segunda-feira, 31 de maio de 2004

Mutação

Chamou o táxi com um gesto nervoso e desordenado. Quando este parou, entrou apressadamente batendo inadvertidamente com a pasta na chapa do veículo, o que provocou uma praga abafada por parte do condutor que o mirava desconfiado.

Sentou-se exausto, balbuciando precipitadamente o endereço enquanto tentava disfarçar o nervosismo. Olhou a pasta que descansava ao lado no banco com um aspecto perfeitamente inocente; estava cheia de problemas transcritos em traços e caracteres estranhos.

Lentamente o carro movia-se na fila de tráfego, como uma obreira de regresso a um formigueiro qualquer. A atmosfera estava cada vez mais sufocante, e nem o facto de abrir a janela lhe trouxera qualquer alívio; dir-se-ia que o ar estava repleto de partículas, que impediam a absorção do oxigénio, provocando-lhe um latejar doloroso nas têmporas.

As árvores passavam pela janela numa lentidão exasperante, enquanto o táxi vencia asmaticamente a distância que os separava do destino. As notícias da tarde brotavam do rádio, monocórdicas, sonolentas e entediantes; anunciando um mundo de desgraças e aborrecimento.

Após vinte incómodos minutos de viagem, pararam em frente ao edifício. Saltou rapidamente para fora deixando o troco na mão do taxista, e abrindo a porta do prédio lançou-se em correria desenfreada pelas escadas acima, sentindo latejar cada vez mais as veias das têmporas.

Chegou ao terceiro piso, e arfando introduziu a chave na fechadura.

Lançou o blusão para o sofá, despiu o resto apressadamente e enfiou-se na banheira que entretanto enchera. Deixou-se deslizar para o fundo com uma sensação de prazer, e depois de completamente submerso abriu os olhos.

Finalmente podia respirar…

Música de Fundo
“You’re Not From Brighton"Fat Boy Slim

S.A.F. 2004

Por razões de logística empresarial, está-me vedado assim como a meu amo (bem feito!), o prazer de usufruír um mês seguido de férias como acontece com os outros mortais.

Isso acaba por fazer com que tenha sempre quinze dias por ano, em que deambulo sozinho pela praia (ou ás vezes na companhia do Apóstolo), a arrastar os pés pela areia como se andasse ao berbigão.

O certo é que vou de férias dia 9 e já me está a dar a travadinha, pois gosto de deixar a secretária limpa. Isto apesar de no regresso a encontrar invariavelmente, com o aspecto do arquivo morto da DGCI.

O que me leva neste momento a ser vítima do conhecido Sindroma de Aproximação de Férias (S.A.F.).

Por essa razão, é bem possível que este blog se torne durante uns dias, numa folha sem interesse algum; ou mesmo um repositório de pensamentos desconexos e delirantes (isto mais lá para o fim da crise).

Peço por isso a vossa compreensão para esta minha crise sazonal. Um grande bem-haja…

Música de Fundo
“Let Me Entertain You”Robbie Williams

domingo, 30 de maio de 2004

Absolutely Live

Hoje pensei ir ao “Rock in Rio” pintar o meu cabelo de vermelho, mas o grisalho fica-me bem; e acabei por ficar por cá.

Por isso fui pedalar, mas desta vez decidi parar num local diferente; onde sei que estão guardados pedaços da minha juventude.

Alguns personagens meus contemporâneos, bebiam moscatel enquanto dissertavam sobre a loucura da juventude. Gostei de ouvir as suas frases sensatas e razoáveis, cheias de criticas e raiva pelo que não têm. Os seus pais haveriam de se sentir orgulhosos também; pena que estejam atrasados duas décadas.

A maior parte não me reconhecem. Sou um tipo diferente daquele que conheceram; e dá-me prazer olhá-los nos olhos com aquele sentimento de desconhecimento, que se usa para com estranhos num aeroporto ou numa carruagem de Metro.

Consigo lembrar-me de como eram todos eles há mais de vinte anos. A parte desagradável é que regrediram ao nível dos seus progenitores, uma espécie de mangustos que na altura desprezávamos. Apenas em busca da subsistência, sem uma chama que os inflamasse, sem uma ponta de espírito.

No Café do Horácio, jazem os restos da minha geração. Revolucionários e poetas mortos, enfrascando-se antes do almoço de domingo; maldizendo a juventude que não tiveram coragem de perpetuar, esbracejando como afogados num poço.

Penso que apenas nos sentimos vivos, quando contemplamos de frente a morte.

E eles são a morte de tudo o que fui e quis ser; uma espécie de exemplo para os que queiram olhar.

Para que todos se assegurem, de que um dia se não forem autênticos morrerão. E ficarão anos à espera de ser sepultados no miserável cemitério da mediocridade.

Música de Fundo
"Alabama Song"The Doors

Exercício de Estilo sobre a Ausência

Irrompes na insónia das minhas madrugadas como um navio de velas negras, mas navegamos por rotas diferentes; que se cruzam por raros e breves momentos.

Compartilhas alvoradas através dos meus olhos, mas não vejo a tua sombra e sinto apenas o teu cheiro; só o toque vem mais tarde, um dia por acaso…

És um instantâneo tirado num dia soalheiro, que nos dias de chuva observo em busca de novos pormenores; que verifico em ti, nos raros momentos em que posso comparar.

O termo espaço, inventou-se para definir o que nos separa, mas estão por inventar novas palavras. E eu vou inventar, ou criar, ou apenas falsificá-las…o que for preciso

Certo mesmo, é que a vida não é nada justa!

Então, porque terei eu que o ser?

Música de Fundo
“Space Cowboy”Jamiroquai

sábado, 29 de maio de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Troll(laró) -

(Dedicado à minha querida Bituxa, sem a qual nunca me lembraria de escrever este post)

Irmãos (e irmãs, claro…), venho hoje falar-vos de um dos diabinhos menores da nossa religião, “O Troll”.

Um Troll é alguém que se delicia ao semear a discórdia na Internet. Normalmente ele (são maioritariamente masculinos, embora eu conheça uma “Trolla” muito simpática) tenta começar discussões idiotas em Newsgroups e Sites, apenas para se divertir a chatear os outros.

Existem três tipos de Trolls (isto segundo o Graça da tabacaria que agora surfa na Net), o Troll “Teatral”, o “Corno” e o “Psicopata”.

O primeiro tipo é divertido e não chateia muito, chegando a criar personagens fascinantes como num bom livro. Consegue-se dialogar com ele, como com uma personalidade alternativa do seu autor, que muitas vezes acaba por transparecer no que escreve; e não raras vezes é alguém que escreve bem (eu sei que irás ler isto, Cat).

O “Corno” já é um pouco diferente. Normalmente uma personalidade frustrada, embora de inteligência regular, utiliza a sua bagagem cultural para lançar calúnias, semear a dúvida ou pura e simplesmente tentar estragar o ambiente dos locais onde assenta arraiais.

Envolve-se muitas vezes em discussões acesas, das quais se consegue deduzir um pouco sobre como será o original; embora na maior parte das vezes não valha o trabalho que dá localizá-lo pelo IP.

Já o Troll “Psicopata” é mais perigoso. Possuidor de uma inteligência acima da média, o fulaninho ataca normalmente locais em que as discussões sejam mais específicas; como fóruns científicos, literários e quejandos. Para ele os outros não são pessoas, mas abstracções compostas por bits, com as quais interage como se jogasse xadrez com o computador.

Na maior parte dos casos são imunes a críticas, ou seja o que for que lhes digam. Nunca se deve tentar convencer um Troll, visto que já é alguém bastante convencido por natureza.

Após esta longa introdução, que vos posso dizer irmãos sobre o nosso Troll? Já na velha “Idade das Trevas”, era reconhecida a presença de diabinhos nas abadias e mosteiros; pequenos seres maliciosos que passavam rasteiras aos frades, e noutros casos piores, podiam até estragar toda uma colheita de bom vinho da missa.

Mas na nossa Igreja as missas escorregam com Bourbon, e não andamos a correr de um lado para o outro com os hábitos a flutuar ao vento.

