sexta-feira, 30 de abril de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- A Tentação de TheOldMan –

Sabei irmãos que acabei de enviar um e-mail a Hieronymus Bosch. Porque não só apreciei a reportagem fotográfica que fez da tentação de Santo Antão, como por via disso o achei a pessoa indicada para documentar pictoricamente o episódio de ontem há noite.

Como sabeis, meu amo (esse simpático emplastro) tem-me proporcionado nas últimas três semanas, a possibilidade de exercitar as minhas capacidades até cerca da meia-noite todos os dias; o que quase me transformou numa espécie de Hannibal Lecter lá do bairro.

Ou para me premiar, ou quiçá para apenas “atirar areia para os olhos”, decidiu que me havia de conceder uma noite memorável; na qual as delícias terrenas se cruzariam com as celestiais, originando talvez o maior engarrafamento de que há memória na Avenida Defensores de Chaves.

Começámos por ir jantar a uma marisqueira de renome, e que não cito aqui porque se encontrava lamentavelmente encerrada para descanso semanal.

Meu amo é assim. Aliás teria que ser mesmo, pois Blog quando criou o mundo entregou-lhe a arrumação do universo; que como sabeis é a coisa existente mais parecida com o Parque de Estacionamento dos Restauradores. Dele inclusivamente nasceu a entropia (Miss Entropia, a minha assistente, é filha dele). Mas adiante…

Acabámos por ir jantar ao “Pancitas” a Queluz. Não é mau, se apreciarmos a originalidade que tem a produção de massa de tamboril a partir de sopas de marisco Maggi. Aproveitou-se o Bushmills de dez anos com que acompanhei o charuto. A noite prometia.

Após inúmeras recusas da minha parte em entrar nalguns locais estranhos (num deles juro que anunciavam um gorila), comecei a sentir-me no meio de uma película de Fellini, em que o realizador tivesse saído para almoço deixando a câmara ligada.

Começava a ter uma má sensação sobre toda aquela ideia dos prazeres celestiais. Principalmente, porque em tempos conheci uma Celeste, que até nem era má rapariga mas péssima companhia; no cinema queria sempre ver o filme.

Inesperadamente enquanto me encontrava a admirar a montra de um Centro Comercial, meu amo empurrou-me traiçoeiramente para uma porta disfarçada na parede, e lá conseguiu introduzir-me no PHOTUS (Erotic Club) que apregoava em néon o seu lema “vamos pô-lo em brasa…”.

Em brasa já estava eu. Mas como começava a ficar cansado de sair de bares e ser arrastado para outros piores, condescendi em sentar-me, nem que fosse para beber um Jack Daniel’s. Podia ter sido pior.

Uma jovem brasileira que minutos antes evolucionava abraçada ao poste doirado, aterrou de emergência ao lado de meu amo, talvez tendo detectado o cheiro a dinheiro através da barreira da transpiração. O certo é que por arrasto, fui de imediato apresentado a uma Katryn (with a kay, frisou ela) que continuou a explicar-se na língua de Tony Blair, mal descobriu que o meu inglês era melhor que o português que conseguira aprender. – “I’m from Riga, in Látvia” – disse piscando-me o olho, como se eu fosse o Exército Soviético prestes a invadi-la.

Para encurtar este post, antes que se estique além do que é razoável, as nossas acompanhantes foram actuar (Santo Blog, actuar…) alternadamente para o poste. Tendo eu ficado a saber que Katryn fora operada ao apêndice e que Cristina (a Brasileira) tatuara um minúsculo insecto a sair de um dos seus orifícios naturais (ou então não era tatuagem, mas penso que sim).

Após recusar repetidamente uma oferta de “serviços” por uns modestos cento e cinquenta euros, e recusar-me igualmente em alinhar num “privado” (o folheto anunciava – ao adquirir dois “privados” com a mesma bailarina terá direito a mais um de oferta!), acabei o meu segundo bourbon e torcendo ligeiramente o polegar a meu amo, convidei-o a despedir-se das nossas simpáticas hospedeiras.

Ele aproveitando a embalagem foi friccionar o cartão de crédito, na maquineta destinada a extorquir o devido pagamento. No estado em que estava, deve ter sido a única coisa que friccionou ontem. Ou talvez a careca também, não sei…

Cheguei a casa pelas três da manhã, com mais triglicéridos do que devia. Cansado, aborrecido, e sei lá mais o quê. E perguntareis vós então – Irmão TheOldMan, então se era assim tão desinteressante (exceptuando talvez o cabedal das “entertainers”), onde está a tentação?

Pois é, irmãos. A tentação que tive foi a de estrangular meu amo. Pois após me ter arrastado para um espectáculo inútil, e feito com que quebrasse a minha dieta para uma noitada estúpida, ainda teve a lata em passar todo o caminho de regresso a lamentar-se dos preços altos que pagara.

Essa sim, foi a verdadeira tentação!

Música de Fundo
“Stay Away From Me”Star Spangles

quinta-feira, 29 de abril de 2004

Por fim 100nada

Calhou-me a mim informar-vos a todos os que me lêem, do fim brusco do 100nada.

Por razões que não serão explicadas aqui, a sua autora viu-se na posição de ter que destruir uma das coisas que mais amava.

Esperemos que nunca tenhamos que tomar uma decisão assim.

Adeus amiga.

Música de Fundo
“Sing For Absolution”Muse

Quero as Minhas Férias!!!

Acordei hoje com uma disposição estranha. Ao pôr o pé fora de casa fui atacado pelo ruído surdo da gigantesca fila de tráfego, mas não me importei nem sei bem porquê.

O meu trajecto demorou o dobro do tempo, a maior parte dele parado em engarrafamentos; ocupei-me a olhar para os rostos dos automobilistas, a tentar adivinhar o pensariam presos ali.

O taxímetro contava o tempo ritmicamente como um metrónomo. Pensei em fechar os olhos e voltar a adormecer (é algo deveras tentador, o recurso ao sono), mas não tenho tanto tempo assim.

E o tempo é como a água dos rios, o que passa perde-se para sempre.

Música de Fundo
“Take Me Out” – Franz Ferdinand

quarta-feira, 28 de abril de 2004

Sou como sou

Não vou agora pedir desculpa por ter nascido ou ser como sou
não pensarei sequer em disfarçar o mau feitio
ou os atávicos impulsos que me movem ás vezes

Sou de uma só peça
(embora algumas sejam móveis…)

Gosto do que gosto
e quanto ao resto
tolero ou desprezo
mas com todo o gosto

Porque gosto (no fundo) de tudo o que faço
de tudo o que sou
e de tudo o que sei

Sou assim
e quem não gostar que vire costas
pois também gosto de costas
desde que sejam bonitas..

Música de Fundo
“I Know What I Like”Génesis

Passion/Poison

Fascinei-me
no verde dos teus olhos oceânicos
onde me afoguei
e ardi no vermelho abrasivo dos teus lábios
incendiários

Despenhei-me em chamas no teu corpo
esse suave deserto de carne
onde a sede espreita a cada duna

Bebi no teu oásis
porém
morro envenenado

Música de Fundo
“Poison”Alice Cooper

terça-feira, 27 de abril de 2004

Chainsaw Simphony
- Diários Paranóicos -

Tenho um martelo pneumático nos meus ouvidos, como uma banda Punk. Podia mudar de canal, mas é ele que paga as aspirinas.

Começo porém, a acarinhar a ideia de me especializar no uso da moto-serra, e fazer bom uso dela; utilizando um avental é claro… os construtores civis fazem um grande chiqueiro ao serem chacinados, e eu não quereria sujar as minhas roupinhas.

O meu teclado é anti-choque. É a sorte dele, pois alguém acabará por levar com tudo isto.

Não há férias na Suiça que paguem esta merda…

Música de Fundo
“Orpheus”Ash

O Último Corte de Cabelo em Cacilhas

Pois é… fui novamente ao barbeiro. O engraçado de tudo isto, é que se passa sempre qualquer episódio estranho quando saio do meu percurso habitual; quase como se vivesse em “Twin Peeks” ou assim.

Quando cheguei ao salão do “tremidinho”, o ambiente parecia calmo como é costume. O velho rádio de mostrador cantarolava qualquer coisa, mas no limiar da audição para não incomodar; e estava um miúdo sentado no cavalinho a cortar o cabelo.

O cavalinho é velho e parece um despojo de guerra. Tem mais de trinta anos, e nele já se sentaram gerações de miúdos embirrentos para cortar o cabelo. Não contando com alguns adultos pervertidos, que sei de boa fonte, ainda hoje insistem em cortar o cabelo ali sentados, à noite depois de o barbeiro fechar as portas.

Após o miúdo despachado, foi a minha vez (mas não no cavalinho) de cortar o cabelo. Sentei-me e preparei o espírito para mais uma meditação a pente nº 2, enquanto o operador preparava os seus tonsuriais apetrechos.

O “tremidinho” tem um sócio. Normalmente não o mencionaria, porque o “silencioso” é um tipo tétrico; a ponto de ainda muitos miúdos comerem a sopa graças à simples menção da sua pessoa.

Quem olhar para ele verá apenas um velhote de bata azul, nada de especial. Mas a voz… Santo Blog! A sua voz faz lembrar um vento gelado ecoando nas ameias de um castelo em ruínas, ou uma alma perdida lamentando-se no nevoeiro por entre jazigos de um cemitério. É uma voz tão sumida e lúgubre, que nos atinge a espinha como uma imaginária punção lombar… brrr!... não interessa.

É que hoje calhou-me o “silencioso”, pois o seu sócio a contas com um espécime particularmente hirsuto, parecia ter ainda para uns bons vinte minutos apesar do oceano piloso que preenchia já o soalho em redor da cadeira.

Ao contrário do seu sócio que treme bastante, o “silencioso” não é um tipo calado. Tendo recebido a alcunha pelo tom da voz e não pela contenção, o tipo faz comentários a quase tudo na sua voz melíflua e sibilante; e isto é das coisas que não desculpo a barbeiro algum. O meu corte de cabelo é um momento de introspecção; e como devem calcular, no sítio para onde envio o meu espírito só há lugar para um.

