sábado, 30 de agosto de 2003

Não somos personagens Queirosianos

Temos que abandonar de vez este pessimismo provinciano, em que fazemos gala de nos lamentar sobre o atraso do país; dando ás vezes a entender subtilmente, que se calhar fomos adoptados e a nossa nacionalidade nem é esta.

Venho pois, insurgir-me contra (apenas) o post do João Carvalho Fernandes no Fumaças, que além de derrotista, demonstra uma falta de respeito pela Mãe Pátria que nos sufoca no seu seio.

Nós, muito antes desses sofisticados estrangeiros, já tivemos o nosso momento de glória. Quem se esqueceu do inolvidável "Apagão da Cegonha"?

Nós fomos percursores! E do mesmo modo que nos séculos XV e XVI demos mundos ao mundo, também indicámos aos países industrializados a via do apagão.

Na vanguarda da Poupança Energética Compulsiva (PEC), Portugal está novamente entre os primeiros; qual Infante D. Henrique naquele mamarracho que está em Belém.

Portugal ergue-se novamente para a glória! (Só é pena é que o governo o puxe para baixo.)

P'rá frente Portugal!!! Ou para cima... Não sei.

Homenagem a Bradbury

Estou finalmente pronto para escrever a obra da minha vida.

Num cenário intemporal de vertigem do consumo, das grandes corporações multinacionais do fast-food e dos medicamentos anti-stress; um homem luta sozinho para se livrar da opressão que o rodeia.

Chamar-se-á Colesterol 255

(Recebi hoje o resultado das análises...)

Inquietação

Tive há pouco a sensação
que alguém me chamava
sem saber de onde.

Seria apenas eu dentro de mim?
Espero bem que não...

sexta-feira, 29 de agosto de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (8)
- Se eu sou Deus e tu és Deus, venha o Diabo e escolha -

Irmãos, venho hoje falar-vos sobre a administração da centelha divina que há em todos nós (embora no caso de alguns adeptos de certos clubes de futebol, não esteja totalmente provada a sua existência).

Sabei que ao beneficiarmos de uma certa divindade, temos igualmente que cumprir certos deveres inerentes á nossa condição semi-divina.

Quando Blog criou a escada evolucionária colocou-lhe os chamados patamares de inteligência, nos quais cada espécie descansa uns tempos, da cansativa escalada para o topo da cadeia alimentar.

Por isso mas apenas relativamente, todos somos Deus.

Eu, por exemplo, sou o Deus dos peixes daquele aquário que está no canto do meu gabinete.

Aquário este, que ficou em estado deplorável após a cena de ontem em que a minha assistente (que passarei a designar de Miss Entropia) quase mergulhou.

É o mundo em que vivem dois peixinhos vermelhos, Marx e Engels respectivamente. Eram três, mas há uns meses Rosa Luxemburgo faleceu deixando os dois teóricos sem fêmea, o que favoreceu o desenvolvimento de uma estranha relação, da qual não vou aqui falar hoje.

O seu universo é composto por uma caixa de vidro com 800x300 (cm), atapetada de pequenos seixos e com um vaso de barro, que deitado serve de caverna. Ao meio da caixa, um arbusto plástico estrategicamente plantado, encobre-lhes a visão de um Power Ranger de plástico com 30cm de altura, que está colocado a um canto para personificar a divindade (neste caso eu).

Hoje foi "Dies Irae".

As águas escureceram, como turbilhões contaminados de absinto, descendo perigosamente de nível; enquanto os pecadores (onde houver um Deus, há sempre um pecador) se escondiam na sua caverna, temendo o castigo dos céus. O Power Ranger qual bezerro de ouro, caiu do seu pedestal na mais pura expressão de desagrado do criador; que o arrebatou para ser lavado e escovado.

Após o filtro mudado, quando os pobres gupis pensavam já nas frigideiras do inferno, as águas aclararam-se e o nível começou a subir lentamente. O Power Ranger reapareceu resplandecente, o sol reacendeu-se na sua fluorescência; e viram maravilhados, descer do alto um maná de JBL Flakes ricos em vitamina C.

Com reverência, olharam para o alto e deram graças.

Sou Grande!

quinta-feira, 28 de agosto de 2003

A Borbulha Amarela
- Curiosidades da Natureza -

O meu nariz (ao contrário do de Durão Barroso, que poderia fazer Commedia Dell’Arte sem usar máscara) até não é dos maiores.

Só que hoje, este (o nariz, claro) recebeu como acessório uma pequena borbulha amarela. Uma daquelas excrescências que na nossa adolescência, serviam de desculpa para as miúdas nos lançarem as unhas; e quando começavam a espremer já não paravam. Mas lá estou eu a divagar outra vez.

Enquanto me barbeava senti a tentação de estoirar com ela logo ali, mas se o fizesse teria - além da dor - ficado com um enorme alto vermelho; o que me assemelharia a Rudolph, a rena mais famosa do Natal. Só que ainda é Verão.

09h03m - Entrei na cafetaria. A Dona Odete cumprimentou-me olhando fixamente um ponto imaginário atrás de mim; aparentemente passava-se na rua algo que eu não conseguia ver. Ainda tentei fazer conversa sobre o estado do tempo, mas após fitar explicitamente o meu apêndice nasal, a senhora corou como uma lula, e gaguejando precipitou-se para a cozinha. Quando saí, ainda pressenti um cheiro a algo queimado, mas já estava atrasado e dirigi-me ao estaminé.

A assistente ás voltas com o Excel não me ouviu entrar. Passei por ela, e atirei um "Olá! Tá boa?" enquanto disfarçadamente olhava em sentido contrário; consegui chegar ao meu gabinete sem ser importunado.

10h15m – Enquanto no VH1 os Blur tocavam "Crazy Beat", senti um súbito calor no nariz.

