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| Foto: Net |
O Marceneiro e o Mar
- Pequeno conto apresentado a concurso nos primeiros Jogos Florais das Instituições Psiquiátricas do Serviço Nacional de Saúde -
O armário ficara finalmente concluído, assemelhando-se a um mosaico de tempo. Um calendário retroactivo com todos os seus entalhes de marfim rectificados e polidos; encastrados num leito de ébano brilhante como a testa suada de um etíope.
Transportou o móvel cuidadosamente para a balsa, enrolado num cobertor para que não se riscasse contra a amurada. Após verificar a solidez do nó com que o amarrara, ligou o motor; esbatendo-se-lhe a imagem à medida que se embrenhava na névoa baixa que beijava timidamente as águas.
Duas milhas para lá da última bóia da barra parou. As águas límpidas da corrente oceânica revelavam um fundo de areia fina, em que alguns corais tentavam sobreviver agarrando-se desesperadamente a uma ou outra pedra poupada pela força das águas.
Dobrou o cobertor sobre o banco a seu lado e retesando os músculos, fez descer o armário verticalmente para a água, soltando a corda lentamente de modo a que este ficou assente no fundo com a dignidade de um relógio de sala. Dominando com o seu porte hirto as cercanias, onde surpreendidos peixes evolucionavam curiosamente em seu redor.
Ligou novamente o motor para regressar a terra. Por um momento pensou em todo o tempo que representava cada entalhe, cada peça de face, cada compartimento que compunha o armário. Todos esses momentos seriam trocados por algo mais duradouro.
Por cada pedaço de marfim que se soltasse, um coral criaria raiz no substrato da madeira. Alimentando-se desta enquanto se alicerçava para uma estadia de algumas centenas de anos. Por cada brecha aberta nos encaixes das tábuas, um peixe procuraria abrigo das águas revoltas no Inverno ou da luz demasiado brilhante no pino do Verão.
O tempo que gastara/perdera teria finalmente utilidade. E o armário seria apenas uma recordação oculta pelo pequeno recife que a partir dele se criaria.
Em vez de ser admirada e comentada por peritos, a sua arte desta vez serviria para algo muito melhor… Para dar vida.
Estava na altura de tirar umas férias.
Música de Fundo
Still Life – The Horrors (link)


8 comentários:
e assim se instalou o hospício psiquiátrico para peixes
;)
Estou a ver que "há malucos p'ra troca"...
Bom fim de semana
;-))
Este "Marceneiro das Letras" tem o 1º prémio garantido nestes primeiros "Jogos Florais das IPSNS".
Brilhante!
TOM, venho despedir-me de si.
Tenho andado por aqui, mas a partir de amanhã e até Setembro, creio, não voltarei à Net.
Quando voltar cá estarei para me deslumbrar com a sua bela prosa.
(também gosto muito dos seus poemas)
Eu pertenço ao grupo dos que gostam deste blog!
Tal como o seu armário, belíssima peça de arte, serviu para os peixinhos se recolherem e multiplicarem, assim os seus escritos servem para alimentar o espírito de quem aprecia boa literatura.
(e...não importa para quem eles são dirigidos, né?)
Um beijo.
Janita
Obrigado, Janita.
Daqui a uma semana estarei igualmente (e novamente) de férias, mas hei-de aparecer por aqui uma ou outra vez para ir mantendo a "loja" aberta.
Realmente não importa a quem (e se) são dirigidos. Pois todos os escritos transportam em si algo (não interessa o quê ou onde), com o qual quem lê se poderá eventualmente "identificar"... ou não.
Um beijo e boas férias.
;-)
Grandes férias!
;)
Acabam amanhã.
Chuif...
;-(
Tudo o que é bom acaba depressa, portanto: se não acabasse depressa não prestava.
E temos provas disso, não temos? Pensemos em coisas muito boas mas que ocorrem depressa, e breves.
;D
Tens razão, Francisco.
Embora se deva acrescentar como salvaguarda - "Breves, mas não precoces!..."
;-)
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