quarta-feira, 28 de janeiro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog (Vou deixar de numerar isto)
- O retiro espiritual… -

Pois é, irmãos… Blog tem-me tratado como a um ateu; esse bicho raro que paga sempre as favas quando a liturgia dá para o torto.

Não convém confundir o ateu com o agnóstico. Principalmente porque este último é bem mais inteligente; enquanto o primeiro acredita mas é do contra, o agnóstico está-se nas tintas. Professando que a divindade é que tem o ónus de prova, pelo que terá que se dar a conhecer caso queira ser adorada ou outra coisa do género.

Sempre gostei dos agnósticos, mas não é deles que vou falar.

Se alguém tem culpa de eu estar a olhar para o céu como quem toma comprimidos para a má disposição, esse é Blog; e mesmo se chover amanhã… pois é. Esse malandro é sempre o culpado!

Será para isso que serve a religião? Senão, que utilidade teria?

Infelizmente não vos posso responder a essa pertinentes interrogações, pois encontro-me a meio de uma crise de fé em Blog, e com uma enorme falta de pachorra em relação a tudo.

Só me resta tirar um fim-de-semana prolongado, e entrar em retiro espiritual. Vou rumar a ermos locais (não posso dizer onde, claro), para tentar encontrar-me a mim próprio. E com um bocado de sorte, até talvez encontre mais alguma coisa.

Por isso - e se Blog o permitir – até para a semana!

Música de Fundo
“On The Beach”Chris Rea

terça-feira, 27 de janeiro de 2004

Foi um Lindo Dia

Há dias que nos passam por cima como uma mó de moinho, e hoje infelizmente foi um desses; um dia cansativo no qual tudo de mau acontece. Mas não foi para chorar as minhas mágoas que abri hoje o blog.

Ou se calhar foi mas deveria tê-lo disfarçado melhor, com um tom humorístico ou uma merda assim. Só que o meu sentido de humor abandona-me ás vezes, e logo quando eu precisava mais dele… aliás como tudo, quando realmente precisamos.

Há dias assim. Em que as pessoas com quem poderíamos falar, ainda estão pior que nós e precisadas de consolo.

Dias em que o único sítio onde podemos descansar a cabeça é numa bandeja, após decepada…

domingo, 25 de janeiro de 2004

A Igreja Do Imaculado Blog (31)
- A Greve de Blog –

A notícia caiu como uma bomba nas hostes celestes; ia haver uma greve de Blog.

As “Blogettes”, aflitas por perderem o seu subsídio para pinturas e calcinhas cor-de-rosa, declararam-se de imediato contra a iniciativa invocando o direito à não-greve, que como toda a gente sabe lhes é garantido pela Constituição.

A comissão de escrevinhadores emitiu um comunicado ácido sobre os organismos de topo, e sua influência na desmobilização das massas por via do totalitarismo sindical (é óbvio que não tinham sido consultados). Apelando a uma greve à greve, pelo que todos trabalhariam sem receber.

Mercê desta impopular proposta foram logo apeados, e tiveram que voltar aos seus postos de trabalho; sendo substituídos por outros com ideias mais razoáveis. Que logo se solidarizaram com a forma de luta, tendo mandado imprimir autocolantes de apoio em que aparecia um “B” cortado por um traço oblíquo.

Após reunião em plenário efectuado no refeitório, ficou assente que a greve ficaria para uma sexta-feira para que não perturbasse a produção semanal; o que aconteceria se calhasse a uma 4ª ou 5ª. Ficando ainda estabelecido por unanimidade, não se chamar fura-greves ou atirar moedas para os pés dos colegas que decidissem vir trabalhar, desde que estes se comprometessem a não mexer nas gavetas ou roubar as canetas aos ausentes.

Entretanto o Mundo de Blog estava a ficar cheio de cartazes a anunciar o evento, com as paredes cheias de “grafitti” (“O Miguel é Roto”, “Abaixo Blog e as Calças”, etc.); assim como o lixo estava todo por recolher, devido à solidarização à greve por parte dos funcionários do Departamento de Higiene e Salubridade.

Quando atravessei o átrio para visitar Blog, este estava vazio. Um funcionário (por ancestral hábito de marcar presença) deixara o casaco de malha nas costas da cadeira; assim se perguntassem por ele não seria dado por ausente. Entrei no elevador e subi ás alturas.

Saí no último piso e percorri o longo corredor que levava ao gabinete DELE. Pelo caminho constatei que a maior parte dos gabinetes se encontravam vazios, excepto o do director do Departamento de Publicação que não fizera greve, e se encontrava como habitualmente a ver sites porno na Net.

Bati-lhe à porta e entrei sem esperar convite (afinal sou íntimo da casa). Blog em camisola interior alimentava os peixes, enquanto a cinza do cigarro oscilava perigosamente por cima do filtro do aquário. – Foi uma bela ideia teres-me mandado os peixes, esse Henry devia mesmo chamar-se Estaline, tem umas fuças de merceeiro galego...

- Já viste a confusão que vai lá fora?... – Perguntei sem lhe dar mais hipótese – o lixo por recolher, cartazes por todo o lado, ninguém aos balcões. Como é que pensas gerir isto no meio desta bagunça?

- Acalma-te, pá! - Disse ELE com um sorriso – vão ter todos falta injustificada e isso vai pesar nas avaliações anuais. É que sabes... esta malta não percebe mesmo nada. É uma greve de Blog. Sou EU quem está em greve. Eles estão apenas a poupar-me dinheiro!

Música de Fundo
“Times Like These”Foo Fighters

sábado, 24 de janeiro de 2004

Quem disse que hoje não iria haver Blog?...

