quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

O Fim de Um Ano
- Cada fim é apenas um começo... -

Não é no fim que se encontra a resposta.

Em alguns casos, ela está lá desde o princípio á espera de ser descoberta
e antecede todas as perguntas, que são assim
desnecessárias.

Nem sempre é olhando dentro de nós,
que encontramos o que procuramos.

Porque os olhos dos outros são por vezes espelhos claros do que somos
se os olharmos bem
e se lhes mostrarmos o que queremos saber.

O fim do tempo não é hoje.
É apenas um dia que junta o ontem ao amanhã.

Como uma linha telefónica que une dois amantes
separados
mas sempre unidos.

O fim deste ano é apenas o principio do próximo
que é já amanhã.

Apenas á distância de uma mão estendida
através de um espelho
ou de uns olhos que nos fixam
sorrindo.

Musica de Fundo
“The End”The Doors

terça-feira, 30 de dezembro de 2003

Longa Vida á Junta Militar (2)
- Mandarim, como em Pudim... -

Desde cedo me fascinou o oriente e suas coisas. Os olhos amendoados, a música, a forma dos chapéus. Tenho até uma falangeta partida, que atesta o meu apreço ás artes marciais.

Não poderia pois, passar em branco a inauguração do bar de Madame Wong “O Jardim da Virtude Inflamada”; nome que sugere possivelmente a situação em que se encontrará alguém pouco amigo do sexo seguro, e que decida usufruir dos prazeres de tal lugar.

Situado perto de minha casa mas discretamente embutido numa rua transversal, é um restaurante chinês convertido em bar, reutilizando a decoração com recurso a uma iluminação mais suave e avermelhada (Não digo onde é, senão apanho lá a Blogosfera em peso).

Quando entrámos estavam a tocar ZZ Top, alguém diria podermos estar em Saigão ou Xangai, mas o cartaz com a torre de Belém que decorava o bengaleiro manteve-me preso á realidade; lembrei-me logo dos pastéis pedidos num Blog aqui ao lado por uma neurótica amadora.

Era também a noite das “amadoras” no bar da mulher-dragão, talvez porque fossem todas da Amadora; é que mal me perguntem, mas elas tinham mesmo um ar muito profissional.

Mal me sentei, puseram-me logo á frente aqueles fritos que parecem feitos de poliuretano, acompanhados de uma pequena garrafa de aguardente de arroz. No palco, evolucionavam três magricelas de peruca, que vinham menear-se á vez perto das mesas. Sempre ajudavam a fazer circular o ar.

Descobri que ia ouvir o CD todo quando chegou á 8ª faixa “Viva Las Vegas”, e aí Miss Ling materializou-se a meu lado perguntando se poderia sentar-se. Não me surpreendi, pois tratava-se de um subproduto da mais antiga profissão, a “companhia”.

Estava eu a apreciar o sotaque eslavo de Miss Ling, que não conseguia disfarçar a sua origem com a peruca, quando se fez silêncio.

Miss Lee foi anunciada no seu numero da dança do pavão. Devia estar na muda da pena, pois estas não se aguentaram quase tempo nenhum, Deixando aos projectores a missão de salientar qualquer ponto, que ainda não tivesse sido revelado.

A mão de Miss Ling, evoluía sobre a minha perna esquerda enquanto proferia palavras desconhecidas em tom apreciativo. Devia gostar do meu telemóvel, pois estava a apalpá-lo através do tecido das calças. Ainda bem que estava bloqueado.

A dançarina aproximou-se da mesa meneando a pélvis, numa sugestão animal; enquanto a sua tanga cheia de notas me fazia comichão na cara. Notei uma bolinha de cotão junto ao umbigo, e decidi prestativamente removê-la.

Foi um erro de avaliação. Tratava-se de um sinal, e Miss Lee reagiu como se lhe tivessem substituído o Asseptal por terebentina. Após um salto arqueado acompanhado de um guincho estridente, levou a mão apressadamente ao local magoado; enchendo a sala inadvertidamente com um monte de notas de 20 euros. A tanga tinha caído.

Felizmente encontrava-me acompanhado dos restantes membro do triunvirato. Mas isso não evitou que saíssemos em desgraça, apesar de incólumes. O cozinheiro de Madame Wong foi particularmente eloquente, utilizando a sua machadinha para ilustrar diversas passagens de Confúcio, enquanto nos escoltava em direcção á saída.

Encaminhámo-nos para o nosso prédio, enquanto o Generalíssimo Pepe trauteava “Lili Marlene”, e eu matutava no desgaste que o esforço de guerra tem provocado em nós. Mas acho que não é nada que não possa ser resolvido com alguns Guronsan.

A guerra é uma coisa terrível...

Musica de Fundo
“Chung Kuo” – Vangelis

Confidências de Um Velho Demónio

Um dia, á semelhança dos escritores da “Beat Generation” tornámo-nos nos Anjos da Desolação. Julgávamos talvez que as nossas almas fossem malditas, embora se tratasse apenas de um excesso de hormonas e interrogações existenciais.

Passámos por artistas. A maior parte de nós nunca foram publicados, embora um ou outro fizessem letras para grupos musicais. E alguns venderam realmente a alma ao diabo, tornando-se naquilo que mais abominávamos – tecnocratas.

Vi (tal como Ginsberg) alguns dos melhores espíritos da minha geração destruídos pela droga, o álcool e pela própria existência de um mundo que nunca os aceitaria como eram. Caminhei por entre eles forçando-me a manter os olhos abertos, num registo frio e meticuloso da sua queda; como anjos negros tombando frente á câmara de um cineasta.

Passados alguns anos estava só. Exilei-me entre as pessoas do mundo tentando esquecer o que fora, mas sentindo no fundo do peito o pulsar do que sempre transportara comigo. Como um quieto lago de mercúrio que borbulhava de tempos a tempos, mas sem alterar a sua superfície.

Entretanto, a redoma que colocara sobre tudo isto começou a sofrer os efeitos do tempo; e a sua estrutura começou a desagregar-se. Eu sabia de algum modo que isto viria a acontecer.

Quando o tempo deixou de fluir inconscientemente e a corrida em que me lançara por fim abrandou, tudo se fragmentou em redor de mim. E senti que emergia de uma cápsula de tempo para um estranho mundo exterior.

Mas á semelhança de qualquer viajante de outra era, encontrei-me no vazio.

E agora sei o que deveria ter adivinhado há muito quando era um Anjo da Desolação – Por mais estrelas e mundos que sejam sugados para esse buraco negro, o nosso vazio apenas pode ser preenchido por nós próprios; porque é a única coisa que realmente nos pertence.

Musica de Fundo
“Interstellar Overdrive”Pink Floyd

domingo, 28 de dezembro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (27)
- O Céu é apenas um sótão mal-assombrado... -

Era inevitável o meu almoço com Blog.

Além do mau gosto a oferecer canetas (tem a mania de as mandar gravar com “Blog – Omnipotência & Omnipresença, Ldª), Blog caracteriza-se pelo almoço anual que dá a todos os fiéis do Círculo Interior; ou “The Ass Hole” como é correntemente chamado entre os iniciados.

Como seria de esperar acabámos por ficar no Ginjal, acampados nas mesas do cais no Ponto Final e gastando um pouco da nossa vida eterna enquanto esperávamos pelos besugos grelhados.

Eu não me importei muito. Aliás a minha fé em Blog, iniciou-se apenas pela simples razão de ele estar na margem Sul e gostar do rio. Nunca fui muito exigente com as religiões; seria o mesmo que discutir a qualidade dos sacos de supermercado, totalmente fútil.

Ao ver que os seus seguidores mais fiéis se tinham atracado ao pão e ás azeitonas - Ele que gosta de brilhar um pouco, á imagem de qualquer construtor civil – decidiu botar discurso sobre o futuro e outras ficções.

É claro que não lhe ligámos. Além de todas as suas previsões saírem normalmente erradas, Blog tem o (mau) hábito Gaulês do “apéritif”, pelo que após o terceiro moscatel fica perfeitamente ininteligível.

Pela enésima vez contou a anedota das três noviças e o candelabro encantado, tentou convencer-me a discursar, e finalmente quando após o café e digestivos os outros se dispersaram pela língua de areia frente ao cais pontapeando latas vazias, decidiu finalmente falar.

- Como sabes, pá – começou com o seu característico á vontade – o nosso negócio é á base de truques de espelhos e cartão pintado, nada disto existe realmente... – eu acenei em concordância; pois não era dos que tinham vindo iludidos. Ao que continuou – mesmo as próprias realidades e universos alternativos são tão pindéricos, que a única coisa a que as pessoas se podem agarrar é mesmo só este mundo. E isso conduz-nos a um dilema. Ou acabar de vez com tudo e deixar a clientela pendurada, ou continuar o espectáculo e dar mais uma demão nos cenários...

