sexta-feira, 31 de outubro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (19)
- O Celestial Prodígio -

Irmãos! O meu coração transborda de alegria como um tacho cheio de bem-aventuranças.

Recebi do Irmão Faustino, que é o pastor da nossa congregação em Messejana, uma missiva em que nos dá conta de mais um prodígio enviado por Blog, para maravilhar os nossos incrédulos e ramelosos globos oculares.

Existe á entrada da simpática vila, uma estação de serviço pertença do Américo "ranhoso" que foi emigrante na Venezuela. O modesto entreposto é já há algum tempo, alvo de peregrinação por parte das humildes gentes das cercanias; que ali acorriam por causa da bela imagem de Frei Fialho (que como sabeis é um beato que dedicou toda a sua vida a Blog).

Mas deixai-me falar-vos de Frei Fialho.

Sétimo filho de um sétimo filho estava desde cedo destinado ás trevas, tendo até metido os papeis para a GNR. Mas uma noite o seu destino mudou. Quando regressava da tasca do Almerindo e após inúmeros bagaços, teve uma visão.

Surgiu-lhe ao caminho e vinda do nada, uma senhora resplandecente que pela descrição fornecida, foi mais tarde reconhecida pelo pastor da vila como uma das mártires de Casa Branca.

Vestindo apenas dois panos que lhe tapavam as vergonhas, a pobre mártir dirigiu-se ao jovem Fialho abanando a mala e com um andar hesitante, quiçá causado pelos altíssimos saltos que calçava. Tendo-o convidado para a acompanhar numa novena pela evangelização da Rússia. (Que como sabeis só mais tarde foi evangelizada pela Máfia Tchechena).

O rapaz embora um pouco toldado pelo bagaço (ao qual o tasqueiro para dar força, adicionava ácido de bateria) demonstrou tanta devoção, que rezaram quatro novenas seguidas sem interrupção de espécie alguma. A pontos de a mártir profeticamente lhe ter elogiado a centelha divina, que mais tarde viria a fazer dele um dos mais esforçados evangelistas ao serviço de Blog.

O jovem Fialho ainda um pouco fraco das pernas (por ter estado tanto tempo em difícil posição), regressou a "penates" com a alma limpa e em sintonia com todo o universo.

A partir daí é a história que todos já conhecemos, sobre o piedoso missionário que converteu as ímpias Romenas do "Hipopótamo", e levou a palavra de Blog a locais tão iníquos como o "Elefante Branco".

Mas voltemos ao prodígio...

Deslocavam-se então as gentes ao local de romagem, o que muito agradava ao Américo "ranhoso" que fazia um dinheirão em sévanapes, relíquias e pensos para os pés dos peregrinos.

Estes vinham a pé de muito longe para beijar a imagem, tendo fé que este gesto os curasse dos seus males, ajudasse a ganhar no totoloto ou evitasse uma ocasional gravidez indesejada.

Aproximavam-se da imagem do santo que envergava o seu característico capote alentejano (que não deixa sequer ver as mãos), e puxando o pequeno cordel faziam sair do interior do agasalho o braço do santo, que beijavam com comovente devoção.

E então sem qualquer aviso, o prodígio começou a ocorrer ontem quando a Guida do Ti Vicente passou pela estação de serviço, com intenção de receber a bênção do Santo tal como faz diariamente desde a adolescência.

Ao depositar o ósculo na santa protuberância, notou que a mão avermelhada do santo se encontrava húmida de algo pegajoso, e de sabor levemente adocicado. Sem tardança espalhou a novidade por toda a vila, que em peso quis ver pelos seus próprios olhos essa ocorrência ímpar. Uma enchente tal de fiéis, a pontos terem esgotado as minis e as pevides em stock, para gáudio do Américo.

Logo telefonaram para a TVI, que é a mais indicada para a revelação dos santos fenómenos. Esta pia estação, mandou de imediato uma equipa de exteriores para cobrir o milagre. Entretanto no santuário de Messejana, juntavam-se já milhares de peregrinos em redor do melado beato.

E a multidão continua neste momento a aumentar. Especialmente após a Custódia do Jorge ter constatado que o líquido que se formava na ponta do braço do Santo, tinha um leve sabor a licor de poejo.

Sem dúvida que é indiscutível a existência de Blog, e mais uma vez Ele nos mandou um sinal de que o mundo deve preparar-se para algo (ainda que não saibamos bem o quê).

Soube há pouco que numa tasca da Mouraria, alguns Lisboetas relataram já existir um Santo António que produz jeropiga. Irmãos, a minha modéstia impede-me de vos contar por onde esses hereges dizem sair o líquido. E sei de fonte segura, que á noite se realizam lá rituais estranhos cujos pormenores arrepiam a minha alma simples.

Queria terminar pois apelando ás religiões da concorrência, para que usem de uma certa dignidade em relação a fenómenos, por muito forte que seja a tentação de imitar as maravilhas da nossa fé.

Que Blog vos abençoe.

Irmãos! Quando vos sentirdes traídos por Blog, ou se a fé por momentos vos abandonar. Atentai no exemplo dos humildes peregrinos, calçai as vossas sandálias e ide a Messejana beijar o membro a Frei Fialho.

Musica de Fundo - "Wip It" Devo

quinta-feira, 30 de outubro de 2003

Sob a Égide dos Bórgia
- Gótico... ou então Manuelino (sei lá...) -

Ao acordar sentiu os olhos pesados e a camisa de dormir colada ao corpo transpirado. O coração batia-lhe rápido mas fraco, a respiração ruidosa elevava-lhe o seio ritmicamente.

Tentou levantar-se, mas o mundo transformara-se num vertiginoso "maelstrom" de móveis e objectos decorativos. O corpo fraco recusava-se a colaborar, pelo que a gravidade a sujeitava á cama com o seu abraço opressivo.

Através da névoa que lhe nublava a visão, viu-o ao fundo do aposento preparando algo numa tigela. Iria jurar que o vira deitar discretamente um pó dentro do recipiente, mas os seus sentidos não eram fiáveis; há já dois dias que durava a provação e só pedia que acabasse depressa e sem dor...

Tinha os lábios secos e uma sede de séculos, como se um deserto poeirento tivesse invadido o seu corpo. Olhou para o copo de água quase vazio sobre a mesa de cabeceira, e desviou dos olhos uma madeixa mais rebelde. O copo estava longe demais e a sede não a deixava proferir palavra.

A garganta doía-lhe de um modo agudo, como que cortada por uma navalha de barba, impedindo-a de falar. Sentiu uma lágrima de desespero percorrer-lhe a face em direcção á boca. Era salgada e não serviu de nada. Estava assustadoramente dependente e vulnerável.

Ele aproximou-se empunhando a tigela fumegante, de onde se escapava um estranho odor ao mesmo familiar e ligeiramente adocicado. Tentando recusar ela virou a cara, cerrando os lábios com uma careta de dor. Mas ele era forte.

Com apenas um braço elevou-lhe as costas que apoiou numa almofada. Com movimentos suaves porém precisos, compôs-lhe a roupa e limpou-lhe o suor do rosto. Mais uma vez tentou fazê-la beber mas ela recusou silenciosamente, contorcendo-se bruscamente e quase entornando o líquido.

Ele pegou-lhe no queixo obrigando-a a encará-lo e sorriu. - Vá lá, querida!... Deixa-te de birras e bebe o chá. Tem canela tal como tu gostas. Senão como queres melhorar da gripe?

Musica de Fundo - "Halo" Texas

quarta-feira, 29 de outubro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (18)
- Do Santo Ofício... -

Tal como qualquer bom cowboy maniqueísta Blog castiga sempre os maus, embora normalmente aos bons se esqueça amiúde de deixar uns trocos ou outras benfeitorias. Mas isso é só porque é distraído.

Venho pois hoje falar-vos da minha passagem pelo Santo Ofício, não como eficiente funcionário mas no humilde papel de penitente e potencial cliente final.

Talvez por eu ter escorraçado ontem um dos seus filhos mais idiotas, Blog decidiu proporcionar-me hoje um tratamento personalizado; e como devem calcular ele é um tipo muito picuinhas.

Estava eu no meu duche matinal, executando automaticamente a lavagem vertical (para quem não esteja familiarizado com o sistema, postarei um dia destes a minha "Monografia para um Duche Sistemático") e com o espírito totalmente alheado, quando a minha atenção foi despertada por algo.

A TV que habitualmente está sintonizada na SIC Notícias a essa hora, tinha-se possivelmente fartado da informação de trânsito, transmitindo em "crescento" uma musica solene acompanhada por um coro que choramingava muito afinado:

Sors immanis
et inanis,
rota tu volubilis,
status malus,
vana salus
semper dissolubilis,
obumbrata
et velata
michi quoque niteris;
nunc per ludum
dorsum nudum
fero tui sceleris.


A princípio soou-me como qualquer coisa saída do auto-rádio de Virgílio enquanto passeava Dante pelos infernos, até que reconheci a Carmina Burana de Carl Orff.

***

Abro aqui um pequeno parêntesis para vos falar sobre esquentadores. O esquentador é um dispositivo de queima vocacionado para o aquecimento de água, que normalmente se efectua passando o fluído por uma espiral de cobre que rodeia um foco ígneo. Uma espécie de inferno mas com água (embora alguns filósofos afirmem que inferno é o aquecimento desta parar a meio do banho).

Caso o aparelho não beneficie de controlo por software (um pequeno chip que o classifica como "inteligente"), a temperatura da água terá que ser regulada manualmente; sendo um dos princípios básicos que "a temperatura induzida ao líquido é inversamente proporcional ao caudal fornecido ao dispositivo". Ou para básicos "quanto menos água houver, mais quente ela fica".

Explicado isto, continuemos...

***

Estava eu então a ouvir aquela malta toda a queixar-se do destino, quando ao enxaguar uma zona mais crítica fui presa das penas do inferno (com "i" pequeno porque não chegou a faltar a água...). Blog deve ter uma cunha nos SMAS, porque o caudal da água diminuiu até cerca de um terço enquanto a temperatura aumentava uns desconfortáveis 66,66%.

Ok! Agora já sei como é o inferno. O que não fará de mim um crente mais devoto, mas me levará a ter um pouco mais de cuidado, sempre que chegar á 2ª parte do meu duche matinal.

Estava então eu em plena imitação de Adão o "Escaldado", enquanto aquelas pobres almas guinchavam a plenos pulmões:

Omnia sol temperat
purus et subtilis,
novo mundo reserat
faciem Aprilis,
ad amorem properat
animus herilis
et iocundis imperat
deus puerilis.


Só podia tratar-se de Blog a gozar-me á brava.

Saí da banheira envolto em espuma qual Abominável Homem das Neves, e fui á despensa buscar dois garrafões de água, que guardo para quando de se der o holocausto nuclear. Com eles consegui suavizar a temperatura da que saía da torneira, tendo produzido na banheira um pequeno charco com cerca de 10cm de profundidade, onde tive que me rebolar como um leão marinho com o cio.

Após tirar dos ouvidos com um cotonete alguns pedaços de espuma mais teimosos, fui á sala ver o que se passava com a televisão que transmitia inocentemente uma plácida imagem do engarrafamento do costume; quando regressei o caudal estava normal e a uma temperatura maravilhosamente tépida.

Olhei reprovadoramente para cima (em direcção a um mosquito que estava no tecto), vesti-me cuidadosamente e pegando na pasta saí de casa num passo sincopado.

