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| Foto: IMDB |
Cronenberg sempre foi um dos meus realizadores favoritos. É um tipo que sabe jogar com a carne, os medos inconscientes e o animal que espreita dentro de todos nós.
É por isso que “A Dangerous Method” faz parte da minha lista de filmes prioritários para os próximos tempos. Quanto mais não seja para confirmar a minha teoria sobre qual foi o tratamento prescrito para a histeria de Sabina Spielrein (no filme interpretada por Keira Knightley).
Enquanto o filme não se encontra disponível no meu circuito habitual, e por tal não o podendo comentar devidamente aqui; deixo-vos um repost de 28 de Abril de 2006. Que calculo será muito útil como base de entendimento para todos os que desejarem ver a película em questão.
Um Amigo Estranho
- Um post que fala das coisas simples da existência, das memórias perdidas no tempo, das salsichas de Viena e da psicopatologia da vida quotidiana -
Quando o conheci ele era apenas um miúdo borbulhento e complexado.
Ziggy (como gostava de ser chamado pela malta) era um tipo banal que admirava Aníbal (o cartaginês, não o Presidente), e projectava quando crescesse tornar-se general, e instaurar em todo o mundo uma ditadura benevolente e cuja filosofia principal se baseava no impulso sexual.
O “grupo do berlinde” constituído por mim, Eugen Bleuler e Sandor Ferenczi, tinha recebido a solene promessa de vir a constituir as futuras “tropas de choque” do regime. Mal podíamos esperar…
Infelizmente os seus projectos foram dificultados pelas inúmeras discussões com a mãe, que lhe dizia repetidamente – Se o que te seduz é a farda, podias ao menos ir para carteiro como o filho da senhora Shultz. Tem boas regalias, e até lhe dão um subsídio para os calções de cabedal…
Mas Scholomo era um frustrado. Uma das coisas que mais o apoquentava era o nome; que assim que pôde mudou de Scholomo Sigismund para Sigmund. O que conduziu a mais uma discussão desta vez com o pai, que o acusou de querer ter um nome mais catita que o dele (naquela altura em Viena, tipos chamados Jacob havia-os ao pontapé), tendo-lhe inclusivamente chamado histérico.
Mais tarde ao cursar a escola médica, Sigmund aproveitou este episódio para fazer um notável trabalho sobre a histeria, que deixou a maior parte dos catedráticos maravilhados, dando gritinhos agudos e arrepelando os cabelos.
Encontrei-o mais tarde em Bratislava, sempre insatisfeito com a sua profissão a que chamava – “Um poço de chatices onde só caem desequilibrados e doidos de toda a espécie…” – e confessou-me que estava farto de Viena. Recusando-se terminantemente a voltar ao consultório, onde a conta do gás já se encontrava por pagar há três meses.
Tentei chamá-lo à razão enumerando as grandes maravilhas de Viena, tal como o Cabaret da Madame Lola, os “pretzels” sempre quentinhos da padaria de Herr Reinman e as salsichas obviamente vienenses.
Mas o tipo alegou que as salsichas lhe faziam lembrar o pai, com quem se encontrava de relações cortadas e chateou-se igualmente comigo. Soube que mais tarde utilizou esta discussão para aperfeiçoar a sua teoria sobre a “inveja do pénis”; mas decidiu limitar a sua aplicação aos casos de pacientes femininos, por vergonha e medo que o acusassem de “efeminado”.
Foi por essa altura que deixou crescer a famosa barba “à Freud”, em formato de tigela para cereais.
Estudar os trabalhos de Leibniz ainda o deprimiu mais. E ao tentar mudar de leituras embrenhou-se na antiguidade clássica, constatando que sofria do mesmo complexo que Édipo; tendo logo aproveitado para publicar uma breve monografia sobre o assunto, a que muito originalmente chamou de “Complexo de Édipo”.
Felizmente ele era um tipo modesto, senão ainda acabaríamos por ter nos compêndios o famoso “Complexo de Freud”.
A última gota de fel na taça das nossas já fracas relações de amizade, foi ele ter utilizado as confidências que eu lhe fizera sobre a minha ligação amorosa com a contabilista da "Spanische Reitschule", publicando-as com o título de “A Interpretação dos Sonhos”; aproveitando para postular o novo modelo do inconsciente que considerava tanto a causa como o efeito da repressão.
E venham cá agora dizer-me que o tipo jogava com o baralho todo…
Insultei-o em pleno “Café Museum” na presença de Carl Jung e de Abrahams, que tinham aparecido para beber um Schnapps de mirtilo (era a especialidade da casa), acusando-o de ser um fingido e de ter um superego. Só parei de o insultar, porque aparentemente tudo o que eu dizia lhe ia servindo para edificar aquelas teorias estapafúrdias que os alienistas tanto gostam.