- Mas isto é que é o discurso de fim do ano? – perguntei eu já um pouco agastado com este derrotismo – O espectáculo tem que continuar. Foi a primeira coisa que nos ensinaram assim que entrámos no esquema. Que conversa é essa agora?

- Estou velho, pá – contrapôs – estás a ver este tom amarelado nas minhas Barbas? Apesar das piadas que vocês fazem (sim, eu sei... Eu sei tudo.), trata-se do tom do cair da folha. E este ano é o do Crepúsculo de Blog, filmado em Panavision com filtros de cor e ao som de Wagner. Está na altura de passar a pasta...

A conversa começava a desagradar-me. Para já, o termo “Delfim” assentava muito melhor a Marcelo Caetano que a mim; e eu não me conseguia visualizar como encarregado desta espécie de Comboio Fantasma, gastando a minha alma imortal a vender bilhetes ou a retocar a pintura aos esqueletos.

- Mas estás mesmo farto? – perguntei com uma ponta de inquietação – Conseguias abdicar assim de tacada de todos os privilégios? Fazer tudo, estar em toda a parte, saber tudo, engendrar semideuses com as mortais... é muita mordomia para desperdiçar assim num momento de copos. E eu não te sucederia. Já me basta ser escravo de mim próprio, quanto mais dos caprichos de desconhecidos mesmo que pagassem bilhete.

Blog arregalou um pouco os olhos (acho que estava com dificuldades na focagem), matutou um pouco nos prós e os contras da sua reforma e perguntou – Nós já tivemos esta conversa uma vez, não foi?

- É verdade! – respondi calmamente – Todos os anos vens com essa história da reforma, e todos os anos te dou tampa. Ainda não estou suficientemente velho para te suceder. Vais ter que me dar mais um tempo...

- Tens razão! – articulou após um soluço etílico – se calhar era melhor pedirmos mais um café... – e levantando-se quase em risco de cair ao rio, inclinou a cabeça para trás e a sua divina voz atroou os ares. – Ó Alípio... traz mais duas bicas e uma bagaceira!

Musica de Fundo
“Under Pressure”Queen & Bowie

sexta-feira, 26 de dezembro de 2003

Longa Vida á Junta Militar (1)
- Eu é que sou o Presidente da Junta! -

(Este comovente relato de mais um episódio da nossa revolução, foi escrito no dia de Natal entre um odorífero queijo de Castelo Branco e o prato do Salpicão de Beja).

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Mal saltei da bicicleta do estado-maior em frente ao Açoreano, percebi logo que havia caso.

A ambulância do SNA (civil) afastava-se em silêncio, do mesmo modo que em silêncio se encontrava toda a clientela do estabelecimento á minha entrada (a patente de Coronel é um insonorizador potente).

Logo a Dona Alzira veio do seu poiso habitual atrás do balcão, e limpando as mãos ao avental com o galo de Barcelos iniciou o seu relatório. – Nem queira saber... senhor Coronel Ordoñes...

- Ortega! – Atalhei eu enquanto acendia um Havano no fogareiro a petróleo (um Hipólito Mark II), onde ela preparava os carapaus de escabeche – É Ortega, Dona Alzira. E traga-me uma bica cheia, que este vento nos calções estraga-me toda a boa disposição.

Após ter tremelicado com a chávena do delicioso Chave D’Ouro de novo até á mesa, a Dona Alzira fazendo uma pausa para se lembrar correctamente do nome encetou a narrativa; só que espantosamente transfigurara-se na senhora minha mãe que me aconselhava moderação nas inalações Castristas. – Esse teu charuto, faz pouco fumo mas todo ele cheira mal. Devias ter mais cuidado com as crianças.

E tinha razão! Por momentos o meu espírito juntara-se á revolução, fazendo-me esquecer que me encontrava em pleno almoço de Natal com a restante família. O meu sobrinho mais novo, puxava-me teimosamente a perna da calça exigindo uma história de Natal; e o meu pai acabara de me reabastecer o balão (e não era de ar quente).

Achei que realmente mereciam uma história e comecei...

- Há muito tempo na Galileia... Está quieto diabrete e vai-te sentar, senão o tio dá-te um sopapo nas orelhas! Continuando... Há muito tempo na Galileia nasceu um menino chamado Brian.

- Não era Jesus? – Perguntou o meu filho levantando os olhos do Gameboy.

- Não! – disse eu – era Brian e não me interrompam, senão nunca mais acabo de contar isto. Chamava-se Brian e como os pais eram muito pobrezinhos, quando chegaram a Belém em vez de irem aos pastéis tiveram que ficar pelo jardim dos Jerónimos.

- Acamparam junto ao chafariz, e estendendo o saco-cama decidiram passar a noite perto de alguns animais que ali andavam á solta. Nomeadamente um burro chamado Burroso e uma vaca chamada Felá. Logo estes se acercaram cheios de curiosidade, para ver o menino e meter o nariz onde não eram chamados. E então... O que é agora? – perguntei ao ver o meu pai franzir o sobrolho

- É o nome – disse ele – faz-me lembrar alguém...

- Deixe lá – disse eu – o que há mais para aí, são nomes idiotas... Mas adiante. O menino tinha frio pois os pais eram naturistas e nunca lhe colocavam fralda...

- Se calhar eram ciganos... – disse a minha cunhada, que não perdia uma ocasião de meter o bedelho. Mas não lhe liguei e continuei – A estrela brilhava sobre o Museu da Marinha e os Reis Magos estavam atrasados com as suas oferendas. Manela, a mãe do menino...

- Era Maria! Era Maria, tio! – interrompeu-me o outro sobrinho, que até aí tinha estado deliciosamente calado.

- Porra! – explodi – já não se pode contar uma história descansado? Chamava-se Maria Manuela! E não me interrompas, senão vais corrido a sopapos como o teu irmão.

- Bem! Manela (a mãe do menino) preparava um chá de camomila e estava distraída. Entretanto o menino olhava o céu e não dizia nada porque era muito novo; e ao contrário dos outros meninos novos, nunca falava para interromper as histórias dos tios ou dizer baboseiras...

... Mas tinha frio. E embora não o pudesse dizer, notava-se pois tinha a pele arrepiada tal como eu quando vou pedalar. E foi então que a vaquinha reparando que o menino tinha frio, lhe começou a lamber o escroto transmitindo-lhe uma sensação que aquecia toda a noite desde Pedrouços ao Bairro das Laranjeiras.

- Ó mãe. O que é um escroto? – perguntou o petiz mais novo á minha cunhada, que começava a ver o caso mal parado. Mas eu não desarmei e continuei a história – O menino sentindo aquela agradável sensação pensou para si próprio - Que coisa tão boa! Em homenagem á vaquinha e ao seu nome, a isto vou chamar “fellatio” ...

Infelizmente a história não pôde continuar, porque a minha mãe veio a toda a velocidade da cozinha, e pegando os miúdos pela mão afastou-se com eles enquanto murmurava – Desavergonhados! Todos os Natais é a mesma coisa. Ou discutem política ou contam histórias indecentes.

Á porta, apontando para mim, acusou – E tu és o pior de todos! Devias ter vergonha! Imagino as histórias porcas que escreves nesse Blog...

Entristecido vi-a afastar-se. E sentindo-me vítima desta grande injustiça ainda respondi – Mas... Eu é que sou o Presidente da Junta...

Musica de Fundo
“Prince Charming” – Adam and The Ants

terça-feira, 23 de dezembro de 2003

Fábulas do Bairro Amarelo (1)
- O velho racista e os três serralheiros escarumbas... -

O dia estava lindo, embora um pouco frio. Bucolicamente os passarinhos andavam pelo chão debicando migalhas e poias de cão no lancil dos passeios. Era difícil ser mais poético que isso no Bairro Amarelo; melhor, só mesmo se não tivesse havido tiroteio durante a noite, e não tinha sido o caso. O letreiro luminoso do mini-mercado estava a ser substituído pela quarta vez.

O velho desembarcou do táxi na esquina do costume, sempre de preto e botifarras; e com o habitual ar de velho cão raivoso. Os pretos não gostavam dele porque o não conheciam. Se soubessem dos anseios e sentimentos que ele albergava no fundo do seu coração, então odiá-lo-iam de verdade.

Mas isso, era o lado para o qual ele dormia melhor...