Após ficar em dia com os problemas rodoviários de Cacilhas, informado sobre o desenvolvimento da operação “Apito Doirado” e actualizado sobre o desenrolar do processo movido a Herman José (tudo coisas fascinantes à brava); o tipo decidiu trazer a conversa para a esfera pessoal

- Você costumava cá vir com intervalos de dois meses e agora passou a quarenta e cinco dias porquê? Isso agora cresce mais ou quê? – inquiriu com ar zombeteiro e apontando os centímetros quadrados de “relvado” que ainda me restam.

Confesso que fui assaltado por maus pensamentos. Felizmente as navalhas de barba já nem são como antigamente, tendo sido substituídas por uns dispositivos todos maricas, que podem ser manobrados sem perigo por qualquer Fígaro tremelicante. Desisti da cena à “Elm Street” e respondi ironicamente. – Não! Eu gosto é que me façam festas na cabeça!

Foi um erro… Decididamente, um erro!

O ruído da tesoura do “tremidinho” cessou de imediato. O rádio talvez tivesse sido desligado antes, mas o certo é que se instalou ali um silêncio tão desconfortável, que parecia uma morgue à hora de almoço. O miúdo que se ainda encontrava sentado à espera que o viessem buscar, olhava-me espantado, com o indicador espetado no nariz.

É difícil explicar o conceito de ironia a um barbeiro, especialmente se este for de Cacilhas. Quanto aos restantes frequentadores que apenas ouviram a última frase, e por isso fora de contexto; aquilo deveria soar como uma canção dos “Village People” ou pior ainda...

Silenciosamente, paguei a importância exacta desta vez e dirigi-me à porta enquanto colocava os óculos escuros. Atrás de mim, começavam a ouvir-se murmúrios de reprovação. Eu perturbara a santidade daquele refúgio de machos, ao proferir palavras que não se dizem nem a brincar. Instantaneamente deixara de ser um deles, passando à categoria de “cliente apenas”, sem direito a tratamento personalizado ou à tradicional toalhinha quente.

Porém, senti-me inexplicavelmente mais livre. Há já um tempo que me andava a apetecer pôr a cabeça noutras mãos; talvez nas de uma simpática moça num cabeleireiro unisexo.

Para a próxima vez acho que vou à Zélia…

Música de Fundo
“The Young And The Old”Madness

segunda-feira, 26 de abril de 2004

A Igreja do Imaculado Blog (Extra)
- O Santinho da Ribanceira –

Eu até sou um tipo intuitivo, mas há coisas (nem me perguntem quais…) que normalmente só noto quando me atingem de frente e me saltam para o colo.

Nunca liguei ao facto de o caminho até ao Café do Santos ser inclinado. Ainda ontem lá estive, e como o ângulo não é muito pronunciado, mais uma vez não notei. Só que uma acumulação de indícios acabou por despertar a minha atenção para o facto que vos vou relatar.

Os meus conhecimentos de botânica são assaz reduzidos. Sei diferençar um abeto da Noruega de uma couve-de-bruxelas, e nos dias em que estou mais inspirado consigo até distinguir a salsa dos coentros (esta é muito mais difícil).

E foi então que ontem me trouxeram a planta; uma planta sem nome, pois cá em casa não damos nomes ás plantas. É… - Ó tu!... – e pronto.

Tem um aspecto enigmático e um pouco carnal. As folhas são verde escuras e brilhantes, como que envernizadas; e tem uma flor de aspecto sugestivo. Esta é composta por uma base em forma de coração e de cor escarlate, encimada por um talo curvo e amarelo que nasce a partir dela, e faz lembrar vagamente um… um falo (espero que saibam do que estou a falar).

Mas não é na sua forma que consiste o milagre. Isso seria demasiado fácil, pois estou farto de ver variedades de cactos que tirando os espinhos, davam bons massajadores faciais.

Ela chora! Juro irmãos. Pela vossa saúde, que ela chora.

As suas folhas destilam lágrimas cristalinas. Quem sabe se pela conversão do Iraque, ou pelo novo Orçamento Geral de Estado; mas chora. O que como devem calcular é um milagre.

Posta esta nova situação, irei amanhã à C&A comprar um fato de treino branco; e preparar-me-ei para cumprir o meu destino de Beato (Beato TheOldMan, até que soa bem) guardião das lágrimas da flor em forma de… vocês sabem.

Para serdes abençoados com quaisquer Graças, enviai apenas um e-mail endereçado a “Igreja do Imaculado Blog – A/C Santinho da Ribanceira”, e Blog vos acrescentará (não sei bem o quê, mas depois vê-se).

E com isto me despeço irmãos, ainda tenho que ir regar a planta e recolher as lágrimas para posterior “merchandising”. Louvai a Blog, que eu cá vou andando.

Música de Fundo
“Dal Mio Parnasso”Claudio Monteverdi

domingo, 25 de abril de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- A Evolução na Continuidade … -

Irmãos! Esta frase de Marcelo Caetano que me serviu de subtítulo, não quer dizer absolutamente nada; e no melhor dos casos pode ser interpretada como “Vamos andando, que logo se vê…”.

E isto é (por muito que nos custe) a filosofia pela qual o nosso país se regeu desde 1974. É claro que devem estar a ver a ironia; a revolução implementa o pensamento do regime que derrubou. É lindo! Dava até um filme tipo “Capitães de Abril”, mas com uns jarretas de fato e gajas do Tamila ou do Lord Bar à boa maneira do JV.

É claro que os mais revolucionários entre vós (e até já houve um, com nome de refrigerante, que me chamou faschizoide, ou parecido....) me irão apelidar de reaccionário, mas a esses respondo à boa maneira de Rabelais – Na peida!

Todas as revoluções são belas e valem a pena. Todas são dolorosas e provocam sofrimento… Infelizmente a maior parte, não chega sequer perto do objectivo com que se iniciou.

Lembro-me bem da revolução, cresci dentro dela. Não a observá-la da janela, mas com a casa atravancada de posters russos, Lenines e Chés que vigiaram o meu menor gesto até eu um dia ter saído. Continuam ainda lá como restos de um naufrágio, a vogar ao sabor das correntes do tempo.

Perdi a fé em tudo o que era colectivo, passei a detestar multidões, e um dia quando a URSS invadiu a Polónia e alguém me disse que era uma ajuda a um país amigo que pedira auxílio, pirei de vez.

As revoluções não podem ter demasiada gente… acabam por se abandalhar.

Por isso, cada um tem a que ele próprio fizer; e não se queixem muito disso. Ninguém a irá fazer por nós.

Mas adiante. Eu ia hoje falar de comemorações e não de expectativas goradas.

Fui dar ao pedal mais uma vez. Almada é uma cidade revolucionária, e ainda bem pois as que o não são tornam-se amorfas, incaracterísticas e apenas se alegram com as iluminações de Natal.

No Açoreano as coisas estavam mais ou menos como é costume. Apenas um dos frequentadores insistia em contar histórias da tropa, e de como libertara o Quartel do Carmo ao lado de Salgueiro Maia. Até podia ser mentira, mas o episódio era tão bem narrado que perdi mais dez minutos apenas para ouvir o tipo dissertar.

Atacou-me a curiosidade e perguntei ao Açoreano, porque estando mesmo à entrada da Base Naval, mantinha a decoração com cachalotes e arpoadores em vez de utilizar motivos náuticos mais militares, o que o enquadraria melhor no local.

Disse que não se metia em “militarices”. Os cachalotes eram muito menos perigosos, e os arpoadores quando não eram bons, morriam. Realmente era um sistema muito mais justo, pensei…

Á saída fui quase trucidado por uma coluna motorizada. Uma companhia de fuzileiros em uniforme de combate, deslocava-se em direcção ao centro da cidade; ou para participar nas comemorações ou (esta seria ainda mais gira) para a coberto da data, iniciar uma nova revolução. Mas seria sorte a mais.

Fiz o circuito habitual por Cacilhas, chateando os pescadores à linha e esfalfando-me pela rampa acima até ao miradouro da Boca do Vento.

Afinal parecia um domingo normal, talvez conseguisse até encontrar algum café aberto (tinha já recebido angustiantes relatos de amigos em cidades do interior, que se encontravam impossibilitados de tomar o pequeno almoço, pois as pastelarias encontravam-se todas fechadas).

Estava apenas ligeiramente enganado. Ao chegar ao largo do tribunal, um 1º Grumete com a cara atravessada por riscos verdes de várias tonalidades, travou-me o passo enquanto dizia – Desculpe mas o trânsito está cortado, e não vai poder passar por aqui…

Olhei-o desde o capacete até ás botas engraxadas, e constatei que hoje em dia já lhes incutem hábitos de higiene, pois o tipo até tinha bom ar. Preparava-me para emitir talvez alguma inconveniência, quando um sargento precedido pela sua barriguinha de cerveja se acercou com ar curioso.

De nariz empinado avaliou a situação, e reparando no tubarão tatuado no meu antebraço direito disse ao praça – Deixa-o passar, sempre é “filho da Escola”. Após o que se retirou fazendo-me um aceno imperceptível.

Fui sentar-me na esplanada. Os pombos de Blog evolucionavam em treinos para a exibição de voo em formação cerrada; um deles ainda me tentou vender um “pin” da columbófila mas mandei-o bugiar, não ando de maré para misticismos.

Aproveitei enquanto esperava pela torrada para pôr as ideias em ordem. Desta vez quem me tentou vender autocolantes (já é ideia fixa…), foi um grupo de “pioneiros”. Cercaram-me, curiosos em ver um cota de calções; apreciaram a bicicleta e impingiram-me uma das suas criações gráficas por cinquenta cêntimos.

E foi então que me lembrei do que significara a revolução para um grupo igual que eu conhecera (e a quem dera grandes secas de ideologia); olhei para todos eles sem tirar os óculos escuros e comprei silenciosamente o autocolante que coloquei na T-shirt.

