domingo, 29 de fevereiro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- A parábola da dor insuportável –

Estava um dia Blog frente ao McDonald’s alimentando os sagrados pombos, quando se acercou um crente de expressão torturada. – Senhor! – invocou-o este – Sou vítima de uma dor insuportável que me aflige constantemente. Não me deixa comer nem dormir, tal é a intensidade…

Blog coçou o peito cabeludo através da toga e perguntou-lhe judiciosamente. – Meu filho… onde se localiza essa tua dor?

- No peito, Senhor. Como uma garra rasgando a minha carne, constantemente!

Blog olhou-o longamente com uma expressão iluminada. Mirou-o atentamente de alto a baixo como para avaliar a localização do centro de gravidade, e levantando a divina sandália, assentou-lhe um colossal pontapé nos testículos.

O suplicante abateu-se como um saco de tubérculos; iniciando de imediato na posição fetal algo que se parecia com uma demonstração de “break-dance”, enquanto consumia convulsivamente hectolitros de atmosfera respirável.

Bondosamente, Blog observava-o como para avaliar os resultados do seu tratamento pessoal. E após alguns momentos, perguntou-lhe – E agora, meu filho? Onde te dói?

- Nos tomates, porra!! – respondeu este com os globos oculares quase a saltarem da face, agora cor de beringela – Nunca tinha tido uma dor assim…

- Ainda bem! – respondeu a divindade. Após o que alçando do sagrado chanato, lhe deu mais uma pantufada “para o caminho” – Vai em paz, e louva as tuas graças!

Ajeitando o manto, virou-se para o seu único apóstolo e perguntou – Diz-me, Zé António… que lição tiraste deste episódio?

O Apóstolo piscou os olhos por detrás das lentes, mirou disfarçadamente pelo canto do olho a divina e poeirenta sandália do Mestre, e arriscou a medo – Que por mais intensa e horrível que seja a dor que nos aflige, haverão sempre mais e mais fortes dores para nos tornarem a afligir?

- Exacto! – respondeu Blog orgulhoso das suas técnicas pavlovianas – Agora, vamos lá até ao café do Santos. Hoje sou eu a pagar os descafeinados…

Música de Fundo
“Bodyrock”Moby

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2004

Cais 46

Um navio em seco é sempre um navio, apenas espera uma maré mesmo que esta nunca venha.

Mas que pode fazer um navio em seco excepto esperar, e sonhar? Sonhar com grandes viagens, tempestades, dias de sol… a liberdade, apenas reservada ás gaivotas.

A areia toma-lhe a forma que se vai solidificando no tempo, e vai engolindo o casco lentamente. Digerindo-lhe o corpo, como uma anémona a um peixe qualquer.

Vítima do sol o navio na praia sonha-se naufragado em fundos de coral, coberto pelas algas, banhado pelas ondas. Mas o seu destino é desmantelar-se no vagar dos dias, tábua por tábua, enquanto a pintura empalidece; invadido por caranguejos diligentes, que são a única vida que o percorre.

Os velhos navios têm uma certa dignidade, mesmo quando acabam varados num areal. Faróis de inevitabilidade, para exemplo dos que continuam cruzando os mares.

Musica de Fundo
“Memories of Blue” - Vangelis

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2004

Recadinho (Com dedicatória)

Nem tudo o que navega
é da Marinha

Nem toda a ave à beira mar
é uma gaivota branquinha

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2004

Tempestade

Fui olhar o oceano, mas as vagas nada me trouxeram de novo. As cores estavam todas trocadas como é hábito nesta época; e o vento colocou uma parede entre mim e tudo, de tão forte que soprava…

A harmonia entre o vento e o mar, transformara-se num turbilhão de espuma acompanhado de rugidos. Como um acto de amor desenfreado entre forças da natureza, ou uma gigantesca batalha sem vencedor, porque todos perdem.

Acabei por me lembrar de outras ocasiões (uma ou duas) em que ali estive pela mesma razão, naquele exacto ponto batido pelas ondas e pelo vento. Como a proa de um navio de pedra, ou um farol em ruínas.

Talvez o facto de eu preferir o mar tempestuoso tenha algo a ver com isto… ou talvez seja apenas propensão para o naufrágio.

Musica de Fundo
“Followed The Waves” - Melissa Auf der Maur

terça-feira, 24 de fevereiro de 2004

Chá com Blog
- Um lanche carnavalesco -

Quando cheguei, Blog estava mascarado de Chapeleiro Louco e enchia uma chávena Edgewood com Jack Daniel’s – Em memória dos velhos tempos! – bradou no sem tom habitual – Estas coisas devem fazer-se com estilo.

- Não estou em maré para copos – respondi – e além disso estou a dieta. Não estou com paciência para Carnavais.

E achas que a culpa é minha? – Perguntou-me Blog a gozar - Eu, um tipo tão atencioso que preparou este lanche; convidou a Lebre de Março, o arganaz e toda esta seita de inúteis só para te agradar.

Estou a precisar de cortar o cabelo – afirmei pouco a propósito – faz-me falta relaxar.

Isso é alguma adivinha? – perguntou a Lebre de Março, que se parecia nitidamente com o Tenente Figueiredo – tu deves dizer o que queres dizer, e não andar aí com rodeios armado em Alice.

Era uma chata, a Alice, – atalhou Blog compondo o enorme chapéu – sempre a fazer perguntas e a implicar com o pobre do arganaz. Mas chegaste mesmo a tempo para o chá. Queres gelo? – perguntou, tirando um balde de prata de dentro da cartola – Nada de água! É daquelas bolinhas plásticas que se metem no congelador, não altera o sabor da bebida.

Aceitei relutante. O arganaz sorria e piscava-me o olho. Queres que te mostre o meu Tarot? – perguntou ansioso – Foi a Rainha Vermelha que mo ofereceu; e acho que tem uma carta para ti.

Deixem o tipo beber em paz… - contrapôs Blog – estamos no Carnaval e isto deveria ser uma reunião alegre. E tu arganaz. Sei que estás doido para lhe entregar o “três de espadas”. Se fazes isso, meto-te a cabeça dentro do bule como da última vez. Deixa-o tratar do assunto sozinho; já tem muito em que pensar.