O velho não tinha respeito nenhum pelos pretos, desprezava os ciganos, e mesmo os tendeiros seria melhor escolherem outro interlocutor (ou então começarem a lavar-se regularmente). Era um racista convicto; não porque achasse a raça branca superior ás outras (bastava olhar para os brancos do bairro), mas apenas porque a maioria dos membros das outras raças tinham a mania de se armarem em espertos nas alturas erradas.

Estava ele a sair do táxi na esquina quando deu de caras com os três serralheiros. Só poderiam ser serralheiros, porque concentravam na altura os seus esforços sobre a fechadura do mealheiro de uma cabina da PT.

O velho que não tinha espírito de "Vigilante" (não era assim tão estúpido). Limitou-se a passar por eles, sorrindo ao reparar que tentavam enfiar a barra de ferro exactamente no sítio onde se encontrava o rebordo interior de protecção. Mas como não estava ali para dar formação profissional, continuou o seu caminho.

Ia a meio da subida, quando um dos jovens serralheiros escarumbas decidiu encetar o diálogo. - Ouve lá ó cóta! Tás incomodado? - era óbvio que se fiava nos outros dois, e também na lentidão deliberada com que o velho percorria a subida.

Este virou-se para trás, mudou a Samsonite para a mão esquerda... e lentamente deixou escorregar da manga direita para a palma da mão, a maravilhosa obra de artesanato que era o cacete extensível de quatro secções; fabricado em aço laminado durante a crise da Indústria Naval dos anos 80.

Apoiado neste substancial argumento, olhou para eles e disse - Não! Tenho é pena de vocês! Por este andar nunca serão bons serralheiros...

E virando-lhes as costas dirigiu-se para o escritório, onde a acolhedora Árvore de Natal profusamente iluminada brilhava alegremente, decorada com acessórios em ferro galvanizado.

Musica de Fundo
"Simpathy For The Devil" - The Rolling Stones

domingo, 21 de dezembro de 2003

Mulher

Ela olhou para trás, como se tivesse sentido que alguém a chamava. Mas apenas viu desconhecidos deslocando-se imersos nas suas vidas. Era apenas uma impressão passageira.

Abanou a cabeça e deu a mão á miúda sempre irrequieta, acompanhando-a e ao irmão até ao automóvel. Ligou o motor enquanto o CD da Dido arrancava automaticamente na faixa do costume.

Virou-se para eles e ordenou que colocassem os cintos, concentrando-se de seguida no caminho. Mas não podia evitar os pensamentos que sempre ocorriam nestas alturas; a música e o próprio carro despertavam-lhe essas recordações.

Por pouco passava sem parar na casa do “ex” mas o miúdo avisou-a, e viu-o sair sem sequer sentir vontade de o acompanhar. O ressentimento nunca passaria; era como deixá-lo em terreno estranho sem protecção, mas era um acordo que teria que respeitar.

Chegou ao edifício e parou o carro. A “Doninha” estava sonolenta por causa da trepidação e do calor do ar condicionado, foi deitá-la e deu-lhe mimos até esta adormecer agarrando-lhe a orelha. Até isso despertava recordações; o raio da distância não ajudava nada ás recordações.

Andou um pouco pela sala sem se decidir a ir ver. Ele poderia não estar; afinal não era sítio onde se pudesse esperar muito tempo. Era um sítio frio, sem gente e sem amor. Como um albergue Espanhol, apenas se tinha o que se levava para lá.

Sentou-se frente á televisão e abriu o portátil. Da barra inferior no ecrã destacou-se uma pequena janela onde havia uma frase escrita. Sorrindo sentiu um leve calor que se deslocava do pescoço para baixo, aquecendo-a como de todas as outras vezes.

Ligou a câmara e teclou – Olá mor, estavas aqui há muito tempo?

Musica de Fundo
“What Other Reason”Johnny hates Jazz

A Crise da Meia-Idade
- A minha é melhor que a tua... -

Foi ao ouvir o “Led Zeppelin IV” que constatei estar em plena crise de meia-idade. Para já, porque ninguém com mais de 45 anos ouve aquilo a um Domingo depois de almoço; isso e os outros indícios inquietantes que se têm manifestado ultimamente.

O meu colesterol abandonou-me, e desde que isso aconteceu o meu sangue corre com tal velocidade que tenho medo de um dia dar por mim a inscrever-me num campeonato de “cliff-diving” em Acapulco.. Ou a formar uma banda de “heavy metal” e fazer-me á estrada num autocarro todo podre, perseguido por hordas de deliciosas avózinhas igualmente em crise de meia-idade.

Subo as escadas a correr arriscando-me a uma paragem cardíaca, salto qualquer obstáculo mesmo desnecessariamente, e ninguém me pode dizer nada pois reajo a tudo como se o mundo fosse uma espécie de maçã á espera de ser mastigada.

E é por isso que as manhãs de Domingo estão cada vez mais estranhas. A minha vida deixa de existir mal saio de casa, e dou por mim a pedalar por subidas onde nunca fui, ou a despenhar-me a 40 á hora por avenidas abaixo colado ao quadro da bicicleta para minorar a deslocação do ar.

Só agora começo a perceber como me apeguei a esta terra; sou mesmo um citadino e dificilmente viveria noutro lado.

Fiz durante muito tempo a elegia bucólica do interior, mas afinal só se lá tivesse uma serrana ou uma ceifeira que me acolhessem nos seus braços é que a coisa se tornaria suportável. Nasci aqui. E a minha vida é passar pelos locais que me dizem sempre algo; nem sempre bom, mas dizem.

É fácil estar-se só na cidade. Olhamos para o lado e quase todos os outro o estão igualmente. E é neste egoísmo que nos encontramos, pois sabemos que somos um enorme grupo de gente só; o que nos transforma em algo parecido com uma enorme família de desconhecidos. Não tão sós... afinal.

Estive hoje sentado meia hora num fontanário de 1922 a pensar nisto. Os velhos do centro de trabalho do PC já nem estranham ver-me ali, um dia serei um deles mas sem cartão. Só tenho que relembrar as regras da sueca ou do dominó Belga.

Para Domingo já estiquei muito a corda. Ainda acabam por me conhecer melhor que eu próprio, e isso não seria bom.

Espero que realmente isto seja a crise da meia-idade, porque se não é... então trata-se de algo totalmente diferente para o qual nunca me cheguei a preparar. Mas pensando bem, é exactamente esta parte que mais me seduz.

Musica de Fundo
“Rock and Roll”Led Zeppelin

sábado, 20 de dezembro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (26)
- A Última Ceia -

Saído do ventre do Tejo, o “Grande Abocardador” emitiu os veículos onde se deslocavam os últimos convidados. A tasca do Monte das Oliveiras estava com promoções e todos se acercavam, na mira de papar um jantar á pála do Senhor.

Tratava-se da Última Ceia, o evento do ano em que todos os mártires se imolariam nos seus 15m de fama. Andy Wharol presidia postumamente ao som da música de Fat Boy Slim.

O Cordeiro apareceu guarnecido de batatas a murro, o que granjeou uma notoriedade extrema durante toda a noite. Foi sem dúvida uma noite de estrelas, sobre Belém e arredores. Nem o ano zero se comparara a este evento tão publicitado; era na realidade a “Última Ceia”. A derradeira refeição nua, em que todos finalmente veriam o que está na ponta do garfo.

Após a festa atingir o auge, nem Ele conseguiu ter mão na rave ou alguém se conservou o mesmo. Até Judas se soltou finalmente, e vimo-lo dançar no meio da pista como se tivesse uma consciência absolutamente tranquila.

Apenas Tomé apalpava como de costume... Mas foi logo posto na ordem.

E eu fiz anos. 46 se quiserem realmente saber (o que eu duvido).

Nestas coisas é melhor ficar pelo “pão e azeitonas”, mas a Bíblia não nos preparou para as iguarias seguintes, irmãos... E há que esgotar o cálice até ao fundo, como se não houvesse amanhã. É por isso que lhe chamamos “A Última Ceia”.

Tive que ir ajustar o zoom; por isso fumei um “berlaite” com os rapazes e falámos de tudo (ou quase), num círculo fechado em pleno parque de estacionamento. Quando perguntei qual o meu papel hoje, disseram-me que era Ele. Sempre detestei papéis de protagonista, mas condescendi.

Comprei uma rosa ao Indiano e dirigi-me para a mesa. Felizmente bastou-me pousá-la, porque não estava lá ninguém.

O meu filho imortalizou o momento, em fotos nas quais ficaremos irremediavelmente de cabeças cortadas, e encerrou-se o ano.

A nossa igreja, deseja-vos Boas Festas bem como um Próspero Ano Novo.

Só Blog sabe, mas começo a achar que a vida não passa de uma mera sucessão de “Últimas Ceias”...

