sábado, 29 de novembro de 2003

O Tal Canal
- Não há bem que nunca acabe... -

Chove novamente. Até parece uma daquelas peças russas muito chatas, com encenação por Grotowsky ou parecido.

Tentei animar um pouco as coisas e ver algumas notícias. Normalmente ligo na Sky News, porque o sotaque britânico tem para mim características repousantes (um dia um psicanalista debruçar-se-á sobre esta minha faceta).

Mas o mundo não pára de me surpreender. Em vez de uma pivot de ar atinadinho explicando porque há fila na M6, fui atacado por uma coisa que só muito dificilmente se poderá chamar canal de televisão.

Sob um fundo “verde vómito” imprimia-se o que parecia ser uma manhosa página da net, com um aspecto ainda pior que este blog. Acho que lhe chamam SMS TV.

Uma espécie de fraude para quem paga canais de televisão.

Eu sei que as notícias raramente são animadoras, e que a maior parte das pessoas se contentam com quatro canais.

Mas eu pago! Pago para que me dêem o que compro, e não para me impingirem os resultados de um Trivia disputado entre vários idiotas via telemóvel.

Não tarda estou a infrigir um dos mandamentos de Blog, e começo a recorrer ao palavrão gratuito.

É melhor hoje ficar por aqui.

Musica de Fundo
“Been Caught Stealing”Jane’s Adiction

sexta-feira, 28 de novembro de 2003

Ave Nocturna
- Diários de desconhecidos -

Sorrindo, saiu do duche e olhou-se no espelho apreciativamente. As sobrancelhas arqueadas davam-lhe um ar agarotado, reforçado pela madeixa negra que estudadamente deixava cair sobre os olhos.

Entrelaçou os dedos das mãos, e accionou os músculos peitorais esticando os braços para trás; estava a precisar de um pouco de ginásio. Virou-se de lado apreciando o contorno do corpo, enquanto encolhia um pouco o estômago. Bateu na nádega direita para testar a consistência; o conjunto até nem estava mal...

Vestiu-se enquanto pensava demoradamente no que teria ainda que fazer. Calçou as botas, e dando uma última mirada no espelho pegou na maleta do equipamento. Era tarde e tinha que se apressar.

No autocarro sentou-se no último banco. Dali podia controlar tudo, e já que a paisagem não valia nada sempre poderia observar os outros passageiros.

Dois pintas magricelas com ar de carochos, velhas e velhos (uns fedorentos, a maior parte) e um grupo de miúdas da faculdade. Predominantemente borbulhentas e de cabelo oleoso; lá uma ou outra ainda se comia, mas eram carne para canhão como codornizes de aviário. Nem valiam o trabalho de depenar.

Lá fora, desfilavam ruas húmidas e desinteressantes. Recostando-se encolheu os ombros e ajustou o blusão de cabedal; a merda do transporte era mesmo desconfortável. Se aqueles ranhosos não tivessem o monopólio decerto seriam obrigados a melhorar o serviço.

O autocarro acabara de se deter numa paragem. Viu aparecer vinda da frente do veículo uma mulher - era uma rapariga ainda, pois não devia ter mais de 19 anos - a contar os trocos de cabeça baixa. Vestia uma saia de pregas que lhe dava pelo joelho e uma camisola de lã.

Os seus olhos percorreram-na em sentido ascendente desde os sapatos até aos cabelos, enquanto começava a sentir um agradável calor espalhando-se pelo ventre de mistura com pequenos arrepios deliciosos pela coluna. Se havia alturas em que a química humana era traiçoeira essa era uma delas; principalmente porque nessa noite não se poderia desviar do seu caminho.

Apenas como exercício para passar o tempo imaginou-se a puxar-lhe a camisola para cima, descobrindo uns seios pequenos em forma de pêra de mamilos erectos, enquanto a beijava no pescoço percorrendo-lhe todo o corpo com as mãos e a boca, semeando loucura por onde passava.

Imaginava-se a introduzir-lhe a língua entre os lábios e entreabrindo-lhe as coxas com o joelho, quando reparou que se aproximavam do seu local de destino. Pegou nas suas coisas, e tocando a campainha preparou-se para sair. Não sem antes a ter olhado longamente como para reter a imagem em memória.

Na rua o vento tornava a noite desagradável. As luzes do hotel brilhavam solitárias no fundo da rua pois a maior parte dos candeeiros encontravam-se apagados; ou partidos por vândalos ou simples incompetência dos serviços, mas por ali ninguém se importava com isso.

Percorreu a distância até ao edifício com passos amplos pelo meio da rua, ouvindo o ruído cavo dos tacões no pavimento e seguindo com o olhar a sua sombra que se imprimia nos edifícios, como uma negra e brilhante ave nocturna.

Subiu o curto lance de escadas que conduzia á recepção. O funcionário de serviço ergueu os olhos do ecrã do PC onde via um site porno, dizendo em tom de enfado - Vens atrasada! Ele está no quarto 105 e já telefonou duas vezes...

Ela recebeu a chave sem uma palavra e subiu as escadas até ao piso superior. Em frente á porta do quarto fez uma pausa, enfiando os dedos pela cabeleira longa que lhe dava um ar selvagem (diziam alguns dos clientes). Abriu a porta, e com um aceno saudou o tipo incaracterístico que se encontrava em cima da cama, vendo TV apenas em cuecas e peúgas.

Pousou a maleta sobre a mesa abrindo-a, enquanto se recordava da sensação de prazer que lhe dera o imaginar a textura da pele da miúda do autocarro.

Sentia-se levemente excitada e alguém iria pagar por isso. O seu rosto iluminou-se com um sorriso angelical, enquanto carinhosamente lubrificava o chicote entrançado de modelo Turco...

Musica de Fundo
"Love Bites"Def Leppard


quinta-feira, 27 de novembro de 2003

Manhã Diferente
- The world in mirror shades -

Hoje baldei-me um pouco. Não foi muito, apenas uma hora mas chegou, pois basta-me desviar um pouco o meu trajecto para estar num mundo totalmente aparte.

Percorri a pé uma distância enorme só para ver se o mundo aínda existia. Tenho que o fazer amiúde, senão perco o contacto e arrisco transformar-me em algo que não quero.

Mas chega de filosofia barata.

Após cortar o cabelo enfiei-me no Café Central (todas as terras deviam ter um...), e longe dos olhares acusadores de familiares e nutricionistas amadores mandei vir uma queijada e um café.

Gradualmente comecei a aperceber-me de uma coisa interessante. Enquanto centenas de pessoas cirandavam atarefadas de um lado para o outro, havia uma percentagem que as observava como se estivessem a fazer uma espécie de estudo antropológico. E notei igualmente que um dos reformados que pululam por ali, se encontrava a observar-me com um ar intrigado, como se tivesse descoberto um espécime invulgar.

Realmente! Ás vezes dá-me a sensação que vivo em Twin Peaks.

Comecei a observá-lo também. E abdicando de toda a minha boa educação, fixei-o directamente para que se convencesse da minha atenção. É claro que não resistiu muito; desviando o olhar e deslizando para longe da vista.

Mas aí tornei-me realmente curioso, e liquidando a despesa saí para a rua atento ao que se passava em redor. Era verdade. Pessoas isoladas ou em pequenos grupos, observavam atentamente a mole humana que se espraiava alheada pelas ruas.

Lembrei-me de "A Máquina do Tempo" de Wells em que os Morloch vigiavam os Eloi, mas apenas por deformação literária, pois duvido que o reformado me quisesse devorar.

Pensando bem e pelo rumo que as coisas andam a tomar, não me admiraria que daqui a uns anos hordas de reformados percorressem as artérias menos movimentadas, armados de facas e mocas; em busca de um desprevenido passeante que lhes complementasse a dieta pobre em proteínas.

Mas já estou a divagar outra vez... deve ser da idade. Vou andando, que aínda tenho que passar pela Cacipesca. Têm lá umas facas de arremesso muito interessantes, e nunca se sabe quando poderei vir a precisar...

Musica de Fundo
"Kashmir" - Led Zeppelin

quarta-feira, 26 de novembro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (24)
- Epístola da Incerteza -

Mais uma vez tive hoje a tentação de não escrever. Não só porque tenho tido imenso trabalho, como por estar a meio de uma crise de criatividade. E Blog é um deus péssimo no que toca á tolerância para com as fraquezas humanas.

Olhando ali para trás, ainda me lembrei que podia escrever sobre Anaïs, June e Henry. Mas desde que perderam a sua conotação política e se provou a sua origem oriental, os meus peixes deixaram de ter piada. Henry é um bom nome para escritor... mas para peixe é tão insípido como o sabor do dito após grelhado sem sal.

Impaciente, chateei Blog (o que não é muito saudável) com os meus problemas. Como sinal da vontade divina, minutos depois entornava um copo de café por cima das calças; felizmente estava quase frio e foi do lado direito, por isso não coloquei nada em perigo.

E foi então que cheguei á conclusão, que a minha relação com esta página se estava a tornar numa espécie de obrigação conjugal. Por isso a partir de agora escreverei apenas quando me apetecer.

Não vou sequer ligar quando me perguntarem para quando o próximo texto. Vai ser apenas quando me der gozo, estiver para aí virado e não me doa a cabeça. Não vou mais fazer assunto ou perder tempo á procura de temas para escrever.

A partir de agora este blog seguirá em frente, mas num passo calmo e elástico como os poemas de Alberto Caeiro; ou como um par de namorados passeando á beira mar.

Por isso meus Irmãos, que Blog vos abençoe e até amanhã! Se calhar...

Musica de Fundo
"Everything Counts" - Depeche Mode

terça-feira, 25 de novembro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (Pecados Avulsos)
- Os Benefícios da Ira -

Blog sabe que tenho mau feitio... Não só Blog como uma data de gente; o que vai desde desleixados empregados de mesa a ex-patrões, embora estes últimos sejam os meus favoritos. Especialmente se me ficarem a dever dinheiro...

E é por isto que vos digo, irmãos. Quem nunca conheceu o sabor ardente da ira, não sabe o que é um pecado a sério. É claro que me virão logo dizer - Então e a luxúria? - A luxúria meus caros, é apenas uma espécie de amor mais pobrezinho; e hoje o tema é pecado, o que não se coaduna com o amor.

A ira é pois o pecado que dá mais rotação aos nossos sistemas autónomos. Desde o cardiovascular que fica limpinho como uma canalização a estrear, até ao nervoso que sob a acção deste "booster" fica parecido com uma máquina de flippers da Bally, e eu sempre adorei flippers.

E perguntareis vós (com toda a razão, aliás) - Porque está este tipo irado?

Na verdade, por nada. Blog sabe quão difícil é obter o nada absoluto, mas ao que parece o nosso governo após hercúleos esforços conseguiu obtê-lo, e proporcioná-lo-á a todos nós mediante uma módica tarifa durante os próximos dois anos.

Quem se deu ao trabalho de ler os arquivos, saberá decerto que não sou fã do homem do nariz divertido. Mas esperava pelo menos da parte dele um pouco daquele estilo dinâmico que caracterizava o seu correligionário antecessor (o tal que se babava pelos cantos da boca durante os discursos). Pelo menos esse tinha-nos deixado com o suficiente para sermos roubados durante dois mandatos do PS, e ainda estarmos vivos neste momento.

