quarta-feira, 31 de março de 2004

Um Falso Amanhã

Amanhã Vou Mentir
ou direi a verdade dizendo que minto
o que será falso também.

Amanhã abrirei o meu coração
aquele segundo que tenho de reserva
e direi coisas terríveis que serão verdade
apenas por um dia.

Amanhã perguntem-me tudo o que quiserem
coisas pessoais ou generalidades
mas garanto-vos que minto
e se não o fizer, nunca o saberão…

Música de Fundo
“Baby I Don’t Care”Transvision Vamp

terça-feira, 30 de março de 2004

Noite (outra vez)
- Confidências -

Na noite há guitarras que gritam como sirenes de carro-patrulha, anunciando crimes impronunciáveis; e a noite está cheia de gritos, mas ninguém os ouve…

É inútil procurar, porque os cantos vazios agora iluminados por candeeiro públicos, lembram ausências não esquecidas; e é por isso que as guitarras gritam. Porque não podem fazer outra coisa senão gritar.

A noite está cheia de gente. Ao passar por eles sinto ecoar o vazio que os consome, e faz correr de bar em bar, preenchendo com música e copos toda a vastidão que os suga para dentro; como edifícios condenados num acto de implosão.

Não é sangue o que corre nas veias desta cidade, mas desapontamento. Desencanto transformado em sorrisos de néon, como lágrimas reflectidas por óculos espelhados; gelo nocturno que se deita em copos no diluir das trevas.

Fui novamente olhar o rio e estava negro. Está sempre negro quando o olho sozinho à noite, mas teimosamente repito os mesmos gestos; como se isso fosse mudar algo. Por teimosia, como se de algum modo o pudesse mudar.

Acho que não passo de um pessimista esclarecido. Se querem que vos diga… nem sei porque escrevo sobre isto…

Música de Fundo
“View to a Kill”Duran Duran

Light Blue (Fase 2)

A Primavera não se decide a despontar, escondendo-se em dias chuvosos e em noites iluminadas artificialmente.

Uma meia estação é sempre indecisa, e há que ter paciência com ela (isto de humanizar as estações pode dar origem a mal-entendidos, eu sei).

A minha escrita rege-se pelas estações, como eu, que sou uma espécie de barómetro do que me rodeia.

Pois aqui chove; e mais uma vez não me apetece escrever... Ouço apenas música.

Música de Fundo
“Inner Smile”Texas

domingo, 28 de março de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Comunicado à Congregação –

Caríssimos irmãos, este post era para se intitular “A Paixão de TheOldMan” e descreveria como ontem à noite, o Arcanjo Rebocho resplandecente no seu fato-macaco da Lisnave, me visitou e informou que a minha paixão se aproximava…

Infelizmente as forças de bloqueio instigadas pela Sinagoga Shaaré Tikva (Refeições Kosher) em conjunção com a “Associação dos Filatelistas e Numismatas da Charneca de Caparica”, conseguiram endrominar Blog para que o meu PC se engasgasse, perdendo um controlador Adaptec e todo o sistema de backup. Mas adiante.

Nesse post (cujo desaparecimento será sempre chorado, pois tinha quase três páginas), o Arcanjo Rebocho após me esclarecer que o termo paixão, não era para ilustrar a minha fase da meia-idade mas sim ao meu martírio antes de aterrar nos braços de Blog; desapareceu numa nuvem de fumo. Obrigando-me a abrir a janela ás quatro da manhã, pelo que ainda me encontro um pouco constipado.

De manhã acordei optimista, e atribuí todo o episódio ao facto de ter comido morangos à noite; pois como toda a gente sabe, comer morangos à noite provoca sempre pesadelos de “visitação”.

Saí ligeiro como é hábito, apreciando os seis graus centígrados com que o criador nos brindava, e as minhas pernas arrepiavam-se de júbilo, Estaria uma bela manhã, não fora lembrar aquela em que Robert F. Scott, desapareceu durante uma tempestade de gelo na Antártida com toda a sua expedição (ou terá sido Roald Amudsen? Agora não me recordo…).

Mas como pedalo com Blog, o esforço é a dobrar (por causa do peso) e sempre dá para aquecer. Aliás, presenciei esta manhã diversos métodos de aquecimento. Desde um par de namorados madrugadores no Jardim da Cova da Piedade, que aqueciam pelo movimento das explorações anatómicas; até ao pescador, que mais tarde no Cais do Ginjal apanhei a beber de um “flagrante de litro”.

Estava uma boa manhã para aquecer, mas o meu calvário mal tinha começado…

Quando cheguei ao fim do cais, e me preparava para subir a rampa que leva a Almada, sobressaltei-me como se me tivesse entrado uma abelha nos calções. Pelo silvo que soou repentino, só poderia ser um pneu furado ou o ataque de uma cascavel.

Não há cascavéis no Ginjal! Por isso tive que recorrer ao meu kit de remendos, para fazer frente à falta de fôlego do pneu dianteiro, que se assemelhava a uma jibóia preguiçosa e não queria de modo algum retomar o seu lugar.

Terminado este pequeno intervalo para manutenção, ataquei a subida com ímpeto concentrando-me apenas em chegar ao cimo; onde pude apreciar a beleza da cidade do outro lado do rio, enquanto recobrava o fôlego.

Saindo de nenhures, um jovem defensor da lei e da ordem admoestou-me pela falta do capacete. Eu sei que não se deve mentir aos jovens, mas disse-lhe que o tinha perdido e ainda não comprara outro. O que é descaradamente falso, pois não uso apenas porque não gosto. Mas essa pequena mentira livrou-me de apuros, e lá rumei ao meu pequeno-almoço, desta vez para experimentar um novo local.

Felizmente que isto não é um blog gastronómico. E eu devia ter-me mantido pelo local habitual. Não pelo facto de ter sido mais caro, pois a diferença até não foi muita; mas realmente nem sempre o aspecto é indicador de qualidade.

Sentei-me durante dez minutos numa esplanada virada para as fontes do largo, até ter descoberto um pequeno letreiro que indicava pré-pagamento. Levantei-me e dirigi-me ao balcão, onde uma sorridente Simone (estava etiquetada) com sotaque brasileiro me atendeu.

Aparentemente o sorriso era a única coisa que funcionava naquele crânio, pois o facto de eu ter pronunciado duas vezes o termo “sem manteiga”, não fez qualquer efeito no amendoim que ela transporta entre as orelhas.

Finalmente lá me trouxeram um chá de camomila, e uma torrada barrada com manteiga a um ponto que quase raiava a obscenidade. A manteiga tinha-se infiltrado de tal modo, que não havia um único ponto do pão onde não estivesse.