De qualquer modo, toda a igreja tem lugar para o seu mafarrico privativo; por isso: Sê bem-vinda Bituxa! Podes ficar lá em cima naquele recanto ao pé do sino, mas tem cuidado… Se ele tocar, não te esqueças de largar o badalo….

PS: Se alguém quiser tentar adivinhar a qual das três subespécies pertence a(o) nossa(o) Bituxa, não se acanhem; os comentários são mesmo para isso. E antes vocês do que o raio de um Troll.

Música de Fundo
“Cool For Cats”Squeeze

Manhã Cinzenta na Cidade de Blog

O cinzento não é apenas mais uma cor; é como ficam todas as outras quando se gastam. E a cidade acordou hoje cansada, transmitindo esse sentimento aos passeantes; como um coração que batesse apenas um pouco mais lento…

A Primavera tem destes dias, em que se cansa de brilhar e faz má cara. Mas a vida na cidade continua apesar de todas as birras da estação; e eu acabei por cair no meio de uma comemoração universitária.

Também não era lá muito animador; estavam a beber café com leite. Acho que se tratava de betinhos seleccionados, tão penteadinhos, aprumados e enfileirados, que pareciam ter sido pagos para o papel de figurantes.

Interroguei-me, sobre para onde tinha ido toda a espontaneidade e loucura da juventude; talvez nós tivéssemos ficado com toda, e pouca tivesse sobrado para a geração seguinte. Talvez não seja bom ser louco, mesmo que se tenha desculpa para isso; ou então são apenas reflexões sobre um dia cinzento…

Nestas manhãs cinzentas, sinto-me sufocado na cidade que amo; como que apertado num abraço demasiado estreito.

De qualquer modo, tal como os abraços, as manhãs também não duram muito; e o sol já ameaça aparecer…

Música de Fundo
“Wake Up”Lostprophets

Fábula Mitológica
- Um post da antiguidade -

Quiron cruzou os braços e encarou o jovem Hércules – Hoje vou aconselhar-te. Mas como toda a gente te dará no futuro conselhos gratuitos, este tem uma parte pela qual terás que me julgar (e até pode ser totalmente falso); tal como mais tarde terás que avaliar durante a tua vida, todos os conselheiros que virás a ter.

- Mas para que precisarei eu de conselheiros – perguntou o aluno – se tenho que os avaliar como aos outros?…

- O conselheiro – interrompeu Quiron – é apenas alguém como qualquer um, mas que concentra os pensamentos em frases, tornando-nos mais fácil a interpretação daquilo que já sabemos à partida. Como normalmente projecta algo de si, vais ter que avaliá-lo para saber até que ponto pensa como tu; e só assim o conselho te servirá.

Hércules esperou pacientemente enquanto o mestre alisava pensativamente o pêlo do flanco. Uma névoa esbranquiçada passava pelas moitas em volta, escondendo da vista o regato do qual se ouvia apenas um murmúrio.

Finalmente o centauro decidiu-se – O conselho que te vou dar é o seguinte: “Para amares uma mulher sem que sofras, terás que a fazer apaixonar primeiro por ti, e só depois disso poderás abrir verdadeiramente o teu coração”.

O jovem reflectiu. Na verdade tinha uma certa lógica, mas parecia pouco natural esse modo de agir. Lembrando-se então do início da conversa, respondeu – Neste caso, penso que a melhor resposta que te poderia dar seria: “Como pode um centauro aconselhar com propriedade sobre o amor dos humanos, se apenas conhece o seu?”

Os cascos de Quiron escavaram a terra em redor, enquanto este riu com gosto. Encarou o aluno e sorrindo disse-lhe – A tua resposta é boa mas pouco profunda. O erro não é eu ser um centauro, e por tal não saber das paixões dos humanos; porque se trata de um sentimento comum aos seres pensantes.

A resposta correcta é – Se ninguém pode dominar a sua própria paixão. Como poderá então aconselhar alguém, sobre algo do qual não tem controle em si próprio.

Quiron!.. – disse Hércules sorrindo maliciosamente – Parece-me, que na verdade qualquer bom conselheiro precisa ás vezes de ser aconselhado; e a tua frase é apenas um pedido de opinião disfarçado. Há algo que me queiras confidenciar?

Não! – respondeu o centauro – Deste agora a resposta mais correcta. É melhor passarmos à geometria…

Música de Fundo
“Behind Blue Eyes”Limpbizkit

sexta-feira, 28 de maio de 2004

Despedidas
- Cadernos da Construção -

O Xico Zé demitiu-se. Não é que isso seja propriamente uma perda irreparável, mas sempre se trata de alguém que conhecemos e que abandona o nosso convívio.

O engraçado é que neste ramo, mal o tipo sai a porta já é recordado como um acontecimento antigo, com direito a anedotas e episódios antológicos. Eu pessoalmente sou contra esse tipo de coisa, e tento igualmente recordar as qualidades positivas do indivíduo.

Apesar de como motorista ser uma nulidade, poderei dizer que todas as viagens efectuadas com ele eram uma surpresa renovada; conseguindo até perder-se mais vezes que eu. O que para quem me conhece, pode parecer altamente exagerado. Mas não é.

Ainda me lembro do dia em que o conheci. A primeira coisa que me contaram, é que este simpático alentejano teria perdido o seu último emprego mercê da sua lendária lentidão.

Normalmente não acredito nestas tretas. Além de raramente ver televisão, uma das poucas coisas que sei não gostar mesmo, é dos Malucos do Riso. Mas fiquei cativado, pela simplicidade do episódio que o fizera abandonar o seu Alentejo natal.

Contaram-me que Xico Zé pastava caracóis para um latifundiário que se dedicava ao comércio do ranhoso animal, mas que a sua inépcia em evitar que fugissem, fizera com que perdesse rebanhos completos; que alegadamente se teriam posto em fuga, sem que ele os conseguisse alcançar e deter.

É claro que isto estará um pouco exagerado. Vocês sabem como são os operários a falar uns dos outros. São piores que o mulherio de uma fábrica de confecções. E olhem que eu sei como é, pois quando era jovem fiz três meses no escritório de uma; ainda estremeço quando me recordo… mas adiante.

Voltando ao ausente, era um personagem minucioso e atento. Para ele um acessório não era uma peça, mas sim uma abstracção decomposta em conceitos subjectivos. Cada vez que eu lhe pedia materiais, tinha que passar por angustiantes momentos de dúvidas existenciais, conceitos epistemológicos duvidosos bem como diferendos semânticos; nomeadamente sobre o termo “três oitavos de polegada, rosca gaz”.

Além de ser uma personalidade complexa, era um brilhante retórico que conseguia dissertar horas a fio sobre coisas tão simples, como a necessidade de meter detergente no reservatório de água para o limpa pára-brisas. Eu diria que a vida para ele era o mesmo que a mãe para Freud, ou seja, uma fonte de neuroses e complicações.

Agora que ele se foi sentimos ás vezes alguma saudade. Era como um Mimo que tivéssemos a fazer de estátua no quintal, e que um dia decidisse partir sem avisar. Isto se excluirmos o facto de ele falar pelos cotovelos.

Em última análise é sempre triste, pois quem parte leva sempre um pouco de nós… e eu, desde que ele partiu não consigo encontrar o meu CD dos Aerosmith…

Música de Fundo
“Pump Up The Volume”M.A.R.R.S.

Recortes

Nas noites que escrevo,
falta sempre um brilho,
uma cor, um som…um cheiro.

Pego em sorrisos de papel
e baralho-os como cartas,
ou recortes em que faltam partes,
para se ver um todo,
que nunca aparece
no que escrevo.

Pouco estou naquilo que lêem.
Mas sou ás vezes
uma interpretação de alguns,
que não o dizem
mas sabem,
E eu sei…

Escrevo aos pedaços
como entre soluços de um choro que não tenho,
cortando partes,
talhando forma,
narrando nadas…

Num padrão difuso e discreto,
de uma poesia-bricolage
com restos de mim,
e de outras coisas
que não se podem ver.

Escrevo para mim
ou para alguém como eu.
Sou egoísta
eu sei.