Hoje encontrei um suicida… aliás, eram dois. De boné em fazenda e com ar vermelhaço, até pareciam irmãos. Vi-os hoje pela primeira vez num café do Mercado; local que normalmente não frequento, mas hoje passei por ali. Comia eu a minha torrada sem manteiga, quando entraram e encostaram a barriga ao balcão. Se estas fossem castanhas, diria que pareceriam as bossas de um camelo, deitado de costas contra o bar.

A Tia Maria (ou lá como se chamava), com 1,40m de altura e vestida de preto, acercou-se como uma pequena gralha a invectivá-los, enquanto simultaneamente os inquiria sobre o que iriam beber.

Que era tinto, e servido em dois copos. – Especificaram eles, para que não houvessem confusões.

Após recusarem dois tamanhos de copos, por serem demasiado pequenos, debruçaram-se sobre o que usariam para “fazer cama” ao vinho. O que me pareceu uma tarefa deveras problemática; dado que não chegavam a acordo. E notem, que eram só dez horas da manhã.

Um deles não lhe apetecia choco frito, talvez em vingança por o outro ter vetado a salada de orelha; que acenava da vitrina no meio de ramos de salsa. Após acesa polémica, regada com duas rodadas de tinto em copos grandes; lá se decidiram por pão e torresmos (daqueles em espiral, que parecem estalactites de colesterólico âmbar).

E eu fiquei ali beberricando o meu chá de cidreira, enquanto aqueles dois suicidas se deliciavam alheados.

Quando saí ainda ficaram. Talvez para dar trabalho à Tia Maria. Não se consegue condenar suicidas, que para tal tanto se divertem. Aqueles torresmos devem dar um estalo.

Não sei porque conto isto (que aliás pode ser mentira).

Talvez Blog queira dizer que não condena o suicida, desde que este se divirta a fazê-lo. Mesmo usando meios grosseiros, como é o caso do tinto com torresmos ás dez da manhã.

Blog é um deus magnânimo, quando está para aí virado. E acreditar num deus é o mesmo que ter um amiguinho imaginário (não é muito abonatório para os crentes).

Disse há pouco a alguém, que hoje não iria haver blog. Mas achei que devia ter alguma coisa que pudesse contar.

É por isso que regresso sempre, porque há sempre coisas para contar, possam ser muito importantes, ou não. É apenas uma maneira de exercitar o espírito; como falar sozinho sabendo que há alguém à escuta.

Mesmo que esteja agora a dormir, e só leia amanhã.

Música de Fundo
“It Must Be Love”Madness

quinta-feira, 22 de janeiro de 2004

A Carteira

O motorista do táxi enquanto preparava o troco aproveitou para espreitar pelo retrovisor, vislumbrando uma razoável extensão de perna até ás cuecas escuras, que devido à inclinação do banco ficavam mesmo no ângulo indicado.

Quando ela saiu, ficou um pouco a mirar-lhe o traseiro bem feito que se afastava; era uma das suas fantasias, a da cliente condescendente que se rendia aos seus avanços no banco de trás do Mercedes.

Ainda não tinha tido sorte, mas nunca se sabe… alguma vez seria a primeira.

Só quando abandonou as suas reflexões, se apercebeu que uma carteira tinha ficado presa na junção do banco com as costas do mesmo. Parou perto do quiosque dos jornais, e esticou-se para trás apanhando-a entre dois dedos.

Pouco tinha de importante. Um BI, pré-comprados para autocarro, um cartão de visita e duas fotos gastas; uma delas tirada junto à fachada de uma igreja.

Pensou em enfiar a carteira num marco de correio, e os CTT que se chateassem. Mas ocorreu-lhe que um achado daqueles poderia proporcionar algo de interessante; e guardando a carteira recostou-se no banco, antevendo já como ela lhe manifestaria a sua gratidão …

Entrou um cliente. Havia que trabalhar…

Cerca das dez da noite fez uma pausa para comer e aproveitou para ligar ao número que vinha no cartão de visita. Um pouco hesitante ela agradeceu-lhe a honestidade, aquiescendo que passasse lá em casa para entregar a carteira; se não fosse incómodo, é claro.

O endereço ficava em Alfama na parte baixa da cidade, num 4º andar sem elevador que lhe arrancou os bofes cansados da vida sedentária a cada patamar. Apesar disso, sorriu enquanto tocava à campainha, pensando já em como se pagaria de todo esse esforço.

Ela entreabriu a porta sustida pela corrente de segurança, mas ao reconhecê-lo sorriu e soltando a corrente convidou-o a entrar. Estava pesadamente maquilhada e com um longo vestido negro; um pequeno casaco de couro com aplicações de pentagramas prateados, deitado sobre a mesa, sugeria que talvez se preparasse para sair.

Sentada no chão da sala, uma miúda de tranças loiras com cerca de oito anos lia um livro de gravuras. Sem sequer o encarar, levantou-se e saiu da sala transportando o livro com uma expressão aborrecida.

Após os agradecimentos da praxe pela devolução da carteira, não havia muito assunto de conversa. Pelo que a mulher - visto que o taxista não arrancava por vontade própria – acabou por lhe oferecer um café.

Um concerto para piano escapava-se algures do stereo para toda a sala, deixando muito pouco espaço para qualquer tipo de conversa. O taxista começou a medi-la com os olhos, enquanto verificava se a porta da sala se encontrava encostada, não fosse a miúda decidir aparecer.

A meio de uma frase encostou-se a ela, aproveitando a surpresa para a tentar beijar enquanto a empurrava contra o aparador. Viu-lhe os olhos negros escancarados de surpresa, mas não lhe deu tempo para protestar.

