terça-feira, 30 de setembro de 2003

O Anjo de Branco
Como apanhar um fetiche por enfermeiras

As enfermeiras sempre fizeram parte do meu imaginário. Desde tempos imemoriais que a enfermeira Arlete acompanha TheOldMan no Lar, fardada a rigor com a sua saia branca e o cinto-de-ligas vermelho (para quem não sabe, são ambos apenas personagens).

Conheci também há algum tempo uma enfermeira de crianças, que é uma mulher doce e simpática. Mas hoje, finalmente alguém mudou para sempre o modo como olharei as enfermeiras a partir de agora.

A recepcionista encaminhou-me para uma sala de tratamento, e retirou-se apressada como se tivesse muito que fazer. Momentos após Jennifer Saunders ou uma sua sósia, entrou vestida de enfermeira proferindo inexpressivamente - Vamos lá então tirar isso, para podermos ir todos jantar.

Não percebi bem se me estava a convidar para jantar, ou a parafrasear o Major Alvega. De qualquer modo, como costumo nutrir um certo respeito por pessoas que empunhem agulhas ou outras armas brancas, calei-me; mantendo-me sentado com a calma e compostura que me são habituais.

Aparentemente devia ter alguma afinidade com o médico que me cosera, porque mal se apoderou do meu sobrolho, comportou-se como uma mulher desesperada que há muito não visse um.

Agarrou-o firmemente apertando-o e esfregando-o com uma dedicação tal, que me conseguiu arrancar lágrimas de admiração. Após o que, empunhando uma pinça e um escalpelo de afiada lâmina, se aproximou lentamente.

Comecei a suspeitar que algo estava mal, quando puxou os pontos sem os cortar na outra extremidade. A dor que isso me provocou, fez com que visse estrelas vermelhas por todo o lado, enquanto me percorria uma avassaladora vontade de lhe arrancar o coração com as minhas próprias mãos. Felizmente, a dor durou pouco tempo.

A desinfecção do sobrolho foi eficiente e rápida. Talvez tivesse exagerado um pouco no álcool, mas não duvido que todas as bactérias que eventualmente se abrigavam em mim, terão tido uma morte horrível. Acho que ao conhecê-la, Gilles de Rais teria suspirado de paixão...

Contemplou apreciativamente o resultado, e mandou-me em paz com um impresso que entreguei na recepção.

Quando saí. Olhei fugazmente para trás, e pareceu-me ver lá ao fundo a enfermeira, que sorria...

O regresso do Herói

- Dói muito? - perguntou a assistente em tom dolorido, enquanto me passava o dedo pela costura. - Bem. - disse eu - se carregarem com um pouco de força, dói bastante.

- Não sei se aguentava ser cosida dessa maneira... - disse ela enquanto os pelos translúcidos do antebraço, se lhe eriçavam com o afluir deste pensamento - Acho que você foi muito corajoso...

Mesmo que não fosse tão boa com o Word, acho que a teria contratado na mesma...

segunda-feira, 29 de setembro de 2003

Vigília 4
- Alive and Kicking -

É agradável encarar a manhã, como se tivesse dormido; com um olhar estranhamente desperto e novo.

Esta noite pareceu muito curta, pois quase não dá para olhar para trás. Nunca me tinha apercebido, como as horas que durmo são poucas. Pelo menos hoje não as desperdicei.

Vou entrar na cabina de duche, que me transportará ao novo dia. Só tenho pena de não ter encontrado, o CD do Eric Satie.

Fundo Musical – Schubert “Impromptu D899 Nº2 in E flat”

Vigília 3
- A madrugada existe? -

Já me tinha esquecido da sensação da madrugada, da frescura da luz, da limpidez do vento.

A brisa que perpassa é quase electrónica, como um som subliminar. A claridade restitui aos objectos a sua energia, banhando-os gradualmente, enquanto o Sol se prepara para o seu trajecto.

Uma bicicleta desliza pela alameda, com a segurança solitária de quem tem o seu próprio objectivo; pilotada por um tipo de fato-macaco. Desaparecendo discretamente em direcção a Cacilhas.

Lentamente, os ruídos da cidade vão começar a aparecer... espero...

Fundo Musical – Depeche Mode “Exciter”

Vigília 2
- Morfeu está á coca -

É hora de pôr a chaleira ao lume. Fazer um chá verde decente, pode demorar quase uma hora; e não tarda é manhã.

Ao longe, fora da janela, um semáforo pisca em amarelo; automaticamente. E a imagem da lua está estreita, como uma fatia de queijo dietético. Os próprios candeeiros parecem ter sono, tremeluzindo timidamente sobre as ruas.

A minha mente, parece uma festa em que tocassem os Beastie Boys; está a tornar-se anárquica. Acho que vou guardar este EEG.

Fundo Musical – Talking Heads “Sand in The Vaseline”

Vigília 1
- Enxotando o João Pestana -

A vigília é um acto estranho. Tudo nos indica que deveríamos estar a dormir, mas por alguma razão não o estamos. O que empresta a tudo, uma componente de estranheza.

Tenho uma traça, a evolucionar sobre os meus livros ao som da música. Acendi um pau de incenso, que se esfuma numa coluna arqueada. Sombras de dragões...

Foi decretada a morte da traça, antes que me roa toda a literatura. Imaginem Miller ou Max Jacob sem um ou dois parágrafos; assim foi, ao bater do gongo.

Fundo Musical - Jean-Michel Jarre “The Concerts in China”

domingo, 28 de setembro de 2003

De Profundis
- O término das coisas -

O consolo da morte são os nossos inimigos. Dá gosto vê-los seguir em frente, rumo á próxima encarnação, para a sua nova pele de milionários ou de ratos para testes de cosméticos... E assim, quando acaba para nós já temos um certo consolo.

Mas há coisas que me custam a ver terminar. O 100nada (100vergonha, Lili...), Pluff! A Ametista está na fase do canto do cisne... e no momento em que escrevo isto, poderá estar alguém de quem eu goste a pensar em abandonar este pequeno arquipélago que é a Blogosfera.

É no mínimo desanimador.

(Num pequeno instante fui verificar alguns dos meus links, e aparentemente não há mais partidas. Nunca se sabe!)

Hoje vou ficar acordado. Para o caso de algum de vocês se querer pirar á sorrelfa...

sábado, 27 de setembro de 2003

Mudanças

Alturas há, em que é necessário que nos modifiquemos para seguir em frente.

Catarina avança neste momento, tendo deixado para trás 100nada como uma concha vazia. Concha que um dia mais tarde, alguém encontrará por mero acaso, como qualquer tesouro.

Fundo Musical – “changesbowie” – David Bowie

Meu querido diário...

É difícil não pensar em nada. Os acontecimentos sucedem-se tão súbitos, que é árduo conseguí-lo.

Leit motiv – “Wish You Where Here” – Pink Floyd

Tenho um penso num olho, Net racionada e aguardam-me experiências médicas indescritíveis. Numa delas vão espreitar os meus ritmos alfa enquanto durmo. Algo tirado da Refeição Nua, com o Dr. Benway a discutir o caso com A.J.– "Este procedimento é totalmente desnecessário! Pessoalmente julgo que não passou de mera criação artística".

Para lá da janela há fumo, como se ardesse algo; mas não me move a curiosidade.

Ouvir Pink Floyd pode transformar tudo isto numa experiência. Assim como beber chá fresco de menta. Entre estas coisas há sempre algo de interessante que acontece.

Vou fazer uma directa de 28 para 29. A natureza dos exames requer que eu não durma, acho que nessa noite vou mesmo ler todos os Blogs.

sexta-feira, 26 de setembro de 2003

A Gotinha

A Gotinha é famosa na Usenet, como traficante de binários. Tudo o que sejam piadas, fotos, demonstrações PowerPoint ou clips, é com a gotinha. Desloca diariamente uma considerável carga de ficheiros, e espantosamente tem tempo para isso tudo.

A Gotinha tem um Blog fofo que se chama BLOGotinha, fica aqui o link, para que a visitem. Mandem-lhe um beijo meu.

quinta-feira, 25 de setembro de 2003

7ª Arte
- Os malefícios da narcose cinematográfica -

Eram hoje duas da manhã quando decidi ver “The Salton Sea”. Não sei se por causa do argumento, ou porque o Val Kilmer me provoque sempre essa sensação; o certo é que adormeci. Confortávelmente recostado na cadeira e com os pés em cima da secretária.