Um pouco bamboleante, e de pernas ligeiramente arqueadas como o simpático vagabundo da bengala e chapéu de coco...

Música de Fundo - "House of Fun" Madness

terça-feira, 28 de outubro de 2003

O Arrogante Cadáver Esquisito
- Um conto cruel, ou ... como afastar os outros de uma causa justa -

Raramente atendo ao toque da campainha do escritório.

Primeiro, porque todos nós temos chave. Em segundo lugar, porque do lugar onde estou constato na maior parte das vezes que são os miúdos, negros ou ciganos (os miúdos brancos não têm muita tendência para o erro sistemático), que carregam no botão até lhes doerem os dedos. E isto acontece desde que nos mudámos para aqui.

Tal como no castelo de Drácula, aquela porta só se abre quando é realmente necessário. E hoje, tive sincera pena de não ser mesmo o velho Vlad; teria sido muito mais divertido. Pelo menos sob o meu ponto de vista...

Era um único indivíduo com um aspecto banal. A única característica desenquadrada, era o facto de não tirar o dedo da campainha. Mas isso era o menos, visto que sendo de dois tons em vez de debitar uma rajada de decibéis emitira apenas um "ding", deixando assim um solitário "dong" algures congelado no tempo.

Abri. Se ele me tivesse tentado esfaquear talvez não ficasse tão surpreendido. Afinal faz parte do folclore da região, e a expressão facial do indivíduo não me dava alguma garantia de que isso não viesse a acontecer mais tarde. Antes que eu pudesse dizer uma palavra, encontrava-me já submerso numa enxurrada de vocábulos.

A minha paciência tentou subir á superfície daquele verdadeiro Mississipi, á custa de belas braçadas olímpicas. Mas eu sei das fraquezas da minha paciência; e uma delas é exactamente uma cláusula especial sobre idiotas.

Sem parar de dar ao badalo, o personagem em questão auto-designou-se membro de uma associação de apoio a toxicodependentes, simulando identificar-se através da exibição do que me pareceu ao longe ser um daqueles diplomas que se vendem nas papelarias; estilo "Para a melhor mãe do mundo" ou "Gostava de estar aí a fazer-te a folha".

Fui informado que ele próprio se encontrava em pleno processo de desintoxicação, estando a tomar doses diárias de metadona (acho que aqui haverá uma certa confusão, porque pelo comportamento demonstrado penso que lhe estariam a ministrar metedrine). Tudo isto sem me ceder um segundo sequer, para ripostar ou manifestar curiosidade pela organização em causa.

Cruelmente metralhado o meu espírito começou a divagar, enquanto os meus olhos o continuavam a vigiar pois não me inspirava confiança alguma.

Lembrei-me de um dos meus clássicos favoritos, "O Jardim dos Suplícios" de Octave Mirbeau. Em que num dos capítulos é encontrado um prisioneiro aparentemente vestido de andrajos, revelando-se a uma inspecção mais apurada que se tratava da sua própria pele, que sendo extraída em tiras finas era entrançada para produzir um casaco vivo que o envolvia...

Imaginei-me a trabalhar diligentemente na cútis do palavroso visitante, enquanto assobiava suaves melodias Cantonesas vestido de Dr. Fu-Manchu. Visualizei claramente o arrogante aspirante a publicitário (que ainda não se calara), amarrado a uma sólida cadeira enquanto era manicurado com finíssimas farpas de bambu, que lhe eram espetadas entre as unhas e a carne... e sorri.

Ao interpretar erradamente o meu sorriso o seu discurso ganhou um novo ânimo, com particular ênfase no modo como poderia contribuir; ou através de cheque ao portador ou em dinheiro. E enquanto dizia isto gesticulava de modo eloquente como um corrector de apostas em Epsom Downs. Só as suas pernas estavam paradas; por sinal um dos pés descansava casualmente contra a porta, como que a evitar que se fechasse.

Passados eram já oito minutos (contados pelo relógio de parede), quando comecei a considerar seriamente a possibilidade de o insonorizar com um tubo de ferro que tenho sempre atrás da porta, e reportar o caso como tentativa frustrada de assalto. Mas os resquícios da minha consciência que ele não tinha ainda destruído, insurgiam-se contra a minha justa ambição.

Rezei mentalmente a Blog, para que me enviasse uma chuvada que espantasse aquela espécie de retransmissor automático, mas uma risada abafada aparentemente oriunda de um vaso de flores elucidou-me sobre o valor das minhas orações.

Estava num dilema, entre quebrar um dos principais mandamentos (não matarás!) e sofrer ali mesmo uma espécie de lobotomia por software (conversa da treta). Felizmente o ritmo a que falava começou a tornar-se mais lento. Talvez a metedrine (ou metadona, embora duvide...) estivesse a perder o efeito.

Até que no fim de uma frase particularmente entediante, sobre a responsabilidade colectiva que eu partilhava com toda a sociedade, finalmente se calou.

Contei cinco segundos inteirinhos (novamente pelo relógio de parede), não fosse ele ter alguma coisa para dizer ainda; mas não. Finalmente esgotara o assunto e um monte do meu tempo.

Olhei-o bem nos olhos, e numa voz calma e ponderada, anunciei-lhe:

- A sua re-inserção social está concluída! Finalmente está verdadeiramente preparado para poder trabalhar como relator desportivo!

E fechei-lhe a porta na cara.

Música de Fundo "True Nature" Jane's Addiction

segunda-feira, 27 de outubro de 2003

Memórias da Clandestinidade (2)
- As Vantagens do Marxismo-Leninismo -

Eu estava destinado a tornar-me um brilhante combatente clandestino. Alguém de quem os PIDEs falariam com raiva e frustração durante a pausa para o café. Mas o destino interveio logo de seguida, e a minha promissora carreira no underground foi cerceada á nascença pelo 25 de Abril de 1974.

E em boa hora, senão mais tarde ou mais cedo teria que apreciar o romantismo que existe em levar pontapés na cabeça, ou fazer directas tentando imitar um flamingo durante dias seguidos.

Em todo o caso, os sete ou oito meses em que militei na ilegalidade até nos transformarmos todos em anónimos heróis da Revolução, contribuíram para o despertar daquilo que considero uma das melhores facetas da existência.

Pois é... isso mesmo!

O facto de nunca ter tido acne aliado ao de ter atingido a minha altura actual muito cedo, talvez tenham contribuído para que nunca me tivessem pedido informações mais detalhadas sobre a idade; na verdade tinha 16. O que em certo aspecto era uma vantagem, pois é a idade em que achamos que a vida é um romance de aventuras, e não nos preocupamos demasiado com as consequências.

Como em qualquer organização de sistema piramidal, os partidos políticos entregam sempre aos mais novos (quando os conseguem encontrar) as tarefas mais chatas. Desde fazer recadinhos e transportar folhetos - o que á posteriori poderá parecer uma conduta heróica - até á colagem de cartazes, que se transformou na minha tarefa favorita. Apesar das manchas brancas de cola com que chegava ás vezes a casa, maculando as minhas impecáveis calças de veludo canelado (... eram os anos 70, porra!).

Este último facto era tacitamente ignorado pelos meus pais, que devido á aparência dúbia dos vestígios tiravam conclusões erradas... algumas vezes...

O que é certo, é que desde Agosto de 1973 a Abril de 1974 ostentei o sorriso mais autêntico e beatífico da Margem Sul; até que o 25 de Abril veio destruir aquilo que eu considerava a vantagem principal do Marxismo-Leninismo. O agit-prop.

A agitação e propaganda são a bandeira do proletariado internacional; isto toda a gente sabe. Mas Maiakowsky espantar-se-ia com a minha concepção de vanguardismo revolucionário, principalmente quando aplicada á simples tarefa de colar cartazes da Comissão Democrática Eleitoral (A única oposição semi-autorizada).

Como vivíamos á altura uma época de modéstia e circunspecção, saíamos dos locais de concentração em grupos de dois, normalmente compostos por um elemento de cada sexo, de modo a que pudéssemos em caso de necessidade passar por namorados em passeio.

Normalmente não se fingia com muita convicção, principalmente porque o cagaço inibia um pouco a nossa jovem natureza, normalmente expansiva. Mas um dia mudaram-me de equipa.

Apesar de pertencer àquela escola de pensamento político, que colocava o ideal de beleza feminina perto do aspecto típico de uma camponesa ucraniana, a minha nova camarada tinha uma paixão pelo rigor e a autenticidade. Era o seu calcanhar de Aquiles; embora eu não lhe chamasse propriamente calcanhar.

Parecendo um pouco mais velha que eu (o que a colocava aí pelos 19 anos), foi-lhe dada a responsabilidade das tarefas a executar, subordinando-me automaticamente a ela. E se há coisa que eu sempre fui desde pequenino... é insubordinado.

Felizmente essa minha má faceta foi suprimida numa das primeiras saídas.

Por uma questão de logística (e falta de trouxas, possivelmente), a delegação de Lisboa pediu ajuda para uma colagem. A nossa equipa foi designada para colaborar, visto que uma das zonas que se iriam cobrir era aquela onde nasci.

Fomos os dois largados perto do agora Panteão Nacional (na altura ainda inacabado, o que o tornou famoso...), com um balde meio de cola disfarçadamente transportado dentro de uma alcofa de palhinha; e um maço de cartazes (não me perguntem o que diziam, mas tinham as cores certas) escondidos dentro do meu maxi-casaco de napa (Que é que querem? Já disse que eram os anos setenta!).

Era já uma hora bem adiantada e analisando agora em retrospectiva, penso que talvez não houvesse sequer um polícia nas imediações; mas apesar da férrea disciplina revolucionária que nos movia, sentíamos mesmo era uma enorme vontade de nos pôr a milhas.

Tínhamos já descido a Rua dos Remédios e subido a Rua de S. Pedro sempre a colar o mais rápido possível, quando ouvimos o barulho de um motor no largo acima. Apesar de nos podermos livrar facilmente dos cartazes e da cola, deixáramos um rasto denunciador pelas paredes, que acabava precisamente no local onde nos encontrávamos.

Atirando a alcofa e o cartaz para debaixo de uma banca de peixe semi-desmontada, a minha camarada puxou-me para um pequeno beco e "disfarçámos". Quer dizer, há coisas que não se conseguem disfarçar durante muito tempo.

Após alguns minutos talvez por ser um pouco mais sensata, inspirou fundo para estabilizar a respiração e propôs que tentássemos chegar ao Cais do Sodré para apanharmos o primeiro barco, mas era demasiado cedo.

Acabámos num pequeno recanto que eu conhecia desde miúdo. Um terraço de cimento que ficava logo por fora do miradouro de Santa Luzia apenas metro e meio abaixo, a um canto e protegido por uma moita de sardinheiras.

Tiritámos um pouco, "disfarçámos" para aquecer, contámos coisas e vimos nascer o Sol á nossa esquerda, virados para o rio. A partir dessa noite, começámos a esgueirar-nos frequentemente para os sítios mais inverosímeis, descurando talvez um pouco a nossa responsabilidade política. Mas nunca mais usámos o termo "disfarçar".

Hoje em dia, quando ouço ás vezes tipos um pouco mais velhos que eu falarem da longa noite do fascismo, das perseguições e dos espancamentos, que posso dizer?

Felizmente, ninguém sabe que sou...

