Quinta-feira, 17 de Março de 2011

Dubossarsky Vinogradov (dejeuner sur l’herbe)



Imagem : Net


A Apologia do Sexo ao Ar Livre
- Onde se explica ao leitor amante da natureza, que o sexo ao ar livre (ao contrário do que tem sido propalado por alguns elementos mal intencionados) não dilata de modo algum o buraco do ozono. -

Toda a gente pode ter sexo em casa. Bem… pelo menos, muita gente pode.

Mas nesta época do ano em que o sangue começa a circular mais rápido pelas veias invadindo mucosas e corpos cavernosos, talvez seja uma boa ideia combinar um pouco de sexo com outras actividades ao ar livre. O que, mesmo que em última instância não vos torne mais saudáveis, pelo menos sempre animará um pouco mais a aborrecida existência de alguns ornitólogos amadores.

O sexo ao ar livre, sempre foi uma actividade praticada entusiasticamente pelos nossos antepassados desde a alvorada dos tempos. Embora tenha havido algum retrocesso quando passámos de quadrúpedes a bípedes, e finalmente se tornou possível encarar o/a parceiro/a durante o acto (não é em vão que se criou o termo “feições simiescas”).

Já nesses recuados tempos, o sexo no exterior era uma actividade que não se deveria encarar (ou virar as costas) de ânimo leve; pois ao contrário dos nossos dias em que a maioria do risco provém de alguns tipos de meia-idade com binóculos e câmaras digitais (ou mesmo de algum guarda-florestal tresmalhado), os nossos antepassados tinham que levar em conta a eventualidade de serem achatados por um mamute enquanto se encontravam distraídos.

Ou pior ainda. Verem algumas das suas partes mais carnudas e salientes subtraídas pelo apetite voraz de um “dentes-de-sabre”. Que como todos sabemos (está na memória genética da nossa espécie), não têm qualquer simpatia por espectáculos de sexo ao vivo protagonizados por primatas.

Na história de Portugal, o primeiro relato de sexo ao ar livre consta de um manuscrito cuja autoria foi atribuída ao escudeiro de Pedro Álvares Cabral, que testemunhou o evento no mesmo dia em que ergueram numa praia anónima do Brasil o habitual “padrão” dos descobrimentos. Conjectura-se ainda (pois o pergaminho está em grande parte ilegível devido a manchas de difícil remoção) que terá sido a partir desse mesmo desembarque, que se começou a usar o termo “posição do missionário”.

Mas isto tem apenas como base a tradição oral (e talvez mais uma ou outra) índia, e o Prof. José Mattoso sempre se recusou a especular – com muita pena minha – sobre o tema; embora eu pense que se trata de uma história verídica, pois os missionários que se arriscavam nas nossas caravelas, eram provavelmente os tipos com mais falta de imaginação que conseguiríamos encontrar na época dos descobrimentos.

Se não acreditam, tentem imaginar vocês como seria a vida no meio de um grupo de marinheiros quatrocentistas durante alguns meses, para um tipo que usasse saias e apenas proferisse frases pias. Pois eles não conseguiam imaginar isso antes de embarcarem.

Mas chega de falar de gente morta há muito (o que é mau para o sexo, seja ele ao ar livre ou não) e concentremo-nos no que é importante.

Como devem já ter reparado - especialmente aqueles que acompanham o programa televisivo “Minuto Verde” – muita gente hoje em dia se preocupa com o “ser verde” e em formar eventualmente um “todo” com a natureza, mesmo que isso venha a custar uma pipa de massa.

Ora a maior parte desses nobres objectivos são facilmente alcançáveis por um custo quase irrisório, especialmente se nos concentrarmos no que concerne ao respeito e comunhão com a natureza ou mesmo à parte do “todo”; que é a minha favorita (não só de mim como de muitos outros amantes da natureza. Pois não raras são as vezes em que o leitor passeando por uma mata, terá a oportunidade de ouvir longínquas e abafadas exclamações – "Todo! Todo!" – O que só vem provar o meu ponto de vista).

Dizia eu, que o respeito pela natureza é algo facilmente alcançável; bastando para tal que além de não fazer fogueiras ou deitar para o chão as latas de Red Bull, não deixemos igualmente pessários ou preservativos usados, artisticamente pendurados nos arbustos (mau hábito este que contribuiu no passado, para que o vistoso Chapim-Azul quase tivesse abandonado as suas áreas de nidificação no nosso país); o que é assaz prejudicial para o já frágil ecossistema das nossas matas.