Continuei a bebericar o bourbon, enquanto assistia a toda esta encenação. Só o coelho branco não parecia muito alegre. – Não tens muito tempo! – disse-me enquanto olhava para o seu Timex coreano.

Disfarçadamente, o arganaz entregou-me o “três de espadas” – É para ti! Estava-te reservada; aliás já o sabias desde o princípio.

O que eu tenho mais é tempo. – respondi deitando fora a carta, que ficou pousada sobre um canteiro de margaridas, com o seu coração atravessado por três espadas – Tempo e espaço… principalmente espaço vago. Dava para fazer um baile.

Achas? – perguntou Blog, desta vez com a voz do meu filho. Enquanto tentava afogar o arganaz no bule – És mesmo um raio de um contador de histórias.

Acho! – respondi convicto mordiscando um aperitivo – mas felizmente não jogo ás cartas; a não ser que possa baralhar.

Musica de Fundo
“Ripples” - Genesis

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2004

Outra segunda-feira
- Sucedem-se umas ás outras… -

É difícil acordar ás vezes sem saber quem somos. Como que emergindo de águas geladas para respirar o ar denso da superfície.

São contingências de quem se reinventa dia a dia. Levando-nos a perguntar – Quem sou eu, hoje? Serei quem era há um mês?

Não! Claro.

Nunca somos os mesmos cada vez que acordamos, pois reformulámo-nos durante o sono. Despertamos sempre diferentes para enfrentar dias também diferentes, como quem veste outra roupa.

Pode não ser fácil, mas é possível. E é sempre o mais indicado.

Há dias, em que acordar é como fazermo-nos à estrada. Com botas engraxadas e pequeno-almoço tomado. Dias em que o espírito está claro e sem dúvidas; dias para os quais não são precisas dúvidas.

E os melhores dias para isso são as segundas-feiras. Dias para começar de fresco, como uma nova resma de papel para a qual se tem uma ideia; apenas uma.

Continuar sempre em frente.

Musica de Fundo
“Don’t Need a Gun”Billy Idol

domingo, 22 de fevereiro de 2004

Domingo de Manhã

A bicicleta jaz na varanda como um animal morto, deitada de lado; enquanto a chuva escorre pelos vidros empurrando-me para o interior da casa.

Detesto estes fins-de-semana em que não se tem escolha para o que fazer. Domingos frios em que nunca nos devíamos levantar, dormindo até ao dia seguinte carregados de Prozac ou copos; mas é claro que não é o meu género… Ou não estaria a escrever agora.

Liguei a televisão para ver se me animava o dia, mas eu devia saber mais que isso. Na Faixa de Gaza, mais um palestiniano vítima de falta de imaginação, mandou-se pelos ares juntamente com os passageiros de um autocarro. Depois queixam-se dos transportes públicos…

A chuva transformou-se em granizo.

Não tenho paciência para isto. Talvez seja melhor ir ouvir música.

Musica de Fundo
“No Brakes”The Offspring

sábado, 21 de fevereiro de 2004

A entrevista

Ser o primeiro é sempre uma honra. Quer seja no amor de uma mulher, numa série de entrevistas ou para testar um novo modelo de cadeira eléctrica… Embora neste último caso se possa ter direito a lápide comemorativa e uma pequena foto na Encyclopædia Britannica.

E é por isso que posto aqui o meu agradecimento à Gotika. Não só por ter sido o primeiro entrevistado, mas principalmente por ela achar que talvez eu o merecesse; mesmo que eu possa discordar um pouco quanto a este último ponto.

Musica de Fundo
“The Real Me”The Who

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2004

A Cabeça

Estava uma bela tarde em regresso de uma viagem de trabalho (ontem, aliás…), quando eu e meu amo decidimos que merecíamos mais do que apenas regressar a casa; tendo ele aventado a hipótese da cabeça de carneiro.

Os que me conhecem, sabem decerto que nada nutro de tenebroso contra os ovinos em geral e os carneiros em particular; embora considere este bicho assaz embirrento e malcheiroso.

E era esta a alimária de quem meu amo queria comer a cabeça, assada e ao jantar. Pelo que fizemos um desvio de vários quilómetros, tomando uma tortuosa estrada em direcção a Alvito; uma vila tão inacessível quanto mítica, isto atendendo ao tempo que demorámos a lá chegar.

Se estivesse ou um pouco mais escuro ou um pouco mais frio quando chegámos, diria que o inferno tinha gelado. Á entrada do monte fomos recebidos pelo pastor alentejano, que nos ladrou várias vezes até que alguém abriu a porta. Obviamente não nos esperavam…

A Sr.ª Eduarda envergando entre outras coisas, um gorro de malha que a fazia parecida com um aviador da 1ª Guerra Mundial, conduziu-nos ao marido que placidamente jantava dois ovos estrelados e uma fatia de pão.

Meu amo ao deparar com tal exemplo de frugalidade, arrepiaram-se-lhe os cabelos da nuca. E tendo perguntado se não haveria por ali uma cabecita de carneiro para assar, foi-lhe respondido que as cabeças de carneiro não andavam ali penduradas pelos chaparros, à espera que aparecessem lisboetas para as comer; e que se tratava de um prato que normalmente deveria ser encomendado com antecedência.

De orelha murcha fomos refugiar-nos na tasca da aldeia, onde além de peixe frito ou almôndegas só nos poderiam servir salpicão e queijo; que foi o que acabámos por comer, acompanhados por pão de rija côdea e um carrascão não identificado.

O caminho de regresso talvez pela insubstancialidade do repasto, revelou-se ou pouco nebuloso. Assemelhando-se ás cenas mais “ácidas” do Apocalipse Now, em que nos revíamos subindo o rio em busca de Kurtz, ameaçados pelas sombras que se escondiam nas árvores sobre a estrada.

Mercê de cantorias e concursos de anedotas, lá conseguimos espantar o sono no trajecto de regresso ao lar, onde cheguei como um prisioneiro de guerra solto após o final das hostilidades. Atarantado e com vontade de dormir.

O meu organismo debilitado por semanas de alimentação racional, tentou expulsar na forma de transpiração nocturna todas as toxinas que eu absorvera na enganosa demanda. Tarefa inglória!