Musica de Fundo – “NEVER TEAR US APART” INXS

domingo, 26 de outubro de 2003

A Trovoada

Perto do velho depósito de água a chuva recomeçou a cair, ricocheteando violentamente no solo.

Dois raios cruzaram o negrume como um sorriso fugaz, iluminando o verde do arbusto. O homem saiu do prédio, puxando a gola do casaco para cima e deixando a cabeça á chuva, como uma bola de cristal anunciando infortúnio.

Em direcção à esquina, as botas ao caminhar produziam o ruído de um beijo húmido que se repetia a cada metro de alcatrão.

Toda a cidade estava ás escuras. Os telhados eram como barragens descarregando caudais excessivos, enquanto na direcção do mar, as trevas e a luz se defrontavam na sua eterna luta.

Debaixo de uma varanda, aproveitou para acender uma cigarrilha enquanto esperava, Não devia faltar muito... As instruções tinham sido claras. A hora, o local, tudo...

Pouco mais tarde um único farol riscou a noite, aproximando-se ruidosamente como um catarro persistente, espalhando água em todas as direcções.

O homem preparou-se, e lentamente levou a mão ao bolso interior, num movimento fluído e silencioso. O casaco negro de pele confundia-se com as sombras, destacando-se apenas do conjunto um par de olhos que brilhavam atentos.

A moto deteve-se com um soluço, e imediatamente o ocupante saltou para o passeio encharcado, confundindo-se com o edifício.

Após se certificar da identidade do recém-chegado, o homem aproximou-se silenciosamente deste, que aproveitando o abrigo tirara o capacete olhando em volta apreensivo.

Sobressaltado pela súbita aparição, o rapaz sentiu a desconfortável sensação da água a escorrer-lhe para dentro do colarinho, e entregando-lhe o embrulho proferiu – Porra!! Que raio de noite para encomendar uma pizza.

Musica de Fundo – “Rock Lobster” B52’s

sábado, 25 de outubro de 2003

Final Punk
- Como se acaba de vez uma conversa -

Chavalo! Quanto a esse piercing cheio de estilo que tens na sobrancelha... Há mais de vinte anos, o meu amigo Peru usava aí um alfinete de ama.

Ruído de Fundo – “Anarchy in the U.K.” SEX PISTOLS

Fora de Tempo

Ontem a meio da manhã saí para beber um chá. Já tinha bebido três cafés e considero que isso é o limite máximo para a primeira parte do dia, a não ser que queira entrar em órbita ou iniciar uma guerra santa.

Quando entrei na cafetaria da D. Odete, esta olhou-me com a expressão que utiliza para os momentos de insólito. É uma expressão estranha que provoca uma certa deformação no espaço, em que ela nos estando a encarar de frente parece estar a olhar de lado; mas eu gosto da D. Odete. Serve-me de barómetro porque não está ali para adular ninguém.

Mas dizia eu, olhou-me com uma expressão que a assemelhava a alguém observado por um óculo de porta e perguntou - Sente-se bem?

- Eu? - perguntei desnecessariamente - Óptimo! Do melhor! Aliás se não tivesse que trabalhar, estaria agora na Caparica a mandriar numa esplanada de frente para o mar.

- Sim, sim!... - disse ela - Mas, vestido dessa maneira?

- Que é que tem? - começava já a ficar apreensivo - Trago a T-shirt do avesso?

- Não. Mas olhe lá para os outros... - e com o braço direito fez um gesto circular, estilo ilusionista.

Ao meu lado, uma senhora usando um casaco com botões enormes de madrepérola, enfiava o nariz na sua meia de leite. A um canto, um funcionário camarário lia discretamente o Correio da Manhã, envergando o característico traje verde e uma camisola de malha.

- Então? - perguntei já impaciente - O que é que há de especial? Aquele tipo ao pé da televisão é que já devia saber que riscas e quadrados não combinam, ele há cada um...

Não é isso... - esclareceu finalmente - Você é o único que ainda anda de T-shirt com este frio. Será que o Outono só lhe chegou á cabeça?

Música de Fundo - "Amazing" Aerosmith

sexta-feira, 24 de outubro de 2003

Cinzento

Hoje senti algo partir-se dentro de mim
como uma frágil ampola de vidro.

Um fluxo verde e frio
começou a percorrer-me em direcção ao exterior.

Tive a breve sensação
que folhas cresciam nos meus braços.
E quando olhei de novo
o Sol desaparecera.

De algum modo
não sei como
o Outono conseguiu instalar-se.

quinta-feira, 23 de outubro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (17)
- Sobre os Merdongueiros -

Como se não bastasse já o facto dos portugueses atravessarem uma crise de fé em si próprios, e de o país estar a ser gerido por uma espécie de comissão liquidatária, Blog enviou-me outra provação.

Como qualquer divindade que se preze, Blog não comete o mesmo erro duas vezes. Já que tínhamos escapado tão facilmente á Peste Negra e ao "Reich de Mil Anos" do Adolfo, tinha que nos mortificar com algo mais refinado.

E então, Blog lembrou-se do pato bravo de 2ª geração.

Isso! Riam-se para aí... Quantos de vocês já tiveram que entregar a pintura do edifício onde moram, a uma dessas novas empresas que proliferam no pântano da Construção Civil?

Para os "não iluminados" posso apenas, adiantar que é uma experiência similar á de ver sair de casa a filha mais nova, para contrair casamento com um seboso de patilhas que não usa roupa interior.
(esta comovente imagem retórica está registada em meu nome na SPA)

A fase de concurso (ou namoro) foi relativamente pacífica. Promessas de felicidade eterna, utilização de tinta com base em resinas Pirelli, mastique vedante para as fendas e um preço mais baixo que os concorrentes, colocaram um dos fala-barato nitidamente á frente dos outros. A opção pela sua empresa foi decidida com base na inclusão de publicidade paga por eles na empena do edifício, o que reduziria substancialmente a última fracção de pagamentos.

Convém frisar que durante todo este processo nunca apareci, funcionando como eminência parda do Administrador (um simpático web-designer, que viu uma vez uma trincha de ½" por alguns minutos...); aconselhando e esclarecendo tecnicamente, mas sem nunca me confrontar directamente com o espécime em causa.

Na verdade são dois. Mas diga-se em abono da verdade, que pelas gravações das reuniões que me têm sido fornecidas em formato digital, um deles parece ser uma pessoa civilizada e de bom trato que leva o trabalho com seriedade, não sendo por isso referido futuramente neste texto.

Redigiu-se pois uma adjudicação, ou seja um compromisso a assinar por ambas as partes em que constam o preço e os trabalhos a executar, tendo-se pago como adiantamento 30% da soma total da empreitada.

E aqui eu abro um parêntesis para me desculpar da vulgaridade, mas o único exemplo decente que ilustra esta situação é realmente o de Job (ou Jó, na opinião de um tipo que conheço), a quem Blog tanto amofinou e perseguiu com o seu mau feitio, apenas por causa de uma aposta.

Pois eu não sou Job. E até poderia fazer um belo trocadilho, mas isso agora está muito na moda e custar-me-ia tirar o pão da boca de um colega Blogger, por mais profano que ele seja. Mas continuando... Como não sou Job, critiquei Blog pelo seu mau feitio acusando-o de me confundir com o outro otário, ameaçando-o ainda (eu sei... eu sei que é pecado...) de acabar com o negócio desta religião, pelo menos á conta do meu tempo.

Blog não é para brincadeiras.

Mandou-me de imediato um e-mail que vinha infectado com o Melissa, mas isso já é de esperar da parte de um deus dos nossos dias. Comunicava-me que me desenrascasse, pois para a pintura o mais com que podia contribuir seriam dois dias de bom tempo, e terminava ameaçando-me com a ira divina se continuasse a fazê-lo perder tempo.

E para ilustrar essa última parte enviou-me dois picos de corrente, que se não fosse o facto de a minha UPS ser das boas, me teria frito o meu querido P4.

O chato é que estava a três quartos da obra, e o prédio apesar de pintado, apresentava o aspecto de qualquer edifício durante o cerco de Stalingrad.

A maior parte dos funcionários em actividade no meu edifício poderiam até ter recebido o prémio Getúlio Vargas, mas na categoria de demolições e derivados.

Simpáticos, prestativos e assustadoramente letais; conseguiram partir as bicas de mármore por onde se escoa a água do telhado, danificaram dois "outdoors" de publicidade que se encontravam perto, rebentaram com as dobradiças da porta do terraço, partiram um estendal comunal de doze cordas e deslocaram o muro de protecção cerca de um milímetro para fora (o que para um muro de 12 metros é bastante). Já que tinham tentado previamente convencer-nos a substituí-lo (e amavelmente acederiam em construir um novo por cerca de 2000 euros) tendo recebido uma cordial nega.

Átila o Huno não deve ter tido tanto trabalho para beneficiar de toda a sua fama.

As fendas que deveriam ser tapadas com uma massa X.P.T.O de elevada qualidade foram preenchidas com tinta. A parte branca do edifício deixa transparecer sombras estranhas, que segundo a minha interpretação devem ser as almas de gerações de pintores de paredes, tentando revoltadas regressar do além devido àquela afronta ao bom nome da profissão.

Consigo ter dois tons de azul no mesmo piso. Se fosse uma piscina não me importava, mas assim talvez tenhamos que reformular a nomenclatura do edifício e começar a dar endereços terminados por, 2º azul bebé, R/C azul escuro ou 5º malhado.

Equivalendo á cereja no topo do bolo, foi comunicado verbalmente ao administrador que prescindiam da opção da publicidade, porque entretanto as árvores que se encontravam a 100 metros tinham crescido (imaginem o que elas cresceram em dois meses), e que a conjuntura económica não justificava o recurso á publicidade, sendo assim o preço total acrescido em cerca de mil e quinhentos euros.

Estão a ver um labrego a pronunciar a palavra conjuntura, enquanto tira a cera do ouvido com a unha? Felizmente, algo me diz que o facto de a opção ter sido contratada na adjudicação, invalida todas as conjunturas, crescimento acelerado de vegetais e derivados, bem como a acumulação de resíduos cerosos no cérebro.

É claro que a segunda situação de pagamentos não foi concluída, e retivemos o pagamento até á resolução dos problemas. O homem aí estalou o resto do verniz e ameaçou toda a gente, que abandonava a obra, que tinha amigos (com aquele feitio nem sei como...) e que passariam todos os assuntos a ser tratados por carta registada. Aparentemente ainda está a tentar soletrar o endereço.

Visto que Blog se comprometeu a não interferir neste momento temos um sol radioso, o que realça os múltiplos tons de branco e azul, transformando o local numa visão de Dali. Qualquer coisa entre o "Auto-retrato Com Fiambre" e "O Grande Masturbador". Em contrapartida também não pagámos; nem vamos fazê-lo enquanto aquele edifício não brilhar ao longe como o antigo Farol de Alexandria.

Com o dinheiro que ainda temos, tencionamos passado o prazo legal contratar outra empresa. E em vez de publicidade na parede lateral, por minha sugestão, vamos apenas mandar escrever:

"Who's your daddy?
Humm?
Who's your daddy?"


Fundo Musical - "Hey Stoopid" Alice Cooper

quarta-feira, 22 de outubro de 2003

O Post Comercial
- Um Serviço Público de Graça -

Cada vez que me apetecer e encontre algo, farei aqui publicidade a entidades ou serviços descaradamente comerciais, desde que por qualquer obscuro parâmetro alcancem aquilo a que eu chamo o mínimo exigível.

