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| À esquerda na foto (sacada da Net), TheOldMan observa curiosamente um grupo de Guardas Fiscais em manobras, na esperança de encontrar a tal revolução que fora anteriormente anunciada na TV. |
O Post do 25 de Abril, escrito à pressa antes da Pascoa
- Como as nossas recordações podem ser factos, ou então divertidas histórias; mas dificilmente ambas as coisas simultaneamente -
No fim de mais uma semana fui “apanhado em campo aberto” sem ter escrito o famoso post sobre o 25 de Abril. Mas será que vale a pena aplicar o rigor histórico às recordações pessoais (e por tal um pouco subjectivas) de cada um?
As minhas recordações são na sua raiz factos, mas que para serem utilizados como informação têm que ser processados por mim; recorrendo para tal a todos os mecanismos, sistemas e informação anterior, que fui adquirindo como experiência. Ou seja… Depois de processadas as minhas (e as de toda a gente) recordações deixam de ser factos, passando à categoria de produto multimédia final (assim uma espécie de documentário, mas um pouco tendencioso).
Lembro-me por exemplo, que o Serviço de Pessoal da empresa onde eu trabalhava estava instalado na antiga residência do guarda permanente que lá vivera em tempos idos. A velha banheira de massa da casa de banho era utilizada no Verão para refrescar bebidas. Justificando as minhas viagens diárias à fábrica de gelo que se encontrava paredes-meias connosco.
É engraçado como a primeira coisa que me vinha à cabeça de cada vez que entrava naquelas câmaras frigoríficas, era Roald Amundsen; com a cartilagem do nariz meio queimada e o bigode curvo eriçado de estalactites azuladas, mantendo-se teimosamente na proa do “Fram” até ser avistada a costa da Antártida.
Mas aquele Abril até foi frescote. E nesse preciso dia não foi preciso ir buscar a habitual barra de gelo industrial. Pelo que me encontrava a um canto a praticar dactilografia numa velha Underwood de carreto largo, quando me mandaram fechar na casa de banho por questões de insonorização, e tentar com um rádio a pilhas (um “transístor”, como erradamente lhe chamavam na altura) sintonizar notícias que esclarecessem sobre as estranhas movimentações de tropas que desde manhã se notavam em Almada.
Apesar de inconclusivas, as notícias sugeriam que se dera um golpe de estado e todos deveriam recolher ordeiramente a casa até que a normalidade fosse reposta. Afinal era feriado!
Toda aquela conversa sobre a sublevação e os melhores locais onde estar sem levar um tiro, acabaram por me desviar do caminho do “redil” em direcção à Cova da Piedade. Onde a pequena “delegação” da LUAR abrira os armários da cozinha para expor aos maravilhados olhos de incipientes revolucionários, a azulada pureza do aço das G3’s e UZIS que mantinham em stock para “o grande dia”(que afinal chegou e passou sem que lhes tocassem).
Enquanto eu subia a Avª Cristo-Rei em direcção a casa, descia já em sentido contrário o destacamento misto de “Chaimites” e “Berliets” que tinha guarnecido a posição durante a noite, e que rolavam avenida abaixo sob o aplauso dos populares que lhes ofereciam maços de tabaco, criancinhas para beijar, chouriços e outras avulsas dádivas que eventualmente lhes seriam de muita utilidade.
Fui almoçar com a consciência de que me encontrava no vértice de uma incrível mudança; embora por outro lado me parecesse que as coisas à minha volta continuassem a ser as mesmas. Assim como quem vai ao teatro e durante o segundo acto repara que alguém se esqueceu de mudar o cenário.
Na ânsia de encontrar essa revolução que enquanto eu almoçara me enchera a cozinha de vozes e canções - à medida que se iam noticiando a adesão de quartéis e a libertação de diversos e importantes focos de resistência do “fascismo” (como já muita gente se referia ao anterior governo) - saí para a rua mais uma vez.
A única coisa diferente que se encontrava pelas ruas era “gente”. Muita gente, que tendo provavelmente ouvido as mesmas notícias que eu, procurava a tal revolução de que tanto se falava – “A revolução está na rua!” – Afirmava na televisão um tipo que continuava a encher o estúdio de fumo e já devia ter queimado uns dois maços de cigarros até àquela hora (a única coisa verdadeiramente assinalável que passara na TV durante quase todo o dia, era o terem começado a fumar em directo).