Música de Fundo
“Disenchanted Lullaby”Foo Fighters

quinta-feira, 27 de maio de 2004

O Incidente Kizomba

Estava eu a meio do primeiro café da manhã, em copo de plástico e confortavelmente tomado à secretária, quando vi passar do outro lado da janela blindada o Baron Samedi (Bawon Sanmdi).

Para quem não sabe, é o Senhor dos Mortos e Guardião dos Cemitérios na religião underground do Haiti, o Voudu. É claro que desconfiei. No Bairro Amarelo é mais Nossa Senhora de Benguela e Mónica Sintra, pouca gente haveria que conhecesse “Le Baron”…

Mas lá estava ele com quase dois metros de altura, a face cadavérica e enfarinhada de branco; envergando uma sobrecasaca de corte antigo e uma cartola; enquanto dançava descontraidamente no meio de uma roda de pirralhos de várias etnias. Estive quase para os fotografar, mas lembrei-me que o mais provável seria que me roubassem a máquina de imediato.

Foi quando atentei nos ténis rosa. Uns ténis Nike cor-de-rosa inconfundíveis, pela simples razão de o único tipo que pode usar aquela cor no bairro sem que dele façam troça ser o Beto. Um pretalhão enorme e de maus fígados, que normalmente quando não está a encestar está a arranjar sarilhos com alguém.

Aguardei durante um razoável intervalo de segurança, após o que fisguei um miúdo retardatário e lhe extorqui uma versão dos acontecimentos, em troca de um ChippyCao e um pacote de batatas fritas.

A Churrasqueira Kizomba é um lugar infecto, onde o único local não contaminado por germes, bactérias e gordura rançosa, é o topo da grelha; e isto apenas porque o fogo tudo elimina. O dono não é melhor… Um velho negro seboso, com jeito para o tempero (se calhar é do sebo) e um coração tamanho King Size; pois dá fiado (um hábito arcaico e em desuso) àquela malta toda que mora ali à volta.

Uma má politica de preços aliada a essa ruinosa condição, fez com que ficasse a dever algumas facturas à “Avicoiso” (desculpem mas foi o único nome que percebi através de uma muralha de perdigotos de batata frita), que além de lhe cortar o crédito interrompeu os fornecimentos.

O velho vendo-se sem crédito tentou mudar de fornecedor, mas o aviário credor vingativamente decidiu contratar uma empresa especializada em cobranças difíceis. Conhecendo o local como eu, deveriam ter optado por uma especializada em cobranças impossíveis.

O caso é que a churrasqueira passou a ser permanentemente guardada, por um tipo de fraque e chapéu alto, a ponto de quem ali passava poder pensar que estaria à porta do “Hollyday Inn” ou do “Hilton”. Todas as camionetas de aviários que ali apareciam, acabavam por invariavelmente debandar sem descarregar nada, mal viam o cobrador do fraque.

O velho foi obrigado a pagar. Empenhou a loja ao monhé da loja dos trezentos, e mandou recado à empresa de cobranças para que viessem receber.

Hoje de manhã o Beto não estava a encestar; o que quer dizer que estava a arranjar sarilhos, ou melhor, a vendê-los. Pois estava a traficar “pó”.

Não era bem “pó”. Na verdade a maior parte da composição do produto, se aplicado nas quantidades certas, daria para fazer um bolo. Mas também, quem é que vai comprar “pó” logo de manhã?

Encontrava-se na companhia de outros dreads; o Zé Colmeia, o Rasta e o Cu Azul (alcunha obtida após uma chumbada no traseiro, durante um assalto gorado), com quem compartilhava amavelmente uma “bazuca” de litro.

Á hora aprazada chegou o cobrador. Mas talvez por estar farto de caminhar para ali naquele preparo, ou por ter tido que se levantar mais cedo, o tipo estava notoriamente mal-humorado.

Mal deu tempo ao velho para abrir a porta, começando logo por o insultar em altos berros (cá no bairro, só se chama preto a um preto quando se procura sarilhos), o que sem ele reparar começou a atrair a atenção de todas as hienas da vizinhança.

Acreditem-me, o Bairro Amarelo não é sítio onde se deva chamar a atenção sem estar munido de uma boa arma automática. Felizmente era manhã ainda, e quase todos estavam numa onda prazenteira e cordata. Excepto o “Cu Azul” que estava de ressaca… Foi quanto bastou.

Agarrou no tipo da sobrecasaca pelos fundilhos, e enviou-o para o meio da roda de amigos como se fosse um saco de viagem.

E foi exactamente assim que foi tratado. Após ser despojado das roupas, e ter sido alegremente pontapeado durante uns minutos; foi finalmente encaminhado em direcção à esquadra, onde caridosamente lhe dariam algo com que cobrir aqueles vergonhosos “boxers” com gatinhos.

O Beto em memória dos frangos comidos a crédito, entregou ao velho o recibo que encontrou num bolso do fraque, e aproveitou para se passear com a farpela pelo bairro com a cara enfarinhada por um pouco de “pó”.

E ainda dizem que já não há heróis…

Música de Fundo
“My Hero”Foo Fighters

Receita
-De quê, não sei…-

Deixar fluir o tempo, como uma torrente de lava que tudo queima; deixando cinzas nas madrugadas contempladas em insónia.

Ensurdecer de música, para silenciar pensamentos que gritam; morrer e nascer todos os dias…

Arrancar pedaços, deixando sempre o mais importante; coser a própria ferida cortando a linha com os dentes.

Apenas escutar, por não querer dizer. Não ter que explicar, nem querer…

Sorrir de dor, apenas com os olhos.

Dormir por estar cansado.

Ás vezes, cantar…

Música de Fundo
“Quietly”Guano Apes

quarta-feira, 26 de maio de 2004

Arqueologias (1)

Quero

Quero ser um comediante ou palhaço para que rias

Quero ser o peito rijo que esmurras quando estás furiosa, ou o insonorizado quarto em que gritas a tua raiva

Quero ser o poço para onde atiras as tuas preocupações e os teus medos

Quero ser a almofada onde adormecerás esta noite

Quero que sintas que eu sinto tudo isso

Quero

“Home”Simply Red

Contacto!

Os pés nus encaminhavam-se pela vereda atapetada de musgo. Este como pertencia a uma subespécie mais solta, ondulava ligeiramente como se bolhas de ar se soltassem do seu interior.

O musgo era seco e fazia cócegas; mas a relva não era melhor para esse efeito, pois a humidade combinada com as folhas em forma de lâmina, davam a ilusão de algo muito perigoso sobre o que caminhar.

No fim do carreiro havia ainda uma cerca para franquear, mas não foi problema devido ao corpo diminuto; tendo bastado para tal rastejar um pouco sobre a borda inferior do portão, apenas com o pequeno inconveniente do pó avermelhado que se colava a tudo.

Quando finalmente de pé, o horizonte visual ficou totalmente preenchido por uma enorme área de pelagem curta e negra, como um tapete pendurado a secar num dia de Sol.

Uma das torres de um negro aveludado, estremeceu levemente ao toque da pequena mão; mas não transmitia sensação alguma de ameaça, apenas que tomara conhecimento do contacto, sem que tal fosse tido como sinal de perturbação.

A mão percorreu na vertical o sentido do pêlo, transmitindo uma sensação suave e ao mesmo tempo forte, como se os pêlos apesar de curtos tivessem uma resistência desmedida, e se encontrassem ali para proteger de ataques a área que por baixo deles estremecia.

Deixei ficar a minha mão ali encostada durante uns momentos, até que ouvi o meu pai gritar – Por amor de Deus! Tirem-me o miúdo do cercado do touro, antes que aconteça alguma desgraça…

Música de Fundo
“Good Feeling”Loto

terça-feira, 25 de maio de 2004

A Pastelaria

Com toda a premeditação e sangue frio, decidi hoje fintar a Dona Odete e ir experimentar uma nova pastelaria que abriu perto do escritório. Bem… tanto a palavra “fintar” como o termo “pastelaria” poderão estar um pouco deslocados; nem eu jogo à bola com a Dona Odete, nem aquilo seria bem uma pastelaria.

