segunda-feira, 28 de julho de 2003

Meu caros, a partir de hoje este blog encontra-se em regime de férias; e só lá para 12 de Agosto me apanham cá novamente.

Deixo-vos um enlatado para a minha ausência, E que Blog esteja convosco...
TheOldMan


Crime no Lar! (Conto Gerontológico)


Eram seis da tarde, a enfermeira Arlete passava-me os "santos óleos" pelas articulações anquilosadas, enquanto repuxava os tendões, tenazmente.

No deck, tocava uma velha cassete dos Tangerine Dream, o vapor de sândalo evolava-se de um pau de incenso.

Com um estrondo enorme, a porta bateu contra a parede quando o Chefe Aniceto catapultou as suas banhas para dentro da enfermaria.

Mataram a Alice costureira - comunicou o ex-chui - encontrei-a toda torcida, parece uma torta de Azeitão.

Lá estás tu a pensar em comida - disse eu enquanto vestia as ceroulas regulamentares - não tentaste por acaso pôr-te em cima dela? Era morte certa, coitada.

Despedi-me da enfermeira Arlete, dando-lhe uma terna fisgada com o cinto-de-ligas - Mais logo passo por cá para brincar aos médicos, prepara o KY® - descemos as escadas fazendo gincana por entre dois ou três catatónicos, e no piso de baixo, dirigimo-nos ao sector dos acamados.

Não era bonito de se ver. Acendi uma cigarrilha (contra todas as proibições da cabra da Dona Francisquinha), olhando em volta, não fosse o Pide Leontino estar nas redondezas e ir a correr fazer queixinhas.

Pobre Alice! Alguém lhe tinha esmagado o crânio com uma arrastadeira de aço inox, e roubado a preciosa colecção de dedais em porcelana de Sévres (Colecções Philae). A janela estava aberta.

Encostei-me á ombreira aspirando o fumo. A rua estava húmida de chuva. Carros passavam sem destino.

Fui buscar a gabardina e o boné aos quadrados. Á confiança, enchi o "pocket flask" com Jack Daniel's.

Saí... Já não ia brincar aos médicos nessa noite.

II

Almada, cidade ex-metalúrgica. Frente a Lisboa mas com um rio no meio.

O próprio Cristo-Rei vira-lhe as costas, e abrindo os braços, parece que se prepara para mergulhar e fugir a nado.

Percorri as ruas um pouco ao acaso, atravessando a poalha da chuvinha "molha tolos", enquanto ordenava as ideias. Não é fácil fazê-lo num lar. (A não ser que um tipo se feche no duche. Mas a última vez que o fiz, o sistema anti-acidente bloqueou acidentalmente e só me conseguiram desencarcerar horas depois.)

Desemboquei no jardim do castelo, encostado ao dito e sobranceiro ao Tejo. Olhei o rio em baixo. Era uma queda e pêras, cerca de 100 metros; só que eu não estava ali para atentar contra o equilíbrio ecológico do local. Também não sabia se valeria a caminhada, tinham passado demasiados anos.

Foi então que avistei o Bebé. Sei que é idiota chamar Bebé a um velho de 67 anos, mas ele tinha essa alcunha há 50, e nunca pensámos em arranjar-lhe outra. assentava-lhe como um fato de bom corte.

Cara redonda, cabelo ralo e espetado, olhos esbugalhados. Um "retrato robot" de qualquer criança há muito desaparecida. O luar inexistente mascarava os restantes pormenores, mas era ele. Ainda pensei em fazer-lhe a velha partida do assalto, mas parei a tempo. Já somos poucos, e eu não estava disposto a perder mais um.

Aproximava-me silenciosamente, quando pressenti atrás de mim algo que me fez virar de repente, já com os dedos enfiados na velha "soqueira" de latão. Demasiado lento.

O coreto do jardim, pareceu subitamente explodir na escuridão. Senti uma dor aguda por baixo da orelha direita, e foi tudo. Lembro-me de notar enquanto caía, duas pedrinhas pequenas e brancas que se aproximavam...

III

Tanta humidade ia dar-me conta do reumático. Ainda ouvi os passos arrastados do Bebé, que se afastava em direcção ás escadinhas do Ginjal; tentei levantar-me, mas o meu livro da 3ª classe estava errado. Querer não é poder (se não, escreviam-se do mesmo modo).

Cambaleei até ao muro do miradouro tentando focar a vista, as luzes de Lisboa, em frente, evoluíam coreográficamente quais pirilampos bêbados. Ao lado, um junkie olhava placidamente as águas, cambaleando igualmente, mas por motivos diferentes.

Dando um golo rápido do frasco, corri em direcção á escadaria, e desci para o Ginjal, em direcção a Cacilhas. Com uma incómoda dor de cabeça, e uma orelha que inchava ao ritmo da inflação. Evitei a maior parte das poças de água no cais, e precipitei-me para um Cacilheiro que partia.

Pela vazante corriam sargaços e restos de caixas de fruta. Enquanto me aproximava da outra margem, um cargueiro fundeado descarregava, sabe-se lá o quê. A Lua apareceu, mas agora não fazia falta nenhuma. Sacudi a gabardina e esperei que as portas abrissem. Os velhos espertos não saltam de barcos (reminiscências...).

Entrei num táxi da fila, e dirigímo-nos para o Largo da Graça. Estava na hora de reatar velhos conhecimentos.

Isaura a "Bruxa" (agora diz-se cartomante), habitava numas águas furtadas de um edifício rococó em mau estado. A escada que já vira melhores dias, rangia como uma cama de pensão de 3ª. Quando consegui chegar lá acima, pequenas gotas de luz desfilavam á minha frente. Na minha idade, subir cinco andares já quase dá alucinações.

Fiz uma pausa para respirar, e premi o botão, accionando o que me pareceu uma réplica dos carrilhões de Mafra. Era típico dela.

Isaura saltou-me ao pescoço, enquanto inúmeros gatos se apresentavam repuxando-me as calças. Iria mentir, se dissesse que o tempo não parecia ter passado por ela. Mas disse-lho na mesma.

- Tu também continuas jovem e belo... - disse-me ela piscando o olho. Somos velhos cúmplices, e estas piadas caem sempre bem.

Não tive coragem para lhe contar da Alice. Nos loucos anos 70, tinham vivido as duas com o "Cara de Empadão", numa casa de praia na Caparica. Música, amor e imensos charros (não necessariamente por esta ordem).

Sentei-me no sofá, e inventei um alibi para a orelha inchada. Declamei em bom estilo, um alexandrino que incluía uma janela e um golpe de vento. Não me sentia nada bem, o que afectava um pouco a minha capacidade ficcionista.

Em cima do aparador, o velho Satã - o patriarca da gataria - olhava fixamente, agora embalsamado; enquanto a sua descendência evolucionava pela sala de rabo no ar. Isaura chegou da cozinha, com um saco de gelo e dois generosos gins. Sentou-se no braço do sofá e colocou um LP no prato.

Tom Waits - Heart Atack & Vine

IV

A Renault 4L titubeava pelas ruas de Lisboa, como uma rameira em dia de festa. Isaura conduzia de Português Suave ao canto da boca, o que, juntamente com a boina azul, lhe dava o ar determinado de uma heroína da resistência. Por alguns momentos senti-me Marat/Lamballe (tenho que deixar de ler para adormecer), mas a realidade impôs-se.

Ainda tens aquele emprego idiota? - inquiriu ela espalhando cinza pelo tablier - Que raio te havia de dar, ires meter-te num sítio daqueles, estás a marcar lugar?

Não ia continuar uma discussão interrompida há anos. Dei-lhe um beijo no pescoço, e pedi-lhe para me deixar dois quarteirões adiante. Não protestou. Estava habituada á minha falta de explicações.

Meti as mãos nos bolsos e atravessei a rua. Estava no Conde Redondo, nas imediações do covil de JV "O Sonso".

JV era humorista. Não muito bom, é certo. Mas a ironia com que confundira o regime de Salazar (era assim tão velho), granjeara-lhe uma aura de herói, que ele tinha posto a render. E aqui para nós... Ele punha mais coisas a render.

O meu estômago rosnava mal-humorado. O gin estava a começar a fazer efeito, e não me lembro quando tinha sido a última refeição. Mais acima, um furgão de aba aberta comerciava comestíveis (ou não tanto...). Os clientes da noite rasca, abasteciam-se de hidratos de carbono e toxinas de duvidosa proveniência.

Mulheres deambulavam casualmente, em serviço. Empunhando um Chipicao meio-comido, entrei no "Trombinhas" e dei o brinde ao porteiro - Toma! É um pião.

Enquanto ele ficava a olhar surpreendido para a mão, acerquei-me do bar e perguntei á ruiva de serviço onde encontrar o JV. Respondeu-me que não sabia; com um sotaque Moldavo e um abanar de cabeleira. Ali seguiam-se as tendências da moda.

Tomei rumo aos lavabos, e entrei na porta da arrecadação que ficava ao lado. Estava frio. O Bebé também. Frio e roxo.

Parecia que tinha sido apanhado a meio da sua última birra, mas não lhe servia de nada, pois só eu estava lá para o ver. E não queria demorar, pois o roxo nunca me assentou bem.

Preparava-me para sair, quando ouvi vozes que se aproximavam. Agachei-me num recanto, entre grades de Corona e caixas de espumante barato (lembrei-me de Tintim e o "Caranguejo das Tenazes de Ouro"). Entraram dois calmeirões indiferenciados, seguidos por JV. E ao lado deste... a enfermeira Arlete.


V

- Tirem-me esse anjinho daí! - disse ele apontando para o Bebé - E tu ó metediço, vê lá se queres que mande o Huginho e o Zézinho trazerem-te ao colo.

Estava descoberto, e sem fuga possível. A Arlete sorria, trocista. Levantei-me sacudindo a poeira da roupa, um pouco constrangido. Olhando ora um, ora outro.

- Que se segue agora? Vais entregar-me ás Ucranianas para me torturarem. Ou matas-me tu com anedotas?

- Não querias mais nada... - respondeu enfadado - Não são para o teu dente. Aqui a miúda explica-te o que tens que saber, e desandas assim que puderes. Já me deste chatices que cheguem por hoje!

Arlete, ficava tão bem sem farda como com ela. Aliás. Sem farda era melhor, embora perdesse um pouco do seu fetiche. - Anda! - disse-me - Temos que sair daqui, antes que se comece a notar a confusão. Não é bom para o negócio.

- Porquê? Tens sociedade?
- Não! Ele é meu pai! - respondeu ela, saracoteando o traseiro em direcção á saída. E eu segui-a, não fosse o "Sonso" mudar de ideias e mandar atrás de mim os sobrinhos do pato Donald.

Esgueirando-nos pela sombra, saímos pelo acesso dos fornecedores e entrámos num edifício caquéctico; uma espécie de relíquia do estado novo, ainda com secretária para o porteiro, agora vazia. Era o "Matadouro", como lhe chamava o JV.

Longos corredores de tábuas centenárias, e quartos individuais distribuídos estrategicamente. Entrámos num deles, cheio de espelhos e almofadas; num estilo Kitch (ou seja, de gosto duvidoso).

Ela ajudou-me a tirar a gabardina. Usava um perfume com um ligeiro toque de frutas. Por momentos, lembrei-me daquelas borrachas escolares, que apetecia sempre morder. Ia dizê-lo, mas não foi preciso. Ela lia-o nos meus olhos... e eu comecei a perder-me nos dela, enquanto a ajudava a despir.

Tinha a pele suave como a de um pêssego, provocando-me descargas de electricidade estática. Naveguei-lhe a curva dos seios, as ancas e as coxas. Viajava dentro dela, enquanto lhe dava pequenas dentadas vorazes. A sua respiração, ecoava nos meus ouvidos, num murmúrio. O corpo oscilava, flexível como um salgueiro batido a vento.

Por fim, rolámos pelas almofadas, vencidos pelo cansaço. Não ia estragar o momento com um cigarro. Por isso... adormeci.


VI

Mas não por muito tempo. O quarto era terrivelmente frio; e mal ela se levantou, fiquei quase completamente desperto. Tomámos um duche rápido e saímos. A noite estava igual a antes, nós também.

