas que decoravam a flecha espetada no meu peito. Sorri da ironia enquanto me sentia desfalecer, pois soube que não chegara ainda a minha hora.

Continuaríamos todos, talvez eternamente, combatendo-nos a nós próprios. Enquanto aprisionadas na voragem do Maelstrom, as nossas almas sofreriam um milhão de mortes. Tripulantes fantasmas de um Navio Cinzento.


Música de Fundo
Hjálmar's death song - from Örva odd saga (Old norse song) – (link)

2 comentários:

francisco disse...

Magnífico.

TheOldMan disse...

Obrigado, Francisco.

Um bocado de pesquisa ajuda imenso a compôr o tema.

;-)

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