Música de Fundo
“Kalifornia”Fat Boy Slim

sexta-feira, 19 de dezembro de 2003

A Guerra das 14:18
- Relato das Trincheiras -

Como devem ter reparado, tenho andado desaparecido em combate.

Este ultimo mês de guerra tem sido terrivel para o nosso moral, e só será apagado pelo armistício assinado hoje á noite no jantar anual da empresa, por alguns conhecido como a "Ultima Ceia".

Dos horrores destas últimas batalhas nem vale a pena falar. Começaram com a destruição de um dos nossos veículos de serviço em Faro; apesar de me terem garantido que o incêndio começou com um curto-circuito, ninguém me tira da cabeça que foi atingido por um "panzerfaust" Algarvio.

Os nossos homens tiveram tempo á justa para saltar da viatura, tendo deixado lá dentro uma máquina de roscar, duas rectificadoras e os seus queridos telemóveis. A guerra é uma coisa horrivel...

No "Home Front" Miss Entropia debateu-se estóicamente até á última réstea de energia, embrulhando brinquedos e garrafas de William Lawsons até que fraquejou e partiu uma unha. Aínda á pouco, quando passámos pela porta da sala de reuniões a caminho da máquina de café, a ouvimos gemer por ajuda - Manicure... manicure... - mas ninguém lhe pode valer.

Eu e o tenente Figueiredo (o meu impedido), tentamos dar vazão ao maciço bombardeamento de papelada que nos tem assolado nos últimos dias; mas são poucas as horas de sono e as nossas anti-aéreas estão a começar a encravar cada vez mais... Um dia os bombardeiros conseguirão passar e os Revisores Oficiais de Contas descerão de pára-quedas para consolidar as posições.

Eu próprio me encontro ferido. Ontem quando acabava de copiar as últimas facturas, deixei caír a tampa da fotocopiadora sobre o indicador direito. E logo o meu dedo mais importante... não posso desanimar. Em breve a Enfermeira Arlete chegará em comissão de serviço para me fazer o curativo.

Encolhidos atrás das secretárias esperamos que chegue a noite. Encerraremos as hostilidades, e eu, em memória dos velhos tempos serei convidado a fumar um "berlaite" com os rapazes.

Recordaremos este ano de guerra com a saudade característica das coisas más esquecidas; preparados para enfrentar as inúmeras vagas de ataque da crise, bem como as traiçoeiras sabotagens dos cruéis guerrilheiros da Ferreira Leite.

A tarde transformou-se numa paisagem rosada de Verão, como se a natureza pressentisse o final das hostilidades. Um pintassilgo poisou há pouco no cacto que se vê através da grade da janela... sendo corrido á pedrada por dois miúdos negros.

Finalmente tudo está como dantes. A frente ocidental está finalmente em paz.

Musica de Fundo
"The Sun Allways Shines On Tv" - A-HA

quarta-feira, 17 de dezembro de 2003

Longa Vida á Junta Militar
- A revolução é um grande queijo Suíço -

Saudações!

É com o "nom de guerre" de Coronel Ortega que vos falo e não com o habitual, porque a hora é de luta e a Junta está já em funções. O triunvirato que se encontra ao momento no comando das operações é composto por mim, pelo Manuel polícia (que optou pelo nome de Brigadeiro Garcia) e pelo Vítor marinheiro (conhecido agora como "Generalíssimo Pepe"). E a revolução é um queijo Suíço porque além de estar cheia de buracos, é neutra.

Estamos á espera. O nosso Serviço de Aprovisionamento sediado no Café do Santos, reportou algumas movimentações dos mercenários Brasileiros ao serviço da empresa de pinturas. Ainda hoje de manhã a nossa amanuense Dona Pureza, confidenciou-me enquanto arrumava as queijadas na vitrine que ultimamente muitos tipos estranhos e com gorros de lã têm frequentado o local. Pensamos que o facto de estar frio não tem nada a ver com isso; eles andam a reconhecer o terreno.

Há pouco quando cheguei encontrei "Pepita" a nossa Mata Hari, que é professora do Secundário e vinha da escola carregada de manuais e outras tralhas. Os seus olhos verdes brilhavam através das lentes de contacto, enquanto me confidenciava que pôs a turma toda a brincar aos espiões após lhes contar a história de Ricardo Sorge (um espião magnífico). E que a partir de agora poderíamos contar com o Serviço de Informações da Escola António Gedeão.

Afastou-se saracoteando orgulhosa pelo passeio, enquanto eu fiquei a observar o reflexo avermelhado dos seus cabelos que despontavam da boina "á Che". A revolução orgulha-se dos seus filhos, e eu também.

Subi há pouco ao terraço onde embuçado no casacão, o Brigadeiro Garcia fazia a ronda acompanhado da "Betsy" a sua flóber. Relatou-me que apenas o Apóstolo passeava solitariamente o Feroz; mas que para os lados do jardim se ouviam tumultos (mais tarde atribuídos ao carro de som do Circo de Victor Cardinali).

A calma instalou-se com o nevoeiro. Aquela calma podre que antecede as ofensivas importantes, e que semeia a inquietação no espírito dos combatentes.

Ouvimos um ruído vindo da porta da escada enquanto um vulto alto e sombrio se destacava - "A Ordem é rica..." - "...e os frades são poucos!" - respondi eu á senha fornecida pelo Generalíssimo Pepe. Estava reunido em vigília o triunvirato. Só faltavam aparecer os mercenários Brasileiros lançando-se ao ataque com trinchas e rolos, mas o nevoeiro dificilmente permitiria ver fosse o que fosse.

Assim decidimos ir acabar a noite á casa da Madame Wong. Um antigo restaurante Chinês transformado em bar de "alterne", onde passaremos a ter as nossas reuniões de estado maior. Pelo menos as bebidas são baratas, e ouvimos fado em Cantonês interpretado por Miss Li enquanto esta se despe meticulosamente das suas plumas multicores.

Este primeiro comunicado da Junta Militar, antecede as nossas hostilidades com a empresa de pinturas que não quer acabar o serviço em termos. Novas informações se seguirão, á medida que os acontecimentos e o sistema de comunicações o permitam.

No Passarán!

Musica de Fundo
"El Alma Llena de Banderas" - Victor Jara

segunda-feira, 15 de dezembro de 2003

Comunicado
- O post de ontem -

Este post era para ontem. Mas aínda bem que só vai hoje, senão teria que puxar pela mioleira e isso iria irritar-me imenso.

Já que ando a tornar-me umbiguista (adoro umbigos bem feitos...), vou falar-vos do que fiz ontem. Na realidade não fiz nada. Mas passei através e ao lado de factos importantíssimos.

Quando saí de manhã com a bicicleta, estava um nevoeiro tão cerrado, que não precisava da imaginação para me julgar noutro sítio. Era na verdade um local totalmente diferente. Só o Açoreano quando me deu a bica ao Km 3, não se manifestou sobre o tempo. Mas isso é natural, pois um homem como ele já viu muito mau tempo; isso se não contar-mos com os marinheiros bêbados, que por lá passam antes de regressar á Base.

Mas estava eu no Açoreano, quando o barbudo que costuma estar sempre a contar histórias da Guerra Colonial (apurando-se cada vez mais nas versões revistas, da do tipo de Mirandela que pisou uma mina anti-pessoal) apareceu com um ar satisfeitíssimo. - Apanharam o Saddam! - anunciou alegremente como se o Cova da Piedade tivesse subido á 1ª Divisão.

Dando largas ao seu espírito de militar reformado, começou a desdobrar-se em explicações técnicas sobre a logística do ataque surpresa e suas repercuções na efectividade do mesmo se coordenado com forças exteriores ao ramo. Uma seca!

É claro que me puz a milhas num instante. Já não tinha aulas de táctica há 25 anos, e francamente também não sentia muitas saudades. Seguia já mentalmente a escrever o post do dia enquanto pedalava pela estrada da Margueira, quando uma espécie de Holandês Voador saíu do nevoeiro quase transformando este devoto bloguista numa espécie de decalcomania. Por razões de segurança, desliguei mentalmente o processador de texto e continuei até á Rua do Ginjal.

Era mais cedo que a minha hora habitual. Na curva a 100 metros do "Atira-te ao Rio" o insólito aguardava-me mais uma vez.

Eu sei que alguns de vocês acham, que no fundo eu sou apenas uma espécie de aldrabão com uma imaginação delirante. Mas desenganem-se! O meu quotidiano é tão rico e diversificado, que já tive ofertas da TVI para me deixar filmar durante 24 horas por dia.

