Quarta-feira, 28 de Março de 2012

Paul Gauguin - Te Vaa (La Piroga)


O “Efeito Piroga”
- Ou sobre a extensão/representação do pénis nas culturas que se acredita carecerem de sofisticação cultural, tecnológica ou económica (eu queria escrever “Culturas Primitivas”, mas parece que o termo foi banido como politicamente incorrecto) -

Talvez um pouco influenciado pela visão colonialista de Jorge Brum do Canto, durante  a minha tenra infância eu imaginava que o Gungunhana teria um Baobá como piroga.

Apoiada pela propaganda do regime e pelas alarvidades que a Dona Alice (uma professora primária/primata, que ajudou a formar o meu mau feitio) nos injectava em doses maciças, esta ideia firmou as suas raízes em mim como se de um verdadeiro embondeiro se tratasse.

Estava escrito! O “régulo sanguinário” derrotado na aldeia nguni de Chaimite, além de não gostar de se sentar no chão (o que só abona a seu favor) era um gordo enorme no meio de súbditos magros e esfaimados. Não interessando de modo algum à nossa cinematografia a exactidão do facto, mas apenas o belo contraste que fazia no “preto & branco” da tela do cinema.

O que quer dizer que (segundo a minha juvenil e fértil imaginação) Gungunhana teria que ser possuidor de uma enorme piroga que transportasse o seu corpanzil pelo Incomáti, em cujas margens os colonos aterrorizados hesitavam já perante o simples e recreativo acto de açoitar um qualquer preguiçoso mainato.

É assim o imaginário das crianças. Uma ou duas aldrabices bem contadas, e lá vão elas na direcção errada, talvez pelo rio errado e dentro de uma piroga feita de embondeiro.

Deve ser mais ou menos por esta altura que alguns de vós se interrogarão sobre o que será o “Efeito Piroga”, ou se mais uma vez e à semelhança do Correio da Manhã, utilizei um título falacioso como chamariz para vos convencer a ler um texto sem qualquer interesse.

Na verdade nem sei. Pois como é hábito estou para aqui distraído e a desviar-me do assunto, como se fosse o saudoso Professor Vitorino Nemésio (gostaria, mas nem sequer lhe chego aos calcanhares).

Tudo isto começou num belo dia de Dezembro em 2010. Quando impulsionado pela nebulosa recordação de um programa do Jô Soares, em que Paulo Silvino apresentou uma divertida cançoneta/lenda índia - a “Lenda (“da treta”, claro) da Piroga de Cristal” - decidi escrever um post sobre o assunto.

Procurei pela Net uma imagem que se relacionasse com o tema em questão. E o melhor que encontrei na altura (estava com um pouco de pressa), foi uma foto (aliás, havia várias) da "Piroga do Cabral". Um bar que, acho, fica na ilha do Sol em Cabrália, na Bahia.

Foto esta (que mal se procura por “piroga do Cabral” no Google, é logo a primeira a aparecer) em que uma sorridente mulata se encontrava esparramada sobre a tão gabada piroga; que apesar de não ter pertencido ao famoso descobridor, não deixaria de fazer orgulhoso o seu proprietário. Uma vez que é incrível a quantidade de “mulherame“ que faz gala em sentar na já supracitada extensão freudiana atribuída ao meu conterrâneo.

E estamos conversados quanto à foto. Quanto ao post, a coisa não ficou por aí.

Apesar de o único comentário ser de um parvo qualquer (que além da falta de sentido de humor, acha que ninguém em Portugal conhece a “Ópera do Malandro” de Chico Buarque), o post foi na realidade um sucesso em terras de Vera Cruz.

Bem… Se calhar foi mesmo só a foto.

Comecei a reparar que a maioria dos leitores chegados a este blog e vindos do Google.com.br, tinham efectuado buscas por “piroga”, “o que é piroga”, “piroga do Cabral” e “piroca do Cabra”. Embora este último caso se possa dever a dislexia ou a alguém com fetiche por maus rapazes.