Infelizmente, acho que a história não se repetirá.

E então direis vós - Este tipo começou a divagar e já se perdeu do assunto...

Não, meus caros. É aqui mesmo que quero chegar. Como já repararam a oposição é composta por um bando de passivos sodomitas, cujas tendências sado-masoquistas os fazem recair sistematicamente nos mesmos erros. Ora como toda a gente sabe, bater num masoquista é pura perda de tempo; por isso não me vou referir mais a eles.

Resta-nos então o governo.

O governo é uma dádiva de Blog. Um presente envenenado, dirão uns; ou pura e simplesmente um caldo de cultura onde todas as bactérias são malignas, dirão os mais esclarecidos.

E é aqui que Blog entra. Não só porque nos dá um alvo para a nossa ira (as tais bactérias), como devido á natureza dos referidos seres nos despenaliza o nefasto impulso, transformando-o na ira dos justos ou com maior propriedade a Ira de Blog. E de uma cajadada matamos dois coelhos (ou se calhar, mais...).

Descarregamos a frustração de não ter alternativa em quem votar, vingamo-nos (embora fracamente) desta sangria a que fomos submetidos até agora sem resultados palpáveis, e mais importante de tudo... A partir de agora é a sagrada missão de qualquer seguidor de Blog, usar a sua ira para malhar nesses tipos. Não só porque é gratuito, mas principalmente porque depois do fim deste ano fiscal, será o único luxo a que nos poderemos dar durante muito tempo.

Musica de Fundo
"Rebel Yell" - Billy Idol

segunda-feira, 24 de novembro de 2003

No Cantinho com o Leitor
- Texto escrito de costas para a parede -

Já há muito tempo que não recebia tanta correspondência, isto não contando sequer com as duas mail-bombs que tive que apagar no server.

Quanto ao empolgado leitor que se intitula membro da Coordenadora Nacional Revolucionária; espantou-me que alguém revolucionário me chamasse "porco comunista" até ver o logotipo no vosso site. Posso assegurar que a imagem de um gládio suspensa sobre as cinco quinas, me sugere de imediato agressão e não protecção á pátria mãe.

Aconselhava-vos uma mudança, ou para um par de gatinhos ou talvez um ramo de malmequeres. Iria captar mais eleitorado para a CNR. Mas adiante, que não tenho o dia todo.

Não fazia ideia que existiam no nosso país tantos estudantes de Germânicas, musicólogos e homossexuais. E já que não consigo responder a todos pessoalmente como gostaria (no caso dos últimos, acho que não gostaria mesmo...), fica aqui um pequeno resumo do que tenho a dizer sobre o assunto.

1 - Nunca me faço passar pelo que não sou (isto para responder àquele eminente filólogo que teimou por três vezes em escrever Goethe com dois "tês"), ou em casos extremos documento-me cuidadosamente se tiver que ser.

2 - Não aceito comentários de musicólogos sobre os Cebola Mol (e já vos tinha avisado). Pelo que se aquele melómano que me insultou várias vezes de "paneleiro iconoclasta", pegar no texto que enviou e o ler novamente; verificará que ao comentar que as composições dos Cebola Mol não são música, retirou a si próprio a autoridade para o fazer.

Não só isso como o facto de se chamar Margarido, leva-me a crer que na sua juventude não tendo sido um marrão (tal como está explicado no post anterior) devia decerto "atracar de popa". E não baseio isto em julgamentos vãos. Simplesmente acho que um homem que faz citações retiradas de letras dos Erasure, deve ter graves problemas a nível do esfíncter.

3 - O prémio da melhor interpretação decerto iria para o leitor que nunca leu o libretto; tendo inferido que a flauta mágica seria um artefacto que todos buscavam, pois restauraria a virilidade daquele que a achasse.

Realmente é um esforço magistral de imaginação, mas nem Sarastro nem Papagueno deviam ter falta daquilo que está a pensar. De qualquer modo, se teima em perseguir essa quimera aconselho-lhe as pílulas azuis, que além de darem bom resultado se vendem em qualquer farmácia; evitando que tenha que atravessar também a parede de fogo e eventualmente chamuscar os seus "boxers" favoritos.

4 - Àquele estranho ser que me enviou o número de telemóvel e assinou como "Rainha da Noite", tenho a dizer que gosto imenso de encontrar dentro da embalagem exactamente aquilo que vem descrito no rótulo. Ou seja, "Rainha da Noite" nos tempos actuais não só me lembra a Flauta Mágica, como me lembra um certo tipo de flautistas que quero manter afastados. Tão certo como evito passar pelo Conde Redondo á noite.

Este comentário deve-se principalmente ao facto de o leitor(a) achar o guarda-roupa "lindo de morrer", especialmente a fatiota do Papagueno com aquelas penas no traseiro.

Não admira que a ópera no nosso país ande tão por baixo, realmente não há condições.

5 - A Cátia do Fogueteiro escreveu-me também, mas para dizer que na sua profissão a técnica era realmente a parte mais importante do desempenho, e que não se importaria de mo demonstrar em tempo e local a combinar.

Minha querida menina... Não tenho dúvidas que a sua execução do imortal "Quebra Nozes" de Tchaikovsky, me ficaria na memória até ao resto da vida. Mas como sabe sou um tipo de meia idade, e apreciar a arte na sua plenitude iria reflectir-se na minha vida pessoal; não só por causa do preço a que andam os bilhetes, como também pela hora tardia a que acabam esses espectáculos.

6 - A maior parte dos estudiosos da língua Germânica que me escreveram, despertaram em mim a suspeita que ou as fundações do estudo da filologia foram muito abaladas ultimamente, ou a maior parte deles não passam de impostores que vêm para aqui fazer-me perder tempo.

Digo isto porque para um estudioso da língua de Heinrich Böll e Max Frisch, não é muito digno sugerir que Pamina se teria ajoelhado perante Sarastro com outros intuitos menos dignos. Não me admira agora que nas festas de "Queima das Fitas" só se ouça Quim Barreiros e ENAPÁ 2000.

7 - Da Direcção de Programação da TVI recebi um ofício-convite, para uma reunião de avaliação de argumentos de novela. Em que teria que apresentar uma maqueta para o episódio piloto de "Papagueno e a sua Flauta Mágica" a emitir depois das 23h aos fins de semana.

É óbvio que não irei. Já estou tão mal visto na vizinhança, que a minha imagem não resistiria a mais este descalabro. Para mais, encontro-me em regime de contrato exclusivo para elaboração dos scripts para "Delírios Orientais", uma produção PRIVATE.

Venho por último informar que foi a última vez que comentei ópera neste Blog. Além de dar um trabalhão, granjeou-me mais inimigos que inúmeros anos de vida política activa.

Talvez seja mais interessante dedicar-me ao Disco Sound...

Musica de Fundo
"Ring My Bell" - Anita Ward

domingo, 23 de novembro de 2003

Relato da Manhã de Domingo
- Desta vez com Alemão para ser mais fino... -

Lembro-me de um dia ter ouvido dizer a alguém que a ópera Alemã não tem alma. Foi há muito tempo... senão teria imenso prazer em responder a essa besta, mas faço-o na mesma porque me apetece e porque é o que estou a ouvir agora.

“O zittre nicht, mein lieber sohn!” – Nem me dou ao trabalho de ir ver ao dicionário o que significa. Basta-me ouvir para que compreenda, mesmo que metade daquilo me soe desconhecido. No meu tempo só os marrões e os maricas estudavam alemão (isto é um dado histórico, pelo que dispenso respostas por mail), por isso os pormenores passam-me de tangente.

Quando se consegue compreender algo numa língua que nunca se aprendeu, é porque existe algo de mágico em todos aqueles sons. E pelo que sei, naquela altura o autor estava sempre nos Tops. É claro que o facto de eu gostar igualmente dos Cebola Mol, vos provocará uma certa estranheza. Mas que querem? Sou ecléctico...

Ao afastar-se o trovão que acompanha a Rainha da Noite, começa a notar-se o sofrimento que a aflige. E Cristina Deutekom sabe imprimir a esse personagem, toda a carga emocional que o acompanha. Tal Como Stuart Burrows em Tamino, o tipo que procura sempre algo que lhe é negado sistematicamente.

Ninguém pode acusar a língua alemã de ser alegre, mas isso não é importante para a arte; o sentimento sim.

Mas há aqui ao lado gente muito melhor credenciada que eu para falar disto, e eu sou um tipo de intuições. A técnica para mim só é importante no meu trabalho; no dos outros aprecio antes o resultado, que neste caso é fabuloso.

“Herr, ich bin zwar Verbrecherin” – Quase consigo ver Pamina a ajoelhar-se perante Sarastro. Mais um desencontro. Decididamente estes Alemães nasceram para sofrer e partir cabeças, ao fim devem chorar como crianças.

“Der Hölle Rache” – (a minha favorita) Sem dúvida uma mulher que canta como uma ave deveria ser amada. A Rainha da Noite grita o seu desespero ordenando a Pamina que mate o seu inimigo. Termina delirante, perdida de emoção.

“Ach Ich Fühl’s” – Pamina está “á rasca” mas só os fagotes e os oboés a consolam. Na realidade Tamino não preenche as expectativas. É recorrente. Nem Papagueno esse palhaço emplumado, parece ligar-lhe. Chegam os leões de Sarastro. Realmente há vidas sem sorte.

Imagino o que seria se na TVI alguém falasse alemão...

“Tamino Mein! O Welch ein Glück!” – Finalmente transformada em heroina, Pamina assume o seu papel como qualquer mulher forte que tem uma missão a cumprir. Invoca o raio e a tempestade, provando que é uma digna filha da sua mãe. Protegida pela “magia da musica” atravessa a parede de fogo juntamente com o seu amado (momento patrocinado pelos Bombeiros Voluntários de Cacilhas).

“Pa Pa Pa” – Tive dois periquitos assim; passavam o tempo todo nisso. Acho que o Wolfgang devia ter uma gaiola em casa, onde os periquitos também passavam o tempo a fazer “Papagueninhos”.

“Die Strahlen der Sonne” – Sarastro invoca novamente aquela treta maniqueista da vitória do Sol sobre as trevas. Iniciando a dança solar acompanhada de fanfarra. Cantam a eterna união entre a Força a Sabedoria e a Beleza, terminando numa triunfal cadência final.

“Apenas o homem pura e simplesmente culto ou o bárbaro absoluto são incapazes de a apreciar”
(Alfred Einstein – Musicólogo)

E acaba aqui, pois estão a chamar-me para almoçar.

Musica
“A Flauta Mágica”Wolfgang Amadeus Mozart
(Wiener Philharmoniker – Sir Georg Solti)

sábado, 22 de novembro de 2003

O Incidente Virtual
- Vidas electrónicas -

O motivador pendurou o casaco de malha nas costas da cadeira. Sentou-se ajeitando os óculos colados com fita adesiva, o que lhe dava um aspecto nerd. Já não era novo, mas o trabalho que desempenhava não requeria juventude.

Era um fabricante de avatares para o sistema interactivo de correspondência, a sua imaginação era alimentada por longos anos de vida solitária e em reclusão. A sua pele raramente via sol, o que em conjunto com os exercícios obsessivos o faziam ás vezes parecer uma das suas criações.