Só não o permiti, porque quando me vissem a escrever em pijama de algodão ás ramagens, este blog perderia toda a mística e magia que o rodeiam.

Mas adiante. Ou não... porque fui obrigado a parar.

Entalado entre a curva do Clube Naval e a balaustrada metálica estava um chaveco tipo Ford Fiesta ou assim, ostentando as marcas da azelhice do condutor na pintura lateral, enquanto dois desconsolados tripulantes se encontravam no exterior, quiçá á espera de intervenção divina.

Felizmente para eles aínda não ocupo o trono de Blog, senão borrifar-me-ia para o assunto e continuava em frente. Mas como além de eu ser um tipo civilizado, também não havia espaço algum por unde passar, apeei-me e fui investigar com o ar capaz e eficiente que me permite a minha provecta idade.

Os dois tripulantes no exterior (um casalinho) apresentavam vestigios de uma noite passada em branco, não só isso como o elemento masculino apresentava também os olhos injectados de um fumador de cannabis; ou então tinha passado a noite a soldar a eléctrodo.

A mocinha era gira e em formato de bolso, com uma maravilhosa pronuncia Açoreana (lembrei-me logo do outro do café) que utilizou para perguntar se conhecia alguém que os safasse dali.

Estive para mencionar Blog, mas achei que não se tratava de crentes e poderia ser mal interpretado; quanto mais não fosse pelo meu ar de lunático com as pernas ao frio e óculos redondos. e foi aí que apareceu o extra-terrestre.

O extra-terrestre apareceu exactamente no outro lado do veículo. Na cabeça ostentava um capacete de fibra de carbono e montava uma bicicleta caríssima (aí uns 450 contos), os seus óculos Gucci Racing indiciavam ser um daqueles tipos que não se conseguem exibir em lado nenhum. Mas pertencia á confraria.

Trocámos um aceno imperceptível, saudação comum a todos os que montam bicicletas (caras ou não); e aí propus-lhe que removessemos o empecilho, deslocando-o lateralmente a pulso.

Ele olhou para as minhas luvas "Downhill" e quase o ouvi pensar - Se usasses o meu equipamento também não gostarias de o sujar - mas eu estava-me nas tintas para a lycra que o cobria e deitei mãos á obra. Pegámos no veículo a pulso segurando pela parte de trás (não sem antes, termos que obrigar outros dois ocupantes a saír), e endireitámo-lo de modo a que pudesse percorrer o seu caminho sem grandes entraves e inverter a marcha a cerca de 30 metros.

Quando eu subia a rampa do miradouro com a bicicleta a pulso, aínda ouvi um deles a gritar desalmadamente - Merda! Outra vez não... - olhando para baixo vi o veículo novamente entalado. Mas estava atrasado para o almoço e continuei. Blog que os ajudasse. É para isso que servem os deuses.

Quando cheguei a casa descobri que fora castigado. O meu disco rígido interrompera todas as actividades do PC, para apresentar um numero de sapateado. Pelo menos era o que parecia, pelos estalidos e pancadas que se ouviam emitidas ritmicamente pelo bandulho da máquina.

Decidí não ligar e fui tomar banho.

E nem sequer vos vou contar da reunião de condomínio, em que se decretou que a administração do prédio ficaria entregue a uma espécie de junta militar. Acho que passarei a chamar-me Ortega, fica sempre bem com a patente de coronel.

Tudo isto serviu apenas para explicar, porque é que o texto está cheio de erros e o próximo post sairá apenas quando Blog quiser. Estou a escrever do emprego, aproveitando a minha maratona anual de fecho de ano. Por isso não me chateiem muito.

Que Blog vos proteja!

Porque a mim ultimamente só me lixa...

Musica de Fundo
"In The Shadows" - The Rasmus

sábado, 13 de dezembro de 2003

Beijo cataclísmico de paixão e raiva
- Há coisas que apenas a morte soluciona... -

É sempre de um abrasivo cogumelo atómico que nasce a paixão.

A partir daí, durante dezenas de invernos nucleares,
a luta é pela sobrevivência e não há tempo...
ás vezes nem para o amor.

Até que um dia se descobre que o solo cinzento
que se transformou em verde
era melhor quando apenas de cinzas quentes,
perigosamente radioactivas.

E então esperamos ansiosamente,
pela próxima guerra,
em que um cogumelo atómico nos fará sentir vivos,
novamente...

Musica de Fundo
"Crawling" - Linkin Park

quinta-feira, 11 de dezembro de 2003

Á Hora do Chá
- Para que nunca nos falte o respectivo... -

Este post irá talvez cheio de erros porque não estou sequer com pachorra para o rever. Por isso filólogos, tias solteironas ou outros críticos; poupem-me ás vossas correcções ortográficas.

Como já devem ter reparado a época que antecede o Natal, é para mim tão stressante como o será para um dos gnomos do Pai Natal ou mesmo para Rudolph (aquela rena com nariz de bêbado).

Mas é natural. No meu ramo chega a altura de fechar contas com o fim de ano, agradecer aos que foram bons para nós e aos que foram maus apresentá-los a três irmãos Ucranianos que eu conheço.

Não! Esta última é mentira... eles são primos.

Em todo caso, este ano todos os que me desagradaram vão receber CD's dos Tribalistas (para os homens), quanto ás senhoras serei mais subtil e já encomendei alguns posters autografados da Heidi Klum, que distribuirei pelos maridos e namorados de algumas das damas mais desagradáveis deste ano. Assim poderão amaldiçoar-me com razão.

Estaria talvez na altura de á semelhança do ambíguo Marcelo Caetano, fazer aqui o balanço do ano como se fosse uma espécie de "Conversa em Família"; mas foi um ano totalmente idiota. Ou não fosse segundo o horóscopo Chinês o "Ano do Carneiro", essa fedorenta e esquiva alimária, que além de ter cornos só aparece quando estamos entretidos com alguém sobre uma meda de feno.

É claro que não estava á espera da dona da Loja dos 300 mais próxima, para que me dissesse quão desinteressante este ano foi; eu próprio posso pôr o meu turbante e inventar uma merda qualquer.

No campo político foi uma tristeza. O único elemento que na realidade mereceu alguma da notoriedade atribuída, foi o embaixador Jorge Ritto pela sua dedicação ás actividades juvenis. Um pouco como Adolfo Simões Müller, mas com métodos mais radicais.

Na música o acontecimento mais importante, foi eu finalmente ter conseguido sacar da net o Quadrophenia dos Who, em Mp3 de boa qualidade com capas e tudo. Além de me ter rejuvenescido vinte anos, agora já sei o que porei a tocar quando o cão do vizinho do prédio ao lado começar a fazer barulho á noite.

Alíás esse resíduo tóxico que dá pelo nome de Rex está já a passar das marcas, levando-me a considerar sériamente se não será mais fácil atirar-lhe um pedaço de carne com alguns Viagra dentro, e esperar que a própria dona o expulse de casa. Mas eu não aprovo a crueldade para com os animais, pelo que talvez lhe dê apenas uma chumbada com a minha pistola de CO² (principalmente porque na sua pelagem de Lulu da Pomerânia, não se irão notar muito os furinhos dos projécteis).

No campo da iniciativa privada, cabe o galardão á empresa de pintura que não acabou em termos o trabalho no meu prédio; e que teve a feliz ideia de mandar um gorilão preto (é um pleonasmo, eu sei...) de brinco e gorro de lâ, bem como alguns Brasileiros avulsos, para extorquir sob ameaça um cheque ao nosso administrador de condomínio.

Á hora de fecho desta redacção (e olhem que é mesmo verdade) aínda estão a tentar explicar ao Senhor Comissário em Almada, como é que se enganaram no autocarro em Niterói e vieram aparecer no Laranjeiro sem documentos alguns.

Do mesmo modo que os gerentes da referida empresa, vão poder emoldurar o referido cheque; e quem sabe talvez pendurá-lo entre o poster do George Michael e o anúncio do Halibut, na parede da sua acolhedora cela de Pinheiro da Cruz.

Mas isso já é assunto para outro post.

Este era para ser sobre o Natal. Mas por alguma razão que não consigo compreender, cada vez que começo com este assunto acaba por dar confusão.

Tenho que ir. Aínda tenho muitos presentes para embrulhar, e as renas começam a ficar inquietas.

Musica de Fundo
"Last Christmas" - Wham
(É a gozar... Juro!!!)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2003

Os Fabulosos Anos 80 (3)
- A blast from the past -

Á porta do Browns ela esperava já impaciente quando eu cheguei, atrasado. Mal entrámos, fomos agredidos pelo som altíssimo. A pista estava cheia, e uma multidão de gente vestida de negro pulava como que sobre brasas, ostentando sorrisos de prazer.