Enquanto o táxi (este conto está a ficar-me caro em táxis) nos levava para a Margem Sul, contou-me finalmente algumas coisas que há muito desejava saber. E outras, que francamente bem poderia ter omitido. Certas visitas ao passado são uma autêntica exumação.

No final dos anos sessenta (nota-se que estes tipos, são quase todos um pouco mais velhos que eu) durante a "Primavera Marcelista", JV era tido como um tipo intratável mas de confiança, por parte de alguma esquerda.

Tinha então aberto um bar, onde caíam espécimes de todos os quadrantes á cata de sensações fortes; o Bebé era o barman. O "Sonso" aproveitava algumas inconfidências de homens do regime, passava-as á CDE, e algumas passava-as á prensa em belos fascículos (nem sempre apreendidos).

Um dia descobriu que o Bebé fazia o mesmo aos seus amigos democratas, elaborando lindas redacções para o Pide Leontino, e a coisa deu para o torto. O Bebé escorraçado e sem emprego, foi engrossar as hostes do Silva Pais. Tendo sido igualmente escorraçado do quarto da Alice Costureira, que na altura "alternava" no bar (ou seja, costurava para fora), e com quem vivia.

A Alice, embora analfabeta de pai e mãe, escondeu as cópias de todos os relatórios do Bebé; bem como alguns roubados ao JV, num projecto inovador de Plano Poupança Reforma. E tudo correu sem grandes alaridos, até que, vinte anos depois; alguns excertos começaram a vir a lume num periódico independente.

Caiu o Carmo, a Trindade e a Portugália.

JV conseguiu infiltrar a filha enfermeira por meio de cunhas (o que não é de estranhar), no Lar onde se encontrava hospedada Alice, o Pide Leontino e outros jimbras sem interesse algum para esta história. Instituição essa onde o vosso narrador, coincidentemente prestava serviços de manutenção e segurança (beneficiando de magníficas massagens orientais, nas horas vagas).

A ideia base, era subtrair toda a documentação comprometedora; antes que a Alice vendesse também os relatórios do "Sonso". Esses sim, muito mais sumarentos e comprometedores, porque alguns dos intervenientes ainda aparecem em "tempo de antena".

Mas as coisas não correram conforme planeado. Alguém tinha despachado a Alice para o céu das costureiras, e abandonado o Bebé (já roxo) á porta do "Trombinhas".

E eu voltara á estaca zero, ainda mais confuso que antes. Á porta do Lar, com uma orelha inchada e menos 30 euros. Maldito "fogareiro"...

Entrámos.


VII


As luzes de presença encontravam-se ligadas, uma delas zumbia e piscava mensagens crípticas; os corredores estavam vazios. Separámo-nos em direcções opostas, como dois navios na noite, após uma breve troca de sinais.

Abri a porta do quarto e acendi a luz. Sentado na minha cama, o Chefe Aniceto limpava nervosamente a sua Astra 6.35.

- Ia começar sem ti, Sabes? - Comentou ele do fundo dos seus 130 quilos de febras.
- Andam em grandes manobras na zona do Centro de Dia. Objectos a cair, barulhos estranhos... Um autêntico carnaval!

- Dá cá isso, antes que me faças algum furo no calendário da Pirelli - retorqui eu, enquanto o livrava do malicioso objecto. As armas são tão úteis como qualquer ferramenta, mas como estas, só se devem usar apenas quando necessário.

Pendurei a gabardina no busto de Nietzsche, guardei a automática no bolso e saí com o idoso á arreata; não fosse ele tomar alguma decisão de cariz policial.

Vogámos quase silenciosos pelos corredores, algures murmurava um rádio. No quarto 36, o Major Nogueira lia Catulo com a porta entreaberta; cabeceando, é claro.

Os cadeirões do Centro de Dia encontravam-se esventrados, como passados a sabre por um bando de cossacos. Quadros caídos, livros rasgados no chão. Uma caixa de costura tombada, revelava o seu conteúdo heterogéneo. (É estranho como se memoriza estes pormenores insignificantes)

Comecei a temer por Arlete. Pedi ao Chefe Aniceto que a fosse avisar para ficar no quarto, e para telefonar ao filho (igualmente membro da corporação) a pedir apoio logístico. Os indícios não auguravam nada de bom.

Cheguei pé ante pé ao gabinete da Administração, no piso superior, e abri a porta de mansinho. Precaução inútil. O aposento encontrava-se deserto; com excepção da cabra da Dona Francisquinha, que jazia caída de nariz sobre a secretária, com um enorme hematoma na têmpora. Felizmente para ela, a queda tinha sido amortecida pela sua velha boina do Movimento Nacional Feminino. As velhas recordações dão sempre jeito.

Não havia já muito onde procurar. A cozinha encontrava-se fechada, e tudo levava a crer que se tratava de um assalto feito a partir do exterior. Reparei então que a janela se encontrava entreaberta, e ouvia-se vindo de cima, um ruído de bater de asas como um bando de gaivotas em sobressalto.

Segurei-me á velha escada de emergência que levava ao telhado, e preparei-me para subir. Uma dor aguda mordeu-me o flanco esquerdo, cortante como uma garra. Consegui virar-me a tempo...


VIII

O Major Nogueira, empunhando um canivete suíço preparava-se para repetir a dose. Depositei-lhe uma patada certeira no nariz romano, o que o fez desfalecer sobre a cabra da velha. Faziam um belo par, assim adormecidos.

Iniciei então, a subida da decrépita e oxidada escada. A chuva que caía, incómoda; tinha revestido os telhados de um vidrado resplandecente. As luzes difusas da cidade, emprestavam sombras e cores, aos edifícios incaracterísticos.

Fui-me equilibrando pelas telhas inclinadas e meio soltas, em direcção ao pombal, situado junto ás águas furtadas do sótão. Um vulto encharcado, semeava a confusão entre as aves, destruindo metodicamente as divisórias de madeira.

Claro que era o Pide Leontino, que empunhando a machadinha dos bifes, subtraída á sorrelfa da cozinha; partia o soalho do pombal. Tinha já em seu poder, dois embrulhos envolvidos em plástico, que guardava debaixo do braço esquerdo.

Por momentos perdi o equilíbrio, e agarrei-me a uma gárgula de zinco; que se soltou da parede produzindo um som de vidro em ardósia. Um ruído persistente e irritante, que se propagou em redor.

Precipitei-me sobre o velho, segurando-o num abraço; mas ele envergava um fato de oleado escorregadio, e libertou-se facilmente. Aproveitando o momento, em que tive que me agarrar á rede de arame para não cair, tentou atingir-me com a machadinha; o que quase conseguiu.

Recebi uma cotovelada, na ferida aberta pelo canivete do Major (estava a tornar-se excessiva a facilidade, com que toda a gente malhava em mim); o que me encheu de uma fúria irracional.

Ignorando momentaneamente a dor e machadinha, apliquei-lhe um pontapé "savate" no queixo, que o projectou através da janela para dentro do sótão. Saltei atrás dele pronto para mais, mas não era necessário.

O Pide Leontino participara na sua última missão. Jazia placidamente de costas, com os braços abertos na capa roxa de oleado; assemelhando-se um pouco ao velho Cardeal Cerejeira. Da órbita esquerda, saía um pedaço de vidro em forma de triângulo.

Peguei nos embrulhos. Eram papéis velhos, escritos á mão em caligrafia miúda de burocrata. Transcrições de conversas, comentários e pareceres para posterior intervenção. Deviam ser a "reforma" da Alice, ou o meu seguro de vida.

Enfiei-os dentro das calças, para que não se notassem, e abri a porta para a escada interior. No patamar, JV fumava calmamente um cigarro, na companhia dos calmeirões do costume.

- Olá abelhudo! - disse entredentes - Vi há pouco, a cassete do quarto "egípcio". Ou não sabias que todos os quartos do "Matadouro" têm câmaras? Vamos conversar...


IX

Os dois encorpados mocinhos, preparavam-se já para elaborar uma complicada coreografia sobre a minha pessoa; quando se ouviu do fundo das escadas algo que lembrava levemente uma velha locomotiva a vapor.

Subindo a escadaria vinham dois agentes e um graduado da PSP, precedidos de um afogueado Chefe Aniceto, este já com falta de pressão na caldeira.

O "Sonso", demonstrando um considerável sangue frio, mandou recuar os manos Donald e anunciou ás forças da lei. - Não se apressem, cavalheiros! Aqui a situação já se encontra controlada. - após o que iniciou a descida, não sem antes me dizer "sotto voce" - Não faças nada de que te venhas a arrepender...

Finalmente descontraí-me. Á minha frente e visivelmente preocupado, um clone mais jovem do Chefe Aniceto (e que eu calculei ser seu filho) fazia-me as perguntas da praxe.
Deixa o homem, Alípio! Não vês que está ferido? - Admoestou-o o pensionista, sem respeito pela sua condição de subchefe. E depois para mim, enquanto o outro se afastava - Viste!? Subchefe... e tudo. Diz lá que o rapaz não tem pinta.

Aproveitei para não responder, porque traziam já o Pide Leontino; envergando agora um saco cinzento com fecho de correr. Dirigi-me á enfermaria, necessitava de um trabalho especializado.

Arlete suturava-me a ferida, não passava de um pequeno corte. Aproveitando a acalmia, retirei a papelada das calças e fiz um embrulho, que colei ao peito com duas tiras de adesivo. - Então? - perguntou ela - o que vais fazer com isso?

- Para já, nada. - respondi enquanto começava a vestir-me - Vou guardar os relatórios em lugar seguro, para serem divulgados caso me aconteça algum "lamentável acidente". Por mim, o caso morre aqui. - É claro que estava redondamente enganado...

A ramona levou o Major Nogueira, que sendo reformado, não tinha direito a tratamento especial. E mal a sirene da polícia deixara de se ouvir, já outra parecia ouvir-se. Mas era apenas a laringe da cabra da Dona Francisquinha, que fazia a sua imitação da Oberwatchtmeister Helga de Dachau.

- Tem alguma boa explicação para todo este contratempo? - Por acaso tinha, mas não lha ia dar. Virei costas e fui ao meu quarto fazer a mala. Deixei o busto e as cassetes, ensaquei alguma roupa e o "Pela Estrada Fora" de Kerouac e desci para a garagem.

Tirei a poeira á velha Kawasaki "sete-e-meio", pisei o pedal e saí pelo jardim. Vislumbrei fugazmente, numa janela do primeiro andar, o rosto de Arlete apoiando-se contra o vidro.

Era já manhã. Fiz-me á estrada. Havia fila como de costume. Merda!!!!


domingo, 27 de julho de 2003

Memórias da Clandestinidade

Fui há pouco ao Café do Santos esperar o meu contacto, para efectuar uma troca de backups de DivX.

Beberricava eu um Martini Dry só com um cheirinho de Bombay Saphire, quando uma voz de barítono soou no meu pavilhão auditivo esquerdo. – Olá chavalo! Ainda não aprendeste que se deve estar sempre de costas para a parede?

Era o Anselmo, uma relíquia dos meus tempos de clandestinidade.

O Anselmo era o nosso mentor e o nosso herói. Era quem nos ensinava a fazer cola para cartazes, a partir das mais variadas matérias-primas; e foi quem me explicou que a melhor maneira de contrabandear os folhetos, era enrolá-los e metê-los no bolso esquerdo das calças (porque segundo ele, as pessoas querem acreditar no que vêem).

Então, miúdo... – disse-me ele – engordaste, pá! Essa vida sedentária vai-te matar.

- Isso é a vida de marinheiro! – respondi eu, pensando ainda no episódio de ontem – E tu o que andas a fazer aqui?

- Venho buscar aqui uns camaradas. O Partido organizou uma excursão a Marbella, e eu estou encarregue de não os deixar tresmalhar; já sabes, velhotes... Mas também vem malta da tua idade. Lembras-te da Adélia.

- Aquela que tinha uma tatuagem de Marx na nádega direita? – recordei eu deliciado – Meu Deus, o que eu gostava de bater naquele homem... velhos tempos ...