Talvez a classificação tivesse sido dada por se tratar de um recinto comercial em que por coincidência se encontravam pastéis… e mesmo esses de bacalhau pelo que indicava um letreiro, onde igualmente se anunciavam bifanas e promoção no “penálti” de branco.

Quando eu entrei o cenário era mais parecido com o do filme “A Grande Evasão”. Os caracóis do viveiro de rede, liderados por um corajoso espécime de riscas esverdeadas, ensaiavam uma arrojada fuga em direcção à arca frigorífica.

A vigilância a essa hora era fraca, pois estava a dar na TV aquele talk-show idiota, feito por idiotas e destinado a atrasados mentais. Tentei nem olhar, já basta o que aconteceu à mulher de Lot…

Saltando por cima da multidão de gastrópodes que buscavam liberdade, quase me espalhei contra a vitrina dos bolos. A empregada sorridente esperou que eu aterrasse contra o balcão, após o que me inquiriu sobre os meus desejos.

Fiquei um pouco embaraçado pois não estava a pensar em torradas, mas em como alguém se consegue meter dentro de umas calças de Lycra, sem que a pele da cintura acuse a mínima depressão.

Enquanto me debatia com este problema de física aplicada, ela preparava-me a torrada que eu tinha acabado por pedir em voz trémula (lembrem-se que me ia espetando contra o balcão). Nessa altura já os caracóis deviam ter atingido o equivalente ás linhas aliadas, pois apenas se viam um ou dois retardatários, a aproveitar o rasto viscoso dos outros para deslizar mais depressa.

Além de mim e da empregada a pastelaria encontrava-se vazia. Isto se não contarmos com algumas centenas de “seguidores do orégão”, escondidos em parte incerta; foi aí que ela decidiu fazer um inquérito à minha excentricidade alimentar (devia sentir-se intrigada pela torrada sem manteiga).

Começou por sorrir, revelando uma pequena pedra brilhante encastoada num dos incisivos, o que lhe dava um ar deliciosamente antropófago.

Usando o controlo remoto emudeceu o José Luís Goucha, que já estava a passar das marcas no domínio da cabotinice; e virando-se para mim perguntou – Você gosta mesmo de comer isso assim seco? Nem um bolinho de vez em quando? Sei lá. Uma bola de Berlim…

- Sabe? Isso é daquelas coisas com as quais sou muito exigente… - Respondi-lhe; após o que perguntei discretamente, com uma expressão insuspeita – E você? Qual é o seu bolo favorito?...

Música de Fundo
“Minus Celsius”Backyard Babies

Desejos para um fim do Mundo

Em vez de lava e chamas, apenas Sol e um último suspiro de máquinas.

Pois quando o mundo acabar, que o seja com o som de um beijo húmido. Um trémulo sussurro que mal ecoe…

E que o Juízo Final, seja passado numa esplanada à beira-mar, com um pouco de vento; não mais que faça mover as ondas, que brilhem ao Sol apenas por instantes…

O Mundo nunca acabaria, tendo um cenário assim.

Só é pena que eu prefira lava, chamas; e músicas com ritmo em que nunca faltam as palavras. As palavras que tudo confundem.

As palavras que farão com que o mundo acabe vezes sem fim…

Música de Fundo
“Smooth”Santana / Rob Thomas

segunda-feira, 24 de maio de 2004

Velhas Leituras

A qualquer pessoa, desde que saiba entreter os outros, é dado o direito de falar de si.” - Baudelaire

Esta amiga minha, sem razão aparente lembrou-se hoje de Edgar Morin; e postou uma citação de “O Paradigma Perdido”.

O engraçado de tudo isto é que há uns largos anos “O Paradigma Perdido” de Morin fazia parte da minha leitura de cabeceira em conjunto com as obras de Desmond Morris, David Cooper e outros .

Nessa altura, a minha admiração pelas ideias claras de qualquer um deles tinha a propósito da raça humana, era quase ilimitada; hoje sei que se tratava na verdade de homens brilhantes, mas o maior avanço que tinham sobre mim era a idade e a experiência.

Quando os leio agora (cada vez menos), constato a maioria das vezes que falam sobre coisas banais, ao alcance de qualquer tipo mais ou menos evoluído.

Penso que Morin está apenas a fazer poesia, quando produz esta afirmação que a Mar citou –

“...surge a face do homem, escondida pelo tranquilizador e emoliente conceito de Sapiens. É um ser duma afectividade intensa e instável, que sorri, ri, chora, um ser
ansioso e angustiado, um ser gozador, ébrio, extático, violento, furioso, amante, um ser invadido pelo imaginário, um ser que conhece a morte, mas que não pode acreditar nela, um ser que segrega o mito e a magia, um ser possuído pelos espíritos e pelos deuses, um ser que se alimenta de ilusões e de quimeras, um ser subjectivo cujas relações com o mundo objectivo são sempre incertas, um ser sujeito ao erro e à vagabundagem, um ser úbrico que produz desordem. E, como nós chamamos loucura à conjunção da ilusão,
do excesso, da instabilidade, da incerteza entre real e imaginário, da confusão entre subjectivo e objectivo, do erro, da desordem, somos obrigados a ver o Homo sapiens como Homo demens.”


Porque aquilo que ele tão bem descreve, são apenas algumas das características que nos tornam humanos. E sem isso seríamos apenas símios bem educados, que nunca iriam a lado nenhum porque nos faltaria a chama que alimenta a fornalha das nossas vidas. Que nos faz olhar para o alto, com uma constante mas inquieta insatisfação.

Mas se por algum motivo, se provar um dia que na realidade isso é ser louco; então, tragam a camisa-de-forças que eu estou pronto…

Música de Fundo
Song For A Dreamer” – Procol Harum

domingo, 23 de maio de 2004

O teste

Normalmente não acredito em testes, pois acabam por dizer coisas idiotas que nada têm a ver connosco. Mas hoje como estou preguiçoso fiz este teste, e não é que está bastante aproximado?

Resultado:

Como vê a vida...

O campo de milho indica que você é brilhante, sociável, amável, brincalhão. Faz amigos com facilidade e raramente se sente sozinho. Aonde quer que vá, é sempre o centro das atenções e, por isso, sente-se feliz e diverte-se com uma certa facilidade.

A pessoa dos seus Sonhos

A escolha do espelho mostra que não acredita que "pólos opostos se atraem", isto em relação ao amor, e que, só vai sossegar quando encontrar a sua alma gémea, ou seja, uma pessoa que tenha os mesmos ideais que você.

Nada mais justo. Só que é bom olhar um pouco mais à volta, porque de repente a pessoa perfeita para si pode ser alguém para quem normalmente não olharia duas vezes.

Será que quer um compromisso sério?...

Você não vê a hora de encontrar a pessoa certa, ou estando com alguém não tem problemas em se envolver.

Os limites da Paixão...

O lago reflecte o seu desejo de querer ver-se livre de relacionamentos superficiais. Porém, só quando encontrar alguém muito especial, é que vai mergulhar de cabeça.

Acerca do Futuro...

Ver a chave de um cadeado significa que acredita na sua intuição para ajudá-lo a encontrar um caminho, fora do comum, que lhe abrirá as portas do sucesso.

Quem é que não tem ambição?

A cabana é a visão de uma pessoa realista sobre o seu próprio futuro e que tem os pés firmemente assentes no chão. E provavelmente vencerá em qualquer actividade usando o esforço próprio.

Quando é que o sucesso chega?

Entrar na casa é ter confiança em tudo o que faz, sabendo que existe sempre a possibilidade de errar ou acertar. Sendo assim, nada consegue atrapalhar o seu caminho.

Medo de...

O gnomo é o retrato de uma pessoa preocupada com que os outros vão pensar dela, como os outros vão reagir se disser ou fizer coisas que elas não gostam ou não aprovam. Afinal para quê tanto medo de não ser aceite?

O EU mais profundo...

Se escolheu a lagoa, ela apenas reforça a sua necessidade de ter o seu próprio espaço, até para se isolar quando sente que as coisas não andam exactamente como tinha planeado. Chegará um dia em que você descobrirá que compartilhar os sentimentos com alguém da sua confiança poderá ajudá-lo a ficar melhor.