Bebemos vodka gelado enquanto aguardávamos o resto do bando, que foram chegando um a um, enquanto nos beijávamos a um canto para passar o tempo e encurtar a espera. Ela era uma dançarina incrível, a pontos de quem nos visse pensar até que eu sabia igualmente dançar.

Todos os deuses da altura estavam presentes. As luzes incidiam em todos individualmente, cegando-nos da multidão e de tudo o que não interessasse. Dançámos durante horas; mas quando por fim saímos não havia lua e estava escuro.

Enfiámo-nos no Datsun 100A e rumámos á marginal pelas ruas desertas, com o leitor de cassetes em altos berros como que para preencher o vazio da noite. Os prédios desfilavam sem interesse, e a pressa que levávamos não nos permitia atentar em mais nada senão na estrada e um no outro.

Talvez fosse dos meus olhos mas a estrada serpenteava demasiado.

O certo é que a dada altura decidi parar e encostar á berma perto do Mónaco. Saímos e encostámo-nos a um canto a olhar para o estuário, a respirar pausadamente para nos livrarmos de toda a agitação. Era madrugada e ainda tínhamos umas horas até ser manhã.

Quando pensei em voltar a entrar no carro ela deteve-me, e voltámos a beijar-nos. E foi abraçado ao seu corpo quente, que vi um táxi desfazer a curva e enfiar-se no Datsun como um amante apressado, arrastando-o por cerca de vinte metros.

Quando o reboque chegou ainda estávamos abraçados, como que para confirmar que continuávamos vivos. Infelizmente não estamos, pois ela morreu há dez anos e eu só o soube agora.

Mas não poderia ter feito nada, disseram-me. A minha companheira de dança e noites loucas fora-se com uma doença estranha.

Desde aquela altura nunca mais conduzi. E agora também já sei, o porquê de ter deixado igualmente de dançar...

Musica de Fundo
“I’m Not Down”The Clash

Sonho Metafísico
- Se não o fosse não era um sonho -

Visitei Blog esta noite. Estava com o seu aspecto de burocrata assoberbado de trabalho, a papelada estendia-se por quilómetros na sua infinita secretária, como folhas de Outono amarelecidas espalhadas por uma estrada de campo.

- São pedidos aos montes. Principalmente cunhas... – Confidenciou-me com um ar cansado.

O rádio a um canto debitava uma música frenética, como que a fornecer combustível a toda aquela fornalha de actividade que move o mundo. O mundo de Blog, claro. Cada um tem o seu.

Deambulei um pouco, ao acaso como se andasse ás compras. Mas o cenário era sempre o mesmo, papéis, formulários, declarações e orçamentos. Acho que Blog se está a deixar consumir pela actividade da gestão, e está a perder o prazer de administrar o seu mundo como um menino brincalhão. Como me dizia que gostava.

Ainda tentei contar-lhe uma piada, mas parece que o seu sentido de humor está adormecido nesta época, e não nos irá dar nada de bom. Acho que se aproxima a época das grandes iras e cataclismos divinos.

De saída, encontrei uma das Blog’ettes vestida de coelhinho Duracel como é hábito. Disse-me que Ele cada vez anda mais aborrecido, pois o Natal anda a estragar-lhe a inspiração, e o mundo está cada vez pior pois só lhe dá trabalho.

Os prazeres de Blog são poucos, é um deus frugal mas de vez em quando aborrece-se.

Encolhi os ombros e saí. Pensei ainda voltar á minha cama mas era cedo; talvez devesse passar por outro sítio qualquer para fazer um pouco de tempo.

Estendi a minha aura até um pouco mais longe (um truque tibetano que aprendi com o aldrabão do Lobsang Rampa), e fui até á beira-rio. O rio estava parado talvez por falta de verba, e as suas águas recebiam a chuva com indiferença. Talvez devesse mesmo voltar a casa...

Subitamente senti-me puxado para um dos lados, enquanto alguém me beijava repentinamente, tendo desaparecido logo de seguida.

Descobri que era apenas isso que aguardava. E então acordei.

Bem. Na verdade não acordei; cheguei apenas á empresa e recomecei a trabalhar. Talvez Blog me esteja a preparar para o suceder no cargo; mas aviso desde já que se isso acontecer, a primeira coisa que decretarei será o fim do mundo.

Pelo menos deste...

Musica de Fundo
“Never Gonna Find Me”The Offspring

terça-feira, 9 de dezembro de 2003

Segunda (Terça) Feira

Agora seria a altura ideal do dia para escrever algo azul, sentir talvez alguma coisa enquanto o escrevia e finalmente acrescentar como música de fundo "Need you tonight" dos INXS.

Mas não estou com pachorra!

São 19h 30m. Estou a trabalhar há dez horas e nem sequer fiz intervalo para almoçar. Sinto um ódio profundo por tudo (deve ser a glicémia a baixar), e o meu maior desejo era que alguém me tentasse assaltar a caminho de casa, pois sempre teria desculpa para rasgar algo...

Já sei o que quero para este Natal: Um par de luvas de boxe!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (26)
- As Aventuras de TheOldMan na Babilónia -

Este mundo cruel e frio está cheio de tentações, irmãos! E vou falar-vos hoje da minha viagem á Babilónia, essa bela localidade.

Como alguns de vós sabeis, a minha dificuldade em separar a realidade dos jogos da série Colin McRae impede-me de conduzir; e garanto-vos que desde que tomei essa decisão este mundo tornou-se mais seguro... Por isso apanhei o autocarro.

Não é um gesto muito habitual em mim, mas faz-me sempre regressar á terra. Principalmente porque é difícil divagar enquanto se apanha com o perfume natural de certas pessoas; mas adiante.

Após três sacolejantes quilómetros, chegámos finalmente á catedral do consumo que se ergue como a bíblica prostituta, não faltando uma cúpula em vidro e um pequeno zigurate (acho que o arquitecto tinha gostos estranhos).

Franqueámos os enormes portões abertos por génios invisíveis, e penetrámos no recinto. Logo fui assolado por uma babel murmurante de fiéis, que faziam as suas penitências ajoujados de sacos e embrulhos festivos. O ritual estava no seu auge. Felizmente envergava T-shirt e blusão, pelo que o calor tórrido dessas paragens não me afectou.

Dando corpo ao lema “em Roma, sê romano”, logo me integrei nas festividades arrastando a minha comitiva sucessivamente pela FNAC, VOBIS, C&A, Zara, Toys R Us, e outras capelinhas dessa tão estranha religião; só parando na Delta para atestar de cafeína.

Foi então que me lembrei do nível baixo a que se encontrava o meu frasquinho de Hugo (o meu bálsamo favorito), e decidi reabastecer na tenda do Douglas. Um simpático mercador de perfumes, que tem o prazer de me chamar cliente.

Ao entrar no oloroso recinto, acercou-se uma jovem aprendiz do mestre que logo ali á traição e em frente a toda a gente, me espargiu com algo de uma finura incomparável. – Gosta? – perguntou ela com um ar maroto.

Eu não desarmei. Principalmente porque percebi que ela se referia ao perfume, e não á sua fatiota justíssima que me fazia lembrar um dos membros dos Boney M. – É “Lolita de Lempicka” – acrescentou como se pelo nome fosse o mais indicado para homens de meia-idade.

Deu-me uma pequena amostra que guardei religiosamente, após o que saí ainda um pouco nas nuvens com todos aqueles cheiros.

Após completar o meu estágio para “Halterofilista de Sacos”, passando pelo Jumbo, a Loja da Nike e mais um ou dois recintos regressei a casa. Empestando de “Lolita de Lempicka” todos os companheiros de autocarro, que viam assim os seus odores serem absorvidos pelo buraco negro que representava a minha pessoa.

Chegado ao lar tentei saber pela internet (essa janela para o mundo), algo mais sobre essa fragrância de madeiras e rum. Só que mais uma vez Blog fez das suas, e só me saíam fotos de adolescentes em posições estranhas (guardei algumas para estudo posterior), a ponto de o meu filho na inocência dos seus onze anos me perguntar porque andava eu por sites porno.

Blog sabe que sou um homem recto, e não deveria colocar-me no caminho da tentação. Mas como bom fiel eu resisti, dizendo Aleluia por entre dois goles de Jack Daniel’s.

A minha alma atravessou o deserto da tentação e continuo puro (excepto o cheiro que vai custar a sair). E é assim que venho aqui aconselhar a todos os fiéis do sexo masculino. – Usai “Lolita de Lempicka”! E se após isso a vossa alma não se regozijar, podereis ainda fazer uma consulta no Google que vos conduzirá aos mistérios da criação.