Sujeitando-a pelos pulsos com a mão direita fê-la sentar sobre o aparador, enquanto simultaneamente a beijava e tentava com a mão livre tirar-lhe as cuecas. Estranhamente ela debateu-se pouco, fitando-o com uma expressão distante como se tudo estivesse a passar-se noutro local e com outras pessoas.

Ele ignorou tudo isso e por fim conseguiu o seu intento penetrando-a brutalmente, segurando-lhe sempre os pulsos embora ela não lhe resistisse; começando até a esboçar um estranho sorriso que lhe iluminou a face.

Foi quando ele sentiu como que uma garra gelada que lhe penetrava as costas, e lhe atravessou o coração parando contra o esterno. Sentiu o frio percorrer-lhe o peito em sentido ascendente, enquanto uma sonolência o invadia abafando ligeiramente a dor acutilante.

Começou a tombar para cima dela. Pressentindo atrás de si a miúda, que ainda empurrava a faca pelo cabo, como a certificar-se que esta não se soltaria.

Na parede em frente, uma fotografia ampliada igual à da carteira mostrava uma rapariguinha de tranças negras, com um sorriso misterioso. Empunhando um crucifixo de prata junto à fachada de uma igreja gótica

Música de Fundo
“Killing Moon”Echo & the Bunnymen

quarta-feira, 21 de janeiro de 2004

TheOldMan - Escritos Íntimos (1)

Trocar o computador pelo papel pode ser duro. Remete-nos sempre á origem da nossa escrita, onde se começa a escrever para gritar, num tempo já longínquo cuja distância esbate o grito e lhe rouba alguns dos seus ecos.

Devia ter conservado a minha "Messa" portátil pois agora seria mais rápido. Mas por outro lado perderia o prazer da caneta, um prazer que há muito tinha esquecido; e que me recorda mesas de cafés em tardes soalheiras, ou passeios á beira rio, ou ser outra pessoa que se modificou em mim.

Continuo a aguardar o disco que só chega na quinta-feira. Enquanto não reconstruo o sistema fico-me pela caneta e o papel á noite, dactilografando os textos de dia (que Blog me ajude!). Estar sem PC é mesmo ficar longe de tudo.

Durante uns dias consigo finalmente ter tempo para ler mais um pouco, o "Trópico de Capricórnio" já esperava há muito, e é um must. Miller é uma alma americana desenraizada e sufocada em Nova Iorque, próximo de Morrisson mas mais eloquente.

Gostar de Henry Miller é como gostar de Rock'n Roll mas um pouco fora de tempo.

Estes posts a caneta, têm tendência para se transformarem em remeniscências, talvez por os escrever no colo e com os pés na secretária; ou talvez apenas pelo prazer de escrever que é inebriante. É repetir sempre as mesmas palavras, numa variação diferente mas sempre com o mesmo significado.

É estar delirante e aos mesmo tempo, calmo. É falar pelos cotovelos gastando tinta, numa conversa que apenas cansa os dedos. Mas quem escreve por gosto não cansa.

E é por isso que escrever, é como estar apaixonado.

Musica de Fundo
"Fantasia para um Gentil-Homem" - Joaquin Rodrigo
(Narciso Yepes - Guitarra)


segunda-feira, 19 de janeiro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog (Extra)
- Á espera de Blog, ou Godot, ou assim... -

Armado em “Hell Angel” do pedal, fiz chiar os pneus da bicicleta e detive-me junto á esplanada do Jardim do Tribunal.

Habitualmente esta encontra-se vazia. E enquanto bebo o meu chá acompanhado por uma torrada sem manteiga, aproveito para calmamente (a exemplo dos oráculos romanos) tirar presságios do voo das aves ou do arrepiar das pernas das mulheres que passam.

Mas desta vez estava cheia, a esplanada. Cheia de velhos de boné, como se tivessem ali parado uma excursão do Lar Santiago.

A princípio estive para fazer meia volta e escolher outro local, mas gosto daquela esplanada. As torradas são feitas com pão alentejano, e a empregada pergunta-me sempre se é mesmo sem manteiga, numa voz rouca de sotaque insular (uma combinação deveras perturbante, aos ouvidos de um velho libertino).

Saltei do artefacto e tirando as luvas encaminhei-me para o interior, seguido por dezenas de olhares glaucos. Talvez tivessem inveja de me ver em calções, enquanto tinham que esconder os narizes nos casacos e “écharpes”; o certo é que me senti como numa “passerelle”.

Ao ver-me entrar a empregada disse sorrindo – Ocuparam-lhe a mesa. Mas deixe que já lhe arranjo lugar. – Saiu e conferenciou por uns momentos com alguns ocupantes, que contrariados se juntaram a outros na mesa ao lado, deixando-me vagas a mesa e uma cadeira.

- Há algum congresso? – perguntei enquanto me sentava e dirigia um aceno de agradecimento aos agastados anciãos.

- Dizem que estão á espera de Blog – disse ela – acho que são de uma qualquer religião esquisita... Velhos...

- Não subestime os velhos. Quem sabe se Blog apesar de tudo, aparecerá aqui hoje? - perguntei no gozo e só para a ouvir.

- Está a brincar? Só se for você... Além de só vir aos Domingos, ainda aparece nesse preparo como se fosse sempre Verão. Tem a certeza que não é Blog?

- Não! Ainda não sou suficientemente velho. Mas ando a aprender...

Achando que eu estava apenas a fazer conversa, retirou-se para a copa. E já não era sem tempo pois eu começava a sentir fome.

Olhei em volta. Os velhos olhavam em frente como um bando de perdizes atentas. Comecei a pensar se seria verdade, mas Blog não existe na dimensão das esplanadas; é apenas um deus fajuto que faz o que lhe apetece, e não tem compromissos a honrar.