O autocarro buzinou lá fora. Despedimo-nos com um abraço, como convém a homens de uma só peça.

Fiquei ali, olhando pensativamente para o expositor da Matutano, enquanto recordava aqueles maravilhosos tempos em que dava palmadas em Marx.

Estou velho.

sábado, 26 de julho de 2003

O quase-naufrágio do semi-rígido "Júlio Iglesias"
(In "História Tragico-Ridícula")

Vou contar-vos a história dos que embarcaram no semi-rígido “Júlio Iglésias”, quando saiu da Margem Sul em princípios da manhã de hoje; e em como quase pereceram todos os que o tripulavam.

Todos nós temos um Deus, um Pai ou um Patrão. Eu como sou um humilde assalariado, calhou-me um da última categoria.

Quando somos bons no que fazemos, além de recebermos comentários do género "Querido, nos teus olhos vi fogo de artifício..." ou "atéi aubi o seino da taurre dos cláirigos... quarailho!", somos de vez em quando convidados para integrar aquilo que alguns pensam ser um nível superior.

E foi assim que me foi ofertado um convite para cruzar o Tejo, como humilde tripulante do semi-rígido "Júlio Iglesias" (em homenagem ao mumificado cantor).

Ao contrário do que é hábito nas lides fluviais, em vez de irmos largar a embarcação numa praia desafogada e frequentada por desvairadas gentes; foi mister, por ordem do patrão, que varássemos no areal do Rosairinho. Um cu de Judas, que o próprio renegaria se lho permitissem.

Ai da empresa cujos trabalhos começam em tal tormenta. O timoneiro era tosco e os fados (que se ouviam no rádio) trabalhavam em desfavor de tal demanda.

Sem o saber, estávamos bem lixados.

Zarpámos então pelas 10h daquele fim do mundo, com o motor de dez cavalos chilreando alegremente como um casal de periquitos e o vento afagando-nos as faces glabras.

Rumámos a montante no rio, saboreando o ar da serôdia manhã. Passámos o Mar da Palha, a Base Aérea do Montijo e o litoral alagado de Alcochete. A embarcação comportava-se bem, cavalgando a espuma das pequenas vagas qual virgem núbil, hesitante e meiga. Ao longe, a praia acinzentada revelava-se vasta, centrada numa palafita com esplanada.

O restaurante.

Sentaram-se estes vossos vassalos, em sã camaradagem á volta de um queijo de Niza, brindando ás Musas e Zéfiros em agradecimento pela imune jornada.

Ergui a minha taça de Quinta do Carmo e brindei aos ventos; o meu patrono ria-se como Gargântua (...mas é natural. Ele é construtor civil.)

Deliciámo-nos com uns robalos assados em presunto, consumindo duas garrafas do precioso néctar. Descansámos finalmente após a árdua tarefa, tomando refrigério num bolo de bolacha ao rum.

A tarde espalmava-se soalheira pelas areias. A maré baixara, expondo aos reflexos do Sol, não corais, mas brilhantes cacos de Sagres e Super Bock prévia e artisticamente plantados no húmido areal.

Enxaguámos nossas almas com um Curvoisier de três estrelas, tendo eu sacrificado aos deuses, um dos meu últimos "Flor de Cano". Quando veio a conta, estávamos já em comunhão com todo o universo e arredores.

E é aqui que o relato desta viagem entra no seu revés. Como uma garça de origami que se metamorfoseia em rato, ou uma ruiva de engate que se revela um travesti.

Os deuses abandonaram-nos. E ainda agora tento saber porquê...

A maré vazara, o que dificultava o lançamento da embarcação. Gastáramos já nesses cuidados dez minutos, quando das ondas surgiram indígenas em nosso socorro, uma trintena deles. As suas motas de água levantavam cachões, como de mijas de Neptuno se tratasse.

Esses cafres pertenciam a uma nobre etnia, cuja tez de âmbar os distinguia dos simples administrativos e empregados do comércio. Após múltiplos e prestativos esforços, lográmos vencer o areal e alcançar fundo para que manobrássemos o fora-de-borda.

Sem detença rumámos ao Mar da Palha, recolhendo em nossos rostos a nívea espuma do Tejo, bem como algumas partículas de origem suspeita.

Começavam aqui sem o sabermos, todos os nossos cuidados e males; como se abríssemos inadvertidamente, uma geleira de Pandora cheia de mornas minis e carnes frias estragadas.

Pilotava eu alegremente ouvindo B-52’s no meu Discman, quando chegámos á embocadura do canal do Barreiro. As bóias de sinalização ladeavam esta segura via, na sua majestade colorida cujo brilho saltitava nos meus Ray-Ban.

Talvez presa de demência provocada pelo Sol, o meu patrono instou-me a sair do canal; e tendo eu recusado, retorquiu com estas palavras aladas – Eu é que sou o dono do barco! Eu é que sei – pelo que, percorrido menos que um tiro de pedra, estávamos já atolados no fresco lodo do estuário.

As embarcações fluviais, sinalizavam trocistas a sua passagem enquanto nós, náufragos de vinte centímetros de água, tentávamos ingloriamente desencalhar dessas traiçoeiras paragens.

Foi talvez o demo que me tentou, porque se o causador desta desgraça não se tivesse desviado, veria cerceada a sua existência pela pá do remo que eu empunhava. A sede e a loucura invadiam-nos; e nisto gastámos meia dúzia de minutos. Entretanto, o astro rei, banhava cruelmente as nossas nucas.

Após porfiados esforços, lográmos alcançar a segurança do canal, onde se abria um enigma. Dos três braços de rio, desconhecíamos de qual éramos vindos; tendo meu amo tido a segunda ideia merdosa do dia. Ir contra minha opinião, perguntar o caminho a um dos velhos pescadores do Barreiro.

Toda a gente sabe que os velhos pescadores do Barreiro, não passam de reformados da Quimigal que deixaram de tomar banho; o que de modo algum os qualifica para dar indicações sobre rumos e ventos. Mas eu já me encontrava num estado de perversa indiferença... é que eu sei nadar, e ele não.

Após duas tentativas (aconselhadas sucessivamente por um fedorento ancião) goradas, tentámos o terceiro braço de rio, que a maré ao vazar tinha transformado em estreito desfiladeiro, mal dando para passar a remo com a pequena embarcação.

O ódio que eu sentia por toda a humanidade em geral, apenas era suplantado pelo que nutria pelo meu companheiro em particular. Os naufrágios têm destas coisas...

Chegámos finalmente á vista das areias do nosso destino. Das areias é exagerar um pouco, porque com menos três metros de água e mercê de uma inclinação de poucos graus, estendia-se á nossa frente uma praia de lodo esverdeado, que terminava na estreita faixa de areia onde se encontrava o atrelado.

Meu amo perdeu de todo a tramontana, chegando a empunhar o seu telélé para chamar um amigo que alugava helicópteros. Tudo fita, claro.

Pacientemente calcei as sapatilhas (que o lodo tem sempre cacos de garrafa) e soçobrando a retinida da embarcação fiz-me ao caminho, preparado para me deitar ao comprido caso o lodo se revelasse pouco espesso. Mas tal não foi o caso, chegando-me apenas aos joelhos e provocando a ilusão que eu usava botas altas de uma cor estranha.

Após inúmeros brados e invectivas, meu amo perdeu seu patronal cagaço e reuniu-se a mim, tendo finalmente ajudado a puxar o barco e alojá-lo no atrelado. Terminámos a nossa jornada num viveiro de trutas mesmo ao lado, lavando-nos bem como ás nossas roupas, enquanto uma miríade de pequenos peixes nos mordiscava as partes vergonhosas.

Rumámos então aos nossos respectivos lares, onde nos receberam como ressuscitados. Após todas as minhas provações, sentei-me á mesa e comecei a relatar nossos feitos; todos ouviam maravilhados o muito que eu tinha para contar.

Anno Domini MMIII

sexta-feira, 25 de julho de 2003

O Momento da Verdade

Recebi hoje a confirmação, de que sofro de S.A.F. numa das suas variantes mais perniciosas.

S.A.F. ou Síndroma de Antecipação ás Férias é uma desordem do comportamento, que afecta principalmente aquelas pessoas a quem ninguém substitui quando se ausentam.

Começa subtilmente por se manifestar nos pequenos gestos do dia-a-dia; montinhos desordenados com a papelada, fazer saltar teclas, etc.

O paciente afectado por S.A.F. tem o aspecto alucinado de um pregador Baptista. Do seu recinto de trabalho ouvem-se ruídos estranhos (matraquear de teclado, gavetas fechadas a murro, etc.), e os visitantes que o abordam sem ser por razões de serviço, são amiúde escorraçados com a vareta de limpar o aquário.

Começa a preferir músicas tipo Kraftwerk, e delira enquanto emite relatórios ao som do "Tour de France" ou "The Robots". O consumo de cafeina sobe exponencialmente, arrastando-o numa espiral que acaba inevitávelmente em murros num saco de areia, ou aínda em casos extremos, em campeonatos de braço-de-ferro em cima do estirador, contra o encarregado geral da parte de produção.

Na semana que se considera o periodo crítico (e que antecede a cura), todos os colaboradores começam a usar sapatilhas de corrida e a almoçar sandes, compelidos pela dinâmica obssessiva do paciente.

Eu sei tudo isto, porque mo contou alguém que também passou por esta experiência. Alguns deles, fundaram um grupo de apoio para as pessoas que aínda não sabem lidar com o seu problema.

Mal consigo esperar pelo fim do dia. Finalmente vou conhecer outros como eu.

Quando chegar a minha vez de me apresentar, levantar-me-ei de cabeça erguida e admitirei corajosamente em voz audível:

- Boa tarde! Eu sou TheOldMan, e sou um S.A.F.(ado)!

Depressa e bem, não há quem...
(Anedota espiritual do dia)

Estava Cristo em Samaria, e já muito atrasado para uma reunião no templo de Jerusalém, quando lhe trouxeram á presença um coxo e um fanhoso.

Curai-nos Senhor - disse o coxo - somos dois pobres irmãos, a quem o Altíssimo deu este pesado fardo, livrai-nos desta infelicidade...

Está bem, pronto - disse o Mestre, vendo que ía perder a próxima caravana para Jerusalem - tu, coxo... queres andar?

- Sim! Senhor, livra-me desta prisão!

- E tú, fanhoso... queres falar bem?

- Tzxim, Mextre cura-me dexta fânhojixe.

- Tende fé, ovelhas de meu Pai, porque estais curados - disse o redentor - agora desculpem-me porque estou muito atrasado, e o rabi Azimov não é para brincadeiras.

Quando Jesus se deslocava para a saída, ouviu um ruído vindo do aposento; e virando-se para Tadeu perguntou - Que estrondo foi este?

Ouviu-se então uma voz, vinda lá de dentro - O fânhojo caíu...

(in O Princípio de Judas)
O Clube dos Políticos Mortos

Começo por esclarecer que, apesar de cada vez que eu falo de política me aparecer Mário Soares ou o PS; não se trata de uma cabala mas sim uma resultante, equacionada a partir das variáveis idiotas que ambos introduzem na vida nacional.

Mas desta vez ele não está só, tendo (pelo caminho, em direcção a uma possível re-candidatura ridícula) recrutado dois super-heróis.

Leonor Beleza a.k.a. “Miss HIV” e Freitas do Amaral, o conhecido. “Marcelo Caetano do Século XXI”.

Os nossos heróis, propõem-se lutar incansavelmente contra as leis “antidemocráticas” que outrora ajudaram a implantar.

Agora que calhou á classe política ir parar á lamela do microscópio, já a lei é injusta, os prazos longos e a prisão preventiva um atentado á liberdade do cidadão.

Se é assim uma injustiça tão gritante (é pena só a terem descoberto depois de verem os nomes na papelada...), porque é que o PC não diz nada? É um pouco estranho, atendendo a saberem perfeitamente que mal haja hipótese serão o bombo da festa.

Ou será que os nossos heróis querem aligeirar a lei, apenas para a reajustar mal subam novamente ao poleiro, e após passado o perigo de se chamuscarem.