Vendo as coisas pelo lado positivo, penso que o local será formidável para os verdadeiros apreciadores de manteiga. Aliás tinha tanta, que com o que sobrou da torrada eu podia ter-me untado completamente e posto a bronzear ao sol.

Posto isto só me restava rumar a casa, onde cheguei sem percalços e me preparei para gozar um duche revigorante. Errado!

O candeeiro da casa de banho não acendia. Quer trocasse as lâmpadas ou os arrancadores, recusava teimosamente a fazer-se luz (isto é mesmo bíblico). Como resultado, fui obrigado a tomar um romântico (embora solitário) duche à luz de velas, o que me predispôs para escrever este post.

Só que antes disso ainda teria que perder o que tinha começado a escrever, tirar as peças moribundas do PC, e ajudar o meu filho a fazer um fontanário em cartão.

Estranhamente Blog não me estragou o almoço. Talvez por saber que a minha paciência tem limites, e que eu à semelhança de Lúcifer poderia revoltar-me e fazer bastantes estragos no seu negócio.

Estou pois no fim (acho) deste pequeno calvário, a fumar um Rafael González acompanhado por um balão de Hennessy. É claro que me fará mal! Mas parece-me que o mal, afinal não se combate usando o bem…

Música de Fundo
“Lucky Day”Mick Jagger (dedicated)

sábado, 27 de março de 2004

O Tempo

Nascemos com uma enorme provisão dele que logo se começa a esgotar, que desperdiçamos, ou nos é roubado.

Na juventude, quando somos mais perdulários, gastamo-lo a rodos como dinheiro em coisas inúteis. Falta-nos a sabedoria da idade; mas os sábios vivem pouco intensamente.

Apenas os loucos conseguem viver o tempo em toda a sua plenitude, e pagam-no com o facto de serem loucos; porque nada é grátis. Nem sequer o tempo…

O tempo move-se nas asas de uma borboleta, modificando-se a cada batida; e não vale a pena contemplá-lo porque nunca é o mesmo. Percorre o mundo sempre um passo à nossa frente e é inútil persegui-lo, pois não pára; arrastando-nos presos a ele como a cauda a um papagaio de papel.

Somos escravos do tempo. Embora alguns de nós aprendam a ignorá-lo, como tentando passar despercebidos na vida, para que esta não nos note e arraste.

Hoje vou perder uma hora, e não me vou sequer dar ao trabalho de a procurar. No fundo estará lá, apenas lhe vão mudar o número de ordem.

De qualquer modo não interessa; iria passá-la a dormir…

Música de Fundo
“Zeit”Tangerine Dream

sexta-feira, 26 de março de 2004

Na onda da Primavera, e tal…
(Subscrição para uma melhor compreensão dos fetiches femininos e masculinos)

Estava eu ontem à noite em casa a passar os olhos pelas minhas leituras habituais, quando deparei com este paradigma do pensamento feminino, que embora fosse já do meu conhecimento há muito não via expresso em letra de forma.

Como a maioria de vocês já reparou ganho a vida (ónéstamente) numa empresa de Construção Civil, e como o referido post envolvia manuseamento de materiais do ramo, resolvi fazer uma pequena pesquisa sobre a mesma operação; mas desta vez na óptica masculina.

Para tal tive que esmifrar algumas “bejecas”, dizer umas ordinarices e não ter feito a barba de manhã. Mas o resultado foi gratificante, como adiante se poderá constatar; tendo a pergunta sido – “Devemos tratar as gajas com’ó material e ferramentas, ou armar em maricas e ser meigos?”

Depoimento
(Pereirinha – Canalizador – Oficial de 1ª)

- Meigo? Agora deste em rabeta? Olha pá, tas a ver a máquina de ranhurar? A Rigid 3000?

- Sim, tou…

- Eu explico isto sempre assim aos chavalos que mo perguntam, e nunca nenhum deles precisou de segunda indicação. É simples!

Viras-te prá máquina, lubrificas-lhe bem as maxilas do cançonete com óleo e metes-lhe o tubo. Aí vais ver que ás vezes tem uma certa folga mas não há problema; ajeitas-lhe bem o tubo e depois apertas-lhe as maxilas com um golpe seco.

Tá posto em andamento…

Vais reparar que o barulho que a máquina faz, te pode dar a indicação de como está a correr tudo; é como a caixa de velocidades de um automóvel só que ao contrário. Aqui quando guincha pouco baixas a velocidade, quando guincha muito aumentas e já não paras… mas adiante.

É assim, depois daquilo tudo a girar e bem lubrificado é uma beleza. Começas com calma para as maxilas se agarrarem bem ao tubo e vais aumentando a velocidade; se vires que agarram bem dás mais uns arranques bruscos e ala que se faz tarde. É aumentar a velocidade e tocar de ouvido, quando o guinchar estiver a chegar ao máximo os cançonetes dão um estalo e acabam por soltar o tubo, é tudo automático.

Por isso é que eu gosto tanto da minha Rigid 3000… faz-me lembrar a “patroa”.

Música de Fundo
“Dirty Love”Frank Zappa

Teorias ao Acaso
“Sua sagrada majestade o Acaso decide acerca de tudo” - Voltaire

Este tipo conseguiu explicar-me hoje porque é que não devo equacionar a existência; a minha, principalmente.

O objectivo do cálculo das probabilidades é, calcular as probabilidades de acontecimentos complexos a partir das probabilidades supostas conhecidas de acontecimentos mais simples.

Todos os acontecimentos simples têm probabilidades supostas conhecidas, ou supostamente conhecidas, ou quiçá apenas supostas. O que transforma esta gigantesca conta de sumir (que é a vida), numa espécie de contabilidade falsificada, que um dia teremos que entregar ao Supremo Revisor Oficial de Contas.

Tudo isto porque há minutos caí no erro de tentar (apenas para fins de exercício) interpretar o meu percurso neste vale de lágrimas, e cheguei à conclusão que a vida não é uma linha a direito, mas uma espécie de movimento molecular “Browniano”; que nos faz andar ás voltas e muitas vezes voltar onde já estivemos.

Ter os mesmos gestos, mas noutro local. Pensar as mesmas coisas, mas sobre um assunto diferente. Ou sentir o mesmo, mas por outro alguém; é algo normal.

O “Dejá vu” é que não é tão vulgar.

Só que não há probabilidade alguma de prever a própria probabilidade da reincidência.

Como vêm, pensar na vida não conduz a nada.