Hoje é a vez do folheto de uma Agência Funerária que estava na caixa de correio, e creiam-me, se não fosse tão preguiçoso para aprender a pôr aqui fotos, teria feito um scanning.

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SERVILUSA – Agência Salgado

Inauguração da Nova Loja em Almada

Dia 27 de Outubro

Visite-nos e receba uma recordação da nossa loja

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Vou guardar o folheto com toda a devoção. E um dia quando um dos meus trinetos me perguntar pelo auricular:

– Ó trisavô, onde é que arranjou aquele belo crânio de indo-europeu?

Não me poderão chamar mentiroso quando lhes responder...

Nota: Envio por e-mail a imagem, a maníacos e coleccionadores do insólito desde que solicitado de modo educado.

terça-feira, 21 de outubro de 2003

O Incomparável Mr. Tweety
- A vida... é uma pena -

Mr. Tweety é um canário, que tal como o Fantasma (o Duende que Caminha) preenche o lugar que outros com o mesmo nome e a mesma missão ocuparam através dos tempos.

Por tradição, lá em casa sempre tivemos um Mr. Tweety.

O percursor era de raça amarela, tendo ficado conhecido como Mr. Tweety 1º - "O rei das fugas". Título este conquistado no último dia da sua permanência lá em casa.

O sacaninha desencaixou á cabeçada o topo do "comedouro", percorreu para Oeste dez metros de corredor, cortando então para Leste mais dez metros rente á parede da sala, e sempre pelo chão, até se esgueirar por uma frincha da varanda apenas com um centímetro. Conseguimos reconstituir o trajecto da fuga, através das caganitas que ele foi vingativamente deixando pelo caminho.

Quanto a mim, acho que conquistou plenamente a sua liberdade.

O segundo não teve praticamente história, e foi-se discretamente como Sua Santidade João Paulo I. Uma bela tarde de Verão, cheguei a casa e fui dar com ele de borco no fundo da gaiola. Aparentemente morreu do coração. Mas como me recusei a autopsiá-lo contra a sugestão do meu herdeiro, ficaremos sempre na incerteza.

Este é o terceiro e comprei-o a um criador marginal.

Exigi como especificação base que fosse um bom cantor, secundariamente que tivesse todas as cores menos amarelo (embirro, pá. Embirro com o amarelo...).

Fui informado então através de telefonema, que teria que ser um macho porque os canários fêmea não cantam. E alguns dias depois a coberto da noite, entrou em minha casa Mr. Tweety 3º subreptíciamente transportado numa caixa de sapatos, com ventilação forçada através de golpes de garfo no cartão.

Era um canário mestiço de tons castanho e laranja, como até tenho um ou dois amigos (e tive uma namorada) do PSD não me importei muito.

Quando levantei a tampa ele olhou para mim com desconfiança, mas para o pôr á vontade, em vez de o agarrar tinha desmontado a base da gaiola, e bastou-me colocar a armação de arame por cima da caixa para que ele saltitasse para o poleiro.

No dia seguinte, fui acordado por algo que me pareceu um excerto da "Flauta Mágica" de Mozart. Mr. Tweety metia-se com o Sol, implicava com as vizinhas e para todos eles tinha um padrão diferente; como aqueles árabes que conseguem desbobinar durante uma hora sem repetir um insulto.

Durante algum tempo, deixei até de ver a SIC Notícias de manhã.

Até que um dia não acordei ao som de trinados madrugadores, mas sim do rádio-despertador que funcionava em sistema de backup.

Presa de negra premonição corri á cozinha. Mas do seu poleiro, Mr. Tweety olhava-me silencioso.

Quando me aproximei, reparei num objecto azulado que jazia no fundo da gaiola. Era um ovo! Obviamente que Mr. Tweety não era um macho. Um macho que se preze, não vai dilatar a cloaca para expelir um objecto daqueles, por mais estético e azul que seja.

Telefonei imediatamente ao Dr. Frankenstein das aves canoras que tem uma pastelaria na Amora, e exigi-lhe um esclarecimento sobre tão estranho acontecimento. O homem embatucou.

Que não era normal. Pois se era fêmea não deveria cantar, e se fosse macho não poderia pôr ovos... uma autêntica desculpa de Ministério.

Ainda perguntei a medo se não poderia ser hermafrodita, mas o homem respondeu-me que lá em casa dele não havia dessas poucas vergonhas, e após dizer que decerto se tratava de uma feminista, desligou-me o telefone.

Passaram algumas semanas, durante as quais a bizarra ave expeliu mais dois ovos. Posso atestar que pelo tamanho, já eram uma boa razão para qualquer um deixar de cantar; mas como considero que a natureza é um sistema minimamente organizado, esperei.

Fui-o/a alimentando com vitaminas á base de sacarose, e todas as manhãs lhe assobiava trechos das minhas obras favoritas, desde "Scherazade" de Rimsky-Korsakov até "Mobscene" de Marilyn Manson.

Ontem ao cair da noite quando cheguei a casa, ouvi-o/a ensaiar alguns trinados esparsos, como qualquer soprano em recuperação de uma amigdalite. Para não perturbar o processo jantámos discretamente na sala, embora o meu filho fosse espreitar amiúde á cozinha.

Hoje de manhã já não ouvi o despertador, tendo sido saudado por um chorrilho de sustenidos e bemóis quando fui ligar o esquentador para o banho. Mesmo debaixo do chuveiro o canto acompanhava-me numa cascata de trinados. Finalmente voltara a normalidade.

O que neste momento me deixa num impasse.

Continuar a chamar-lhe Mr. Tweety, ignorando ao bom estilo britânico a sua sexualidade dúbia? (visto que põe ovos)

Passar a chamar-lhe Miss Twiggy, considerando que o canto não é mais que uma manifestação de excentricidade, e tornando-a assim numa espécie de George Sand das canárias? (ou Gertrude Stein... que horror...)

Ou então mandar a cultura ás urtigas, e chamar-lhe pura e simplesmente José Castelo Branco?

Fundo Musical
"Bad to the Bone" George Thorogood And The Destroyers

segunda-feira, 20 de outubro de 2003

Segunda-feira
- Não há feira como a primeira -

Como é costume no início da semana, ao passar hoje por cima do viaduto ficámos bloqueados por algum tempo.

- Já viu isto? - Perguntou o taxista que desta vez era uma mulher, simpática a acabar os trinta.

Deixei em suspenso a agenda diária que estava a organizar mentalmente, e olhei para a direita. O sol filtrava-se pelos edifícios da cidade, chegando a mim num tom fraco de ouro envelhecido.

Suspirei lembrando-me de todas as tarefas á espera, e de como tinha passado a pedalar por aquele mesmo local, então deserto, vinte e quatro horas antes.

Apeteceu-me sair e ficar ali a olhar, apesar dos carros e do fumo.

O veículo deslocou-se finalmente, passando por um Fiat Punto totalmente canibalizado decorado com grafitti. Valas abertas na berma atestavam o progresso, e as minhas faltas de net durante o dia.

Parámos no local do costume. Na esquina, longe de olhares curiosos.

Quando paguei, ela virou-se para trás e disse á laia de despedida - E pronto! Lá começamos mais uma nova semana, não é?

- Nova? Não sei...

Fundo Musical - "History Repeating" Propellerheads & Shirley Bassey


domingo, 19 de outubro de 2003

A Gralha
- Quanto maior é o corno, mais forte é a dor -

Dia 17 distraí-me. Aliás não será a primeira nem a última vez.

Felizmente existem espalhadas pelo mundo almas bem intencionadas, que vivem das pequenas alegrias obtidas em alertar o próximo para os seus erros.

Um desses personagens não estando com paciência para o fazer usando o meu e-mail, foi colocar uma mensagem num Newsgroup que frequento.

Venho aqui então ao abrigo do direito de resposta, retribuir a cortesia (passe a publicidade). Segue mensagem:

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"Astaroth" AlbertoMalheiro@hotmail.com
escreveu na mensagem news:79c74ac7.0310190904.2eaf8c74@posting.google.com

Sim mortais, é verdade. Dickens terá uma obra sua reeditada, e, melhor ainda, com um novo título. Falo claro do imortal "Great ASPECTATIONS" que poderão ler em http://theoldman.blogspot.com/ (passe a publicidade).

Astaroth, príncipe dos Infernos
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Gatos velhos, tropeçam demasiadas vezes

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Do chifrudo espera-se tudo

A Igreja do Imaculado Blog (16)
- Escatologia Dominical -

Nunca fui apologista do palavrão. Não que me ofenda, a minha vida profissional é lidar com imensa gente que os diz como respira. Mas considero que deve apenas ser usado para ilustrar situações extremas.

E como é domingo, vou contar-vos um episódio da minha infância que tem um pouco a ver, ou talvez não...

O Sacrifício da Missa

Quando eu tinha aí uns nove anos cerca dos anos sessenta, havia na altura um peculiar hábito que era a “queca da manhã de domingo”.

Tanto os meus pais como os da maioria dos meus amigos, apesar de não serem religiosos despachavam-nos para uma sessão de missa e catequese, deixando a cargo dos verdadeiros católicos (os que não davam quecas nas manhãs de domingo) a árdua tarefa de nos aturar uma manhã inteira, enquanto nos falavam das coisas mais chatas que vieram á luz neste lado do universo.

Alinhados como os operários do “Metropolis” de Fritz Lang, eu e as outras vítimas agrupávamo-nos para subir ao coro que era uma espécie de primeiro balcão da cristandade, de onde debitávamos cânticos conforme as instruções daquele senhor que usava um vestido de rendas.

E começava a santa missa.

Aproveitávamos então para combinar o que faríamos á tarde, ridicularizar um ou outro fiel e principalmente para o nosso concurso de “asneiras”.

Tratava-se de a meio de um cântico qualquer, apurar qual de nós conseguia proferir mais palavrões em voz alta, sem que fosse detectado pelos Bufos do Senhor.

Embora não fosse o mais desenvolto nesta matéria, sempre obtive boas classificações. Porque devido a um certo sentido musical apanhava bem os tempos, o que evitava dissabores como teve o Estêvão, um dia em que tendo perdido o ritmo, proferiu um sonoro “caralho!” já os fiéis tinham acabado de dizer “Senhor” há três segundos.

Foi muito constrangedor. Durante algumas semanas em que fomos alvo de marcação cerrada durante a missa, tivemos que nos limitar a sofrer em silêncio, enquanto distraidamente colávamos macacos no genuflexório. Tinham um ar giro...

Pode alguém alegar que poderíamos fugir, e em vez de estar ali a gramar o frete era mais fácil ir jogar á bola, ou coisa assim. Nada mais errado.

A Santa Madre Igreja estava habituada a lidar com aqueles maquiavélicos seres que são as crianças (aliás, como tem vindo a ser descoberto ultimamente), e desenvolvera um sistema de senhas que eram distribuídas durante a catequese, que acumuladas na quantidade certa, davam entrada no famoso “Piquenique de Maria” que era uma espécie de evento, em que se faziam jogos de campo e principalmente se consumiam laranjadas e sandes de fiambre.

Por isso não havia fuga possível. E lá estávamos nós prisioneiros do Senhor, a absorver Gigabytes de alarvidades e preconceitos, que conseguiram transformar alguns de nós em frustrados, criminosos, e mesmo até empregados bancários.