Nesse dia o sistema estava em modo debug, pelo que o trabalho era mínimo e não requeria grande concentração, excepto talvez alguns ajustes ás características requeridas por utentes um pouco mais exigentes que a média.

Começava a aborrecer-se, o que naquela profissão poderia conduzir a um bloqueio criativo e isso não seria bom para o serviço. Decidiu contra tudo o que era hábito, experimentar o sistema em modo de utilizador; e tirando os óculos envergou o capacete com os eléctrodos sensores, ajustando os leds de visão para as suas 6 dioptrias.

Calçou as luvas e inicializou o interface com um suspiro. Finalmente iria verificar a eficiência do seu trabalho.

A princípio as imagens custavam a formar-se, não só devido á sua inexperiência como utilizador, como á falta de motivação pois fazia-o por desfastio. Mas a pouco e pouco, uma estrada poeirenta começou a assentar numa paisagem árida, como uma fita de cetim sobre papel de embrulho amarelo.

Ouviu um ruído estranho de fricção. Ao virar-se deparou com um pequeno iguana verde que o fitava com os seus olhos vivos.

Não gostava de répteis e apagou-o. Lembrou-se que gostaria de ter uma moto para percorrer a estrada, e materializou uma norton com side-car. Algo estava errado com as configurações, pois o side-car não tinha espaço para passageiro e as rodas eram um pouco grossas demais. Teria que correr novamente a rotina de desenho técnico quando saísse do sistema.

Sentou-se e premiu o botão de arranque (um anacronismo desculpável) pondo-se em marcha.

Sentiu o vento seco que lhe secava a pele branca mas não se importou. Ali podia correr todos os riscos que quisesse, as leis da física não se aplicavam como no mundo exterior, e isso dava uma sensação de impunidade que era um dos maiores atractivos do sistema.

Alguns pontos do cenário não estavam ainda completos, apresentando o substrato em forma de grelha característico do desenho base. Não ligou, era por pouco tempo...

Acelerou o veículo até ao máximo que permitia o sistema, a visão tornou-se um pouco difusa por causa da taxa de refrescamento da imagem, mas a rotina de antialiasing tratou de compensar com um aumento de processamento á velocidade da passagem dos frames.

Pelo canto do olho vislumbrou outro motociclista, vestido com um casaco de pele de carneiro e um capacete metálico pintado de prateado. Possivelmente um outro utilizador que se teria introduzido no cenário por acaso,

Acenou uma saudação. O outro não correspondeu e deixou-se ficar para trás, perdendo-se na paisagem. Não interessava. De qualquer modo não estava ali para fazer vida social.

Tentou abrandar o veículo, mas este não obedeceu. A velocidade aumentava embora a estrada não parecesse mexer-se; os componentes da paisagem começaram a desagregar-se deixando a grelha a descoberto. Possivelmente uma carga excessiva no processador de imagem.

A moto desintegrou-se em miríades de pixels coloridos, deixando-o suspenso enquanto tudo se desfazia em direcção a um ponto luminoso no início da grelha, como que sorvidos pelo ralo de uma banheira.

Olhou em redor constatando que a própria grelha se desagregava, dobrando-se sobre si própria em direcção àquela espécie de fornalha electrónica.

Subitamente tudo se apagou. E gradualmente foi perdendo a consciência, como num desmaio ou no limiar do sono.

No gabinete, as luzes piscaram voltando finalmente após a falha. Os técnicos correram para o mainframe tentando rapidamente fazer um cold boot. O ar condicionado voltou a funcionar.

Na cadeira, apenas o casaco de malha demonstrava a incerta presença do motivador...

Musica de Fundo
“Take California”Propellerheads

O Serial Killer da Blogosfera
- Um cheirinho de serviço público -

Meus amigos, tive conhecimento há pouco de um estranho caso que se está a passar no nosso meio.

Segundo parece, um tipo aparentemente inofensivo mantém uma página de Web Log com uma prosa corrida e diária. Embora muita gente lhe escreva, ás vezes uma ou outra mulher solitária acaba por corresponder-se com ele.

Começa por lhes captar a confiança com a sua timidez e modos polidos. Nunca aceita convites de inicio para conhecer pessoalmente as suas correspondentes, que estimuladas pela aparente honestidade e bom senso, acabam por insistir e finalmente conseguem encontrar-se com ele.

Marca sempre almoços em restaurantes diferentes na periferia de Lisboa, e durante a refeição tem uma conversa agradável e modos suaves. Nunca as suas vítimas alguma vez suspeitaram do perigo que corriam...

Nem todas as que se encontraram com ele desapareceram, o que leva os investigadores a pensar que isso se deve a uma fixação num certo tipo de mulher, que lhe despoleta memórias traumáticas e todo um mecanismo de reacções violentas.

A sua última vítima conhecida, uma jovem advogada de 1,76m cujo corpo foi descoberto há dois dias na Praia do Guincho, acrescentou um dado novo ao já longo processo que se construí á volta deste caso; indiciando que a sua fixação é em mulheres altas de longos cabelos, o que poderá ser útil para a sua eventual captura.

A este momento desconhece-se qualquer evolução neste caso, pelo que ficam aqui alguns conselhos:

1 - Se é mulher e a sua compleição corresponde á descrita, evite a tentação de contactar com um desconhecido por mais culto e sensível que lhe pareça.

2 - Nunca forneça algum contacto pessoal por e-mail, e sob nenhuma circunstância aceite encontrar-se com alguém que não conhece, mesmo que a sua intuição lhe diga ser alguém inofensivo e de bom trato.

3 - Sabe-se de fonte segura, que alguns dos habitantes da Blogosfera não são realmente aquilo que parecem ser, conhecendo-se alguns casos de episódios arrepiantes resultantes de hábitos anti-sociais por parte de alguns deles.

Este aviso engloba igualmente o proprietário deste Blog. Tenham cuidado! Até eu posso na realidade ser o famoso Serial Killer...

Musica de Fundo
“Pulcinella” - Igor Stravinsky

quinta-feira, 20 de novembro de 2003

A Liberdade Efémera Dói!
- Monólogos Maniaco-Depressivos -

Talvez este seja um Post triste, mas quero contar-vos o meu dia.

Saí de manhã cedo. Na auto-estrada apressavam-se todos na direcção de onde eu vinha, inexplicavelmente, porque nada há ali que o justifique.

Parei num local algures. E enquanto bebia café, observei homens transportando carris de comboio, colocando-os uns frente aos outros como se daí adviesse realmente a união entre os povos. Mas era mentira, claro! Senão o sindicato não andaria a distribuir folhetos.

Mais tarde, após de eliminar a habitação a duas famílias com um traço de lapiseira, pusemo-nos em marcha. A manhã estava fresca. Para trás ia ficando estrada e problemas técnicos resolvidos.

Entrámos no desvio do tempo.

Pela janela desfilavam árvores que não identifico. - Para mim são todas árvores, excepto os pinheiros que têm agulhas que ferem os joelhos a quem se deita na mata. – Num céu irrepreensivelmente azul, dois jactos traçavam linhas rectas, como um desenho a giz num vidro fosco.

Não sei durante quanto tempo olhei. É uma sensação própria do desvio do tempo. Sei apenas que o Sol, era muito diferente do formato digital a que me habituei na minha reclusão diária. Ali era quente... ou então era apenas eu que estava frio.

Saímos do desvio numa terra estranha. As pessoas falavam pelo nariz como num congresso de fanhosos; mas os charutos eram baratos. E a tapa de presunto que comi decerto que não me irá fazer mal, apesar de me terem garantido ser de velhota.

Saímos á pressa desse estranho local carregando ainda um quadro a óleo, mas felizmente não fui eu que o comprei. Na minha família o mau gosto é duramente punido... voltámos ao desvio do tempo e almoçámos numa esquina de uma estrada de pó.

Uma figueira tombava os seus ramos num abraço sobre a ementa. O boneco que a segurava devia ter sido roubado a um oculista, pois além de óculos usava bata branca e era calvo. Mas era um boneco inútil, porque o prato do dia se tinha já esgotado.

O arroz de pato estava óptimo, e segundo o meu acompanhante a empregada também. Mas esta usava uma aliança grossíssima, que me impedia de ver o que mais fosse. Além do que, o arroz de pato estava realmente óptimo...

Passei a tarde passeando pelo esqueleto de um futuro edifício. Vi onde assentavam as artérias e as vísceras; umas fazendo entrar fluidos, outras fazendo sair outros. E os nervos que acenderiam as luzes como orgasmos eléctricos. A pele era branca com sombras de azul nos numerosos olhos, como convém a um hotel no Alentejo.

Parámos de saída na cidade ao lado. Numa roulote bebemos imperiais e apreciámos a colecção de copos raros que acompanhavam o feirante. Nunca paro de me surpreender.

Afinal o termo “uma vida de copos” tem alguma verdade no seu conteúdo semântico, pois entre os quatrocentos existentes vi seis que me recordaram algo; antigos e poeirentos como memórias guardadas num aparador de sala.

A noite caíra já. No regresso rodeámos uma torre medieval e atravessámos um túnel enorme, onde em tempos terão á pressa empurrado canhões para conter um inimigo. Mas nada disso interessava, pois entráramos novamente no desvio do tempo e pude pensar.

O céu escurecido parecia lápis-lazuli ou giz para tacos de bilhar, tal era a dolorosa intensidade da cor. Preparei-me para desembocar rapidamente nas luzes habituais de onde moro, mas ainda tive uma última surpresa.

Subitamente no céu, uma estrela cadente imprimiu um risco esverdeado que logo se sumiu. Tentei formular um desejo, mas tinha tantos que decidi não o gastar.

Decerto nessa altura alguém precisaria dele mais que eu...

Musica de Fundo
“Drive”The Cars

quarta-feira, 19 de novembro de 2003

O Cromo Carimbado
- Maravilhas do Mundo Animal -

Acabei há pouco de despachar as últimas tarefas, e se querem saber mesmo não estava com pachorra alguma para escrever um post. Normalmente quando tenho muito trabalho a inspiração vai-se. Aliás como toda a gente sabe, o trabalho intelectualmente repetitivo destroi a mente, pelo que o meu cérebro neste momento já deve estar parecido com uma couve de Bruxelas.

E também escrever sobre o quê? Sobre sexo? Queriam... mas o famoso conto sobre as aventuras eróticas das gémeas da loja de gelados, fica mais para o Verão que agora já começou o tempo frio.

Restava-me rebuscar nas minhas memórias; mas hoje também não estou numa de confidências, e devido ao cariz do meu dia apetecia-me malhar em alguém. E foi então que me lembrei do Cromo.

O Cromo tem nome. Mas infelizmente como é um nome vulgar, a sua menção poderia prejudicar injustamente os milhares de pessoas normais que compartilham o mesmo, pelo que me abstenho de o nomear aqui.

E então foi assim que um belo dia, eu e meu amo fomos lançados na pista de um bom negócio na Região Litoral Centro, que se veio a revelar mais tarde parecido com aquelas promessas que o Cherne fez e não cumpriu.

No processo de abordagem ao problema, acabámos por ter que almoçar com um dinâmico empresário da zona. Foi assim que descobri a mais curiosa subespécie de pato bravo - "O Homem do Mundo". Extasiado assisti á exibição da sua plumagem, ao seu grasnar melódico e aos seus vastos conhecimentos de Cultura Geral e Alta Sociedade.