Perto do castelo (sim, também temos um) de Almada, uma multidão incitada por alguns elementos da UDP (reconhecíveis pelas botas de camurça e os hediondos casacos aos quadrados de cores vivas) e do MRPP (reconhecíveis pelo tom esganiçado com que gritavam as palavras de ordem), gritavam em coro – “Armas para o povo! Armas para o povo!".
Depois de examinar atentamente alguns componentes individuais da “mole revolucionária”, concluí que nem sequer lhes emprestaria um secador de cabelo; quanto mais armas. Mas eles lá continuaram teimosamente naquele tom obstinado, tão conhecido dos miúdos de três anos quando embirram em pedir guloseimas.
Já me encontrava de saída quando um dos aviões que cruzavam festivamente os céus, decidiu vir às camadas mais baixas da atmosfera “cheirar” a multidão. Que ainda recordada do que acontecera ali bem perto em 26 de Agosto de 1931 dispersou quase instantaneamente, como um saco de berlindes que se entorna.
Disseram-me anos mais tarde que “A Revolução Devora os Seus Filhos”. Mas já nesse longínquo dia eu aprendera, que esta mesmo assim ainda precisa de correr um bom bocado se os quer apanhar.
Música de Fundo
Maple Leaf – Scott Joplin (link)


6 comentários:
Do texto nada digo porque nesse dia tinha 12 anos e durante a manhã disseram-me, na escola, que os pretos tinham-se sublevado. Só a meio da tarde desse dia interrompido é que ouvi uma outra versão na Rádio, não menos confusa, porém.
Assim, deito-me a interpretar a fotografia como uma quiromante a uma mão estendida.
TheOldman está muito bem, com o seu ar expectante mas despreocupado, condiz. Já o chefe da força militarizada está muito confiante empunhando um jornal, em vez do cassetete, como quem diz: para os que aí vêm basta um abana-moscas. A tropa restante está preocupada com a pose para a foto e o vendedor de lotaria sentado no fardo de palha parece apertar uma garrafa contra o corpo – aquela posição masculina do braço é reveladora, e semelhante e equivalente à feminina, a de segurar criancinha de peito.
Depreendendo-se que esta milícia não está à espera de cavalaria inimiga - que em minutos lhe devoraria a palha enfardada -, e dos canhões sabe-se que são mais lentos do que tartarugas, por isso deve esperar infantaria, e daí a presença do vendedor de lotaria, que as oportunidades são para aproveitar.
Constata-se que o comércio está fechado, o que confirma uma revolução em marcha. O comércio tem essa mania, de fechar durante as revoluções, e nunca percebi porquê.
O Amundsen não encontrou a barra do Tejo e foi parar à Antártida? Pior para ele, falhou a Revolução dos Cravos e a possibilidade de emborcar Porto à descrição.
;)
Desta Revolução podemos dizer, com toda a propriedade, que foi devorada pelos filhos que gerou.
Pensando bem, Francisco. Acho que essa tua última frase resume tudo.
Terá sido talvez esta a única revolução que ao contrário das outras foi devorada pelos seus filhos.
E olha que a avaliar pela actuação de muita dessa malta, parecem achar que o "cadáver da mãezinha" ainda se encontra em muito bom estado de conservação.
Quanto à foto, só a coloquei ali para ilustrar o "Milagre da Fé".
Sim! Porque só o "Milagre da Fé" consegue justificar a crença dessa malta (os tipos que fazem revoluções) na eficiência dos fardos de palha em os defenderem dos projécteis de carabina...
Boa Páscoa e um abraço.
;-)
Portanto, vamos lá tentar reconstituir comentário:
Penso que seria algo como corresponder o que li ao como pensava que teria sucedido e gostar da imagem de uma revolução com cravos em vez de tiros...
Os cravos foram apenas um símbolo ditado pelas circunstâncias, Gabi. E embora os militares tenham todo o mérito (movidos porém por razões comezinhas) no que respeita à revolução, o regime estava já moribundo há uns quantos anos.
Infelizmente a revolução está hoje tão moribunda quanto o regime anterior a ela o estava nessa altura.
E tal como diz o Francisco "ali para cima", acabou por ser devorada pelos seus filhos.
Vai ser uma chatice quando se tiver que começar tudo novamente...
;-)
...um pouco assustadora a ideia de como será este recomeço...
Não sei bem como será, Gabi. Mas já me aconteceu antes (nos anos 80), e calculo que no essencial não será muito diferente.
Tal como nessa altura, quanto mais abaixo se estiver na "pirâmide social", maior será o peso a carregar. É assim (e sempre foi até agora) em TODOS os regimes, e não me parece que nesta crise as coisas se passem de modo diferente.
;-)
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