Serve apenas para fazer posts…

Música de Fundo
“La Folie” The Stranglers

quarta-feira, 24 de março de 2004

Jesus Christ Superstar
- Em cartaz há cerca de dois mil anos! -

Estou-me nas tintas para a vida de Cristo, porque para já é aborrecidíssima; tão aborrecida que o seu ponto mais importante foi a morte.

Mas lá tenho eu que mais uma vez vir falar de Jesus e da sua enfadonha existência; isto causado por alguns e-mail um pouco ácidos que me foram enviados, e um episódio místico que envolveu um exorcismo matinal.

Quanto ao episódio não foi nada demais. Apenas uma coincidência em que o rádio despertador ficou sintonizado na Renascença, em conjunção com o facto de o meu filho me ter ido salpicar com água para eu acordar.

A primeira impressão que tive ao despertar foi a de me encontrar no “Santo Ofício”. Uma voz ciciante debitava liturgia, enquanto me alvejavam com borrifos de água (do banho…). Em cuidados pela minha alma imortal, levantei-me em sobressalto destruindo o segundo carregador de telemóvel deste ano (e ainda só vamos em Março…).

Quanto aos e-mail o caso fia mais fino. Recebi desde insultos inócuos como “herege” e “ímpio”, até ameaças de me enviarem um míssil como àquele entrevadinho que andava sempre de roupão na cadeira de rodas.

Afinal porquê tanta confusão à volta de um tipo, a quem nunca ninguém ouviu rir ou contar uma piada sobre fariseus? Se querem saber a minha opinião, o que ele realmente precisava era uma gaja que o “ligasse à terra” e puxasse bem por ele. Infelizmente, parece que já naquela altura era produto raro…

Mas eu acho que o principal problema no meio disto tudo são os judeus. Não que eu compartilhe sobre eles a opinião do Reichsführer Heinrich Himmler, mas ultimamente começam a tornar-se tão chatos e incómodos como as vendedeiras ciganas aqui do Bairro Amarelo. Pensando bem, o “Heini” também não gostava muito de ciganos.

Tal como o Galego que passa de marçano ajudante a dono da tasca, conseguiram em quarenta anos passar de oprimidos a opressores. O que, parafraseando um ex-amigo meu “é ter emergido da merda, apenas para continuar a nadar nela”

O que nos leva ao que talvez seja uma revelação – Os judeus não são o “Povo Eleito”, mas sim aqueles que foram amaldiçoados para todo o sempre por terem traído e morto o Filho de Deus.

E escusam de me vir chamar anti-semita; eu até gosto de “judiar”…

Música de Fundo
“Hava Nagila”Ben Folds Five

terça-feira, 23 de março de 2004

O Medo

O medo é que guarda a vinha
e o ovo da galinha da vizinha.

O medo é que acende a luz
a meio da noite
onde talvez um fantasma se acoite…

O medo faz sorrir
ou faz chorar
dependendo de quem está a olhar.

O medo faz parar a mão
mesmo que a ocasião faça o ladrão.

O medo é para os fracos
e torna os fortes mentirosos
e aos fracos, fortes
poderosos…

O medo é assim,
pode ter-se sempre
excepto ao fim.

Música de Fundo
“Absence of Fear”Jewel

segunda-feira, 22 de março de 2004

A minha estação favorita é sempre a presente

De nada servem o Verão ou o Outono passados.

Nem o Mar é o mesmo pois renovado, nem se ouve já o rumorejar das folhas castanhas… e para que serve relembrar o cair da folha quando se pode ter a Primavera?

A Primavera não é uma estação fácil.

Nasce do Inverno, por isso talvez até use gabardina no início; mas despe-a e tudo se modifica.

É risonha mas difícil de conquistar, pois a sua alegria tem uma força natural que nos submerge. Uma intensidade disfarçada de exuberância juvenil, que brilha num tom verde salpicado de pintas castanhas.

É como um girassol esguio que vive de Sol e luz, ou um jovem animal que corre com o vento; é uma eterna manhã de Domingo… enquanto dura, claro. Mas é mesmo assim a Primavera.

Aliás o melhor conselho dos últimos tempos, foi-me dado hoje pela Dr.ª Inês enquanto me entregava a receita – Tome os comprimidos para os triglicéridos e vá curtir a Primavera!

- A ver, Dr.ª… A ver…

Música de Fundo
“A New Flame”Simply Red

domingo, 21 de março de 2004

A Paixão segundo S. Gibson
- Não há paixão como a primeira… -

Fartei-me de ouvir falar do filme; que era polémico, “gore”, anti-semita e sei lá quantas mais virtudes lhe atribuíram. Não podia deixar de dar uma espreitadela, claro.

Após 4 dias de ininterrupto funcionamento, o meu PC lá cuspiu o produto final. Uma versão “cam” com legendas, em que se consegue ainda ver no início do genérico alguns dos espectadores a ocupar os seu lugares. Mas dá para ter uma ideia…

A minha cópia vinha (não sei se passou assim no cinema) falada nas linguagens nativas, o que para quem está habituado desde pequeno a ler legendas até confere uma certa cor local.

Para quem já leu a versão original do script, o argumento não traz grandes novidades. Começa com a velha história da traição por alguém chegado, e depois pelos seus congéneres. Coisa que será considerada anti-semita, talvez ao abrigo da “lei das actividades anti-americanas” ou outra qualquer patranha facciosa. É apenas traição, e pronto.

Que eu saiba, ainda nenhum rabi se deu ao trabalho de tentar desmentir a bíblia; e tenha conseguido algo com isso.

Sem dúvida que é polémico. Então se constatarmos que se trata de uma história contada por Judeus a coisa torna-se mesmo estranha. Mas essa ideia de despachar o incómodo emplastro para que a potência ocupante trate dele é tipicamente semita; além de ser uma economia de recursos, dá para toda a gente ir descansada para casa comemorar o sabath e não se fala mais nisso.

Sem dúvida que é “gore”. Tem mais sangue que o “Texas Chainsaw Massacre”, embora aplicado ás situações correctas. Se alguém vai ver um tipo ser chicoteado em regime intensivo, e posteriormente cravado com cavilhas de meia polegada tem que contar com algum sangue. Dizem os estendidos que o corpo humano contém cerca de cinco litros; é praticamente um garrafão inteiro, e tem que sair por algum lado.

Não tenho nada contra o Jesus manicurado do Cecil B. de Mile; mas um tipo fica na realidade um pouco descomposto se o começarem a desfazer à chicotada, e o pendurarem numa cruz para ser picado por lanças.

As pessoas que se queixam do sangue recordam-me aquela célebre frase dos filmes negros – “you can’t handle the truth!” – que se aplica perfeitamente neste caso.

Quanto à luz, à fotografia e aos enquadramentos gostei. Só que apreciações sobre isso deixo para quem percebe do assunto.