Passadas horas desses eventos ainda me sinto intoxicado, pelo que apenas responderei a alguns mails em atraso indo de imediato dormir.

Musica de Fundo
(acho que ouço ao fundo uma sirene de ambulância)
Zen
- Para a Catarina -

Zen é pôr um nariz de palhaço
e aparecer nu no desfile de Carnaval.

Musica de Fundo
“Panamá”Van Hallen

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2004

Mastodontes
- Maravilhas da Natureza –

É cedo na manhã que costumo avistar os mastodontes. Normalmente tomo o pequeno-almoço ao balcão, e eles costumam acampar na mesa do canto; calculo que para se protegerem dos predadores.

Quem se pronuncia primeiro é geralmente a cria, que com um barrido estridente anuncia pela vastidão da pastelaria – Mãííííí! Quero uma meia de leite e uma torrada com manteigaaaa!

Apesar de ter cerca de 13 anos não tem mais que oitenta e cinco quilos, o que a torna num espécimen deveras curioso. Principalmente se atentarmos a que a cauda se encontra na parte posterior da cabeça, talvez para melhor enxotar os insectos que infestam o seu habitat.

A cria é um clone perfeito da sua progenitora, que encomenda o pequeno-almoço para a “menina”, enquanto a contempla com expressão protectora.

Os mastodontes são arrogantes. O patriarca da família embora quase sempre calado, fulmina com o olhar todos os que se encontram nas cercanias. Ignora é claro que está em vias de se extinguir, pensando quiçá que ainda domina um vasto território de pastagens como em tempos passados.

Vejo-os todas as manhãs. E embora a princípio me provocassem aversão (talvez pelos seus modos á mesa e aspecto seboso), agora sinto uma certa pena; pois apesar de continuarem a alimentar-se ali de manhã, encontram-se tão extintos como se estivessem impressos numa arriba fóssil.

Coitados dos mastodontes.

Musica de Fundo
"Pedro e o Lobo" - Sergei Prokofiev

Metamorfose
- Dark Blue -

Soturno é o animal que carrego no meu interior, como a face negra do sorriso que alguns adoram… e outros não.

Nestes momentos em que me sinto impregnar de fúria, os olhos transformam-se-me em vidro colorido, como contas de troca. Sou um demiurgo, que talvez empunhe uma faca de cozinha, ou algumas lâminas de barbear; daquelas de modelo antigo.

Há sempre uma necessidade de rasgar carne, como que para perpetuar a nossa vida através da morte de outrem. Só que nestas alturas, ninguém se atravessa no meu caminho… e serei obrigado a cair em mim mais tarde.

Sinto que a qualquer momento, algo vai irromper do meu peito como a garra de um ser interior que se liberta, saboreando antecipadamente sangue.

Estou capaz de destruir universos inteiros, sem hesitação. Estou furioso. E isto tudo por causa de nada.

O nada é a pior coisa que existe, mas é também a única sobre a qual se deve dormir.

(Acho que é apenas frustração, e trabalho a mais…)

Musica de Fundo
“Bück Dich”Rammstein (novamente, eu sei…)

Post Tardio
- É sempre tardio… o último post –

Existem coisas, para as quais não há jazz ou álcool que as consigam afogar. Acabamos por ter que viver com elas, como uma tatuagem ou um demónio empoleirado no ombro.

Sejam amores malditos, opções de vida ou simplesmente contratempos. O certo é que têm sempre que ser encarados de frente; pois não há como conviver com nós próprios para nos habituarmos ao inferno. Que somos nós, é claro.

O único caminho de fuga é sempre para a frente, como um cavalo que toma o freio nos dentes em direcção a um penhasco. Mas o caminho é longo, e assim temos tempo para pensar; só que não deixamos de correr. Está na nossa (minha) natureza.

E é por isso que escolhemos correr.

Através de chamas ou gelo (cada um escolhe o seu cenário), o caminho arranca-nos sempre pedaços. Partes de nós que se perdem pelo caminho, e para as quais não há substituição; a não ser para os que se arrependem.

E eu não sou desses…

Fui-me construindo com fúria silenciosa a partir do nada, como todos os tipos que escrevem anonimamente num local qualquer. Nunca olho para trás, nunca me arrependo e raramente digo nunca (embora o diga hoje, mas noutro contexto).

Alguns de vocês, dirão que não me conhecem neste post. Mas eu sou assim, e de muitas outras formas. Pois sou a soma de imensas coisas que desconhecem; e que até talvez eu próprio desconheça.

Não me apetece pensar agora. Talvez escrever como quem dance no meio de uma pista sobrepovoada, após alguns vodkas com gelo… pouco gelo.

Mas se tem mesmo que ser assim, eu opto pelo fogo…

Musica de Fundo
“Ich Will” Rammstein

terça-feira, 17 de fevereiro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- O Post da Blasfémia –

Blog escreve direito por linhas tortas. E é por alguma válida razão que trabalho rima com caralho.

Ambos são palavrões. E embora ambos me acompanhem pela minha vida, apenas o último me consegue proporcionar momentos de algum prazer, porque o trabalho… bem. Não vale a pena reincidir no pecado da blasfémia.

Do mesmo modo que, alguém que me possa encontrar a esta hora em actividade; terá que obrigatoriamente concluir ser por causa de um dos dois. Normalmente é o trabalho, claro.

Enquanto o outro serve para, na medida do possível aproximar; o trabalho afasta-nos de tudo e de todos. Transforma-nos em selvagens reclusos, obriga-nos a coisas que ao primeiro nunca passariam pela cabeça.

E é por isso que aqui estou, neste momento agarrado a um deles. E logo o mais chato dos dois.

Alguns dos menores que lêem este blog me desculpem, mas estou com uma disposição do trabalho. Que é o que faço de momento, como um eunuco que tenha apenas dedos… e muito pouca língua.

São coisas do trabalho.

Musica de Fundo
“Brilhante Riso Latino” – Irmãos Catita

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2004

Arbeit Macht Frei...
- Consultem o dicionário -

Hoje distraí-me, e por pouco que já não apanhava a segunda-feira. Também não seria tragédia alguma, atendendo a que se trata do pior dia da semana…

Mas não queria deixar passar a oportunidade de poder afirmar que já tive piores. E penso que isso será o melhor que se pode dizer de uma segunda-feira; atendendo ao facto de toda ela ter passado submersa num oceano de trabalho.