Música de Fundo
“Just The Two Of Us”Will Smith

O Elogio da Preguiça
- Ou qualquer outra coisa que não dê muito trabalho… -

É pá, vocês desculpem mas isto hoje está decididamente a meio gás. A ponto de o último post que publiquei, já ser de há dois dias, data desde a qual me vinha a debater pela sua não publicação; isto apenas por razões de qualidade.

Mas a preguiça, é na realidade inimiga da qualidade (e de outras coisas mais que não interessam agora para aqui).

De qualquer modo o post saiu, e só me resta tentar desculpar-me. Serei perfeccionista?... Ou serão apenas alguns resquícios de bom gosto, que se recusam teimosamente a abandonar-me?

Talvez seja por isso que decidi censurar o “weenie” do Young Sailor, não por modéstia, mas apenas por uma questão de sentido das conveniências. E essa foto foi tirada num dia em que me sentia tão preguiçoso, que nem me dei ao trabalho de ajeitar os calções.

Coisa que faço agora amiúde, embora de um modo mais ou menos discreto.

Lembro-me que fui obrigado a posar cheio de sono junto ao mastro, e estava tão entediado que não me importei com a compostura. Era na altura um pequeno príncipe de férias em Sesimbra; uma das poucas terras que conheço, e da qual não tenho uma única má recordação (ainda hoje é para mim um local mágico, e o meu “weenie” lembra-se também ás vezes).

Tudo isto, a propósito de me sentir demasiado preguiçoso para escrever. É claro que poderia escrever imenso sobre Sesimbra, barcos, boas memórias e tal… mas para que interessaria isso? Seria escrita ociosa, e apenas uma ou duas pessoas compreenderiam o que estaria nas entrelinhas. Não que os outros sejam obtusos; mas apenas por uma questão de referências.

Por isso quero dizer (apenas para benefício de um ou dois de vós); sim, lembro-me de Sesimbra e não esquecerei tão cedo.

Por isso decidi escrever este post. Por um enorme ataque de preguiça, que me fez recordar coisas daquela foto; e também de muitos anos depois em que não se tiraram fotografias porque chovia.

É por isso que não tenho nada contra o ser preguiçoso, pode não me apetecer fazer nada, mas pelo menos não me impede de pensar…

E hoje estou decididamente preguiçoso!

Música de Fundo
“Gettin’ Jiggy With It”Will Smith

Guichet das Reclamações
- Onde cada um diz de sua justiça -
(Se eu deixar, claro…)

Aparentemente existem neste mundo muito mais hereges do que eu supunha. Pois além do “hate-mail” do costume, desde que publiquei um excerto do livro do “Génesis” para ilustrar a criação mundo, tenho recebido também montes de teorias estapafúrdias sobre a origem do nosso universo.

Textos mirabolantes, em que simpáticos esquizofrénicos tentam convencer-me (por exemplo) que o universo foi criado a partir da explosão de uma bilha de gás, algures num universo paralelo.

Ou melhor ainda… A tese da “dieta de Verão” aplicada à cosmologia. Em que um maduro me tenta fazer crer de que a nossa galáxia engorda no Inverno, e que chegado o tempo quente se põe a fazer dietas desenfreadamente, para se contrair e aproveitar a época balnear…. Realmente só visto.

Mas a que mais me agradou foi realmente a teoria do “Big Bang”, enviada pelo senhor José Maria Heisenberg (deve ser um pseudónimo) de Pinhal de Frades, e que passo aqui a transcrever na íntegra.

*Teoria Big Bang – Por José Maria Heisenberg (Vendedor)*

Apesar do seu aspecto novo este universo já tem muito uso, embora seja o sistema que há mais tempo se encontra em funcionamento.

Até há cerca de entre 8 e 20 biliões (como vêem, o fulano é um tipo muito exacto nas suas afirmações) o universo estava parqueado, quando talvez devido a um curto-circuito atingiu altas temperaturas e estoirou.

O facto de ter explodido em todas as direcções, inviabilizou o exame por parte dos peritos, que neste momento ainda estão a tentar aproximar-se apesar dos estilhaços; pois este ainda continua em expansão.

É um pouco por isso que ainda se desconhece o local do Big Bang, bem como o responsável pelo ocorrido.

Sem conseguir parar, o universo espalhou estrelas e planetas por tudo o que é sítio; tendo alguns ficado danificados e outros não.

No meio da confusão ficámos com vários tipos de estrelas. Entre elas as super-novas e as anãs vermelhas, sendo (como é de calcular) as primeiras muito mais interessantes e de melhor aspecto.

Apesar de ter já percorrido biliões de quilómetros, o maior problema do universo continua a ser o explodir com demasiada facilidade, pelo que não se recomenda de modo algum.

É como um carro usado. Não se sabe de onde veio, comporta-se de modo estranho e um dia vai-se abaixo sem avisar ninguém.

Música de Fundo
“Driving in My Car"Madness

sábado, 22 de maio de 2004

Le Dejeneur Sur L’Herbe
- Infortúnios de um Servo –

Era um sábado triste como todos aqueles em que trabalho. Um dia igual aos outros, apenas com um pouco mais de sol e risos (dos que folgam, claro).

Cerca das 12h chegou célere um mensageiro, que alegou ter por demanda conduzir-me a casa de meu amo para almoçar. Aceitei sem demora, pois como é sabido todo o contacto com meu amo é digno de um post; e eu estava necessitado de inspiração, bem como de variar em relação aos horríveis tugúrios que frequento para almoçar ao fim de semana.

Após um breve trecho de auto-estrada chegámos ao nosso destino, e pude então respirar em paz. Franqueei a entrada ladeada de gnomos, elfos e gazelas de loiça; guardados por um pequeno canhão em ferro fundido (restos talvez de algum mini-golfe).

Frente a mim, erguia-se orgulhosa uma horta de alfaces a perder de vista; e lá longe, quase no fim do meu horizonte visual, a piscina. Uma escavação forrada a mosaico “cinca” com representações de golfinhos, tritões, sereias e um Neptuno; que pela falta de espaço se diria terem encetado um “partouze” deveras desenfreado.

Meu amo prontificou-se a emprestar-me uns calções, de modo a que eu pudesse testar o teor de cloro da piscina e refrescar-me antes do repasto. Foi um erro! (meu, é claro)

Não ligando ao facto de poder ter escondido todas as pratas da casa, no espaço que sobrava entre mim e aquela espécie de tenda, mergulhei…

Quando emergi do meu mergulho, constatei que os calções ainda se encontravam atrasados cerca de dez metros em relação à minha pessoa; o que fez a delícia das damas, que conseguiram ao fim de um monte de anos, vislumbrar o traseiro deste vosso fiel narrador.

Saí da piscina aparentando descontracção, mas a bela cor rosada que cobria toda a minha pele não se devia ao sol. Afortunadamente tive a presença de espírito suficiente para meter as mãos nos bolsos, e evitar que aquele amontoado de material têxtil me escorregasse pelas pernas abaixo.

Almocei calmamente na área coberta do jardim, declinando delicadamente a oferta de um outro mergulho após o repasto (começo a pensar que meu amo nutre sinistros desígnios acerca da minha pessoa…), e tendo pedido em substituição um digestivo; o qual tive que ir escolher ao bar de mogno da sala.

Após regressar com um Glenfiddich de 18 anos (a idade ideal), sentei-me saboreando um dos meus Rafael González, enquanto reflectia nos mistérios da existência; e noutros que não são para aqui chamados.

Subitamente fui invadido por uma onda de prazer. As minhas pernas estavam a ser ternamente afagadas, enquanto uma língua insinuante percorria o intervalo entre os dedos dos meus pés. Rapidamente, conferi as damas presentes (não fosse alguma estar debaixo da mesa) após o que espreitei, mesmo a tempo para enxotar uma cachorra “labrador”, que se estava descaradamente a fazer a mim.

Dirigi-me aos lavabos e fui mudar de roupa. Ao fim e ao cabo, não se deve misturar o trabalho com o prazer…

Música de Fundo
“One Week”Barenaked Ladies

Projectos a Curto Prazo
- Para uma melhor Primavera… -

1 - Começar a seguir os bons conselhos que dou.