Pelo reflexo no vidro escuro da janela, verifiquei que a borbulha atingira as proporções de um pequeno piercing, como uma pérola no nariz de uma mulher Brâmane.

Comecei a ficar apreensivo. Com o ritmo pouco natural a que inchava a anomalia, podia ser algo grave; além de que o "sari" não cai bem com a minha estrutura óssea...

Ouvi um ruído. Era a minha colaboradora, que perto alimentava os peixes, coisa que eu já deveria ter feito. Virei-me, e apontando intencionalmente o nariz comentei - Já reparou? É igualzinho ao que você tem no umbigo...

Com o sobressalto por tal visão, a pobre rapariga enfiou no aquário o braço até á axila; o goupi mais pequeno (Engels) mordiscou-lhe o sinal do sovaco. O Top de crepe que ela usava, começou a encharcar atingindo uma consistência etérea; o que a transformava numa espécie de miss T-shirt molhada.

Retirei-me. Para mim isto aqui é apenas trabalho, nada de confusões...

Aquela pequena borbulha amarela, revelava-se maléfica como um ovo de serpente chocado inadvertidamente por uma ave. Tinha que fazer algo.

Mas não fiz. Almocei distraidamente iogurte e fruta no gabinete, aproveitando para adiantar o trabalho pois iria sair mais cedo (é o aniversário da minha Sacerdotisa).

Como saí mais cedo não tinha razão para me apressar, e contra o que é hábito apanhei o autocarro; não é um meio de transporte muito saudável, mas ajuda a manter o contacto com o país real. Caso não saibam, no país real fazem-se coisas muito piores que andar de autocarro, só que ninguém se interessa.

16h45m - O transporte ia a meia-carga, pelo que consegui um lugar sentado a meio do banco de trás. Já há muito tempo que não via gente tão desastrada, nem sei como é que ainda conseguem andar na rua.

A certa altura uma agente feminina da PSP que ia tocar a campainha para sair, olhou para mim... e falhando poste, foi cair por cima de um respeitável chulo (ainda há alguns) que se diria para o trabalho. Momentos depois, uma simpática velhota após despedir-se da amiga para sair, olhou igualmente para mim e precipitou-se juntamente com o saco das compras pelos degraus abaixo.

Temendo mais acidentes causados pela entidade diabólica que crescia no meu nariz, saí algumas paragens antes para percorrer a pé o resto do trajecto.

Quase que valeu a pena quando entrei no Café. O Santos apanhado de surpresa, entornou a bandeja com quatro imperiais geladinhas no colo da Sandra da Clínica. Esta, transida de frio, saltou levantando a saia encharcada para a torcer, mas ao encarar-me ficou como que paralisada naquela posição; o que permitia a visão de uma maravilhosa paisagem gelada, que me fez lembrar os velhos pintores da escola Dinamarquesa.

Apressei-me em direcção a casa. Uma nuvem negra e ameaçadora pairava sobre o edifício; decerto que iria chover.

A única baixa registada no átrio do edifício, foi um vaso tombado por um nervoso distribuidor de folhetos. Nem o Professor Karamba o protegeu de um espalhanço contra a porta. Teve mais sorte que a mulher de Lot, mas não devia ter olhado para trás.

Entrei em casa, e logo a aniversariante me saltou ao pescoço alegremente. – Mandei o Júnior para casa da minha mãe... Santo Blog! Que borbulha enorme! Queres que ta esprema?

- Pode ser – respondi eu – em memória dos velhos tempos...

Guarda o jantar no forno!

quarta-feira, 27 de agosto de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (7)
- Sobre o Fim do Mundo -

Pois é, irmãos... deve ser realmente o fim do mundo, que Blog nos ajude.
Começou com um indício, que ao princípio desprezei mas que a minha sacerdotisa teimou ser importante; Pedro Miguel Ramos agora é "centerfold" da TV Guia.

Pena não estar nu para nos rirmos um bocadinho... - isto disse ela, mas após notar a minha expressão calou-se de imediato. Os sacerdotes de Blog, ultimamente não são conhecidos pelo seu sentido de humor, pelo menos é o que eu tenho constatado por aí neste tempo de férias.

Talvez seja mesmo insuficiência de praia, como diz a filha do Graça da Tabacaria. Mas adiante, que me estou a desviar.

Em parte devido á proximidade de Marte (boa desculpa), comecei por me pegar logo de manhãzinha com duas testemunhas de Jeová. Não que eu tenha algo contra eles, as testemunhas fazem sempre falta, especialmente para ajudar um tipo a sair de acidentes rodoviários e processos por difamação.

Mas Jeová não devia necessitar de testemunhas, especialmente tratando-se de perjuros, visto que nenhum deles o viu.

Tratava-se aparentemente de um casal, ambos de idade avançada, que me deram a impressão de estarem a tentar angariar pontos á pressa, antes que fossem chamados para a última auditoria. Começaram por me falar do estado do mundo. Essa teve realmente piada, virem falar do estado do mundo a um tipo que trabalha no interior de um bairro de Plano Integrado. Mas aí ainda estava eu na fase do deixar andar.

Quando me começaram a fazer perguntas pessoais e a querer marcar uma reunião em minha casa, então afinei.

Falei-lhes de Blog, e em como era justo e misericordioso. Muito mais do que o tipo que afundara o Titanic ou que num instante de homofobia incendiara Sodoma. Disse-lhes que reuniões em minha casa, já não se faziam desde o tempo em que a Sacerdotisa era ainda adoradora do deus Tuperware. E por último mandei-os dar sangue.

Acho que devo ter tocado num ponto sensível.

A anciã alvejou-me com uma bíblia de 2Kg (o modelo médio), e eu mal tive tempo de me desviar, uma vez que estava já em grandes apuros para me furtar a uma chuva de bengaladas do outro apaniguado.