Contou-me da sua viagem á China Continental, dando-me conselhos sobre o modo de conquistar Chinesas, que segundo ele são tímidas mas caem que nem tordos se usarmos o método certo. Para ilustrar este ponto de vista, mostrou-me algumas fotos das suas conquistas; para azar dele não sou tão estúpido como pareço.

As fotos eram de um concurso de Misses em Macau, tal como atestava um indiscreto cartaz bilingue em "Chinoca" e em Inglês. Aparentemente ele tinha a vista fraca.

Mas isso para mim era trocos. Na minha vida profissional passo o tempo a ouvir tipos a gabarem-se de tudo e mais alguma coisa. Desde terem iniciado a vida sexual activa aos 11 anos, até proezas incríveis só recentemente igualadas nos filmes dos irmãos Wachowski.

Mais ou menos pela altura do digestivo, como é hábito saquei a charuteira e tirei um "Flôr de Cano" perguntando-lhe se gostaria de fumar o outro. Ele achando que ou não tinha ainda contribuído o suficiente para o bom humor geral, ou que eu por fumar charuto estava a armar em fino, fez um pequeno esforço e extraiu mais uma jóia da sua colecção.

Há tipos que quando começam a mentir têm a mania de improvisar, e isso não é nada eficiente. Uma mentira deve ser elaborada a preceito, com programação e cronograma financeiro. Um tipo que improvise pode muitas vezes dar por si em situações equivalentes a ser apanhado todo nu no meio do Rossio (ou pior, para os lados do Parque Eduardo VII).

E foi o que aconteceu ao nosso cromo carimbado. Começou a papaguear marcas e locais, em conjunto com aquelas generalidades decerto disponíveis no suplemento de Sábado do Correio da Manhã, e para ilustrar a sua refinada vivência disse a dada altura em relação aos Monte Cristo N.º 1 (Torpedo) – Esses por acaso só fumava quando ia comer ao Tavares Rico! – após o que se dedicou a palitar os dentes, com o pau de fósforo com que tinha arruinado o charuto que eu lhe dera.

Cumpre-me avisar todos vós que, homem que espeta palitos ou paus de fósforo num bom charuto, para mim está ao nível de quem bate em crianças ou rouba a reforma a velhinhas viúvas e indefesas. E ele ainda por cima palitava os dentes com a arma do crime...

Tive uma daquelas inspirações que ás vezes me ocorrem. Mas desta vez não foi Blog, tendo sido apenas fruto do meu mau feitio.

Muito casualmente, como quem não quer a coisa perguntei-lhe – Costuma ir almoçar ao Tavares?

- Sim! Há mais de vinte anos que somos amigos! – retorquiu o sultão do Jet Set, ufano de me ter maravilhado com os seus conhecimentos. E eu com requintes de malvadez, voltei á carga – Mas de quem? Do Tavares?

- Claro! – confirmou ele – do Tavares Rico! Então você acha que o restaurante tem aquele nome por causa de quê?

Como bom convidado, enfiei a viola no saco e acabei discretamente o Curvoisier. Como se costumava dizer em Alfama há muito tempo “malandreco não estrilha...”

Já a caminho do escritório vinha recostado para trás no banco, e recordei a conversa. Recordei também que em cem anos, nunca um proprietário daquela casa se chamou Tavares, nem sequer Rico; tendo o nome sido herdado (segundo dizem) de um Galego que tinha uma tasca naquele exacto local, antes de terem construído o restaurante.

Recordei-me também da expressão alegre e vitoriosa de Miss Coloane, rendida pressupostamente aos encantos do industrial da Construção Civil, e soltei uma sonora gargalhada.

- De que é que te estás a rir? – Perguntou o outro industrial que eu acompanhava.

- Nada... Lembrei-me de uma coisa engraçada...

Musica de Fundo
“Mestre de Culinária”Quim Barreiros

terça-feira, 18 de novembro de 2003

Delírios

Estar doente é um pouco como estar apaixonado. E em certos casos até, menos desgastante ou duradouro.

É claro que, embora ambas as situações possam eventualmente conduzir á morte ou á incapacidade em pilotar aeronaves; uns comprimidos ou umas injecções contra a paixão (em casos extremos talvez até supositórios), seriam uma arma de eleição para a panóplia do apaixonado do século XXI.

Mas lá estou eu a divagar... estávamos a falar de doenças.

Continuando o paralelismo (deixem-me beber aqui um bocadinho de chá...), vejo o mundo através de uma névoa enquanto o meu corpo se move pelo dia a dia, de um modo apenas comparável talvez ao sonambulismo ou a um haxixe Libanês de boa qualidade. Estão a reconhecer os sintomas?

Garanto-vos que já tive paixões assim! Nos velhos tempos não só me pouparam um dinheirão em "produto", como em resultado disso me safaram do duche colectivo em Vale de Judeus.

Mas enquanto a paixão é uma droga a doença é apenas um incómodo, e por tal muito menos perigosa e principalmente mais controlável; se excluirmos do caso do Ebola que não tem comparação.

Mas esta constipação faz-me realmente divagar á toa. Dou por mim abstraído da realidade e a olhar em frente sem ver nada, com os olhos postos no vazio; isto até ao próximo espirro, claro.

Este xaropezinho que vou tomar, se além da garganta irritada também curasse ciúmes e rejeição faria a fortuna da Beyersdorf. Mas o que me interessa agora é o pingo no nariz que me faz fungar como se lacrimejasse de amor.

Repentinos acessos de calor assolam-me o rosto, provocando um aumento cardíaco e uma respiração irregular. Esta "Ânsia da Paixão" segundo a Dr.ª Inês, é apenas uma febre passageira embora intensa; e eu acredito nela.

A prová-lo está o facto de hoje se parecer com Ganesh o simpático Deus-Elefante, que com a sua tromba rosada sacode o termómetro comentando - Hummmm!... trinta e nove... Só pode ser amor!...

Musica de Fundo
“Relax”Frankie Goes to Hollywood

segunda-feira, 17 de novembro de 2003

Aviso!

Hoje não há Circo!
O urso está constipado.


domingo, 16 de novembro de 2003

O Discípulo Sorridente do Jesus Eléctrico
- A cada porta um irmão -

De manhã esteve uma ventania enorme, mas peguei na pedaleira e fui dar uma volta. Consegui fotografar bombeiros a serrar eucaliptos que descansavam sobre automóveis e fiquei com folhas e pedrinhas na minha roupa interior.

Para culminar esta manhã gloriosa, quando dava a curva na rotunda da Lisnave uma rajada de vento ciclónico (ou ciclópico, porque eu mal conseguia abrir os olhos) quase que me conseguiu levantar da estrada, fazendo com que tivesse de transportar o velocípede á mão.

Isto apenas para que imaginem a disposição que eu tinha antes do banho.

Estava eu a tirar um raminho de um sítio deveras incómodo quando a campainha soou. Vizinhos era duvidoso (dormem até tarde), o Apóstolo devia andar a passear o “Feroz”, e as Testemunhas de Jeová já tinham passado palavra de que ali residia um perigoso herege. Não dava mesmo para adivinhar quem seria...

Espreitei pelo óculo. Um bolboso globo ocular fitava-me com ar curioso.

A princípio pensei que algum dos peixes do escritório se tivesse soltado, e contendo a respiração tivesse saltitado até minha casa; mas a medicação anda a dar resultado e já não acredito nessas coisas.

Para mais, a pele escamosa que rodeava o olho era de um tom leitoso como a barriga de um réptil. Abri logo! Podia ser o Michael Jackson...

Quase que fui esbofeteado com um folheto azul da Cabovisão. Olhei-o com ar escandalizado. Se há coisas que deviam ser proibidas pela Convenção de Genebra, uma delas é fazer porta-a-porta da treta a um domingo.

- B’dia – disse o bolboso albino – venho falar-lhe das vantagens do nosso package doméstico!

Já que ainda estava em calções e peúgas turcas decidi passar por idiota; afinal a farda servia perfeitamente. Cocei o peito peludo, fiz sair um bocado o estômago e proferi – Atão digalá... – Num primoroso sotaque alentejano (é um dos meus favoritos).

Feliz por poder expandir a Verdadeira Fé, o indivíduo abriu a matraca e começou a citar de memória preços e velocidades (alguns deles nitidamente inventados para a ocasião), enquanto intervalava ocasionalmente para repetir até á exaustão as vantagens do seu “pacote” sobre o da concorrência.

Utilizando a minha conhecida “técnica de desgaste” e deixei-o cansar-se.

Parou finalmente quase em apneia, e fitou-me interrogativamente. O que, em conjunto com a falta de ar lhe dava um aspecto deveras patusco.

Imitando o Adão de Miguel Angelo, apontei o indicador direito para cima e perguntei – Está a ver aquela tampa?

- Qual tampa? – perguntou ele e muito bem. É que a caixa de junção na escada não tem tampa. E então continuei – Ainda bem que vê! Aquela tampa que falta está algures na mala de ferramentas de um técnico da Cabovisão. E aquela ligação extra que ali vê e que não está conectada, representa o ponto onde os vossos serviços ficaram no seu trajecto até á minha carteira.

E continuei antes que recobrasse o fôlego – Da última vez que um colega seu cá esteve, prometeu uma série de coisas que foram desmentidas pelos técnicos, como oferta de mensalidades extra, telefone sem fios, etc. Por isso, aquela união BNC é o mais próximo que alguma vez estarão de me convencer a ser vosso cliente.

Enquanto ele meditava nisto, fechei a porta calmamente. É que já tinha há algum tempo a água a correr para o banho, e o gás natural não é tão barato como dizem...

Música de Fundo
“mOBSCENE” Marilyn Manson

sábado, 15 de novembro de 2003

Bairro do Plano Integrado de Almada (P.I.A.)
- Crónica Suburbana -

Os chuis passaram por aqui duas vezes mas sem sucesso. O facto de virem fardados e no "Bufomóvel" afugenta toda a gente; ninguém lhes vai dar confiança ou a mínima informação.

Os carros deixaram já de arder na rua aqui a o lado. Já vi isto em tempos, e acho que é um prenúncio de coisas piores.

Algumas mães vieram buscar os filhos á rua. Não há como um par de estalos para ilustrar um bom ponto de vista; ao fim e ao cabo, até lhes será útil para o futuro que os espera.

Talvez seja do sacana do tempo, mas tudo isto se anda a parecer assustadoramente com o "Nineteen Eighty Four" de Orwell. Não sei bem se estarei a tornar-me paranóico, ou se será apenas do facto de esta janela ter grades e eu estar sempre a olhar por ela. Isso acrescido ao que se vai passando lá fora, sob a chuva.

Andam todos com um ar fechado e meio triste. Este tipo de acontecimentos só traz sarilhos, e é péssimo para o (pouco) comércio que aliás está gradualmente a fechar; todos os dias.

Só a "Madeirense" pequena como um jockey continua sorridente, apesar de todas as noites ir atacar para Lisboa e o cavalo lhe estar a chupar a carne dos ossos; mas irá morrer feliz.

Veio do pó e no pó terminará...

Música de Fundo
Sheena Is a Punk Rocker - Ramones

sexta-feira, 14 de novembro de 2003

2003 - Annus Mirabilis
- Escritos Íntimos -

Nos últimos dias, fui assaltado por um dos maiores terrores de qualquer macho de meia idade.