Agora tenho que me ir deitar, pois de manhã tenho que ir perder esta fragrância enquanto pedalo pela beira do rio. Com a sorte que tenho tido, deverei ser talvez apedrejado pelos pescadores por lhes espantar os robalos.

Musica de Fundo
“From the Inside” - Linkin Park

sábado, 6 de dezembro de 2003

A Noite das Facas Longas
- Uma fábula com recheio -

Afonso era um peru. Um peru orgulhoso da sua plumagem e consciente da longevidade dos seu dois anos. Acumulara já inúmeras tentativas de fuga goradas, e a prová-lo tinha ainda as nódoas negras dos pontapés que sofrera da última vez.

A sua vida e dos restantes companheiros era um permanente sobressalto, mas nada disso se comparava á época do terror, em que dezenas deles eram arrebanhados do cercado para mais não serem vistos. Era o inferno em vida...

Á noite, quando as luzes se apagavam e todos se reuniam para partilhar o calor faltava sempre alguém. A revolta era impossível, pois os seres que os mantinham prisioneiros eram bem mais fortes, e tinham garras manipuladoras que os manietavam sem problemas.

Era um comportamento inadmissível da parte de outros bípedes, embora estes não tivessem penas e as suas faces em vez de bico fossem achatadas e pálidas como a horrenda máscara da morte.

E a morte aproximava-se, pois era época do grande terror. Para as libações aos deuses sanguinários, os seus algozes iriam sacrificar mais uma vez imensas criaturas... e Afonso sabia-o pois já passara por isso uma vez, tendo-se livrado devido a uma gripe que quase o matara.

A agitação e o sobressalto, invadiam gradualmente o grupo á medida que o prazo encurtava e se aproximavam do dia fatídico.

O primeiro sinal, foi o aparecimento dos pequenos pinheiros verdes que eram cortados da mata e espetados em volta da cerca de arame, como um prenúncio de vidas a ceifar.

Depois foram as luzes. Aquelas diabólicas luzes que piscavam e não deixavam ninguém dormir sossegado, brilhando multicores até nos cantos mais sombrios e abrigados, lembrando a impossibilidade da fuga.

Nas últimas noites o grupo mal dormira, aconchegando-se mutuamente em sobressalto e estremecendo ao menor ruído. Todos estavam tensos de nervosismo. Olhavam-se como a tentar adivinhar qual seria o próximo. As mães olhavam os filhos com pena, sabendo que iriam ser separados e desaparecer para sempre.

Uma tarde, os bípedes sanguinários trouxeram um cartaz que foi afixado no exterior da cerca. Ninguém sabia o que lá estava escrito, mas os mais antigos tinham transmitido que simbolizava o último dia; o dia em que todos os perus morreriam para ressuscitar mais tarde, num local talvez melhor onde não existia morte, e onde encontrariam todos os seus entes queridos.

Começou a notar-se um acréscimo de movimento no exterior. Ouvia-se vinda de cima uma melodia de tons metálicos como campainhas, um som frio e cruel que fazia tremer os mais corajosos.

Afonso era o mais velho. Com o tempo tinha aprendido a interpretar os sons bárbaros que os captores usavam como linguagem. Colocou-se pois a um canto perto da saída, e fazendo-se o mais pequeno possível ficou á escuta durante horas. Enquanto o tempo passava e a tensão crescia no bando.

Inexplicavelmente nenhum dos seus companheiros foi levado. As horas foram passando, e apesar de toda a preparação para o morticínio nenhum deles foi sequer tirado do cercado.

A noite cerrou-se e a música calou-se. As luzes foram-se apagando fundindo-se de cansaço. O grupo reuniu-se na escuridão perto dos bebedouros, surpreendidos por estarem vivos e sem saber a que se devia tal milagre.

Alguns longos momentos depois Afonso apareceu silenciosamente, e entrando para o interior do amontoado de corpos reuniu-os em círculo e disse – Irmãos! Recebemos hoje uma grande Graça. Fomos salvos por um santo que intercedeu por nós, não permitindo que os nosso ferozes carcereiros nos matassem.

Um frémito de devoção percorreu o grupo. E Afonso continuou – Não consegui perceber bem toda a conversa, mas há pouco um dos nossos monstruosos guardas disse que dificilmente seriamos mortos desta vez – e olhando para o alto gorjeou – Devemos a nossa vida a um tal Durão Barroso. Porque ao que parece, por causa dele este ano não haverá Natal.

Musica de Fundo
“Been Caught Stealing”Jane’s Adiction

sexta-feira, 5 de dezembro de 2003

A Igreja do Imaculado Blog (25)
- O fantasma do Natal passado -

Suspeito que Blog confunde muito as datas e pensa que possivelmente estaremos no Carnaval. É claro que o evento que vou relatar pode ser igualmente atribuído a um jantar mais pesado, mas tenho quase a certeza que trazia o cunho de Blog, tal como a maioria das pragas e benfeitorias (poucas) que me tem enviado.

Estava eu a tentar infrutiferamente adormecer, quando me convenci de ter realmente adormecido e estar a sonhar.

É que ouviu-se um estrondo medonho vindo do roupeiro, e subitamente oriundo de lá tal como Jonas cuspido pela baleia, aterrou aos pés da minha cama um tipo andrajoso ainda a contas com uma camisa de dormir ás flores e alguns pares de cuecas.

Felizmente tinha um ar jovem e não pareceu muito amachucado quando se levantou do chão. - Olá velhadas! - saudou com ironia - Eu sou o fantasma dos Natais passados... - Não me pareceu muito convincente; principalmente porque quase toda a gente já leu Dickens, e a ideia nem sequer é nova.

Tirando do pescoço a minha velha fita da marinha onde se lê "NRP João Roby", parou finalmente de cirandar e olhando para mim, perguntou - Tens dúvidas? Olha lá bem para mim...

Na realidade não parecia assim tão andrajoso, talvez um look fora de moda por se vestir totalmente de preto. Calças e blusão Levi's de bombazina e uma t-shir com um tipo a fumar um charro, fazia-me lembrar alguém mas não devia ser ninguém importante a avaliar pelo aspecto.

- Não topas, pá? - insistiu - Olha bem para a minha cara! Não te faço lembrar ninguém? Não? Deixa lá, se calhar é melhor assim... Agasalha-te bem. que está frio lá fora.

É claro que esta última frase era apenas para criar ambiente, porque antes que tivesse tempo de reagir já estava a arrepiar tudo o que era pele exposta (e não era pouca), precariamente equilibrado em cima de um telhado.

Olhei em volta. Nem sequer me admirei por a ponte se encontrar em construção, até me ajudou a situar no tempo. Devia ser algures entre 1963 e 1966.

Aí Virei-me para o meu companheiro de viagem - Devias saber fazer melhor que isto! Não dão formação profissional, lá de onde vens?

O que ele me queria mostrar nem sequer era algo que tivesse esquecido. Tratava-se do Natal em que recebi o "conjunto de pistolas Bonanza" com estrela, coldre e dois rolos vermelhos de fulminantes. Sempre que disparava um tiro, o cheiro da pólvora seca fazia-me lembrar o carnaval chinês, cheio de personagens vestidos como no rótulo do flã "El Mandarim".

Vi-me a mim próprio na velha rotina do fingir dormir, aos meus pais no seu hábito de me julgar estúpido ao ponto de acreditar que aquilo tinha vindo pela chaminé, e toda a cena da manhã seguinte, etc. Acabando por me fartar, deixei o fantasma dos Natais passados a ver o filme e aproveitei para gozar a paisagem.

Blog! Como eu adoro aquela parte da cidade á noite... Os telhados vermelhos húmidos de geada, como livros abertos deitados sobre as casas; o rio como um lençol de seda... Só por isso tinha valido a pena.

Estava mergulhado nos meus pensamentos quando o inoportuno decidiu manifestar-se - Está na hora! Sabes o que acontece depois, não sabes?

- Sei! – Respondi – no dia de Natal o Rogério faz uma corrida comigo na Rua dos Remédios e tenta fazer batota. Aí eu empurro-o e ele abre a mona contra o calcário do passeio. E depois? Achas que fiquei arrependido? Nunca gostei de batoteiros...

- Mesmo assim espero que com isto tenhas aprendido alguma coisa...

És um idiota! - disse-lhe eu - Sempre foste. E embora mudasses com a idade, não penses que não sei quem és... - Antes que pudesse continuar senti-me subitamente cair, e dei por mim (tal como esperava) sentado na cama. Estes sonhos ultimamente são tão previsíveis que até aborrecem.