O regresso a casa a alta velocidade pela enorme descida, desta vez não me deu prazer algum…

Realmente como já o disse antes, o futuro não existe, ainda. Espero apenas que quando chegue a altura, cada um deles consiga fazer a sua própria revolução.

Música de Fundo
“What it Takes”Aerosmith

sábado, 24 de abril de 2004

Ode ao Mau Humor

Não há nada de mal em trabalhar ao sábado, desde que isso não nos provoque tendência para embirrar com toda a gente; que infelizmente é o caso…

Não posso telefonar aos meus amigos, porque a maior parte deles a esta hora ainda se encontram na cama. Os poucos que me respondem, enviam-me SMS’s insultuosos tipo “vai dormir, palerma” ou “ligo-te logo se a raiva tiver passado”.

Podia sair um pouco e tentar desancar alguém para desanuviar, mas esta malta anda toda armada. Alguns deles até com armas automáticas, embora manifestem uma pontaria lamentável; o que para mim até poderá ser um coisa boa.

Aliás essa falta de pontaria ficou demonstrada há cerca de um mês, durante a eliminatória do Campeonato de Tiro Nocturno do Bairro Amarelo.

Quatro pacíficos dealers após terem aldrabado o fornecedor, encontravam-se calmamente a comemorar dentro do carro fumando uma “chinesa”; aparentemente aquele negócio fora um verdadeiro Totoloto.

É claro que em caso de engano na atribuição dos prémios, é muito raro que os funcionários da Santa Casa recorram a meios extremos; ou pelo menos sem tomarem a precaução de esconder as suas identidades.

(Talvez vocês pensem que me estou a desviar do assunto, mas trata-se realmente da tal cena da pontaria)

Continuando. Estão os nossos alvos (dos quais omito os nomes, para salvaguardar a integridade física deste vosso escrivão queixinhas…) descansadamente a “dar nela”, quando chegam três representantes do fornecedor empunhando eficientes AK-47; que como toda a gente sabe é a arma automática mais conhecida e vendida em todo o mundo.

“Tão fácil de operar, que até um preto de dez anos a pode utilizar” é o slogan…

Infelizmente talvez devido à crise, assiste-se no nosso país a um aproveitamento de mão-de-obra barata, em detrimento de qualificados profissionais muitas vezes a contas com a inactividade.

Neste caso, se a entidade competente tivesse (em vez de três guineenses) enviado dois ucranianos ou mesmo este vosso amigo, teriam ficado muito mais bem servidos na execução do trabalho.

Para já os tipos não iam muito ao cinema, porque em vez de dividirem os alvos entre eles, começaram por alvejar em simultâneo o elemento que se encontrava no lugar do condutor. O que para começar é tacticamente errado.

Mas para não me estender demasiado com este post, o que se passou foi o seguinte. Aquelas três bestas, cravaram de projécteis o tipo que estava ao volante. E como se tratava de armas automáticas que só param quando se tira o dedo do gatilho, gastaram as munições todas no mesmo tipo; exceptuando aquelas que pela força do recuo das armas enviaram para o ar e para alguns prédios em volta.

A Dona Odete até me contou que tem um primo que só não morreu, porque se estava a esfalfar em cima da “patroa” quando uma das balas se foi alojar na sua almofada vazia. Penso que para o futuro, isto o deve incentivar a ser mais assíduo neste tipo de actividade.

Para terminar. Os outros alvos não tendo sido atingidos, sacaram de “fogantes” sortidos (Astras, S&W, etc) com nítida intenção de passar igualmente à categoria de concorrentes da eliminatória; provocando assim a fuga (e posterior desqualificação) dos outros concorrentes.

Tudo isto para ilustrar o meu mau humor de hoje.

A sério! Estava mesmo bom para dar uso a uma dessas AK-47…

Música de Fundo
“Awake” - Godsmack

sexta-feira, 23 de abril de 2004

Um Post por Luzia

Luzia amou e foi amada. Só fez a infelicidade do tipo com quem casou, exactamente ontem, no dia em que morreu.

Mesmo que quisesse não poderia dizer muito sobre ela. Quando uma pessoa é boa, as palavras esgotam-se rapidamente em epitáfios. Só os de vida complicada têm sempre muito que se diga sobre eles, com versículos da bíblia e tudo…

É quase instantaneamente que nos transformamos num resíduo biodegradável. Digo isto friamente, porque não foi a mulher de quarenta e seis anos que encarei hoje, mas uma espécie de fotografia a preto e branco. Algo que ela deixou para trás quando partiu, uma espécie de bagagem excedentária, algo já usado e gasto.

Em vez das velhas chorosas ter-lhe-ia oferecido, se pudesse, uma banda Dixieland para que apreciasse uns últimos acordes de boa música. Talvez um Pastor Metodista a cair de bêbedo, à beira de uma cova num dia de chuva. Mas logo irá fazer Sol e estragar todo este cenário, tal como ela esperaria que acontecesse; pois era uma mulher de dias de sol.

Quando nos referimos ás pessoas no tempo passado, é como se tivessem sido contemporâneos dos caldeus, e estivessem mortos há dois mil anos. O tempo passado é lixado para estas coisas.

Vou logo ás dez vê-la descer, apenas para fins sociais, porque se ela iniciou algum movimento foi no sentido ascendente. É pena não existirem anjos, senão eu sei o que agora diria. Mas são apenas umas últimas palavras sobre alguém que apenas existiu, sendo agora uma estatística que cristalizará em recordação nos que a conheceram.

Nada demais… uma recordação. Que como fumo de lareira numa casa de província, sai pelos meus dedos e sobe, talvez pela última vez…

Música de Fundo
“Love Theme”Vangelis (Blade Runner)

quinta-feira, 22 de abril de 2004

O Mensageiro
- Histórias de clandestinidade -

Uma Primavera cinzenta sentara-se em Cacilhas na esplanada esperando algo. Eu passava ali todos os dias, mas não notava; não me era permitido notar, pois era apenas um mensageiro que não conhecia o futuro nem as mensagens que transportava.

As mensagens para o futuro eram encriptadas… são sempre assim. Repletas de termos estranhos, para ler de três em três linhas ou com chaves em livros. Lia muito nessa altura, mas as mensagens não me diziam respeito; destinavam-se a um futuro incerto e a minha filosofia era o presente, tal como agora.

Existe ainda numa casa, um recanto de tábuas soltas onde guardava tudo. O meu pai nunca soube quantas vezes esteve prestes a ser preso por minha causa, ou pela causa que mais tarde tornou sua e da qual me desliguei posteriormente, mas apenas em corpo.

É fácil brincar aos agentes secretos quando se é um miúdo. Não se pensa nos outros, nem no que poderá acontecer; alimentado por filmes de 3ª entregava papéis apenas. Curtia à brava ser um conjurado, mas sei agora que foi isso que moldou quem sou neste momento.

Abril é um casaco que nunca irei despir. Uma segunda pele que me cresceu, à conta de sobressaltos e de histórias sobre desaparecimentos de gente conhecida; contadas em mesas de café.

Nessa Primavera comprei um single dos Creedence “Hei, Tonight”; mas não aconteceu nada nessa noite. Foi apenas alguns dias depois.

Gostei de ser o Mensageiro. Principalmente porque (acho) as mensagens acabaram por chegar ao futuro…

Música de Fundo
“Live and Let Die”Guns and Roses

quarta-feira, 21 de abril de 2004

Work, Work, Work...
Estou farto! Mesmo farto!...

Música de Fundo
"Roadhouse Blues" - The Doors

Experiências com Animais
- Opções pouco éticas… -

A senhora minha mãe cujas ideias originais se assemelham ás de um André Breton (ou Salmon, conforme os gostos…), comentou um dia destes que seria bonito aumentarmos o nosso agregado familiar. O meu filho que é um dos tipos mais pragmáticos que conheço (quando não está a jogar SIM’s, claro…), sugeriu inteligentemente – Podíamos comprar um bichinho. Sempre fazia companhia, e eu assim não tinha que dividir o quarto e as minhas coisas com ele…

E ficou assim combinado!

A princípio, ocorreu-me que seria boa ideia comprar um camaleão e baptizá-lo de Franz Kafka. As visitas sempre me achariam um tipo inteligente e refinado; adicionalmente, seria divertido vê-los saltar, quando se sentassem sobre um Kafka mimetizado ás ramagens do sofá.

Mas eu queria ser diferente. Kafka além de já estar muito visto é depressivo como camandro, e só a ideia de acordar transformado num carocho qualquer fazia-me impressão. Kafka foi vetado!

Talvez Confúcio fosse um bom nome para um gato. Já o imaginava a maravilhar toda a gente com a sua fleuma, e aspecto de pensador profundo. A seguir imaginei também, que saltava para cima da minha secretária atirando ao chão a câmara USB, e ia esconder-se de seguida na sala a afiar as garras no sofá.

Por mais benevolente que eu fosse, não estava ainda preparado para conter o meu “Chi” enquanto via um felino qualquer a esfarrapar as minhas tralhas. Confúcio estava fora de causa!

Conhecendo os meus gostos literários, houve alguém que me sugeriu um papagaio ou uma arara, desde que se chamasse Henry Miller.

A ideia pareceu-me boa… Mas reflectindo melhor, as tardes divertidas passadas com amigos enquanto se ouvia “Quando os meus dedos passaram finalmente a orla …”, podiam transformar-se em pesadelo durante o tradicional almoço de Natal; ou pior ainda, essa bicharada tem tendência a viver imenso. Já me via aos 85 anos a conviver com uma arara que só dizia inconveniências… seria uma espécie de casamento mas só com desvantagens.

Que se lixe Miller! Tenho os livros e posso lê-los quando quiser.

Realmente não acertava mesmo. Após recusar um São Bernardo chamado Nietzche, um Hamster chamado Gertrude Stein e um Iguana apelidado de Mia Couto, finalmente decidi.