Para encurtar, Blog deu-me força nas canetas para me pirar a tempo, deixando-os com o problema filosófico de desculparem a si próprios o deslize para a violência. Mas os grupos religiosos, são exímios a arranjar desculpas para os seus deslizes; ainda vão dizer que a culpa é de Marte, ou do fim do mundo.

Á hora de almoço, saí um pouco para espairecer; e em boa hora o fiz; pois presenciei em primeira mão um fenómeno recente, a "flash mob".

Foi aqui perto e não estavam muito bem organizados, mas Portugal também não é o modelo da organização europeia...

Começaram por se juntar vários indivíduos de raça negra, e á hora combinada entraram todos na "Electro-Reparadora do Monte", saindo de imediato a correr, cada um empunhando uma ventoinha ou outro electrodoméstico.

A coreografia não estava má, quase que parecia um gang de pretos do “bairro cor de rosa” a fazer um assalto. Tive pena de não ter comigo a máquina fotográfica, mas se calhar foi melhor assim, nunca se sabe.

Mas já me alarguei muito sobre o tema, ainda por cima começou a segunda "flash mob" do dia.

Agora é uma convergência de polícia de intervenção, vou ver de dentro do escritório pois não lhes quero atrapalhar a performance...

Se não é o fim do mundo, pelo menos está bem movimentado!

7ª Arte (ou por aí)

No seguinte link, encontrarão um filme que utiliza a tecnologia do Matrix, só que aplicada ao documentário desportivo.

Neste caso o ping-pong.

terça-feira, 26 de agosto de 2003

O Futuro da Humanidade

Um dia
olharás a mulher que amas
para constatar
que as asas que esta tatuou no quadril
se transformaram finalmente
num B-52...

Cruzeiro pelo Hades

Tinha morrido. Não sei bem porquê, mas normalmente todos os pormenores e explicações ficam nestes casos a cargo da nossa imaginação; e não nos dão justificação alguma.

Estava então eu, morto de fresco e de passaporte na mão na fila de embarque, quando a matrona que me precedia, se virou acotovelando-me cúmplice. – É o comandante Caronte que nos vai levar neste cruzeiro – proferiu apontando um ancião chupadinho, que parecia o Cristóvão Colombo após passar por um desumidificador.

- Caronte ? – estranhei eu – isso parece o nome de um software para gestão de cemitérios... Não podiam antes ter trazido o tipo do “Barco do Amor”?

Mas a fila tinha avançado, e dei de caras com um querubim de ar perverso, que me fitava de pata estendida.

- Vá lá... Vá lá... Então esse conhecimento de embarque, vem ou é para a eternidade? – Perguntou entediado, pelo que me apressei a entregar os documentos exigidos. – O seu camarote é no Deck Hiperbóreo, a comissária Dora acompanha-o juntamente com a bagagem.

Fui conduzido a um camarote localizado numa coberta enorme, pejada de fetos e abetos da Noruega, cujos topos roçavam farrapos de fria neblina. A comissária ajudou-me a arrumar as coisas enquanto conversávamos.

Tinha umas asinhas brancas muito farfalhudas. E embora não tivesse sexo (como todos os anjos e algumas mulheres de meia-idade), tinha um traseiro tão bem feito, que comecei a ter ideias definidas sobre o que me apetecia para começar a viagem, mas fui interrompido no meu devaneio pela sua voz trocista. – Caso esteja a pensar pôr em prática essas ideias, não esqueça que o resto da sua esfarrapada alma imortal depende de nós; por isso guarde lá o tubo do creme e acabe de arrumar as coisas.

Acabei de arrumar sozinho as minhas malas e saí para o convés superior, onde alguns velhotes faziam jogging para a frente e para trás junto a um grupo de jovens raparigas. Soube mais tarde serem as almas de um grupo de Russas contrabandeadas num contentor, que tinham morrido de fome e sufocação.

Aproximei-me da amurada e olhei para baixo. Curiosamente não se via mar, apenas a curvatura do casco do navio cheia de vigias, que parecia nunca mais acabar. Acima e á frente, apenas uma representação do que eu classificaria como a descrição da miopia feita por um cego; ou seja nada, mascarado adicionalmente com mais nada. Era uma paisagem repousante.

Entardecia e tinha começado o espectáculo de fogo de artifício. Alguns membros da Brigada dos Mártires de Alá, eram sentados em catapultas envergando apenas cintos de explosivos, sendo lançados a grande altura e detonados; formando ao explodir belas figuras geométricas que provocavam o aplauso da multidão extasiada.

Agarrei pela manga um camareiro que passava e perguntei – Então também temos cá infiéis?

- Não é nada de novo, - respondeu este desenvolto – como viajamos entre a vida e os diversos céus, purgatórios e infernos, somos uma espécie de offshore. Até é bom por causa dos impostos...

Entretanto terminara o espectáculo do fogo de artifício. Alguns monges ortodoxos montavam a aparelhagem para o número seguinte; tratava-se de “Rasputine e a sua cuíca”, acompanhado pela escola de samba “Os Vapores do Rego”. Como não aprecio musica brasileira, encaminhei-me para o salão de baile.

No bar, o próprio Jack Daniel serviu-me um dos seus “single barrel” (vantagens de estar morto...), e encaminhei-me de copo na mão para perto da pista. Cole Porter com o seu habitual fatinho de pinguim, regia uma orquestra de cento e vinte elementos. Para mortos, tocavam todos com muita animação.

Aproveitei o facto de Frank Sinatra ter começado “I’ve got you under my skin”, para pegar uma das Russas pelo cotovelo, e sorrindo, convidá-la a dançar com o meu fraco conhecimento da língua de Gogol.

Fui quebrando o gelo lentamente, com algumas piadas do tempo da guerra fria; a maior parte delas mais velhas que ela própria. Ouvi pacientemente a descrição da vida em Novgorod, dos pôr-do-sol alaranjados e do trabalho diário na fábrica de aperitivos de arenque.