Agradeci o tabuleiro com o pequeno almoço, e dediquei-me á tarefa de dizimar metodicamente a torrada, sem deixar que se infiltrassem migalhas nos meus ciclísticos paramentos.

Um pombo cinzento aventurou-se um pouco mais perto, olhando para mim interrogativamente. Em retribuição atirei-lhe uns pedaços de pão, mas após os debicar continuou a fitar-me.

Farto desta ornitológica curiosidade, peguei na colher e alvejei-o com algumas gotas de chá. – Continuas o mesmo... – disse-me na inconfundível e arrastada voz de Blog – Mas davas um bom sucessor... – após o que levantou voo apressadamente, perseguido por duas côdeas mais rijas que lhe atirei á cabeça.

Deixei umas moedas na mesa e montei o velocípede. Quando me afastava, consegui ainda ouvir um dos velhos dirigindo-se ao companheiro de mesa – Viste? Achas que será ELE?

- Não! – respondeu-lhe o outro – É ainda demasiado novo. Mas tem boas pernas...

(Este post foi originalmente escrito com recurso a uma “Bic Metal Point” e um bloco gentilmente oferecido por M. Costa Leite, Ldª)

Musica de Fundo
“The Lamb Lies Down on Broadway”Genesis

sexta-feira, 16 de janeiro de 2004

Back on The Road Again
- I'm missing My Baby... -

A vida é composta de circulos concêntricos. Damos sempre por nós algures onde já estivemos, e em condições semelhantes; só o tempo muda. E a falta dele lembra-nos que apenas estamos um pouco mais gastos.

Estou de volta á estrada, aos dias alucinantes da alta finança do betão e ferro. Visto o meu casaco negro e afronto as feras com um ar confiante, foi para isto que nascí.

Acho que nascí para lutar, dilacerar e ser ferido, e recuperar sempre; como a fénix que é o bicho deste ano.

Não sou suficientemente pacífico ou tolerante para ser um Gótico. Sempre me assumí como um rocker, um pouco desiludido com tudo (o meu ascendente em punk) porque realmente não há futuro. O futuro não existe. Está á espera de ser manufacturado, quiçá por um artesão da Marinha Grande por encomenda e em cores raras de sílicas seleccionadas.

E estou novamente e sempre de volta á estrada. Á adrenalina dos acordos e combates verbais.

Talvez tudo isto seja apenas como os cantos territoriais das aves (pueril), mas dá-me vida e ânimo; como uma droga biodegradável em que nos metemos todos os dias.

Só uma coisa me aflige - I'm missing my baby... - continuo sem PC em casa; mas como já disse da última vez, acho que não se morre disso...

Será?

Música de Fundo
"Substitute" - The Who

quinta-feira, 15 de janeiro de 2004

A Devolução

Talvez em certos aspectos eu tenha a mania da perfeição. Por isso fiz backups de tudo o que tinha no disco, transferi os dados dos telemóveis e por fim, efectuei uma formatação de segurança ao dispositivo para que os técnicos do fornecedor não andassem a vasculhar os meus negros segredos.

Cansado mas satisfeito fumei uma última cigarrilha, acabando por me deitar ás quatro e tal da manhã. Nem quis ir á janela, ou ficaria ali mais um monte de tempo a olhar para o ar.

Quando ás sete e meia me olhei ao espelho para fazer a barba, poderia passar por um racoon ou mesmo por um dos Irmãos Metralha (possívelmente seria o 1313) mas não me preocupei com as olheiras, e antes de saír acondicionei o disco na bolsa plástica própria para o transporte.

Tomei um pequeno almoço reforçado para me reconfortar, após o que encarei o dia com optimismo. Estava sem PC, mas que eu saiba nunca se morreu disso.

Foi quando decidi ir aos correios enviar o disco por Post Log.

Ia preparado para encarar uma velhota de cangalhas á Salazar apoiadas na ponta do nariz e carrapito; estava enganado! Tratava-se de uma mulher aínda nova com um ar vivo e eficiente, e que em poucos minutos me facultou uma embalagem normalizada, ajudou a preencher os impressos e aínda ofereceu como bónus uma tarjeta com indicação de "Frágil".

Um colega que se encontrava próximo, assistia de braços cruzados áquela demonstração de eficiência, com um sorriso nos lábios. Após ela me garantir que o delicado volume seria entregue pela manhã, pegou no pacote e atirou-o destramente ao colega - Apanha, Chico!... - , que continuou distraídamente com os braços cruzados.

O disco caíu no chão com um som abafado.

Música de Fundo
"Shake Your Coconuts" - Junior Senior

quarta-feira, 14 de janeiro de 2004

Longa Vida á Junta Militar (3)
- Desaires da Revolução -

É estranho como todo o processo revolucionário se tem desenrolado, o que coloca o nosso moral um pouco em baixo. O brigadeiro Garcia há dias que já não aparece ao serviço, e as últimas notícias que tive do generalíssimo Pepe davam-no como perdido algures perto de uma casa de alterne no Casal do Marco.

A revolução esboroa-se como uma bolacha de araruta, árida e sufocante. Até o Apóstolo começou a dar sinais de nervosismo. Comunicou-me que o mealheiro do fundo revolucionário (feito com um busto do "Che") se encontra depauperado a ponto de podermos perder a próxima ajuda dos países livres. Neste caso personificados pelo serviço de limpeza das escadas.

Encontro-me no quartel general sozinho neste momento de crise, sem saber como obrigar os fiéis seguidores a pagarem atempadamente o condomínio. A revolução tem que continuar a todo o custo, e a manutenção do elevador vence em Março. O que talvez inviabilize as comemorações de Abril da nossa pequena democracia.