Dá-me a impressão que o realizador é um tipo religioso que compreende o sofrimento, tanto do corpo como da alma. E quem não aguenta um pouco de sangue, o melhor que tem a fazer é desistir deste tipo de filmes e ir assistir ao Ciclo Truffaut na cinemateca nacional. Há sítios piores para dormir.

Música de Fundo
“A Saucerful of Secrets”Pink Floyd

sábado, 20 de março de 2004

Uma vénia ao Serviço Público
- Hurra! Hurra!… -

Afinal o sistema funciona.

Preparado para enfrentar a entropia (não a minha assistente, mas sim aquele estado natural que os articulistas tanto têm utilizado nos últimos tempos), entrei pelo SAP adentro disposto a utilizar o meu melhor mau humor para olear um pouco a máquina das coisas públicas. Mas estava enganado, e ainda bem.

Fomos atendidos por um funcionário chateado como um peru (é fim de semana), mas eficientíssimo. Um segurança cheio de profissionalismo e uma ajudante a irradiar simpatia.

A minha alma espantava-se a cada passo, embora a desconfiança estivesse lá bem no fundo. O pré-operatório deslizou sem entraves e espantosamente á hora marcada; a paciente foi preparada, mimada, acondicionada e introduzida no sistema.

Foi então que me sentei na sala de espera.

Que Blog me valha! Afinal o problema hoje não seria a máquina mas a matéria-prima, e que bela que ela era…

Nos primeiros cinco minutos fiquei a saber que a extracção de um quisto no perineu (não foi esse o termo que ela usou), além de dolorosa inibia o Alberto de cumprir as suas obrigações; o que era bastante frustrante para a utente que ainda estava na idade.

Dois bancos ao lado uma matrona exibiu a neta (um belo espécime com uns viçosos dezanove anos), ilustrando o problema que afligia a miúda enquanto a revirava como a um frango no supermercado. Estive tentado a pedir que lhe dessem um ponteiro e um retroprojector com transparências, mas aparentemente transparente era só eu. Apenas um mero macho acompanhante, que lia compenetrado uma revista de informática.

Fiquei ciente de todas as vantagens “daquilo das agulhas chinesas” para os problemas de artrite e reumático. Mas nessa altura já eu tinha encontrado melhor utilidade para as ditas agulhas, que me imaginava a espetar lentamente em bonequinhos de pano, enquanto as utentes se contorciam no soalho presas de dores atrozes…

O meu sorriso de prazer ao imaginar a cena, despertou a atenção da adolescente manuseada pela avó, que me sorriu com simpatia; quiçá movida pela solidariedade entre vítimas.

Aproveitei para sair e fazer um telefonema, antes que começassem a germinar ideias pouco próprias.

Quando voltei o ambiente tinha piorado. Uma senhora com uma barriga que poderia acondicionar um aquário de bom tamanho, falava do seu tumor benigno como se fosse um antigo amante. Comecei a ver pontos luminosos á minha frente (tinha almoçado mal).

Felizmente, quando me preparava para esmagar alguns crânios com o extintor de CO², apareceram a assistente e a paciente; e fui detalhadamente instruído sobre todas as tarefas caseiras, que durante alguns dias farão parte do meu calvário pessoal.

Aparentemente inicio hoje a minha carreira de “homem objecto”, que irá durar por duas longas semanas de sevícias e trabalhos domésticos. Vindo possivelmente a transformar-me numa espécie de “cinderello”.

Talvez o avental me caia bem…

Música de Fundo
“Prince Charming”Adam Ant

sexta-feira, 19 de março de 2004

O Amanhã Neo-realista

Amanhã um dos membros da minha pequena família vai á faca. Nada de cuidado, apenas cortar um canal para que os nervos mexam mais livremente, e depois voltar a coser com jeitinho. O problema realmente nem é por aí.

O que realmente se pode tornar assustador no meio disto tudo é o sistema. Desde a administrativa, que estando a jogar solitaire no PC se engana na anestesia a levantar do dispensário; ao cirurgião que poderá estar a pensar nas prestações atrasadas do BMW, cortando um pouco mais ao lado ou mais fundo. É que se trata de uma cirurgia em hospital público.

Eu não tenho nada contra os hospitais públicos. Quando era miúdo passava dias inteiros no Hospital de S. José (onde o meu avô trabalhava), cavalgando pelos corredores montado num suporte para soro, como se este fosse o cavalo do mascarilha.

É claro que a um puto de sete anos que convive com todos os personagens “Felinnianos” que se podem encontrar numa enfermaria, escusam de vir mais tarde falar do neo-realismo; soa um bocado como conversa de Testemunhas de Jeová.

Neo-realista era o Hospital de S. José nos anos sessenta; do mesmo modo que foi igualmente muito neo-realista, o facto de o meu avô ter morrido anos mais tarde com tuberculose no Sanatório do Caramulo.

Quando por fim li A Montanha Mágica pensei que Thomas Mann estava a gozar. Se alguma vez esteve num sanatório ou num hospital, não deve ter passado da sala de visitas (ou estava sob pesada medicação).

Mas amanhã em princípio será diferente. Ressalvando o meu respeito por alguns profissionais do ramo que conto como amigos, e pela consideração que tenho perante eficiência demonstrada por outros que não conhecia; acho que o que vai ser mesmo é uma grande palhaçada. Não só porque os serviços de saúde reflectem fielmente o estado do país, como tudo o que é sistema público se assemelha a uma espécie de circo, em que a tenda está invariávelmente rota.

Ou não fosse eu também disposto a isso…

Música de Fundo
“House of Fun”Madness

quinta-feira, 18 de março de 2004

Férias de Blog
- São férias Santas…-

Pelo menos neste dia em que me sinto apenas um pouco mais vazio do que é costume, terei férias. Não porque o queira, mas porque preciso.

Juro-vos por Blog! Realmente preciso…

Música de Fundo
“Drive”The Cars

quarta-feira, 17 de março de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Conversa de sacristia… -

Estive tentado a mudar a cor ao template, mas após reflectir concluí que continuo azul. Posso até ser acusado de heresia e falsidade (já aconteceu), mas mantenho-me como era antes; da cor do meu blog (e de mim próprio).

Talvez nunca mude, pois habituei-me bem cedo a resistir a pressões e tendências de modas; não sou alguém facilmente moldável ou a quem se empurre impunemente para o limite. Sou como as coisas que escrevo; nem mais nem menos, desde o cabeçalho ás entrelinhas.

