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| foto: NET |
O Incomparável Mr. Tweety
- ESPECIAL “Dia de los Muertos” –
Mr. Tweety não morre!
Embora não seja exactamente eterno, o meu canário é como o “Duende que Caminha”. E renova a sua existência de cada vez que substituo uma bola de penas amarelas por outra exactamente igual, atribuindo-lhe a mesma designação (penso que este é o 4º). O que vai perpetuando a dinastia, assim como o nome que corre de boca em boca pelas varandas da vizinhança; tal como o do “Fantasma” pelos trilhos verdejantes da selva.
Mas chega de BD e vamos ao que interessa.
Há seis meses Mr. Tweety começou a morrer. Uma manhã aproximei-me da gaiola para lhe dar a dose diária de “vitaminas” (um eufemismo para frutose, dextrose e outros “speeds” naturais) que o ajuda a “aquecer os reactores”, e reparei que tinha uma pequena ferida no abdómen (se é que as aves têm disso); mesmo junto à junção com uma das patas.
Sem grandes preocupações agarrei-o, e com um “cotonette” apliquei mercurocromo sobre a lesão.
Aparentemente foi o mesmo que aplicar uma compressa quente na face exposta de um glaciar. Pois alguns dias depois a chaga tinha-se transformado num alto, que após duas ou três semanas se transformara numa esfera envolta em penas que se assemelhava a algo saído de um dos filmes da série “Alien”. A qualquer momento eu esperava que o sólido se cindisse, revelando uma criatura gritante e ameaçadora com duas, três, ou mesmo quatro fileiras de dentes assustadoramente afiados (tenho fotos para documentar o facto, mas garanto que são assaz repugnantes).
Mr. Tweety estava condenado!
A morte que eu lhe vaticinava, estava pois pendente dos caprichos da genética; sendo apenas uma questão de tempo.
Levado pela minha filosofia pessoal, ponderei durante algum tempo as hipóteses de:
a) Libertá-lo deixando a resolução de todo o caso nas mãos do cosmos.
b) Rapidamente e de modo indolor “abreviar-lhe” o sofrimento; ou
c) Deixar a natureza seguir o seu curso (a famosa “Lei do Menor Esforço”) e aguardar os consequentes resultados.
Ganhou a hipótese c). Reforçada pelo argumento de a presente condição não lhe estar (aparentemente) a provocar qualquer dor. Apenas o desconforto inerente a ter algo como uma bola de ping-pong a desestabilizar o precário equilíbrio sobre o seu poleiro favorito.
E os dias foram passando como nuvens sobre um campo de girassóis (homenagem a Inês Pedrosa), arrastando consigo a poeira do tempo e uma ténue nuvem de insignificantes realidades.
Começámos pois a preparar a sua sucessão.
Mas a morte não vinha. E Mr. Tweety continuava teimosamente a viver; tal como uma daquelas tias endinheiradas que todos os parentes esperam que morra, mas que de cada vez que eles abrem todas as janelas na esperança que ela apanhe uma pneumonia, apenas ganha mais vitalidade com o ar fresco da manhã.
Consequentemente as nossas atenções foram-se dispersando noutras direcções, até que uma manhã em que me debrucei sobre a gaiola para - como é hábito - assobiar alguns acordes da “Flauta Mágica” de Mozart (é uma das minhas experiências sobre “condicionamento animal”, mas os resultados são patéticos), descobri no fundo da gaiola uma indefinível massa de aspecto ignóbil, de onde despontavam trocistas algumas penas amarelas.
No seu poleiro habitual a um canto da gaiola, Mr. Tweety absolutamente incólume e escorreito, debicava com uma expressão “blasé” a orla do plástico que resguarda o seu habitat, para que não me encha a cozinha de alpista e outras merdas.
Debati com o meu filho a hipótese de dissecar aquela abominação que jazia inocentemente no fundo da gaiola como um ovo de serpente à espera de ser chocado. Mas o bom senso prevaleceu. E para evitar conviver com aquela repugnante incógnita, despachámo-lo lestamente pelo “túnel de porcelana”; não fosse o tal ovo eclodir e provar ser alguma espécie de embrião vudu que se apoderasse de todos nós durante o sono.
Mr. Tweety voltou ao seu velho hábito de titubear pelo poleiro ao som da música que ponho a tocar na cozinha enquanto preparo o jantar. Caindo ocasionalmente (já o fazia antes) no fundo da gaiola, e levantando-se bruscamente para aparentar um ar digno e imperturbável. Voltou também a acompanhar-me enquanto assobio a “Flauta Mágica” de Mozart ao pequeno-almoço. E pela parte que lhe toca, é como se todos os acontecimentos que decorreram nos últimos meses, tivessem acontecido a um qualquer outro canário que não ele.
Tudo isto vem reforçar a minha teoria de que Mr. Tweety não morre. Ele é o verdadeiro “Duende que Caminha”!
Feliz “Dia de los Muertos”.