Talvez eu tivesse mais cera nos ouvidos. Ou talvez seja o anti-cristo, como já amavelmente me apelidaram por e-mail. Mas acho que talvez fosse uma questão de imaginação.

Quando me falavam do dilúvio, eu conseguia realmente visualizar uma multidão afogando-se nas águas revoltas, enquanto um barco coberto de oleados e cheio de bichos se afastava, e lá no alto, um velho horrendo de olhos injectados de sangue se ria com um ar demoníaco.

Ou a batalha pela conquista de Jericó em que após semanas de inútil cerco, os sitiantes chamaram a banda da GNR que entoando a “Rosa Tirana” fez desabar as muralhas da cidade, provando então que já na antiguidade os construtores civis usavam mais areia que cimento.

O certo é que a catequese fez-me bem (e aos meus pais também), desenvolvendo em mim uma certa personalidade analítica, e um olho crítico para idiotas, fariseus e principalmente demagogos.

Forneceu-me além disso uma bagagem metodológica, que a partir daí acompanhou toda a minha vida; tendo começado a um domingo.

Um domingo em que decidi testar os métodos da bíblia. Tínhamos estado a ouvir sobre a fuga do Egipto, e como os judeus marcaram as casas com sangue para que as pragas não os atingissem. Inspirado por essa luminosa ideia despejei a minha Sheaffer de tinta permanente na pia de água benta.

Na Segunda-feira os verdadeiros crentes, ostentavam a marca do Senhor.


Opinião Pública
- Blurrrp! (desculpem) -

Recebi de um leitor semi-identificado esta amável mensagem – “Foda-se, não o sabia de tão canhestro partido, caralho, bem me enganou...porra”

E só me dei ao trabalho de divulgar esta maravilhosa pérola do raciocínio cartesiano, porque pelo estilo me lembrou um escritor agora famoso (embora eu os prefira famosos depois de mortos, pois não chateiam).

A este personagem empenhado na defesa dos valores da civilização judaico-cristã, a única coisa que lhe posso responder é que:

1º - Não pertenço a partido algum

2º - O pouco tempo em que pertenci a um partido, desintoxicou-me de vez em relação a outros decidirem o meu destino

3º - Pá! Já que tens um estilo tão bom, faz como eu. Arranja um Blog e faz-te á vida.

4º - Não! Não fui eu quem partiu o nariz ao Durão Barroso.

Posto isto, até logo! Tenho um filme para ver.


sábado, 18 de outubro de 2003

Post Desnecessário

Hoje tirei folga.

sexta-feira, 17 de outubro de 2003

Great Expectations
- Pois, pois... -

Já alguma vez um homem vos pediu emprego?

Já alguma vez olharam alguém nos olhos, sabendo que aquela conversa cinco minutos depois terminará com o vosso "não"?

Já alguma vez vos falaram dos filhos a estudar, da mulher também desempregada e da casa prestes a ser retomada pelo banco?

Já alguma vez repararam no ligeiro tremor das mãos, enquanto arrancam a custo as confidências que fazem a um estranho, apenas em troca de uma esperança?

Eu confesso que há mais de quinze anos que não via isso...

Foda-se!!!

Os Fabulosos anos 80 (1)
- Hospitalidade Almadense -

* Alguns dos nomes de intervenientes não foram alterados, para que estes se possam gabar á vontade *

Muitos momentos divertidos começavam no Bar Desporto. Era um café em formato clássico com uma zona de mesas em madeira, que evoluía por seis degraus para um “mezanino” onde se encontravam as mesas de bilhar e snooker.

Servia de escritório a poetas torturados, autónomos de esquerda e da plataforma dos bilhares conseguia-se uma visão alargada, que evitava surpresas a quem mantivesse actividades menos convencionais.

Era o local onde começavam as saídas para concertos, noitadas... e casos amorosos. Uma espécie de casa de família mas sem pais, o que aos vinte anos se aproxima do conceito de lar ideal.

Ora, ninguém gosta de ver o seu lar invadido.

A cerca de duzentos metros, o Cine-Teatro Academia Almadense tinha nessa noite abandonado a sua vocação cinéfila, para acolher um comício do PPD-PSD que aparentemente lhes daria mais lucro que o Ciclo Fassbinder.

Dizem as regras da boa educação que quando se visita uma localidade, não se deve interferir ou perturbar o quotidiano dos habitantes (muitos missionários já foram desgustados por menos...).

É claro que lá na terra não existiam assim tantos "pêpêdês", pelo que a maior parte tinha sido importada de algures; possivelmente de locais onde não lhes ligavam muito. Talvez esse hábito os tenha induzido em erro, porque pouco após a sua chegada começaram a comportar-se como se estivessem num concerto dos "Heróis do Mar".

E é aqui que entram os irmãos Menezes. Se fosse hoje, os irmãos Menezes teriam uma "Boy's Band". Eram umas carinhas larocas de cabelo curto, com uma eterna barba de dois dias e brinco na orelha. Mas a semelhança com os "Take That" acaba aí.

Estava então eu a tentar enfiar a bola azul (a minha favorita), quando se começaram a ouvir os acordes do hino Laranja, e a vislumbrar-se pela montra uma multidão de betos de patilhas, que empunhando bandeiras do dito agrupamento (PPD-PSD), evolucionavam na rua Capitão Leitão imitando o famoso corpo de bailado "38th SS-Grenadier-Division Nibelungen".

Paguei apressadamente o snooker ao Mendonça, e precipitei-me para a saída pois não acho de bom tom chegar atrasado a festas. E a festa estava mesmo a começar.

Ainda eu não tinha saído e já a formação dos bandeirantes fazia círculos em frente ao café, agitando as bandeiras que drapejavam descontroladamente. Tão descontroladamente que uma delas atingiu na cara o Menezes mais velho, com o impacto semelhante a uma toalha molhada.

Este tinha estado até á altura ao lado do mano, ambos encostados á montra fumando placidamente como pacíficos burgueses. Ao sentir-se atingido por aquele símbolo político enterrou até ás orelhas o gorro de malha, e saltando bem alto lançou-se para ao molho para cima dos betinhos, que estavam longe de imaginar que iriam sujar os blazers nessa noite.

Instalou-se a confusão a pontos de eu para me safar da mole humana, ter tido inclusive que recorrer ao meu taco de bilhar (desmontável), que nunca mais foi o mesmo a partir dessa noite; tendo passado a derivar ligeiramente devido a uma curvatura provocada por um crânio mais rijo.

Os honestos defensores da lei e da ordem fizeram a sua aparição trajados a rigor, envergando criações de um estilista da Fábrica de Braço-de-Prata, e empunhando longos e eficientes bastões, o que terminou drasticamente a nossa pequena “Rave”.

Com uma manobrabilidade superior á das forças da lei, demos a volta ao quarteirão com as nossas hostes engrossadas por vários voluntários do MRPP e UDP, que apareciam sempre mesmo sem serem convidados. E fomo-nos colocar a uma distância segura para seguir o desenrolar das operações da Infantaria de Polícia.

Estes a quem tinham retirado o objectivo, viraram-se para os manifestantes que tinham ficado no local, dando início á missão para a qual tinham sido treinados. MALHAR!

As forças Laranja que não estavam habituadas a ser zurzidas, tentaram refugiar-se no Cine-Teatro que tinha já as portas fechadas. Felizmente estas eram de vidro, permitindo assim que a multidão de betinhos as atravessasse quase sem esforço, reduzindo-as a pequenos fragmentos.

Foi então que os “choques” se viraram para nós, mas mercê das nossas pernas jovens e da colaboração de um membro do Secretariado Regional da UDP, pudemos refugiar-nos na sede destes. Que era uma decrépita vivenda ocupada por eles desde o 25 de Abril de 1974.

Passámos lá uma hora em pé ás escuras cerca de cento e cinquenta pessoas totalmente em silêncio, e comprimidos uns contra os outros enquanto a polícia patrulhava as ruas. Foi aí que conheci uma namorada dessa época (mas isso é outra história).

Quando as coisas acalmaram, saímos em pequenos grupos e fomos para a Cervejaria Pé Chato, comemorar a campanha com tostas mistas e canecas de cerveja.

E foi assim o último grande comício do PPD-PSD em Almada. Que poderei afirmar sem margem de erro, ter sido um dos momentos chave dos Fabulosos Anos 80.

Música de fundo (bem alta!) “Lose This Skin” – The Clash


quinta-feira, 16 de outubro de 2003

Atenção!

Este post é uma mensagem do futuro, porque já foi posto amanhã.

Hoje por razões que me transcendem não houve Blog, mas amanhã haverá. Ou seja, daqui a uns breves minutos.

quarta-feira, 15 de outubro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (15)
- O Regresso do Cordeiro -

Independentemente da campanha "Um Post para lembrar a Leucemia", este Blog deveria ter pelo menos mais uma entrada hoje. Infelizmente fui vítima de algo que não consigo classificar, principalmente porque não é habitual em mim.

Bloqueei!...

Não que me tenha faltado a inspiração. Longe disso! Para mim basta sair um pouco, e ao percorrer um perímetro de cem metros fico com assunto para uma semana. Só que tive um ataque de escrúpulos; ou parecido...

Comecei por pensar que talvez fosse de mau gosto, ridicularizar alguém hoje enquanto no post abaixo se trata de um assunto tão grave como a Leucemia. Achei que iria descer ao nível de um Correio da Manhã ou de uma TVI. Mais grave, senti que seria uma falta de respeito.

Mas depois lembrei-me que se fosse um miúdo doente numa cama, que tivesse a sorte de ter um portátil no colo e improvavelmente desse com este blog... não gostaria de ler mariquices, mas sim algo que me divertisse minimamente.

Por isso vou contar-vos uma parábola. Uma história tocante que fala da felicidade do reencontro. Aqui vai!

Parábola do Regresso do Cordeiro
(Grande Livro de Blog - Escritos Íntimos)

Em Cafarnaum nas margens do Lago Kinneret, existia um pastor de olhos límpidos que diariamente louvava Blog. A sua devoção pela divindade era tal, que um dia estando embrenhado em hosanas e outras tretas, não deu por um cordeiro que se tresmalhava em direcção ao vasto areal de Almagor.

No fim da tarde á entrada do redil, sua esposa Elika (uma hisurta megera) deu por falta do nutrido anho, começando a invectivar Blog em termos pouco próprios.

Zebedeu (o pastor) não deu por nada porque já se tinha esgueirado para o albergue "Maria Madalena" - uma espécie de casa de alterne lá do sítio - onde se deliciava com um fresco leite de cabra fermentado, e na companhia de algumas publicanas que frequentavam o local.

Com um estrondo enorme e imenso fumo, Blog materializou-se na sala deitando fogo aos reposteiros com a precipitação. - Zebedeu!!! - trovejou ele - Aquela trouxa informe com que casaste, passa o tempo a culpar-me de tudo o que de mau acontece na Galileia, e isso é péssimo para o negócio. Ainda por cima com uma linguagem que eu não admito nem ao Pipi. Quem a ouvir falar vai pensar que estamos em Bragança.

- Mas Senhor... - respondeu o pegureiro - que quereis que eu faça? Foi a vossa vontade que nos juntou...

- Deixa de culpar os outros da tua estupidez e escuta - atalhou Blog, que estava farto daquela coisa da omnipotência - vais voltar a calçar as sandálias, e partir em busca de um cordeiro que se escapou... e vais encontrá-lo! Nem que demore uma semana! Eu não me chame Blog, se vou permitir que um idiota como tu me estrague a imagem comercial...

