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| Foto - Rosenfeld Collection |
A Persistência do Desejo
- A recompensa será sempre a viagem e nunca a chegada… -
No término da carreira tinham-lhe finalmente permitido regressar ao “Newport Jazz Festival” de 1958.
O risco de paradoxo fora finalmente descartado após um estudo que provara a “teoria do multiverso espiral”. Basicamente significava que seriam criadas realidades adicionais. Tantas quantas fossem necessárias para colmatar as intervenções que ocorressem a determinado tempo ou local; dispersando-se estas finalmente em direcção ao futuro por linhas temporais alternativas.
Pareceria até um pouco estranho falar de local, quando este era determinado pela conjunção dos vectores do tempo e não através da compartimentada Mecânica Newtoniana.
Por mais fascinante que fosse o princípio, era o resultado factual que não parava de o surpreender. Após trinta e dois anos de serviço fora-lhe finalmente permitido escolher uma realidade e viver nela o tempo que lhe restava. É que apesar dos avanços da medicina cosmética que permitiam a todos morrer de velhice com a fresca aparência dos vinte anos, a esperança média de vida não fora alterada em mais de uma trintena de anos.
O ser humano conquistara o tempo (e através dele o espaço), mas continuava a ser uma espécie cuja efémera existência se extinguia praticamente na idade em que conseguia atingir a maturidade espiritual.
A única informação de que dispunha era um documentário de 1962, mas era quanto bastava. Pois apesar de todos os anos passados sobre a primeira vez em que tal acontecera, a sua surpresa ao deparar com a rapariga do vestido azul continuava a deixá-lo sem respiração.
Conseguia ouvi-la durante o intervalo entre duas músicas a explicar aos amigos que tinha que deitar-se cedo nessa noite, pois a regata da manhã seguinte era a inaugural do Newport Bermuda Race; onde pela primeira vez iria competir a nova “Classe de 12 metros” (Médio Cruzeiro) cuja vitória seria alcançada mais tarde nesse dia pelo “Finisterre” de Richard Bertram.
Mas essa parte do futuro aconteceria numa outra qualquer realidade, pois ali ele seria discretamente inserido na dinâmica dos acontecimentos com um mínimo de implicações negativas. Os documentos eram verdadeiros; e tanto o dinheiro como as roupas, passariam qualquer exame por mais apurado e exaustivo que este fosse.
A simpática Mahalia Jackson estava a terminar uma memorável actuação, coroada por intermináveis salvas de palmas que agradeceu timidamente no final - “You make me feel like a star”…
Preparou-se para a inserção.
Mary Agnes Waite (a rapariga do vestido azul) dentro de momentos estaria encostada ao balcão do Yatch Club a bebericar uma “Dr. Pepper”, e com o casaco de malha a deslizar-lhe pelas costas até cair no chão. Entregar-lho-ia com um sorriso, fazendo casualmente um comentário sobre Thelonious Monk; aproveitando para perguntar se ficava para a actuação final de Ellington.
Sobre esse pedaço de realidade manufacturada poderia então alicerçar um futuro alternativo a seu gosto. Um futuro em que ela não casaria com Alistair Smithe; em que Richard Bertram não ganharia a regata e um futuro em que o festival nunca seria transferido para Nova York.
Talvez nesse futuro a crise dos mísseis de Cuba acabasse de modo diferente, a guerra nuclear se tornasse realidade e a URSS viesse a invadir um dia o ocidente. Mas para tudo isso ele se encontrava preparado; munido do conhecimento de um futuro alternativo cujas possibilidades podem ser sempre aproveitadas, pois são comuns a quase todas as realidades.
Colocou ao ombro o cilíndrico “saco de marinheiro”, e enquanto as solas dos sapatos de lona faziam ranger o saibro do carreiro do Yatch Club, ensaiou mentalmente o que lhe iria dizer. Era todo o seu futuro que se encontrava em jogo.
*
Clara deu por finalizados os procedimentos de gravação, e ternamente retirou do leitor o cubo de cristal onde se encontrava armazenada toda a memória, personalidade e idiossincrasias que compunham o seu pai.
Anos antes ninguém imaginaria que as urnas seriam substituídas por mundos virtuais e que as cinzas dos mortos em vez de serem espalhadas ao vento, os transportariam durante mais algum tempo através de qualquer RPG (Role-playing game) à escolha.
Desligando o terminal, levantou-se com uma expressão de felicidade estampada no rosto.
O seu pai convidaria a rapariga do vestido azul para assistir à regata, e ganharia uma aposta sobre a vitória de Richard Bertram na “classe de 12m”; o que lhe proporcionaria o financiamento inicial para um pequeno negócio. Passando a viver num eterno Festival de Jazz de Newport de 1958. Eterno… pelo menos enquanto a Internet existisse. E aparentemente, esta ainda iria durar muito tempo.
Música de Fundo


14 comentários:
Já ontem aqui estive, li o texto, reli e comentei, mas perdi o comentário ao tentar publicá-lo. Fiquei desanimada e desisti. Hoje voltei.
Para além da certeza do estilo literário deste texto me fazer lembrar muito o de Paul Auster pouco mais me ficou da impressão que ontem tive.
Só agora me apercebi que o personagem da primeira parte era o pai da Clara...complicado isso.
Apostas altas essas em que se ganhava o suficiente para iniciar um qualquer negócio, mesmo pequeno que fosse.
Lamento muito a perda desse seu ente querido.
Não leve a mal a pergunta que lhe vou fazer. Por acaso, chamava-se Sandra...?
Cumprimentos
Janita
Obrigado Janita; mais um autor que desconhecia para figurar na minha lista dos "a ler" (ainda leio às vezes").