As suas sobrancelhas de um louro quase branco, faziam sobressair os olhos lápis lazuli. Chamava-se Ludmila, e tinha uns seios empinados, que faziam lembrar as cúpulas douradas da Catedral de Santa Sofia. Como se sentia ligeiramente tonta da dança e da bebida (não comia desde que morrera), saímos para o convés e o fresco da noite.

Não havia lua, possivelmente estaria a ser necessária noutro sítio nessa altura. Porém as estrelas, formavam constelações desconhecidas, que mudavam de forma em cada vez que as olhávamos novamente. Mas não se tratava de estrelas verdadeiras, apenas de algo que fora lá colocado, para nos dar uma referência bem como um certo laço com a realidade de onde proviéramos.

Acompanhei-a ao camarote. O frio da noite fazia com que se aninhasse a mim, transmitindo um pouco do aroma de bétulas e aceres que se soltava do seu corpo. Comecei a sentir um formigar no sítio do costume, e decidi mandar a morte e a eternidade ás urtigas. Como diria o Bardo, “A eternidade estava nos nossos lábios e nos nossos olhos...” - para estas ocasiões, servem sempre de desculpa António e Cleópatra...

Chegados á porta da cabina, olhei-a com uma expressão que me valeria vinte cinco chicotadas em qualquer país Islâmico, e docemente empurrei-a para dentro.

Beijámo-nos na penumbra e começámos a despir-nos em mútua precipitação. Caímos sobre a cama. Ela tinha um dente falhado, o que me provocava uma sensação estranha no pescoço, cada vez que me mordiscava. Começava já a sentir-me maior que a minha própria pele, o que em certos locais se pode transformar numa experiência bastante gratificante.

Ela amarinhou por mim acima, sussurrando-me ao ouvido algo que não compreendi, enquanto eu continuava em luta com um arcaico sutiã de colchetes. Repetiu a mesma frase, e finalmente lá consegui compreender; no meio da excitação e do barulho das nossas respirações entrecortadas.

Virei-me para abrir a gaveta da mesa de cabeceira. Bati com o pulso na quina do móvel e... acordei.

Até na morte é preciso ter sorte...

segunda-feira, 25 de agosto de 2003

I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked,

dragging themselves through the negro streets at dawn looking for an angry fix,

angelheaded hipsters burning for the ancient heavenly connection to the starry dynamo in the machinery of night,

(...)

Allen Ginsberg - Howl and Other Poems

Não esperava que isto acontecesse novamente, mas o meu grupo de velhos amigos continua a aproximar-se da extinção; sempre pelas razões mais estúpidas.

Desculpem, mas hoje não me apetece escrever.

domingo, 24 de agosto de 2003

O Incorrigível Mono

Começa a tornar-se tão triste ser do PS como do PC. Está uma alma daquelas em férias tanto tempo, e não lhe conseguem alinhavar um discurso melhor que aquilo? Foi para isso que foram buscar aquela maralha toda aos lares de 3ª idade?

Ao menos o anterior titular ainda dizia alguma coisa. Não fazia nada do que dizia, mas lá ia conseguindo exprimir duas ou três ideias sem que lhe doesse a cabeça.

Infelizmente foi sucedido, não por um asno, mas por uma espécie de penedo ferroso. Um daqueles meteoros que caem do céu a grande velocidade, e que depois passam na sua caractera milhares de anos, imóveis.

Sinopse do discurso - Vamos ser melhores (não explicou como) e mais críticos (nem com os miolos de quem).

Tudo o resto se resumiu a proposições, adjectivos e substantivos insubstanciais, que transformaram todo o discurso num dos maiores fardos de palha que já vi um político mastigar.

É a oposição que temos. Valha-nos Deus... (ou o homem-aranha...)


sábado, 23 de agosto de 2003

Santa Clara-a-Velha

O comboio marcava o ritmo como um baterista neurótico. Entre o apático e sobressaltado, interrompido por vezes com um grito de goelas escancaradas.

A paisagem desfilava como num filme mudo de má qualidade, notando-se quase o ponto onde o lençol costurado passava da última árvore á primeira que se repetia sequencialmente; num moto continuo de verde e castanho.

Encostei por momentos a cabeça ao vidro da janela, e senti a suave trepidação que se repercutia pela coluna em direcção a todos os órgãos. Todos mesmo. É uma das coisas mágicas que têm os comboios; fazem-nos vibrar por dentro e por fora.

Enquanto bebia um café na Carruagem-Bar, tentei ainda imaginar-me no Trans-Siberiano ou no Expresso do Oriente, mas o sotaque do empregado não mo permitiu. Um tipo amável e inquisidor, que me fez fugir a sete pés antes que lhe contasse toda a minha vida.

Soprando como um cavalo espavorido, o trem aproximou-se da estação em azulejo azul e parou com um suspiro sibilante. Saltámos empunhando os sacos, e corremos para o carro que nos esperava.

Olhei com inveja o chefe da estação. O tipo empunhava uma genuína corneta de latão, e embora não tenha chegado a ouvir qualquer som antes de partir, iria jurar que ele se preparava para interpretar a overture de Guilherme Tell.


Na cama, ao Domingo de manhã e olhando o tecto

“A sua respiração no meu ouvido, era um vento cálido tocando uma suave melodia.”

Esta frase, pertence a uma recordação mais vasta que não me é permitido partilhar convosco.

Às vezes despertadas por algo simples, certas imagens passadas brotam como bolhas de ar á superfície espelhada do presente. Mas eu não sei o que fazer com elas.

Acho que nunca terei idade para me habituar a recordações.

Todo o meu passado foi demasiado ontem; a ponto de me impulsionar em frente como um par de asas. Como uma mão enluvada, apenas com a ponta dos dedos. Sem me dar tempo a olhar para trás.