2 – Desistir de procurar seja o que for dentro de mim (se olhar bem para os outros estarei lá).

3 – Deixar de me preocupar com a saúde (a minha médica que faça o seu trabalho).

4 – Não pensar nos ausentes mais do que 15 minutos por dia (a não ser que telefonem).

5 – Sair mais.

6 – Retribuir todos os sorrisos.

7 – Nunca mais guardar o troco sem o conferir.

Música de Fundo
“The Duke of Prunes”Frank Zappa

sexta-feira, 21 de maio de 2004

A Especialista
- Por detrás da estatística... –

Habitualmente não dou bola a ninguém, não respondo a inquéritos e em casos de abordagem telefónica dou sempre informações falsas. Não é por razão nenhuma em especial, apenas ninguém tem nada a ver com o que sou, o que tenho, ou o que possa estar a coçar naquele preciso momento.

Detesto inquéritos. Começam logo por nos fazer um monte de perguntas para as quais já têm respostas; porque na maior parte das vezes possuem já grande parte dos nossos dados, como me aconteceu há uns anos quando a Junta de Freguesia (ou algum funcionário mais empreendedor) do local para onde me mudei, vendeu a base de dados ás Publicações Europa-América.

E posso afirmar isto com toda a exactidão, porque morei dois anos naquele local sem receber qualquer tipo de publicidade personalizada, até que cometi o erro de ir à Junta de Freguesia inscrever-me no âmbito do Recenseamento Eleitoral. A partir daí foi um “sempre a aviar” de cartas, postais, folhetos, etc.

Como devem calcular não cometo o mesmo erro duas vezes. Por alguma razão o meu endereço actual data de há oito anos, e ainda ninguém se lembrou de escrever o meu nome num envelope, para me dar a conhecer as delícias das Pousadas de Portugal ou o último grito em sofás de pele.

Mas o poder central quando quer saber algo não utiliza os métodos dos vendedores de tapetes; muito pura e simplesmente cruza informação e consegue rastrear quase toda a gente (eu sei, pois já vi). Desta vez sei que foi a partir da base de dados da TV Cabo; e posso garantir isso, porque lá em casa é a única coisa que está em meu nome.

Recebi há cerca de um mês um ofício do INE, informando-me que tinha sido seleccionado por amostragem, e teria (sim, é obrigatório por lei) que colaborar no ICOR (Inquérito ao Consumo e Rendimento), para o que me iriam enviar posteriormente um funcionário credenciado.

Como devem calcular, o meu nível de entusiasmo ficou perto do de um Yaque olhando para um mosteiro Tibetano. Mal podia esperar para ver a minha vida devassada e distribuída por todos os organismos de estado, isto sem contar com uma miríade de empresas de vendas por catálogo.

Foi então que ela apareceu.

O vestido vermelho caía-lhe muito bem com o tom branco da pele, bem como um discreto colar e a pulseira de conchas minúsculas. Sentando-se na beira do sofá do escritório lá de casa, uniu os joelhos, e em cima deles abriu um portátil Compaq.

Começou por acalmar os meus receios, afirmando que o INE só fornece estatística e nunca dados pessoais. Seguidamente, assegurou-me que mal toda a informação fosse introduzida na matriz de estudo, os dados pessoais seriam eliminados (cheirou-me a treta, mas deixei passar. Não se contraria uma senhora logo no primeiro encontro…).

Passou-se então à fase de inquérito. Durante cerca de trinta minutos mergulhei nas minhas declarações de impostos em busca de informação, fiquei a saber finalmente quanto pago de seguro da casa, e fiz um esforço hercúleo para lhe fazer crer que o meu recibo de vencimento não é falsificado (de qualquer modo, acho que ela não acreditou…).

No fim dessa meia hora eu encontrava-me estafado, como se tivesse tido uma noite de sexo desenfreado com uma contorcionista do Circo de Pequim.

Ela encarou-me sorridente, e garantiu-me que faltavam apenas meia dúzia de perguntas, para dar aquilo por terminado e ir-se embora.

Nessa altura algo de estranho aconteceu (acontece sempre algo estranho na minha vida). O seu sorriso radioso começou a desagregar-se, enquanto uma sinfonia de apitos provenientes do portátil enchia o aposento. A bateria estava a dar sinal de descarga.

E não é que aquela avantesma, em vez de gravar o que já tinha tentou despachar as últimas perguntas, e perdeu todas as notas que tomara? Tinha-se esquecido de gravar amiúde o que ia escrevendo, e todo aquele tempo tinha sido gasto em vão pois teria que voltar novamente para repetir as perguntas.

Imperturbável, retorqui-lhe que não haveria problema, e que seria apenas uma questão de telefonar previamente para acertar a hora; após o que nos despedimos cordialmente.

Neste momento a minha única dúvida, é sobre a quantidade de ácido sulfúrico necessária para dissolver facilmente um corpo com cerca de 49kg.

Aceito sugestões…

Música de Fundo
“Computer Love”Kraftwerk

Chuva por Um Dia

O cinzento desceu subitamente pela cidade, escorrendo em braços de chuva que os telhados deitam sobre as ruas.

Misteriosamente chuva por um dia, como um pequeno hiato entre dois dias de Verão; para melhor saborear o restante.

O ar está refrescante e eu bebo um chá verde na varanda. Por isso não sei quem está a escrever isto…

Música de Fundo
When You’re In (Obscured by Clouds)
Pink Floyd


quinta-feira, 20 de maio de 2004

O Apelo da Pátria
- Malhas do Desporto Rei -

Os que me conhecem, sabem que além de eu não “alinhar em futebóis” não aprecio igualmente o dito cujo. Mas a pátria… Ah… A pátria, essa desavergonhada que passa a vida a trair-nos, mas que tanto amamos.

Bem, se a pátria chama já é outra loiça.

Reparei há pouco que fui convocado por Herr Adufe Scolari, para a Selecção da Blogosfera Portuguesa. É certo que se trata apenas do lugar de “treinador de guarda-redes”, mas isso permitir-me-á atirar petardos ao Paulo Querido e ao Aviz, sem que o resto da malta me venha chatear a seguir.

Como infelizmente tenho dois pés esquerdos, aconselho aos nossos “keepers” o uso de protecção genital durante os treinos; bem como, se possível deixem as lunetas no balneário.

Entretanto hoje vou sair mais cedo, pois já marquei hora na pedicura…

Música de Fundo
“Che-check it Out”Beastie Boys

A Igreja do Imaculado Blog
* O Mês de Blog – Comemoração da Santa Empreitada *

Irmãos! Como sabeis o mundo não foi feito em sete dias, mas num mês; e mesmo assim não ficou lá grande coisa.

Apesar do péssimo resultado obtido por Blog, mas visto ser tradição em todas as religiões que se prezem, irão decorrer durante o próximo mês de Junho as comemorações da Santa Empreitada que deu origem ao mundo de Blog.

Para que as vossas almas se sintam preparadas para tão devotos festejos, deixo-vos com alguns excertos do Génesis, inserido na Memória Descritiva do Caderno de Encargos; santo escrito este, que relata a criação do mundo “as we know it”.

*A criação do Mundo de Blog e de tudo o que nele se contém*

No princípio era o verbo, ou seja, apenas conversa fiada. Blog como já estava farto de ser embarretado com universos anteriores (alguns deles com graves problemas na canalização), decidiu abrir Concurso Público.

Para não ser apanhado na teia política dos atrasos em inaugurações, a criação do mundo só começaria a contar a partir da data de adjudicação da obra. Pelo que se passaram diversos milénios em avaliação de propostas e em almoçaradas com os concorrentes, que como é costume ansiavam por agradar.

Infelizmente o projecto tinha sido entregue a um jovem arquitecto sobrinho de uma amiga de Blog, tendo este gasto tanto tempo na apreciação das propostas, que quando o resultado do concurso saiu já os preços dos materiais tinham triplicado. É claro que se perderam mais uns séculos só com a revisão de preços.

Blog estava em brasa e aproveitou logo para criar o inferno, para onde mandou o projectista e o director de obra. Este último, antes de começar a empreitada já se tinha mudado para um condomínio fechado, tendo comprado igualmente um Jaguar igual ao do Ministro Paulinho.