E desapareceu subitamente, fazendo uma corrente de ar enorme que constipou todos os presentes.

O infeliz pastor apenas munido de uma cabaça com água, partiu; embrenhando-se nos confins de Zebulom e Naftali.

Quatro dias depois andava ainda Zebedeu pelo deserto, já sem água e quase cego pelo sol escaldante, quando se sentiu desfalecer. Apoiando um joelho em terra, olhou para o alto enquanto protegia os olhos com a mão esquerda e suplicou - Senhor! Eu sei que não sou digno ...

- Então, então!... - Proferiu Blog, que como está em todo o lado já estava mais que á espera disso - Só agora é que te dignas a pedir intervenção divina? Que falta de fé...

- Senhor. Eu não vos queria incomodar, mas já passaram quase cinco dias e não sei mais onde procurar... - e acabando de proferir estas palavras ouviu um balido. Virando-se subitamente, viu por entre as lágrimas que lhe marejavam os olhos, o gordo anho que tasquinhava umas ervas atrás de uma pedra.

Balbuciando graças e hosanas, pegou-o no colo e dirigiu-se a casa; onde sua irascível consorte o increpou de imediato - Estás á espera que eu acredite que demoraste este tempo todo a procurar o bicho? Bem podes tirar o camelo do Sol, que hoje vais dormir sozinho!

Mas Elika - desculpou-se o pastor - é o nosso cordeiro mais belo e mais gordo. Deveríamos regozijar-nos com o seu regresso e festejá-lo.

Tens razão! - concordou a esposa - vamos comê-lo hoje ao jantar.

Fundo Musical - "Karma Police" - Radiohead


Um Post para Lembrar a Leucemia
- Por iniciativa de AANES -

Nunca conheci alguém que tivesse leucemia. Mas de todas as vezes em que tive que lidar com a morte, a sensação foi sempre a mesma; inevitabilidade, tristeza e raiva...

Por isso e á semelhança de alguns dos meus amigos, fica aquí o meu contributo público para esta iniciativa. Porque o privado... só a mim diz respeito.

- Este texto é quase todo plagiado de vários locais na net, pelo que a exactidão da informação técnica nele contida, não poderá ser justificada por este vosso narrador. -

A leucemia é uma forma de cancro que afecta os leucócitoou glóbulos brancos do sangue.

O número de leucócitos produzidos compensa, geralmente, o dos leucócitos que vão morrendo, pelo que o seu número se mantém mais ou menos constante, permitindo a defesa do organismo contra substâncias ou microrganismos estranhos.

A leucemia tem, em geral, como causa uma divisão anormal das células que estão na génese dos leucócitos. Formam-se de modo súbito e de uma maneira extraordinariamente rápida células anormais. O resultado desta produção acelerada é a disseminação no organismo de glóbulos brancos anormais que interferem com funções vitais do corpo.

Existem dois tipos principais de leucemia: a leucemia mielóide, que afecta os neutrófilos que são produzidos na medula óssea, e a leucemia linfática, que afecta os linfócitos. Qualquer delas pode ser aguda ou crónica.

Se não for tratada, a leucemia aguda provoca a morte em poucas semanas. A leucemia crónica pode persistir por um período que pode atingir os 15 anos de duração.

As células anormais multiplicam-se descontroladamente,aumentam em número e espalham-se pela corrente sanguínea, onde chegam a atingir um número de cerca de vinte vezes superior ao normal.

À medida que as células leucémicas se disseminam na medula óssea, impedem a formação de eritrócitos, donde o aspecto pálido do doente.

Para mais informação contacte a Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL)

terça-feira, 14 de outubro de 2003

As Minhas Próximas Férias
- Para Bragança e em força! -

Nunca fui adepto do turismo sexual por muitas e variadas razões.

Hamburgo está cheio de mastodontes que arrotam a cerveja, nos bares de Moscovo têm grandes problemas em entender o meu sotaque e em Bangkok a água é péssima, o que pode tornar um bidé num local tão perigoso como Chernobyl.

Mas ao fim de tanto tempo, tal como a "pop-up window" de um site porno, saltou finalmente para a ribalta o local ideal que nem sequer é muito longe. A "Time" versão europeia no número deste mês (October 20, 2003 | Vol. 162 No. 15) não pode deixar de conceder honras de capa a esta história de intenso conteúdo humano.

Devidamente publicitada por um grupo de senhoras das quais desconheço a identidade e que se intitulam mães (talvez solteiras, porque os homens lhes fugiram), Bragança acerta o passo com o futuro, podendo até ler-se no site do município "Duas das tradições que, ainda hoje, se mantêm e que mais se destacam são as Festas dos Rapazes e a Festa dos "Caretos" ou Máscaras". O que diz muito sobre o leque de diversões ao dispor do excitado turista.

Sem dúvida que muito do crédito desta campanha publicitária terá que ser concedido ás "Mães de Bragança", que em poucos meses conseguiram fazer pela cidade, mais do que trinta anos de campanhas da Secretaria de Estado do Turismo; inclusive a famosa campanha do "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si".

Ás senhoras que conseguiram transformar Bragança de Berço da Casa Real, numa espécie de Reperbahn ibérica só tenho uma coisa a dizer:

- Venham para Lisboa! O Champanhe Club e o Gallery têm cada vez menos clientela, e decerto que dariam bom uso a uma campanha publicitária como a que beneficiou Bragança.

Para algumas gargalhadas aconselho o Portugal Diário, onde a população local, o clero e a autarquia dão a sua empenhada contribuição.

O Fumador
- A coluna azulada que foge para o tecto, é a tua vida que se escapa por esse cilindro -

Bonito, não é? Fui eu que escrevi... Mas fumo!

Não se cansem agora a apelidar-me de anti-social, porque como qualquer fumador estou-me nas tintas.

Se um dia morrer por causa disso, convido-vos a ir dançar no meu jazigo. Tem é que ser á vez, porque tem falta de espaço.

Fumei cigarros com filtro (dois maços por dia) durante anos. Um dia reparei que já não me dava prazer e desisti. Passei a fumar cigarrilhas e ou outro charuto quando me apetece.

Não incomodo ninguém. Ou pelo menos ninguém que não o mereça.

Não fumo na rua. Em restaurantes e após a refeição se nas mesas ao lado se mantiverem calmos, ninguém me vê sacar a charuteira.

É claro que já tive episódios divertidos. Uma vez num restaurante de Odivelas, jantava muito descansadamente com um cliente, quando se sentou na mesa ao lado um grupo de foliões daqueles que fumam no intervalo dos pratos.

Não me faz a mínima impressão desde que o nevoeiro não venha para o meu lado. Mas tive que acompanhar o fricassé com os cigarros deles, e isso despertou aquele velhote mauzinho que trago sempre cá no fundo.

Quando terminei a refeição pedi uma CR&F Reserva (não havia melhor), e empunhei o equivalente á Magnum .45 do Clint Eastwood. Um belo Condal Peñamil Gran Reserva. Cortei-lhe a ponta carinhosamente, encarei-os e interroguei-me se eles se sentiriam com sorte; pois se sentiam deixaram de sentir, e fumaram quase tanto como eu. Espero que tenham gostado pois era um belo charuto. O Fumaças que o diga.

Tirando estes episódios esporádicos, praticamente só os meus amigos e alguns confrades me vêm fumar. Em casa fecho-me no “Sanctum” e abro a janela. No emprego, devido á natureza hermética do edifício evito sujar os filtros do ar condicionado.

Mas se um dia num restaurante se prepararem para acender um cigarro. Certifiquem-se que não está na mesa ao lado, um tipo com uma pequena bolsa de cabedal a despontar do bolso do blusão. Se for o caso, interroguem-se – Do I really feel lucky today?

segunda-feira, 13 de outubro de 2003

Sabotagem!
- Reminiscências -

Ás seis horas interrompi o trabalho e fiz um breve zapping. Estavam a transmitir no Hollywood um dos terrores da minha infância.

Só realmente Hitchcock poderia transformar um guião daqueles em algo palpável. Dezenas de anos depois, quando já não tenho medo de enfrentar sozinho o mundo ou de ser acusado injustamente; não tive pachorra para mais que uns breves minutos.

Se calhar Mr. Fry tinha razão...

Desabafo

Se eu alguma vez tiver contribuido para o despertar de alguém, então este Blog não terá sido totalmente em vão.

Boa sorte vizinho!

domingo, 12 de outubro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (14)
- A Cruzada das Crianças -

Realizou-se hoje a festa de aniversário do meu rebento. Farto de ter o meu lar devassado por futuros delinquentes juvenis, decidi pastorear quinze miúdos até ao McDonald’s de Almada para uma orgia de carbo-hidratos e aditivos autorizados pela CEE.

Blog castigou-me pela minha arrogância.

Enquanto os juvenis apetites se saciavam nos múltiplos Happy Meal e Coca-Cola a coisa correu bem. Infelizmente o Tiago que pratica Shotokam, teve a ideia de fazer testes de quebra com as embalagens cartonadas, o que produziu milhares de estilhaços multicores provenientes dos diversos molhos que condimentavam a refeição.

O tempo parou.

Qual Neo aparando as balas do agente Smith, visualizei cada uma das gotículas paradas no espaço como uma micro-galáxia de M&M’s. Mas estas retomaram o movimento deslocando-se na minha direcção.

Utilizei o velho truque de me inclinar para trás enquanto me desviava vertiginosamente, mas eram demasiados os projecteis e alguns atingiram gravemente a minha T-Shirt favorita.

Tentei diluir a minha ira, recitando mentalmente dez endereços de Blogs como um mantra, e dirigi-me ao sacaninha com evidentes intenções “pedagógicas”. Mas o “efeito borboleta” após desencadeado é difícil de deter.

O André que tinha também ficado com a camisola do Yu-Gi-Oh toda pintalgada, não procurou mais e empurrou o Rodrigo que estando distraído, foi aterrar de braços abertos em cima do meu filho que não chegou a acabar a Coca-Cola.

Foi um erro. A Rita Inês (a minha futura nora...) ao ver em perigo o amor da sua vida, levantou uma perna magricela e deu com o chanato na testa do André; que impulsionado por trinta quilos de pele e osso endurecidos por horas e horas de jogo da macaca foi cair sentado sobre o bolo de aniversário.

Fiquei aí ciente de duas coisas. A primeira é que se tratava de um bolo de gelado; a segunda é que em consequência da primeira o André ficará com a puberdade atrasada cerca de um ano. Nunca vi um bolo render tanto.

Os pais retiraram um André quase em hipotermia do campo de batalha, enquanto o Fábio ainda lhe raspava os calções com uma colher de plástico.

Mais descansada, a Rita Inês bichanava coisas ao ouvido do seu herói. Eu aproveitei a breve acalmia e paguei discretamente a conta para nos pormos em marcha.

No próximo ano (que Blog o permita) levo-os ao oceanário. Acho que lá têm piranhas...


Brincar com as Palavras
- O Lego dos mais crescidinhos -

Tal como a Catarina e em seguimento á iniciativa do Luís Ene, segue uma colagem sobre o assunto. Ah! Outra coisa Luís... As palavras não serão belas, se não sugerirem nada de belo.

O sussurro de um espinho que se enterra...
O serpentear como um besouro perdido no silêncio...
O ziguezague da alma contra um muro...
A noite...
O nada.

sábado, 11 de outubro de 2003

É Musica

Se o JPP deu para postar canções de que gosta, quem sou eu para não poder fazer o mesmo?