Pessoas “normais” (ou seja, povo...) com que convivo diáriamente, já antes das escutas apelidavam Ferro Rodrigues de “o outro Guterres”; incidindo as críticas principalmente na sua expressão macambúzia e na sua tendência para aparentar actividade.

Eu pessoalmente não acredito na teoria da conspiração contra o PS. Pode ser que me engane, mas lá para o fim de ano os programas de maior audiência serão os noticiários. Quem sabe, talvez utilizem o Estádio de Alvalade, e possamos lá atirá-los aos leões...

Que me desculpe JPP, mas isto é mesmo o país de Pacheco.

Nota de Rodapé – Soube posteriormente por uma toupeira (infiltrada na delegação da Charneca de Caparica), que o PC se considera fora de perigo; porque o seu hábito de comer criancinhas elimina á priori todos os indício incriminatórios

quinta-feira, 24 de julho de 2003

O Arrepio

No meu trajecto para o VH1 em busca de música, parei por breves momentos na TVI. Estavam a transmitir "Olhó Vídeo", apresentado por Claudio Ramos.

Sentí um impulso irresistível de telefonar para casa, e perguntar ao meu filho se estava tudo bem.

Não se sabe o que poderá afectar de tal modo uma criança, para se tornar num adulto assim...

As Férias do Pulha

O Pulha foi de férias. Porreiro!

Aproveitou e apagou igualmente todos os links.

Para não irem lá bater á porta enquanto ele não está, vou alí ao lado apagar o dele.

Não há como um pulha para reconhecer outro.

TheOldMan
Acidente de Percurso

Sofri hoje um acidente quando vinha para a empresa. O taxi onde me deslocava, ao manobrar para inverter a marcha, foi abalroado a menos de vinte metros da minha casa.

Dizem que nestas alturas, toda a vida nos desfila pela memória.

Estão a ver o meu problema? É que já cheguei ao emprego e aínda estou a meio da segunda parte do filme.

Charutos

Os meus agradecimentos ao João Carvalho Fernandes do Fumaças, pelo link tão gentilmente cedido.

A "Enciclopedia del Puro" é um ótimo local, para quem se quiser informar sobre charutos.

A Igreja do Imaculado Blog (3)
- da tolerância -

Venho desta vez falar-vos da tolerância, essa qualidade tão necessária a pais , professores e cornudos.

Segundo os chatos a tolerância é uma virtude, porque nos compele a aturar-lhes as intermináveis sessões de cabotinismo, que de outro modo acabariam á marretada ou por via de outras bênçãos terrenas.

No Livro de Mórmon 38.6 lê-se – “Ora, meu filho, eu não quero que julgues que sei estas coisas por mim mesmo; mas é o Espírito de Deus que está em mim que me dá a conhecer estas coisas.” – Normalmente é assim que os chatos começam as conversas.

Primeiro alinhavam uns elogios nos comments, e quando damos por isso já nos corrigem a ortografia, a acentuação e a sintaxe; como se fossem alguma velha tia viúva de professor primário.

Mas Blog não permite que o seu povo seja presa de tais vilanias. Os seguidores de Blog têm uma só face, e por tal, nunca poderão dar a outra em resposta á ofensa. Porque o chato, mesmo que se aloje na púbis do Criador é sempre um bicharoco incómodo e daninho.

Contra os chatos terrenos, segundo dizem, o permagnato de potássio dá bem conta do recado; mas o chato da alma... irmãos, aqui o caso torna-se numa luta entre a luz e as trevas.

Não se iludam quando esses pregadores fradescos da concorrência vos falam do diabo tentador. Tentadora é a Denise Richards, porque o diabo é chato; a coisa mais sensaborona desde as conversas de Américo Thomaz; e talvez apenas ultrapassado pela última governação do PS.

Mas não falarei de política senão tornar-me-ei um deles, um chato.

Infelizmente, o profeta Joseph Smith (do qual só sobraram os óculos) nunca pôde esclarecer como evitar essa praga de seres picuinhas e demoníacos, por isso o livro dele não nos pode ajudar.

Trago-vos pois um meio, que penso nos ajudará a todos nos momentos de dúvida, e para que nunca caiamos nessa iniquidade.

Formulário de Introspecção Normalizada da Igreja do Imaculado Blog (Mod.33-A)

1 – Será que não compreendo o que este tipo quer dizer, ou estou apenas a atazaná-lo?

2 – A acentuação é assim tão importante, ou quando deficiente, faz-me lembrar a minha vida sexual?

3 – Terei mau hálito, ou estarei apenas a ser inconveniente?

4 – Terei futuro na Santa Inquisição, ou isto é apenas uma fase passageira?

E após meditardes nestas interrogações, libertai-vos de todos os pensamentos negativos e louvai a Blog.

Porque é por ele que aqui estamos.

Vosso irmão em Blog.

quarta-feira, 23 de julho de 2003

Fumos e outras coisas

Andei há uns tempos em busca de "puros cubanos", e já tinha dado com eles tendo-os colocado nos Favorites (são duas páginas enormes).

Mas apesar do nome "Fumaças", de charutos cubanos, dominicanos ou hondurenhos, népia.

Rapazes, se quiserem aínda tenho alguns "La Flor de Cano"; não são dos melhores, mas é de boa vontade.

A Igreja do Imaculado Blog (2)
- Blog é Amor -

Não fica bem a um velho cínico como eu confessar este tipo de coisas, mas eu gosto das pessoas; num sentido muito lato do termo, é claro.

Aínda há pouco mandei uma mensagem a Frei Tomás, um frade Dominicano do pt.conversa (a tasca que eu frequento), em que lhe dizia que o Senhor o iluminava, mas que ele tinha o vitral embaciado.

E tive mais uma revelação, qual pomba branca cruzando o céu de madrugada.

Em verdade vos digo, "que interesse tem passarmos Ajax no vitral do nosso irmão, quando o nosso está cheio de poeira e caganitas de moscas?" (5ª epistola de Blog ás mulheres-a-dias).

Fiz então uma introspecção - o que me deixou enjoado pois tinha acabado de tomar o pequeno almoço - e descobri (além de restos de uma torta e dois cafés) a palavra de Blog que vos vou transmitir hoje - Blog é Amor.

Sem dúvida que é! Isso é fácil de dizer, claro... - dirão os pregadores da concorrência - nós inventámos essa fórmula primeiro! - Mas não! Não se trata de uma fórmula apenas como garantem esses filisteus da retórica, Ele É!

Pensai bem, o trolha que abandona o local de trabalho para ir ao cibercafé actualizar a página, enquanto os seus companheiros refocilam nas minis e nos coiratos... não demonstra amor?

A prostituta que - enquanto o cliente divaga afanosamente - olha o tecto, pensando em qual poderá ser o teor do seu próximo post... não demonstra amor?

O polícia descuidado, que toma notas do seu quotidiano para as aproveitar á noite; e que abdica delas porque precisa dos impressos das multas... não demonstra amor?

Blog é amor, irmãos! E se não fosse amor, como teria eu pachorra para estar a escrever isto, em vez de adiantar o meu trabalho antes das férias, ou jogar um joguinho de flippers.

Ide, falai de Blog ao vosso próximo; dai-lhe a benção de um pouco de HTML e ELE vos guiará.

Até mais logo.

terça-feira, 22 de julho de 2003

É melhor assim...

Interacção é um termo que me faz lembrar, aquelas bolinhas "saltitonas" com que o meu filho brincava; e deve ser também um dos conceitos que dá mais hoje em dia, origem a imensa conversa fiada perfeitamente evitável. Mas se não gostam, vão chatear o Pacheco Pereira.

Não é que eu esteja chateado com algo ou alguém, ou que me tenham dirigido comentários mordazes (não sou tão proeminente assim...); apenas descobrí que me estava a deixar influenciar.

Positiva ou negativamente não interessa, porque enquanto as críticas nos podem deprimir porque contrariam, os elogios inflam o nosso ego conduzindo-nos igualmente por caminhos perigosos.

E aqui para nós... eu escrevo por gosto. Nem sequer sou muito bom nisso, mas diverte-me, e eu gosto de coisas divertidas.

Poderia começar a por defeitos no sistema de comments para me desculpar, mas é gratuito, e por isso inatacável. O que realmente me chateia é começar a sentir-me obrigado a seguir uma certa linha de acção, não ser demasiado isto ou de menos aquilo.

Pois bem. Meus amigos perdoem-me, mas ESTOU-ME CAGANDO!

A partir de hoje, deixa de existir o applet para comentários. Isto não é um trabalho de grupo. Quero usufruír do meu direito a ser obtuso, encantador, vulgar, erudito ou boçal; mesmo que eventualmente não o venha a conseguir.

Se tiverem para transmitir alguma coisa que considerem relevante, o e-mail continua lá; dá mais trabalho e não é tão anónimo, eu sei, mas é mesmo por isso.

No more Mr. Nice Guy ( vou ver se o Pipi aínda é vivo)

Porque é que isto não funciona?
A Igreja do Imaculado Blog

Normalmente vejo as notícias da manhã como Adão (isto é, deambulando nu pela sala), enquanto simultâneamente me barbeio; como devem calcular esta combinação não admite grandes efusões.

Mas hoje, permiti-me espalhar alguma espuma pelas redondezas enquanto saltava de alegria, Jennifer voltou. Não sei se sabem quem é.

Jenifer foi ferida e capturada na última Guerra do Golfo. Diziam as más línguas lá nos States, que os ferimentos nem sequer eram de bala, e que o inimigo mandara inclusivé, indicações para que a fossem recolher pacíficamente ao hospital. E estavam certos, era mesmo tanga.

A verdade é que se me reportar ao video das forças especiais que efectuaram a extracção, não havia uma alma naquele edifício quando fizeram o aparatoso salvamento. E os ferimentos, provaram ser causados por mais um acidente de azelhice dos taratas.

Diziam aínda por lá - mas isso devem ser comunas, como aquele gordo dos óculos que fez um documentário a denegrir o bowling - que tudo isso não passava de uma montagem do Durão Barroso lá do sítio, com vista a manipular as iras da populaça contra os "petrolinos".

Está-se mesmo a ver. A pobre rapariguinha tenra e loura, sem possibilidade de se defender nas mãos daqueles libidinosos barbudos malcheirosos, que aínda por cima lêm o Kama-Sutra (ah, ... isso são os indianos, mas nos States quase ninguém sabe).

E regressa então a jovem heroína, intocada pelos impuros beduínos (eu sei que são iraquianos, mas para mim, quem cheire a bedum é sempre beduíno), e com a sua condecorada febra em bom estado.

Ví então na TV, a igreja da povoação onde ela mora e o sermão que o pregador dedicou ao tema do regresso da filha pródiga, tendo tido então uma revelação. Se aquela espécie de varrasco atrasado mental, consegue realmente fazer-se passar por um homem de Deus, porque não eu, que até faço a barba todos os dias e sou o ai-Jesus das velhotas cá do bairro?

E é assim (esta frase está na moda).
A partir de agora, considero como fundada a Igreja do Imaculado Blog. Dedicada á elevação dos espíritos e dos escritos de todas as almas que povoam este local etéreo. Uma nova esperança, para as incertezas que afligem os náufragos destes milhares de jangadas, que vogam pelo oceano bloguístico.

Todas as dúvidas existencialistas, deontológicas, éticas e de cultura geral serão respondidas, desde que encaminhadas para o e-mail alí á esquerda; os espíritos mais atormentados, podem igualmente enviar as suas e-confissões ás quais se fará um reply com a devida penitência assinalada.

Estão abertas as inscrições, para duas colaboradoras que segurem o incensório durante as cerimónias, e igualmente para um estilista em formação que queira (a título de beneficência) desenhar os paramentos para o ritual da elevação.

Não vou começar a despachar mandamentos, porque é má política comercial e afasta os fiéis. Faremos os nossos próprios mandamentos, acompanhando as tendências do mercado.

Ide em paz, e que Ele vos acompanhe.

Vosso irmão em Blog...

Aparentemente na minha ausência, alguém não identificado mas utilizando a minha password, aproveitou para postar material menos próprio neste blog.