Música de Fundo
Life at Last – Paul Williams (Phantom of the Paradise - OST)
(link)


9 comentários:
Viva, TOM.
Como sempre acontece este não vai ser um texto que eu vá deglutir de uma assentada.
É coisa para ir ruminando e apreciando aos poucos, pelo simples prazer de o ler, sorrir e rir.
Então, esse tal Mr. Tweety não é um herói da BD? O nome não me é estranho, mas no momento não me ocorre nada que o possa ligar a um canário.
Adorei ler isto e apostava que o seu canário iria ficar muito orgulhoso de saber que a estranha doença que quase o vitimou, deu azo a mais esta belíssima narrativa.
Só lamento que não tenha tido a coragem de ver qual a matéria de que era composta a abominação expelida pelo Mr. Tweety.
Curiosa do jeito que sou, eu não teria resistido. Incógnitas não são para mim. Mas, paciência...
Obrigada TOM! Gostei muito.
Voltarei...
Um beijo
Janita
:)
Se algum dia tivesse pensado em ter um canário...
teria sido agora que abandonaria tal ideia...
(gostei que tivessem seguido a opção c), embora tenha faltado a d) contactar um veterinário...vou tentar saber amanhã junto do meu pai - que já está reformado - se haveria alguma coisa a fazer...embora os seus pacientes habituais não fossem canários, mas vacas e cães...).
um beijinho e uma boa semana
Gábi
E já quase me esquecia, esta história do Mr. Tweety é, sem dúvida, muito adequada ao dia (e deveras assustadora).
Olá, Janita.
O "Fantasma", também conhecido como "O Duende que Caminha", é um personagem de BD que aparentemente nunca morre. A Wikipédia até tem um artigo sobre ele em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Fantasma
Agora quanto à hipótese de tentar dissecar a coisa... Bem, é uma coisa que tem muito a ver com à idade (a minha).
Antes, fazia as maiores parvoíces apenas por curiosidade; mas agora só o faço por prazer (a curiosidade não mata o gato, mas vai-lhe acabando com as vidas extra).
Um beijo
;-)
Ora, Gabi. Como se isso fosse motivo suficiente para não ter um canário.
Não há ser vivo que não morra; senão, não se poderia considerar vivo (Pois só está vivo quem um dia morrerá e por aí adiante...).
A hipótese do veterinário nunca se pôs, devido ao facto de eu já ter visto um matar um papagaio (ataque de coração. Juro!). Porque o tipo ignorou o aviso para não usar luvas, devido à ave se encontrar traumatizada desde a captura e não poder ver ninguém de luvas sem entrar em pânico.
De qualquer modo penso que tanto o tamanho como a fisiologia das aves de pequeno porte devem ser um problema para uma boa parte dos veterinários (e mais não direi).
a vida às vezes pode ser um pouco assustadora.
;-)
Um beijo e boa semana.
Se o Tweety reage à Flauta Mágica de Mozart não há dúvida nenhuma que é maçom e viveu uma e.m.m. (epifania mística materializada). Esse passaroco pode ter produzido um portal-vórtice de pelo amarelo (que como se sabe é o outro lado de um buraco negro). TOM, e se foi uma oportunidade desperdiçada para dares o salto para um Universo sem Euros sem gregos e sem portugueses?
Em todo o caso eu também não exploraria esse estranho apêndice que se desprendeu do passarinho. Não fosse entrar num Universo perpendicular cheio de aves gigantes assomando-se à minha gaiola e assobiando Mozart.
Também gostei do "Começámos pois a preparar a sua sucessão". Soa a coisa proferida em reunião de cúpula política (ainda é cúpula, ou o AO já a transformou em cópula?)
;D
Olá, Francisco de Blog. Imaginava-te em sabática e a escrever em papel (num desses agora desertos cafés do sul, e com caneta de tinta permanente).
Bem me parecia que o tipo era Maçon... Todos aqueles silêncios, e a sua tendência para evitar qualquer tipo de confidências...
Um universo sem gregos? Então e quem representaria na TV todas aquelas tragédias; com golpes abortados, "Referendos de Terminação Precoce" (RTP's) e outras pantomimas?
Já para não falar dos portugueses.
Que essa frase não te induza em erro (essa da sucessão). Trata-se apenas da terminologia usada pelo governo quando está em pleno processo de fingir que está (sem o estar, claro) a verdadeiramente solucionar algo.
;-)
Já que desejas feliz dia dos mortos no dia 1 de Novembro, foi uma decepção não teres colocado no dia 31 de Outubro uma ameaça de doçura ou travessura, seja lá o que isso for.
Fico satisfeito por a lei do menor esforço ou princípio da energia mínima, como é mais conhecido nos meios académicos, continuar a resultar e a dar-me razão, apesar das coisas que eu vou deixando por fazer, continuarem a contrariar-me.
É difícil obter resultados fiáveis através do "Princípio da Energia Mínima" (principalmente porque "a preguiça é sôfrega" e impaciente), mas neste caso particular ninguém tinha pressa em mexer fosse no que fosse.
;-)
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