Uma hora depois acordei no chão. Tinha rolado durante o sono, e aterrado com o sobrolho direito sobre o pavimento de mosaico espanhol. O barulho da queda foi ouvido em quase todo o prédio; o certo é que os mosaicos resistiram, mas o sobrolho não.

Enquanto esperava a intervenção do 112, olhei-me ao espelho e lembrou-me de imediato outro filme, “Belarmino” de Fernando Lopes. Talvez a associação de ideias tenha sido causada pelo belo olho roxo, que me empresta agora um ar de selvagem flibusteiro das Caraíbas... ou talvez não.

Quando chegaram os representantes da saúde pública, já eu tinha devido ao choque tido uma quebra de tensão arterial, pelo que me foram encontrar em calções cheio de suores frios e com um olho negro; parecia mesmo o Belarmino Fragoso sentado no seu canto do ringue, á espera de levar mais.

Após um monte de exames preliminares, entre eles a tomada de pulso recorrendo a um telemóvel para contar o tempo, embarcámos na ambulância. Era notória a juventude do condutor. Apesar de as ruas se encontrarem desertas, só desligou a sirene após entrarmos no recinto do hospital. Além do resto, agora doía-me também a cabeça.

Infelizmente, a nossa entrada dramática foi prejudicada pela falta de macas livres, pelo que tive que me dirigir discretamente á secretaria. Como sabia de cor todos os meus dados e números de utente e contribuinte, ficaram tão satisfeitos que me ofereceram uma cadeira de rodas para me entreter enquanto não vinha o médico.

Efectuei uma primeira volta para me familiarizar com o veículo, mas os caminhos estavam muito congestionados. Cerca de dezasseis camas com rodas, atravancavam a entrada das urgências, ocupadas na maior parte dos casos por idosos gemebundos e ligados a sacos de diversas cores e tamanhos. Foi-se a pouca animação que me restava, alguns deles pareciam mesmo estar por um fio.

Esperei pacientemente a um canto. E quando estava novamente a adormecer, um médico que era a cara chapada do Morgan Freeman, arrancou-me rapidamente a compressa enquanto proferia – Então, é para coser?

Tratava-se como devem calcular, de uma pergunta retórica; na verdade a minha opinião não era para ali chamada.

Fizeram-me deitar numa mesa duríssima, e acendendo cinco potentes focos no tecto, cobriram-me a cabeça com um pano. De imediato me vieram á memória todas as cenas antológicas de ET’s, em que estes fazem experiências sobre o humano manietado. Nessa altura fui distraído dos meus pensamentos, alguém de apoderara do meu sobrolho.

Senti-o ser apertado, raspado, esfregado e lavado. Não contentes com isto, espetaram-me a agulha da anestesia mas como estavam com pressa, começaram de imediato a coser.

Já há anos que não me cosiam nada a frio.

Normalmente, nos filmes dão qualquer coisa para o herói morder. Mas acho que os médicos do Garcia de Orta têm ido pouco ao cinema. Apesar disso ficou uma bela obra.

A enfermeira sorrindo, assegurou-me que a linha clássica das minhas sobrancelhas ficaria inalterada, mas não posso ir á praia nos próximos cinco dias.

Á saída o Apóstolo aguardava-me. – Então, havia algumas enfermeiras boas?... – ainda pensei desenterrar a velha rotina da enfermeira ninfomaníaca, mas os pontos doíam-me um pouco. – Não! Tudo estafermos. Atenciosas e tal, mas nada de jeito.

- Então e o médico, que tal era?

- Olha. Deixa-me pôr o caso desta maneira. Havias de preferir antes ter o Hannibal Lecter a fazer-te o exame á próstata.

quarta-feira, 24 de setembro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (12)
- das Mentiras Piedosas –

Na praia, cinco ou seis pessoas distribuíam-se por trezentos metros. Eu encontrava-me deitado com os olhos fechados quando, ouvi um pigarrear. Ao princípio pensei ser o meu apóstolo com as águas, mas quando abri os olhos voltei a fechá-los.

Pensei que seria melhor acordar, porque ter sonhos eróticos na praia pode ser uma má experiência se estivermos na posição errada. Mas quando abri novamente os olhos eles estavam ambos ali, a encarar-me plácidos e serenos.

Pode dar-me lume? - Perguntou uma voz, ligeiramente por cima deles. Encarei a mulher, e sem fixar o saco tirei o isqueiro que acendi debaixo do cigarro. Tentei fixar os meus olhos nos seus, constrangido pela proximidade e atendendo a que me encontrava deitado.

Senti-me tentado a focar o meu olhar mais abaixo e dizer – cuidado com a cinza – mas era um teste, e essas piadas não se dizem a balzaquianas de monoquini.

Agradeceu com um sorriso e afastou-se lentamente. O Apóstolo, chegando com duas Vitalis de meio litro, perguntou – Quem era a gaja? Tem uma bela prateleira... Deu-te conversa?

- Só queria lume. – respondi – Conversámos um pouco, e deu-me o número do telemóvel.

- Yes! Assim é que é! – congratulou-me o Apóstolo, enquanto o seu rosto se iluminava com um sorriso.

A honra dos machos de meia-idade estava salva. Louvei a Blog e pedi-lhe perdão, por esta mentira piedosa.

Que Blog me desculpe, mas a vida de crente é uma contínua provação.

terça-feira, 23 de setembro de 2003

A Carta Anónima

Gostei de ver JPP na TV a comparar o blog “Muito mentiroso” a uma carta anónima. No newsgroup da Usenet que frequento, a opinião era já unânime nesse ponto, é fácil fazer um blog anónimo.

Qualquer indivíduo a partir de um Cyber-café, pode criar uma página com vários textos de entrada retardada, e foi um ar que lhe deu... Nunca mais ninguém sabe dele.

Temos sempre (embora mais ou menos anónimos) alguma responsabilidade naquilo que escrevemos. E um blog é alguma coisa mais ou menos honesta, atendendo a que pode conter ficção.

Somos mais ou menos como edifícios de uma cidade. Enquanto alguns constróem “para ficar”, outros utilizam pré-fabricados para fins transitórios. Estadias curtas, dedicadas a objectivos estranhos.

Com resultados evidentes.

segunda-feira, 22 de setembro de 2003

Quase Outono

Hoje o Verão regressou para se despedir. Havia um acréscimo de turistas em topless, e ninguém o impediria de lá estar.

É espantoso o calmante que é, caminhar dentro das ondas centenas de metros enquanto se conversa. Mas as conversas de homens de meia idade são sempre as mesmas.

Será que estranho as minhas férias como o senhor Hulot? Acho que não estou suficientemente rodeado de acidentes para me comparar. Nada conseguiria abalar as minhas férias. Nem a deserção do Sol.

Se não fosse tão molengão era surfista, mas só tenho o espírito, e isso para as ondas não chega. Tenho que me contentar com umas braçadas. Ou pegar na toalha e ir-me embora...


domingo, 21 de setembro de 2003

Sermão Dominical (1)
- O Bar da Moda -

Noutros tempos (lá muito no passado) eu movimentava-me em grupo, ou horda como será mais apropriado dizer. Frequentávamos diversos locais indiscriminadamente, que pela nossa presença regular, adquiriam um cunho próprio que os tornava inconfundíveis.

Tarde ou cedo, como gafanhotos os betinhos faziam a sua aparição, começando igualmente a frequentar o mesmo local; onde se diziam sentir cool e perfeitamente integrados pois tinha sido feito para eles.

Era essa a hora de começar a parar por outro sítio.

Desta vez não vou entrar nessa.

Começou por se assistir a uma institucionalização do fenómeno. Logo de início alguns personagens decidiram monopolizar o fenómeno, como se o tivessem inventado, ao mais puro estilo betinho.

Começaram – como bons primatas – por medir, lamber e cheirar o fenómeno, de modo a que pudessem classificar as suas componentes e equalizar as tendências com as suas próprias. Mais tarde, ainda alguém terá a distinta lata de afirmar, que a Blogosfera é um fenómeno Português.

Agora já vamos na fase de procurar, como li em diversos sítios (não posto o link, porque não acho que valha a pena), uma utilidade para a Blogosfera. Consegui encontrar desde associações regionais até editoras de publicações escolares, que estão neste momento a tentar rentabilizar o fenómeno.

Após uma das últimas sessões de masturbação colectiva em que uma universidade, tentou manter viva á conta da Blogosfera a sua imagem de vanguardista no campo tecnológico, apareceram já diversos projectos para associações em que todos são unânimes num ponto, eles é que são os genuínos Bloggers, e portanto ligeiramente superiores aos outros que apenas escrevem, o Blog-proletariat.