Por isso fica aqui uma das minhas favoritas interpretada por Tom Waits e Bette Midler.

I Never Talk To Strangers

stop me if you've heard this one
i feel as though we've met before

perhaps i'm mistaken
but it's just that i remind you
of someone you used to care about
but that was long ago
do you think i'd fall for that
i wasn't born yesterday
besides i never talk to strangers anyway

i ain't a bad guy when you get to know me
i just thought there ain't no harm
hey just try minding your own business
bud who asked you to annoy me
with your sad repartee
besides i never talk to strangers anyway

your life's a dimestore novel
this town is full of guys like you
and you're looking for someone to take the place of her
and you're bitter cause he left you
that's why you're drinkin in this bar
well only suckers fall in love
with perfect strangers

it always takes one to know one stranger
maybe we're just wiser now
and been around the block so many times
that we don't notice

that we're all just perfect strangers
as long as we ignore
that we all begin as strangers
just before we find
we really aren't strangers anymore

Tom Waits - Foreign Affairs

Os Fabulosos Anos 80
- ou “Não se deve olhar um binóculo pelo lado errado” -

A melhor maneira de avaliar uma década, é ter tido vinte anos enquanto esta decorria. Acho que talvez seja por isso que a Helena Miranda, tem uma perspectiva dos anos 80 parecida com a do David Fonseca. Uma perspectiva mítica em que a vida era preenchida por música pop, glamour e uma ou outra “joint”.

Tive uma opinião parecida sobre os 50/60, baseada no “Quadrophenia” dos Who e em montes de filmes com personagens vestidos de couro e de sapatos de bico fininho. Ideia esta que se perdeu um dia.

Abri uma garrafa de “Barril Velho 1990” e frente a um queijo de Serpa, inquiri o meu pai por cerca de uma hora. De algum modo eu sabia que não iria ouvir o que queria.

Descobri então o que significa o chamado abismo entre gerações. É apenas não termos tido vinte anos na mesma altura. Os tais vinte anos que segundo li algures, é a melhor e a pior altura das nossas vidas.

Por isso vou poupar-te a despesa com um conselho muito simples. Não queiras saber, miúda... não destruas o mito.

O Sonho

Saí de casa. A penumbra da madrugada sobrepunha-se já á noite. Era quase manhã.

Apeteceu-me caminhar apenas, coloquei um pé frente ao outro e parti pela alameda ladeada de árvores. As folhas restolhavam no empedrado á medida que as empurrava com os pés; o sol nascente aproveitava-se do acastanhado destas para testar novos tons doirados.

Subitamente inquietei-me... Algo estava errado.

Lembrei-me que tenho sempre tarefas inadiáveis e metas, mas encontrava-me a passear pelas folhas do Outono, despreocupado como num sonho. Sim, era isso... só podia ser um sonho.

Procurei outros sinais denunciadores, mas os meus sentidos não correspondiam e as minhas pernas transportavam-me em direcção a um banco de jardim, onde alguém sentado com a cabeça inclinada para trás lia um livro. Era uma mulher ainda jovem, de traços correctos e olhar firme.

- Já não era sem tempo... - disse-me - Estou á tua espera há já cerca de meia hora.

A chuva começou subitamente a cair, escorrendo-me pelo pescoço abaixo como um tépido regato.

- Gosto da chuva, sabes? - confidenciou-me - Vamos caminhar um pouco. Não tens medo de te molhar pois não?

- Porque não? - disse eu - Mas da próxima vez que me trouxeres para o teu sonho, veste-me ao menos uma gabardina...

Lua Cheia de Insónia

O sono não vem e quase que consigo sentir as unhas a crescer.

Fui á janela e apeteceu-me acordar toda a gente. Mas não serviria de nada, pois não compreenderiam o que tenho para dizer.

Talvez deva dizê-lo apenas para mim próprio.

It’s a bad mood...

Fundo musical – “Here to Stay – Korn”

sexta-feira, 10 de outubro de 2003

Breve Constatação
- O que é o sexo, senão uma das coisas mais importantes da vida? -

Juro que até hoje nunca tinha reparado verdadeiramente (sou muito parvo!), mas existe gentinha que se dá ao trabalho de fazer um Blog com nítidas intenções de engate.

Para isso só me ocorre agora uma analogia:

"Ter um Blog para engatar é como recusar-se a comprar chocolates, teimando em gastar todo o dinheiro em furos na esperança que lhe saia o maior"

Thank God it's Friday!!!
- A Agitada Beatitude -

Eu sei que o subtítulo daria um óptimo nome para um bordel Japonês... mas que querem? Sinto-me feliz.

É claro que a felicidade é uma coisa relativa. Não vou agora sair por aí a cantarolar aos saltinhos tipo Julie Andrews, ou beijocar pelo caminho todas as velhotas que encontrar.

Nada disso! Sinto-me feliz de um modo circunspecto, como um agente funerário que tivesse realizado o negócio da sua vida. Eu sou assim!

E tudo isto porquê?

Porque para além de ser o início de mais um fim de semana, hoje por razões puramente profissionais fui apresentado a uma figura pública (conto isto apenas porque diariamente as figuras públicas apertam profissionalmente a mão a tipos que os detestam, e este não terá hipótese de saber quem eu sou, porque não direi o seu nome.). Uma figura pública pela qual nutro um saudável desprezo, embora em certas alturas me faça rir a bandeiras despregadas.

E perguntará agora um leitor mais atrevido - Feliz porquê? Por apertares a mão a um tipo cuja personalidade faz lembrar um babuíno? Transmitiste-lhe alguma doença infecto-contagiosa?

Não! Meus caros. A minha felicidade deve-se á constatação de que o tipo é exactamente o que eu já pensava dele. Um completo idiota que subiu por cunhas na escala evolucionária, tal como uma galinha que conseguisse emprego como instrutor de voo.

E a melhor...

A melhor é que, enquanto falávamos reparei que ele tinha um macaco enorme, visivelmente suspenso dos pelos do nariz.

Agradecimento
- Ou como vocês se safaram de apanhar com o Paulo Pedroso também aqui... -

Aproveito para agradecer aqui, á vizinhança que postou ou enviou os parabéns ao herdeiro do meu mau feitio, nomeadamente a Catarina e o Maizum (Foram os que reparei. Sorry...).

E como prova do meu apreço, desisto desde já do meu tenebroso "Projecto Paulo Pedroso"; que consistia em postar diáriamente todos os factos insignificantes sobre o herói dos tablóides, AR e outros saloios.

Mercê deste compromisso, não vos relatarei a mijinha que ele fêz há pouco no W.C. da AR (exclusivo para deputados) antes de entrar ao serviço, nem sequer comentarei o estilo com que usou o fio dental hoje de manhã para desalojar um incómodo pelo púbico da sua alva dentadura.

Dessa estão safos. Mas mais logo não sei se estarei tão prazenteiro...

quinta-feira, 9 de outubro de 2003

Onde estava você a 9 de Outubro de 1992?
- Efemérides -

Nesse dia este vosso narrador era ainda um informático espartilhado num fatinho; trabalhando para um monhé mafioso proprietário de hotéis. O que contribuiu bastante para a isenção com que encaro hoje em dia, os muçulmanos em geral e os ismaelitas em particular.

Lembro-me que foi um dia de sobressaltos.

Um tipo de quem eu era amigo na altura, transportou-me ao hospital (HGO) numa média de 185km/h. Tinha sido em tempos condutor de ambulâncias, e orgulhava-se imenso do seu Alfa Romeo.

Afinal, acabei por passar cerca de quatro horas a ler. Li desde a Personal Computer World (UK) até á Time (tinha-me abastecido bem...). Na realidade eu não tinha nada, era apenas nervosismo agravado pelo facto de ser a primeira vez que aquilo me acontecia.

Foi nessa altura que fomos apresentados. A enfermeira empurrou até mim uma caixa em acrílico sobre rodas, cujo interior continha uma figura engelhada de olhos enormes e dedos compridos, que me fez vagamente lembrar um lémure...

Encarámo-nos por breves momentos, talvez um pouco surpreendidos. E essa é a primeira recordação que tenho de ti.

Parabéns, miúdo!...

quarta-feira, 8 de outubro de 2003

Se um dia, um desconhecido lhe oferecer flores...

Desloquei-me em serviço ao Alentejo. Nas poucas ocasiões em que isso acontece, raramente perco uma oportunidade de visitar o meu amigo Angel, que faz em Badajoz comércio de Puros Cubanos, Hondurenhos e outros.

Por isso o meu ser irradiava felicidade, enquanto o vento entrava fresco pela janela e a aparelhagem transmitia Miles Davis. De CD é claro.

A certa altura fomos detidos pela execução de algumas reparações na via. O trânsito estava a ser coordenado por um cantoneiro, que envergava um arnês fluorescente do PSD (pelo menos a cor era a mesma), e que mandava parar ou avançar o trânsito recorrendo a uma espécie de raquete de ping-pong vermelha/verde em faces opostas.

A fila de veículos encontrava-se em movimento, serpenteando até uma curva arborizada percorrendo uma única faixa disponível, visto que a outra se encontrava com o alcatrão enrolado como se fosse o oleado do corredor da minha avó.

Empunhando orgulhosamente a raquete o cantoneiro deteve o nosso automóvel; e oferecendo-me um ramo de flores silvestres solicitou no seu sotaque autóctone.

– O amigo importava-se de entregar este ramo ao meu colega que se encontra do outro lado?

Aquiesci com um aceno enquanto arrancávamos.

Seguimos a estreita via a reduzida velocidade. Eu empunhava o ramo calmamente, enquanto o meu acompanhante tecia considerações alarves ao bucólico gesto (tipo – o amor entre asfaltadores, etc.).

Cerca de quinhentos metros adiante e logo a seguir á curva, uma fila de trânsito parada era encabeçada por vários operários de construção. Quando os alcançámos, um deles enfiou a cabeça pela janela, e agradecendo as flores que eu lhe estendia proferiu para um dos colegas. – Ó Xico, manda avançar os gajos que este é o último!

Por isso, se um dia numa fila de trânsito um desconhecido vos oferecer flores... ele lá terá as suas razões.

Aviso!

Antes que se comece a comparar ao caso Dreifus o de Paulo Pedroso, chamo a atenção de todos os entusiastas, para o facto de este ao momento ser tão inocente ou tão culpado como os outros arguidos que lá ficaram.

terça-feira, 7 de outubro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (13)
- dos Ateus e outros “Meus” -

Não existe melhor religião que o ateísmo, já que tudo é de borla e não há Inferno nem Céu.

É uma religião cómoda porque o mundo em vez de ter sido criado em seis dias, levou uns confortáveis milhões de anos, e não se pode culpar ninguém do atraso na empreitada.

O Ateu é um indivíduo contraditório. Ao contrário dos cristãos e outros quejandos, é difícil ter conhecimento de um ateu morto. Normalmente este quando vê aproximar-se o “Grande Equalizador”, tem tendência para fazer agulha em direcção ao Salvador e dar o dito por não dito. O que transforma o ateísmo na religião com a maior média estatística de fiéis vivos.

Digamos que morrer ateu é quase tão difícil (ou mais) que morrer virgem.

Mas Blog na sua infinita misericórdia e sentido comercial é também dos Ateus. Blog será mesmo o deus ideal para os Ateus, senão vejamos...