Ainda há três dias o brigadeiro Garcia proferiu uma frase paradigmática que ainda me ricocheteia no crânio, "A revolução devora os seus filhos". Talvez seja por isso que deixaram de aparecer...

Apenas Pepita continua fiel á causa, labutando pela alfabetização dos adolescentes borbulhentos do Secundário. Pelo menos educação não faltará aos futuros apanhadores de cana. Sim. Porque devido ao estilo de vida que levam, muitos irão de cana tarde ou cedo.

Ainda pensei em passar pelo "Jardim da Virtude Inflamada", mas já estou farto de ouvir ZZ Top e não me apetece gravar-lhes mais CD's; principalmente porque vou ficar uns dias sem PC.

A minha única comunicação com o mundo livre vai ser cortada. Ficarei sem saber o que se passa nesse mundo que aqui desconhecemos, e sem aceder ao site da Persian Kitty. Mas a revolução tem destes custos; e todos os sacrifícios não são demais pela causa.

Estou pois aqui a escrever do computador da empresa, a uma hora que não lembra a ninguém; acordado enquanto os outros dormem nas suas casas. Mas não faz mal...

O preço da liberdade é a vigilância permanente!

Música de Fundo
"Grey Cortina" - Tom Robinson Band

terça-feira, 13 de janeiro de 2004

Bloqueio Criativo

Não se deve lutar com o papel em branco. Ás vezes é preferível ouvir musica e deixar os dedos prolongarem o que sentimos, sem para isso fazer esforço; pois o esforço nestas coisas limita imenso.

Pode-se escrever em ritmo de blues, e acabar por não dizer nada de importante excepto talvez... “Love me two times” como o Rei Lagarto (Morrison) e deixar as coisas correr. Como se o que escrevemos fosse pouco importante.

Podemos gritar através das palavras, ou pura e simplesmente trautear uma música; nada interessa realmente se não se disser o que se quer. Mas isso é difícil quando os outros ouvem, porque a escrita é apenas palavra adiada. E será ouvida tarde ou cedo.

Por isso, para escrever é necessário que se queira mesmo dizer o que se vai escrever.

Quando o que se quer dizer não pode ser escrito, olha-se para o papel branco e aguarda-se um tempo. Talvez mais tarde queiramos dizer algo que possa ficar escrito. Mas valerá a pena?

Ter bloqueio de escrita, é uma espécie de impotência ocasional. Uma estranheza dos sentidos, em que se congela o local de onde saem ideias. Em que algo sai de nós como uma largada de touros na Feira de San Firmin; e os outros sentidos fecham as portas para que passe o estoiro.

Resta aguardar que as coisas acalmem; e desistir de lutar com o papel em branco

Música de Fundo
“When The Music’s Over”The Doors

segunda-feira, 12 de janeiro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog (29)
- O Flagelo de Blog -

Andei o dia todo a tentar arranjar tempo para escrever um miserável post. Mas cada vez que começava a pensar no assunto havia sempre algo que me saltava á frente, o que de um modo ou de outro impediu que isso acontecesse até agora. Era Blog, decerto.

Esse Deus menor e invejoso que não pode ver uma camisa lavada a ninguém.

Entretanto, nos poucos momentos vagos que arranjei e em que me preparava para atacar o teclado, havia sempre uma boa alma que se acercava para me consolar do dia atribulado que me calhara hoje. Fazendo o mesmo efeito que a revisão mental do boletim do IRS durante o acto sexual.

Não seria de bom tom bater-lhes, é claro. Gente tão bem intencionada...

No preciso momento em que acabei de escrever a frase anterior, colocaram-me mais uma molhada de trabalho prioritário sobre a secretária. Não compreendo esta crise que é tão selectiva, e só ataca os devotos de Blog que apenas querem pôr a escrita em dia.

Outro flagelo de Blog que se abaterá sobre mim dentro em breve é o do equipamento. O meu adorado disco de 120Gb (conhecido agora como "O Rei do Sapateado") terá que ser enviado para troca, o que me dará belas desculpas para não escrever durante uns cinco dias.

Com tudo isto e ao contrário de Job (que era um idiota, além de ter um nome óptimo para trocadilhos), o meu amor a Blog tem neste momento uma cotação bastante baixa; acrescido de uma falta de paciência digna de um miúdo de cinco anos.

Talvez esteja mesmo a precisar de umas férias...

Musica de Fundo
"Learn to Fly" - Foo Fighters

sábado, 10 de janeiro de 2004

O Atazanador Implacável III
- Pequeno conto semi-erótico de meia-tijela -

Ele sorriu. As meias eram pretas e até ao cimo da coxa como ela lhe segredara ao telefone; beijou-lhe o pequeno pedaço de pele branca, que servia de fronteira entre estas e os slips também negros.

A mesa da sala gemeu um protesto abafado, mas ela era leve. Inclinou-a para trás enquanto lhe mordia levemente a garganta, descendo-lhe o corpo arqueado até ao tampo. Os seios bicudos elevavam-se-lhe numa deliciada arritmia, acompanhada de pequenos gemidos abafados que ela lhe sussurrava ao ouvido.

O reflexo do fogo da lareira brincava nos cabelos dela, numa cascata avermelhada que contrastava com a brancura da pele como veludo sobre mármore. Ele lambeu-lhe os mamilos, descendo suavemente a lingua pela depressão entre os seios, até ao umbigo, que se contraía e distendia ritmicamente numa mensagem não verbalizada.