Vou comprar um novo candeeiro de leitura! Quando o quiser, sento-me a ler no sofá do escritório sem que ninguém me chateie; e em vez de ter que o alimentar todos os dias, mudo-lhe as lâmpadas de vez em quando.

Música de Fundo
“Gotta Get Away”Fonzie

terça-feira, 20 de abril de 2004

Fast Lane

A vida passa rápida no tempo como um post escrito à pressa.

Quando se trabalham quinze horas seguidas, tudo se torna virtual; numa sucessão de adormecimentos e despertares frenéticos. E ainda faltam mais duas semanas disto…

Passa-se tudo numa auto-estrada de papel onde não há limite de velocidade, nem ninguém para fiscalizar. Um carro desgovernado segue esta enorme recta a alta velocidade, até que uma solitária curva surja e estrague tudo.

As grilhetas douradas não são diferentes das outras…

Música de Fundo
“Walking With Thee” - Clinic

Blow My Wistle

Finalmente o nosso governo decidiu debruçar-se sobre a transparência do futebol profissional, mas isso poderá não ser assim tão saudável e seguro para a classe política.

Entre a lavagem de dinheiro e o tráfico de influências, existe um triângulo cujos vértices são a política, o desporto e a construção civil. Vértices estes que ao serem investigados, conduzirão inevitavelmente uns aos outros.

Valentim Loureiro decerto não será o único a ter cometido delitos, talvez apenas um pouco mais descuidado; vítima da eterna cagança característica do desporto nortenho.

Se esta investigação não for abortada logo de início, sem dúvida que veremos aparecer a “Operação Tijolo Inteligente” à construção civil, e quem sabe até a operação “Garganta Funda” dirigida à classe política. Mas não sei se teremos essa sorte…

Música de Fundo
“Mono”Courtney Love

segunda-feira, 19 de abril de 2004

Os Malefícios da Televisão

Dão-se milhares de apocalipses diariamente. Dezenas de guerras entre o bem e o mal, ou apenas entre facções negras.

Sabem o que sente um soldado? Sente medo e raiva. Primeiro apenas medo, mas este desaparece dando lugar à raiva de o ter. Raiva que tem que ser transformada em algo, pois há coisas para fazer; coisas nas quais não se pode pensar muito.

Se esse soldado for apenas uma criança, não há nada que lhe possam oferecer para minorar a perda que causaram. E eu vi hoje um…

Vi também muitas das coisas que tentava não recordar, ou pelo menos não me esforçava muito por isso. Ver televisão também pode ser doloroso, se o estado de espírito não for o adequado.

Toma-se mais atenção aos pormenores, e realmente começamos a perigosamente deixar-nos invadir por aquilo. É para isso que serve a televisão. Para influenciar.

Mais vale ir ouvir música…

“Dazed And Confused”Led Zeppelin

Um Post Chamado Saudade
- Não é fado mas destino… -

Saudade é ter febre sem saber
é um comboio que não pára, um barco que não chega
é saber de ti mas não te ver.

Saudade é não querer ver ninguém, nem querer escrever
é querer gritar e não ter voz
é este post que hoje não vais ler.

Música de Fundo
“Every Time You Go Away”Paul Young

Não me apetece escrever

É verdade! As segundas-feiras dão-me sempre cabo da paciência; não só por ser o início de uma semana de trabalho, mas também porque a maior parte das coisas chatas acontecem nestes dias.

Vim aqui apenas para marcar presença. Talvez mais logo, se a neura melhorar…

Música de Fundo
“Four to the Floor” - Starsailor

domingo, 18 de abril de 2004

Um Pequeno Intervalo...

... só para chamar a vossa atenção para este post da Mar, que ao citar Saramago no estilo de Dinis Machado dá um bom momento de leitura.

Música de Fundo
"Walking After You" - Foo Fighters

Nas Garras do Vício!
- Descida aos negros abismos da droga e da escravatura… -

Adoro a minha canária. Originalmente chamada de Tweety por indefinição sexual à semelhança de Walter Carlos; esteve posteriormente para se chamar Elizabeth Schwarzkopf em homenagem à minha soprano favorita.

É claro que seria um nome demasiado pesado para uma pobre ave canora, pelo que optámos por lhe chamar apenas Miss Twiggy; não por ser magra mas pelo seu ar vaidoso.

E hoje descobri que ela se droga! Aquela voz maravilhosa, provém de um cérebro alienado nas turbulentas volutas dos alcalóides. O pior de tudo isto é que sou eu quem lhe fornece o “produto”, o que me transforma numa espécie de “manager” como nos filmes; ou mesmo num “dealer” sem escrúpulos.

Ela está viciada em “Cantoril”! Uma ignóbil substância vendida sob a designação de “Sementes de Saúde – Estimula o Canto”.

Apercebi-me hoje ao vê-la com nítidos sintomas de privação. Piava agitada e saltava do baloiço para o poleiro sem se concentrar em nada, a sua atenção apenas se dirigia para o local onde faltava a sua dose diária.

Decidi investigar. A embalagem anunciava a composição “Níger, Nabo, Cenoura, Alface, Quinoa, Perilla, Cardo, Erva-doce, Chicória, Sésamo, Agrião de Jardim, Linhaça, Sementes Vitaminadas”; é claro que era apenas para despistar as autoridades…

Abri o pacote e espalhei uma pequena quantidade sobre uma folha de papel. À primeira vista tratava-se apenas de um monte de detritos vegetais, mas a minha vista treinada em inúmeras noitadas do passado detectou algo estranho. Algumas das sementes de aspecto peculiar, recordaram-me outras que em tempos passados eu tinha acarinhado em vasos, e posteriormente transformado em “ideias estranhas”.

Fui buscar a lupa.

O mistério resolveu-se depressa. Sob o foco da minha lâmpada de leitura, apareceram algumas belas sementes de cânhamo; mais propriamente de Cannabis Indica ou Sativa (não sei ao certo). A minha soprano favorita andava “a dar nela” com toda a força.

Para efeitos (apenas) de teste, fui buscar um vaso e plantei algumas das sementes. Só o tempo o dirá. Entretanto acho que tenho algures um livro de mortalhas…

(Este episódio é apenas ficção. E esta declaração, serve para que os meus leitores não comecem agora a devassar os supermercados em busca de Cantoril.)

Música de Fundo
“Legalise It”UB40

sábado, 17 de abril de 2004

Ritmo

Quando estou feliz ando com ritmo. Talvez como um daqueles negros do “swing”, ou na pior das hipóteses como um italiano a dançar “disco”.

Cheguei a esta brilhante conclusão quando me aproximei hoje da esplanada, e uma miudinha disse à mãe. – Olha, o senhor vem a dançar…

Talvez fosse mesmo contentamento, que se transformou de imediato em algo perto do embaraço. Sentei-me e tentei passar despercebido.

A esplanada tinha música e eu não podia deixar de a ouvir. A minha perna direita deixou de me obedecer, e quando chegou o café já eu descontraidamente acompanhava o ritmo com os dedos na mesa.

Pensei novamente em conter-me, mas realmente estava-me nas tintas. É tão raro sair de mim que estou a começar a apreciá-lo. Deve ser destes efémeros dias de sol, ou de outra coisa igualmente agradável…

Nunca desperdicem uma coisa boa… e que dê ritmo.

Música de Fundo
“Travelling Without Moving”Jamiroquai

Contabilidade

Navegava descansadamente há pouco pela blogosfera, quando parei um pouco para pensar. É um tipo de coisa que ás vezes me ocorre, isto de parar um pouco e pensar sem razão alguma em especial.

Comecei por me recordar do tempo em que utilizava um modem Nokia de modelo militar (2400bps) para aceder ás BBS’s através do telefone. Na altura trocávamos anedotas e cópias do Anarchy Cook Book, não existia propriamente um contacto pessoal; éramos apenas desconhecidos com nicks estranhos (eu era Dr. Doom na altura).
Encontrávamo-nos e seguíamos o nosso rumo como navios na noite.

Passava noites inteiras a gastar fortunas em chamadas internacionais, à procura de sei lá o quê… talvez a busca em si fosse o mais importante; nunca cheguei a preocupar-me realmente com isso. Contactava apenas.

Anos depois quando a Internet teve o seu início, continuei a ter o mesmo tipo de procedimento. As pessoas não me faziam falta, dialogava com as máquinas e recolhia o que queria; apenas alguns “nerds” conhecidos faziam parte do círculo, e estávamos espalhados por milhares de quilómetros. Nunca nos encontrámos.

Há relativamente pouco tempo (dois anos é apenas um segundo entre idades geológicas), comecei a interessar-me pelos Newsgroups. A princípio de modo muito empírico, pois habituado como estava ao secretismo e ao isolamento, limitava-me a ler as mensagens; fazendo ás vezes um “tracing” para localizar apenas por curiosidade, quem as escrevia.

Até que um dia decidi começar eu próprio a enviar mensagens, em resposta a outras num dos grupos. Foi aí que apanhei o vício do contacto.

O vício do contacto (é um termo inventado), consiste em criar uma espécie de ligação com outras pessoas a partir do nada. Talvez através da própria solidão, que parece ser na maioria dos casos um denominador comum.

Começam a formar-se ligações, que por mais voltas demos apenas se podem classificar de amizades. Tenho amigos que nunca vi, outros já.

Nesta primeira fase que nunca abandonei totalmente, aconselhávamo-nos e apoiávamo-nos mutuamente nos momentos maus. Chegámos a fazer criação literária em conjunto (um dia publicarei aqui a Novela do pt.conversa – um trabalho colectivo). Dividimo-nos em facções durante o início da Guerra do Golfo; lembro-me ainda de ter enviado as minhas tropas ao Norte para capturar Salame Cheínho (o perigoso líder Islâmico), que tinha em Ermesinde uma Loja de 300.

De algum modo estavam lançadas as sementes para o renascimento da minha escrita, morta violentamente há quase dezoito anos.

Um dia um desses meus amigos contou-me que criara um blog (o 100nada). E falou-me do prazer que era escrever, como quem declama para uma plateia ou se empoleira num caixote para protestar.