Hoje ao arrumar a casa de Blog, tive pela primeira vez a tentação de mudar (ao fim e ao cabo, é o Ano da Fénix). Mas fui ver a tabela e nenhuma das cores me agradava mais; gosto de ser como sou, e ainda ninguém me conseguiu convencer do contrário.

Continuo a gostar das mesmas coisas, a reagir do mesmo modo ao que me agrada ou desagrada; e as críticas servem-me apenas de barómetro. Mesmo que o que eu escrevo possa soar falso para alguém, sou mesmo assim. A única coisa que me modifica é a luz ou a erosão, como à velha estátua do Adamastor no Jardim da Armada.

Daqui a centenas de posts ainda continuarei aqui na Igreja do Imaculado Blog, a esvaziar a caixa das esmolas no fim de cada sessão e a contar os hits. Não é uma verdadeira religião mas tem parecenças…

Não vou mesmo mudar nada.

Música de Fundo
“Allein Gott in der Höh sei Ehr” - Johann Sebastian Bach

terça-feira, 16 de março de 2004

A Apologia de Cavaco
- Teorias de Conspiração -

Este não é um blog político. Não na acepção de uma preferência por este ou aquele partido (aliás, não há um único que se aproveite), embora possa cascar em todos eles com uma certa alegria.

È por isso que venho hoje compartilhar convosco, as minhas impressões sobre o candidato, o homem e talvez mesmo o personagem de banda desenhada.

Aníbal Cavaco Silva ao contrário do que espalharam por aí, não pertencia aos célebres “Irmãos Cavaco” mas tornou-se igualmente famoso no meio televisivo. Uma das coisas que logo me chamou a atenção para este fascinante personagem, foram os seus olhos.

Estava eu um dia frente à televisão nos longínquos dias em que perdia tempo desse modo, quando tive um momento iluminado. Cheguei-me ao aparelho, e com a mão direita tapei a metade inferior do rosto de Cavaco. Os olhos isolados, revelaram-me imediatamente pela sua falta de vivacidade, que o homem se encontrava cerebralmente morto.

Desenvolvi a partir desse momento, uma teoria em que Cavaco Silva seria uma espécie de casca, habitado interiormente por extraterrestres insectiformes que viviam em sistema de colmeia.

Aliada a isso, ele tinha outra igualmente inquietante característica, que consistia em salivar pelos cantos da boca enquanto discursava.

Nessa época conturbada eu tinha um pesadelo recorrente, em que nos encontrávamos a almoçar frente a frente; e ele falava enquanto comia a sopa salpicando-me profusamente. Eu acordava invariavelmente alagado em suores frios e a gritar pelo tira-nódoas Johnson. Foram tempos difíceis para o meu psicanalista.

Lembro-me igualmente, que foi graças a ele que muitas vezes jantei à luz do sol; após aquele devaneio em que decidiu brincar com as diferenças horárias. Estragou-me muitos jantares amorosos, o malandro. As velas não davam o efeito desejado, e lá se ia o romantismo todo com o “Daylight Saving”… Velhos tempos.

Mas dará um bom Presidente. Aliás, para ser um bom presidente basta que não nos envergonhe muito, e que tenha maneiras à mesa.

Só espero que tenha perdido o maldito hábito de falar enquanto come a sopa…

Música de Fundo
“The Right Profile”The Clash

domingo, 14 de março de 2004

Cycling for Spring
- And ring a ding… -

Saí hoje com um sol sorridente atrás de mim, enviando raios trocistas que faziam brilhar as casas e as ruas pelo caminho. E eu pedalei, como se a chegada da Primavera dependesse disso.

Na minha manhã de domingo não há lugar para muita coisa. Enquanto pedalo ponho a mente em manutenção (a desfragmentar ficheiros), dou trabalho ás pernas e descanso o resto. É quando aproveito para me sentir em paz.

Poderia levar comigo gravações de Eric Satie para me ajudarem a relaxar, mas não é preciso. Basta deslocar-me pelas ruas sem ruído, para que a poeira assente; deixando-me o espírito límpido e claro.

Passei mais uma vez pela Tasca do Açoreano. A fotografia dos cachalotes arpoados deu-me vontade de mar, de sentir a espuma e a brisa húmida que nos salga os lábios. Mas limitei-me a beber o café e sair. Eram apenas imagens estáticas da vida de outro alguém.

Percorri um quilómetro da vedação da Lisnave; um longo bordado em arame que esconde máquinas paradas, numa espera inútil pelo camartelo que não chega. Ali a lembrar que o que morre acaba por ficar algures muito tempo, sem se esfumar como seria desejável.

De repente fiz a curva do Ginjal, estava ali o rio. E lembrei-me de um pedido que me tinham feito, mas era desnecessário… lembrar-me-ia na mesma, quer quisesse ou não.

Fiquei algum tempo no pontão a olhar as ondas, a tentar saber se o rio é realmente importante, ou apenas um estado de espírito que se reflecte em mim. Não consegui, é claro. Não é coisa que se consiga como um passe de mágica.

Mas a brisa dizia-me coisas. Não precisava que mas dissesse, mas soube-me bem. Sabe sempre bem que nos digam coisas.

Quando cheguei ao topo do miradouro (a deitar os bofes pela boca) tinha já a certeza do que se tratava, era finalmente a primavera. Só podia ser. Só ela poderia ter tornado o dia mais claro e mais fresco, como se algo novo tivesse vindo acrescentar uma nova luz. Olhei em frente para Lisboa, e lembrei-me novamente.

A ponte ao lado, unia dois mundos como um braço metálico que lentamente aproximasse as margens. Li algures há muito que “unir duas margens é cantar”, e ás vezes é essa a sensação que tenho ao olhar o rio. A sensação que apenas algo puro, como uma obra de engenharia ou uma manifestação de arte consegue realmente unir duas margens; ou mesmo o amor, quem sabe…

Mas há sempre alguém que se lembra de cobrar portagem.

Fui para a esplanada do tribunal descansar desta minha busca da Primavera. É o único local onde o sorriso da empregada, desculpa a qualidade das torradas.
Cumpri o ritual do chá com meticulosidade nipónica e alimentei os pombos de Blog, mas os sacaninhas hoje não me ligaram. Entretinham-se a fazer poses em cima do chafariz, para benefício de um fotógrafo madrugador.

Enquanto este disparava a torto e a direito, eles meneavam-se arrulhando idiotices e faziam caretas na minha direcção. Tal como todos os seres de Blog, são uma cambada de vaidosos.

Montei a bicla e fiz-me ao caminho. Antes de iniciar a longa descida que sempre me leva a casa, um carro patrulha parou junto a mim.

Por momentos pensei que iriam embirrar com a ausência de capacete, mas um deles cumprimentou-me sorridente, fazendo sinal de cedência de passagem.