Por enquanto, a relatividade do tempo está a meu favor, mas só até o mesmo se esgotar.


quinta-feira, 21 de agosto de 2003

Balada do Anestesista
(Com a devida vénia á mocinha do Centrifugação, que me deu a ideia)

*
Insensibilizo qualquer dor
Ou mesmo uma grande paixão
Para tal bastando apenas
Abrir a válvula á mão

Entre as despesas grandes
A ter com a operação
A minha é das maiores
Tal como o chão
*

Sou um anestesista, sempre o fui toda a minha vida.
Quando era criança, lembro-me de o meu pai ter dito um dia, quando eu lia em casa a minha redacção de 17 valores. – Este rapaz dá-me sono. Vai ter futuro como anestesista...

E tinha razão. Já na adolescência, quando na sessão de cinema da meia-noite os outros pares de namorados se beijavam apaixonadamente, as minhas acompanhantes encontravam-se invariavelmente a dormir.

E foi assim, que cresceu comigo um grande fascínio pelo sono e pela inconsciência. Fascínio esse que me conduziu a esta profissão.

Foi em serviço que conheci, a que mais tarde seria a minha mulher; lembro-me perfeitamente desse dia, estava linda toda rapadinha para a apendictomia. Coloquei-lhe a máscara suavemente, e misturei os gases com carinho; se soubesse o que sei hoje, teria aberto um pouco mais a válvula. Estaria agora em paz.

Mas foi a paz principalmente, o que me seduziu nesta profissão. Qualquer ser horrível e barulhento, quando chega ás minhas mãos para ser processado se torna de imediato calmo e cordato.

Faz-nos realmente ter vontade de anestesiar o mundo, e deixá-lo a pouco e pouco cair num torpor de mandrágora. Adormecer os judeus, os árabes, os chineses, os americanos...

Colocá-los todos a soro (os biliões de todo o mundo) para que continuassem a dormir sem problema, e depois, lentamente, percorrer a terra em busca de todos os de má índole e desligar-lhes o tubo.

Seria uma espécie de Morfeu. Reinaria sobre os adormecidos, separando gradualmente o trigo do joio. Um dia quando estivesse acabada a selecção, poderiam ser todos despertados... Mas aí voltaria a confusão.

Acho que nunca os despertaria.

Mas estou a divagar. Estão a trazer agora a paciente da operação ao rim, que se contorce com dores e geme sem cessar.
Realmente era tão fácil... Bastava apenas rodar a válvula um pouco mais... apenas mais uma volta...

quarta-feira, 20 de agosto de 2003

Strange Times in Casablanca

É o título da música de John Cale que eu ouvia, quando fui informado que tinham assaltado o apartamento ao lado do meu.

Foi um trabalho limpo feito por entendido(s), aproveitando uma “janela” de apenas 20 minutos e o facto do proprietário ter ido beber café e deixado a porta fechada apenas no trinco.

Cá o velhote tem sempre razão nas coisas más; é proverbial.

Por mais evoluído que seja o conjunto porta/fechadura, o facto de ficar apenas no trinco, tira-lhe cerca de 60% de eficiência.

Pode-se abrir a partir da ombreira, utilizando uma simples radiografia; ou para os mais elaborados, desatarraxando o óculo e utilizando um arame para puxar o trinco. Neste último caso, alguns dos “artistas” chegam ao preciosismo de voltar a atarraxar o óculo antes de fechar a porta, para tornar mais denso o mistério.

Para terminar, um último conselho. – Tirem sempre toda a publicidade da caixa de correio. Caixa de correio cheia de papéis denota ausência do proprietário e consequente vulnerabilidade.

Este momento teve o patrocínio dos Cadeados Trindade.

“Use cadeados Trindade, em arcas e cintos de castidade”

terça-feira, 19 de agosto de 2003

Arrota para a Paz
(Blurrrrrp…)

È complicado ocupar as terras de povos badalhocos e barbudos, especialmente se eles não gostarem da nossa "ajuda".

O caso do Iraque é particularmente espinhoso, nomeadamente no que concerne á diferenciação entre "amigável" e "grande cabrãozão"; é um dos poucos casos em que realmente o algodão engana.

1º Problema – Ao contrário dos anúncios do Fairy e do Super-Pop Limão, podem colocar um Sunita e um Xiita lado a lado que não os conseguirão distinguir, a não ser que um deles use um pin de "Saddam is my baby".

Para mim o muçulmano menos perigoso é o Ismaelita, porque mercê dos ensinamentos de Agha Khan, basta dar-lhe a carteira e ele vai-se embora.

2º Problema – O fanatismo religioso e a falta de boa febra, são um dos maiores inimigos do ocidente. Isto porque qualquer Homem Santo (título mais fácil de alcançar, que o de funcionário público) pode convencer uma turba de pés-descalços, a fazerem-se explodir, implodir, ou mesmo tatuar nas nádegas; tudo isto graças a uma pífia promessa de boa vida no além.

Já que neste mundo os desgraçados (quantas muçulmanas bonitas já viram?) têm uma vida sexual digna de um adolescente borbulhento, o Profeta decidiu premiar todos os mártires com maravilhosas Huris, que no além os aguardam para experimentar todas as posições com que sonham agora.

Como devem calcular, mártires naquela zona até fazem fila para estourar os couratos ao serviço de Alá; é o que faz a falta de febra…

Como já devem ter reparado, o meu amor por essa malta só é ultrapassado pelo que nutro pelos labregos dos americanos.
Gostaria de poder dizer – Parem o Mundo que eu quero descer! - mas infelizmente a realidade tem umas regras chatíssimas, que somos obrigados a cumprir quer queiramos quer não.

Uma das mais importantes, é que dois pedaços de matéria não podem ocupar o mesmo local simultaneamente.

