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| A ratoeira não persegue o rato, mas este raramente lhe escapa. |
Foto: Net
Acabamento: Me
A Última (ou não…) Conversão do “Flakhelfer” Joseph Alois
- Ou das muitas coisas que são mais fáceis de apanhar que um
deficiente motor (vulgo coxo) … -
As águas de um azul-turquesa que embatiam
mansamente na muralha, acompanhavam ritmicamente a constante brisa que transportando
o aroma das “chichachirritas” a fritar, o misturava com o cheiro acre a fumo de
tabaco, que pairava sobre a mesa qual nuvem premonitória.
O ancião pigarreou obviamente para ganhar
tempo. Iniciando a sua narrativa numa voz que apesar de sumida e arrastada,
ecoava na pequena praça estranhamente deserta.
- Vou confessar-lhe uma coisa… –
rouquejou um pouco arfante – já o teria convidado mais cedo para aparecer por
cá, se a Nikita não me tivesse dito tanto mal do vosso clube. Mas agora que nos
conhecemos, posso confiar-lhe que tudo isto não passou de uma estúpida
embirração.
Lembro-me bem que a bronca
rebentou exactamente a 1 de Janeiro, no ano em que o Paul Anka lançou “Lonely
Boy” – Era uma piroseira mas fazia um enorme êxito nos bailes e as gajas
adoravam… – Bem. Adiante!
Sempre fui um patriota. E apesar
de o Fulgencio (o nosso patrão) não ser tipo de quem se troçasse impunemente; o
certo é que comecei a achar que ele dava demasiada confiança aos turistas que
paravam aqui na tasca; e que o negócio não dava o lucro que podia dar.
A chatice toda é que eu ganhava à
comissão e isso estava a afectar-me. Pois andava sempre sem cheta e a Mirita já
tinha ameaçado pôr-me as malas no patamar e um molho de lenha à cabeça. Lá as
malas ainda vá, que a tipa tinha mau dormir e sofria de flatulências nocturnas;
agora a lenha é que não podia ser. Pois eu tinha uma reputação a manter e
quando se soubesse havia de ser o alvo de chacota de toda a clientela.
Foi por essa altura que tive a
melhor ideia da minha carreira de empregado de mesa. Chamei de parte o Ernesto
que era o nosso lavador de pratos e propus-lhe sociedade se me ajudasse a
correr com o idiota do Fulgencio. Se na altura eu soubesse no que isto ia dar,
nunca me teria metido em tal sarilho.
Mas a impaciência começava a
consumir-me, pois além da perspectiva de poder vir a ostentar uma armação digna
de um tricerátopo, custava-me ver os turistas todos os dias a encharcar em
tabasco os “moros & cristianos” feitos com tanto amor, e (ainda tremo só de
me lembrar) a contaminar com Coca-Cola o maravilhoso rum de sete anos.
A coisa ao princípio nem correu
muito mal. Pois o plano que era assustar o patrão de modo a que este vendesse a
tasca por tuta-e-meia, e arrancasse para a parvalheira onde tinha nascido, até
se desenrolou a contento.
Eu e o Ernesto que tínhamos
comprado dois conjuntos de barbas postiças e boina de pára-quedista, acendemos
uns charutos para compor o disfarce e entrámos pela tasca de catana em punho a
gritar que tinha havido um golpe de estado e que todos os burgueses que
ganhassem mais que o ordenado mínimo iriam ser executados.
O tipo apanhou um cagaço tão
grande que desapareceu de circulação. Deixando a um primo ordens para vender o
negócio o mais depressa possível. Soubemos mais tarde que afinal ele é que se
safou bem; pois enquanto estávamos por aqui a tentar fazer pela vida, o gajo
com o dinheiro da venda foi esconder-se na Ilha da Madeira onde deu um curso
intensivo (dizem que o Alberto João foi quem teve melhores notas) sobre fuga ao
fisco e intriga política. Acabando por ir passar uma temporada ao Estoril,
antes de se fixar definitivamente em Espanha.
Foram os nossos melhores anos.
Corremos com os labregos dos turistas americanos e passámos a servir uma
selecta clientela, que tendo gostos mais refinados, muito melhor conseguiriam
apreciar os nossos petiscos.
Infelizmente acabámos por nos
meter em sarilhos com o gajo do bar americano, que não tendo espaço para
armazenar o vasilhame, queria que lhe guardássemos as grades das cervejas no
nosso armazém.
Só que nós tínhamos um arranjinho
com a Nikita do bar de alterne aqui ao lado, que consistia em deixar as
raparigas dela utilizarem o armazém quando recebiam visitas (eram muito
populares). E o tipo quando soube (ele e a Nikita não se gramavam nem um
bocadinho) foi o cabo dos trabalhos; pois queria mandar-me dois Porto-riquenhos
para me partirem as rótulas com um cabo de picareta. E só me safei, mas mesmo à
recta, quando lhe garanti que não tinha nada com a fulana do alterne e lhe
mostrei o armazém cheio de caixas de rum e grades de hortaliça.
A partir daí foi sempre a descer.
A Nikita nunca mais veio às boas
(Sim, que a Mirita tinha-se pirado com o nosso “Fidelito” e nunca mais os vi)
embora ainda me falasse. E quanto ao John F. do Bar Americano… Uma bela noite
apanhou o pobre Ernesto (já com os copos, coitado) a fazer uma mijinha contra a
Muralha Velha, e espetou-lhe à traição um monte de balázios no “toutiço”, sem
que o pudessem incriminar por falta de testemunhas.
Nunca mais esta tasca foi a mesma
sem o pobre Ernesto. Olhe, fizemos-lhe uma pintura de homenagem naquela parede.
Está mesmo catita, com a boina as três pancadas e charuto na boca…
- Ó senhor Castro – disse o
segundo ancião que já estava pelos cabelos por causa dos perdigotos que o outro
lhe enviava à mistura com o monólogo – A sua sorte é que o inferno foi uma
invenção das gerências anteriores para manter o pessoal na linha. Senão era lá
que iria passar a eternidade a chamuscar esse traseiro hipócrita e escanzelado.
Música de Fundo
“Sixteen Saltines” – Jack White