Não se chamava Sandra (acho que no ano de baptismo, era um nome que ainda se usava pouco) e era querida, embora não muito próxima.
;-)
estás em forma :)
Olá, Zé; "Bons olhos te vejam".
A FC é o meu tema favorito.
Abraço
;-)
Meu caro TOM, é sempre um prazer passar por aqui. Lastimo as razões que te fazem andar a escrever tão pouco, mas se as pucas vezes forem sempre assim, estás perdoado. :))
E deixa lá o Auster :) Tu és incomparável! :D
Eu sabia que me perdoavas, Monalisa.
;-)
Afinal conhecia-o, mas apenas a faceta cinematográfica - "Smoke" e "Lulu on the Bridge".
(não me faças corar)
Como passo por aqui de vez em quando ( a ver se há novidades) não pude deixar de ler a sua referência às obras de Paul Auster, adaptadas ao cinema. Se lhe falar de "Leviathan", "A Trilogia de Nova York" ou "O Rapaz Maravilha" certamente se lembrará.
Espero não tê-lo melindrado ao falar na semelhança do estilo literário, "neste texto".
Ah... os dois últimos livros que li do Auster, "Inventar a Solidão" e "O Livro das Ilusões", deixaram-me desiludida!
Está a ver?
Será um enorme prazer acompanhá-lo em futuras publicações. Posso?
Se me permite, deixo-lhe um abraço.
Janita
Ora, Janita. Ficaria melindrado se me comparasse com a Inês Pedrosa ou com outro "escritor insuflável"; neste caso só posso agradecer a comparação.
Claro que pode. Adoro visitas.
Um abraço também para si.
;-)
Também fiz uma regata (há 5 dias), também meti a “saia” da genoa dentro de água, como a da foto, mas para além do porto de Mazagón não oferecer Dr. Pepper (nem Ginger Ale em que agora ando viciado), e tampouco poder contar com sons do Monk (os macacos eram outros), nem Ellington, o que mais me lixa é que não vi nenhuma rapariga de vestido azul. Havia uma rapariga de vestido multicolorido esvoaçante mas nada de tão emocionante e enigmático como um vestido azul pode sugerir. Azar do caraças. Acho que tenho de escolher outros rumos de navegação ou vou deixar um cubo de cristal repleto de memórias da treta.
;)
Olá Tom.( desculpe a intimidade)
Como gosta de visitas e eu gosto de as fazer, passei para o cumprimentar e reler o seu texto.
Dei comigo a pensar como será essa tal bebida chamada Dr. Pepper.
Provavelmente algo forte, que leve um pouco de licor pepperment.
(será?)
E, também, quantos anos terão passado entre a primeira e a segunda parte. Para além daqueles cinquenta e tais, aparentes.
Sabe? Agora, os dois primeiros parágrafos da segunda parte fizeram-me lembrar um episódio de uma série televisiva dos anos oitenta, intitulada "Insólitos da Vida Real".
Quando os meus devaneios o incomodarem, esteja à vontade, pode ser franco que eu não levo a mal.
Até outro dia e um abraço.
Janita
Deveria haver Ginger Ale em Mazagón, Francisco de Blog. Ainda se fosse Mazagão, compreendia-se.
Agora isso do vestido azul e dos pormenores chave, até nem é assim tão complicado.
Todas essas tretas estão nos olhos de quem as vê. E se calhar, observada de mais de perto, a rapariga do vestido azul não passaria de uma chata com voz de cana rachada ou pior ainda.
Mas é o modo como as imagens nos afectam ao primeiro olhar, que decide se vai ser mais uma memória da treta, ou pelo contrário se irá transformar numa vívida recordação anos depois.
;-)
(a última regata em que participei foi há tanto tempo, que nem sei se ainda me aguento num convés molhado sem ir ao "malagueiro")
Olá Janita (TOM é apenas o acrónimo de TheOldMan)
Dr. Pepper é um refrigerante tipo cola que se encontrava muito em voga nos anos cinquenta.
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Dr_Pepper)
Quanto ao tempo que teria passado entre um episódio e outro deveria ter sido bastante (isto era um esboço para um conto de ficção científica). Embora no que diz respeito ao imaginário de cada um, nos possamos sentir fascinados por coisas que não aconteceram, lugares onde não estivemos ou pessoas que nunca existiram.
(principalmente porque só tinha dois aninhos em 58)
Até à próxima e um abraço.
;-
TOM, eu não fui ao malagueiro mas o malagueiro veio ter connosco. Na viajem de ida a cerca de 12 milhas da costa, já na baía de Huelva, sujeitos a um mar de vagas muito rápidas (com um período muito curto), provocadas pelo Noroeste de aprox. 30nós, fizemos um “submarino”. A onda varreu da proa até a meio do poço deixando este, momentaneamente, com uns dois palmos de água e o único instrumento de navegação a boiar – um GPS de mão. Ficou quase tudo molhado, mesmo dentro da cabina que ia aberta, especialmente o skipper que acabava de assomar a cabeça para perguntar: - Mas que merda é esta, porque é que vamos tão adornados, porque é que não folgam as velas??? Coitado, ficou que nem um pinto…hehehhe.
Ainda levámos umas três milhas para sair daquele buraco ventoso, e mais umas 25 milhas de curso para chegar a Mazagón. Mas valeu a pena. A regata, de lá para cá, teve uns momentos mágicos com navegação nocturna, entre 3 a 5 milhas da costa, navegando rumo ao reflexo da Lua. Ia eu ao leme, deve ter sido por isso que a navegação ficou poética.
;)
Abraço.
A vela é uma das poucas coisas que já não faço e me deixa saudades, Francisco.
"Rumo ao reflexo da Lua" é a imagem ideal para um devaneio poético nocturno (desde que evites apanhar com a retranca na carola, claro).
;-)
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