Enquanto procedemos a um inquérito com vista ao apuramento da verdade, deixo-vos com alguns textos que sem dúvida reporão os electrólitos do bom-tom neste tão combalido organismo kultural.

Fragmento 1

Do corpo
desagrega-se o Mito
O Sol
o monte
... e a ave de rapina.

Fragmento 2

Nas muitas noites que passo a ler
escuto ás vezes o silêncio
como que a certificar-me
que está presente.

Encontro Casual

Viram-se
e conheceram-se ás três da tarde.

Falaram
e amaram-se ás três da tarde.

E nunca mais se viram
a partir das três da tarde desse dia.

Fragmento 3

Meiga
a noite infiltra-se nos bares
como névoa.

As estrelas
têm apenas o espaço
e nós nada temos excepto a certeza
de estar condenados a morrer

um dia...

Paixão

Diz-me que me amas
e comerei teu coração.

Diz-me que me amas
e matar-te-ei ao primeiro encontro.

Diz-me que me amas
e falar-te-ei de amor.

segunda-feira, 21 de julho de 2003

A Grande Enciclopédia do Sexo

Após vários incautos terem aqui aterrado enquanto buscavam “Ana+Malhoa+Nua”, já não contando com os que buscavam o conteúdo da minha quadra dadaísta, finalmente apareceu alguém com uma pesquisa séria.

O link http://br.google.yahoo.com/bin/query_br?p=sexualidade+porque+que+certos+homens+tem+penis+pequeno%3f leva-nos a profundas interrogações. Não muito fundo, é claro, porque o alcance também não é grande.

Para aqueles entre vós, que sempre quiseram fazer esta busca mas têm medo que os colegas descubram a cruel verdade, aconselho que desistam; pois não vão encontrar ninguém que se interesse por esse tema (ao contrário do 62.128.165.#, que fez a busca ).

Porém, como não sou um ser cruel e desprovido de sentimentos, ficam aqui três justificações que o mirrado leitor poderá tentar impingir á sua desiludida parceira.

Está frio! – Apenas usado em caso de queca ao ar livre, com a variante do “saí agora da água, e estava fria”, se fôr na praia ou piscina.

Estou preocupado; acho que deixei a chave na ignição! – Utilizável caso costume recorrer á rede de Hoteis Íbis, quase sempre construídos á beira de estradas principais.

Tive um acidente quando procedia a uma desminagem, na Bósnia-Herzegovina. – O tema “Ferida de Guerra”, é plausível mas não consola ninguém .

Sentindo que os meus leitores não se conseguiriam safar com desculpas tão frouxas, iniciei então eu próprio uma busca no Google em PT, e milagre... Qual Grande Enciclopédia do Sexo, logo se abriram dezenas de páginas de conselhos e consolo para o cidadão “deficitário de membro”.

Por isso não percam mais tempo a ler isto. Abram a janela do Google, e gritem através dela todos os vossos anseios. Quer queiram um pénis maior (para as senhoras também resulta, mas de modo diferente), quer queiram apenas ver um programa que tarde ou cedo se fará na TVI.

Para estes últimos (os mirones da atrofia alheia), apresento-vos a tragédia de pequenopau@hotmail.com. Um Moçambicano corajoso, que confessa públicamente neste fórum ser mal aviado, enquanto uma Anselma desiludida lhe garante que isso é muito normal.

Aparentemente África está a encolher.

Para os “mirrados anónimos” que têm vergonha de ir para o fórum, existe igualmente um grupo que fica aqui apresentado por um tal Yan:

Estamos com um grupo que reune so pessoa com penis com tamanho inferior a 12 cm, vc não gostaria de participar??
http://www.nossogrupo.com.br/grupo.asp?grupo=25374
Acho que vou concorrer a serviço público...

Agora algo totalmente diferente

Dois tweakers de Chicago, conseguiram em Março fazer um overclock a Jesus, aumentando dramáticamente a sua capacidade de processamento de milagres.

Apenas possível graças aos dissipadores de calor especiais, tal como se poderá verificar no artigo original, cujo link está aqui.

domingo, 20 de julho de 2003

O Velho e o Bar
(Excerto)

Eram quatro da manhã. O velho olhou o PC bem no centro do ecrã e disse-lhe:

– Eras tu ou eu 486... vê-se pelo CD de 4 velocidades, que vens de longe e já viste muito. É pena que para uns viverem, os outros tenham que ser desmembrados e percam a sua identidade; mas assim foi ditado pelo grande programador que está lá em cima.

Constrangido, o velho arrancou-lhe a SoundBlaster de 8bit. Sentia uma certa pena em canibalizar o velho 486 para construir uma máquina de arcade. O velho computador não queria colaborar, e recusava-se ao restart emitindo 9 bips; era da placa VGA.

O velho, já cansado pela luta com a máquina, virou-se para esta e proferiu em tom de desculpa.

- Acho que essa Cirrus Logic vai já com os porcos... ainda por cima é VESA Local Bus...

- Mas o que te faz lutar tanto? Não sabes que não podes ganhar? – O avançar das horas minava a sanidade do velho. Começava já a sentir-se um cirurgião plástico, moldando uma qualquer Lili Caneças. Fundindo a pouco e pouco, a sua identidade com a da vítima.

Num momento de lucidez, olhou o amontoado de placas e fios; desligou a corrente... deu-lhe um pontapé de enfado e tirou o Jack Daniel’s do bar.

Não estava numa de Hemingway.


Ponto de Situação

Tenho andado um pouco ocupado. Além do que se considera uma vida normal, tenho também em casa um escritório com quatro computadores esventrados e peças por tudo o que é sítio; por isso não tenho aparecido.

Talvez mais tarde, vos conte a minha luta tenaz com os dinossauros de silicone (não são velhas com mamas novas, malta... nada disso), mas só dormi duas horas, e a minha vida sexual vai-se ressentir disso. Sinto-o (ou então não sinto).

Deixo por isso, apenas um pequeno texto. Inspirado num almoço, em que passei mais tempo a observar os outros, que a dar atenção àquilo que deglutia.

Decerto muitas das minhas leitoras (sim, eu sei que vocês estão aí fora á espreita...), já tiveram esta sensação. A seguir a um jantar intimo e um pé de dança, quando se encaminham para casa de um amigo (ou para a vossa), com a velha desculpa do “só para ouvir uma música”; interrogam-se se não será um erro.

Bem, cá o velhote tem a solução para os vossos problemas. Poderão detectar um potencial falhanço ainda durante o jantar, pirarem-se com a desculpa da ida á casa de banho. E ainda irão a tempo de passar pela bomba de gasolina (aberta 24 horas) e comprar pilhas novas para o vosso carrinho de brincar.

Observem-nos enquanto eles comem

O empata – faz bolinhas de pão na beira do prato, dá piparotes nas migalhas da toalha, e empurra-as metodicamente com o guardanapo.

Este espécimen é muito canhestro. Apesar de querer ficar sempre por cima, quando está no topo não sabe o que fazer e anda ali ás voltas. A evitar. Substituível por um duche frio e um cacau quente.

O glutão – Empanturra-se á fossanga e mal acaba o primeiro prato, já o seu olhar busca o empregado para lhe pedir a sobremesa.

Deste nem se fala. Acho que não preciso de vos explicar muito. É o tal que quando vocês começam a aquecer, já ele está a ver se há cerveja no frigorífico. A evitar igualmente. Substituível por uma canelada no canto da cama ou um penso diário com a borda torcida.

Para terminar a edição de hoje – Sim. Porque nós os homens somos de muitas e variegadas espécies – temos:

O gajo das entradas – O gajo das entradas, é digamos, o ejaculador precoce das refeições.

É o tipo que se alambaza com duas manteigas, meio queijo e várias tiras de presunto enquanto espera a refeição. Chegada esta, começa por pôr defeitos e admite que já não tem tanta fome assim.

Palavras para quê? Decerto não precisam de mais dissertações sobre as qualidades do indivíduo.

Não pode nem deve ser substituído, pois ninguém gostaria de substituir a morte ou o desfiguramento por outra coisa; simplesmente anula-se.

Antes de chegar o prato principal sinta-se indisposta, saia e não volte. Ainda vai a tempo de ir buscar aquela agenda, onde tem os números das suas 2ªs escolhas.

E pronto. Na próxima edição esgalharemos mais alguns exemplos a evitar, bem como conselhos quanto ao tipo de conversas que não se devem ter, enquanto se procede á troca de fluídos.

(Vamos lá ver se esta coluna, contribui também para melhorar a minha vida amorosa...)


sábado, 19 de julho de 2003

Ritual

Estava há pouco de visita a um site de fotografia amadora, quando uma das figuras me fez pensar - Tenho que ir ao barbeiro.

E tomei no momento essa importante decisão. Algures durante a próxima semana, irei requerer os préstimos tonsurais do famoso "Tremidinho" de Cacilhas.

O "Tremidinho" ao contrário dos seus congéneres, é lacónico. Se me pedirem para testemunhar, não poderei afirmar sob juramento se ele possuirá mais que os 700 vocábulos essenciais da língua portuguesa. Mas isso é uma benesse.

Chego sempre pela manhã. Desço os três degraus que conduzem á loja, e ocupo o assento elevado, olhando a mancha negra do costume que ocupa o centro do espelho.

O oficiante faz-me a saudação habitual, girando a tesoura no polegar e premindo a orelha com a outra mão. Em resposta aponto a linha das patilhas com o indicador e faço um gesto brusco; sou oficialmente reconhecido como iniciado do “pente três”.

Com o gesto habitual sintoniza a telefonia na Rádio Voz de Almada, regulando o volume para um murmúrio ininteligível, e começa a preparar os apetrechos para a cerimónia; enquanto arrasta os pés por cima dos ladrilhos gastos de um trajecto de décadas.

A zumbidora Braun Mark III é posta em funcionamento e oleada com uma almotolia de chapa, o pente plástico é colocado com um estalido seco. A máquina avança como uma ceifeira percorrendo o meu crânio, e eu aproveito para reflectir.

Sem necessitar de qualquer tipo de mantra, fixo o olhar no espelho e sou imediatamente transportado para dentro de mim. Aproveito para por em ordem os meus pensamentos, como quem desfragmenta ficheiros num computador; arrumo-os de modo ordenado e indexados por prioridade.

De vez em quando retomo o mundo exterior, como um mergulhador emergindo para controlar as redondezas. A sala cheia de murmúrios eléctricos e humanos, fornece uma componente uterina que me relaxa e permite reatar a introspecção... mais um tempo.

Finalmente traz-me um espelho portátil que é girado á minha volta; para que me certifique dos resultados e murmure uma aprovação discreta. Cuidadosamente, sou escovado no meu trajecto até ao bengaleiro onde efectuo o pagamento, sempre em moedas; não esquecendo uma percentagem para o tratamento preferencial.

Visto o blusão e saio para o sol sentindo a brisa passar-me entre os cabelos. Antes de pôr os óculos escuros noto ainda o brilho do rio.

O dia começa aí.

They shoot horses, don't they?

Quando era miudo li este livro (era verde) de Horace Mc. Coy, cujo título traduzido dava "Os cavalos também se abatem".
Falava sobre maratonas de dança, cujos organizadores se aproveitavam da miséria humana em época de crise, para ganhar uns dólares (des)honestos.

Mais tarde ví o filme, que extraordináriamente pouco perdia em relação ao livro; passaram longos anos e não pensei mais nisso, até hoje.

Estava há pouco na tertúlia das sexta-feiras com os outros ginjas, quando o espectro da depressão aterrou na mesa pela mão do simpático apresentador. Eu estava de costas para a "caixa dos barulhos", mas mesmo assim não poude deixar de ouvir.

Do grupo inicial já restavam poucos. A privação de sono e o cansaço, já lhes provocavam dislexia e alucinações, mas a esperança de conquistar o prémio mantinha-os de pé; por um miserável jipe (eu não conduzo, por isso nunca compreenderei verdadeiramente isto).

As histórias repetem-se. Nada existe de novo debaixo do sol.
Só me interrogo qual deles no fim terá coragem.

