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Memórias do PREC
- Porque o dia 11 de Março de 1975 não deve ser esquecido, e também porque alguém tem que levar com todas estas histórias da tropa… –
Lembro-me que era nessa altura apenas mais um “chavaleco” quase imberbe. Ainda não completara dezassete anos, mas a Marinha dera-me uma embalagem de lâminas de barbear e um pincel; e por isso considerava-me uma espécie de personagem de Jack London, ou no mínimo um futuro combatente da soberania nacional.
O Grupo Nº 2 de Escolas da Armada não seria propriamente o retiro adequado para um futuro herói como eu, mas a vida militar não se compadece com o imaginário dos adolescentes; especialmente se estes tiverem que estudar álgebra para terminar a especialidade com uma nota decente.
Mas comecemos pelo relato histórico, propriamente dito.
Ao acordar no topo do beliche de dois andares nessa fresca manhã, a primeira imagem que os meus olhos viram foi a de uma almofada aproximando-se vertiginosamente. De imediato adoptei as contra-medidas habituais, saltando para o beliche do lado, enquanto empunhava a minha própria almofada para me defender do traiçoeiro ataque. Era terça-feira.
Sensivelmente meia hora após isso, enquanto nos acotovelávamos na fila para o pequeno-almoço, três (acho) vetustos Fiats (era uma marca de “caça” a jacto) decidiram iniciar um voo picado sobre os navios atracados na base um pouco mais abaixo. Felizmente para eles, o único artilheiro que estava a dar manutenção às duplas anti-aéreas de 40mm, tinha um tempo de reacção óptimo mas uma pontaria menos que sofrível.
Foi nesse momento que a ideia de que a marinha não eram apenas viagens a locais exóticos e quatro refeições por dia, atravessou o meu crânio espesso conseguindo finalmente alcançar o cérebro. Sim… era a guerra. E eram também pequenos-almoços não tomados…
Todo o complexo militar passou de imediato ao estado de Prevenção Rigorosa. Distribuíram-me uma G3 com munições a sério e colocaram-me ao portão da Escola de Comunicações a controlar as entradas e saídas.
Segundo boatos em circulação já há vários dias, aproximava-se a 7ª Esquadra da NATO, que acreditando que tínhamos ficado instantaneamente comunistas militantes, se preparava alegadamente para efectuar um desembarque no sagrado solo Lusitano. Com um bocado de sorte talvez decidissem atacar pelo meu portão; mas eu sempre fui um céptico e não tinha muita fé nessa teoria.
Irrequieto como era, não seria de estranhar que tivesse ficado tão pouco tempo de sentinela. De qualquer modo, penso que a razão principal para a minha precipitada transferência dali para fora, tenha sido causada por algum excesso de zelo da minha parte.
É engraçado como o facto de empunharmos uma arma automática carregada com vinte munições de ponta blindada, e de a apontarmos ao focinho de um despenseiro vivaço, nos dá uma postura tão diferente da habitual.
O tipo calculou com base em alguma obscura distribuição de géneros pelas chefias, que o termo “revista cuidada” não se aplicaria à sua pessoa e ao belo automóvel que um ordenado de sargento nunca conseguiria comprar.
Para começar recusou-se a sair, mantendo-se sentado na viatura. Mas essa posição não seria muito agradável, pois o seu nariz ficava exactamente é altura do “oculta-chamas” da G3, e já por uma ou duas vezes durante a nossa breve conversa teriam estado ambos praticamente em rota de colisão.
Foi finalmente um sargento despenseiro carmim como uma beringela, que se decidiu a abrir o porta-bagagem do automóvel; revelando uma cornucópia de garrafões de azeite, latas de quilo de atum, e outros manjares que clandestinamente se preparava para fazer passar “à vida civil”.
Felizmente para ele o cabo da guarda apareceu e repôs a normalidade, solicitando-me polidamente (mas com o volume no máximo) que me concentrasse em busca de pistolas, espingardas e metralhadoras, e que deixasse em paz as substâncias comestíveis para me concentrar nas deflagráveis.
É claro que este episódio acabou por ser relatado ao oficial de dia. Mesmo a tempo de me trocarem a G3 por uma Walther de 9mm e me destacarem para o posto da Ponta do Mato, aproveitando o trajecto do Land-Rover que levava o almoço ao pessoal destacado.
Aparentemente o conceito “Prevenção Rigorosa”, tem amiúde dispares interpretações. Dependendo estas da localização geográfica, do clima e até de quem está no comando.
Quando nos aproximámos dois tipos cobertos de lodo interromperam o banho de mangueira que se proporcionavam mutuamente, e acenaram a um graduado que se encontrava ali perto a pendurar num improvisado estendal umas calças que faziam lembrar um balão meteorológico. Era a primeira vez que eu encontrava o cabo Santos.
Por ordem dele ajudei a deitar ao rio o conteúdo do panelão do almoço, e após o ter enxaguado e esfregado a preceito juntei-me aos restantes convivas; religiosamente sentados em redor de um tabuleiro enorme (daqueles usados para meter debaixo dos camiões para se poder mudar o óleo).