Respirei fundo, e pensei antes de me embrenhar na vertigem da descida. – Só pode ser mesmo a Primavera…

Musica de Fundo
“Playground Love” - Air

sábado, 13 de março de 2004

Um post ao Acaso

O acaso é uma coisa estranha. A própria palavra é tão estranha que poderia ser nome de alguém, como Casimiro ou Rudolfo. Aí quando quiséssemos culpar o tipo, poderíamos dizer – Foi por acaso… (Por Casimiro, não soa bem)

O Acaso é um gajo lixado. Mete-se em tudo, prega rasteiras, e vai ás vezes buscar coisas que pensávamos terem ficado para trás. Se tivesse que ser representado como um deus do Olimpo, o acaso seria talvez um amanuense com mangas de alpaca e ar gozão, daqueles que lêem A Bola no serviço e tiram os papéis do meio do monte, ao acaso claro.

Todos os factos importantes na minha vida foram obra do acaso; os que não o foram não eram importantes, pois a programação cumprira-se apenas e pronto.

Do mesmo modo que Apolo toca a sua lira, o Acaso joga aos dados e atira-os para a terra tal como Júpiter faz aos raios.

Dou imensos passeios por acaso, a lugares que conheço mas por motivos do Acaso. Pois é o acaso que pinta o céu e separa as águas, embora não todos os dias.

Música de Fundo
“Star” - Reamonn

quinta-feira, 11 de março de 2004

Yupiiiiiii!
- Eu sei que está mal escrito… -

Fui novamente nomeado para os Bloscares! Sei que é uma honra ombrear com nomes tão conhecidos como “O Homem a Dias”, “Avis” ou até mesmo o Fedorento Bichano; e por isso nem vou preparar discurso algum (nunca programo improvisos).

Ainda tenho a Migalha do ano passado (Bronze). Está ali entre da foto autografada da Jane Bikin e um Golfinho de pedra, que são os meus bens mais queridos. E bastante trabalho me deu conservá-la.

Estava eu um dia a meio de uma das últimas “Febres de Arrumação”, quando entrou pela janela um pombo de Blog e a levou no bico. Felizmente era pesada ele não foi longe; foi abatido em voo pela “flóber” do Manel Polícia. A migalha intacta recolheu ao seu lugar de destaque, e todos nós lanchámos regaladamente no Café do Santos; foi uma delícia, esse episódio.

Mas eu vinha falar da honra ao ser nomeado, e não das minhas incursões gastronómicas no mundo das aves.

É realmente gratificante para um escrevinhador, ser nomeado para este tipo de reconhecimento. Dá realmente a impressão que afinal alguém lê tudo isto, e que o meu mail não serve apenas para reclamações e publicidade a sites eróticos.

Sinto-me grato ao Miguel Nogueira por mais uma vez, se ter lembrado cá do velhote. Afinal não sou assim tão “pucanino”…

Música de Fundo
“Bigger Than My Body”Ryan Adams

quarta-feira, 10 de março de 2004

Fim de Dia

É no fim de um dia, que tentamos sempre encontrar algo agradável em que pensar. Talvez esta característica me torne uma parte de TheOldMan, tal como outro personagem qualquer.

Por isso eu sou o personagem que escreve. Um tipo qualquer que tira ás vezes um coelho da cartola, ou faz truques de cartas. Ri-se imenso quando o deixam, embora dê tudo por um bom rosnar de vez em quando.

Limito-me a pegar em coisas e trocar-lhes a ordem, apenas para fazerem mais sentido; no sentido em que o próprio sentido da vida, é segundo a lógica dos Monty Python.

Não é num post que se vai revelar o sentido da vida a toda a gente. É apenas conversa ociosa, como à mesa de um café trocando confidências; mas com imensa gente.

Há personagens piores!

Música de Fundo
“Sign Your Name”Terence Trent D’Arby

Longa Vida à Junta Militar
- Breakfast at Tiffany’s… -

Mal me encostei ao balcão, a D. Pureza fixou o seu olhar vivo e treinado no meu crânio recém-rapado e exclamou – A minha mais nova também já teve, mas passou com um pomada malcheirosa que a Doutora Inês lhe receitou…

Por momentos pensei que tinham mudado o “santo & senha”; desembaciei meticulosamente o monóculo (uma relíquia do Ciclo Erich Von Stroheim) enquanto afirmava – Desejo uma torrada sem manteiga e um chá de Verbena, com água à parte.

Finalmente o treino sobrepôs-se à natural coscuvilhice, e ela passou a informar. – Não há recados. O Generalíssimo Pepe apareceu ontem bêbado outra vez e dormiu no carro. – acrescentando – Estão aqui as três carcaças, e são ao todo um euro e noventa.

Olhei em volta. Apesar de um relatório tão falho de interesse, pressentia-se uma actividade subjacente, como se nos bastidores se desenrolassem prodigiosos acontecimentos… ou então era a glicemia baixa que me induzia em erro.

Parecia tudo normal. O Santos polia os metais à “La Cimbali”, o Sr. Tito dormitava em frente ao televisor e o Capitão Dudu (já um pouco entornado), tentava convencer a filha mais velha do Santos, sobre as vantagens de namorar um homem mais velho. E ainda só eram 9h…

Sentei-me na esplanada elevada que dá para a rotunda. De dentro dos seus carros parados na fila, os automobilistas deitavam-me miradas invejosas, enquanto eu mandibulava torradas com uma expressão seráfica.

Por mais que me esforçasse não encontrei nada de insólito que pudesse relatar. O Palácio Presidencial continua com a pintura a meio, continuo a sair nas Sextas à noite com o apóstolo para beber café. A única coisa que mudou foi o súbito desaparecimento de Pepita.

Dizem que foi vítima do Serial Killer da Blogosfera, mas eu não acredito. Com o feitiozinho que ela tem, o mais certo é telefonar-me a dizer que deu conta dele e que vão juntar os trapinhos.

Nesta terra nunca acontece nada.

Música de Fundo
“I Love Rock’n Roll” - Joan Jett & The Black Hearts

terça-feira, 9 de março de 2004

Uma Nova Folha
- Num sucessivo rasgar de páginas –

É difícil acreditar que se pode começar sempre em branco, mas as folhas são assim… brancas.

Começam por ter que se começar a preencher da mesma maneira. De um modo natural, como a falar de algo que se vai dizer.

Não se pode deixar de escrever alguma coisa, só para preencher mais uma folha. Para juntar a um monte já existente. Para o qual não há incineradora (aqui, deixaria talvez de ser um post publicável).