Talvez no fundo o trabalho não liberte… Mas é a terapia ideal para as segundas-feiras.

Musica de Fundo
“Blue Monday”New Order

sábado, 14 de fevereiro de 2004

Azul
- da cor e do seu fundo -

Tenho um fundo azul, isso já deu para reparar.

Azul é cor de mar, de olhos e de outras coisas que me agradam; e embora ás vezes eu fique blue… é a minha cor.

Na realidade não escolhi, é apenas a cor. Algo que me acompanha sempre, como um BI ou o aço azulado de um objecto que sempre se transporte. É uma cor tão-somente, e todavia é capaz de dizer imenso de uma pessoa.

Gosto de “The Boy in Blue” de Thomas Gainsbourough, e da “Rhapsody in Blue” de Gershwin. No fundo talvez eu seja mesmo azul. Mas vocês não o sabem pois nunca me viram; mas acreditem… eu sou azul.

Gosto da ganga que é azul, ou do céu e especialmente de Mar. Mar para mim é e será sempre azul; mesmo que esteja naqueles dias em que muda de cor e nos afasta com vagas de outras cores.

Mas eu gosto. Porque no fundo eu sei que Mar é azul, apesar de tudo o que possa fazer para mudar de cor… será sempre, e sempre azul

O próprio som da palavra dita é doce. É uma cor que se saboreia, tal como se cheira o rosa ou se sente o verde.

É por isto (embora não do princípio) que este blog é azul. Poderá alguém dizer que é apenas uma fase, mas é o que eu quero. Eu sou e quero azul. Encarem-no como quiserem… mas é o meu “período azul”.

“You wish and wish, and wish again
You've tried so hard to fly
You'll never leave your body now
You've got to wait to die”


Musica de Fundo
“Silly Boy Blue”David Bowie


A Quase-Primavera

Esta noite houve um acréscimo de assaltos. Talvez por causa das despesas inerentes ao dia de festa, os pretos do Bairro do Asilo andaram ontem deveras atarefados a traficar cavalo; assim hoje com os lucros poderão levar as suas garinas para curtir a noite.

Aqui no Bairro do Plano Integrado (enquanto eu trabalho mais um Sábado) o ambiente é primaveril. Pelo menos é o que se consegue ver através da janela blindada. Talvez o acréscimo de indígenas pelas ruas não seja um motim; podem ser apenas namorados.

A PSP já aqui passou três vezes. Mas os agentes ostentam um semblante calmo e benevolente, integrando-se na atmosfera cálida e romântica que envolve o bairro. Talvez hoje seja um dia de trégua.

O dia do não sei quê…

Música de Fundo
“Tás na Boa”da Weasel

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2004

Longa Vida á Junta Militar (4)
- O 13º Congresso -

Hoje foi um dia especial para as forças de libertação. Depois de um frugal jantar de enchilladas regadas com cerveja Corona, reunimo-nos no átrio do Palácio Presidencial para o 13º Congresso.

Décimo terceiro apenas porque amanhã (hoje) é dia 13, e porque o número já dá uma certa tarimba à nossa jovem revolução. Infelizmente nada corre como previsto, e os acontecimentos fugiram um pouco ao controlo; mas felizmente o Generalíssimo Pepe tem “bom vinho”, senão teria começado uma purga nas nossas hostes partidárias.

Iniciámos os trabalhos cantando o Hino. Como a maior parte de nós não receberam lições de canto, aquilo parecia mais uma reunião de condomínio com toda a gente a falar ao mesmo tempo. A pontos de eu ter mandado interromper várias vezes para afinar o tom.

O Apóstolo estava estranhamente calmo. Só se lhe notava um pouco de nervosismo no modo como pegava no livro de salmos, como se quisesse dar com ele em alguém. Da parte de um homem santo já era uma demonstração suficientemente eloquente.

Mal iniciámos os trabalhos, logo o dignitário da Beira Interior começou a resmungar e a contorcer-se como se tivesse algo para dizer; mas na verdade estava só a remexer no porta-chaves que trazia no bolso das calças. Tanto que se manteve mudo durante o decorrer dos trabalhos. É um homem de poucas palavras (e actos. Na verdade julgamos que seja um espião infiltrado).

Iniciei os trabalhos com uma arenga aos heróicos soldados da revolução, exortando-os a pagar as quotas atempadamente, após o que os informei sobre o decorrer do processo revolucionário. Como estamos em época baixa, as pinturas do Palácio Presidencial encontram-se atrasadas mas não é grave, pois o dinheiro continua nos cofres e o empreiteiro começa a vir “ás boas”.

Passados os primeiros esclarecimentos e os pormenores de serviço, passei em volta cópias de um documento que o apóstolo tinha preparado para a ocasião. Mas vi logo pelas caras deles quando começaram a ler, que se tivesse entregue o manifesto surrealista o resultado seria o mesmo.

Muito saudavelmente, os nossos revolucionários fingem-se analfabetos (embora alguns pareçam sê-lo na realidade) para que não sejam apanhados em contradição política e obrigados à auto-crítica. Que como todos sabem é comparável ao auto-fellatio, mas não tão gratificante.

Foram lançadas algumas fracas acusações sobre governo anterior, ao que o representante (agora já reformado) reagiu lançando-se em explicações que aparentemente não eram esperadas, e começou a confusão.

O Apóstolo e ele, pegaram-se de imediato por causa de pormenores relativos á redacção da constituição, que por este andar vai ficar parecida com um dos livros do Saramago (com pontuação confusa).

O Brigadeiro Garcia ainda tentou lançar água na fervura, mas deve ter usado gasolina, porque aquilo transformou-se numa espécie de S. João do Porto. Até o Generalíssimo Pepe que estava com uma grande bebedeira, interveio por repetidas vezes dizendo sempre o mesmo. Infelizmente tinha perdido a dentadura algures, e nenhum de nós percebeu absolutamente nada. Embora concordássemos acenando, mas só a ver se ele se calava.

Dei por mim a pensar noutras coisas. Aquilo estava realmente a tornar-se repetitivo, como uma espécie de fila de conga fechada em roda.