Chega-me também a informação que as putas da Av. Defensores de Chaves, decidiram criar igualmente um Blog “A Pastilha de Mentol”, e que avançam já com uma data para o “Encontro Nacional de Todas as Putas que Tenham ou Queiram vir a Ter um Blog, ou Parecido”. Acho que vou a este. Pelo menos no caso da masturbação, não terei que usar o meu próprio punho...

Raios me partam se me vou levantar agora da minha cadeira, só porque um idiota enfatuado decidiu começar um discurso. A partir de agora, quando me chatearem levanto a música, ou seja, vai tudo a fio de sabre.

Não serei eu que deixarei de parar por cá.

sábado, 20 de setembro de 2003

Misticismo 2
- Mau Karma -

Apelei hoje ao meu chi (a força interior) para encetar uma jornada, que me levaria a um dos testes mais duros que se pode fazer á paciência de um pai; o campeonato de Beyblade.

Trata-se da arte ancestral do pião. Um artefacto composto por várias peças, que ilustram o caminho de Buda até ao objectivo final da Grande Serenidade.

Tal como Gautama, a minha jornada começou num terreno hostil; o Fórum Almadense.

Quando dizem que César foi apunhalado nas escadas do fórum, isso não me surpreende. Consegue-se encontrar cromos estranhos nestes locais. Talvez tivesse sido entre a C&A e a Zara. É um bom sítio.

A atmosfera espessa era enriquecida pelo cheiro a fritos que se escapava do último piso. Frente ao Toys “R” Us, dezenas de progenitores acompanhavam os seus prometedores rebentos, que discutiam entre si as características técnicas dos seus aparelhos.

No empedrado da entrada, o meu filho e um amigo executam uma última revisão aos seus piões, recapitulando os passos importantes do lançamento. Vejo que a autodisciplina que lhe incuti produziu frutos. Metodicamente, desmontam e cronometram a montagem dos seus artefactos, testando periodicamente a flexibilidade do mecanismo de lançamento.

Começou a competição! Uma imensidão de crianças de rostos inexpressivos, segue o evolucionar dos adversários comentando monocórdicamente as tácticas em uso. Soam brados de vitória; o derrotado recolhe o seu aparelho e sai cabisbaixo pela mão do pai.

Entretanto, bebi café da Delta, do Nicola e do Caffé di Roma. Apesar disso, mantinha a serenidade. Vi passar milhares de pessoas com compras, presenciei dezenas de birras; tudo sobre um fundo sonoro digno de stockhausen. Quanto disto será o bastante para matar um homem?

O meu pupilo aguentou-se até á última eliminatória, mas a sua diminuta colecção de peças não chegava para bater o arsenal de extras que ostentava o opositor. Foi eliminado com honra e não perdeu a sua face. Disse-me á saída – Não ganhei, mas fiquei a saber que sou bom.

Vinda de um meia-leca, é uma frase densa que por si só justifica um post. Tinha aprendido hoje algo sobre si próprio.

E eu reaprendi que não gosto de Centros Comerciais; dão-me mau karma...

sexta-feira, 19 de setembro de 2003

A Estação Ideal
Toccata & Fuge d-moll BWV 565/

Algo em mim se completou hoje, como o último vinco numa flor de papel. E eu não consigo definir o quê; apenas como...

O tempo hoje começou a mudar no momento exacto em que mergulhei, quando emergi o sol tinha-se ido, e com ele (iria jurar) uma boa parte dos banhistas. A Costa agora está enorme e desafogada, como devia sempre ser.

A música de Bach (ouvi em tempos dizer...) é pura expressão matemática. E eu hoje sinto-me de uma acuidade numérica e sistemática. É a disposição ideal para ler ou para apreciar arquitectura, e não para escrever.

Sinto pena em não ter perto uma catedral barroca, talvez tivesse a sorte de lá encontrar um organista em ensaios. Já me aconteceu uma vez, e gostaria de repetir.

É em dias como este que tudo acontece, e é por isso esta a minha estação ideal.

quinta-feira, 18 de setembro de 2003

X Marks the Spot!
- Ponto de Referência -

Isto é um blog a meio gás, e os 50% restantes são apenas devidos á minha teimosia em não parar. Quando estou de férias nada tenho a dizer. Tiro férias de mim e da maior parte do mundo, pelo que me distancio e fico sem palavras.

Olhava hoje em direcção á névoa causada pelo sol, quando me lembrei de há alguns anos um surfista (a real one), me ter explicado a sensação de flutuar horas se necessário, enquanto se aguarda a onda perfeita. A espera que se desenrola, numa atenção a todos os pormenores, numa avaliação de algo que vai vir.

É a sensação que tenho durante as férias. Não espero nada, mas lá estou atento ao nada que vai acontecendo lentamente.

Será que começo a aborrecer-me?


quarta-feira, 17 de setembro de 2003

Misticismo 1

Já era tempo de aparecerem pedras, como marcos no meu caminho. Hoje foi o “Flash dos Anos Sessenta”.

Ia eu passeando pela praia com o meu único Apóstolo (que ignora sê-lo), quando deparei com os viajantes do tempo. Era um grupo variado, todos eles com individualidades inquietantes.

O que parecia o pai ou chefe da família (e juro-vos em como isto é verdade), ostentava um genuíno lenço de assoar, atado pelas quatro pontas á cabeça, ao mais puro estilo Monty Python. – juro-vos que não inventaria uma coisa destas...

Ao lado do patriarca, um genuíno “palhinhas” de 5 litros jazia estacionado, com um rótulo sumido que indicava tinto.

Parei. E indiquei-os ao meu apóstolo que disse – É o revivalismo dos anos sessenta, queres apostar que têm pastéis de bacalhau num Tuperware?

Não sei, mas a construção do personagem tem demasiadas referências, está demasiado perfeito para ser real. Já viste as botas de meio cano? – o resto dos personagens, tinham igualmente pontos comuns com recordações minhas, era estranho.

Olhei a mulher que cortava um pão ás fatias, e compreendi que não eram pessoas do nosso tempo, estavam estranhamente deslocados.

Chapinhei numa onda que chegava e achei-a seca, era areia.

Acordei! Tinha adormecido ao sol.

terça-feira, 16 de setembro de 2003

Sou um místico!

É assim que o Puto Paradoxo me classifica com a sua Límpida Medida. Mas talvez eu seja apenas igual ao litro, e ver-me seja como encher um copo, e com a mesma água voltar a encher um jarro. Ser o mesmo mas sempre diferente...

Devo andar mesmo místico...

Caderno de Férias (2ª Fase)
– O Blog entorpecido -

Blog está em todas as coisas. Até no chapinhar na rebentação das ondas, enquanto se lê o jornal. No esquecer um raciocínio de meia hora, que iria culminar num post.

A escrita ás vezes ressente-se da vida calma e sem pressas. A boa vida pode ser sedativa, e adormecer os rebentos de posts que tentam brotar junto a nós.

Os dias de Setembro são mais suaves e calmos na praia. Chego cedo e olho o mar, de mãos nas ancas como o Senhor Hulot, batendo ligeiramente o pé numa desconhecida antecipação.

Começo no areal da Costa, e sigo com os pés na água esperando que a praia não acabe; ou que o sol não desça.

Blog está nas pequenas conchas que reviro com o dedo grande, e guardo num saco (para fazer um mobile); mas as suas palavras não surgem, ficando escondidas nas cascas banhadas pela espuma.

Alegremente volto a casa, e encaro a folha branca no monitor. Mas os milhares de pensamentos que tive, ficaram ao sol, e não consegui trazê-los comigo. Pertencem á praia onde os tive.

Nas férias, a minha mente esvazia-se e eu torno-me numa pessoa simples.

Num preguiçoso banhista que molha os pés, de nariz espetado no horizonte. Passeando descontraídamente como o senhor Hulot.

segunda-feira, 15 de setembro de 2003

O Post Intermitente

Estou sem net. Juro! Nunca isto me tinha acontecido. Lá se vai a minha reputação de em cinco anos nunca ter tido uma falha na ligação.

A Netcabo acarinhava-me e convidavam-me para as festas de Natal; para me poderem apresentar como o tipo, que nunca tinha tido uma falha de ligação. Até hoje...

Entretanto voltou.

Ainda por cima foi apenas por uma falha temporária, até nisto tenho azar. Por uma coisa tão insignificante, perdi o meu estatuto.

Falhou outra vez.

É sina. Terá havido alguma guerra nuclear? Será por isso que no VH1 estão a passar os Human League? Preciso duma pista.