Após esta radical limpeza ao seu “staff”, o Criador pensando que estava já livre de sarilhos, levantou-se a meio de uma reunião de coordenação e ordenou – “Haja luz!”

Foi uma chatice. O empreiteiro da parte eléctrica saltou na outra ponta da mesa todo ofendido, que não valia a pena ter comprado o MS-Project se ninguém lia os gráficos, que só entrava a meio da obra, e mesmo que o quisesse fazer antes não poderia. Pois metade do pessoal encontrava-se ainda em processo de legalização no IDICT (Instituto para a Declaração dos Imigrantes Celestes em Trânsito).

Finalmente após várias horas de negociações, a empresa de electricidade emprestou algumas gambiarras, projectores portáteis, etc; e em com conjunto com um gerador a gasóleo emprestado pelos Bombeiros Voluntários, lá se arranjou corrente eléctrica para a Grande Obra.

E Blog viu que era boa a luz, tendo convidado os electricistas e os bombeiros para algumas minis e caracóis. Mas os problemas ainda só estavam a começar…

Alguns dias depois, Blog reparou que uma infiltração de águas estava a alagar os caboucos, estragando a cofragem dos pilares; cujas tábuas encarquilhavam deixando escorrer o betão que já de si não era muito forte (5:1).

E disse Blog – “Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre águas e águas”.

Infelizmente o tipo que alugava o equipamento para a drenagem freática (vulgo bombas), já estava a arder com duas facturas em atraso; e nem a ameaça de ser colocado no inferno inaugurado dias antes, o demoveu da sua posição. Aliás, o aquecimento central nem sequer se encontrava ainda em funcionamento.

Quem safou a coisa foi o encarregado do refeitório de obra, que trouxe da quinta a bomba do furo artesiano e lá apareceu a tal porção seca a que se chamava terra. E Blog viu que era bom; tendo prometido ao tipo a concessão dos refeitórios para as próximas obras que tivesse.

Na semana seguinte durante a implementação dos espaços exteriores, plantaram-se árvores frutíferas e relva; infelizmente esta era de má qualidade e criou bicho. Mas Blog já não estava pelos ajustes, e despedindo o arquitecto paisagista disse que já que tinha criado bicho, este tinha que povoar a terra, pois não estava para gastar verba adicional em produtos químicos.

Construiu-se uma vedação para que não roubassem os materiais à noite, e dentro dela colocaram-se alguns rotweillers e Ucranianos para que tudo guardassem. A estes últimos, disse que aquilo era o paraíso em comparação com o sítio de onde vinham, e que teriam que pagar o alojamento com o suor do seu rosto (ou de outros locais).

E com isto se passou um mês.

Findo este prazo apareceu a fiscalização da Câmara para a primeira vistoria, e como o projecto não tinha sido aprovado embargou tudo. O empreiteiro geral desapareceu com o adiantamento de 30%, e tanto quanto se sabe, os tapumes ainda lá estão a servir de suporte para cartazes eleitorais.

Como se vê, de todas estas peripécias não poderia ter resultado um paraíso. Pelo que quando a vossa tentação for culpar Blog por este mundo imperfeito, lembrai-vos das dificuldades enfrentadas pelo criador; que nessa altura nem podia ainda recorrer o IMOPI para defender os seus interesses.

Ou como diria o Dr. Pangloss de Voltaire – “Pelo menos, é o melhor dos mundos possíveis…”

Musica de Fundo
“Under Construction”No Doubt

quarta-feira, 19 de maio de 2004

A Inconstância do Amanhã

Esta folha azul está quase a fazer um ano de existência; pode ser que lá chegue, ou pode ser que não.

É daquelas coisas que nunca se podem prever. Os próximos dez segundos podem estar repletos de acontecimento prodigiosos, mas apenas o saberemos depois de acontecerem.

Há um ano uma amiga minha saltava positivamente de entusiasmo. Abrira finalmente a janela dos seus sonhos, e dali lançava um olhar extasiado para uma miríade de ilhas multicores que juncavam a paisagem. Descobrira a blogosfera.

Quinze dias depois eu segui-lhe o exemplo. Desempoeirei a minha alma, como se tratasse de uma velha tenda que não usava há muito, e aventurei-me. Talvez por um desejo de retorno, porque numa outra vida eu tinha sido poeta, tinha sido sensível e é claro… jovem também.

Durante este (quase) ano que entretanto passou, aconteceram-me e vi ocorrer coisas suficientes para preencher o espaço de uma vida; nascimentos, amores, mortes… como se um tempo paralelo e não-linear imperasse neste local.

Durante todo este acidentado percurso a minha amiga apoiou-me, acompanhando-me sempre através daquilo que eu agora chamo - o melhor, e o pior ano da minha vida. Felicitou-me e comemorou comigo as alegrias, aconselhou-me na dúvida, lamentou as minhas tristezas; do mesmo modo que eu tento retribuir tudo isso, sempre que posso.

E é assim que venho marcar aqui o dia em que o 100nada faria um ano. Um blog terminado abruptamente, mas cuja autora (que é um “gajo” do caraças) é das que nunca desistem e comemorará decerto mais aniversários, talvez com outro template.

Parabéns Catarina (100nada)!

Música de Fundo
“Once in a Lifetime”Talking Heads

terça-feira, 18 de maio de 2004

O Cerco
- Um pouco medieval, e tal… -

Estava hoje a tentar libertar uma vespa do ar condicionado (ou vice-versa), quando o telemóvel fez soar a melodia dos Carrilhões de Mafra; era o Apóstolo.

Ao princípio não consegui perceber grande coisa. Parecia-me ouvir como ruído de fundo o disparo de armas automáticas, mas vivo numa terra de gente pacífica e isso era altamente improvável.

- Estamos cercados, pá! – comunicou ele por entre o ruído da metralha – cavaram um fosso à nossa volta e cortaram-nos as comunicações. Nem TVCabo, Net ou telefone; atingiram-nos mesmo de surpresa. Não sei quanto tempo é que vou aguentar…

A sua voz soava-me como o brado desesperado dos sitiados “Del’Álamo”. Tentando manter a calma, pedi-lhe um relatório completo da situação, que se provou na realidade ser grave.

- Não sei quantos são… - comunicou ele – Estão fardados de azul, acamparam aqui há cerca de uma hora e começaram a escavar um fosso à nossa volta. Temos todas as comunicações cortadas; só o telemóvel é que funciona, e hoje esqueci-me de carregar a bateria.

Fechei de imediato o estaminé, para correr em socorro do meu castelo e da melhor ligação à Net que possuo. Infelizmente Blog não me abençoou, e como motorista calhou-me logo o Xico Zé que é especialista em atalhos, e nos conseguiu encravar na única fila de trânsito que existia àquela hora.

Entretanto o telemóvel emudecera. Comecei a deixar-me invadir pela inquietação; a integridade das cinco famílias que compõem a guarnição estava ameaçada. E nos tempos que correm é difícil arranjar boa vizinhança; quase tão difícil como encontrar uma boa empregada doméstica (perguntem à Vertigem, que ela diz-vos)…

Depois de obrigar o motorista a efectuar algumas manobras perigosas, que lhe poderiam custar a sua imerecida licença de condução; lá chegámos ao local do confronto, que na realidade parecia um verdadeiro campo de batalha.

Um blindado pintado de amarelo, bloqueava a entrada com um enorme monte de terra, enquanto o fosso circundava o prédio, deixando à vista as entranhas das nossas preciosas infra-estruturas, onde alguns cabos arrancados demonstravam já a selvajaria dos sitiantes.

A Dona Maria do Carmo lamentava na sua voz de cana rachada a quase perda do conteúdo da arca frigorífica, pois tinham também cortado a electricidade; apenas a água e o gás se aguentavam ainda, sabe-se lá durante quanto tempo.

Na verdade o ambiente ainda não era muito carregado, pois não vi ninguém a tentar lançar azeite a ferver sobre os invasores, apesar de eu achar que o mereciam em absoluto.