Quanto à comunhão com a natureza, basta que não façam demasiado barulho. Pois além de isso provocar a debandada das diversas espécies de corvídeos e outras barulhentas aves, é também problemático para qualquer outro casal que se encontre próximo; provocando amiúde falhas de concentração e dúvidas existenciais ("Mas porque é que a Cátia Sofia não geme assim comigo…” e etc.).

Já em relação ao todo… Imagine que as suas vibrações se encontram em sintonia com as da natureza (pelo simples facto de estar em pelo ao ar livre e tremelicar um pouco talvez devido à brisa) e que o seu pensamento se encontra direccionado no mesmo sentido que o da/do sua/seu parceira/o. Bem, aí tal como eu já frisei anteriormente noutros escritos, é deixar a sua faceta telúrica e animal seguir em frente (e em profundidade) até alcançar o “todo”.

Não se preocupe que vai logo dar por isso quando lá chegar.

É claro que alguns espíritos mais desconfiados poderão alegar que a maioria dessas coisas se podem obter na segurança de um quarto de hotel ou no sofá da sala. Talvez… Mas podem ter a certeza que a paisagem não será tão relaxante como no campo.

Adicionalmente é (o sexo em plena natureza) para os caçadores uma alternativa ecológica e não destrutiva à sua actividade venatória. Pois permite a recuperação gradual da bicharada que começa a escassear por esses campos. Embora algumas espécies possam passar de ameaçadas a embaraçadas; especialmente se derem de caras com um saltitante traseiro peludo e esbranquiçado no meio da sua favorita moita de mirtilos (há que ter um especial cuidado com o vingativo ouriço cacheiro).

De qualquer modo, aconselhamos os caçadores “convertidos” a que saiam de casa transportando a parafrenalia do costume; pois não há nada mais suspeito do que alguém que saindo alegadamente para caçar, o faça em traje de passeio e a cheirar a “Black XS”.

Como já devem ter reparado, quando falo de sexo ao ar livre limito-me a falar do ambiente circunscrito a matas e florestas; isto tem uma razão muito boa. A outra alternativa mais ou menos viável é a praia. Mas para além de continuar a ter problemas com ornitólogos amadores, você poderá ainda ser surpreendido/a por algum senhor que passeie pelas dunas completamente vestido e com as mãos nos bolsos, por uma menina de tranças que venha recuperar o seu desaparecido volante de badmington ou mesmo pela mítica vendedora das bolas de Berlim.

Por isso, para efeitos deste post a praia está de momento fora de questão; embora possamos voltar lá mais tarde (mas apenas quando escurecer).

Existem alguns perigos menores para quem abraça (e não só) esta interessante actividade, embora para se defender deles baste ser possuidor de uma tenda. Isto se decidir pernoitar. Porque durante o dia facilmente conseguirá enxotar qualquer dos animais que habitam as nossas lusitanas matas.

No caso especial dos exibicionistas, basta que aponte com o dedo e se comece a rir a bandeiras despregadas. Resulta sempre.

E pronto. Ficamos por aqui embora eu tenha consciência do muito que ainda fica por dizer em relação a este tema. Mas isto é apenas um post despretensioso - afirmação que por si só, já é um pouco pretensiosa - com alguns conselhos para os amantes da natureza (isto para não citar mais nomes); e que talvez vos ajude a aproveitar o solarengo fim-de-semana que se aproxima.

Adeus e não se esqueçam de beber muitos líquidos.

Música de Fundo
Uhn Tiss Uhn Tiss Uhn Tiss Bloodhound Gang (link)


2 comentários:

francisco disse...

para longas tiradas oceânicas, de muitos meses, havia a barrica com o buraco, ocupada à vez. Mas isso era quando não contavam com «um tipo que usasse saias e apenas proferisse frases pias»

vicissitudes dos primórdios da navegação trans-oceânica à vela

;)

TheOldMan disse...

Eu sei, Francisco.

Entre os baleeiros de Nantucket, era conhecido como o jogo do "Arpoa o Arenque". O favorito do capitão Ahab (segundo Melville, acho...).

;-)

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