Não vou ficar assim sem comunicação com o exterior. Ainda tenho todos os outros meios, mas não é a mesma coisa.

Será que já voltou?
Não. Foi só um ameaço...

Soft Cell? Deve ter havido um grave acidente biológico. Só pode ter sido. Tenho sempre azar com os programas de TV.

Quantas vezes é que já fiz reset ao modem? Sei lá. Umas três...

Agora fica ali a piscar estupidamente, como um semáforo desligado na noite. Vou fazer outra coisa. Já venho!

Voltou! Vou postar antes que se vá outra vez.

Afinal continuo bloqueado. Consegui carregar o meu blog mas não passou daí. Isto está a começar a ficar chato.

Não escrevo nem mais uma palavra.

domingo, 14 de setembro de 2003

Cadernos Libertários
- A influência de Proudhon na formação da Cintura Industrial de Lisboa -

Prefácio

Foi-me pedido que prefaciasse esta obra que tantas e belas recordações me desperta.
Talvez porque me minorou a solidão nos tempos em que, no secretariado da célula a única presença feminina era a companheira Valéria; que nem após duas escanhoadelas se poderia considerar levemente burguesa.

Notem que emprego aqui o termo na sua conotação erótica, entendendo-se burguesa como opulenta e rica em formas, numa suavidade e fluidez de linhas, apenas conseguidas em modelos topo de gama. Mas estou a divagar.

Como devem ter reparado, trata-se de uma obra maioritáriamente destinada a um público masculino; aliás não poderia ser de outro modo, porque está há muito provado que as mulheres anarquistas, não conseguem conservar uma casa mínimamente arrumada.

“As ideias proudhonianas, malditas e anatemizadas da frente, empurradas de viva força…” este pensamento de Saint-Beuvre sobre o autor denota uma fixação sado-masoquista, deste sobre o sexo feminino; na qual sobressai um desejo de domínio. O que não nos espanta, se relembrarmos que entre os objectos pessoais do espólio de Proudhon, se encontrava uma curiosa colecção de algemas e chicotes de várias proveniências.

É então, sobre o Proudhon de chicote e calções de cabedal tiroleses, que vos falo neste prólogo a uma obra de grande envergadura. Uma cartilha de textos avulsos e apócrifos, compilada por diversos camaradas, que aparentemente nada mais tinham de importante para fazer.

Profética é a sua famosa frase sobre estes escritos:

“Tempo virá em que filósofos ibéricos se levantarão contra este livro, mas que sabem eles das alegrias da carne, ou dos meus calções de cabedal. O verdadeiro anarquista não pactua com filósofos, sendo a filosofia a morte da acção.”

Esta frase do mestre, acompanhou toda a minha vida política, como uma ama de fartos seios e roliças nádegas de marfim. Puxou por mim nas alturas difíceis, acalmou minhas ânsias em momentos de crise.

Muitos dos textos que lerão nos próximos capítulos, não terão sido eventualmente escritos pelo mestre. Duvidamos mesmo muito que tenha afiambrado Rosa Luxemburgo, ou tenha partilhado uma pizza de anchovas com Estaline, como ficou escrito. Serão porém escritos inspirados na ideologia de Proudhon, que á semelhança do Elvis, aínda continua a ser avistado em Antibes ou no Corte Inglés de Badajoz; pelo que nos recusámos a excluí-los.

E termino este prefácio com uma frase lapidar, proferida pelo mestre, uma certa noite em Rosny Sur-Bois numa afamada casa de meninas (talvez um pouco bem bebido):

“Companheiros atentai o que digo, mais vale um bom cú, que a ditadura do proletariado!”


Almada 2003 - TheOldMan



Capítulo Primeiro
- Contribuição do camarada Euleutério Santos da Baixa da Banheira -

Lembro perfeitamente como se fosse hoje. Conheci o camarada Proudhon nos anos oitenta, trabalhávamos ambos na Lisnave, na secção de Serralharia da qual ele era mestre.

Após o almoço e no tempo que nos restava da hora e meia, íamos para Cacilhas mirar as gajas que saíam dos barcos; e aí o anarquista que estava dentro de mim, revelou-se, como uma peça feita ao torno se revela do material bruto.

No fundo sou um poeta. O Mestre bem dizia – Térinho (sou eu…) aproveita essa música que tens. És um gajo esperto mas andas sempre cheio de fominha. Põe essa imaginação a trabalhar, e vai-me bater couros a essas gajas.

E tinha razão. Sob a sua orientação comecei a treinar-me nas artes do Marteladismo Diabético, a pontos de camaradas mais velhos e experientes virem pedir conselhos.

Estávamos um dia na tasca do Malaquias que deus tem – o Malaquias era um homem bom, sensível e dedicado á sua profissão; dizia até, que sempre que entornavam um copo de vinho, era como se lhe matassem um filho – mas continuando. Estávamos a acabar uns burriés acompanhados a penálti de branco (especial), quando entrou o Anselmo da Sapataria.

O Anselmo era um corno manso, que fingia ignorar tudo o que se passava ao alcance das suas antenas. Casado com a Amélia (uma antiga Miss Fogueteiro) boazona, a única coisa que tinha a seu favor, é que ao menos também abichava qualquer coisa (ele e mais um monte de malta).

Sentou-se com um ar magoado e triste, enquanto o Malaquias lhe aviava um de três com mistura, e virando-se na nossa direcção disse:

- Mestre, a vaca da Amélia anda-me a empalitar com tudo o que é macho; até o Xiquinho da espingardaria, aquele lingrinhas, já andou por lá a afiar o lápis. Que hei-de fazer? Só me apetece é repudiá-la, fazer-lhe a mala e mandá-la para a pata que a pôs… Sempre podia depois juntar os trapos com a Alice…

Proudhon levantou a mão pedindo silêncio, e calmamente dirigiu-se a todos nós indicando o chifrudo:

– Em verdade vos digo, qualquer que repudiar a sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério. Para já, se não consegue puxar as rédeas a uma, quem lhe garante que a próxima não irá tomar o freio nos dentes? Ou outra coisa… Por isso o que tens a fazer é beber uns copos que isso passa!

E terminou chupando sonoramente um burrié. O Anselmo acabou o tinto e disse – Bem. O melhor é ir andando, que esta noite tenho que fazer o inventário da loja. Aínda se alguém a convencesse a ter calma, mas a gaja nem sequer vai á igreja…

- Vai descansado – disse o Mestre – eu depois do trabalho passo lá por casa, a ver se a levo ás boas…

Quando o infeliz saíu, virei-me para o filósofo e disse com admiração – Quer dizer, com esta conversa toda aínda vais logo lá a casa fazer-lhe crescer a armação. Saíste-me uma boa peça; até parece que tinhas tudo planeado. Que rico sistema…

Foi aí (nunca mais me esqueço) que Proudhon se virou para mim, e proferiu estas sábias palavras que sempre me hão-de acompanhar - "Ter um sistema, não tenho; repugna-me formalmente tal suposição; O sistema da humanidade só será conhecido no fim da humanidade... O que me interessa, é reconhecer-lhe o rumo e, se puder, traçá-lo."

Levantou-se sacudindo umas migalhinhas do fato-macaco, e saíu, deixando-me com a conta para pagar.


Capítulo Segundo
- Texto enviado por José Bettencourt – Hóspede do Estado em Pinheiro da Cruz -

O Proud (como nós lhe chamávamos) entrou no nosso círculo de uma maneira gira.

Estava eu com uma moca enorme, a tripar numa manif em 79; e muito á toa porque aquilo era nice á brava, os bófias todos artilhados pareciam as tropas do Império e nós os farroupilhas da Federação.

Como dizia, estava eu absorver a substância da batalha quando um choque mais maluco se atirou a mim; fui apanhado no ar, até porque tava a curtir bué da fatiota do gajo e estava distraído. Mas quando o gajo me ía afincar com o sabre laser nos cornos, saltou um matulão tipo Chewbaca por detrás de mim, e espetou-lhe com um garrafão de palhinha na viseira, que o gajo desmanchou-se todo logo alí.

Era Proudhon. Como ele disse mais tarde – “A acção directa só é vádida se tiver um objectivo definido e concreto.” – Lá definido era, foi mesmo concreto com as trombas do chui.

Corremos para uma esquina. Eu um bocado atabalhoado e com falta de ar, que a minha velha tinha-se esquecido de me meter a bomba da asma no bolso, e o gajo na maior e fresco como uma alface; com as barbas a abanar ao vento, que até parecia o Jim Morrisson.