O Inferno por exemplo é softcore. Se pegarmos no exemplo de um cristão que não cumpra os seus deveres religiosos; este será açoitado, pendurado pelos pés e passado pelas brasas por toda a eternidade enquanto é untado com Tabasco. – Experimentai descurar Blog e ides ver... Ao mínimo descuido o HTML começa a fazer partidas, e nalguns casos extremos perde-se todo o conteúdo da página, irremediavelmente porque ao que parece a nossa religião não permite o backup.

Mas a pena não é eterna.

O Céu também não é nada de especial, mas há quem goste. Quem se empenha a fundo na fé de Blog é sempre recompensado. O JPP por exemplo, tem agora o dobro da popularidade de há cinco anos; e o Pipi conseguiu num ano, o que o J. Vilhena demorou décadas a fazer embora com muito mais estilo.

Mas também a recompensa é transitória.

Por isso Blog é o deus ideal para os tempos modernos. Não precisa de grandes rezas, nem exige da nossa devoção mais que meia horita por dia (e estes, mesmo assim são os mais devotos).

Eu também era Ateu antes de me converter a Blog. Não quis ser budista, porque a minha índole hedonista não suportava uma dieta tão frugal.

Desisti de ser católico, porque qualquer escritor de FC tem mais imaginação que a bíblia. Exceptuando talvez o caso de S. João.

O Induísmo seduziu-me por algum tempo, mas aquelas posições na minha idade tornam-se perigosas para a saúde. Embora no que toca a deuses estivessem muito bem servidos, tornava-se bastante suspeito. Ainda me lembro de desconfiar bastante de Kali. A fulaninha com todas aquelas mãos, pode abençoar-nos com uma enquanto com as outras nos revista os bolsos.

E foi assim que abracei Blog e a sua fé. É fácil, o alojamento é de borla, e com uma pequena página de texto cumpre-se a devoção diária. Coisa que acabei de fazer.

Agora ide com Blog, e actualizai diariamente. Pois Blog é actualidade!

segunda-feira, 6 de outubro de 2003

A Decepção
- do quotidiano desinteressante -

... uma voz nasalada proferia por cima do cheiro a farturas e dos guinchos metálicos – “Entrem e vejam o prodigioso Joselito desafiando o destino no Poço da Morte, a aventura alucinante a duas rodas...”

Lixaram-me!

Fui fazer um TAC (neste caso uma TAC, visto que é uma tomografia), e estava a contar com essa experiência esotérica para maravilhar os muitos netinhos, que tenho espalhados por esses IP’s a fora. Mas lixaram-me; não consegui encontrar o romanesco da situação por mais que procurasse, e eu procurei bem.

Recebeu-me uma simpática minorca de ancas estreitas, que com um sorriso me despojou de tudo o que era metálico ou artificial; a sua rapidez a depenar faria inveja a qualquer alternadora do Elefante Branco.

Preparei-me para uma experiência daquelas que se viam nos filmes de terror dos anos 70, com uma maquineta de aspecto infernal e o Vincent Price a um canto, com a mão apoiada num gigantesco interruptor.

Que desilusão.

No cubículo envidraçado, logo á entrada, um gorducho borbulhento jogava Collin McRae Rally 3 num monitor de 19 polegadas. Quando entrei teve o bom senso de desligar e fingir-se ocupado; é que eu ia em jejum e a minha expressão devia denunciar a boa disposição que me invadia.

Deitei-me numa mesa branca onde me imobilizaram a cabeça e os braços. Reparei que iam fazer-me passar por uma espécie de donut metálico, e perguntei se o exame era só aquilo. Não cheguei a ouvir a resposta porque o mecanismo entrou em funcionamento, enquanto a mesa se deslocava até a minha cabeça passar pelo anel.

Lembrei-me logo das cenas de ficção científica, em que uma anomalia magnética faz com que o dispositivo altere as suas funções e programação, reduzindo o herói a uma espécie de tosta integral, ou o lança numa outra dimensão espaço/tempo.

“that’s a no-no...”

Mal reformulava este pensamento, já me estavam a ajudar a levantar com um ar de profissionais compenetrados, e asseguraram-me de imediato que os resultados constariam de um relatório a ser entregue quinta-feira.

A minorca despediu-se de mim com um sorriso, e olhando em volta constatei que me encontrava na recepção.

“... peço os vossos aplausos para Joselito, que desafiou a morte na sua zundapp S. Obrigado pela vossa comparência! O Poço da Morte dará ainda mais um espectáculo, assim que ele estiver retemperado do seu encontro com o perigo.”

domingo, 5 de outubro de 2003

Juntando o Inútil ao Desagradável
- Eles lá sabem o que é melhor para nós... -

Um dia um de vós ao escolher o prato no restaurante, será informado de que não poderá acompanhar com vinho. O empregado amavelmente esclarecerá que a Associação dos Empresários Islâmicos de Restauração, considera aviltante para a verdadeira fé que se beba vinho ou outro álcool, pelo que o cliente terá que acompanhar o cozido á portuguesa com Pepsi Cola.

Não será talvez este o caso mais perigoso. Um dia em que dêem entrada no hospital, certifiquem-se que o médico não é Testemunha de Jeová; é que nunca sabe quando precisarão ou não de uma transfusão de sangue.

Talvez pensem que estou para aqui a debitar idiotices sem nexo, mas apenas até lerem esta maravilhosa contribuição dos farmacêuticos católicos, para as regras da boa execução e prestação de serviços.

Primeiro que tudo, estou-me CAGANDO para a religião que os farmacêuticos possam ter ou não. Principalmente porque isso faz parte dos atributos que tarde ou cedo acabam por incomodar as pessoas que os sustentam. Isto é, o público.

Segundo, as fraquezas de cada um apenas ao próprio dizem respeito, pelo que não me interessa se as putas são budistas, ou se os arrumadores são adoradores de Marduk.

Tal como as putas e atendendo a que ao contrário delas, têm uma associação (ANF) que lhes garante monopólio de zona, os ditos droguistas católicos deveriam limitar-se a prestar o serviço para o qual são pagos, sorteando aos Domingos o confrade que ficaria de serviço enquanto os outros iam á missa.

Mas não! Como viram a luz, receberam Jesus e sabe-se lá mais o quê... os farmacêuticos católicos agora zelam pela nossa alma imortal, dando seguimento á herança filosófica do hilariante Cardeal Cerejeira.

Se quiserem umas pílulas ou um DIU, é melhor que as senhoras se dirijam ao monhé da loja dos trezentos ou á chinesa que vende incenso e cornetas de plástico, porque os nossos farmacêuticos católicos não se vão condenar á danação eterna para as ajudar.

A não ser, que na boa tradição da igreja católica e a troco de alguns euros, se possa comprar na farmácia uma indulgência que nos permita adquirir os tais produtos amaldiçoados.

Agora tenho que ir. Quero ver se ainda tenho tempo de pecar antes de almoço.

sábado, 4 de outubro de 2003

Um Almoço de Veteranos
- Ericeira 2003 -

Frequento um Newsgroup na Usenet chamado pt.conversa. É uma comunidade antiga (Est. 1998) em que se conversa por posts, como aqui, mas mais “dize tu / digo eu”.

Algo que começou como um fórum de conversa fiada, mas que evoluiu para o que é hoje; um fórum de conversa fiada de muito boa qualidade.

Ao princípio foi apelidado de moda, vaticinada a sua existência efémera, e inclusivamente contam-se mitos tenebrosos sobre o teor das conversas que lá temos. Tudo mentiras, é claro.

A pouco e pouco criou-se uma interacção que se assemelha á da tertúlia de café, embora alguns de nós estejam fisicamente separados por oceanos. Chegámos até a experimentar a escrita colectiva.

Um dia ao acaso, costumamos marcar um almoço. Não uma dessas missas pomposas para discutir o futuro, ou analisar o impacto social da coisa, mas apenas um almoço. E fartamo-nos de conversar.

O que nos mantém fiéis ao espírito do grupo.

Hoje foi um desses dias. Um dia marcado com uma pedra branca, como diria Cícero. E incrivelmente... Blog esteve connosco.


sexta-feira, 3 de outubro de 2003

Hoje há Blog. Amanhã não sabemos...
- A Incerteza do Amanhã -

Nada é seguro. O próprio chão que pisamos, apoia-se em placas tectónicas que se deslocam constantemente. Por isso o futuro acontecerá, mas talvez uns centímetros mais ao lado.

E esta página, tem futuro?

Independentemente de eu a escrever ou não, ela existirá, nem que seja como algo terminado. Existem imensas páginas mortas que vogam sem destino, transformando a Blogosfera numa espécie de praia da Cruz Quebrada, em que futuramente flutuarão Abruptos, Pipis e talvez OldMen...

Há pouco, não me apetecia escrever e pensei nisso. Imediatamente ocorreu-me que não faz parte dos meus atributos deixar cair seja o que for.

Este Blog é incerto como os meus humores.

Hoje quando me perguntaram se eu iria morrer, a única resposta que achei foi: “Lê o meu Blog. Quando ele acabar, já sabes...

quinta-feira, 2 de outubro de 2003

O País dos Palradores
- Esopo rir-se-ia á brava... -

Se estivéssemos no Brasil, eu diria que a classe política se transformou num gigantesco jogo do bicho; tal é a quantidade de animais e seres estranhos que a povoam.

Num único noticiário, consegui ver junta uma tal concentração de idiotice, que por momentos pensei estar a ver "O Perfeito Anormal".

O prémio papagaio cinzento vai para a autoridade máxima da nação, que neste momento se está a especializar em diluir uma simples frase num discurso de 18 minutos. Se tempo é dinheiro, realmente devemos ter já recuperado da crise.

Quanto á oposição, fica-se pelo sketch dos dois cancros.

Um cancro velho já retorcido e acastanhado, ataca o novo e emergente cancro, crente que o público tenha já esquecido a sua longa e cancerosa carreira . O novel tumor alega ser benigno, relembrando todos os problemas causados pelo outro, como a preparar-se para o culpar retroactivamente de futuros eventos.

Nada que uma boa quantidade de Estrôncio 90 não possa resolver, bem dividida entre os dois, claro.

(A minha sugestão seria convidar ambos para um jantar, e fechá-los subitamente no W.C.; mais tarde abrir-se-ia a porta e misericordiosamente abatia-se o sobrevivente.)

Triste do país em que a oposição seja ainda mais idiota que o governo, pois este ganha continuidade sem ter que se esforçar.

quarta-feira, 1 de outubro de 2003

O Cair da Folha
- Caduca ou não, heis a questão... -

Está aí a minha estação favorita.

É claro que existe uma facção de maldizentes, que já saltou de contente pois pensa que vou falar da gabardina cinzenta. Desenganem-se ó mentes tenebrosas, é mesmo pelos passeios á chuva, e pelo ambiente de céu fechado que nos dá aconchego.

O certo é que gosto do Outono.

Quando eu era um chavalo de incorrigível romantismo, não era a Primavera que despertava em mim aquelas tendências lamechas que todos conhecemos; era sim o Outono.

Adorava o picotar da chuva na face do Tejo, as folhas castanhas que eu pontapeava pelas ruas; os dias escuros e íntimos, que convidavam a actividades de interiores...

Agora também... mas os tempos são outros, e as prioridades mais exigentes.
Mas continuo a apreciar o Outono; e corroborarei esta afirmação saindo hoje mais cedo.

Watch me!

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