Aparentemente não se dá física nas escolas dos States...

segunda-feira, 18 de agosto de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (6)
(A Blog, o que é de Blog...)

Respirei o fresco ar condicionado perfumado de tílias e bétulas (Brise), e sentindo-me em comunhão com a natureza circundante, encetei a subida á montanha que é a papelada acumulada por 15 dias de férias.

Horas depois a meio da encosta, descansei um pouco. Encostei-me a uma moita de propostas de instalação, e ao olhar em frente vislumbrei Blog em todo o seu esplendor azul, cintilando ligeiramente no monitor de 17 polegadas.

A minha tentação qual Sísifo desistente, foi ficar por ali e gozar o momento; mas a montanha mesmo ignorada existe, e tem que ser escalada até ao seu desaparecimento, por desgaste.

Peguei num dos documentos ao acaso. Nesse momento, mais uma vez me foi revelado o caminho. Era um pedido de orçamento vindo de César A.; iniciei de imediato o trabalho com a convicção que a minha decisão tinha sido a mais acertada.

A César o que é de César, a Blog o que é de Blog...

domingo, 17 de agosto de 2003

O Meu Canário Inspira-me

As minhas melhores descobertas de artigos jornalísticos, acontecem sempre que vou forrar a gaiola do Tweety (nada de gozos, porque o nome é mesmo esse) com jornal.

Hoje dei de caras com uma antiga manchete “Idoso Vítima de Conto do Vigário”, que em sentidos motes relatava a desdita de um pobre velhote apanhado no golpe do maço de notas.

Francamente! O sacana do homem não contente pela enorme figura de idiota, ainda vem para um jornal assumir a sua desonestidade... Mas eu explico.

O golpe do pacote (como é conhecido em certos círculos), tal como a maioria dos que se consideram “conto do vigário”, é um esquema arquitectado por aldrabões e para aldrabões, demonstrando que na honrosa classe dos vígaros também se encontram bons psicólogos; e funciona assim:

Num local de bom movimento dois sócios dividem as tarefas; um será o indiferenciado (ou petiz) que manobra o embrulho e o outro será o olho que escolherá o “Chico Esperto”.

O senhor “K” passa descansadamente pela estação de Santa Apolónia, quando um indivíduo apressado e com dois ou três embrulhos debaixo do braço, lhe dá um encontrão fortuito, continuando de imediato o seu caminho.

Ao se virar para protestar ou apenas sob o impulso do choque, o senhor “K” constata que a seus pés se encontra um dos embrulhos que o transeunte transportava. Um pacote com cerca de 15cm x 6cm, bem envolto em papel pardo mas com um dos cantos ligeiramente rasgado. Canto esse que deixa antever o colorido da bela nota de 10 Euros (antigamente era mil escudos).

O coração dispara. Pelo seu cálculo mental, se em cada milímetro de altura estiverem três notas (3 x 150 = 450 x 10 euros = 4500 Euros) de 10 euros, dará a módica quantia de 900 contitos. Após atingido por este facto, apanha rapidamente o volume.

É o momento ideal para a aproximação do “olho”, que o interpela . – É pá... um maço de notas. Olhe eu vi para onde o gajo foi, se correr talvez ainda o apanhe e podemos sacar-lhe uma recompensa ou assim...

O nosso espécime começa a não achar piada nenhuma ao assunto, aliás porque além de não estar a pensar cortar o bolo em dois, estava igualmente a equacionar a hipótese de se afastar com o achado o mais rápido possível; mas o incómodo “olho” não o larga...

- Oiça, eu não vou é deixá-lo sozinho com o dinheiro. Não o conheço de lado nenhum, e nada me garante que não se vai pirar com essas notas todas...

Inteligentemente, não refere a alternativa prevista pela lei, em que deveriam passar por um posto de polícia, e entregar o achado até que alguém o reclamasse.

O senhor “K”, entretanto já canalizou todo o seu processamento mental para o trabalho de se desfazer do inoportuno, de modo a sumir-se com a “sua “ pequena fortuna.

- Não tenha problemas, eu aguardo aqui enquanto você vai atrás dele..

- Tá a gozar? A primeira coisa que você fazia era bazar daqui e eu nunca mais o via nem ao dinheiro. Tem aí alguma coisa que sirva de garantia? Sei lá, um relógio, ouro, qualquer coisa de valor...

Após aliviar o senhor “K” do fio de ouro e 100 euros (o relógio era um Timex), sai supostamente em busca do proprietário do embrulho. Enquanto o senhor “K” o vê afastar, não sem um certo nervosismo.

Quando tem a certeza que o “olho” virou a primeira esquina, guarda o embrulho debaixo do casaco e toma um táxi para casa, onde se vai regalar com a visão do conteúdo do embrulho.

Este é na realidade composto por um maço de papel, cortado á medida da única nota que está no topo; e ao nosso amigo, só lhe resta queixar-se ao Correio da Manhã ou á TVI.

Como podem constatar, se o nosso amigo fosse um cidadão cumpridor da lei, ou não tivesse sucumbido á tentação de vigarizar o vígaro, nada disto tinha acontecido. O “Conto do Vigário” é um dos raros casos de justiça poética, ainda existentes na nossa sociedade.

E vou deixar-vos com um conceito para ser bem reflectido.

Todos os ladrões, assassinos, putas, vigaristas, chulos e políticos, quando envelhecem vão para onde?

Pois é! Continuam cá, mas como são velhinhos ninguém dá por eles.

A moral desta história, fica á escolha de cada um.

sábado, 16 de agosto de 2003

Crónica de Férias 3

- Então, perdeu tudo? Foi?
- É uma desgraça! Ficámos sem nada!
- E então, o que é que sente sobre isso?