Talvez por ter exigido ao meu cabedal que se portasse sempre como uma máquina de guerra, agora estou a pagá-las em idas ao médico e pesadelos que não lembrariam a Jung.

Durante a penúltima consulta após me fazer um superficial exame de rotina, a Dr.ª Inês virou para mim a sua face que me faz sempre lembrar a deusa Shakti (a protectora das crianças), e articulou em tom cuidadoso. - Sabe?... Está na altura de começarmos a pensar "naquilo"...

O meu corpo foi percorrido por um frémito de horror, como se me tivessem despejado mercúrio pelas costas a baixo. - Mas Dr.ª... Parece-me estar em bom estado... Eu sempre tive muito cuidado. Mesmo na altura em que ninguém ligava muito a isso; e como sabe nunca apanhei nada!

O expressão pesarosa no seu olhar, garantia-me que não haveria fuga possível. Comecei a sentir-me desconfortável naquela cadeira; e quando ela me passou a credencial para a recolha de sangue, saí escondendo o rosto para que os outros pacientes não fugissem apavorados. Tinha-me passado uma análise ao PSA; e do resultado obtido dependeria a integridade da minha mucosa mais bem defendida.

Nessa noite mal consegui adormecer. De cada vez que o fazia, era vítima de um pesadelo recorrente em que um famoso apresentador de televisão calçava uma luva de borracha, enquanto me sorria com ar maroto...

Na manhã seguinte saí em jejum para a colheita de sangue, de qualquer modo não tinha apetite; deve ter sido a mesma sensação de assaltou Ana Bolena, quando finalmente descobriu que Henrique VIII era diferente das iluminuras.

Na clínica a enfermeira do costume perante o meu aspecto tenso, ainda tentou fazer conversa de circunstância mas eu estava preocupado. Deparava com indícios em tudo o que era local, até na sala de espera a TV transmitia um clip dos Village People.

Os dias que se seguiram passaram numa bruma alucinogénea, povoada de imagens estranhas de onde se destacava a Dr.ª Inês vestida de Madame Pompadour (com sinal no canto da boca, e tudo...), empunhando um gigantesco dispositivo para clister datado do século XVIII.

Finalmente ontem, percorri cabisbaixo o habitual caminho para a clínica. Á entrada a recepcionista recebeu-me cordial. Iria jurar que lhe apanhei um sorriso trocista, mas a pronuncia brasileira disfarça um pouco as entoações, e não pude concluir nada de peremptório.

Entrei no consultório e sentei-me sem cruzar a perna, não fosse estragar algo ainda mais. A médica leu o relatório das análises com um vagar deliberado, cumprimentando-me pela descida dos índices de colesterol e triglicéridos, elogiou ainda a minha glicémia e sorriu. Um sorriso alvar como o de uma orca antes de abocanhar a sua presa.

Estava tão suspenso das suas palavras que me escapou o significado, como se tivessem sido ditas nalgum dialecto antigo. Mas ela repetiu. - O índice é muito baixo. A sua próstata está óptima e recomenda-se!

- A Dr.ª. desculpe - solicitei eu - mas não se importaria de escrever isso em papel timbrado aqui da clínica? É que, sabe... uma carta de recomendação dá sempre jeito...

Musica de Fundo (pouco fundo)
Like a Virgin - Madonna

quinta-feira, 13 de novembro de 2003

A Pátria Honrai, Que a Pátria Vos Contempla
- ...mas se calhar é melhor não darem nas vistas... -

Malta, se há dias em que estou chateado hoje é um deles. Não porque tenha ficado teso antes do fim do mês, nem tem a ver com a minha vida amorosa (aí esqueçam, que isto é lido por menores), mas por causa da GNR.

Quer dizer... a culpa não é bem deles, porque embora possam todos (era bom, era...) ser grandes profissionais do seu ofício, no fundo são apenas os trolhas do poder executivo.

Mas quem é que disse àquelas almas que vão defender a pátria no estrangeiro? As Waffen SS sim. Esses defendiam a pátria no estrangeiro, e com um líder menos amalucado estariam neste momento a tentar anexar planetas em Delta Lirae.

Missão humanitária? Desde quando é humanitário ir ajudar tropas invasoras, a manter os indígenas na linha enquanto as empresas americanas lhes chupam o tutano. Por favor... Já que vão roubar, ao menos fiquem com parte do "bolo".

Não estou com isto a manifestar-me contra os soldados e graduados da GNR. As queixas que poderei ter contra eles são mais de teor cultural e cívico. Ao fim ao cabo também já fui novo, e também tive a tentação de me inscrever na Legião Estrangeira para ir ajudar os Franceses a livrarem-se dos Árabes no Norte de África (más leituras...).

Mas na altura era um adolescente tão parvalhão como qualquer outro; e é claro que o destino (ou a minha teimosia) encarregou-se de me proporcionar algo parecido. Aí aprendi! Aprendi principalmente que ser voluntário para lutar por outrém, só demonstra um fraco instinto de conservação e uma sexualidade reprimida; não necessariamente por esta ordem.

Será porque ganharão mais? Em princípio sim. Se ainda não mudou o sistema de remuneração das forças militares e militarizadas desde o meu tempo, decerto que ganharão mais que o dobro. O que nos conduz ao meu ponto final.

Pois então se são voluntários para lutar (ou manter a ordem, o que vai dar ao mesmo) contra um povo sitiado na sua própria terra. Se vão para essa missão porque na realidade ganham o dobro e pela excitação da aventura...

Chegamos finalmente ao verdadeiro título deste post:

Mercenários Portugueses partem para o Iraque!

Fundo Musical
"Orlando Furioso" - Antonio Vivaldi

quarta-feira, 12 de novembro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (22)
- Quem paga é sempre a Serpente -

Irmãos... eu nem sei como vos dizer isto, mas hoje o tema é a tentação, o pecado e sua origem.

Blog quando criou o mundo este era chato. Chato não só na verdadeira acepção do termo (porque se caía das bordas deste para o infinito), mas também porque não se passava nada. Todo o mundo era uma pasmaceira e o paraíso estava ás moscas e sem clientes, como se fosse alguma cervejaria de 3ª.

Como a maior parte de vocês já sabem, Adão andava pelo paraíso quase nu e a coçar-se. Uma daquelas comichões que por mais que se coce parece que vêm do interior e não passam. Ora um serafim de nome Lúcio Ferro vendo Adão nesses preparos (todo esfoladinho), um dia aproveitou a ausência de Blog e decidiu animar um pouco as coisas.

Ao princípio a ideia era clonar Adão para que tivesse parceiro aos matraquilhos e esquecesse a comichão, ou para que pelo menos mantivesse as mão ocupadas. Com a já lendária falta de intuição dos seres celestes, decidiu fazer umas pequenas alterações para que Adão o Segundo não tivesse tantas comichões.

Assim, primeiro eliminou a origem da comichão, e depois como medida de segurança redundante criou duas protuberâncias que dificultassem a visão do local. É claro que não funcionava tão bem como no papel, mas mais tarde se arranjaria alguma utilidade para elas...

Após conclusão do protótipo baptizou-o de E.V.A. (Enhanced vehicle allpurpose) visto que iria povoar o mundo, que como sabemos apesar de chato já tinha montes e vales.

Na noite que antecedeu o início da bateria de testes, já Adão 1 que era muito dado a experiências novas e não tinha nada que fazer talvez instigado pela serpente (que era o bode expiatório lá do sítio), decidiu saltar a cerca e começar a meter ideias estranhas na cabeça do seu futuro companheiro de brincadeiras.

Começou pelo inocente “se me mostrares o teu eu mostro-te o meu”, que após retiradas as respectivas parras se revelou uma surpresa; a partir daí a imaginação com que Blog os dotara ao início fez o resto. De modo que ao erguer-se a alvorada, o serafim foi encontrá-los deitados juntos a fumar descontraidamente um rolinho de barba de milho (ainda não tinham inventado as tabaqueiras).

A morte também ainda não tinha sido inventada. Pelo que Lúcio Ferro não pôde destruir o objecto da experiência, e teve que passar alguns dias a vê-los interagir pelo paraíso fora sem qualquer respeito pela decência, nem pela inocência dos animais que os começavam a imitar, como se estes fossem uma espécie de ídolos da bicharada.

O serafim retorcia-se de arrependimento (e de inveja), quando Blog regressou subitamente de um fim de semana prolongado no Paraíso Muçulmano, e deu com aquele instrutivo espectáculo. Estava o caldo entornado.

Dando largas ao seu mau feitio, deu dois pontapés na serpente (tadinha) e amaldiçoou Lúcio Ferro despedindo-o com justa causa, pelo que este foi obrigado a abrir uma sucursal num local inóspito e com pior vizinhança.

Virando-se para o par de transgressores, ainda perguntou – O que hei-de fazer com vocês? – ao que Eva, com aquela expressão malandra que ficou para a sua descendência, lhe respondeu – Não empates que temos muita coisa entre mãos...

Blog foi aos arames e condenou-os ao trabalho para terem mais com que se entreterem, e como bónus ainda dotou Eva com a funcionalidade das dores de cabeça ocasionais. Estava criado o matrimónio.

Após isso foi sempre a descer. O mundo arredondou-se. Os animais aproveitando a falta de guarda, piraram-se do paraíso e povoaram a terra. Felizmente Adão e Eva mantiveram a sua imaginação inicial...

Aparentemente nem tudo estava perdido. Mas só se poderá realmente saber daqui a uns milhões de anos.

Banda Sonora
“I Want You”Danko Jones

segunda-feira, 10 de novembro de 2003

Intervenção Política
- Parabéns Manel Tiago! -

Caros leitores, podem chamar-me comuna mas só até acabarem de ler; depois o prazo expira.

O Manel fez 90 anos o que por si só já é um prodígio. Podia chamar-lhe Álvaro, mas não me apetece. Não só porque tenho a mania da clandestinidade, como acho que foi antes de 74 a altura em que ele prestou o melhor serviço ao País.

Mas não venho aqui hoje fazer o elogio político desse simpático velhinho que parece o "Estrunfe das Sobrancelhas", venho sim desejar-lhe um feliz aniversário; coisa que a maioria dos seus contemporâneos colegas de profissão não merece.

Apesar de lá para o final da minha fase activista lhe ter ficado com malapata não o vou criticar, do mesmo modo que não nos queixamos de um comboio; pura e simplesmente desviamo-nos.

Dou-lhe ao menos o crédito, de ter sabido sair antes que se começasse a parecer intelectualmente com o Almirante Américo Thomaz. Infelizmente não posso dizer o mesmo de Fidel o rei da "Charutolândia", que neste momento deveria estar já a dar nome a uma marca de "puros", ou na TV a fazer sorridente um spot publicitário ao "Havana Club - Añejo".

O Manel teve juízo. E até pode parecer afectação da minha parte tratá-lo deste modo, mas trata-se de um dos tipos que admirei até meados dos anos 80.

Como vêm já me curei há muito tempo. Nunca cheguei a apanhar com os perdigotos do Carlos Carvalhas, nunca cheguei a saber para onde estava realmente a olhar o Vital Moreira e quanto ao Judas... há nomes que assentam como um preservativo...