O tipo acendeu uma ganza e passou-ma. Méne, parecia que tinha chocado com uma máquina de flippers; o universo começou-se a esticar todo, e o gajo a olhar para mim com um ar paternal, só faltava começar a cantar o “Strange Days”. Entretanto sacou-me o charro porque eu já me estava a alambazar, e puxou umas fumaças fundas, enquanto dizia meio engasgado - “Eu protesto contra a sociedade actual e eu procuro a ciência. A este duplo título eu sou socialista”- o homem era um poço…

Tinha que o apresentar á malta. Fomos a casa do Troglodita que era o meu melhor amigo, para ver se encontrávamos alguém. A mãe dele quando abriu a porta ia-se borrando toda (disse mais tarde que pensou que era o Guerra Junqueiro), mas lá nos deixou ir até ao anexo no fundo do quintal, onde era o quarto do Troglodita.

Estavam lá umas garinas e mais um gajo da UDP que eu não gramava. Um maricas com botas de camurça e casaco aos quadrados, que estava sempre a fumar cachimbo e a falar da Albânia e do camarada Enver Hoxa e da liberdade dos povos. Merdas…

Eu como na altura andava carregado, porque passava para o Bébé á consignação (fumava mais do que vendia), aproveitei para desfazer um taco para dentro do cachimbo de água. Era lindo. O Troglodita tinha-o feito com uma estatueta da mãe, um elefante de louça; acendia-se no rabo e chupava-se pela tromba, as miúdas achavam sempre imensa piada. E o que elas chupavam meu deus…

O meu novo amigo e o UDP pegaram-se logo. Eu não estava a ligar muito, porque tinha posto a tocar o “Tubular Bells” e estava de papo para o ar, com a Rita a fazer-me cócegas no estômago, ou por aí perto…

A certa altura a coisa deu para o torto. Eu não cheguei a saber bem como foi, porque nessa altura já estava a sentir uma coisa por mim acima e abaixo. Era a Rita, claro. A gaja era terrível, devia ser por causa daquele dente falhado; estar com ela, era como Hiroxima mas sem os mortos, embora me desse o sono depois.

Só sei que eles começaram a falar alto á brava, e o UDP aínda disse – Vocês anarquistas são uns merdas, não controem nada; têm é inveja da liberdade do povo albanês… - E ficou-se por alí, porque o Proud deu-lhe uma mona na cana do nariz, que o estendeu como uma panqueca (eu até já começava a entrar numa de fome, agora que me lembro).

Deixámos o outro gajo no chão, e fomos apanhar ar até á Praia da Mata na carrinha VW do Troglodita. Pelo caminho aínda demos uma mocada num contentor do lixo, mas não houve problema porque ninguém viu.

A praia estava porreira, apesar de ser Fevereiro. Mas como estava quase tudo em ácido, fomos ao banho na mesma todos nús. Andámos por alí um bocado a desatinar, e a Rita aínda quis brincar aos cavalinhos, mas o frio não ajudava nada e tivemos que ir para terra.

Quando saímos da água, é que reparámos que alguém nos tinha gamado a roupa e deixado um bilhete que dizia - “Toda a ideia nasce da acção e deve voltar à acção, sob pena de degradação pelo agente”.

Pensámos que tinha sido brincadeira da Polícia Marítima, até notarmos que faltava o sacana do barbudo.

Foi essa a última vez que vi Proudhon

(Texto gentilmente cedido a TheOldMan pelo Programa de Recuperação de Delinquentes - Pinheiro da Cruz)


Capítulo Terceiro
- Texto gentilmente cedido pela Fundação de Estudos Pessoanos -

Esta úlcera dá cabo de mim. E tudo por culpa daquele cabrão balofo do Sá-Carneiro, só me apetece encher-lhe o cú de pontapés. Mas vou começar do princípio…

Estava eu ontem sentado na Brasileira, a tentar que o Mendonça me fiasse mais uma bica e uma Macieira, quando ele entrou; ao princípio aínda pensei que era mais uma partida do Almada Negreiros (tem a mania de se mascarar), mas não era. Era mesmo Proudhon.

Eu até nem vou muito á bola com anarquistas. Normalmente têm mau vinho, e tendência para escaqueirar tudo quando a conversa não lhes agrada. Aínda me lembro daquela gaja anarquista que andei a comer, a Bernarda Lencastre; se não fosse o poema que lhe dediquei, aínda andava a seco.

Destrói meu coração,
desmonta-o peça a peça.
Aperta-me o pescoço,
E beija-me a cabeça…

E que bem que ela beijava a cabeça… infelizmente também tinha uma “esquerda” impressionante… (era pior que a Gertrude Stein) mas a perfeição não existe.

Onde é que eu ía? Ah, o gajo… entrou direitinho á minha mesa e sentou-se sem cerimónia; estar eu ali ou a minha estátua em bronze era a mesma coisa, que o tipo pelos vistos não tinha recebido educação nenhuma lá nos franco-comptois ou franco-atiradores ou lá o que era.

Mas era um estrangeiro. E como diria o Eça, “se não fossem os estrangeiros, como é que saberíamos que somos labregos?” – um pândego, este Eça – e como tal, prontifiquei-me logo para lhe mostrar Lisboa, desde que esmifrasse o cacau, é claro.

Atão pá, gosta da nossa terra? – perguntei eu a apalpar o terreno – Anda daí que vais ver o que é desassossego…

Levei-o até ao atelier do Santa Rita. Como é costume, estava a ajudar á formação de mais uma arquitecta (algumas decidiam fazer os exames em casa dele); pelo que esperámos no quiosque em frente, aproveitando para beber uma ginjinha.

Seis ginjinhas e três eduardinos depois, saíu o pintor pela porta como Almada na capa do Orfeu. Isto é, com as calças a cair. Vinha um pouco abalado mas sempre lúcido como era seu hábito. – Então? – perguntou com a sua voz nasalada – Pronto para mais uma noite na Maison de Madame Odette? Quem é aí o calmeirão com ar de anarquista demodé?

- É o Proudhon. – respondi – Chegou há pouco no eléctrico da Porcalhota…

- Tás a ler? Fernando… Ou então andas a beber muitas Macieiras. – interpelou-me ele de chofre – Esse gajo nunca existiu! É uma invenção dos futuristas. Ou então está tão morto como Deus e o Rei D. Luis. Bem. Sejas quem fores, a Madame Odette nunca desiludiu ninguém. – e virando-se para mim - Ó Pessoa, chama aí um fiacre – E foi assim que começou a nossa odisseia pela Capital do Império.

Era um tipo de poucas palavras, o anarquista. Mais tarde aproveitei a experiência para escrever sobre o assunto, sei que “O Banqueiro Anarquista” nunca venderá muito, mas não me culpem; o material base era péssimo. Além da capacidade de absorver doses industriais de licor, o tipo não demonstrava grande capacidade de comunicação.

Só quando íamos a passar por Stª Luzia e lhe perguntei se já tinha ido a uma casa destas é que lá acordou e disse – “A liberdade é anarquia, porque não admite o governo da vontade, mas apenas a autoridade da lei, quer dizer, da necessidade.” – pareceu-me um pouco confuso, mas acho que era já o eduardino a falar; e não lhe ligámos muito a partir daí.

Lá chegámos á beira do Castelo. O Santa Rita pagou ao cocheiro (que eu tenho andado teso), e saltámos para o empedrado. Estava em forma nessa noite; tirando um ligeiro catarro e um nevoeiro na vista, sentia-me um serraceno. Quase ouvia as espadeiradas e os gritos nas ameias do castelo. Mas não era nada disso. Tinham acabado de mandar um tipo porta fora, e o burburinho parecia vir daí.

Estava uma noite de truz. As Irmãs Meireles cantavam junto ao piano acompanhadas pelo António Melo, um miúdo porreiro mas pitosga como um morcego; durante o dia musicava os filmes do Lopes Ribeiro. A um canto, o badocha do Sá-Carneiro metia o nariz no decote da condessa russa, bêbado como um cacho.

O nosso acompanhante olhou em redor, e saíndo da sua letargia proferiu – “É no comando da vossa consciência que deveis procurar a garantia das vossas ideias e até a prova da vossa certeza...” – era a primeira coisa de jeito que dizia em toda a noite. Avançámos.

Atraquei-me logo a uma macaense, que isto na minha idade não se pode perder tempo. O Santa Rita começou a apalpar uma cuzuda com ar de alemã, como se fosse um melão na feira de Caneças; mas isso nele era normal. Pintores e arquitectos são do piorio. O anarquista já estava perto do Sá-carneiro, a cheirar a condessa russa e a emborcar flutes de champagne como se fosse tinto, um autêntico motor de explosão.