Apesar de ser a comemoração dos cento e cinquenta anos do seu nascimento, não posso deixar de afirmar que o tipo era um aldrabão, e que todas aquelas teorias eram baseadas nas conversas que tinha com os amigos e na sua própria vida sentimental. Pois como psicanalista era um nabo que mal conseguia hipnotizar uma galinha.
Deixo-vos com este artigo sobre o meu ex-amigo Sigmund Freud (esse ingrato) e vou-me preparar para a sessão de hidroterapia, que o enfermeiro Hans está farto de me abanar pelas fivelas do colete, pois tem o duche frio a correr já há um bom bocado…
Música de Fundo
“Get Off The Couch” – Yellowcard


11 comentários:
Viggo Mortensen yehh!!!! :DD
24 de Novembro é a estreia em Portugal...para quem ainda vai ao cinema :))
Parece que foi muito bem recebido em Veneza, principalmente o desempenho de Keira Knightley.
Ainda bem que repetiste porque não me lembrava deste :)
Uma boa semana para ti. Beijo.
Monalisa, acho que a Keira também lhe "chama um viggo). Mas isso é por causa dos tratamentos, e eu não te quero estragar a surpresa...
Beijo e boa semana também.
;-)
Penso que o envolvimento dela tenha sido unicamente com o Jung e (sem querer estragar a surpresa a ninguém) se os "tratamentos" são o que eu estou a pensar, é preciso ter uma grande veia masoquista :DDD
Quanto ao Viggo, acho-o mesmo um actor soberbo, (really!) inesquecivel em Eastern Promises e num filme que passou muito despercebido mas do qual eu gosto muito - Alatriste..baseado nos livros do Pérez-Reverte..conheces ???
:)
Também acho que é um bom actor, e vi "Alatriste" (bem como "Eastern Promises", "Hidalgo" e outros anteriores) Monalisa. Só não conheço a novela de que falas.
O Século XVII já não me fascina como antigamente...
Agora quanto ao "tratamento" não sabia quem o tinha ministrado. Foi apenas um palpite; uma vez que a "histeria" não é propriamente uma doença, e segundo a abalizada opinião (que compartilho inteiramente) de alguns especialistas, deverá ser objecto de "tratamento sintomático".
;-)
Uma serie de 6 livros sobre as aventuras do capitao Diego Alatriste, na Eapanha do século XVII.
è um excelente escritor para quem gosta de aventuras "à antiga"...embora também tenha alguns Thrillers mais actuais..um outro livro dele "The Club Dumas" foi o ponto de partida para o filme "A Nona Porta"
http://www.perez-reverte.com/
Se estiveres interessado (e não te importares de ler em inglês) é só dizeres :)))
Eu pelo contrário, quanto mais vejo os tempos presentes, mais gosto de me perder pelos séculos passados :D
Mas já sei que és mais adepto das viajens ao futuro ;-)
O passado tem muitas coisas interessantes, e com as quais podemos encher volumes completos ou passear com a nossa mente como se lá estivéssemos, Monalisa.
Mas eu tenho umas preferências um tanto ou quanto retorcidas (Francis Bacon, Cyrano de Bergerac, Jan Potocki, etc.) no que toca a literatura anterior a 1910.
Mas gostaria de ler uma das obras do autor, para poder colocar a coisa em perspectiva.
Mas concluindo. O passado não é assim tão romântico e trovadoresco como é apresentado nos filmes dos anos 50 e 60. E eu quero estragar algo que tanto aprecias.
Para mim, o futuro (ao contrário do passado) ainda pode ser construído. Infelizmente não conheço ninguém de confiança para essa empreitada.
Se tiveres um *.pdf com alguma das obras, agradeço.
O mail está no perfil.
Bj
;-)
Tanto "mas", Santo Blog!...
Tenho que cortar na cafeína.
;-)
O "mas" é uma conjunçao/advérbio muito importante...nunca se sabe a possibilidade/ou não que traz consigo :DDDD
Não sei se consigo tratar disso esta noite, mas assim que puder recebes noticias minhas :))
:D ora essa...estragar porquê??
Anyway..quando eu gosto de uma coisa é um bocado dificil estragarem-ma..sou assim um bocadinho obsessiva :)))
Pá, eu não devia fazer isto, mas como é para uma boa causa...
Só para aguçares o bico:
http://best125.com/movie_best125/34439-a-dangerous-method-2011-dvd-rip-xvid-max.html
Era "não quero estragar", Monalisa. Não devia ter bebido aquela bica dupla...
Isso do "obsessiva" até é uma boa qualidade, dependendo é claro das circunstâncias.
Foram Óptimas notícias! Obrigado.
bj
;-)
Obrigado, Xerxes.
Por acaso não conhecia esse sítio (aínda por cima há tantos).
Já tenho com que me entreter.
;-)
Um abraço
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