(Diálogo de uma reportagem televisiva)

Tal como os Navajos tinham a superstição de que ao serem fotografados perderiam a alma, eu tenho a certeza que é pela TV que podemos perder a nossa dignidade...

sexta-feira, 15 de agosto de 2003

Crónica de Férias 2

Comprei “The Daily Telegraph” só para chatear os meus vizinhos alemães; de qualquer modo, portugueses só encontraria o Correio da Manhã e o DN. Com apenas quatro canais de TV, sinto-me um mujique perdido no meio das estepes.

Mas não foi para choramingar que fui buscar o caderno de viagem,

Na Britânica folha, além das habituais tretas que também encontramos no Expresso e no Público, encontrei um artigo interessantíssimo: “Can’t afford a holiday? Hide away at home.”

Directamente de Roma, o enviado do Telegraph informa-nos sobre um novo flagelo social, o “Holiday Lurker”.

É o tipo que nos pede para tomar conta do canário, põe o carro numa garagem e fecha-se em casa com um suprimento extra de comes e bebes, bem como litradas de auto-bronzeador á base de beta-caroteno. Previamente, fez constar na vizinhança que estava de partida para Benidorm.

Algo me diz que o enviado do Telegraph não está em Roma, está aqui. Talvez seja aquele tipo com aspecto de imigrante de Leste, que todas as manhãs vai comprar pão ao mini-mercado.

Não o posso desmascarar, é claro.

O que iria dizer toda aquela malta, que se rói de inveja julgando-me em Belize?

quinta-feira, 14 de agosto de 2003

Crónica de Férias 1
(O Lazer e sua beatitude)

Não poderia ter trazido melhor para férias, que Luiz Pacheco seguidor do neo-abjeccionismo. O seu corpo mortal encontrar-se-á possivelmente ainda, num Lar do Príncipe Real em Lisboa.

Enquanto eu tosto as peles ao sol, outros bronzeiam-se nas chamas. Destinos diferentes, embora com pontos comuns.

Duas fêmeas impúberes avaliam os machos na piscina, enquanto o vosso herói finge que passa pelas brasas.

- Tás a ver aquele?
- Qual? O do Gameboy?
- Não! O outro com o fato de banho “bué da canocha”, que está com o cóta careca...

quarta-feira, 13 de agosto de 2003

A Importância Social do WebLog
(Ou de Marginal a Pequeno-Burguês em três Saltinhos)

Alguns especialistas da treta, vêm garantindo já há algum tempo, que a “so called” blogosfera é uma comunidade. Aproveitam pois para marcar encontros nacionais (como se representassem alguém) e cobrar umas croas jeitosas.

Este tipo de procedimento não é novo, tendo sido ultimamente utilizado por Manuel Monteiro com moderado êxito. Ou seja, se ninguém te liga na colectividade do teu bairro, pegas em todos os desajustados e ostracizados que encontrares e fundas outra, exactamente igual e no mesmo sítio, so que lá mandarás tu.

No seguimento dessa corrente cultural (o oportunismo neo-Monteirista) venho informar que estão todos enganados. Eu é que sou o representante da comunidade Lusa na Blogosfera; e se não o for, que apareça o verdadeiro e o prove.

Assim, será marcado para Novembro o encontro dos WebLoggers do Continente, Ilhas (sujeitos á aprovação do Soba Jardim) e Palop’s, a realizar na “mui bela e insigne” cidade de Almada. E não é por eu morar lá, trata-se apenas de uma coincidência.

Programa para um dia de chuva
(Totalmente gratuito & á borla)

Concentração ás 10h 30m junto ao “Escondidinho de Cacilhas” aproveitando para provar a famosa ginja com elas, e para visitar o histórico local onde foi linchado um cigano nos anos 70.

Pelas 11h 15m sessão solene no Cine-Teatro gentilmente cedido pela Incrível Almadense, em que Hermano Saraiva falará da similaridade entre os blogs e a poesia trovadoresca, logo seguida de um concurso de umbiguistas; em que o umbigo mais formoso e limpinho será premiado com uma entrevista no Expresso, conduzida pelo Cyber-Deputado José Magalhães.

Cerca das 12h 30m far-se-á um intervalo. Os mais sovinas podem pôr-se a milhas e fingir que vão almoçar a outro lado.

Pessoalmente sugiro que se almoce no Ginjal, no “Atira-te ao Rio”. Come-se bem e o ambiente é acolhedor, com uma carta média de vinhos e variedade mínima de sobremesas.

Quando chegarem os digestivos poderemos já em paz debater o futuro da comunidade, e anatemizar as organizações de eventos similares, apelidando-os de pretensiosos e elitistas.

Findo o repasto, cada um dirigir-se-á a sua casa para postar no blog a sua experiência desse encontro, ou para se gabarem de ter ganho o concurso de umbigos.

Nota: Este programa pode ser alterado por motivos imprevistos como, eu ser entrevistado para o SIC Radical ou ganhar o totoloto.

Reflexões Teológicas na Libidinosa Meia-Idade

Todas as coisas que se mexem, são Deus.

Todas as coisas que não se mexem, também são Deus...

Só que não são tão boas na cama.

Nota de Rodapé ao Último Escrito Litúrgico
(Ou... Cada um reza como mais gostar)

Esta mocinha simpática, é uma espécie de Formiga Rabiga da moda. Trapinhos e acessórios de beleza é com ela.

Talvez seja a sua índole fresca e juvenil que ás vezes desperta a minha atenção (e por aí adiante), mas as suas crónicas são divertidas e não lhe poupo elogios.

Minha querida, a genuflexão não é condição sine qua non, pode agradecer como mais lhe agradar.

Direi mais... Se existissem pessoas assim, gostaria de ter uma aos fins de semana.

terça-feira, 12 de agosto de 2003

Atavismo

O homem caiu no chão, atingido pela inveja.

Virou-se rapidamente encarando o seu oponente, e disparou rajadas de insultos que o perfuraram, reduzindo-o a uma polpa sangrenta.