Entristeceu-me um pouco esta evidência, de que em terra de índio houvesse tanta gente que parece ignorar o que é piroga, enquanto tanta mulher vai sentando nela e tirando foto para colocar na Net. Dá um pouco que pensar, não dá?

De qualquer modo já estou a ficar com falta de tempo. Por isso e embora não tenha explicado em pormenor (nem de qualquer outro modo) o dito “efeito”, quem aqui aparecer pelo Google sempre poderá ler o post.

Ou como diria o Chico (mas o Anysio, claro) se lesse isto:
 - "Se contente com a jangada, que a piroga está ocupada".


Música de Fundo
"História dos Pescadores"

 


Dorival Caymmi apresentado por Vinícius e acompanhado pelo Quarteto em Cy (com filmagem dos pescadores efectuada por Orson Welles)









8 comentários:

Sod o Pérfido disse...

Tens que arranjar uma forma dos leitores clicarem num gosto qualquer. Que isto de ter que escrever um comentário a dizer bem de um texto, parece-me próprio de uma sociedade primitiva...

TheOldMan disse...

SOD, como sabes sou um daqueles últimos atavismos que desprezam as benesses do Facebook e dos testes de escolha múltipla.

Acho que é bom para todos nós praticar um pouco de escrita. Não vá um dia ser necessário escrever algo, e descobrirmos que só sabemos utilizar "emoticons".

De qualquer modo, só para ter o prazer de te ver utilizar "dizer bem de um texto" numa frase qualquer; já vale a pena.

;-)

Sod o Pérfido disse...

:-D

TheOldMan disse...

Pois...

;-))

Janita disse...

TOM,
sabendo eu da sua limitação de tempo disponível, para cirandar pela blogosfera, sinto-me duplamente reconhecida pelas suas visitas e cordial simpatia.
No seu penúltimo comentário aquela sua frase final deixou-me a sorrir abertamente. Não sei bem porquê, mas fiquei com a idéia de que teria sido mesmo essa a sua intenção. Obrigada, TOM!

Pois este seu bem humorado post é assim uma espécie de 2 em 1...
O vídeo do Jô tem de facto uma imagem péssima e não consegui ver até ao fim, por me incomodar a vista, mas li a letra da Lenda da Piroga de Cristal no post de 2010.

E sim, gostei muito do texto. :)

Espectacular o vídeo que apresenta no final. Uma raridade, mesmo.

Um beijo.

Janita

TheOldMan disse...

É verdade, Janita.

Usei de um termo utilizado no futebol brasileiro, porque pensei que o paralelismo entre um grupo de pessoas que estão a tentar "dar uma força" e um grupo de "maluquinhos da bola" aos pulos na bancada, a faria rir.

E o riso é o segundo melhor tipo de vibração (não me pergunte qual o primeiro), para alinhar favoravelmente todas as nossas moléculas.

Beijo


;-)

francisco disse...

e afinal, o que aconteceu à piroca, embrenhou-se na selva através dos meandros e braços de rio ou naufragou?

TheOldMan disse...

Francisco, infelizmente a lenda acaba daquele modo triste que já conhecemos:

"Mas, Jaci ouviu
As preces do casal
E transformou a embarcação do Boi Xavante
Numa bela piroga de cristal

Mas a índia estabanada
Foi dançar de empolgação
Deu com o pé na bola errada
E quebrou o pirogão"

Já não há finais felizes...

Mas dizem os índios Ianomâni que à noite quando a lua se reflecte na "grande serpente", consegue ver-se a piroga de cristal penetrando lentamente no grande templo da cidade de Manoa. Levando consigo Boi Xavante que se juntará a Omama (não confundir com Obama) para a divina missão de o transportar pelo horizonte celeste na sua piroga mágica.

Assim uma espécie de "Driving Miss Daisy", mas com menos rabugice.

;-)

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