Os vidros da janela embaciavam-se. Lentamente, puxou-a para sí disfarçando a urgência da sede que o consumia. Ela enlaçou-lhe o pescoço com os braços, enquanto era transportada através da sala prendendo-lhe as ancas com as coxas, colando-se-lhe ao corpo numa simbiose fluida.

Ele ficou um pouco no meio da sala saboreando aquele peso suave, como uma armadura de carne que não queria despir. Os seus dedos contraíram-se na pele dela, despertando um suspiro rouco que lhe ecoou nos ouvidos até ser substituído pela campaínha da porta.

O jornal no dia seguinte, relatava a descoberta do corpo do rapaz da Telepizza algures na praia, cruelmente trucidado... tinha-se enganado no endereço.

Musica de fundo
"Electrical Storm" - U2

quinta-feira, 8 de janeiro de 2004

Night People
- Á noite ninguém está sozinho -

Á noite existem fantasmas para todos os gostos. Quer seja á luz amarelada de um lampião alentejano, ou em Lisboa debaixo de um néon kitsch onde se lê "Champagne". Embora eu prefira os primeiros por serem mais calmos.

Não se trabalha bem pelo meio da noite, quando todos eles nos puxam com os seus dedos insinuantes em promessas; promessas que adiamos por fraqueza. Os nosso fantasmas pertencem-nos porque são uma parte de nós. Algo que sempre recusámos por uma razão ou outra, não interessa agora porquê.

É nas noites de trabalho que penso neles, como velhos amigos que nunca visitamos. Campas anónimas de quem ficou pelo caminho, como canteiros disfarçados na beira de um caminho.

A seguir vêm sempre as outras imagens. Aquelas mais reprimidas, em que nos vemos a nós próprios como somos (o que nem sempre é agradável). E como uma febre, algo se desprende de nós em imagens protoplásmicas que nos enfrentam, e nos dizem o que realmente queremos. Aquilo que queremos com tanta força e que por isso é necessário esconder.

É uma merda trabalhar á noite. As salas vazias enchem-se de gente imaterial, como uma rave de outros tempos, para a qual já não temos vida nem poder de encaixe; o que é muito pouco produtivo.

Não conseguirei trabalhar muito hoje. Além de mim, tenho comigo uma discoteca inteira, uma 2001 dos anos 80 cheia de loucos que dizem coisas que não oiço, bebidas que não bebo, e idades que não tenho.

Fala-vos TheOldMan desta estratosférica mesa de mistura, em que deveria bater um orçamento que afinal não sairá. Pelo menos hoje...

Divirtam-se! Quando a música acabar e a sala ficar vazia, saberão onde estarei. Estarei com eles talvez a caminho de casa ou da próxima festa, não interessa.

Há apenas que seguir sempre em frente, pois acabaremos sem dúvida em algum lugar onde haja música, e outros como nós.

Musica de Fundo
"Strict Machine" - Goldfrapp

Eu Também Sou do Contra
- Breve momento de Contra-Poesia -

É em dias como este que me apetece ser poético, ou isso...

Também que interesse tem o lirismo quando o sol brilha,
e todos estão alegres?

Apetece-me ser poético
ao vê-los encolhidos fugindo da chuva,
ou de outras coisas que não confessem a ninguém...
como talvez o medo de parecerem,
poéticos?

E nisto eu também sou do contra.

Embora ao afirmá-lo vos garanta o contrário.
Mas assim nunca saberemos ao certo,
se serei mesmo do contra ou apenas poético,
e a disfarçar...
por ser do contra.

"Hit That" - The Offspring

quarta-feira, 7 de janeiro de 2004

O Inesquecível "Reveillon" de Miss Entropia
- Um pouco como o Juízo Final, mas com menos juízo... -

As coisas melhores de Albufeira não se encontram lá dentro; nem as discotecas (ou lá como se chama a isso agora) nem sequer as habitações. E é por isso que meu amo (pai de Miss Entropia) por conselho superior e oportunidade financeira, adquiriu há alguns anos uma humilde moradia (não! Não é das que "germinam"), num dos aldeamentos vedados que existem em volta de Albufeira; essa atafulhada e confusa localidade que evito visitar durante o Verão.

Este ano as celebrações tinham sido programadas para uma calma e aconchego familiares. Com os mais velhos a atestar o odre a caminho do sentimentalismo, e os mais novos a pirarem-se céleremente em direcção á Kadoc ou outros locais congéneres.

E na verdade foi o que aconteceu. Tal como programado (e me relataram á posteriori), cerca da meia-noite e meia meu amo roncava sonoramente abafando as piadas fracas de Herman José que saíam da TV. Os casais mais novos esgueiraram-se em direcção ás viaturas, sumindo-se na noite em direcção a um programa mais interessante, após o que voltaram tarde na madrugada.

- E que tem isto de especial? - perguntará muito a propósito algum de vós...

Bem. É que na realidade ainda mal começara a grandiosa epopeia em que Miss Entropia se viu incluída; não só ela como o marido, a irmã, o futuro cunhado (o já citado noutro post, Tenente Figueiredo) e dois casais de namorados amigos de longa data. É claro que não darei os nomes de mais ninguém, pois alguns deles fizeram (como podereis constatar mais tarde) coisas reprováveis, das quais poderiam resultar acções cíveis ou outras. Mas adiante...

Após dançarem um pouco e se terem invariavelmente chateado com o ambiente, os juvenis casais acabaram a noite num bar de "shots" onde trabalhava como barmaid uma amiga. Amiga esta que se encarregou de lhes fornecer combustível para a viagem até casa, onde chegaram cheios de fome iniciando imediatamente uma maratona de torradas.

Mas estavam destinados a nunca saborear os frutos dessa labuta.