De início, um pouco a medo comecei este blog com um espírito de novidade. Voltei aos meus tempos da máquina portátil em cima de um banco, e do cinzeiro cheio de beatas nas noites febris dos anos oitenta.

Descobri que não estava só, porque outros como eu escreviam, e esperavam que eu escrevesse… tal como eu quando os visitava esperava encontrar algo.

E encontrei muita coisa. Encontrei até mais do que esperava…

Este blog é uma nova vida. E tal como uma vida verdadeira (que o é) tem tudo dentro de si, as coisas boas e a más; e tudo nele acontece tal como na vida real (embora com umas ligeiras torções ao tempo e alguns pormenores).

Este blog é a minha outra vida. Ou talvez possa dizer sem mentir que a minha outra vida é a outra, sendo esta a original; porque aqui estou completamente como sou.

Embora sempre o quisesse evitar, acabei por começar a falar de mim através do personagem. E agora talvez seja um pouco tarde para vos dizer quem sou; sou apenas TheOldMan.

Um tipo que escreve enquanto ouve música.

“Canária” – Joaquim Rodrigo / Andrés Segovia
(Fantasia para un gentil-hombre)

sexta-feira, 16 de abril de 2004

Fetiche ou Construção de Ti

Vou fazer uma construção de ti.

Pego primeiro o teu corpo nu, apenas com aquele perfume que tanto gosto. Acrescento-lhe os brincos triplos de prata, um sutien de algodão com carneirinhos (acho que eram… não reparei bem) e umas cuecas pretas de renda.

Calço-te uns sapatos claros e abertos; e no cimo de tudo um vestido cor de alfazema. Obrigar-te-ei a dançar (eu sei que tu não gostas) sorrindo contrariada; mas dançarás. Nem que para isso te faça cócegas...

Mesmo que chova, dançaremos na mesma.

Música de Fundo
“Dancing in The Rain”Robi Draco Rosa

Breakfast Club
Versus
Fight Club


Estou sem palavras! E confesso que só não estou igualmente sem alguns dentes, porque esta velha carcaça ainda se mexe muito bem.

Era para ser um pequeno-almoço típico, o que como toda a gente sabe consiste no acto de comer e beber sem grandes interferências externas. Infelizmente nem sempre as coisas correm como planeado…

09h 20m – A Dona Odete no cumprimento de um ritual antigo, coloca à minha frente uma torrada sem manteiga e um escaldante chá de camomila. Agradeço-lhe com um discreto aceno, e disponho geometricamente os apetrechos decantando em seguida o líquido para uma chávena.

É como uma espécie de cerimónia do chá, mas ao balcão de uma cafetaria tipo tasca.

09h 25m – Estou eu a meio da primeira tira da segunda fatia de torrada, quando a Ti Floripes que se encontra no outro extremo do balcão, decide tomar o comprimido para a arritmia deixando inadvertidamente a carteira ao lado do braço direito.

O “chinoca” que esteve fora vários meses (pressupostamente a trabalhar em Espanha, apesar de vir muito pálido e olheirento…) aproveitando uma “janela” de dez segundos enquanto a velha não cai em si, precipita-se para a presa passando por cima de duas cadeiras. Assemelhar-se-ia a Keanu Reeves no Matrix, não fora o seu ar sebento, e o facto de ter tropeçado numa das ditas….

Foi aí que a realidade se tornou uma coisa espantosa. Armado em “vigilante”, o Rogério do talho envergando a sua resplandecente bata branca (embora juncada de manchas de duvidosa proveniência) tentou correr em socorro da Ti Floripes, que a contas com a lamela dos comprimidos não dera ainda por nada.

Trabalhar quinze anos num talho não deve ajudar muito a desenvolver as meninges, pois o tipo nem reparou no namorado (sim! Namorado) do “chinoca” mesmo ao lado dele; que o agarrou pelo gargalo da bata e lhe enfiou um pires de loiça pela fronha adentro.

Não pude evitar uma gargalhada. Por momentos o talhante assemelhou-se a um daqueles índios sul-americanos, que usam pires de sobremesa no lábio inferior. Mas foi apenas por momentos, pois aproveitando a sua superioridade proteica em relação aos dois esqueléticos “junkies”, agarrou ambos, enviando-os vingativamente na minha direcção.

Sou um tipo calmo e não me meto em confusões. Normalmente arrancaria a toda a velocidade para me abrigar atrás da máquina do tabaco; mas não tinha acabado ainda a torrada, e de manhã enquanto o nível da glicemia está baixo confesso que fico um pouco irascível.

09h 27m – Segurando com a mão direita a terceira tira da segunda fatia de torrada, redirecciono um atarantado “chinoca” para o W.C. utilizando o antebraço esquerdo. Quanto ao “namorado” não foi difícil, pois como voava baixo foi detido por um dos bancos de pé alto, eficientemente aparafusado ao chão.

Nessa altura o Rogério do talho, vira-se para mim com expressão irada – Você táva-se a rir de quê?...

Felizmente esta história acaba aqui. Pois a Dona Odete assentando uma sonora palmada com a sua mão gorducha na superfície do balcão, terminou com todas as veleidades numa imponente voz de contralto – Quero tudo já quietinho, ou acabam-se a merda dos fiados nesta casa! E você – virando-se para mim – sente-se e acabe o chá que está a arrefecer…

A calma desceu sobre a cafetaria. Sacudi as últimas migalhas da T-shirt, coloquei um euro e meio em cima do balcão e saí para a rua.

O céu antes tão azul, acinzentara-se em promessas de chuva. Ás vezes parece-me mesmo que vivo numa espécie de Matrix…

Música de Fundo
“Saint of Me”Rolling Stones

quinta-feira, 15 de abril de 2004

A Lâmpada Mágica

No meu mundo fechado e seguro
como uma lâmpada mágica
aguardei durante séculos
vendo escoarem-se sem sentido as areias de uma ampulheta
que me lembrava alguém…

Agora que respirei o ar puro
sei que posso sentir frio, e sede
como toda a gente.

Mas não me importo de ser como toda a gente.

Pois foi por isso que aguardei
pacientemente
que perturbassem o meu mundo
fechado e seguro como uma lâmpada mágica.

A propósito…
sei agora o que me recordava essa ampulheta.

Música de Fundo
“In Your Room”Depeche Mode

A Diabólica Alzira
- Diários de um jantarista… -

É claro que hoje fomos jantar a outro sítio (ao jantar não gosto de comer só com os olhos…). O peixe era mais fresco, mas a ofertante tinha menos 40cm de altura apesar de simpática e sorridente.

Manteve-se sorridente durante pouco tempo, pois meu amo é perito em espantar todos os representantes do sexo oposto; utilizando desde simples alusões até convites descarados e semi-indecentes.

Para terminar rapidamente (pois o trabalho aperta), no final do jantar trouxe-nos uma sobremesa de ananás e morangos em forma de rosto de demónio, com corninhos e tudo. Aí eu perguntei – É por causa dele? Realmente é um pouco chato…

- Não! – disse ela – é para si. Você é pior… aí caladinho o tempo todo…

Sou um incompreendido!

Música de Fundo
“Old Devil Moon”Jamie Cullum

Guia da Alimentação Racional
- Onde, quando, o quê e quem comer… -

Sou um tipo discreto e metódico. Se fosse um pouco mais alto, usasse um chapéu ridículo e fumasse cachimbo, poderia ser confundido com o Sr. Hulot.

Passo tão despercebido, que conseguiria até sair do restaurante sem pagar após a refeição, pois ninguém daria por nada. E foi o que me apeteceu fazer ontem… felizmente não foi totalmente mau, senão tê-lo-ia feito.

Como já anunciei em posts anteriores entrei em regime de trabalho intensivo, e durante duas semanas só irei a casa para dormir (e tomar banho, claro); o que me obriga a jantar nos mais ignóbeis locais que se possam manter abertos a horas tardias.

Nunca gostei daquele sítio. O proprietário é antipático e quezilento, o azeite das saladas é de má qualidade e os preços são altos. Mas como meu amo é cunhado do tipo, de vez em quando lá tenho que o gramar.

Para começar tive que ver trinta minutos de TVI (mau, muito mau…) até que o meu pedido pudesse ser anotado. Tinha consumido já metade do couvert e preparava-me para dar largas à minha exuberante personalidade, quando a primeira coisa boa da noite aconteceu.

A princípio pensei que iria ser raptado. No meio de uma notícia debitada por uma idiota qualquer, senti a pressão de dois pontos duros nas minhas costas; pareceu-me que alguém suavemente me encostava os canos de duas Uzis, e se preparava para me mandar pôr as mãos no ar…

- Boa noite! Os senhores já escolheram? – A minha orelha direita deve ter crescido uns bons dois centímetros, e todos os cabelos da nuca se me puseram em pé. A proprietária da voz ligeiramente rouca, afastou-se um pouco das minhas costas e preparou-se para tomar notas; enquanto eu começava a sentir um calor estranho perto do guardanapo.

Após três tentativas, lá consegui pronunciar sem erros a frase “Robalo grelhado, com salada”. Meu amo ali a meu lado, babava-se com uma intensidade que Pavlov nunca conseguira provocar nos seus cães.

Quando o proprietário se acercou para nos submergir com as suas habituais alarvidades, o meu espírito estava longe. Recitei mentalmente alguns poemas de Iggy Pop para me concentrar, e desci à realidade um pouco alterado mas em plena posse das minhas faculdades; mesmo a tempo de o ouvir perguntar – Gostas da minha última aquisição? É mesmo um naco, não é?

Meu amo titubeou um pouco, após o que fez um monte de comentários irreproduzíveis aqui. Entretanto eu tinha-me recomposto, mas perdido totalmente o interesse pela manteiga de alho (e se gosto de manteiga de alho…); pelo que me concentrei no Caderno de Encargos que levara para me entreter nas horas vagas.

Pelo canto do olho vi uma sombra de tom rosa aproximar-se, precedida por um toc-toc de saltos (Santo Blog! Que tipo de mulher leva saltos altos para servir à mesa?). Levantei a cabeça.