Quanto ao Partido, acho que se deveriam fazer visitas guiadas para os miúdos do 1º Ciclo. Seriam levados a uma concelhia para verem as colecções de jarrinhas da Festa do Avante, as fotografias de ceifeiras a sério e ouvir durante três minutos (não mais) um "histórico" dissertar sobre a situação de Portugal e do Mundo em geral.

Seria realmente uma boa ideia, porque daqui a uns anos as entradas serão pagas. Não se pode gerir um museu sem fundos...

Conheço um tipo (o qual não denunciarei nem que me façam cócegas), que neste momento está a aceitar apostas sobre quem sobrevive a quem. Se Cunhal sobrevive ao PC ou o PC a Cunhal.

Por mim aposto no velho. Pelo menos tem um ar mais saudável que o partido.

Música de Fundo (Por altifalantes tipo corneta)
"Barnabé" - Sérgio Godinho

domingo, 9 de novembro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (21)
- É o dilúvio, meus filhos... -

Blog quilhou-nos!

Não contente em ter-nos enviado este governo, agora pela segunda vez e sem qualquer tipo de pré-aviso, enviou-nos o dilúvio. Ou isso, ou tem mesmo a canalização avariada...

Domingo é um dia sagrado. Não porque seja dia de algo religioso cá em casa (tomamos banho todos os dias, e não temos dessas coisas...) mas porque me levanto mais cedo do que é costume e vou fazer manutenção á minha carcassa.

Antigamente fazia Tai Chi. Mas passavam o tempo a confundir-me com um karateca qualquer, e só arranjava sarilhos. Passei então a pedalar; não numa dessas bicicletas que se põem em frente á televisão para ver filmes e comer pipocas ao mesmo tempo, mas uma das verdadeiras, daquelas que nos sujam de óleo e arrancam pêlos das pernas com aquela corrente estuporada.

Tinha saído lesto e alegre, quando passados quinze minutos a fúria de Blog se abateu sobre mim. Fui obrigado a regressar a casa transportando um excesso de carga composto por cerca de cinco quilos de água; felizmente equitativamente distribuída por tudo o que era material têxtil, inclusive “the undies”.

Chegaram até a perguntar-me se tinha caído ao rio (e caí sim, mas em 72), mas como devem calcular é difícil manter o sentido de humor, quando nos correm regatos perto de certos locais que preferimos manter secos. Ou pelo menos, quentes...

Após desenferrujar o léxico da língua pátria e ter dado largas ao meu mau génio, invoquei Blog em altos berros teimando que não era justo, e que se Noé tinha tido pré-aviso eu não era menos graduado que ele...

O meu filho andava por essa altura na Net a tentar sacar ROM’s de GBA, e sentindo-se curioso fez no google uma busca por “dilúvio”. Além de uma marca de autoclismos tipo mochila e de um sistema contra incêndio, conseguiu finalmente encontrar a história embora não na versão BD.

Chegou ao pé de mim (estava eu a torcer as peúgas na banheira) com lágrimas nos olhos e o queixo a tremelicar ligeiramente. E olhando para mim com os seus olhos azuis, perguntou com voz embargada. – Por que é que não me disseste? Assim podia ter convidado a Rita Inês...

- Achei um pouco estranho, até porque naquela idade é mais brincadeira e menos anatomia, e ainda tentei saber. – A Rita Inês? Porquê?

- Por causa do dilúvio! Agora como é que eu me reproduzo?

Música de Fundo
“21st Century Schizoid Man”King Crimson

sábado, 8 de novembro de 2003

Textos Juvenis (1)

- A Noite é um Quarto Vazio -

O meu coração arrefece na noite
como um quarto vazio de janelas partidas.

Como aquele lençol plano e frio
onde não me vou deitar.

Porque não faz sentido
dormir sobre uma ausência
ou gritar quando ninguém nos ouve.

É inútil sair
E procurar-te lá fora...
porque sei agora
que sem ti, a noite é apenas um imenso quarto vazio.

Quotidiano de um Ambiente Controlado (1)
- Chamando os bois pelos nomes -

Após no último episódio desta série, ter ficado provado que a intuição masculina é tão pertinaz e aguçada como um maço de madeira; tinha de algum modo que me desculpar não só frente ao público feminino, como perante mim próprio que sou um juiz bem mais duro.

Ficará então exarado por decreto a partir da data de hoje que:

O Power Ranger do aquário será retirado, sendo substituído por uma reprodução de "O Beijo" de Rodin (Mas em gesso não! Senão derrete...)

Por imposição da sexualidade desenfreada, os personagens sofreram uma reformulação ás suas designações; Marx passará a ser June e Engels será Anaïs, enquanto Estaline por força de pressões vindas da Célula do PCP de Azeitão se passará a chamar Henry (em homenagem ao falecido escritor, meu herói de infância).

Ao contrário do Big Brother, não serão retratadas situações controversas ou triângulos amorosos tipo: "Anaïs ama Henry que ama June, que por sua vez me detesta a mim suicidando-se no filtro de limpeza".

Posto isto vamos ao que interessa, porque Miss Entropia já tem a pele engelhada de segurar há tanto tempo nos personagens.

Logo de manhã após ao episódio Moscovita, cheguei ao escritório numa autêntica fúria tal como qualquer macho enganado.

Finalmente tudo fazia sentido. A cumplicidade entre Marx... perdão! June e Anaïs, o empatarem-se uma á outra como duas típicas fêmeas e o falso ar de segurança por parte de Henry.

A juntar a isto era óbvio que Henry gostava muito mais da escultura de Rodin que do Power Ranger, passando o tempo a olhar para ela e a coçar a barbatana ventral. Deve ser algum hábito característico dos Gupis... ou então não...

Despachei a assistente á loja de animais, em busca de uma justificação para este enredo digno de Moliére e mais uma vez embrenhei-me na cosmética contabilística, que como sabem é um óptimo refrigério para a decepção.

Finalmente tive a justificação final para tudo o acontecido. Miss Entropia deu entrada no gabinete acompanhada pela dona da "pet shop", que usava fixo ao peito da bata um dístico que a denunciava como sendo Adélia.

Quando levantei os olhos da papelada, encarei a face espantada de uma corvina que me olhava fixamente, por detrás de umas lentes que deviam ter sido feitas a partir das vigias do batiscafo Trieste.

Quando a olhei bem nos olhos, senti-me como Jacques Custeau observando pela primeira vez alguma forma de vida das profundezas. Sorria de modo simpático, mas as mulheres de bigode sempre me fizeram arrepiar. Lembram-me o malogrado Freddie Mercury.

E não é que aquela espécie de amêijoa pilosa me deu a segunda desilusão da semana?...

Mal tinha eu iniciado a minha dissertação sobre o engano na diferenciação dos Gupis, já ela me corrigia em tom professoral e com sotaque açoreano. – Não são Gupis! São Carassius Auratus ou vulgares peixes vermelhos!

E perante as nossas boquiabertas pessoas, continuou imparável - A criação de Carassius Auratus remonta ao séc. XII na China, onde era considerado um peixe sagrado. É um dos peixes com maior tradição a nível de aquário. Pertence á família dos ciprinídeos, que é a maior em número de espécies de peixe de água doce, sendo um parente da Carpa. Da China foi levado para o Japão em 1500 onde foi iniciada sua criação em Sakai, de onde os portugueses o trouxeram para a Europa no século XVII. Hoje são criados no mundo inteiro.

Após esta intervenção digna do Prof. Vitorino Nemésio, ajeitou as lunetas e retirou-se desdenhosamente, tendo deixado um livro que penso ser o manual de utilização.

De surpresa em surpresa cheguei finalmente á conclusão que sou proprietário, de descendentes directos dos peixes que acompanharam os nossos navegadores nas caravelas (em sacos de plástico?).

Senti-me um pequeno primata, pendurado numa pindérica árvore genealógica com apenas dois séculos. Aqueles peixes estavam para mim, na mesma proporção de uma D. Filipa de Lencastre para a Babá Pita.

Cheguei a casa confuso e mal jantei.

Há pouco fui dar o meu passeio habitual das sextas-feiras. O Apóstolo estranhando o meu silêncio, tentou saber o que me preocupava. Ao que eu sem me fazer rogado aquiesci, contando-lhe toda a saga enquanto seguíamos o Feroz (um simpático rafeiro) nas suas múltiplas mijas nocturnas.

Após ouvir atentamente, assentou em mim o seu olhar límpido e declarou com simplicidade Zen. – Não interessam os nomes ou espécies! O importante é que gostes e te façam feliz...

Perante isto não consegui dizer mais nada.

Fundo Musical
"Don't Get Me Wrong" - The Pretenders

sexta-feira, 7 de novembro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (20)
- Põe a tua mão na mão do meu Senhor... e por aí adiante. -

Irmãos este post de hoje é publicado com o beneplácito das Viagens Mister Charly, uma piedosa organização de Leiria, que me enviou um folheto das suas romagens e peregrinações.

(Como já disse anteriormente, será uma cópia enviada por mail a quem o solicitar com muito jeitinho.)

Estava então eu hoje na minha humilde cela em recolhimento e tinha aproveitado um momento de sossego para ler alguns Blogs, quando o carteiro (um dia falo-vos dele) enfiou pela greta do correio um monte de cartas, bem como o folheto do qual vos vou falar e que decerto mudará a vida de muitos crentes.

Como alguns de vós deverão saber, a minha libido ultimamente tem andado um pouco extrovertida; ou por causa da mudança de idade ou mesmo (quem sabe?) por via da medicação para o colesterol. Por isso não me encontrava preparado para o fervor religioso que tal missiva despertou em mim.

Início de transcrição exacta

*****

Grandiosa Festa de Natal com "Rebeca"

Pelo incrível preço de € 9,00

- Saída dos pontos indicados em autocarros de grande turismo.

- Chegada ao nosso complexo turístico, situado em Gândara dos Olivais.

- Pequeno almoço e apresentação publicitária oferecida pela FRANIS.

- Almoço delicioso.

- Abertura de baile ao som de música popular Portuguesa.

- Pequeno intervalo para saborear umas deliciosas castanhas assadas acompanhadas de água pé.

- Segue-se a grandiosa actuação da famosa "Rebeca" que nos brindará com o seu reportório musical.

- Continuação da tarde festiva com lanche (morcela, chouriço, torresmos, etc.), regados com um bom vinho, sangria e cerveja.

- Antes da partida serão presenteados com um magnífico brinde.

Observações: Se por causas de força maior, algum dia a Rebeca não poder actuar, será substituida por outro espectáculo de similar categoria.

*****
Fim de transcrição

Chegamos agora àquele ponto, em que a minha consciência me impele a auxiliar com a minha experiência ao serviço de Blog, estas bem intencionadas almas que tanto parecem querer ajudar o próximo...

Irmãos! Para começar penso que não seja propriamente bom gosto da vossa parte, terem entregue a composição do vosso folheto á mesma gráfica que imprime igualmente os do "Massajador Facial Delirium". Não só as cores são iguais, como o modo que a bela Rebeca tem de pegar no microfone, dá a ideia que o vai tentar humedecer.

Quanto a esta parte ainda se complica mais a questão. Pois após falar com várias profissionais do ramo (e com espectáculos de similar categoria), estas me garantiram que só na última fase da sua actuação pegariam o microfone pela extremidade. Tendo acrescentado que segundo as regras da "boa execução", este deve ser sempre segurado firmemente pela base, até que o polegar e o indicador comecem a ficar cansados.