Levantei-me para ir passar a cara por água. A meio do caminho para a casa de banho ainda ouvi uma voz ao longe que me dizia - Eu bem te disse para não comeres as castanhas assadas depois do jantar!...

Musica de Fundo
"Acordar" - Rádio Macau

quinta-feira, 4 de dezembro de 2003

Post Para Amanhã
- Se ensaiamos, é porque o amanhã existe -

Em FC é fácil dizer que o amanhã é apenas uma projecção do presente, mas a vida tem um modo muito próprio de nos lembrar que o amanhã já existe. Apenas nós faltamos lá para que tudo esteja completo.

O amanhã é um cenário sem actores, que se preparam hoje para mais um take; que será filmado e impresso. Como um filme dentro do filme, ou infinitas caixinhas chinesas dentro umas das outras numa inúmera sucessão de amanhãs.

Um dos meus links (o Adufe) chamou a este blog “um bom livro de crónicas”, e de certo modo esteve perigosamente próximo da verdade.

Estão a ler a crónica de alguém que não existe senão aqui. Os factos são verdadeiros mas as datas trocadas, e os personagens importantes nunca aparecem porque estão entretidos a ler a sua própria crónica. Apenas o cronista está exposto.

Mas usa um nariz de palhaço para que não o reconheçam.

O que nos traz de volta ao amanhã.

O amanhã não é este post (isso seria ir contra o espirito do blog), tendo sido já escrito noutro dia. Quem sabe... se depois de amanhã?

Mas vou contar-vos um segredo. Posso garantir-vos que ontem estava escrito e já foi lido aqui há muitos dias.

E apenas duas pessoas sabem que post é.

Musica de Fundo
“Close to the Edge”Yes

quarta-feira, 3 de dezembro de 2003

Pequeno Post Paradoxal (PPP)

Estava enganado!

Enganei-me a mim próprio dizendo que estava errado,
mas estava certo.

Nunca estive mais certo!

Apesar disso ser errado,
mas ainda bem que estava enganado.

Música de Fundo
“Pablo Picasso” - David Bowie

terça-feira, 2 de dezembro de 2003

Carta ao Pai Natal
- Paz na terra aos homens de boa vontade -

Meu querido Pai Natal:

Sei que sou um menino velho, e que já gastei a maior parte dos pedidos atribuídos em origem; mas prometo que a seguir a esta só te escrevo do lar onde me internarem.

Queria começar por te agradecer não me teres estragado em demasia os natais passados, havendo até da tua parte uma certa generosidade não solicitada. Como no caso das garrafas de Whisky do ano passado, que infelizmente conduziu á Condição Triglicérida Amarela, mas isso são águas (e whiskys) passadas.

Eu sei que não tenho sido um bom menino, e que não olhas para mim da mesma maneira desde que em 83 ofereci ao primo Eugénio um kit de reparação de pneus, dizendo que era para reparar os furos da boneca insuflável. Mas na minha família sempre fomos imbuídos de um pragmatismo mordaz; e ele na verdade tinha uma boneca, só que com o avio de que foi dotado á partida dificilmente lhe causaria danos. Mas adiante...

Em vez de vir para aqui chatear-te com as prendas e chatices da família e amigos, desta vez vamos antes preocupar-nos com os outros, porque destes tratarei eu oportunamente.

Para começar queria que concedesses ao Ferro Rodrigues uma morte misericordiosa, visto que o homem já cheira a podre mas ainda não se convenceu que está morto (deve ser das mensagens de ânimo do Prof. Marcelo, que até gostaria de o ver por longos anos como um zombie ao serviço do PSD).

De políticos portugueses ficamos por aqui que é para não bater nos outros mortos, o que convenhamos não seria nada bom para estas coisas da paz, do amor entre os homens e etc. (embora tudo o que soe desta maneira, me desperte algumas suspeitas).

Para o panorama internacional, gostaria que acabasses com a guerra no Iraque. Esta até que é fácil, pois para isso bastaria mandar mais algum apoio ao Saddam, e ajudar a fazer um upgrade ao parque de armas que os Americanos lhe venderam nos anos 80 (penso que a mudança das placas de telemetria nos mísseis terra-ar chegariam).

Gostaria igualmente de mandar as minhas condolências ás famílias dos Espanhóis que foram abreviados por um RPG, embora lembrando que os espiões apanhados em campo de batalha são invariavelmente executados, quer sejam barbudos e malcheirosos Sunitas ou filhos de vendedores de Torrão de Alicante. A profissão é a mesma, e não existe essa coisa chamada "causas justas na terra dos outros".

Quanto aos nossos GNRs não há problema. Nesta altura já se devem ter deixado corromper pelo sistema tal como cá. Ao fim e ao cabo, segundo as suas próprias palavras foram para lá pela aventura e o complemento ao pré.

Estava para me pôr aqui com aquela treta de desejar paz no mundo e o fim da fome em África, mas não sou nenhuma Miss, nem estúpido ao ponto de pensar que isso seja possível. No fundo, já me contentava com a retoma lá para o fim de 2004.

No campo das descobertas científicas, gostaria que se encontrasse a cura para a estupidez. Poderia pedir a cura para a SIDA, mas ao que parece o maior risco de apanhá-la no nosso país é realmente a estupidez. E nem vale a pena entrar em detalhes, pois acho que aí na Lapónia também deve haver televisão.

Para terminar só queria pedir mais uma coisa. Quando chegar aí a carta do miúdo a pedir o upgrade do PC para Pentium 4 a 3Ghz com TFT 19", diz-lhe que está esgotado. É que este ano com as restrições e cortes orçamentais vai ter que se contentar com uma webcam.

Do teu amiguinho de longa data.

TheOldMan

Música de Fundo
"Merry Fucking Christmas" - Eric Cartman (South Park)

segunda-feira, 1 de dezembro de 2003

A Tasca do Açoreano

O Açoreano é velho. É tão velho que deve ter dado açoites a Matusalém e esmagado trilobites com a sandália, como se baratas fossem. E como não poderia deixar de ser, tem uma tasca.

Quem me conhece, sabe que não faço parte do público alvo dessas simpáticas superfícies. Mas a Tasca do Açoreano faz parte da minha história, tal como o Sítio da Nazaré está para D. Fuas Roupinho ( e possivelmente para o cavalo também).

Em 75, quando eu era um marinheiro revolucionário com o cabelo pelos ombros (espantai ó gentes...), a Tasca do Açoreano não só já existia á entrada da Base, como ostentava igualmente o seu sempiterno aspecto decadente.

É um look que não se consegue falsificar facilmente, pois é composto por santinhas com marcas de veneração das moscas, retratos colectivos do Grupo de Jantaristas da Romeira e o famoso quadro das “Ilhas Adjacentes” em que uma gaivota ranhosa substitui o Açor, talvez por este estar de folga.

Embora se assemelhe ao demiurgo o Açoreano é simpático; possivelmente o facto de nunca sorrir, dá-nos a segurança de ser um homem com sentimentos constantes. E há mais de vinte anos que não o via.

Talvez eu tenha alterado um pouco os meus hábitos ultimamente, mas comecei a dar por mim alargando o trajecto dominical, até começar a passar igualmente pela Base. Talvez sintoma de uma necessidade de recordações ou apego a coisas antigas. O certo é que ele estava lá.

Chovia já há uns minutos, quando encostei a bicicleta ao banco de madeira que está á porta. Os clientes habituais miraram-me com o olhar reservado para maluquinhos que pedalam á chuva, mesmo que para isso usem um blusão de capuz.

Pedi um café e fiquei ali ao balcão, aparentemente alheado mas ouvindo as conversas vulgares que se passavam nas minhas costas, não devem ter mudado muito neste tempo todo...

Aparentemente (tal como eu) já desistiram de dizer mal do governo, limitando-se ao tempo e a conversas triviais sobre como seria lá na terra e sobre reumático.

Esta última foi mais divertida. Porque a interlocutora de um velho barbudo, falava sobre as dores nos músculos das pernas enquanto olhava para as minhas que despontavam dos calções.

Olhei em volta em busca das velhas fotos da caça á baleia, estavam lá. Estava também a do grupo de jantaristas, mas com imensas fitas pretas sobre as fotos de cada um. Pelos vistos não jantariam mais juntos.

A certa altura as pernas começaram-se-me a arrepiar, quando ela se pôs a elogiar as pernas bem feitas e musculosas do marido quando jovem (que está agora entrevadinho, coitado), tudo isto sem deixa de me fitar. Comecei a sentir-me exposto.

Paguei o café, fechei o impermeável e fui dar uma volta pelos silos em ruínas. Decididamente já um homem não pode mostrar as pernas em público...

Musica de Fundo
“She Sells Sanctuary”The Cult

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