As meias eram realmente rosadas. O que em pessoas imaginativas como eu, conduz logo a um exercício mental sobre a continuidade da cor.

O robalo era uma merda completa. Moído, insípido e sei lá mais o quê… mas parecia ser salmão, pois cada garfada dele era rosada. Garfadas estas, que acompanhava com rodelas de tomate nas quais apreciava as suas sugestivas formas interiores, num desvairo alimentar pouco saudável; pois como já disse o azeite ali é péssimo.

Mais tarde, quando ela me encarou ao perguntar qual a sobremesa que eu escolheria, soube imediatamente mirando-a nos olhos o que me apetecia… pêssegos em calda! E eu que estou a dieta…

Tinha uns olhos castanho-claro, que na realidade faziam lembrar minúsculos pêssegos doirados imersos numa calda brilhante. Não me arrisquei a beber café, pois tive medo do que isso me levaria a pensar.

O resto da noite foi pouco produtivo. Meu amo ficou na sala de reuniões, com a agenda no colo e mirando apaticamente o “water cooler”. Tive que mais tarde lhe chamar a atenção para o adiantado da hora, senão ainda lá estaria, possivelmente na mesma posição.

Hoje quando nos encontrámos de manhã, perguntou-me em tom conspiratório – Então, o que achas de logo lá irmos outra vez?

- Pode ser… - respondi – mas é melhor jantarmos primeiro!

Música de Fundo
“She Wants to Move" - N.E.R.D.

quarta-feira, 14 de abril de 2004

Livre

As coisas livres são sempre as mais belas, pois nunca são invadidas pela tristeza que tem quem olha os ares sem poder voar.

Sou como um falcoeiro.

Sei que o voo é uma necessidade natural; como quando respiras ou bebes as palavras que te dou. Por isso, quando pousares o meu braço estará à tua espera.

Abre as tuas asas…

Música de Fundo
“Asas”GNR

Emergência Médica

Tenho um coração forte. Aguenta tudo, desde pontapés estilo karatê até desilusões amorosas; só o ciúme ás vezes o põe em risco. Mas como devem calcular a emergência médica foi outra; ontem esqueci-me de tomar os comprimidos para os triglicéridos.

Assustado por horripilantes episódios que me têm contado (como aquele de um meigo pai de família, que ao se esquecer de tomar a medicação correu a filiar-se no Bloco de Esquerda e se amancebou com uma caixeira de perfumaria…), marquei de urgência uma consulta com a Dr.ª. Inês.

Após me ter medido a tensão, auscultado e beliscado o traseiro (acho que é para testar os reflexos), a esculápia declarou-me próprio para consumo, e preparava-se para me despachar em grande velocidade porque já era tarde.

Mas eu tinha ainda algumas interrogações que oprimiam a minha alma. Fazendo então jus à máxima “mens sana in corpore sano” (ou vice-versa) contei-lhe todas as minhas dúvidas e medos, na esperança que quem me costuma curar o corpo o pudesse também fazer ao espírito.

E em boa hora o fiz… pois fui brindado com o melhor receituário a que se pode aspirar.

- Quanto a isso do peso ideal… - começou ela – não se preocupe muito. Um homem na sua idade, pode considerar-se em forma enquanto conseguir tirar e pôr a aliança sem ter que passar cuspo no dedo.

E continuou – Agora para essas palpitações que me descreve, avie esta receita e siga as indicações. Não garanto que passem mesmo, mas aliviará um bocado…

Bastante confortado, passei pela farmácia de serviço e entreguei o papel a um sonolento ajudante, que olhou para mim como se eu lhe tivesse pedido preservativos com sabor de pistácio. – Não temos! Espere que abra o Fórum Almadense, lá deve arranjar facilmente…

Um pouco espantado li pela primeira vez o papel que ele me estendia. Numa caligrafia arrevesada de médico conseguia distinguir-se:

“Música de Fundo – Unchain My Heart Joe Cocker
(Ouvir quarto vezes ao dia…)

terça-feira, 13 de abril de 2004

Darkness Fall

A árvore frente à minha janela tornou-se negra. Talvez seja apenas da noite ou por algum estranho desígnio, mas parece sempre acompanhar a minha disposição.

Ás vezes os seu ramos cansam-se de ser verdes e vivazes, e aproveita a noite para despir aquele ar alegre que lhe conheço, revelando-se negra como se tivesse sobrevivido a um incêndio. Erecta numa majestade parda, e seca…

As árvores não renascem. Apenas criam uma casca mais grossa, até que esta as sufoque e fiquem de pé à espera que a gravidade e o tempo sigam o seu curso.

Amanhã vai parecer verde e dar sombra, como uma boa árvore. É a sua missão…

Música de Fundo
“Reptilia”The Strokes

Meteorologia

Chegou o bom tempo! Não me canso de o repetir a mim próprio, mas no fundo sei que se trata apenas de um intervalo.

A Primavera é uma estação intermédia, e raramente os seus frutos perduram; são apenas flores efémeras… pétalas de espuma que se perdem num suspiro.

Não se devem desperdiçar os dias de sol. Mas infelizmente é o que acabo por fazer, sentado atrás da janela em aço perfurado, batendo nas teclas de modo vingativo.

A Primavera está aí, só não sei se será por muito tempo…

Música de Fundo
“You Can’t Stop Me”Guano Apes

Diários de Mau Génio (I)
- Debilidade Mental Congénita -

Este belo episódio de humor fraternal, foi-me dado a saber pela TVI (esses paladinos da informação isenta) durante o bloco noticioso das 13h.

Dois irmãos, pressupostamente filhos do mesmo pai, têm uma discussão à porta da tasca da parvalheira onde moram. Ignora-se o teor da discussão, assim como o teor alcoólico dos dois intervenientes.

Após se separarem, um deles vai ao carro e traz uma caçadeira com a qual dispara dois tiros sobre o irmão; a trinta metros e falha…

Digo que falha, porque a única coisa que o irmão consegue exibir para as câmaras, é um braço com chumbos cravados a alguns milímetros de profundidade. – Podia ter morrido! – acrescenta, enquanto manifesta o seu desagrado pela inactividade manifestada pelas autoridades.

Resta-me acrescentar que esse pobre injustiçado, se recusa terminantemente a apresentar queixa; apesar de continuar a bramar aos quatro ventos que alguém deveria fazer alguma coisa.

Eu até fazia… oferecia ao irmão alguns cartuchos de zagalote.

Música de Fundo
“Uncle Bernie’s Farm”Frank Zappa

segunda-feira, 12 de abril de 2004

Humores

O minha disposição flutua como um barco, ao sabor dos dias de sol ou dos outros mais sombrios; é um humor incerto feito de penas ou pequenos prazeres.

Pulsa sempre ao ritmo das estações como um coração sobressaltado, sem saber se isso é ou não natural. E talvez ser natural, seja apenas isso… nunca saber se o é…

Há dias em que o meu peito ressoa solos de bateria, ou apenas ritmos dançáveis; alegres ou não. Ritmos que me impelem para a frente, onde o presente está sempre um passo atrás, mais fácil de observar.

É sempre agradável escrever os dias bons. Algures mais tarde servirão para ser lidos, e recordados como um cheiro antigo ou um sabor despoletados por uma música que se ouviu em qualquer parte.

Escrevo isto porque as duas próximas semanas (se bem me conheço), vão ser um período sombrio repartido por jantares de serviço e trabalho até altas horas.

Vou guardar este post, para me lembrar que não sou como vou estar. Que sou apenas de humores variáveis, um pouco volúvel como as estações ou o mar de que tanto gosto.

Aproveito esta noite para inspirar profundamente antes de um mergulho prolongado, como um escafandrista que antes de submergir, olha carinhosamente para fotografia que prende no interior do capacete.

Música de Fundo
“Everyday”Jamiroquai

Desejo Musical

Terei que tocar-te…
como a um precioso instrumento de duras cordas.

Ora com suavidade ou com firmeza,
dependendo da música, ou apenas do ritmo…

Abraçar-te-ei sem partitura.

As minhas pernas sentirão o estremecimento em ti.
E não te soltarei antes do último acorde,
do último trinado.

Ficarei então a olhar esse corpo belo,
como um maravilhoso violoncelo.

Música de Fundo
“Time on my Hands”Bryan Ferry

domingo, 11 de abril de 2004

A Santa Páscoa

Ok, a Páscoa é tempo de fé. Concordo perfeitamente com isso; pois para aguentá-la só mesmo com muita fé e paciência (paciência tipo corno, se possível).

É uma época em que visitamos pessoas que raramente vemos, comemos coisas que pouco toleramos, e ainda temos que participar em conversas que de outro modo classificaríamos de acéfalas.

É por isso que a Páscoa é considerada um tempo para a família; porque a essência da família, pode ser descrita por essas palavras.

Tive um dia indigesto. Com temas que foram desde Eisenstein ao Crime Organizado, passando pela apreciação de Balzaquianas e da performance do pessoal contratado em serviços públicos.

Até parecia a Assembleia da República. E o mais engraçado, é que todos nós somos da oposição.

É uma pena que a Páscoa seja a um Domingo, assim é um fim-de-semana que se estraga, enquanto de outro modo sempre poderia justificar um feriado durante os dias de trabalho.

Mais uma vez a culpa foi de Jesus Cristo. Não tarda e estarei a conjecturar que só se perderam as que caíram no chão…

Música de Fundo
“Peaches”The Stranglers

sábado, 10 de abril de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Perseguições Religiosas –

“E queimaram a fogo todas as suas cidades, com todas as suas habitações e todos os seus acampamentos”.
Números 31-10


Confesso que a minha fantasia favorita sobre perseguição religiosa, é ser assediado por um grupo de noviças marotas; mas não é disso que venho hoje falar.

Todos vós sabeis que os devotos seguidores de Blog (como eu), nutrem uma certa tolerância para com os costumes bárbaros das religiões da concorrência. Consistam eles em deixar de tomar banho ou no sacrifício de virgens (um desperdício totalmente gratuito e cruel).

