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| Mais um para o "Clube dos Ditadores Mortos" |
Foto: Net
Como me encontro a meio de uma fase “não-produtiva” – e também porque Kim Jong-Il não merece um post – aqui vai o repost de um texto já com cinco anos. Escrito igualmente em Dezembro para assinalar o auspicioso desaparecimento de Augusto Pinochet.
A Patuscada
- Um reencontro de velhos amigos, um desfiar de reminiscências, uma celebração da amizade… -
Era uma fria manhã de Dezembro. Na velha cabana construída com musgosos troncos, nas escarpas inacessíveis de uma qualquer sinistra e anónima montanha; um velho de nariz adunco vigiava a frigideira onde fritava camarões.
Algures atrás de si, a porta ecoou duas sonoras pancadas como se fosse um gongo chinês, assustando as gralhas das árvores em volta; o que provocou um reboliço parecido com um congresso de bruxas em aceso debate.
Olhando de relance o calendário onde dois gatinhos assinalavam o mês de Dezembro, encaminhou-se para a fonte do ruído arrastando pelo chão as solas das botas de modelo italiano e resmungando entre dentes. Girou a chave quatro vezes para a esquerda na fechadura de aspecto moderno, e escancarando a porta contemplou o recém-chegado por cima dos óculos.
- Só te esperava para amanhã – Proferiu, dirigindo-se a um ancião de aspecto gorducho que transportava consigo duas garrafas de vinho branco – Até pensava que era o miúdo, pois mandei-o há pouco comprar malaguetas à vila…
- Despachei-me mais cedo. Aliás, a coisa estava a tornar-se aborrecida e decidi apanhar o transporte um dia antes – respondeu o interlocutor, entortando o bigode num sorriso quase imperceptível – Imaginas que aqueles pelintras, em vez de me oferecerem a festa de despedida com procissão e tudo como estava combinado, se limitaram a fazer-me um churrasquinho? – Depois um pouco mais calmo, continuou – Bem… Trouxe-te duas garrafas de “Santa Inés” branco para acompanhar os camarões. O tipo da alfândega queria deitar-lhes a luva, mas quando lhe disse que eram para ti acagaçou-se.
- Fizeste bem, Augusto – Respondeu o anfitrião – Esses gajos têm memória curta, e ás vezes é preciso refrescar-lha. Mas entra, que isso aí fora está um gelo que não se pode… Deixa as garrafas a refrescar na soleira, que aqui ninguém rouba nada.
Sempre a arrastar as botas pelo soalho, conduziu o visitante a um cadeirão perto da lareira. – Serve-te de um porto, que o miúdo deve estar aí a chegar e eu mando-o acender a lareira.
- Miúdo? Mas qual miúdo, António? – Perguntou finalmente o outro
- O Rosa Casaco. Lembras-te? Aquele que me fez o servicinho do general aviador e da secretária brasileira. – Respondeu o do nariz adunco – É um puto porreiro! Até emprestou umas fotos minhas ao Múrias, para este fazer um livro comemorativo do centenário. O Adolfo encontrou-o por aí e enviou-mo (o Casaco, claro). Tem sido uma grande ajuda, que eu nesta idade não posso fazer trabalhos pesados.
- O Adolfo? Não me digas que o Adolfo está cá. - Disse Augusto, surpreendido – Eu tinha uma admiração pelo gajo… Era doido como uma catatua, mas fazia uma “kartoffelsalat” de se lhe tirar o chapéu…
- Então não sabes? O Adolfo agora é Presidente da Junta. – Informou António com um sorriso maroto – Chamou para cá toda a malta dele, e estabeleceram-se com um negócio de montarias ao javali, para turistas. Trouxe o Heinrich, o Herman gordo…
- Quem? O Herman José?
- Não, pá! O Hermann Göring. Aquele tipo que andava agarrado ao pó, e usava o cinto pelos sovacos como o Obelix. – António, casquinhou uma risada escarninha; mais parecendo o som de um par de maracas – Ainda me lembro quando lhe trocámos a heroína por “fluorescente trifósforo”. O gajo durante um tempo quando saía à noite, até parecia um pirilampo gigante com aquela peida enorme a brilhar no escuro.
Augusto suspirou de alívio – Se eu soubesse que vocês se divertiam tanto, tinha vindo mais cedo. Ainda por cima, já estava a ficar com falta de desculpas para faltar às audiências. E ia metendo em sarilhos aquele rapaz do Supremo que me andava a fazer o jeito.
Entretanto a porta abriu-se intempestivamente, dando entrada a Rosa Casaco que afogueado se dirigiu ao fogão com expressão preocupada – O Professor Salazar desculpe a demora, mas eles não tinham malaguetas e só consegui trazer pimenta de cayenne. Espero que os camarões não se tenham queimado…
- O quê? - Berrou Oliveira Salazar na sua voz de velha – Não tinham piri-piri? Isto é uma choldra! Bem dizia o Américo Thomaz que esta merda aqui é um inferno. Só tenho coisas que me ralem…
Música de Fundo
“Bang Bang You’re Dead” – Dirty Pretty Things (link)