A oriental subiu a escada comigo atrás. Atrapalhava-se um bocado a andar, porque eu já tinha a minha mão entre as suas pernas, o que não lhe facilitava o andamento. Entrámos no quarto da renascença; cama de dossel, penico de Sévres e um bidé de esmalte em armação de ferro. Sempre gostei dos clássicos. Já no 18 de Alcântara, ficava sempre no quarto egípcio…

A rapariga despiu-se, e ficou ali deitada a sorrir para mim, enquanto eu me debatia com o nó da gravata. De pernas abertas parecia uma igreja bizantina, com duas cúpulas coroadas de rubis (é a minha costela de poeta); estava na hora de ir á missa. Lá me atirei para o leito como um Ícaro caído dos céus. O seu corpo era quente, e o sotaque estranho; por momentos senti-me Camilo Pessanha ou um qualquer imperador de Ceilão.

As suas coxas musculadas apertavam-me os rins, enquanto me fincava as unhas nos ombros e me segredava frases na língua de Confúcio. A minha bronquite é que não estava pelos ajustes, e eu só pensava “Fernando, apressa-te que perdes o vapor”. Mas lá levei o barco a bom porto. Até me ficou uma ideia para um alexandrino (mas isso foi mais tarde).

Foram os meu cinco mil reis mais bem gastos nesse ano. Foi no ano da morte de Ricardo Reis (tadinho).

Deixei-a a cavalgar o bidé, e descia eu as escadas com uma bela disposição; quando comecei a ouvir a barulheira que vinha do salão. Havia festa da grossa. Vi de repente passarem a correr as irmãs Meireles, uma delas com o decote arrancado, velozes como os cavalos de Apolo. Mal tive tempo para me desviar de uma bandeja de casquinha, que bateu na parede com um som de gongo chinês.

O Santa Rita em cima do piano, defendia-se a pontapé de dois amanuenses do Ministério da Guerra. A Madame Odette, um pouco descomposta, tentava sem êxito acertar com uma garrafa de marrasquinho no anarquista, que esbofeteava o Sá-Carneiro segurando-o pelo colarinho; enquanto a condessa russa tinha um chilique mostrando umas cuecas de seda vermelha. Até parecia o rapto das Sabinas, mas sem romanos.

Soube depois que o Sá-Carneiro tinha adormecido, e ao acordar dera com o anarquista a explorar os encantos da condessa; que até estava a gostar bastante, diga-se em abono da verdade. O tipo levou a mal. E como tinha estado em Paris, lá disse ao Proudhon qualquer coisa no dialecto de Racine que não lhe caíu muito bem. É claro que não tinha hipótese.

Nessa altura entrou o guarda nocturno, seguido de dois guardas republicanos de sabre desembainhado. Foi a debandada geral. Na confusão, um deles aínda apanhou com o banco do piano, e foi-se abaixo como um saco vazio. O anarquista aproveitando o burburinho, apoderou-se do dinheiro que estava numa gaveta do bar, e saíu pela porta das traseiras.

Eu comecei a correr e só parei no Terreiro do Paço, com falta de ar e uma lente partida. O Santa Rita, foi para o Torel na ramona com as putas, e só saíu uma semana depois, pronto para outra (como de costume).

No regresso ao meu quarto, a pé pela linha do eléctico. Olhava eu as estrelas, interrogando-me sobre o futuro de Portugal, quando o vi passar num fiacre com a barba ao vento e os óculos encavalitados no nariz.

E foi a última vez que ví Proudhon. Tudo por culpa do cabrão do Sá-Carneiro…

Fernando Pessoa
(por gentileza da Fundação de Estudos Pessoanos)


sábado, 13 de setembro de 2003

Texto Pedonal
- Ligeiro, como Alberto Caeiro -

Respiro fundo e o meu corpo reavalia-se; um pé em frente e depois o outro ad infinitum.

Sem destino é a melhor maneira de caminhar, porque vou leve. A minha atenção só se prende no importante, e não liga a sinais, nomes de rua, ou se é cedo ou tarde. O destino é um peso, e sem ele os passos avançam calmos e expontâneos.

Ponho uns óculos de sol e saio. Com eles a visão de tudo é mais fresca, e servem de janela, como quem vê a rua sem se considerar lá.

Os veículos vão deslocando o ar, que tudo banha e limpa. Mas eu já tomei banho hoje, porque viria fazê-lo aqui?

Mas como vou sem destino, também não tenho lugar para perguntas; pois teria que carregar com o peso das respostas, e isso encheria uma mochila de bom tamanho...

Por isso caminho apenas, e olho o que há para olhar e ver, como árvores, nuvens esfarrapadas de azul, mulheres; tudo coisas boas que ajudam a dieta ocular. Há que manter limpa a janela da alma.

Mas terei eu alma?

Isso é mais outra interrogação a que não ligo. E continuo o meu caminho, por estas ruas banhadas de perguntas, neste oceano de interrogações que é a cidade. Um mundo de incógnitas, é o que é...

Sinto-me leve e livre. É nestas alturas, que noto os pássaros que vivem nas árvores da avenida, e as coisas pequenas, insectos, folhas arrastadas pelo vento.

Terminou o circuito pedonal, e encaro a minha casa que está em frente, ali. Se não estivesse ali, não seria a minha casa mas de outrém; e isso não interessaria para nada.

Entro, e sorrateiramente vou á janela... Mas não.

Já não é a mesma cidade onde caminhei.

O Elogio da Preguiça
- Let’s party! -

Ontem não houve blog. Foi o meu modo de viajar no tempo.
Ás vezes é necessário um certo distanciamento, para voltarmos a apreciar as coisas.

Por isso hoje blogo. Não sei ainda bem o quê, mas faço tenções disso.

Entrei hoje de férias, e sinto que blogarei descontraídamente lá para a noitinha. Tenho que gozar o meu segundo período livre e calmamente.

quinta-feira, 11 de setembro de 2003

(?) Haiku

Tira o teu vestido
e olha para mim...
assim.

(I'm big in Japan!)

Sede

A imagem do Sol
é uma taça de fogo.

E o meu oceano
uma lágrima...

quarta-feira, 10 de setembro de 2003

O Cantinho do Gourmet
- “Vatel, comme le sel...” -

Foi divulgado hoje o novo vídeo de Osama Bin Laden, intitulado “Em Busca da Ranhoca Perfeita”.

Vídeo este, em que o famoso conaisseur percorre todo o Afeganistão em busca das famosas caracoletas de casca listada, secundado pelo seu fiel ajudante que vai pelo caminho colhendo orégão.

Pelo menos foi o que me pareceu na reportagem passada pela SIC Notícias...

Um dia antes do aniversário da queda do World Trade Center, tudo serve para “criar boca” como dizem os brasileiros. Desde os filmes sobre os passeios de Osama no campo, até (oh, horror...) ás gravações de karaoke de Sadam Hussein.

Vamos amanhã (aposto o que quiserem) ver mais uma vez aquele tipo que se atira do 37º andar, ou as reacções da população estupefacta por se ter atacado um país; que está ele próprio habituado a ser o agressor.

As vítimas do atentado morreram em vão, porque nem a sua morte poder legitimar aquilo em que a América se tornou.

Ou como diria Ezra Pound – A nação é um manicómio...

terça-feira, 9 de setembro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (10)
- Suave Milagre (ou pelo menos, não muito áspero) -

Eu conheço aquele velho. E se digo velho em comparação comigo, estarei a datá-lo na formação dos continentes ou pelo menos no período carbonífero, a avaliar pela tez.

Pronto, é velho e eu conheço-o.

Está todos os dias entre a paragem de autocarro e a cafetaria, emboscando os incautos que saem do transporte; estendendo-lhes uma mão artrítica, que ao longe me faz lembrar um pouco Freddy Kruger.

Não o evito nem o procuro, temos apenas órbitas diferentes. Quando ocasionalmente estas se aproximam, esmifro uma moeda sem protestos; e ele agradecendo com um murmúrio digno, retoma impassível a sua trajectória.

Após alguns anos acabou por se integrar no cenário circundante, de modo que a sua presença é tão natural como um candeeiro ou um carro abandonado. É assim que acabamos por ignorar os outros...

Ia eu hoje a caminho do pequeno almoço e organizando mentalmente o meu dia, quando alguém me tocou no cotovelo, declaradamente para me despertar a atenção.

Era ele. Plantado no meio do caminho, chupando a dentadura como a um rebuçado.