Eu estava já habituado à proximidade daquela igreja. Apesar de a princípio ter preferido que se edificasse um terminal de autocarros ou um mercado municipal, tinha-me já habituado à visão do mamarracho que alguém tinha copiado do design de Le Corbusier, e forrado com belos painéis de azulejo de W.C..

Quanto ao edifício, apesar de ter na forma algumas semelhanças com a “Notre Dame du Haut”; em última análise assemelha-se mais a um urinol público pós-modernista, embora isso não seja de todo importante. Se Deus existir estará em todo o lado, mesmo nos urinóis…

É claro que me estou a desviar do assunto (é a idade), pois também não vim aqui para vos falar de arquitectura.

Foi ontem à noite.

Servi-me de um pouco de malte e fui à varanda fumar uma cigarrilha; dali tenho visibilidade por cerca de um quilómetro, e queria rever algumas ideias em paz e gozar o ar fresco, pois é nessas alturas que sempre me surgem os melhores pensamentos (há uma altura ainda melhor, mas isto é um blog para todas as idades).

Alguns farrapos pálidos escondiam o céu, como uma peça de roupa interior feminina. Mas não me importei. O céu não é para ser visto todos os dias ou acaba por nos enfadar…

De início distingui apenas algumas luzes trémulas, como num concerto de rock em que todos acendessem os isqueiros. Aguardei um pouco na esperança que começasse a música, e passado algum tempo fui brindado com uma “Salve Rainha”, num volume tão alto que pareceria entoada pelos “Xutos & Pontapés”.

Era uma procissão.

De início não me importei muito. A procissão como veículo de fé é como o automóvel; é para andar. Infelizmente eles sentiam-se bem onde estavam, e aparentemente não queriam levar a sua fé a mais lado algum.

Entretanto a cantoria atingia decibéis a que eu nunca tinha chegado quando ouvia Deep Purple. Por momentos, senti a tentação de mandar espargir as ombreiras da minha morada com sangue de cordeiro. Mas como devem calcular, por mais bem abastecida que esteja a nossa despensa; sangue de cordeiro é sempre uma daquelas coisas que nos esquecemos de comprar, tal como o sal para a máquina de lavar louça.

Seguidamente o pároco iniciou o sermão, e a sua voz ouvia-se em todo o lado como um anúncio de desgraça; decididamente queriam estragar-me a noite. Corri para dentro, e o meu impulso inicial foi o de municiar a Gamo .45, mas o seu alcance útil é limitado a duzentos metros, e poderia mesmo assim inadvertidamente iniciar uma guerra santa. Os católicos devotos são muito vingativos…

Decidi ouvir um pouco de música com os auscultadores (tal como eles deveriam fazer com a merda da homilia), mas o ruído insidioso do sermão infiltrava-se no meio do meu som, tirando todo o prazer a este tipo de actividade.

Tive então uma epifania. O meu espírito tornou-se claro, e compreendi pela primeira vez porque os cristãos tinham sido tão perseguidos através dos tempos. Não porque a sua fé fosse incomodativa ou revelasse a verdade, mas porque na realidade são os maiores chatos que alguma vez existiram debaixo deste sol.

São como aqueles casais que mesmo quando lavam a roupa suja em privado, têm que chatear toda a vizinhança com os pormenores sórdidos em altos berros. E tal como estes, merecem tudo o que lhes possa acontecer.

Felizmente, não sei se por via do telefonema que fiz para a PSP (eram 22h 40m), ou porque o padre tenha apanhado com um tijolo no megafone (imagem igualmente grata para mim); o certo é que lá se calaram e levaram a sua crença para outro sítio.

Mas a minha piedade para com os mártires cristãos ficou muito abalada; e se realmente Cristo morreu por todos eles, foi decerto devido a um erro de logística celeste. Não há sexta-feira menos santa, que aquela em que nos roubam o pouco sossego e calma que merecidamente tentamos gozar.

Agora não me admiro nada que existam perseguições religiosas…

Música de Fundo
“Diokhan”Guano Apes

sexta-feira, 9 de abril de 2004

Praia

O Sol ilumina os corpos brilhantes de látex, como jovens focas que sobre as pranchas aguardam a onda ideal.

Mas o mar está doce. E a brisa provoca-lhe pequenas ondas, que causam reflexos coloridos de azul e ouro; não está dia para surfar.

É dia de apreciar o mar, seu cheiro e sabor como de uma mulher se tratasse. Passear pelo pontão e parar numa esplanada, sentir o vento levar de nós toda a poeira antiga de dias passados. Sem palavras…

Pares passam abraçados, miúdos com bolas… pescadores no pontão.

É um dia de praia. Dia de nadar, e amar o mar…

Música de Fundo
“Deep Honey”Goldfrapp

Um dia no campo

Fui visitar o Padre Joãozinho. Este, além de insigne retórico e ex-hitman do Vaticano é também caçador furtivo. Nesta última actividade é habitualmente acolitado por Álvaro Cunhal, um perdigueiro ruço com manchas pretas sobre os olhos; que aponta e traz à mão com uma mestria não igualável pelo seu émulo.

Por decisão tomada há muito, apenas disparo sobre alvos de cartão. As criaturas do Senhor (exceptuando as humanas), não costumam ser alvo dos meus impulsos atávicos. Mas como se tratava de pôr algo na travessa para o jantar, e me encontrava em casa de um clérigo caçador, concluí ser mais apropriado fazê-lo do que esperar que um meu semelhante, degolasse um miserável frango apenas para meu benefício.

Se quero comer, será coerente da minha parte matar o que vou devorar. Quanto mais não seja, apenas para não ter que correr muito durante a refeição.

Pedi emprestada a velha Bonnioti de canos sobrepostos, e saí acompanhado de Álvaro Cunhal (o perdigueiro) disposto a pôr algo na mesa para acompanhar a broa e o queijo curado.

Após cerca de quarenta minutos de caminho por urzes e carquejas, lá vislumbrei uma espécie de ave bravia que se pavoneava numa pequena clareira, enquanto debicava em redor com uma lentidão de “gourmet”.

Confesso que as minhas capacidades ornitológicas se resumem à identificação de patos bravos… mesmo isso, apenas para fins profissionais; e o bicharoco não era em absoluto um pato bravo, pois além de não se encontrar perto da água não envergava o característico boné aos quadrados.

Fiz mira e atirei.

Uma coisa da qual me orgulho (e não são poucas, confesso. O meu orgulho é desmedido) é ter boa pontaria. Mas aparentemente o passaroco ignorava-o, assim como ao som do disparo, tendo continuado a esgravatar o terreno e a debicar os seus achados.

Disparei o segundo cartucho. Álvaro Cunhal perdeu a paciência e correu para o bicho, que incólume abriu as asas e partiu em busca de paragens menos barulhentas.

Estive prestes a fazer uma birra das antigas e dar um pontapé em qualquer coisa. No fundo, prezo muito aquela coisa da pontaria; e felizmente estava sozinho ou sentir-me-ia ridículo numa situação que não admitia falha. Ainda por cima a uma distância insignificante.

Regressei de orelha murcha à ermida. Aleguei que não tinha encontrado nada, e que por desfastio disparara sobre um tronco. Mas o Padre Joãozinho é tudo menos tolo, e o seu método para obter confissões é tão eficiente como o dos Dominicanos da Inquisição.

Juntou um naco de presunto ás vitualhas, e com todo o vagar encheu um cântaro no pipo, dando-me miradas intermitentes por cima do ombro. Eu mantive-me calado, enquanto roía distraidamente a broa e esfarelava o queijo pelo prato afora.
A meio do segundo cântaro (e são bem grandes, esses recipientes…) o silêncio começou a tornar-se incomodativo. Um pouco a custo acabei por lhe contar o episódio, descrevendo a ave, o falhanço dos tiros, e acrescentei – A vinte metros, ainda por cima! Foi um momento único! Lá se vai a minha reputação de bom atirador…

- Quanto à tua reputação, – respondeu ele – continua a valer o mesmo. Agora o momento foi na verdade ímpar… trengo! A Fénix só pode ser apanhada à mão; podes queimar-te um pouco, mas valerá sempre a pena.

Enquanto o fitava admirado, ajeitou o hábito e continuou enquanto me piscava o olho com ar matreiro – A Isilda leva-te à estação. Felizmente que há luar, porque nunca mais a convenço a mudar as lentes que estão todas riscadas. Mas olha, da próxima vez já sabes; à mão… e com muito jeito. É uma ave sensível e não gostarias de a magoar.

Durante a viagem a lua acompanhou-me. E enquanto a olhava com a cabeça encostada ao vidro, senti que de algum modo estamos destinados a encontrar-nos novamente.

Eu e a Fénix.

Música de Fundo
“Moonlight Drive” - The Doors

quinta-feira, 8 de abril de 2004

Thanatos

Se nós somos o que comemos… o que é o que nos devora?
Seremos nós?

Música de Fundo
“Peer Gynt - op. 46”Edvard Hagerup Grieg

terça-feira, 6 de abril de 2004

O Olhar

Habitualmente não leio tablóides. Do mesmo modo que vejo pouca televisão ou ignoro peditórios para o cancro, bem como arrumadores.

Não por que seja um tipo completamente insensível. Apenas porque o excesso de estímulo conduz à apatia; e nós somos todos os dias bombardeados com um tal volume de desgraças, que poderíamos caminhar sobre as ossadas de um campo de batalha sem sentir nada.

Os meus pequenos-almoços de trabalho, são-me habitualmente servidos pela D. Odete a um canto do balcão da cafetaria no abrigo de uma coluna. Não dou muita confiança ao resto da clientela. Não porque seja esquisito, apenas não interessam mesmo nada; alguns deles chegam mesmo a ser um desperdício de oxigénio.

Enquanto empurro a torrada (sem manteiga) com um “earl grey”, costumo passear ociosamente os olhos pelo jornal disponível; normalmente do fim para o princípio o que me poupa imensa “palha“, principalmente quando se trata do Correio da Manhã.