A certa altura, o Pedro González que é encarregado das forças de intervenção ainda me disse – Ó coronel Ortega esta malta já está a transviar. E se mandássemos entrar os “choques” e acabássemos com esta merda? Até parece uma reunião de condomínio…

Achei engraçado pois já tinha tido a mesma ideia. Mas como não temos assim tantos partidários que se possam desperdiçar, lancei a proposta de irmos todos ao café do Santos beber uma imperial. Foi remédio santo! Parecia que estávamos sob um raid aéreo…

Num instante o átrio ficou vazio como que por milagre. Olhei em volta e ainda pensei em telefonar a Pepita (a minha acessora para os assuntos políticos), mas era tarde e ela tinha metido atestado para preparar os testes para os miúdos do secundário.

Dei um pontapé num monte de beatas e entrei no elevador. A revolução afinal não devora os seus filhos… mas chateia-os imenso.

Musica de Fundo
“Start Me Up”Rolling Stones

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2004

O Dia dos Namorados

Ele saiu da florista carregando sorridente o cesto de margaridas. Enquanto caminhava, foi pensando que realmente a data nada significava, excepto um aumento do consumo privado e mais algum movimento para o comércio local.

O dia era apenas uma marca no calendário como qualquer outra. Haveriam sempre namorados, todos com os seus dias particulares; fossem presentes, passados ou futuros.

Na realidade seria como estar a agendar uma espécie de reunião, e assim toda a festa perdia o sentido. Como o Natal e outras datas institucionalizadas, em que se perdia um pouco o espírito que deveria caracterizar o acto.

Quando atravessou a passadeira, já não achava que tivesse sido assim tão boa ideia… mas a intenção era boa; e tinham-lhe pedido. Há quem diga que o amor é sempre uma boa causa.

Introduziu a chave na fechadura e encaminhou-se para o elevador. Enquanto este subia, olhou mais uma vez o cartão e apreciou a imagem das pombas em relevo. Pareciam um pouco estilizadas demais, talvez o artista nunca tivesse na realidade visto um casal de pombas. E desenhasse de memória algo que tivesse já visto noutro cartão.

Entrou em casa e antegozando a surpresa dirigiu-se para o quarto. O miúdo sentado ao computador jogava “XIII”, tentando salvar o presidente dos Estados Unidos; uma perfeita inutilidade.

Olhou em volta e pousou o cesto, enquanto esperava que fossem mortos os últimos terroristas no meio de explosões e gritos de dor. A televisão desfilava os cartoons do Canal Panda, sem que ninguém lhe desse alguma atenção. As margaridas assim não lhe pareciam tão frescas como ao princípio; talvez fosse apenas sugestão.

Olhou alternadamente para o cesto das flores e para o ecrã, onde a AK-47 dizimava corpos consecutivamente, e interrogou-se sobre o significado dos gestos. Mas não importava. Não era o seu amor.

Encolheu os ombros, e enquanto se retirava disse – Fica aí em cima a tua prenda para a Rita Inês. Quando acabares de matar toda essa gente, não te esqueças de preencher o cartão.

Musica de Fundo
“I’ll see it Through” - Texas

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2004

O Desvio no Tempo

A minha visão do Alentejo estará sempre ligada a Manuel da Fonseca. Ás suas praças e casas baixas debruadas de azul, de onde todos saem para dar vida à vila alimentando-a com os seus corpos que nela circulam, como sangue.

Mas a parte que mais me toca foi algo que há muito decidi apelidar de “o desvio no tempo”. Uma sensação estranha e repousante que me invade, sempre que tomo a estrada e atravesso aqueles campos que parecem nunca ter fim.

Para um citadino “gato de telhado” como eu, cruzar uma planície é como deixar o relógio em casa e não me importar. Dou por mim a admirar a pureza azul de um céu tracejado por um solitário avião a grande altitude, ou a ouvir o vento sussurrar calmamente numa moita, como se nada mais tivesse para fazer.

É como pisar um campo magnético que nos reduz a velocidade. Olhamos em volta e é tudo tão vasto e silencioso, que acabamos por nos voltar para nós próprios, de onde então voltamos a observar.

Não sei se compreendo o Alentejo… não tenho que o fazer

Sinto-o em mim pura e simplesmente. Uma segunda natureza, contemplativa; como a que apurei na minha infância olhando o rio do alto das minhas águas furtadas.

Sinto-o como se estivesse ali à porta de uma casa de paredes grossas, olhando para longe. Como que procurando uma parte de mim, que por algum estranho motivo sempre tivesse estado ali… esperando.

Gosto daquela serenidade de quem tem o tempo todo, como se o guardasse. Gosto da pronuncia cantada das mulheres…

Não sei explicar porquê. Ou talvez não queira.

Mas o desvio no tempo tem algo que me atrai. Uma praça, a sombra de uma árvore, uma seara… não sei bem onde.

Mas uma coisa tenho por certa; no Alentejo há algo que eu amo.

Musica de Fundo
“Wishing Well”Terence Trent D’Arby

terça-feira, 10 de fevereiro de 2004

O Post Seguinte
- Ou o primeiro de outra série -

Estalando as falanges, sentei-me à secretária e com o rato chamei o processamento de texto. Veio lesto e obediente como de costume.

O ecrã apresentou-se branco e impoluto, com o cursor piscando expectante por letras que formariam palavras exprimindo conceitos. Por aí, estava tudo a funcionar bem.

Verifiquei a inclinação da cadeira, bem como a provisão de cigarrilhas na velha caixa de tampa lavrada. Tinha que chegassem. Acendi uma e esperei.

O fumo azul saiu-me pelas narinas enquanto me preparava mentalmente para o que se seguiria. Peguei numa ideia e avaliei-a; não era má… já tinha tido outras piores. Mas não se tratava de um artigo de jornal, e por isso teria que ser espontâneo.

Calmamente, consultei alguns dos projectos pendentes, mas nenhum era suficiente bom ou resultante de um impulso natural.

A música estava no volume correcto e era calma quanto baste; comecei então a escrever. Ao princípio de um modo um pouco hesitante, evoluindo para um matraquear rítmico à medida que a ideia surgia, como que impulsionada de dentro para fora.