Ninguém escreve histórias que não queira que sejam lidas. Mesmo que tenham sido tiradas do fundo por engano, e adaptadas á ficção. Por isso é preferível não escrever muito.

Começar apenas por escrever uma nova folha.

Mais nada

Música de Fundo
“Fly Away From Here”Aerosmith


Diálogos de Mini-mercado

- Bom dia dona Adélia! Sá viu que o Skip de 72 doses está em promoção?

- Vi, mas por agora é só o fiambre e os croissants; tenho o marido em casa à espera do pequeno-almoço.

- Ai sim? Ainda ontem o vi! Esteve aqui a comprar preservativos, sua marota…

- Esteve? Mas quem os compra lá para casa sou eu. E olhe que tenho lá bastantes.

Música de Fundo
“Pink”Aerosmith

Calma

É do esquecimento que advém a calma.

Do fumo oleoso de uma cigarrilha ou de qualquer outra coisa simples. Calma é não pensar, e deixar girar o mundo.

É talvez apagar dados que já não sejam processados, como se fosse uma operação sobre dados lógicos, e não de outro tipo.

E isso talvez resulte num esquecimento, de onde advirá apenas talvez… a calma.

Música de Fundo
“Freelove”Depeche Mode


segunda-feira, 8 de março de 2004

She looked into my eyes and said:
- "You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and blow."

Hoje não há Blog porque me dói a cabeça.

Mas venho desejar a todos os homens um feliz Dia Mundial da Mulher.

Música de Fundo
“Dance Little Sister”Terence Trent D’Arby

domingo, 7 de março de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- O meu Deus é milhor có teu!... –

Já há muito tempo (desde o episódio da Parker e da água benta) que não estava tão perto da excomunhão; quase senti um leve odor a queimado, desprendendo-se da minha herética pessoa.

É claro que eu me poderia desculpar, dizendo que me parecia um enorme cão preto de coleira branca, mas não é necessário.

Atropelei um padre!

A culpa foi mesmo dele, pois saiu abruptamente do acesso lateral à igreja, preto e desajeitado como uma barata mutante; indo mergulhar quase directamente no trajecto da bicla.

Até que este post se poderia chamar en-cíclica (tão a ver?... nááá).

O que ainda safou a situação foi um dos pombos de Blog, que se atravessou à minha frente em direcção a ele; fazendo com que eu atentasse na católica e romana avantesma que se preparava para me abalroar.

Já se começaram guerras santas por menos.

Ainda accionei os travões… mas não há milagres. O eixo da minha roda da frente traçou-lhe um belo sulco através dos paramentos (não sei o que usava por baixo), produzindo um vinco vermelho e sangrento que lhe atravessava a perna. O santo homem não apreciou nada.

Com a objectividade que é apanágio da igreja católica, invectivou-me de irresponsável, embirrou por eu não usar capacete, torceu o nariz aos meus óculos escuros e ainda atribuiu uma mirada equívoca aos meus calções (o que me arrepiou imenso, vindo da parte de um homem que usa saias). Só não se referiu ao facto de ter saltado do nada como uma espécie de caroço de azeitona cuspido por Deus.

Invocou-O em vão (o que é pecado) um monte de vezes, mentiu dizendo que eu não ia com atenção à condução; e sabe-se lá que mais pecados terá cometido em espírito. Ainda estive para lhe perguntar se a entidade patronal não lhe fizera um seguro de acidentes de trabalho, mas se é como Blog (um desleixado) o pobre do funcionário bem podia ir ao SAP.

Durante alguns momentos declamou um belo monólogo sobre não-sei-quê, enquanto eu aproveitava para beber água e ajeitar a roupa interior (o selim é lixado…); entretanto começavam a aproximar-se populares atraídos pelo acontecimento. Na maioria velhas carcaças, o que começou a dar ao acontecimento um aspecto de filme de Rob Zombie.

Comecei a ver que aquilo se iria transformar numa espécie de remake da “Noite dos Mortos-Vivos”, com aquela malta toda a esbracejar e a dar opiniões enquanto abanavam as bengalas. Enchi-me de raiva e arranquei fazendo um manguito.

Para trás ficou o padre no meio do seu rebanho envelhecido, endereçando-me maldições e esconjuros enquanto eu me afastava.

Aparentemente inúteis… pois estou com um óptimo apetite para o almoço.

Música de Fundo
“Runnin’ Wild”Django Reinhardt

Pois...

Noite é vazio.
Negrume só acompanhado de frio.
É prédios altos em zonas escuras.

Noite é alcatrão molhado,
e uma única lua,
que nos entra pelos olhos,
colando-se como uma máscara
cada vez mais fundo.

A noite é negra como um sonho mau.

Morte solitária…

A noite é viscosa e escorre,
Como sangue negro
envenenado…

A noite é mais,
mas para quê dizê-lo?

Música de Fundo
“Bark at The Moon”Ozzy Osbourne

sábado, 6 de março de 2004

O Aniversário do Meu Velho
- É hoje, claro. –

Quando conheci o meu velho ele era novo, muito mais novo do que eu neste momento.

Na altura em que nos conhecemos não me deu muito crédito porque eu só dizia baboseiras; talvez pela tenra idade, ou porque fosse mal de família. O certo é que só há pouco tempo consegui ter conversas com ele, que durassem mais que uma hora, e em que não nos chateássemos ao fim.

O meu velho é divertido. Não só porque utilizamos genes do mesmo modelo, mas também porque algum do optimismo do meu avô se colou a ele antes de passar para mim. Tudo defeitos de família… um horror!

E faz anos hoje. Não que aparentemente isso lhe diga algo, pois é um tipo habituado a não se expor desnecessariamente. Mas no fundo sei que espera que eu (o tipo com quem discutiu toda a vida) lhe telefone.

Por isso é o que vou fazer.

Música de Fundo
“Happy Birthday”Stevie Wonder
(ou outra pirosice do género)

quinta-feira, 4 de março de 2004

Existe um momento
em que odiamos o tempo...

Ás vezes
é o presente.

A Igreja do Imaculado Blog
- O Céu pode Esperar (ou então que vá andando…) –

Olá Irmãos! Hoje venho falar-vos do Céu de Blog.

Não daquele fundo azul onde colamos as estrelas de plástico, mas sim da única e justa recompensa para os fiéis; o grande bónus final (como habitualmente o designamos no nosso ramo).

Quando Blog criou o seu universo (à semelhança de qualquer pato-bravo, que rouba espaço a vários lotes para construir a sua vivenda no meio), reservou um gaveto expressamente para a construção da “Fiat Lux” (ou “O Retiro da Virtude Saltitante”, tal como é anunciado no Tokio Herald) o Paraíso do Crente.