Hoje calhou-me o 24 Horas. A minha opinião sobre esse estragar de papel, é a que foi obtido a partir de uma fusão entre “O Crime” e o “Jornal do Incrível”. Mas enquanto tomo a primeira refeição do dia, não suporto ver ao mesmo tempo os habitantes do Bairro Amarelo (nunca com o estômago vazio…), por isso aproveitei para ler um pouco.

Após um desfile de enormidades, mexericos e afirmações dúbias, cheguei a uma notícia que já tinha ouvido da SIC Notícias enquanto fazia a barba. Tratava-se das crianças abandonadas (720, acho), cujo número cresce de ano para ano.

Conhecendo já de ginjeira o choradinho hipócrita do pasquim, preparava-me para seguir em frente quando reparei na fotografia que encimava a coluna.

Um miúdo com cerca de nove anos, à mesa de uma instituição qualquer come sopa ou cereais (não se distingue ao certo). Mas o que chama realmente atenção é o seu olhar enviesado, que nos dá um vislumbre de desconfiança e medo; como se a qualquer momento algo de terrível lhe pudesse suceder, mesmo antes de conseguir acabar a refeição.

Num mundo onde há crianças que têm que olhar sobre o ombro enquanto comem, não dá realmente grande vontade de tomar o pequeno-almoço…

Música de Fundo
“Rain Down On Me” - Kane

segunda-feira, 5 de abril de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
(Diálogos com ELE)

- “Are you talking to me? …
Are you fuckin’ talking to me?”


Caí no erro de pedir umas pequenas férias. Blog mirou-me longamente com os seus olhinhos porcinos, e coçando o peito peludo através da toga arengou. – Tás no gozo… Não tás? Vês a malta aqui toda a preparar-se para a grande ofensiva da Páscoa, a embrulhar amêndoas, a mudar as pilhas aos coelhinhos; e vens falar-me de férias? Até Junho não há “Férias de Blog”! – continuou – Tira dois dias e vai à praia, ou então vai à Kapital uma ou duas vezes se isso te fizer sentir melhor…

- Não é nada disso! – justifiquei-me – Ando com demasiado trabalho, e isto quase que se transformou num emprego a tempo inteiro; era para ser uma coisa casual e sem consequências de maior…

- Deve ser a pior desculpa que já ouvi… - riu-se ele – desde que os irmãos de José o venderam como escravo, e foram dizer ao pai que um leão o tinha comido. Por este caminho ainda te vais tornar um bom cristão, como disse a tua outra amiga…

Comecei a fartar-me da conversa. Isto de divindades é uma perda de tempo, porque quando queremos um favor nunca retribuem nada; e ele começava já a parecer-se com uma espécie de patrão trombudo. – Ok! Vou fazer o seguinte: asseguro os serviços básicos, tipo a via-sacra em três etapas e o Grande Sermão da Páscoa em versão Reader’s Digest. Quanto ao resto, desenrasca-te que já és um deus crescidinho; eu vou tirar uns dias.

E saí batendo a porta.

Cá fora, o Arcanjo Rebocho dava brilho ás botas de biqueira de aço esfregando-as nas calças; talvez para disfarçar o facto, de ter estado a escutar com o ouvido esquerdo (ainda vermelho) encostado à divisória.

- Estás-te a rir de quê? – perguntei enquanto lhe dava um encontrão ao passar – Caso não estejas lembrado, sou eu quem assina a tua avaliação. E essas asas meu amigo, se tas tirar, há lá fora sete ou oito Moldavos que matariam a mãe para as obter.

Tão certo como coelhinho da Páscoa se chamar Alfredo…

Música de Fundo
“Make Me Smile”Steve Harley & The Cockney Rebel

domingo, 4 de abril de 2004

Provérbio Prussiano
- Inventado agora mesmo -

Quanto mais mostrares de ti próprio, maior será o alvo sobre o qual os outros poderão disparar.


sábado, 3 de abril de 2004

A Vida Imita a Arte
- Prosa semi-técnica -

A Microsoft decidiu produzir uma versão intermédia do Windows XP que se chamará XP Reloaded. Aparentemente não seria nada de estranho, excepto no facto de ser apenas uma máscara para um SP3, enquanto esperamos a saída atrasada do novo sistema operativo (o Longhorn”), que só verá a luz lá para 2007 ou mais tarde ainda.

Á semelhança da verdadeira Matrix, os sitemas operativos da Microsoft têm mais buracos que uma rede mosquiteira (e não tão estreitos assim), o que vai mantendo todos os hackers felizes da vida, os utilizadores loucos de raiva e algumas software-houses especializadas em segurança, a laborar em pleno.

Deve ser um dos raros casos em que o queijo sobrevive à custa dos ratos, num paradoxal sistema caótico em que os atacantes ajudam a descobrir as falhas, poupando imenso dinheiro em pesquisa aos sitiados; que se vão rindo enquanto contam os lucros.

Cerca de 280Mb dos 1Gb que possuo, estão ocupados com firewall, spybots e instrumentos de retaliação; guloseimas estas, que tenho de reserva contra putos a quem os pais ofereceram um PC na esperança que fosse usado para trabalhos escolares e pesquisa na Net.

Sem eles o meu PC seria uma espécie de biblioteca pública para consulta permanente, em que não seria necessário sequer fazer inscrição ou pedir para entrar. Tudo isto a propósito de um abelhudo que há pouco enfiou o nariz pela minha máquina adentro.

Sábado em que eu trabalhe não é dia bom para me indispor. Logo à noite, um pobre pai (ou mãe) irá descobrir que os relatórios de vendas do primeiro trimestre deste ano, foram substituídos por “Significado dos Nomes.Doc” e “Calendário Perpétuo.XLS”.

Música de Fundo
“C’est La Vie”Robbie Nevil

O Submarino
- Veículos… -

O submarino é uma cela de alta segurança, rodeada pelo melhor dispositivo de contenção que existe; a natureza.

Nos auscultadores, a música é substituída pelo efeito doppler. Até Kraftwerk seria melhor, ou o sonar passivo com cantos de baleias.

O submarino não tem vigias. Nada se pode ver excepto anteparas (paredes) e outras caras iguais; é o melhor exercício de isolamento que existe.

Blogar é como tripular um submarino. De nada serve olhar pelo periscópio, apenas se vê o alvo imediato e ou se torpedeia ou não. É agir ou afundar. O isolamento não favorece a formação de ligações com outro tipo de embarcações, apenas com outros submarinos isolados algures no meio da cortina verde das águas profundas.

É preciso emergir ás vezes.

Não se pode subsistir muito tempo de ar engarrafado; ou seja do que for acondicionado desse modo…

Música de fundo
“Ride”The Vines

Esquizofrenia
- O Prémio tem que ser justificado… -

Há alturas em que o tempo pára e conseguimos olhá-lo de frente. Tem uma cara estranha, um pouco parecida com a nossa mas cansada da corrida; pois cada um tem o tempo que se assemelha a si próprio.

Ás vezes é bom parar sem esperar nada. Apenas para olhar um pouco em volta, e constatar onde estamos ou se ainda somos nós próprios.

Abrimos a janela apenas para ver que continua a não passar ninguém, e talvez seja melhor ir ler um livro ou ver um filme. O que a partir de certa altura, se torna um pobre substituto da realidade; um ersatz da vida com um sabor mais fraco.

Alguns de nós dividem-se por várias realidades, das quais nunca se deve sair simultaneamente sob pena de encontrar os nossos outros eus, e criar uma espécie de paradoxo que faça ruir toda a existência.

É difícil permanecer estático. Existe sempre o risco de sermos a qualquer altura novamente sugados para a nossa mente, essa gigantesca pista de dança onde realmente tudo se passa.

– All this Blog is a mind job…

Música de Fundo
“Berlin” Lou Reed

sexta-feira, 2 de abril de 2004

Parabéns Catarina!
- Um post exclusivo -

Talvez ao abrigo do estatuto que me garante o Prémio da Esquizofrenia concedido pelo Miguel, apresento-te as boas vindas ao Clube do “4” Decimal.

Para os que não sabem (e para os que se colam ao seu blog como abelhas), é uma mulher de olhos claros e límpidos, com um coração sulcado por cicatrizes de inúmeras batalhas, mas com espaço para muitas mais (acho que esta vou pagar bem cara).

Temos percursos similares. Mas a amizade que construímos (é um dos meus poucos amigos fêmea), impede-me de entrar em pormenores que iriam trair toda a cumplicidade que se construiu entre nós durante este tempo.

Este post é para ti apenas, por teres nascido e continuares aí (só a música é que não…).

Música de Fundo
“Enjoy the Silence”Depeche Mode

quinta-feira, 1 de abril de 2004

And the winner is…

É hoje pelas 21h que se saberá quem ganhou os prémios mais cobiçados da Blogosfera. Infelizmente a essa hora ainda estarei a trabalhar, mas tal não me impedirá de acompanhar o evento como merece.

Mesmo que não seja agraciado com a Opção 2 tal como escolhi …

[7 jantares para 2 pessoas no Café do Rui + 1 bilhete ida e volta na Transtejo (destino à escolha) + 1 leitor de DVD Discollaser + Conjunto Enjoy Portuguese Home Cinema (Sem colunas de som) + 1 macaco de brincar que bate os pratos (duas pilhas AA não incluídas) + 1 fim de semana para 2 pessoas na residencial Firmino (Av. Guerra Junqueiro) + 1 corneto de chocolate + 2 cuecas autografadas pelo autor da Origem do Amor (lavadas)]

… louvarei sempre o Miguel Nogueira pela iniciativa, pois desde o defunto Pipi que ninguém reunia tanto consenso; quanto mais não seja pela ganância devida aos maravilhosos prémios.

Venho pois desejar sorte aos outros nomeados. E meus senhores… que ganhe o melhor (ou o menos sovina a subornar o júri…).

Música de Fundo
“Fantastic Day”Haircut 100

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