Não iria ser nada sobre lutas interiores, problemas mundiais ou a salvação da terra. Iria apenas ser um post banal que satisfizesse a vontade de escrever, dizer algo ou apenas dar ao dedo. Um escrito incontroverso que não despertasse nada excepto a vontade de o continuar a ler, como uma bebida que se saboreia apenas; sem objectivo definido, apenas pelo prazer.

Lembrei-me então que o prazer também é controverso, porque depende de cada um. E então interroguei-me sobre o objectivo do post.

Era o prazer. O prazer de sentir e de saber que isso ficaria escrito, permanecendo mesmo após o próprio prazer ter passado. É esse o prazer da escrita. Congelar o tempo, para que os momentos possam ser revisitados como fotografias num álbum; e vividos mesmo após ter passado muito tempo.

E então escrevi de um só fôlego. Deixei fluir todas as ideias e sentimentos, matraqueando o teclado freneticamente antes que a memória me começasse a trair. Registando todos os cheiros cores e sensações, como um reviver dos acontecimentos descritos. E escrever é realmente um pouco como viver... só que mais longe.

Passado algum tempo, quando quase tudo o que queria dizer estava já escrito. Fiz uma segunda leitura leve e rápida, para não ser vítima da tentação de alterar algo. Estava perfeito. Tinha sido realmente assim.

Satisfeito, gravei o ficheiro com um nome que o identificasse sem sombra de dúvida e encriptei-o com password, para que não pudesse ser consultado sem que eu o soubesse.

Ficou guardado, tal como outros momentos que guardo para mim próprio. Para publicação sai apenas o exercício da escrita e não o texto.

Musica de Fundo
“I Can’t Explain”The Who

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004

Mira Técnica
(Intermezzo com pipocas e filosofia barata)

Blog virou-se para mim, e esfregando uma nódoa de manteiga das pipocas que lhe ficara no manto perguntou – Tens mesmo a certeza que era o melhor que tinhas a fazer? A malta não está preparada para estas coisas; e logo agora que estava tudo a correr tão bem. Tinhas mesmo que te armar em sonso?

Não lhe liguei, e olhando a TV em frente onde aparecia a mira técnica, perguntei – Isto aqui em cima é sempre assim tão chato? Só um canal e cheio de interrupções…

- Cala-te e come umas pipocas. – aconselhou Blog, com as beiçolas sujas de manteiga – Tu é que te vieste esconder cá em cima armado em maricas.

- Não gosto de pipocas gordurosas! E a manteiga faz-me mal ao colesterol. – respondi levantando-me – Acho que vou voltar para baixo; aqui não se aprende nada. Ainda se o filme já tivesse começado…

És mesmo trengo! – afirmou Blog com desdém – Vê-se logo que foste talhado para isto. Ainda não percebeste porque não começou o filme? És tú, minha besta. És tu que faltas para que a emissão se reinicie!

Apontou o seu divino e gorduroso dedo em direcção á saída e ordenou – Vai e continua como quiseres, mas despacha-te! A manteiga das pipocas já me está a coalhar… Não te preocupes que eu gravo-te uns Divx.

Musica de Fundo
“Don’t Give Up”Eagle-Eye Cherry

sábado, 7 de fevereiro de 2004

Marco Quilométrico Nº 1
- Bad Times Boogie, ou apenas crise da meia-idade… -

Não sei que vos dizer, sem ter que contar tudo (e isso seria ir contra a minha própria natureza).

TheOldMan é um blog em reestruturação. O próprio escrevinhador já não sabe bem quem é. Talvez por ter saído do que pensava ser o seu próprio eu, como quem foge de um edifício em chamas; e ter descoberto que afinal isso não era bem verdade. Até porque não existia edifício algum.

Sinto que fui velho por demasiado tempo, mas talvez ainda consiga curar-me. Apenas um remoto talvez…. Sempre essa maldita palavra.

Como a aura de qualquer tibetano ranhoso que abandona o seu corpo, olho para baixo e não me reconheço. Aquele que lá em baixo dorme descansado não sou eu. Talvez me tenha enganado demasiado tempo com pensamentos que não são os meus; demasiada literatura e desejo de ser humano.

“Eu sou o que dilacera e dá sentido à vida”. Talvez eu seja apenas dor… ou algo assim…

Não se podem carregar todos os pecados do mundo quando se quer viver nele. Pensar é dor, e realmente farta ás vezes ter que racionalizar tudo o que se faz. É por isso que é uma grande responsabilidade ser racional. Os animais são felizes.

Eu nunca serei… acho.

Terei sempre um peso diferente para colocar na balança que é o meu espírito. E isso obriga-me a escolher; a escolha é sempre dolorosa porque nela abdicamos de algo, invariavelmente.

Não existe satisfação para aquele que tudo mede e pesa, pois ele apenas pode testemunhar… de fora.

A auto-análise é como uma tatuagem auto-infringida. Uma espécie de punição adicional a que nos sujeitamos, com um resultado já vislumbrado à partida.

Isto não deveria ser postado aqui pois vocês não têm culpa, nem obrigação de aturar toda esta choradeira. Mas já que se divertiram com os episódios anteriores, agora vão ter que me gramar até que eu encontre o meu próprio rumo.

Ter uma alma negra apenas significa que vive na escuridão seja ela voluntária ou não, como a socrática analogia da caverna. E eu não tenho mais paciência nem espírito para mascarar e falsificar as sombras. Não sou um encenador… apenas escrevo diálogos de peças já representadas inúmeras vezes. Sempre e repetidamente.

A luz tudo revela. Apenas me falta a coragem para a encarar e ficar ali banhado por ela à mercê de todos os olhares.

Agora desculpem-me mas já me expus demasiado... talvez tudo isto entretanto passe, ou não. As nossas fases de vida passam, mas permanecem sempre no mesmo local, cristalizadas em recordações. É por isso que se chamam marcos.

Não sei se escreverei amanhã. Não sei mesmo quando o farei… poderá ser em qualquer altura.

Mas garanto-vos! Nunca vocês estarão tão perto de mim como hoje. Pois foi a última vez que fraquejei…

Musica de Fundo
“My Inmortal”Evanescense

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2004

O Sono

Novamente olhou-a adormecida, tal como o fizera repetidamente nessa noite de todas as vezes em que acordara.