Extraí uma moeda do bolso traseiro das calças, estendendo-lha distraidamente num gesto habitual. Ele aceitou-a, agradecendo enquanto se afastava

– Obrigado. E que Blog o ajude...

... Não! De certeza que foi impressão minha!

domingo, 7 de setembro de 2003

O Eterno Retorno

Serve este título pomposo, apenas para certificar que a serigaita do prédio ao lado voltou de férias.

Traz um bronzeado que só visto.

Vamos ver se o descanso lhe fez bem...

Despertar

Acordei curado da gripe como de um sonho incómodo.
Fui á varanda, e a brisa passou pelos meus ouvidos, tentando dizer algo.
O sol piscou-me o olho e fez um leve aceno.
É impossível ignorar todas estas mensagens.

Vou sair!

sábado, 6 de setembro de 2003

2004
- Fábula -

Foi decretado o Ano da Abundância. O Grande Cherne apareceu em todos os canais, informando que para se poder estender a abundância aos nossos irmãos improdutivos, terá que se reduzir o ordenado mínimo; felizmente, irão aumentar a ração diária de Xanax. O mundo está em paz.

A imprensa livre, noticiou a novidade em grandes manchetes. O próprio Independente comparou o Grande Cherne ao Dalai Lama, desde Cavaco que não se via algo assim.

Os cidadãos percorrem as ruas com a felicidade estampada nos rostos, acompanhados pelas objectivas articuladas das câmaras do Ministério Paulino; que trata de tudo o que diz respeito á felicidade do eleitor comum.

A nova era começou na Universidade do Minho, durante o 1º Encontro Nacional de WebLoggers. O local tinha ao momento uma densidade esmagadora de inteligência por metro quadrado, quando a sala foi invadida por três pelotões de Anjos da Paz, que se dispuseram estrategicamente impedindo qualquer saída.

Descobri há uns dias numa busca exaustiva aos arquivos, que o próprio Pacheco Pereira nunca existiu. Apenas restamos eu e o Pipi. Eu, porque não fui ao encontro, e ele porque ficou acidentalmente trancado no W.C. das senhoras, com uma empregada do "catering".

Tive que pintar o cabelo e bronzear-me um pouco para que não me reconhecessem. Só assim consegui arranjar emprego no Tal & Qual, o órgão informativo do governo.

O Pipi anda a monte. Todos os dias na "Hora do Desprezo" da Teresa Guilherme, milhares de mulheres se viram para o televisor declamando a litania do costume - "Maldito impotente palavroso, gabarola e aldrabão; inimigo do estado e do Grande Cherne, o nosso desprezo cai sobre ti, Pipi!" - após o que se inicia a visualização diária da 6ª edição do Big Brother.

Felizmente apenas meia dúzia de pessoas me conheciam; a maioria desapareceu sem deixar rasto, tendo sido apagadas todas as provas da sua existência.

Ontem á noite, Manuela Ferreira Leite comunicou ao país que se criou a nova Brigada de Distribuição de Riqueza. A partir de agora poderão entrar em casa de qualquer um, a qualquer hora; e vasculhar os colchões e outros esconderijos, em busca de dinheiro guardado ilegalmente.

Soube que depois de ter fugido e mudado de nome, me passaram uma busca ao apartamento, tendo encontrado alguns trocos perdidos debaixo das almofadas do sofá do escritório. Ter-me-iam feito jeito... Mas por causa delas, sou agora procurado por mais um crime. A juntar ao da sedição, instigação ao derrube do Estado, uso ilegítimo de comunicações e publicar um Blog com fundo azulado.

Como o server está sediado em terras dos nossos inimigos americanos, não me podem apagar a página, embora consigam ás vezes evitar que estabeleça a ligação.

Por hoje já vai esta crónica muito adiantada. A bateria do portátil está a esgotar-se, e o meu reumático começa a protestar, por eu estar empoleirado neste poste telefónico.

Adeus companheiros (se ainda existirem alguns...), e Vive la Resistance.

PS: Pipi se passares por Almada, diz á minha mulher que não vou jantar. Ela não lê Blogs

sexta-feira, 5 de setembro de 2003

O Eterno Masculino

Um homem é forte, física e espiritualmente. Monarca absoluto da biosfera, é o organismo com mais potencial evolutivo; cuja espécie em expansão molda o mundo em seu redor.

O homem como espécie engloba também a mulher. Mas no que toca a particularidades, estão em pólos opostos, pelo que se completam.

Sim!

Eu lamento-me da gripe. Ela faz-me cházinho e dá-me mimos.

Uauuu!
- Breve momento publicitário -

Fui considerado "IN" pelo Blogo Esfera. Isto não me acontecia desde 82, quando me confundiram com o Phil Collins dos Genesis (já tinha umas "entradas" na altura).

Na verdade trata-se de uma compilação bastante cuidada, com uma enorme quantidade de Blogs em português; que me servirá de referência futuramente em busca de novas leituras.

Atchim!!!

Quem chamou? - Pergunta o anãozinho...

quinta-feira, 4 de setembro de 2003

Paranóias! (2)
- O Vírus Mutagénico -

Há cerca de cinco dias começaram a aparecer no meu filtro de correio, mensagens de desconhecidos que além de compartilharem a sua composição tinham descrições praticamente iguais. Era óbvio que se tratava de um vírus, e que mais um adolescente frustrado tentava abrir caminho em direcção á fama (e ao prisional duche colectivo). Por isso examinei-as bem, após o que as fui apagando no server á medida que apareciam. Aparentemente, era um caso como os outros.

Ao consultar as fontes do costume no que diz respeito a fornecimento de bots, spyders, troianos e viroses, tropecei a dada altura num ficheiro em Assembler que era descrito como um intruso metamórfico; que além de se replicar evolutivamente, era codificado por um motor de 1024 bits. E esse sacaninha destruidor estava ali á mão de qualquer um, por isso decidi copiá-lo apenas por curiosidade.

A minha vantagem neste campo em relação ao comum mortal, é que por ter começado a meter o nariz nestes assuntos desde a criação do Altair e do PC-XT, já apanhei com quase tudo desde o Ping-Pong ao Darth Vader, passando pelo Anti-Aznar (por acaso até curtia o nome...).

Á medida que ia bisbilhotando a minha surpresa aumentou. Quem escrevera aquelas linhas de código devia ter estudado biologia; pois o modo como a "infecção" alastrava pelo sistema, era nitidamente decalcada de um retrovirus, tendo inclusivamente alguns segmentos do código fonte que eu não cheguei a compreender. Mas não me preocupei muito, pois não era propriamente a minha especialidade.

E então começaram a acontecer coisas estranhas; a primeira foi a morte do meu cacto Maguey. Um belo exemplar de Agave mexicano, que estava destinado á produção experimental de Mescal (com fins puramente científicos e medicinais). Secou em dois dias levando com ele os vermes "Gusano de Oro", que iriam dar ao néctar um sabor particular.

No dia seguinte, acordei com uma impressão áspera na garganta. Atribuí isso á mudança de tempo, e ao hábito que certas mulheres têm de nos destapar durante a noite; era gripe pela certa. Tinha até uma característica dor de cabeça, localizada na têmpora direita. Tratei o caso a cházinho e mel.

O vaso do cacto, encontrava-se quase vazio á excepção de um punhado de terra arenosa. Parti do princípio que teria sido objecto da brigada de higiene doméstica (sou casado), e dirigi-me ao emprego como todos os dias. Estava um tempo encoberto, o mais certo era vir a piorar da gripe.

Durante a manhã a dor de cabeça manteve-se, persistente e irritante como um operador de tele-marketing. O trabalho também não estava a ajudar nada, tratando-se principalmente de análise de valores; o ideal para enxaquecas e afins.

Descansei um pouco á hora de almoço, vendo um pouco de TV enquanto comia (nunca saio das instalações durante o dia), mas não serviu de nada relaxar. A dor persistia tendo alastrado á vista, pelo que sentia agora uma impressão ao fundo das órbitas. O programa também não ajudava, porque a gravação era má e a imagem além de pixelizar constantemente; passava de vez em quando números aleatórios pelo ecrã.

Estava a beber café a meio da tarde quando senti uma tontura, como se a tensão arterial me tivesse baixado. Ouvi nitidamente um trinado vindo da fotocopiadora, estava com falta de toner e começava entrar em modo poupança. Quando me sentei á secretária, pressenti que a UPS não se encontrava a funcionar bem, e era verdade; a luz de sinalização indicava by-pass. Estava a operar com a tensão da rede geral.