"O cais tornou a mover-se e a água, ao regressar ao oceano, parecia, no barulho que produziu, estar a chupar qualquer coisa da terra.
Atirei com a pistola ao mar."


sexta-feira, 18 de julho de 2003

A Falsa Poesia como Estratégia de Marketing

A minha amiga Catarina é um sucesso.

Eu tal como a maioria dos velhos, não passo de um miserável invejoso. Por isso, para aumentar a numeração deste contador azul aqui á esquerda (não é que me interesse muito, mas é um objectivo como qualquer outro), propus-me aumentar a afluência de incautos a este blog. Para tal aliando o abastardamento da mui nobre arte da poesia, ás mais baixas técnicas de marketing dignas de uma Herbalife.

... e o poema nasceu:

The Great Sodomizer

Bondage, anal and lolitas,
Hairy teens and shaved sluts,
MILF's, asian and pierced,
"preggie" girls and naked butts.

Esta pequena quadra Dadaísta, vai-me render mais de 100 visitas até amanhã á noite. Querem apostar?

A Colónia de Férias

Estava agora a deliciar-me com a Colónia de Férias dos Mártires da Palestina, conforme era apresentada na SIC notícias, por um gorducho com nome judeu.

É claro que não tenho nada contra os judeus. Além de gostar imenso de judiar, gosto também dos filmes do Woody Allen e uso muito o termo "Shmuck". Mas apesar de tendenciosa, a reportagem estava bastante aproximada ao que eu penso ser a verdade.

Os árabes (não todos, mas mesmo assim bastantes) da Faixa de Gaza quando chegam á pubredade, em vez dos habituais anseios pelas partes íntimas das Fatmas, Zobeides e Paulas Cristinas; estão mortinhos para serem Mártires de Alá. E mortinhos é o termo indicado.

Infelizmente são uns tipos complicados, e em vez de se lançarem de um penhasco ou se sentarem em cima do cano da AK-47 e puxarem o gatilho, decidem-se antes pelo fogo de artifício.

A morte (a meu ver) é a opção mais estúpida que se pode escolher. Além de ser o fim de tudo para nós (provem-me o contrário se puderem), livra os nossos inimigos da nossa presença; o que só por si já é uma derrota suficientemente patética.

E alí estão aquelas pobres almas (admitindo que a alma existe...), convencidas que o Corão lhes exige e premia a estupidez de espalharem os intestinos por uma Pizeria "Kosher" ou pela secção de perfumes do Continente.

Mas eu sei qual é o problema. Aliás dei logo com ele, assim que ví os miudos desembarcarem no tal campo de férias... Aquela praia não tem água.

Verdade! Se no meio de toda aquela areia existisse um lago, logo apareceria o proverbial vendedor da Olá e a velhota da "batatinha frita". O ambiente desanuviava e talvez até aparecessem (quem sabe...) algumas judias interessantes; senão teriam que se contentar com as Zobeides que são mais do tipo "peida gadocha". Mas pronto, em tempo de guerra não se limpam armas.

Por isso talvez fosse humanitário da nossa parte, iniciar um protocolo com o Hamas, para em troca de umas aulas de tiro e defesa pessoal á nossa PSP (tadinhos, a falta de pontaria que eles têm...); recebermos alguns dos miúdos, daqueles mais novos a quem se pode aínda ensinar a tomar banho, e mandá-los para a Colónia de Férias Dr. Teotónio Pereira em Santo Amaro de Oeiras.

A propósito... Eu já vos falei da minha velha Colónia de Férias?

quinta-feira, 17 de julho de 2003

Ask TheOldMan

O Migalhas é o primeiro cliente do meu consultório teológico. Em certo post do seu blog A Origem do Amor , escreve:

"Portanto, o todo poderoso Deus que criou a Terra, os céus e os peixes, do nada com um estalar de dedos (e achou que era muito bom), obrigou a partir do sétimo dia e para todo o sempre, o homem a andar ocupado com tarefas quase humanamente impossíveis. E para quê ? Meus senhores, para que a partir do sétimo dia, Deus, pudesse andar a passear pela fresca sem preocupações".

Claro! Então nunca ouviste falar em patrões? Do mesmo modo que se costumam referier a ELE como "O Grande Arquitecto", o "Grande Criador", etc.; outros mais esclarecidos ou porque tenham estudado, ou porque lhes tenham sido abertos os olhos em revelação, o apelam de "O Grande Pato-Bravo". Porque Adão terá sido talvez o primeiro Ucraniano da história. E não me admira que após este episódio Eva tivesse passado a fazer table dancing para os arcanjos.

Findo este esclarecimento, dou-te gratuitamente um conselho:

Cuidado com o cabeçalho do teu blog. Muito boa gente está presa, por ter sido apanhada a dar milho aos pombos...

Postal Ilustrado

É uma terra bonita que tem casas como chupa-chupas, mulheres de pernas musculadas e barcos como arte...

É uma bela terra. Quando o colesterol mo permitia, deleitava-me com aqueles barrizinhos de madeira cheios de doce de ovos; já foi tempo.

A gata é bonita como todas as gatas, mas a referência ao bonsaikitten está errada. Aquilo é um site de humor negro. penso eu de que....
Estou farto de inocentes

Existem imensos rapazes (e raparigas) simpatiquíssimos, que neste momento se encontram em prisão preventiva; e que não foram até agora acusados de nada.

Confesso a minha mesquinhês, em me borrifar plácidamente para eles em geral; e para o Carlos Cruz em particular. O homem, que pode ser muito boa pessoa, inteligente e bom na cama até prova em contrário, já me enjoa.

Entra-me em casa á hora do notíciário (que é uma das poucas em que eu dou atenção áquele caixote), tirando tempo de antena ás centenas de mortos na China ou aos escândalos sexuais entre as Carmelitas noviças. Temas estes muito mais substanciais e sumarentos (respectivamente).

Não há dia em que não entrevistem alguém mais chegado ao sujeito. Ou a ex-esposa - da qual só ouvi falar em relação com ele - ou a actual (uma carinha laroca), que se não se põe a pau, aínda a acusam de utilização da sua agência de Transportes VIP no tráfico dos petizes.

Mas eu estou mesmo farto. Nunca gostei de concursos (dão-me sono), e a pornografia infantil arrepia-me, porque quando olho para uma criança vejo o que ela realmente é.

Na realidade, até vi hoje notícias mais interessantes.

Um delinquente senil (ou simplesmente senil) com oitenta e tal anos, em vez de travar acelera, e varre com a sua "banheira" metade de um mercado ambulante em Santa Mónica.

Mário Soares mais uma vez vem á ribalta a propósito da retirada do tacho á sua dama, utilizar a famosa frase de Calimero "It's an injustice, it is...". Pensando bem, até não lhe ficava mal a meia-casca de ovo na cabeça.

Ou quem sabe... um funil.

quarta-feira, 16 de julho de 2003

Ser vélhinho é muito triste.

Hoje cortei-me ao fazer a barba. Normalmente a mão não me treme, mas hoje foi demais.

Apesar de usar uma Gilette cheia de mecanismos de segurança, desde as lâminas triplas protegidas ao detector ultrasónico de borbulhas; o facto é que tenho um belo lanho na minha velha cicatriz do queixo.

- E de quem é a culpa? - perguntará alguém. Senão pergunto eu mesmo. - A culpa é da decadência fisica e mental; não a minha mas sim de um personagem que eu considerava irreverente e divertido.

O "João Podre".
O João Podre nunca soube cantar, mas compensava o facto com o seu aspecto estranho e uma certa agilidade em palco, combinados com umas letras bastante revoltadas.

No tempo em que a adrenalina fluía em mim, como um electrão num acelerador de partículas, apareceu o João. Ele e o Sid, claro. Mas o Sid acreditava no paraíso, e não teve problema em tentar o caminho mais rápido; opções...

Considero os Sex Pistols o primeiro grupo Punk a sério. Se é que isso é possível.
Era na altura, uma voz que exprimia a fúria daqueles cujo lema era "No Future". Mas passou. Pelo menos na minha preferência deu lugar aos Clash, que além de serem mais objectivos na mensagem que propagavam; cantavam também de um modo em que se percebiam as palavras.

Ah!... e dava para dançar.

Apesar de tudo, os "Pistols" continuaram sendo para mim os precursores; um marco, ou algo a recordar. Bem... até hoje.

Como qualquer velha Stripper, que decide voltar ás lides após 20 anos de reforma, Johnny Rotten reúne a malta e decide começar a dar concertos. Todos temos que viver, é claro.

Mas em Bagdad? Um concerto em Bagdad para apontar (Sic) as falhas da democracia... FICARAM TODOS DOIDOS? Ou é só para angariar publicidade.

Deve ser a coisa mais ridícula desde a invenção do laço ás bolinhas. Este mundo deve estar mesmo a caminho do fim; ou então são os Pistols que se encontram atacados de senilidade precoce.

Ser velhinho (e não o saber) deve ser realmente muito triste.

Acho que vou aproveitar a foto do post anterior, para sair por aí e fundar uma seita religiosa.

Arrependam-se enquanto é tempo.

O Fim Está Próximo.

Quando quero ler algo bem ácido, abro a Bíblia no Apocalipse. É claro que não me fica bem criticar um tipo, que neste momento deve ter a consistência do conteúdo do meu cinzeiro, mas na “Sexta carta, á igreja de Filadélfia” (12) diz e muito bem:

“A quem vencer eu farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá; e escreverei sobre ele o nome do meu Deus...”

Sábias palavras. Mas do modo dúbio como a Bíblia está escrita estão sujeitas a muitas e diferentes interpretações.

Ao contrário do que possa pensar Mr. Henry Cholmsky de Filadélfia, que me enviou esta bela foto ... Eu não sou ELE. Mas de qualquer modo, obrigado pela intenção.

terça-feira, 15 de julho de 2003

Última Tiragem

Á hora a que vos escrevo isto, tenho em espera uma delegação do PC que me quer cumprimentar pessoalmente, e agraciar com a ordem da ceifeira vermelha.

Só tenho é coisas que me ralem!...

Mais Alto...
(Pendurem-nos mais alto)

Sara Jofre escreveu no desblogueador de conversa um comentário que me conduziu ao Público onde hoje se publicou mais um fascículo dessa hilariante comédia que é a saga da família Soares (e também Barroso).

Não vou bater no céguinho e acusar o velho de má gestão, isso já faz matéria para os livros de história. O filho... francamente, se até o Santana Lopes é melhor é porque é grave. Quanto á ex-primeira-dama, a unica coisa que me ocorre é a Cruz Vermelha ter ficado apenas rosada após a sua saída.

Independentemente de amuarem uma vez apeados, agarram-se aos cargos como lapas, a pontos de se ter que recorrer a meios mecânicos para os desalojar.

"Houve presidentes que exerceram os três mandatos a que tinham direito." - diz a senhora a dada altura. Esta frase é o cerne de toda a filosofia da família Soares. Acham na maioria dos casos que os cargos que ocupam, são um direito adquirido, uma espécie de vassalagem que a gentinha lhes paga, pela sua presença iluminada entre nós.

Ou seja, uma espécie de teta.

É claro que tambem vem á baila a tese da cabala. Algo que as pessoas se devem consciencializar, é que a Justiça não dispara de rajada, mas sim que aponta como um farol. E o facto de a maioria dos indivíduos envolvidos em escândalos serem do PS não me dá estranheza, o que eu estranho é que quando o PS esteve no poder, não tenha logrado apontar o foco ao PSD.

Mas isso já é outra história, porque é preciso um partido ter muita força, para em tempos ter conseguido colocar uma alforreca como Primeiro Ministro.

Sim. Eu sei, estou mesmo mal disposto.

Advertência

Os sucessivos "republish" não são uma tentativa desesperada para obter tráfego, mas o reflexo da minha luta titânica com o HTML.

Pedimos desculpa por esta interrupção. O programa segue dentro de momentos.

segunda-feira, 14 de julho de 2003

Amanhecer

Desci apressado a escada, porque a vizinha do 4º mantinha a porta do elevador aberta enquanto esperava que os miúdos se despachassem. Uma autêntica “mulher do ano”, não sei é de qual…

O taxi esperava de porta aberta. Verifiquei se o motorista não teria activado a bandeirada antes de eu chegar; não, este era dos bons. Dei o endereço embora não fosse necessário, já me conhecem; saio todos os dias á mesma hora, cheio de sono, vestido do mesmo modo e com a mesma pasta, não há que enganar.