Os marinheiros que vira enlameados tinham-se sacrificado pela restante guarnição, conseguindo reunir entre os dois cerca de 14 kg de amêijoa preta, recolhida no banco de lodo, que separava a pequena península do território inóspito do Miratejo.
Ainda estava na minha era pré-báquica, e não bebia vinho (não encontrara nada digno desse nome até aí) pelo que muito urbanamente me ofereceram uma cerveja, acompanhada de inúmeras recomendações relativas à minha tenra idade e carinha laroca.
Não liguei. Um homem não se preocupa com merdas dessas…
O dia correu sem história. Chegou-me às mãos um exemplar do República que na altura custava 4$00, relatando que na Encarnação aviões militares tinham bombardeado o Regimento de Artilharia Ligeira 1. Espantosamente, no Porto o PCP e o MDM/CDE tinham conseguido convocar uma greve geral. E talvez pela última vez em muito tempo, ouviam-se pelas ruas as estrofes de “Grândola, Vila Morena”.
Em Lisboa, Chaimites do Cavalaria 7 defendiam Belém.
Embora o jantar fosse um pouco melhor que o almoço, apenas se aproveitou a carne e as batatas para improvisar juntamente com um resto de amêijoas uma deliciosa carne de porco à alentejana. O cabo Santos era conhecido pela sua desenvoltura e iconoclastia em tudo o que respeitasse ao rancho; talvez o mais próximo que a Marinha permitiria da definição de gourmet.
Pelas 21h 00m fomos designados para uma patrulha a efectuar à malha urbana de Almada (que na altura era uma malha ainda muito fininha. Diga-se em abono da verdade).
Guarnecemos o Land-Rover com uma velha MG-42 e rumámos ao desconhecido. Desconhecido este localizado exactamente ao balcão do “Noruega”, um bar de alterne situado em frente à Lisnave; no qual entrámos fardados e de arma à cintura. Fazendo de imediato grande sensação entre as alternadoras, ou putas, ou lá o que é que se chamava naquela altura, às senhoras que quando não “fazem a rua”, estão no bar a sacar bebidas aos incautos. E recebendo, é claro, uma determinada percentagem por cada uma.
Após demorado tempo a consumir substâncias impróprias para a minha idade, e de ter sido beijocado e acarinhado pelas simpáticas senhoras que eram indefectíveis admiradoras do MFA; fomos acabar de cumprir o nosso dever patriótico.
À desfilada pelas ruas quase desertas e com o vento a despentear-me (na altura podíamos usar o cabelo comprido) a melena, seguia em pé agarrado à velha MG como se me preparasse para defender a pátria de Spínola, Freitas do Amaral e Galvão de Melo simultaneamente. Na verdade acabámos por parar em mais meia dúzia de sítios para “reabastecer”.
E foi na manhã seguinte, que recordando a noite anterior com uma enorme dor de cabeça, peguei na edição do "Avante" que me tinham oferecido, e li na primeira página - “A Reacção Não Passou!”.
Senti nesse momento, que um dia a pátria reconheceria o meu contributo…
Música de Fundo
Não é propriamente música, mas serve (link)


11 comentários:
e medalha, nada?
Não, Francisco!
Mas em contrapartida (a Pátria, claro) deixa-me às vezes ter um vislumbre da sua verdadeira natureza.
A "Ordem do Infante"... Talvez mais tarde...
:-))
:))
Mas a parte dos pequenos-almoços perdidos é absolutamente chocante!
É verdade, Gabi.
A guerra é uma coisa terrível... E um desperdício de bons pequenos-almoços.
:-))
TOM,sempre se passavam uns dias divertidos e alternativos na tropa nesse tempo :)) Eu desse dia, para além dos factos históricos, só me lembro que estava em casa com papeira :DDD
Bom fim de semana.
Nem se pode chamar tropa àquilo, Monalisa; excepto se considerarmos o termo "tropa fandanga" (o que é um pouco depreciativo).
Mas diverti-me tanto por lá, que acabei por sair para reentrar em 78.
Quanto à papeira, acho que o Mário Soares também deve ter apanhado nessa altura (pelo menos era o que constava).
;-))
Bom fim de semana também, Monalisa.
(Desculpa, mas hoje estou em modo turbo)
Bj
;-)
E a tropa fez de ti um homem?
Eu nem à inspecção fui. No meu caso, não era necessário...
A recompensa veio a 25 de Novembro?
Já nessa época os Olivais atraiam muitos guerrilheiros urbanos. Agora os aviões só sobrevoam de passagem, a caminho ou afastando-se do aeroporto.
Música de Fundo
Fight Fire With Fire – Metallica
Não foi preciso, SOD. Já nasci com o equipamento completo.
De qualquer modo, todas as experiências nos ensinam alguma coisa (pelo menos, funciona assim comigo).
;-)
PS - A minha recompensa é ter imensas coisas que ainda me fazem rir só de me lembrar delas.
Tens razão. Todas as experiências ensinam algo. No mínimo que não deverão ser repetidas...
Pois. Qualquer serviço ao mesmo tempo obrigatório e mal pago, só pode ser encarado como uma paródia.
A própria vida é uma tragicomédia, SOD.
Nem sempre pode ser levada a sério.
;-)
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