A face dela reflectia a miúda que fora em tempos e que se encontrava enclausurada, excepto naqueles momentos em que o sono lhe dava liberdade; transparecendo clara sem as rugas do riso e da preocupação.

No meio da penumbra silenciosa do quarto, ele sentiu que o centro do seu universo se deslocava novamente. Como já acontecera no passado… embora raras vezes.

Sentiu de um modo sem palavras, que sempre conhecera aquela cara. E que apesar da sua memória consciente lhe dizer o contrário, não era a primeira vez que a via assim dormindo, repousada e em paz.

Silenciosamente mudou de posição, ficando deitado de lado a observá-la enquanto o sono o puxava para dentro de si próprio, onde ela se encontrava também. Sorrindo com o seu ar de menina, que apenas revelava enquanto dormia.

Musica de Fundo
“These Foolish Things” Bryan Ferry

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2004

O “Crash Test” do Protótipo Gaulês
- Cadernos Industriais –

Como já devem ter constatado sou um autêntico pólo de sarilhos. No vortex infernal onde nascem todos os problemas, deve haver um enorme cartaz com publicidade à minha pessoa, para que todos eles tenham pelo menos uma oportunidade de me encontrar.

Desta vez venho relatar-vos um interessante episódio, que sem dúvida me ajudou a desentupir as artérias, e emprestou um significado mais vívido à palavra adrenalina.

Uma das características do meu meio profissional (que poucas vezes compartilho), é conseguir transformar quase tudo numa almoçarada; quer seja um fechar de negócio ou uma simples visita de sensibilização comercial.

O certo é que acaba sempre da mesma maneira, como se fosse uma espécie de encontro com uma mulher a cuja atracção não conseguimos resistir.

Reporta-se pois este evento à era em que meu amo comprou o seu primeiro monovolume. Um Renault Espace que a avaliar pelo tratamento de que é alvo, bem poderia ser substituído por uma Ford Transit cheia de caixas de fruta. Mas adiante…

Estava um belo dia de sol quando abandonámos a segurança da nossa vizinhança, e nos aventurámos no caótico trânsito da capital. O objectivo era negociar um trabalho importante, que permitiria mais tarde a meu amo, trocar de carro e ter umas férias descansadas.

Como a vida não é assim tão simples como isso, acabámos por demorar toda a manhã a acertar pormenores e a prometer “atenções” (caso não saibam, em construção civil o termo “atenção” não tem nada a ver com “alerta” ou “concentrado”), pelo que a reunião se encostou comodamente à hora de almoço.

Lembro-me como se fosse hoje… demos conta de uma massa de cherne deglutida com a colaboração de um Quinta do Carmo branco. Após o que, entre sobremesas e digestivos, conseguimos acumular lastro suficiente para conseguir pilotar um balão de ar quente. Coisa que de modo algum se assemelhava ao veículo que nos servia de transporte.

Resta-me abrir um parêntesis para vos confidenciar uma das irritantes características de meu amo. Característica essa que após este episódio, lhe tem proporcionado da minha parte sonoras lambadas, cada vez que manifesta na minha presença.

O tipo se falar com alguém enquanto conduz, vira a cara para o lado.

Bem… vínhamos nós de Oeiras pela famosa IC19 - comparável à Via Ápia dos romanos - após esse memorável almoço e a uns confortáveis 140km/h (pelo menos quando chegámos ao cimo da lomba, era isso que marcava o velocímetro), quando ele decidiu dizer algo.

Não devia ser nada de importante, aliás como é hábito. Mas o certo é que virou a carantonha na minha direcção para dizer algo, quando me apercebo de um drama que decorria exactamente à nossa frente.

Um BMW M3, por alguma razão que nunca cheguei a tomar conhecimento atravessou-se na via, obrigando o raquítico AX que nos precedia a travar bruscamente.

Meu amo na altura carburava a Quinta do Carmo, e encontrava-se loquaz como nunca, discorrendo sobre gajas e técnicas de aproximação. É claro que é totalmente falso que tenha travado. Embora mais tarde o tenha jurado convictamente, invocando avaria no ABS.

Não travou porque nunca chegou a ver o AX. Talvez o tenha sentido quando lhe passámos por cima, mas só muito mais tarde o conseguiu contemplar.

Foi assim:

O AX travou. Sem qualquer piedade, o monovolume a quem não tinham accionado os travões, continuou indiferente cumprindo fielmente as leis da física. Eu olhei em frente, e descobri que além de o filme ter começado nesse preciso momento, conseguira bilhete na primeira fila.

Por momentos senti-me como um daqueles macacos, que nos anos 60 eram enviados para o espaço nas primeiras sondas.

Senti o cinto de segurança apertar-me como um torniquete. Os óculos escuros saltaram-me, tendo sido encontrados mais tarde no compartimento das bagagens. Vi (juro!) em câmara lenta como nos elevávamos no ar após o choque, passando sobre o minúsculo carro azul, e com uma elevação de cerca de dois metros em relação ao solo.

Como o embate não tinha sido totalmente frontal, a nossa viatura inclinou-se ligeiramente para a esquerda rolando um pouco sobre si própria, e foi-se apoiar sobre o separador central em cimento. Segundo um GNR da BT que viajava em sentido contrário, parecia que tinham inaugurado mais cedo o comboio monocarril de Oeiras.

Felizmente, um poste previamente partido por outro utilizador moderou a nossa velocidade, fazendo-nos voltar ao alcatrão; onde o veículo aterrou como uma mula caída de um primeiro andar. Ou seja, de patas abertas.

Cuspindo alguns pedacinhos de vidro, destranquei o cinto e abri a porta do meu lado; tarefa bastante fácil, porque só tinha metade da matéria-prima inicial. Aliás como todo o veículo.

Os eixos encontravam-se partidos, os vidros estilhaçados, e tudo o que era placa de fibra tinha saltado; revelando um esqueleto metálico como de uma baleia descarnada a apodrecer numa praia. Apenas o habitáculo conseguira manter a sua forma natural, embora o leitor de CD’s tenha digerido o meu precioso e chorado “Big Ones” dos Aerosmith, que nem os técnicos da Renault lhe conseguiram arrancar.