Uma das simpáticas colaboradoras neste estudo, sugeriu-me (ao que eu de imediato acedi) que recortasse a imagem do massajador e a sobrepusesse á do microfone apenas para tirar as dúvidas; tendo ficado comprovado que a fotografia original tinha na realidade sido tirada com esse artefacto.

Agora algumas pertinentes interrogações.

O "Super Presente Surpresa" necessita de pilhas?

O Almoço será realmente delicioso?

O monte de "jarretas" fotografados a dançar ao fundo são contratados para abrilhantar o baile, ou são uma representação estilizada das paranóias de Hyeronimus Bosch?

O boneco de chapéu com um charuto no bico, é na realidade Mr. Charly e está ali a gozar connosco?

Porque é que o "top" vermelho de "Rebeca" tem o zipper aberto até ao fundo? A sala de baile não tem ar condicionado?

E uma última palavra apenas para "Rebeca" (ou alguém com outro espectáculo de similar categoria).

- Queres ser salva? Vem a Blog que ele te cobrirá de bênçãos, e verás então a estrela de Belém.


Musica de Fundo

"Real Wild Child"Iggy Pop

quinta-feira, 6 de novembro de 2003

Noites Moscovitas
- A luta continua... mas noutra posição... -

Descobri a noite passada que tenho vivido uma mentira, mas finalmente tudo se esclareceu como poderão constatar.

É verdade. Durante os últimos dois anos, fui apenas figurante numa comédia de enganos que se passava nas minhas costas... mais precisamente no aquário.

Aqui vai...

No final de cada obra importante temos por tradição organizar um jantar de "bota-fora", para comemorar o fim da angústia e dos prazos dilatados; e ontem foi uma dessas noites.

Não me vou alongar muito sobre o jantar que foi uma boa refeição, mas absolutamente trivial nos seus acontecimentos. Bebemos um pouco, mas nada de especial.

Seguidamente e também conforme a tradição, fizemos escala num desses bares manhosos onde as funcionárias ganham 40% por bebida; mas foi apenas uma rodada para terminar a noite, pelo que a maioria se dispersou em seguida pois hoje seria dia de trabalho.

A caminho de casa ainda passei pelo escritório, pois levávamos de boleia dois dos foliões e eles necessitavam de um último café. Aparentemente cultivavam uma ingenuidade eslava, que os fazia confundir com vodka o nosso vulgar bagaço ordinário.

Estava eu no escritório empunhando um escaldante copinho de plástico e contemplando pensativamente o aquário, quando a voz do Stanislav soou nas minhas costas – “job tvoiemat!”

Como não gosto que insultem a minha mãezinha e muito menos em línguas bárbaras, virei-me com ar de poucos amigos. O calmeirão olhava para mim com um sorriso de mujique idiota; se tivesse um chapéuzinho poderia fazer parte dos "Leningrad Cowboys".

Nunca vos apresentei Stanislav porque é um "zé ninguém", um ajudante de canalizador, apesar de lá na parvónia dele ter sido a dada altura investigador no Instituto de Biologia Marítima de Murmansk.

Aparentemente não falara comigo, utilizando o insulto apenas como interjeição de surpresa. - Parrece Stálin! - exclamou engasgado de riso - E com dois fêmeas... o malandrro...

Aí corrigi-o e apresentei-lhe os peixes, contando-lhe orgulhosamente porque lhes atribuíra os nomes. Mas fui interrompido pelo Russo, que escandalizado me disse talvez não ser grande coisa a fazer roscas, mas de peixes percebia ele. Tudo isto á mistura com alguns comentários á minha origem e aos atributos naturais de que disponho.

Eu não quis puxar dos galões principalmente porque não iria servir de nada. Então se atendermos aos decilitros de S. Domingos que ele emborcara, devia ser o mesmo que tentar abater um rinoceronte com uma pistola de água.

Deixei-o acalmar até que explicou o seu ponto de vista.

Não era bem um ponto de vista mas uma exposição de termos para mim obscuros. Para mais, debitados metade em Russo e metade num Português execrável. Mas nas linhas gerais era bastante categórico... eu tinha sido enganado!

1º Marx e Engels são duas fêmeas novas (lá se vai o socialismo científico...)

2º Estaline é um macho velho e bexigoso (Isso toda a gente sabe)

3º Estaline não quer mal a Marx e Engels, mas apenas cobri-los/as (e foi o que fez durante dezenas de anos)

4º Miss Entropia e a mulher da loja dos animais são mais parvas que uma tal Marushia Svenkova (que eu juro que não conheço).

Tudo isto acrescido de imensos pormenores técnicos e terminando com um sonoro – “Ponimaio”?

Eu acenei em concordância, e conduzi-os á saída por entre “dossvidânias” e efusivos abraços.

Voltei atrás para desligar tudo e fechar as portas metálicas.

Enquanto dava a última volta ás instalações passei pelo aquário, onde as duas fêmeas (agora por baptizar) descansavam timidamente deitadas junto do arbusto plástico, enquanto Estaline se passeava com um ar satisfeito.

Deve ter sido impressão minha. Mas iria jurar que ele me piscou o olho...

Fundo Musical
“Fight for your right (to party)”Beastie Boys

quarta-feira, 5 de novembro de 2003

O Gestor de Expectativas Móveis
- Do orçamento á contracosta -

Foi o que chamou ao nosso Polichinelo, aquela malta que há uns anos desperdiçou não se sabe onde, o pouco dinheiro que o Aníbal lhes tinha deixado após mandar alcatroar o país.

É claro que foi o Jaime Gama. Embora seja mestre na produção de frases lapidares, tal como um relojoeiro Suíço, a sua produção é limitada a um exemplar por mês. O que posso afirmar com segurança, é que com a disposição que eles me provocam, neste momento até eu faria melhor.

Mais triste que ter um Governo incompetente, é ter uma oposição ridícula.

Eu não me sinto traído pelo governo! Há imensos anos que estou habituado a governos incompetentes, ruinosos, prepotentes e nalguns casos (como o último) perfeitamente hilariantes.

Não estou é habituado a encontrar esses atributos na oposição. Sempre se disse que é fácil ser uma brilhante oposição, mesmo que não se saiba governar. Que é feito dessa gente?

O que faltava agora era o governo deixar de governar (o que já faz bastante mal) para ter que se dedicar a estimular uma oposição indolente, que está demasiado letárgica para fazer seja o que for, excepto esperar que chegue a sua vez de ir para o governo e poder finalmente descansar em paz.

Se isto não é bater mesmo no fundo, não sei o que será.

Quanto aos outros também me apetece desancá-los, mas os meus princípios impedem-me de bater em mortos...

Musica de Fundo – “Requiem” Mozart

terça-feira, 4 de novembro de 2003

Encantamento

As vagas galgavam o molhe impulsionadas pela maré viva, deixando no pavimento bordados de espuma e irrequietos caranguejos castanhos.

Ele pegou-lhe na mão, e guiou-a pela parte seca encostada á falésia, aproveitando a proximidade cúmplice para sentir o perfume que dela emanava. Era o primeiro encontro verdadeiro que tinham.

Ao fim da estrada ganharam coragem, e subiram lentamente as centenas de degraus que conduziam ao farol no topo da escarpa. Um cilindro metálico de cor vermelha, que apontava ao mar o seu olho ciclópico, por enquanto apagado e em descanso.

Chegados ao cimo ele amparou-a pela cintura enquanto recobravam a respiração. Vendo-a assim recortada contra o mar ao fundo, os seus olhos brilhavam na mesma cor das águas.

Ficaram assim um momento encostados ao parapeito do velho miradouro, sentindo a brisa e a proximidade um do outro.

- Consegue-se ver tudo aqui de cima – disse ela finalmente – o mar, o cais, a estrada... Fizemos bem em ter vindo.

Enquanto ela olhava a paisagem, ele acariciou-lhe a nuca grácil seguindo a suave curva do pescoço. – Qual é a sensação que te dá, estar aqui no cimo e ver tudo lá em baixo tão pequeno? As traineiras, as pessoas...

Não sei. – respondeu ela virando-se – talvez um sentimento de isolamento, e perda... é que tenho a impressão que acabaram de nos roubar o automóvel.

Musica de Fundo – “The Sweetest Taboo” Sade

segunda-feira, 3 de novembro de 2003

A igreja do Imaculado Blog (Extra)
- As opiniões são como cus. Cada um tem a sua... -

Assim ao correr da rama, devo ter encontrado hoje pelo menos meia dúzia de blogueiros ás voltas com o Panteão Nacional. Uns talvez porque tivessem mesmo opinião formada sobre o assunto, outros apenas porque o Prof. Marcelo zurziu novamente o IPAR (que Blog salve as suas negras alminhas).

Ainda não tinha eu votado a minha vida ao serviço de Blog, e já conhecia a Igreja de Santa Engrácia (sim! É esse o nome do panteão). Desde miúdo que a conheço. Posso acrescentar que as obras de recuperação demoraram tanto a ser concluídas, que advém daí o termo utilizado para algo que nunca se concretizará, - É como as obras de Santa Engrácia... –

É uma piada que eu já conhecia nos anos sessenta. Os Parodiantes de Lisboa fizeram imensas charlas sobre o assunto. Lembro-me até de uma vez no 1º de Abril, o Diário Popular ter publicado na primeira página uma foto-montagem de uma grua sobre o edifício e anunciar “Finalmente vão prosseguir as obras de recuperação”.

É claro que foi uma galhofa. Nós íamos á janela e aquilo estava na mesma. Orgulhávamo-nos desse monumento á inépcia nacional, apenas igualado pela ponte Rio/Niterói, que estava também em projecto há não sei quantas décadas. Havendo até um contencioso com os Cariocas, em que eles teimavam estar a ponte deles há mais tempo em projecto, que o nosso panteão em recuperação. Tricas...

Santa Engrácia foi a primeira igreja verdadeiramente barroca em Portugal. Não altura eu não o sabia nem apreciava Bach, ou então não teria urinado tantas vezes de encontro àquelas históricas e vetustas paredes.

Mas eu tinha a desculpa da minha tenra idade e da falta de urinóis públicos naquela área. Infelizmente não se pode dizer o mesmo do IPAR. Que não tarda vai alugar o edifício para “Bar Mitzvahs”, ou para a festa de lançamento do segundo livro do Pipi (esta é improvável, enquanto ele não impingir o primeiro).

Estou mesmo a imaginar-me alugando o espaço por alguns dias durante as férias, e apresentar a quinzena de divulgação da fé de Blog; recorrendo a pregoeiros, engolidores de fogo e algumas dançarinas exóticas acompanhadas por dois tamborileiros Turcos (só para marcar o ritmo). Acho que Blog iria apreciar a atenção.

Porque não transferir até para lá, algumas das performances que se realizam ás vezes no CCB. Estou a lembrar-me de um especialmente fascinante, que envolvia uma senhora despida e sentada num estrado, que lançava para a assistência alvas bolas de ping-pong.

É claro que quanto ao respeito pelos nossos antepassados... nicles. O que é que significa uma fadista e dois ou três marinheiros?