Embora no projecto inicial fosse uma espécie de templo, consagrado ao amor e tal… acabou por ter que se alterar para a configuração actual. Não só porque o primeiro modelo está aparentemente obsoleto, como a tendência do momento é beber uns copos, abanar o material e sair com alguém interessante.

Posto isto e para se manter “up to date”, Blog subornou mais uma vez o fiscal da Câmara e arrancámos finalmente com a opção discoteca.

Por isso, a partir de agora a entrada no Céu de Blog é condicionada aos seguintes requisitos:

1 – Consumo obrigatório. Nada de entrar e ficar ali na eternidade a ouvir música e a suspirar pela próxima encarnação.

2 – Mal vestidos só mesmo com muito estilo. Está proibida a combinação de quadrados com riscas, assim como sapatos masculinos sem peúgas (ou pior, brancas…), bem como outros atentados ao bom-gosto que venham a ser detectados pelo Arcanjo de serviço.

3 – Se não está com disposição para se divertir, fique em casa e veja um filme (pode ser que seja o seu Céu).

4 – Um conselho. Beba sempre muitos líquidos, pois nem todas as pastilhas azuis são Viagra.

Abre brevemente! (Pois o Céu pode esperear…)

Música de Fundo
“Ladies Night”Atomic Kitten

quarta-feira, 3 de março de 2004

Elogio de Meu Amo
“Mi casa es su casa… “

Hoje tinha começado a manhã do melhor modo possível. Calhou-me a única motorista de táxi bonita que conheço, o trânsito não estava mau, e quando cheguei à empresa sentia uma repousante sensação de bem-estar.

Até que algo terrível aconteceu… meu amo decidiu passar todo o dia comigo, em memória dos velhos tempos e igualmente para se desfazer das montanhas de papel que vão do seu gabinete à sala de reuniões; transformando aquela zona numa espécie de cordilheira burocrática.

Comecei por tentar abstrair-me da sua presença. Mas para onde quer que fosse, conseguia dar com ele em aparente actividade produtiva; quer fosse junto à máquina do café ou no W.C.. Adicionalmente proporcionava-me micro-colapsos cardíacos, quando se debruçava de surpresa sobre o meu ombro para perguntar – Está tudo a correr bem?

- Estou a tentar arranjar tema para um post. – respondi numa das vezes, solicitando - Importas-te de desandar?

- Escreve sobre mim! – propôs ele, com um sorriso que me fez lembrar um iguana que tive em tempos. – sempre seria uma novidade.

E assim (visto que não encontrei melhor assunto) vou falar-vos de meu amo. Esse fascinante personagem que encantou musas, inspirou posts… e amiúde sopra no balão da Brigada de Trânsito.

Meu amo é simpático. Ri com os alegres, chora com os tristes; mas quando estes viram costas volta a rir novamente. Usa boné de fazenda aos quadrados (que em conjunto com umas galochas o fariam parecer um “gentleman farmer”), e a sua barriga tem o tamanho exacto para preencher o espaço até ao volante do Mercedes.

Meu amo tem menos dois anos que eu. Mas o seu aspecto fá-lo parecer meu tio, embora eu o trate mais como a um sobrinho mimado; uma espécie de pirralho terrorista, que nos faz guardar tudo o que se parta quando vai lá a casa.

E então aqui fica com o patrocínio de meu amo, este elogioso post à sua pessoa. Elogioso, porque me dei ao cuidado de apenas enumerar as suas qualidades (há que ter cuidado…).

Música de Fundo
“Pocket Calculator”Kraftwerk

terça-feira, 2 de março de 2004

Noite

É na noite que tudo se esgota.

A escuridão dilui todas as cores,
como um gigantesco sorvedouro cromático.

Á noite é difícil ser azul,
a não ser que escolhamos néon, e isso é falta de gosto.

Não faz muito sentido falar da noite.
Porque as trevas não se podem descrever,
excepto talvez a um cego…
ou a um gótico.

E esses já sabem como é.

Por isso esta noite,
não vou falar da noite!

Música de Fundo
“God put a Smile upon Your Face”Coldplay

TheOldMan
- Escritos Íntimos (Zen) –

Durante algum tempo tentei esquecer quem sou, e todas as minhas pequenas manias e desejos. Mas é difícil ser assim, como uma ave parada no ar que não voa nem vive. Como algo feito de vidro frio que não pulsa, que não é. Por um tempo, esqueci-me de mim…

Não existe maior erro que se possa cometer, do que ignorar a nossa própria natureza.

Diz o Zen, que o melhor modo de encarar o mundo é como se fosse um sonho. Uma ficção fabricada algures para nosso benefício e que não controlamos de modo algum.

Que se foda o Zen! E note-se, sinto-me muito oriental ao dizer isto. Porque a minha vontade é abancar num bar de “shots” e esgotar o stock; infelizmente a vida não pode ser levada assim. Então vou admitir apenas por um momento que é um sonho, e que vai ser difícil acordar.

Felizmente, há sempre alguém ao nosso lado que ressona… ou seremos apenas nós?

Música de Fundo
“Harder to Breathe”Maroon 5

segunda-feira, 1 de março de 2004

Stand-Up News
- História verídica (eu seja ceguinho, se não é…) -

Quando se recorre a mão-de-obra barata não se pode exigir um resultado de nível standard. Mas ás vezes pode ser desopilante…

Ontem enfastiei-me com a minha colecção de DivX, e decidi ir fazer zapping para a TV. Em boa hora! Cerca das 23h sonantes e homéricas gargalhadas atroaram pelo meu modesto lar, acordando o miúdo (pena), chateando os vizinhos (que se lixem) mas ajudando a equilibrar o meu barómetro pessoal (super!).

Após dar duas voltas completas aos canais, recusei-me terminantemente a aturar um Herman cada vez mais parecido com o Roberto Leal, e optei pela SIC Notícias.

A minha atenção focou-se no humorista de serviço, um mirabolante personagem de anorak azul e nariz vermelho, que junto a uma estrada me tentava convencer do dramatismo da situação. Os camionistas tinham ficado bloqueados pela neve. Infelizmente ele também, pelo que se encontrava a fazer uma reportagem sobre algo que pertencia ao passado; pois o tráfego começara a recompor-se após a sua chegada.

Ao lado de um monstro de 24 rodas parado na portagem, imprimia ênfase ao facto de os sitiados terem ficado 48 horas sem abastecimentos, excepto umas miseráveis sandes.

– E neste local onde os camiões se encontram permanentemente retidos… - entretanto o camião arrancou – durante alguns segundos…

Palavras para quê?

Música de Fundo
“Orangotango”Irmãos Catita

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