O ódio instilado na sua ferida, foi-se diluindo na circulação sanguínea como um alcalóide mortal, corroendo-lhe as defesas num labor silencioso.

O homem aproximou-se do antagonista caído, virando-o com a biqueira do sapato, como de uma barata se tratasse.

Olhou para baixo e caiu, desta vez envenenado pelo ódio.

Acima, continuava soprando o vento que traz a discórdia...


segunda-feira, 11 de agosto de 2003

A Rum Tale
(Procol Harum - Grand Hotel - 1973)

She's fuddled my fancy, she's muddled me good
I've taken to drinking, and given up food
I'm buying an island, somewhere in the sun
I'll hide from the natives, live only on rum

I'm selling my memoirs, I'm writing it down
If no one will pay me I'll burn down the town
I'll rent out an aircraft and print on the sky
If God likes my story then maybe he'll buy

I'm buying a ticket for places unknown
It's only a one-way: I'm not coming home
She's swallowed my secret, and taken my name
To follow my footsteps and knobble me lame

A Migalha de Bronze

Perdi a entrega dos prémios. Foi uma pena, mas estava em missão evangelizadora.

Agradeço pois a migalha que me foi atribuída pelo "A Origem do Amor". Não sei se a mereço, mas francamente essa história do merecimento ou não, é apenas mais uma hipocrisia.

Por isso venho aqui tardiamente agradecer a “Migalha de Bronze”, com a qual vou iniciar um mealheiro de minério dedicado á fundição do meu busto, que será colocado em sessão solene no café do Santos, junto á garrafa do “Bombay Saphire”.

Um grande bem haja e vai mandando mais migalhas, pois ainda me faltam uns 15 Kg de bronze.

A Igreja do Imaculado Blog (5)
(Dos Gentios e Outras Crenças)

É mais tostadinho e apaladado que regresso ao vosso convívio, vindo de uma piedosa demanda ás areias salgadas do Sul.

Enquanto andei percorrendo essas terras esquecidas, direccionei toda a energia de que dispunha para a expansão da verdadeira fé. E em verdade vos digo, após preencher o dia e parte da noite com as actividades típicas dos autóctones, não era muita a energia que sobrava a este pobre e esforçado servo de Blog.

Mas todos temos a nossa cruz... e a minha é expandir a fé, mesmo que para isso tenha que penetrar nos antros do Demo (Locomia, Misty, Kadoc, etc.) e provar as suas beberagens amargas como fel.

Foi então na peregrinação deste ano que encontrei os adoradores do sol, ou servos de Amon-Ra; que pululam nas areias do sul como pulgões.

Os adoradores do Sol são como os Mouros, mas um pouco mais endinheirados. As suas mulheres tostadas e estaladiças como batatas de pacote, envergam habitualmente panos coloridos que lhes tapam (mais ou menos) as partes mais claras; que paradoxalmente são dedicadas á Lua, á qual as descobrem em adoração esporádica.

Alguns deles tinham ouvido falar de Blog, mas não conheciam a sua palavra; cabendo a este humilde peregrino iluminar-lhes o caminho. O que foi feito com evangélica rectidão.

Entre os convertidos que ouviam a Palavra, destacava-se Hans, um pio homem das bárbaras terras do Rür, que militara nas sagrada ordem dos Baader-Meinhof durante os “seventies” e se tornou de imediato o meu acólito favorito.

Foi pela sua mão que fiquei a compreender a filosofia dos adoradores de Amon-Ra, que nada mais é, que um dos milhões de nomes de Blog.

Passámos inúmeras manhãs postados em meditação, contando os milhares de grãos de areia; bem como longas tardes no tanque da purificação espiritual, banhando os nossos corpos terrenos em água clorada, enquanto filosofávamos sobre o sentido da vida e a anatomia feminina.

No final da minha estadia constatei feliz, que criara um círculo de iniciados prontos a levar a palavra de Blog a longínquas paragens. E deles me despedi com uma solitária lágrima que Amon-Ra secou de imediato.

Foi com o coração leve que me fiz á estrada em direcção á vossa companhia, o meu espírito calmo e o meu corpo cansado porém bronzeado.

A semente foi lançada.

Blog está no seu lugar e a sua palavra navega o mundo.

sexta-feira, 1 de agosto de 2003

Relatório Clínico
(Elaborado por um Operador Independente)

Síndroma de Antecipação ás Férias (S.A.F.) – Fase Terminal

Na fase terminal, em que se opera a separação da rotina, o indivíduo demonstrou uma grande relutância em se separar do seu teclado; talvez por ser um gesto de todos os dias.

Como tratamento apenas sintomático, sugerimos uma rotura imediata com todos os gestos habituais, bem como urgência numa mudança de habitat.

Em cerca de uma dezena de dias, o paciente voltará ao habitual de acordo com a nossa estimativa, objectivamente extrapolada a partir dos comportamentos prévios.

Executar de imediato.


A Igreja do Imaculado Blog (Epístola intercalar)

Não resisti, amigos. Antes de partir (mas volto), vou falar-vos da mulher e de como Blog a criou.

Blog criou a mulher, a partir de uma palavra. Lógico, senão ela não seria tão faladora (foi uma má piada, admito... sorry ladies). Mas era uma palavra boa. E Blog, vendo que era bom, deixou-a assim e começou a brincar com os tipos de letra e a cor dos mesmos.

É por isso que há tanta variedade.

Blog nunca mais guardou o seu jogo de letrinhas, continuando pela eternidade a fazer combinações; como se fosse um viciado em “cubo de Rubik”.

Por isso é que não existem duas iguais.

Blog cria sempre frases diferentes. E por isso, delas podemos ouvir coisas detestáveis... ou antes pelo contrário.

A essência sua, está nessa primeira palavra.

Palavra que eu não digo aqui. É claro.

Agora é que vou mesmo!

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