Talvez fosse melhor transladá-los e usar as cubas de pedra para refrescar as minis e as “sévenapes”. Assim que eu angariasse uns cobres, poderia escrever para Messejana e pedir que me emprestassem a milagrosa imagem de Frei Fialho por uns tempos.

Pelo menos quando lá aparecesse alguém do IPAR, já os podia mandar beijar alguma coisa.

Musica de Fundo
“Os meus Irmões Baterem-me!” Cebola Mol

O Ficcionista

Matraqueando a velha Royal ele descarregava a frustração nas teclas. A alma escorria-lhe pelos dedos como uma hemorragia de dor, imprimindo-se no papel nas cores alternadas da fita já gasta.

A visão enevoava-se húmida, mas não o suficiente para que deixasse de ler o que escrevia. A escrita jorrava como um rio através de comportas rebentadas. Um rio de águas amargas e escuras, como a disposição que o assaltava.

Já ia no vigésimo capítulo de uma história de desencontros e mal-entendidos. Era um perito em desencontros pois já os tinha tido a todos, de todas as espécies; como um provador de vinhos a quem o paladar se tivesse embotado com o tempo.

Transpunha para o papel todas as sensações que o assaltavam; vendia-se bem e ninguém daria por isso. Bastava ver o ar sorridente da fotografia na contracapa dos seus livros, e qualquer um se interrogaria onde um tipo de ar feliz iria desenterrar aquelas ideias. Era um ficcionista... escrevia sobre si próprio.

Sentia-se abandonado mais uma vez, e o herói do livro também. Aliás não poderia ser de outro modo. Qualquer personagem tem sempre um pouco do autor. É uma espécie de vaidade que se tem em confessar algo, avisando á partida que é tudo mentira. Nunca falha.

Só lhe faltava um final dramático não muito exagerado. Mas o final da sua própria história, não se tinha ainda dado. E debatia-se em círculos com os sentimentos de rejeição do personagem, de mistura com os seus e com as suas próprias recordações. Com a saída intempestiva da protagonista do livro e igualmente da sua. Mesclando-se tudo isto numa catarse de factos mais ou menos verdadeiros, sem que distinguisse já quais deles eram os seus.

Pensou que mais tarde teria que se ir deitar, e acender pelo caminho todas as luzes de modo a iluminar o vazio que o rodeava. Teria que terminar depressa, pois a auto-piedade vende pouco, e ninguém paga para ler os queixumes do próximo a não ser que leve um rótulo de poesia.

Continuava encravado com o final, o último desencontro, sem conseguir achar algo que se encaixasse como a última peça de um puzzle.

Lá fora, ela tocava a campainha da porta pela terceira vez. E desistindo finalmente, afastou-se tristemente pelas escadas.

No apartamento ele continuou a debater-se com o problema e não chegou a ouvi-la. Ouvia apenas a sua raiva e a musica estridente que lhe transmitiam os auscultadores.

Fundo Musical – “Behind Blue Eyes” The Who

domingo, 2 de novembro de 2003

Marx & Engels
- Quotidiano de um “Ambiente Controlado” -

Quinta feira passada decidi finalmente pôr fim á abstinência sexual dos meus dois Gupis (Marx & Engels), e comprar-lhes uma fêmea.

Estou mesmo a ver daqui essas carinhas abrindo-se em sorrisos libidinosos. – O malandro! Agora vem com episódios eróticos! – etc, etc & tal.

Mas não! Aliás o tipo “cold fish” não faz o meu género.

Escudando-me com o conceito que seria sexista da minha parte ir comprar uma fêmea para os dois vermelhos, solicitei a Miss Entropia (a assistente) que fosse á loja ao fundo da rua e trouxesse uma fêmea Gupi (acho que é assim que se escreve, ou então terei mais mails á noitinha) para animar as longas noites do aquário.

E agora a parte sexista. Nunca peçam a uma fêmea para arranjar outra, seja ela de que espécie for. Já nos longínquos dias em que movido pela amizade (ou apenas para me livrar de um companheiro inoportuno) pedia – Traz uma amiga. Ele até é um tipo simpático... – ficava sempre surpreendido com a capacidade que as mulheres têm para a guerra psicológica. Normalmente perdia um amigo (e ainda foram alguns), exceptuando um caso extremo em que casaram; mas aí a culpa foi das dioptrias.

Continuando! Miss entropia entrou no escritório empunhando um transparente saco de plástico cheio de água, que continha em suspensão o equivalente ictiológico de uma das suas “amigas”.

Sem dúvida que era um peixe vermelho... um pouco sarapintado de algo que pareciam “bexigas doidas”, com umas bigodaças e um ar tão duro e mafioso, que apesar de fêmea (tal como ela me garantia) logo ali decidi chamar-lhe Estaline.

A assistente ainda protestou fracamente, que Estaline não era nome que se desse a um inocente e inofensivo peixe; e muito menos a “uma senhora” (pois... foi o que ela disse.).

Só que o novo elemento não se comportava como uma senhora, fazendo antes lembrar o verdadeiro Estaline. Nadava em círculos deitando olhares mal-humorados aos dois teóricos, que timidamente tinham tomado refúgio atrás do boneco Power Ranger (que como sabem, é o meu representante no interior do aquário).

Como tinha trabalho para despachar, deixei-os a tentar “quebrar o gelo” e embrenhei-me nos meandros da numerologia deficitária. Ainda ouvi alguns sons de saltos fora de água mas não liguei muito, as cifras revelam tendências estranhas se nos distrairmos.

Hora e meia depois, quando me virei para trás descobri que pelo menos já tinham estabelecido algumas normas. Estaline tinha ocupado o vaso tombado que lhes serve de caverna enquanto os dois desalojados, muito ao estilo de Eisenstein tentavam á vez sem sucesso fazê-lo/a sair.

Aparentemente a “Numenklatur” estava a ganhar, pois os dois anteriores locatários pouco dados a manobras tácticas, dispersavam os seus esforços em vez de se juntarem e reduzirem o intruso a filetes.

O dia seguinte passou sem história. Aliás porque pouco tempo passei no escritório, embora tivesse dado para perceber que Engels tinha uma barbatana mordida e Marx apresentava falta de escamas de um lado. Apenas Estaline parecia de boa saúde, se não ligássemos muito ao facto de alguns dos seus bigodes penderem tristemente ao estilo de Nietzche. Se era fêmea, devia ter aprendido os truques com a Manuela Ferreira Leite.

Ao fim da tarde telefonei para o escritório, apenas para dar á assistente a triste notícia que teria que lá ir sábado para juntar todas as folhas, e transformar o conteúdo em informação digerível por leigos. Ficou um pouco abalada. Normalmente os planos dela incluem gastar as meias-solas dos chanatos por toda a 24 de Julho. Mas como diria o Eng.º Guterres – É a vida...

Aproveitei para lhe recomendar que vigiasse os peixes, e para sugerir que se a coisa se complicasse, pegasse em Estaline o/a metesse na sanita e puxasse o autoclismo (podia ser que encontrasse o Nemo).

Quando lhe pedi o ponto da situação do aquário, talvez por piada respondeu-me num tom aborrecido – A Luta Continua!

Musica de Fundo
“A Internacional”Coro da Sociedade Filarmónica Incrível Almadense

sábado, 1 de novembro de 2003

Dia de los Muertos

Sou um citadino como já alguém me chamou. Um gato de telhado cujas primeiras brincadeiras se passaram em tempos sobre telha lusa e águas-furtadas de zinco.

Na minha terra (a Capital do Império) não se pedia pão por Deus. Não tanto pela falta de pão, mas mais pelo tipo de deus que há nas cidades. Uma espécie de eléctrico fantasma que só passa a desoras e que conhecíamos das procissões banhadas pelo fumo dos escapes.

Tínhamos sim o dia de finados. O supra-sumo do gótico lisboeta da minha infância, que se passava entre o Alto de S. João e o Cemitério dos Prazeres. Nome este último que sempre detestei por tão explícito, de que tudo o que é bom acaba.

Neste dia dedicado á morte e a todas as coisas tristes, vestiam-me uns calções novos com suspensórios tiroleses, e lá ia eu entre mulheres de preto e flores de cheiro decadente, visitar um dos meus principais fetiches de terror.

Logo á entrada era assaltado pelo som de choros, que navegava entre os ciprestes como um nevoeiro húmido, do qual eu quase sentia as garras arrepiando-me a pele das pernas.

As velhotas simpáticas que eram vizinhas da minha avó, transformavam-se nesse dia em harpias que enfiavam os seus dedos nodosos nas minhas madeixas, como que a querer compartilhar da minha juventude para adiar a morte. A morte que nos esperava naquelas pedras tombadas. Naqueles medalhões com retratos de esmalte, de onde os mortos nos miravam com o seu ar neutro, morto.

Só muito mais tarde ao ler Lovecraft compreendi o que sentia nessa altura. O medo de algo do qual desconhecia a razão e que me transcendia, algo que um dia de surpresa me agarraria pelos cabelos e arrastaria para debaixo da terra húmida e fétida. Onde todos os outros esperavam já.

Entretanto aprendi que não se deve ritualizar a morte.

Visito ás vezes os que partiram, em dias totalmente ao acaso e conforme a sua recordação me salta á mente.

Sei que não estão lá. Guardo-os no local onde sempre permanecerão, até que um dia chegue a minha vez.

Bom dia de finados avó.

O Bibliófilo

Vinha esta tarde a sair do escritório da empresa com um exemplar antigo de “A Relíquia” do qual tinha fotocopiado umas passagens, quando fui abordado por um cigano.

Não se tratava do exemplar típico do bairro. Envergava um bom fato, tinha um aspecto limpo e apenas a sua tez e formato facial o distinguiam como tal.

Após me pedir algumas indicações sobre como chegar á Trafaria (sempre a olhar disfarçadamente o livro), acabou por perguntar – Gostas de ler?

Este tipo de familiaridades põe-me sempre á defesa, mas como já não é a primeira vez que aturo cromos com estas atitudes; desta vez passou – Sim! E tu?

- Bem... – contorceu-se ele um pouco – não sou de grandes leituras, mas já li alguns livros bons, e gosto muito desse que levas aí...

Comecei a tornar-me desconfiado. Sou muito cioso dos meus haveres, especialmente livros; e aquilo parecia-me uma espécie de “cantiga do bandido” para se fazer a alguma coisa. Discretamente tacteei as chaves no bolso colocando-as entre os dedos, para o caso de ter que tomar uma atitude mais firme.

Lá o eu ser cigano – continuou ele calmamente – não quer dizer que seja um estúpido. Sou um negociante. – Aí concordei. Até porque é daqueles lugares comuns que se tornam verdades universais. – E na minha família – continuou ele – sempre gostámos muito de livros e noutro tempo o meu tio até vendia alguns. Por isso é que gostei de te ver com esse.

E agradecendo as indicações (o que também não é muito normal) dirigiu-se ao BMW e arrancou.

E eu fiquei ali, a vê-lo afastar-se. Sem saber qual o objectivo daquela estranha conversa. Embora algo me parecesse não bater certo.

Só quando cheguei a casa e fui ao escritório para o guardar na estante é que reparei... que se tratava de uma edição da Lello & Irmãos.

Banda Sonora “Glory Days”Bruce Springsteen

Creative Commons License
Todos os textos desta página estão protegidos por BLOG e por uma Licença Creative Commons.

theoldman.blogspot.com Webutation