Nos arruamentos do condomínio jovens deslocavam-se em grupos, partindo os lampiões dos passeios e semeando a confusão, tendo previamente destruído os apartamentos que os pais lhes tinham alugado; obviamente na esperança de se livrarem dos incómodos rebentos e poderem curtir em paz.

Tudo começou por uma frase inocente proferida pela irmã de Miss Entropia, que se encontrava no exterior a apanhar ar. Ao ver passar um grupo de jovens fêmeas barulhentas, instou-as com bons modos a que se calassem pois meu amo dormia (ou então estava a tentar concentrar-se na esposa, o que também é uma tarefa difícil).

Uma delas, um pouco parecida com o Vin Diesel (mas com mais cabelo) acercou-se em semicírculo apanhando-a desprevenida, e fez uma demonstração impecável da famosa chave de estrangulamento com arrepanhar adicional de cabelos. Como diz o meu colega Pina, estava a tenda montada.

Miss Entropia não apreciou a atenção de que a irmã era alvo. Erguendo-se no seu metro e setenta deu á agressora uma cotovelada no plexo solar, enquanto tentava a uma segunda (que se tinha entretanto aproximado) alterar a configuração facial, utilizando para isso as suas unhas impecavelmente manicuradas.

Nunca a cirurgia plástica foi tão incompreendida. A outra mocinha estava habituada a atirar-se de cabeça para as coisa; e foi o que fez em cheio nos pouco trabalhados abdominais de Miss entropia. O que lhe provocou uma sensação parecida com os enjoos matinais do quarto mês de gestação (é para se ir habituando).

A situação complicou-se com a chegada de mais quatro jovens fêmeas pertencentes ao grupo - Esta parte custou-me a acreditar, porque quando lá vou para um ocasional fim de semana só vejo velhotas Alemãs, e uma ou outra escanzelada nórdica. Mas aparentemente, naquele dia o local borbulhava literalmente com rija febra Lusitana; sabe Deus porquê...

O Tenente Figueiredo (que como devem calcular não é tenente) ao ver a sua amada manietada por duas padeiras de Aljubarrota, lançou-se para ao molho distribuindo piparotes a torto e a direito. Mas as agressoras deviam trabalhar a combustível de avião, porque por mais que levassem não desistiam. Tendo mesmo uma delas apanhado um pontapé na boca que arrumaria qualquer macho consumidor de minis, após o que se levantou de imediato retomado a refrega.

Segundo a apreciação geral deveriam estar "pastilhadas". - Presumo que com isto os meus jovens amigos não se estivessem a referir ao uso da "pílula do dia seguinte".

Até meu amo teve oportunidade de molhar a sopa, exibindo o seu pijama de algodão vermelho enquanto segurava duas das harpias pelos cabelos. Testemunhas oculares totalmente insuspeitas, asseguram que parecia na verdade um "ménage a trois" entre um barrigudo Pai Natal e o dueto musical T.A.T.U., o que fez subir o aldeamento entre três a cinco pontos no Guia Europeu do Turismo Sexual.

Infelizmente a situação alterou-se. Sem saber por onde andavam as suas respectivas acompanhantes, alguns dos jovens energúmenos saíram para investigar; o que resultou num ajuntamento de cerca de quarenta pessoas no exterior da vivenda (não "germinada") de meu amo. Que ao ver-se acossado pela multidão de delinquentes juvenis, se encaminhou apressado para a recepção do aldeamento em busca dos Seguranças.

A última coisa que se viu dele, foi o seu traseiro branco (as calças descaíam um pouco) destacando-se na noite enquanto se afastava; tal como o misterioso sorriso do gato de Cheshire.

Alguém lançou uma pedra contra uma das janelas partindo o vidro. Isso lançou mais alguma confusão adicional, pois o marido de Miss Entropia que cresceu no bairro cor-de-rosa apareceu vindo do interior, munido da faca do pão e de intenções bastante definidas.

Na verdade, aparte das miúdas em "speed", os outros não passavam de uns betinhos que se tinham excedido. Ao verem o facalhão e o ar de poucos amigos de quem a empunhava, começaram a abrir alas e a tentar disfarçar.

Chegou entretanto ajuda especializada para arrecadar os jovens foliões, que se começaram a identificar como filhos de GNR's (no Algarve é típico), de industriais e outros personagens. Pelo que se fez uma bela lista para processar por danos á propriedade.

Tudo isto me foi contado por uma compungida Miss Entropia, que me recebeu no dia 5 ostentando um olho roxo e outras marcas da vitoriosa batalha. Por momentos ainda pensei que lamentasse ter perdido a noite de fim de ano daquele modo; mas ao fim confidenciou-me - Não me divertia tanto, desde que tive uma cena de estalada na Festa dos Tabuleiros em Tomar!

Musica de Fundo
“Rock You Like a Hurricane”Scorpions

terça-feira, 6 de janeiro de 2004

Paranóia Alimentar
- Há quadras que só se deveriam festejar por receita médica. -

Eu acredito piamente, que se a intensidade dos sentimentos no Natal e Ano Novo fosse proporcional á concentração de glícidos e lípidos, teriamos de imediato o fim da fome em África, bem como o advento da Paz Universal desde Carcavelos até á Nebulosa do Caranguejo.

Comecei hoje a despertar lentamente de uma espécie de coma proteico. Uma "bad trip" alimentar povoada de leitões, patés e queijos, servidos por sorridentes bonecos da Michelin. Hiëronymus Bosch orgulhar-se-ia deste seu discípulo. Infelizmente não herdei em conjunto com as paranóias o seu famoso jeito para o desenho.