Arrancámos pela alameda acima, fazendo slalom por entre os peões aventureiros que desprezavam a segurança das zebras. Á porta da Piscina Municipal, as crianças esperavam que abrisse enquanto jogavam Gameboy, ou se exercitavam na nobre arte do beliscão furtivo. O Sol escondia-se sob um véu cinzento.

Atravessámos a rotunda velozmente, provocando alguma confusão nos automobilistas que ainda respeitam o código; um triciclo carregado com caixas de cerejas embateu no passeio, colorindo a manhã com pequenas esferas vermelhas. Saímos ilesos e céleres em direcção ao Almada Fórum.

O rádio em vez das habituais notícias, transmitia uma repousante melodia New Age – O que é isto que está a tocar? – perguntei ao motorista – Tangerine Dream?

- Não! São os “Prozac Brothers”. Vêm cá em Setembro. Nunca tinha ouvido?
- Realmente não – disse eu – ou então adormeci logo e esqueci-me.

A minha atenção foi subitamente desviada por uma idosa transeunte, que subreptíciamente montava uma H&K MP5, com peças que tirava de um saco de compras; mas o taxi passou sem que conseguisse ver mais nada.

Subitamente o motorista travou para evitar o choque contra a traseira de um autocarro, onde vi nitidamente a minha foto ilustrando um anúncio contra a calvície. Ultrapassámos o autocarro, quase atropelando uma fila inteira de crianças do infantário que se dirigiam á praia, de panamá e balde.

Finalmente chegámos, mas muito atrasados; paguei e empunhei a chave para abrir a porta do escritório. Pelo canto do olho vislumbrei um homem de gravata e casaco de malha, que se aproximava sorrateiramente com um envelope enorme debaixo do braço.

Reconheci-o imediatamente como sendo um comando suicida dos Santos Revisores Oficiais de Contas, entrando precipitadamente e fechando a porta chapeada atrás de mim. O terrorista fez deflagrar uma carga explosiva, que o pulverizou junto á porta espalhando em todas as direcções, sangue e os balancetes anuais de dezenas de empresas, que ele usava como metralha.

Estava encurralado, pois a única saída possível seria por onde tinha entrado; e começava já a ver aproximarem-se os zombies do Centro de Formação em frente...

- O Figueiredo pediu para ir ter com ele. – Disse a minha assistente destacando-se da enorme reprodução do “Acrobat” de Marc Chagall que tenho na parede.
- Irra! Estou farto de lhe dizer para não de encostar aí quando traz esse vestido. Ainda me mata do coração.
- Não se esqueça que os Russos chegam ás dez e meia – Disse ela fazendo-se desentendida, enquanto introduzia meio lápis pelo nariz acima, em busca de algo inominável.

Recuei e abri a porta apressadamente; quase saltei os metros que me separavam da porta ao lado.

Parei ofegante encarando as pupilas verticais que me observavam atentamente. Das mandíbulas serrilhadas destacou-se a língua bífida que farejou o ar, emitindo num tom sibilante – Vê-se logo que é 2ª feira, não é?

- Pode ser o habitual, Dona Odete. Antes do primeiro café da manhã, nem o mundo me parece o mesmo.

I Don't Like Mondays

The silicon chip inside her head
Gets switched to overload.
And nobody's gonna go to school today,
She's going to make them stay at home.
And daddy doesn't understand it,
He always said she was as good as gold.
And he can see no reason
'Cause there are no reasons
What reason do you need to be shown?

Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
I want to shoot
The whole day down.

The telex machine is kept so clean
As it types to a waiting world.
And mother feels so shocked,
Father's world is rocked,
And their thoughts turn to
Their own little girl.
Sweet 16 ain't so peachy keen,
No, it ain't so neat to admit defeat.
They can see no reasons
'Cause there are no reasons
What reason do you need to be shown?

Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
I want to shoot
The whole day down.

All the playing's stopped in the playground now
She wants to play with her toys a while.
And school's out early and soon we'll be learning
And the lesson today is how to die.
And then the bullhorn crackles,
And the captain crackles,
With the problems and the how's and why's.
And he can see no reasons
'Cause there are no reasons
What reason do you need to die?

Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
I want to shoot
The whole day down.

Boomtown Rats
from the album "Fine Art of Surfacing" (1979)

domingo, 13 de julho de 2003

Vou contar-vos um segredo...

Não sou eu que escrevo estas coisas, aliás porque não existo sequer, sou uma invenção que vive num sonho de outrém.

Já deveriam ter reparado nisso há mais tempo...

O tipo sensível que fala da infância, é um sem-abrigo paraplégico a quem ofereço ás vezes um caldo-verde em troca das suas recordações. Um anjo caído, que recorda os tempos em que empunhava a espada flamejante (Sim, eu sei a que poderá conduzir uma análise psicológica disso).

O tipo mordaz e um pouco ordinário, trabalha na construção civil. Está farto de pessoas e ideias maricas, principalmente porque são falsas na maior parte dos casos. Bebe bourbon e passa imenso tempo a rebentar com alienígenas no ecrã, para evitar ter que o fazer no seu dia-a-dia. Ouve toda a musica que lembre vagamente o entrechocar de crânios, desde Deep Purple a Wagner.

O último elemento da trípode são os restos de um poeta. Uma espécie de afogado que nunca subiu á superfície. Pequenos fragmentos de si deram á tona, uma altura ou outra, como bolhas de ar que se desprendem do fundo. Na realidade, está melhor lá que á superfície.

E estes três tipos escrevem para mim numa base regular; os seus textos são dispersos e ás vezes antagónicos. Coisa que faz muita gente pensar, se não terei múltipla personalidade.

Não me apetecia escrever

Dei um gole no Jack Daniel's e acendi uma cigarrilha. Tinha acabado de postar um texto antigo, e resolvi ouvir o "Man-Machine" dos Kraftwerk.

Logo no início do "The Robots" veio-me á memória a Dona Manuela. Não que ela se chamasse assim, mas a sua insignificância apagou o nome que tinha. Foi ela a responsável pela minha longa carreira de agnóstico; era a minha catequista.

A Dona Manuela distribuía carolos como bênçãos, zelava pela nossa alma imortal e roubava-nos metade da maravilhosa manhã de Domingo.

As suas histórias eram sempre recheadas de efeitos especiais, artesanais é certo; mas não há nada mais adequado que uma estalada para representar o som da explosão de Gomorra. Quando ciciava, quase ouvíamos a sarça ardente a crepitar.

Tinha uma capacidade enorme de transformar as páginas da bíblia, numa história da Marvel; embora os super-heróis usassem mantos, e passassem a maior parte do tempo a fazer coisas aborrecidas.

Quando se tornava mais chata, imaginava-a a ser apedrejada por uma turba de judeus barbudos; até ser despertado por uma caldaça nas orelhas, enquanto ela me perguntava de que me estava a rir.

Um dia abriu o livro de catecismo, fornecido pelo estado novo, e contou-nos que tinha existido um navio majestoso chamado Titanic, cujo projectista incorrera no pecado do orgulho, dizendo que nem Deus o conseguiria afundar. Aparentemente, e segundo as suas palavras, o Altíssimo encheu-se de brios, e enviou do céu um iceberg que o afundou juntamente com milhares de pecadores.

Fiquei curioso. Tentei por todos os meios informar-me sobre o ocorrido, utilizando todos os meios ao meu dispor. Desde o Almanaque Bertrand até á biblioteca itenerante da Gulbenkian. Vi dezenas de gravuras com mães estreitando os filhos, botes virados (não me lembro de ver lá o Leo di Caprio); li descrições dos sobreviventes, relatos de heroísmo, de cobardias...

Não voltei mais á catequese.

Enlatado "Fim de Semana" - O Apelo


Não sou muito dado á divulgação de "chain letters", boatos e mexericos sobre a honra de senhoras desconhecidas; mas a minha consciência impele-me a publicar aqui, a transcrição desta curiosa mensagem.

Ontem cerca das 20h regressava eu a casa após um dia de trabalho, quando ao passar por uma vivenda rodeada de jardim, vi a cassete.

Era uma cassete pequena, daquelas que se usam nos atendedores de chamadas ou nos mini-gravadores; igual ao que eu uso para tomar apontamentos. Algo me impeliu a desviar-me do meu caminho, e a apanhá-la do cimo do muro onde estava pousada.

Quando a agarrei, senti uma pequena picada na palma da mão, como a aresta não muito cortante de um papel. Era um pedaço de unha, ainda rosado de sangue. Senti um arrepio percorrer-me a base do pescoço; sem olhar para trás apressei-me em direcção a casa.

Após o jantar fechei-me no escritório. Aproveitei enquanto lia os jornais on-line, para pôr a cassete no dictaphone; coloquei os auscultadores e aguardei. Paralelamente, no PC, o Dragon Dictate aguardava os sons para os transcrever para Word; mas é impossível reproduzir a impressão que me provocou aquela voz, o seu tom cansado de um desespero sem remédio.

Fica aqui o texto:

Espero que alguém encontre esta gravação, pois é a minha última hipótese; tenho que passar a alguém a mensagem, antes de tentar sair daqui.

Conheci-a quando andava á procura de apartamento. A agência tinha-a enviado com uma lista de casas para me mostrar, era simpática, cerca de 28 anos e olhos castanhos; cativou-me á primeira impressão.

Andámos durante dois dias de edifício em edifício, falando com proprietários, examinando quartos e salas, almoçando juntos. Quem nos visse, diria tratar-se de um casal em busca de habitação. A minha decisão tardava, não sei se por não me satisfazerem as casas, ou para prolongar aqueles momentos em que me perdia no seu sorriso, em que deixava de ouvir tudo á minha volta.

Ao fim da tarde do segundo dia, tínhamos já visto mais quatro apartamentos, quando ela me sugeriu – Desta vez, vamos desistir de ver apartamentos. Tenho em carteira uma vivenda aqui perto, é um pouco velha, mas nada que umas pequenas obras não resolvam; e o isolamento seria o ideal para a sua escrita. – pegou-me pela mão, e entrámos por uma rua transversal que acabava numa praceta, com um único portão.

A casa estava poeirenta e quase sem mobília, via-se que não era habitada há muito tempo. Andámos pelos aposentos vazios algum tempo no piso térreo; e subimos a escada para o andar superior. Enquanto subia despertou-me a atenção o vestido dela. Era um vestido de verão com ramagens verdes, algo que há anos não me lembrava de ver; mas a minha atenção perdeu-se na forma das suas ancas, e não pensei mais nisso.

O piso superior estava arranjado de modo interessante, tinha apenas uma enorme sala central. Através da ampla janela, um braço de sol afagava uma enorme carpete indiana, com um desenho de mandala em cores vivas. Coloquei-me no centro para abarcar as proporções do aposento, a sala parecia ainda maior do que seria na realidade, talvez pelo azul desmaiado das paredes, não sei bem…

Finalmente tinha encontrado algo que queria. Olhei para ela. No seu rosto banhado pelo sol, os olhos cintilavam fluidos como mel liquefeito, a frescura dos seus lábios atraiu-me; nem sei o que pensei na altura.

Momentos depois estávamos no chão. As fibras rijas do enorme tapete magoavam-me os cotovelos, mas nem reparei nisso. Estava envolto num turbilhão de cabelos, vestido e poeira que se soltava do chão. Rodeava-nos um nevoeiro cintilante, aceso pelo sol através da nuvem de pó; ela soprou-me os olhos e quando pisquei, rolou colocando-se sobre mim.

Desfez-se do vestido num gesto felino, e inclinou-se para mim, mordendo-me o lábio superior enquanto eu tentava despir-me ao mesmo tempo. Mas eu já estava despido, e não me lembrava de o ter feito…

Amámo-nos furiosamente. A sua pele quente dava-me descargas de electricidade estática, enquanto eu sentia as fibras de sisal rasparem-me as costas e os ombros; o seu sexo envolvia-me como um beijo húmido… Perdi a noção do tempo.