Sentia-me fisicamente exaurido, como se a gripe me estivesse a roubar as últimas forças. Tentei chamar um táxi, para GOSUB casa mas RUNTIME ERROR. Estava demasiado DATA OVERFLOW e comecei a DIVIDE BY ZERO BREAK não sei se 10101010101111010100010101010001001001010010101001...........


quarta-feira, 3 de setembro de 2003

A igreja do Imaculado Blog (9)
- Quem pode, manda! -

Após numerosas instâncias por parte da concorrência, para que a nossa religião se tornasse um pouco mais repressiva, de modo a acompanhar a tradição judaico-cristã; Blog brindou-nos finalmente, com duas pranchas de contraplacado cheias de rabiscos. Pranchas estas, que partirei na fronha do primeiro pecador que me venha com pedidos de alteração.

Além de terem custado quatro horas de trabalho de marceneiro, são a causa de me encontrar temporariamente incapacitado de meter o dedo no nariz.

Ora aqui vão os dez mandamentos de Blog. Por isso "listen carefully, I shall say it only once..."

PRIMEIRO MANDAMENTO

"Amarás a Blog de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento". – "Não terás outro além Dele".

Isto é importante porque como é sabido, quem muitos burros toca... Para quem queira ser poliBloguista, além da obrigatoriedade da sobretaxa para a indulgência, comprometer-se-á a actualizar ambos por igual.


SEGUNDO MANDAMENTO

"Não pronunciarás em vão o Nome de Blog".

Convenhamos que andar por aí a dizer "valha-me Blog" a torto e a direito, parecerá bastante idiota. Principalmente, porque devido á Fé não estar muito difundida, a maior parte das pessoas ainda desconhece o significado deste vocábulo.


TERCEIRO MANDAMENTO

"Lembra-te do dia Santo para actualizá-lo".

Como todos os dias são dias de Blog, isto é auto-explicativo.


QUARTO MANDAMENTO

"Honra teus textos e ideias".

Quer isto evitar situações em que algum pecador se decida a re-escrever história. Por exemplo, depois de fazer afirmações sobre a garantia de uma vitória do Sporting por três "secos", ir no outro dia apagar o post; ou pior, alterá-lo dizendo que sempre foi do FCP e que é filho ilegítimo do Pinto da Costa.


QUINTO MANDAMENTO

"Não matarás".

É simples! Em seguimento ao mandamento anterior, nunca apagar o seu Blog. Mesmo após a nossa morte, todos os Blogs alguma vez escritos deverão continuar a vogar pelo ciberespaço, divulgando a sua mensagem; tal como aquelas sondas que os americanos mandam para o espaço cheias de publicidade enganosa.


SEXTO MANDAMENTO

"Não cometerás adultério". –"Não cometer actos impuros".

Sob circunstância alguma abandonar o seu Bolg em prol de outro, apenas porque tem um melhor template, ou porque se actualiza mais docilmente.

A segunda alínea, como é óbvio refere-se a nunca colaborar em Blogs de bestas (que algumas haverão), sob pena de ser tornar igualmente uma.


SÉTIMO MANDAMENTO

"Não roubarás".

Não copiar de Blogs alheios, por melhor que seja o material; embora em certos casos se possa fazer citações, desde que devidamente assinaladas como tal.
(Este é um dos pecados com mais saída...)


OITAVO MANDAMENTO

"Não prestarás falso testemunho contra teu próximo".

Esta aplica-se como é de calcular aos mentirosos, que não querendo dar a cara ou assumir o que dizem, criam um Blog apenas para semear a confusão no Caso Casa Pia. (Assim que os julgamentos cheguem ao fim, este mandamento será revogado, porque todas as outras mentiras são consideradas "criatividade")


NONO MANDAMENTO

"Não cobiçarás o Blog do teu próximo".

Casos há de Blogs com nomes tão idênticos, que se vê de caras tratar-se de falta de imaginação (ou inveja)


DÉCIMO MANDAMENTO

"Não cobiçarás coisa alguma que pertença ao teu próximo".

É muito feio irem dizer mal do Pipi, só porque gostariam de ter a "clientela" que ele tem. Cada um tem o que tem, e no caso dele, neste momento parece-me que anda com falta de imaginação (possivelmente o sexo não faz parte da sua realidade, pelo que a fonte está a secar.)

E com isto me despeço, irmãos. Só me restando dizer - Blog, ora pro nobis...


terça-feira, 2 de setembro de 2003

Sonhos Lípidos

Não sei se foi por ter visto o DivX do "Identity" antes de ir dormir, ou por ter vislumbrado algo na TV, quando fui á sala acordar a minha esposa para se deitar (sei que parece um contra-senso, mas lá em casa há quem se deite apenas e após acordar no sofá).

Deve ter sido da TV. Pois quando acordei dentro do sonho, via tudo a cores e em 16:9.

Mas estava metido num grande problema. O meu colesterol (255) após invadir todo o sistema circulatório, tinha sofrido uma mutação que me fazia aumentar de tamanho cada vez que comia uma sandes de presunto. Uma espécie de Hulk, mas em amarelo e com menos cabelo.

O representante da CIA em Portugal (que acumulava a função com a de solista no Coro de Santo Amaro de Oeiras), tinha decidido raptar-me para me fazer uma lipoaspiração, e usar o produto extraído como arma secreta para fortalecer os Marines em serviço no Iraque.

Infelizmente a operação tinha corrido mal. O cirurgião tinha tido uma cólica intestinal que o afastara cerca de dez minutos. Quando voltou, a máquina além de todas as gorduras e outros fluídos que não posso aqui nomear, tinha-me drenado igualmente toda a massa encefálica que ficara diluída no produto final.

Fecharam-me numa quinta com outros lunáticos. Ás vezes ouvíamos vozes que nos ordenavam que fizéssemos coisas, se nos negássemos passávamos fome ou desligavam-nos a água a meio do banho.

De um momento para o outro, começaram a desaparecer misteriosamente os meus companheiros de infortúnio. Um dia um, outro dia outro... Até que fiquei só!

Na última noite, vesti as minhas melhores roupas para o jantar. Na TV a CNN relatava que os novos Marines Mutantes (Marinantes), que tinham sido obtidos a partir de um soro secreto se haviam revoltado.

Tinham sido detectados no soro, indícios de matéria encefálica que os tinha contaminado com ideias minhas. Depuseram as armas, e iniciaram em Bagdad uma farra que durara duas semanas; com stripers, Jack Daniel’s e outras substâncias não identificadas. O Departamento da Defesa dos USA, mandou evacuar todos os civis Americanos.

No fim do jantar, ouvi uma voz do alto que me disse – Está na hora! Dirija-se á porta vermelha.

Saí. Cá fora, aguardava-me uma multidão ululante. Fui festejado e acarinhado, enquanto enormes projectores me ofuscavam; não me dando grandes hipóteses de visão.

- Dêem as boas vindas ao vencedor da quarta edição do Big Brother!!!!....

Acordei alagado em suor.

Acho que vou tomar os comprimidos....

segunda-feira, 1 de setembro de 2003

Paranoias!
- O arrepio mariquinhas -

Normalmente sou aquele tipo que tira da sua própria carne com um canivete, espinhos e farpas de madeira que lá se espetem. Mesmo a outros já tirei limalhas metálicas de olhos; e cheguei mesmo a fazer um pequeno trabalho de costura, numa ocasião em que se tornou necessário.

Toda esta introdução serve, não para me armar em macho, mas para ilustrar algo que não sentia á muito... - "O" arrepio.

Hoje á tarde na minha busca de música, parei inadvertidamente no canal hipocondríaco (25) e... estavam a coser um seio. Um seio bonito, mas no qual estavam a efectuar uma sutura em cruz.

Todos os meus pelos (e ainda são uns quantos) se eriçaram imediatamente, a ponto de o monitor crepitar com o acréscimo de electricidade estática. Forcei-me a olhar novamente, mas o arrepio não desapareceu.

Fui de imediato á Net espiar alguns sites, que normalmente só uso para impressionar as visitas ou os gabarolas (Rotten, Snuff Pictures, etc.) mas nada. Afinal não estava a amolecer.

Trata-se de algo específico...

Tenho que ponderar melhor isto.

A Propósito de Amarelo
- Pequena canção idiota -

A vida é bela, a vida é bela,
e amarela....

E dentro dela, e dentro dela,
há uma janela...

E á janela, e á janela,
uma rapariga...

E a rapariga, e a rapariga,
num barco à vela...

A vida é bela, a vida é bela,
e amarela....

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