Meu amo teve um ataque de asma, ou cagaço, ou lá o que fosse… quem teve que preencher os papéis para o seguro fui eu. E ainda tive que o mandar calar (com falta de ar e tudo), pois teimava em tentar culpar a condutora do AX de tudo o que tinha acontecido, perturbando todo o processo da “declaração amigável”. Só uma velada ameaça de o abandonar ali e regressar de táxi, o conseguiu remeter a um razoável silêncio.

Como lhe fiz notar mais tarde, o episódio poderia ter sido mais trágico. Não na parte que nos dizia respeito, até porque na realidade o carro é bem seguro; mas no caso das ocupantes do veículo da frente (mãe e filha). Que viajavam num AX comercial, cuja divisória e tampa de bagagens eram compostas por duas grossas placas de acrílico; que com um pouco mais de pressão e azar as poderiam ter decapitado ás duas.

É claro que agora meu amo tem outro monovolume igual (para alguma coisa servem os “Crash Tests”. Já não conduz tão depressa dentro das áreas urbanas, e quanto a olhar para o lado enquanto conversa…

Dá sempre um certo gozo dar estalos no patrão!

Música de Fundo
“Walking On the Sun”Smashmouth

terça-feira, 3 de fevereiro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Just call me Job… -

Não existe melhor meio de uma divindade provar a sua existência, do que infernizando a vida ao comum mortal. E se é realmente assim, então Blog existe e está no meio de nós.

Ao momento em que escrevo isto, estou a meio do meu dia de trabalho e lá fora brilha um sol incrivelmente amarelo. É a tarde mais estúpida e irritante dos meus últimos anos; não porque está bom tempo, mas porque deveria ter estado antes.

Tentai imaginar irmãos, este pobre crente em retiro espiritual no local onde mais precisaria de bom tempo, tendo sido acompanhado por três dias de chuva miúda e deprimente; para acabar agora fechado num escritório e presenciar esta dádiva dos céus (amaldiçoados sejam) que é uma radiosa e soalheira Terça-feira.

Á semelhança do Portador da Luz (Lúcifer) começo a questionar a justeza de tudo isto. Se vale realmente a pena servir no céu, quando se pode pontificar no inferno; e se vou ou não baldar-me para passear, em vez de ficar aqui estupidamente a olhar para o bom tempo que não tive.

Acho que por agora ganha o bom senso (e perco eu), pelo que vou continuar a empurrar o meu rochedo. Mas Blog não perde pela demora.

Se pecado é tomar o Céu de assalto, então fá-lo-ei.

Música de Fundo
“Beautiful Occupation”Travis

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2004

Segunda-Feira

Como sonâmbulos os carros agrupam-se em filas, apontados para Norte como que atraídos por um fenómeno magnético.

Embora noutra direcção o meu destino acaba por ser similar, pois estou preso ao mesmo rumo como uma carruagem de montanha russa. Não há fuga. Não há hipótese de fugir ao espírito da Segunda-feira; a não ser que se salte dos trilhos.

Carrego a minha pasta, como um qualquer anónimo Sísifo que empurre a sua pedra. Mas talvez a fábula tenha um sentido oculto.

Quem sabe se Sísifo ao rolar a sua rocha até ao topo, mesmo sabendo que ela voltará para baixo continua a empurrá-la sempre; apenas porque os breves momentos em que está no cume valem todo o sacrifício da subida…


Música de Fundo
"Hit That" - The Offspring

domingo, 1 de fevereiro de 2004

Kultura Juvenil

Eram “cool”, eram “dread” e tinham as calças a cair. Não que me faça grande diferença saber a cor da roupa interior de cada um. Ainda na semana passada a empregada de limpeza lá da firma, envergava umas cuecas cor de laranja (pelo menos era o que saía por cima do cós das calças) que me deixaram totalmente indiferente.

É claro que poderão haver repercussões a nível do sistema reprodutor, induzidas pelo uso errado que se pode dar a um par de cuecas, mas é natural. Além de estas não virem com manual, o utilizador tem que se fiar no seu bom gosto, e na falta deste, recorrer ao senso comum que lhe possam ter sido incutido.

Mas isto é apenas conversa introdutória.

Há pouco, quando regressava do meu retiro espiritual carregando dois sacos de considerável tamanho, fui surpreendido por um acontecimento assaz estranho. Um jovem “dread” de calças a cair recuou direito a mim e quase caiu. Não por causa das ditas calças pendentes, mas por via de um magistral estalo fornecido por um correligionário (outro “dread” claro), que em tom raivoso o interpelou.

- Não me chamas outra vez isso! Ouviste? Não me tornas a chamar tecla três!

Como desde novo não interfiro em cenas de pugilato que não me sejam dedicadas, recuei ligeiramente para não apanhar com o ocupante das calças flutuantes, e pilotei os dois pesados sacos pela passagem de peões até ao passeio fronteiro a minha casa.

Quando entrei e fechei a porta, ainda se encontravam do outro lado da rua a discutir animadamente. Talvez sobre a qualidade dos teclados, ou sobre a vantagem das fontes TrueType. Mas francamente estava-me nas tintas.

Após as saudações da praxe, entreguei ao meu filho uma T-shirt que ele adorou (e pediu para postar aqui os seus agradecimentos à ofertante) acabando por contar o bizarro episódio que tinha presenciado lá em baixo.

O jovem “cool” de que me orgulho ser pai desatou a rir convulsivamente, e virando-se para mim pediu-me o telemóvel. Apontou para ele e disse – Olha! É fácil… tecla três. Não topas nada?

- Bem, - disse eu – “def3” é o que se vê! Mais nada.

- É por causa do DEF – esclareceu ele – chamar tecla três a alguém, é chamar-lhe deficiente. Não me admira que tenham andado ao estalo.

Após esta pérola de cultura juvenil, sumiram-se-me todas as ideias de posts que poderia escrever por hoje. É a geração DAH no seu melhor.

Só é pena que para escrever isso sejam necessárias três teclas. Por hoje vou desligar o telemóvel.

Musica de Fundo
“Smells Like Teen Spirit”Nirvana

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