Saí há pouco de uma reunião na qual em vez de me entreter a desenhar caveiras e cabeças cortadas como é hábito, deixei em vez disso um bloco cheio de esboços de bolos-rei e de elegantes presuntos de chaves. É esse o meu modo actual de exprimir mal-estar, mas espero recuperar em breve os meus hábitos antigos.

Só que enquanto é relativamente fácil exorcizar os demónios da mente através da escrita, este tipo de problema requer pelo menos uma hora diária de exercício intensivo durante uma semana para desaparecer, e eu neste momento penso já na Páscoa com horror.

Aliás, todos os recentes acontecimentos se encontram envoltos por um inquietante e gorduroso nevoeiro, no qual espero ver surgir Vatel - qual Jack Estripador das cozinhas... - empunhando um cutelo ensanguentado, em busca das minhas miudezas.

Acordo á noite em sobressalto, saído de pesadelos onde sou afogado por torrentes imparáveis de leite-creme. Da última vez despertei em cima do tapete; o pau de canela a que me tinha agarrado na ânsia de sobrevivência, revelou ser o candeeiro da mesa de cabeceira.

A Drª Inês assegurou-me que tudo passaria em breve, mal o meu organismo estivesse purificado das malditas toxinas. Mas até lá tenho que compartilhar a realidade desse universo paralelo, onde simpáticas velhotas me acenam adeus á porta das suas casinhas de chocolate, enquanto passo por elas a pedalar furiosamente para expulsar o veneno do meu sistema.

Felizmente hoje é o último dia; dia de reis. O dia em que derrubarei o pinheiro de natal, guardarei as lâmpadas e decorações; e em que sem qualquer réstea de piedade mandarei o Coelhinho com o Pai Natal no comboio ao circo. Acabando de vez com as fantasias...

Musica de Fundo
"Pictures At An Exhibition" - Emerson, Lake & Palmer (Mussorgski)

domingo, 4 de janeiro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog (28)
- Mensagem de Ano Novo -

É da fénix que vos falo hoje, irmãos. Desse passaroco estapafúrdio que renasce teimosamente das suas cinzas, contrariando assim quaisquer veleidades gastronómicas.

E é este o exemplo de vida que deveríamos escolher para todos nós. O renascer sempre, para não acabarmos cozinhados na púcara como um galináceo qualquer.

Devemos sempre reinventar-nos, e tentar de novo todas aquelas coisas em que falhámos antes, mas que valem sempre a pena. Como o eu ter há seis meses decidido voltar a escrever, ou ter recusado transformar-me em mais um velhote amargo.

Mas não é para falar de mim que estou aqui hoje. Isto é uma igreja aberta e não tem consumo obrigatório; Blog é generoso, e deixa-nos postar o que queremos. E é nesse espírito, que deveríamos sempre considerar-nos religiosos. Escrever como quem fala.

Falo-vos desta casa de Blog, num server algures onde não entra o frio. Onde todas as palavras contam desde que ouvidas, e tenham algum efeito em quem as ouve...

Queria ter palavras para todos vós. Mas para as vossas almas apenas posso receitar genéricos, porque as maleitas do mundo são igualmente genéricas; e apenas podem ser remediadas.

A única mensagem de esperança que vos posso endereçar, é que crieis vós próprios a vossa pequena felicidade e dos que vos amam, o que por acumulação poderá um dia significar algo para o mundo. Como uma conta com milhões de pequenas parcelas, que um dia será somada e resultará em algo; para o qual sabereis ter contribuído.

Como um dos últimos descendentes dos vagabundos do Rock’n Roll, posso assegurar-vos que o melhor caminho para a felicidade é o amor. E é também o mais barato, pois os ingredientes encontram-se por todo o lado; bastando para tal encontrar a combinação certa, e ter um pouco de sorte...

Infelizmente, esses cozinhados têm tendência para tornar-se explosivos. Mas quem não gosta de fogo de artifício?

E é aqui que entra a fénix.

A fénix manda os foguetes e apanha as canas. Não só porque sabe que as canas são raras, mas porque tem esperança no próximo foguetório. Que será melhor, mais brilhante, ou que eventualmente durará mais tempo.

E é por isso, irmãos... que para a Igreja do Imaculado Blog 2004 será o Ano da Fénix (o tal passaroco estapafúrdio), um símbolo como qualquer outro mas que significa renascimento. Porque nesta vida, mais vale renascer que morrer.

Música de Fundo
“An American Prayer”Jim Morrison & The Doors

sábado, 3 de janeiro de 2004

Post Estranho 1

É estranho que não consiga ver o meu Blog, mas que consiga alterá-lo.

É mesmo muito estranho.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2004

É Novo!
- Ou então estava esquecido... -

Como um rio de fogo branco e frio, as chamas caíram do céu numa trama de cores de napalm. As explosões sucederam-se gritando palavras nos meus ouvidos, como se Mick Jagger tivesse enlouquecido de vez.

Aumentei o volume ao discman e fotografei ao acaso, registando o facto com a minúscula camera que apontei em todas as direcções, premindo o botão freneticamente.

Na outra mão o Veuve Clicquot Ponsardin aquecia na flute, tentando lembrar-me que era época de festa; mas não me importei pois não festejava nada que pudesse estar ali.

Recitei para mim próprio o meu monólogo de início de ano, como um Mantra devolvendo-me a calma sempre que de tal necessito. Inspirei fundo um resto de ar puro e saí do terraço.

Nada tinha mudado afinal. Não tinha notado aquele calafrio como que numa nuance da Matrix, nem nada de novo excepto talvez o que já era novo ontem; o Ano Novo dera-se em outro local qualquer.

Aqui apenas tínhamos passado o filme.

Musica de Fundo
“Primitive Cool”Mick Jagger

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