Acordei extenuado, deitado de costas no tapete com as roupas a meu lado. Dela, nem sinal; a casa encontrava-se completamente vazia.

O meu relógio parou. Tentei várias vezes encontrar o portão, mas sem sucesso. O muro branco rodeia toda a propriedade; o estranho é que subindo ao primeiro andar, pela janela só se avista o muro, e sobre ela o céu.

Percorri toda a casa várias vezes, mas ela desapareceu completamente como se nunca tivesse existido. A poeira que tudo cobre, apenas revela as marcas dos meus sapatos, como se tivesse estado sempre sozinho. As torneiras não têm água, e a sede tortura-me. Algo me diz que mesmo que grite, ninguém me ouvirá; adormeci várias vezes, mas quando acordo é sempre dia. Aparentemente, aqui o sol nunca se põe.

Estou a ditar isto para o mini gravador, e tentarei depois atirá-lo sobre o muro. Não sei se alguém virá a tempo, estou cada vez mais fraco; e a sensação que eu tenho é de terem já passado vários dias. Começo já a ter alucinações. Ás vezes ouço passos atrás de mim, ou um sussurro sobre o meu ombro. Tenho que terminar porque começo a ter medo, e isso é sintoma da decadência do meu espírito.

Resta-me uma última tentativa desesperada de escalar o muro, enquanto tenho algumas forças. Começo a ouvir gemidos vindos da casa; o sol finalmente está a pôr-se, ou então é a minha consciência que se esvai. Não posso perder tempo. Sinto que algo vai acontecer. Adeus.

A partir daqui a cassete está virgem, sem qualquer som. Não estou muito preocupado, pois deve tratar-se de uma brincadeira, ou o esboço para um qualquer conto gótico.

Agora vou postar isto e tenho que me deitar cedo. Ando á procura de casa, e tenho marcação com a vendedora da imobiliária para amanhã de manhã.

sábado, 12 de julho de 2003

Teoria do Reflexo Condicionado

Ivan Petrovitch Pávlov era um russo chato que dizia coisas como:

"As principais reacções nervosas do animal e do homem são inatas e assumem a forma de reflexos. Um choque nocivo entre os processos de excitação e inibição traduz-se, quer pela predominância do processo de excitação, quer pelo aumento persistente do tónus de excitação e perturbação do processo de inibição, quer pelo contrário, pela predominância deste último, com as suas fases prévias e um aumento do tónus de inibição perturbando o processo de excitação."

Estão a ver? Era mesmo um chato! Mas tinha razão...

Mas vou passar a explicar. O meu avô era do Benfica, tinha uma bandeira do clube com 3m, que hasteava sempre que o glorioso jogava. Içava-a na antena de telégrafo que se encontrava encostada ás nossa águas-furtadas; se o clube perdesse ficaria mais tarde a meia-haste. Era o barómetro benfiquista do Largo do Chafariz de Dentro.

Eu acolitava-o nestas lides, e venerava o homem da bandeira vermelha como de Lenine se tratasse.

Seguidamente apanhávamos o eléctrico e sacolejávamos pela cidade, recolhendo pelo caminho os outros fiéis que engrossavam as hostes; cantando todos em uníssono hinos guerreiros, acompanhados pelo tilintar da campainha e o clicar do alicate do revisor, nunca chovia nesses dias...

Desembarcávamos por fim, frente á orgulhosa águia que guardava a monumental construção. O vozear anónimo acompanhava-nos pelos corredores intermináveis que nos conduziam ao último anel. Ao ninho da águia de onde se avistava o rectângulo verde e a multidão colorida em que sobressaíam os vendedores de amendoins, de queijadas e de almofadas.

Eu ficava ali, sentado num degrau de cimento sem chegar com os pés ao chão. Vendo minúsculos homenzinhos a correr sem sentido, por duas partes de 45 minutos cada; tinha cinco anos.

Foi onde aprendi os primeiros palavrões, alguns deles muito actuais ainda. Mas tirando isso aborrecia-me imenso, não fora talhado para as actividades de massas.

A melhor parte era quando o Benfica ganhava, e ganhava bastantes vezes nessa altura. Passávamos pela Cervejaria do Barata e eu bebia uma limonada - "traz aí uma lixívia para o miúdo" - dizia o velho saboreando o seu copo de palhete.

Rumávamos então a casa. Eu abria a janela sobre o telhado e ficava a olhar os barcos no rio, e a tentar extrair algum sentido de tudo aquilo, infrutiferamente.

Como vêm, Pavlov apoia-me quando eu digo que tenho bons motivos para não gostar de futebol.

sexta-feira, 11 de julho de 2003

Yuppiiiiiii !!!!!

É claro que esta exclamação não é minha, eu sou um tipo circunspecto, mais tipo agente funerário. Mas a minha família adora levar-me ás compras; talvez por vingança, ou porque erradamente pensem que me agrada.

Mas tem que ser. No fim do mês vou de férias e não posso confiar a mais ninguém, a enorme responsabilidade que é adquirir paramentos para a solene ocasião.

Consultei algumas revistas da especialidade, mas isso só me tornou mais confuso aínda. Será que o mundo caminha para a sua destruição, e nos últimos dias (apocalipse de S. João, ou assim...), a turba aproveita para exteriorizar a sua má indole?

Finalmente alguém me garantiu, não ser de bom tom passear na Babel do Calção totalmente vestido; e depois de grande insistência, lá me sacrifiquei a ir ás compras.

Sempre pensei que uma camisa havaiana, além de espantar todos os insectos em redor, faz transparecer a qualidade selvagem e irreverente que se esconde em nós e só se liberta em férias; pois estava enganado.

Ao meu lado estava um pobre tipo com uma vestida. Tinha mais ou menos a mesma idade que eu e o mesmo aspecto discreto, mas a camisa... oh, meu Deus! A camisa era o Alfa, era o ómega, era o princípio e o fim de todas as coisas. Tinha um padrão hipnótico tão intenso, que nos anos setenta ter-me-ia poupado imenso dinheiro em compras na Holanda.

Após limpar as lágrimas, optei por uma discreta Fred Perry.

RottenTown

O nosso saloon está sempre aberto e os nossos funcionários camarários estão sempre de serviço. Recebendo ordenado mesmo que fujam á justiça para outro estado ou país.

As nossas multidões são as melhores dos estados em volta, amiude convidadas para todos os linchamentos e outras manifestações de apreço tão em voga.

Bem-vindo a Felgueiras!

Que o sol não se ponha sobre a tua cabeça, forasteiro...

Hoje estou cansado e por isso aproveito (tal como Valentine Michael Smith) para vos oferecer água...


A INVENÇÃO DA ÁGUA

Como muito bem se sabe, no princípio não havia água.

Só havia o verbo. Depois apareceram o sujeito e o complemento directo.

Mas de água, nada.

Então todos começaram a beber vinho e deus achou que era bom. E lá isso era!

No entanto, com o aparecimento das primeiras culturas do tipo comercial, tornou-se evidente a falta de qualquer coisa que pudesse aumentar a produção do vinho e torná-lo mais rentável. Era a água, claro.

Mas não havia água, como já fizemos notar.

As primeiras pesquisas, então ainda bastante primitivas, levaram à descoberta da água-pé.

Embora curiosa, essa descoberta não resolveu, de forma alguma, o fim pretendido.

Continuava a não haver água. As pesquisas prosseguiram.

Felizmente o homem é assim, nunca desiste. É isso que faz o progresso.

E largos tempos passados chegou-se a nova descoberta: a aguardente.

Era melhor, não duvidemos, mas realmente não era o desejado.

Faltava a água. Definitivamente.

As civilizações pastoris, no seu nomadismo constante, descobriram, acidentalmente, a água-bórica que, aliás, nunca serviu para nada. Coisas de nómades.

Foi então que no seio das culturas orientais mais avançadas tecnologicamente, surgiu a grande invenção: um misterioso pó branco que, deitado em mínima quantidade num litro de água,o convertia, quase milagrosamente, num litro de água.

ESTAVA INVENTADA A ÁGUA

Inicialmente rara e só usada para fazer vinho, tornou-se no entanto com o desenvolvimento industrial, bastante acessível e abundante.

Ergueram-se os primeiros lagos, deu-se início aos rios pequeninos e, finalmente surgiram os rios maiores, aqueles muito grandes, que consta várias pessoas já terem visto por aí.

Este progressivo desenvolvimento líquido teve como consequência o aparecimento de poderosas civilizações marítimas, que se desenvolveram de tal maneira que nos puseram no brilhante estado em que nos encontramos. É o que fazem as invenções.

No entanto, e mesmo com a actual abundância, não devemos abusar, dada a tremenda explosão demográfica que se está registando.

Parece-nos mais prudente beber gin. Sempre.

Mário-Henrique Leiria 1923-1980

quinta-feira, 10 de julho de 2003

Simplesmente "Maria"

Uma colega minha, há pouco quando passou por mim deixou cair uma dessas revistecas em formato A5, de tamanho próprio para ler na pia.

Abri-a ao acaso e a satisfação percorreu o meu corpo, como da explosão de pequenas bombinhas de Carnaval se tratasse.

Depois reconsiderei; iria ser tão fácil como bater num céguinho (desde que não se tratasse do Demolidor).

Contive-me e não escrevi.

Album Familiar

As
vetustas fotografias com bigodes
piscam-me o olho.

Os antepassados embaciados
têm os cantos gastos
e dormem
no meu album familiar.

(preciso de lhes limpar o pó)

quarta-feira, 9 de julho de 2003

O Misterioso Leque

É natural que exista vida noutros mundos. Ilhas distantes cujas órbitas nunca se cruzaram, onde poderão viver outras pessoas, assustadoramente semelhantes.

O misterioso leque do destino abre-se num click, de seda batendo em madeira lacada. Estão lá as velhas figuras... Vian, Kafka, Reed, Degas e uma foto inquietante; de um local onde estive em tempo, agora sem máquinas.

Agradecimento

Chuiff... É com grande emoção que venho agradecer o prémio "Este homem é um senhor", atribuído pela minha amiga Catarina , isto sem recorrer á gorjeta ou ao usual sistema de cunhas.

Logo muito novo soube que não ía ser apenas mais uma cara bonita, o futuro abria-se para mim qual centerfold da Hustler.

Comecei desde cedo a interessar-me pela paz mundial, e pelo fim da fome em África. Talvez, se tivesse nascido com o cabelo de outra cor, o meu futuro teria sido diferente. Podia ser um Clemente ou quem sabe, um Roberto Leal.

Quero por fim agradecer aos meus progenitores, terem-me inculcado os saudáveis princípios da tolerância e urbanidade, sem os quais não teria sido agraciado com este prémio.

A todos um muito obrigado!...

Onde é que recebo o cheque?

terça-feira, 8 de julho de 2003

'Tadinhos deles

O Xico Esperto que parece ser igualmente da Margem Sul, chamou-me a atenção no seu blog, para este exercício de jornalismo sobre o bizarro.

Bizarro, porque considero que ser louro ou ter os pés grandes não são deficiência.

E agora dir-me-á o (possível) homosexual leitor - Nem a homosexualidade o é, sua besta! Seu chauvinista e machista de merda...

Obrigado, não mereço tantos elogios... Quanto á homosexualidade ser uma deficiência (mais ou menos) profunda, reporto-me á seguinte passagem do texto da jornalista Ana Cristina Pereira:

"...Portugal, lembra, não levou equipa aos GayGames, uma espécie de Jogos Olímpicos para homossexuais. "Até Timor teve lá [em Sydney] um representante!"

Há alguma razão pela qual os/as homosexuais, corram, saltem ou nadem menos que os outros; ou as provas são de teor diferente.

Têm corridas em salto-agulha para drag queens? Irão as lésbicas cortar pinheiros á machadada e beber bagaços entre actuações. É a hipocrisia uma modalidade olímpica?

Sitius, Altius, Fortius... sabem o que isto quer dizer?

Vão-se pondo vocês mesmos á margem, e depois venham-se queixar que o mundo é injusto e cruel.

Quanto a Timor ter mandado representantes, é como se costuma dizer por aqui... Paneleiros, há em todo o lado!

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