Ao ver-me apear de um veículo totalmente carregado com material de construção, o sitiante mais graduado aproximou-se para parlamentar ao abrigo do código de conduta do pessoal das obras. – Ouça lá! Diga-me aí a esses gajos que não vale a pena estar a fazer esse cagaçal, que daqui a pouco já ligamos a merda da luz. – Sem dúvida que se tratava de um diplomata, e eu teria que o respeitar como a um igual.

Utilizando o meu mais apurado sotaque de Alfama (a que recorro ainda ás vezes em casos de emergência), interpelei-o utilizando a mesma terminologia técnica, de modo a que entendesse o que eu tentava transmitir.

- Deixe lá os gajos trate-me mas é dessa merda depressa; ou está a tentar ganhar horas extra? Esses dois kosovares aí encostados ás pás já deviam estar a tapar a vala na entrada. É hora de chegar toda a gente do emprego, e eu quero vê-lo daqui a pouco a dizer ao Manuel polícia que não vai poder ir esta noite aos sites porno, ou pior, diga ás mulheres que hoje não há telenovela da TVI!

O tipo embatucou. Lá polícia era uma coisa, agora mulheres sem novela complicava tudo. Iria colidir com os valores da nossa raça, e quiçá render-lhe ainda um bombardeamento de ovos ou de restos do congelador.

Um pouco pálido mandou recuar a retro-escavadora, e empurrou o electricista para a vala com o fito de estabelecer a corrente eléctrica.

Por fim ainda tive que ir a casa buscar umas fichas BNC, porque o electricista contava com os tipos da TV Cabo e estes não apareceram. Mas mercê das minhas reservas de material informático, lá ficámos operacionais; e apenas por isso posso estar a escrever este relato de verdadeiro heroísmo.

De qualquer modo ficámos avisados. O progresso não espera, e para permitir que as obras do Metro de Superfície continuem no prazo previsto, amanhã a partir das nove deixa de haver água durante umas horas.

Não sei se esta guerra irá durar muito. Talvez tenha que deixar crescer a barba…

Música de Fundo
“Starship Trooper”YES

Cheínho de Trabalho

Por isso em vez da Música de Fundo após o post, passo o texto em branco e mando-vos a música:

The Space Between (Dave Matthews Band)

You cannot quit me so quickly
Is no hope in you for me
No corner you could squeeze me
But I got all the time for you, love
The Space Between
The tears we cry
Is the laughter keeps us coming back for more
The Space Between
The wicked lies we tell
And hope to keep us safe from the pain

But will I hold you again?
These fickle, fuddled words confuse me
Like 'Will it rain today?'
Waste the hours with talking, talking
These twisted game we play

We're strange allies
With warring hearts
What wild-eyed beast you be
The Space Between
The wicked lies we tell
And hope to keep us safe from the pain

Will I hold you again?
Will I hold...

Look at us spinning out in
The madness of a roller coaster
You know you went off like a devil
In a church in the middle of a crowded room
All we can do, my love
Is hope we don't take this ship down

The Space Between
Where you're smiling high
Is where you'll find me if I get tickled
The Space Between
The bullets in our firefight
Is where I'll be hiding, waiting for you
The rain that falls
Splash in your heart
Ran like sadness down the window into...
The Space Between
Our wicked lies
Is where we hope to keep safe from pain

Take my hand
'Cause we're walking out of here
Oh, right out of here
Love is all we need here
The Space Between
What's wrong and right
Is where you'll find me hiding, waiting for you
The Space Between
Your heart and mine
Is the space we'll fill with time
The Space Between...
Palavras…
- Cais (à noite) -

Quando as águas estão espelhadas de negro, apenas nos mostram aquilo que lá queremos ver. Por isso quando parei há pouco na beira do rio, não foi para olhar, mas tão-somente para escutar …

A brisa sussurrou-me palavras que nunca li em lado algum, talvez viessem de dentro de mim ansiosas por serem escritas. Mas já escrevi tantas palavras…

Se não estivesse só talvez as dissesse a alguém; mas eu queria ouvi-las ditas por outra voz, talvez para saborear o efeito que fariam em mim. Porque as palavras, mesmo sendo as mesmas, mudam sempre um pouco pela voz que as pronuncia.

Por isso, em vez de atirar as minhas palavras ao rio, guardei-as para mim. Na esperança que um dia alguém as repita, mesmo sem eu as ter escrito.

Alguém que mas diga, pela simples razão de as ter também dentro de si.

Música de Fundo
“Endlessly” - Muse

segunda-feira, 17 de maio de 2004

Há Dias Assim
- E as noites também não são muito melhores… -

Passei o dia todo, numa necessidade enorme de pontapear um saco de areia ou partir tabuinhas a murro. Não que eu seja um tipo violento, mas destruir alguma coisa ajuda sempre a libertar um pouco do stress.

Não contava, é claro, que a situação se complicasse mais ainda. Acabei pois, de descobrir que sou pai de um jovem viciado em comunicações; a maneira mais idiota e infrutífera de gastar dinheiro.

Tudo começou com uma oferta. Aliás nada fica mais caro que uma oferta; isto quando se trata de empresas que são suficientemente inteligentes para estudar o público-alvo.

Ofereceram-lhe um cartão da Yorn, com um crédito de € 2,50 para gastar dentro da rede. A primeira coisa a que ele fez pontaria, foi a um T29s que tenho guardado de reserva, e apropriando-se dele passou à fase seguinte.

Discursou demoradamente sobre as virtudes dos SMS mais baratos, tendo acrescentado que nos dois primeiros carregamentos de € 20,00, se obteria um bónus de 50%. Nesta altura já eu começava a ver formar-se a espiral do vício, e cortei cerce optando pelo registo no regime de isenção de carregamentos.

Era um pouco mais caro mas bem mais seguro.

Vinte e quatro horas e uns quantos toques monofónicos depois, fui dar com ele a ouvir o hino do Benfica fechado no quarto, com o telemóvel encostado ao ouvido; a doença começava a manifestar-se nas suas nefastas consequências.

Quarenta e oito horas depois, após ter comunicado a aquisição a todos os amigos (que não responderam porque já se encontravam impedidos de esbanjar dinheiro); dos € 32,50 já só existiam dez, e então lancei-lhe o ultimato. Antes que iniciássemos a velha maratona das semanadas adiantadas, dos upgrades ao hardware e de truques para obter carregamentos adicionais; expliquei-lhe resumidamente o que se iria passar.

O telemóvel não poderá causar mais despesa que cinco euros por mês. Tudo o que exceder isso ser-lhe-á retirado da mesada, do dinheiro dos aniversários e em casos extremos, recorrer-se-á à alienação de património (PC, Gameboy, TV do quarto, etc.) para liquidação das importâncias necessárias.

E o melhor de tudo, é que tenciono cumprir as ameaças… Sim, estou a falar contigo! Ouviste? Eu sei muito bem que ás vezes vens aqui ler…

Música de Fundo
“Intergalactic”Beastie Boys

domingo, 16 de maio de 2004

O Dia da Abundância
- Um Episódio Orwelliano –

Não penseis que venho para aqui malhar-vos no bestunto com desgraças. Ademais, após uma boa dose de favas regada com “Quinta dos Arciprestes”, a minha disposição é a completa e perfeita sintonia com a vibração do leitor (principalmente porque não estou com pachorra para ler).

Passa-se então este episódio no meu modesto lar, após impudente invasão da parentela a um domingo soalheiro; no qual eu deveria reflectir em valores elevados como a integridade e a moral burguesas; em vez de estar a iniciar o primeiro Rafael González e a segunda CR&F velhíssima.

Por muito que custe aos intelectuais que me lêem, penso que 1984 deveria ter sido escrito por Woody Allen em vez de Orwell; pelo menos a banda sonora teria sido inesquecível…

E é assim o episódio de hoje, ao som de Dixieland, e a 45fps como os filmes mudos (esta parte, possivelmente devido à CR&F).

Começou tudo com a entrada do meu irmão (que é mais novo). Parecido com Silvester Stalone mas menos disléxico, entrou a matar elogiando a minha figura – Qué que fazes para te manter assim pá? – Perguntou tentando ser amável. O que no seu caso exigia um significativo esforço adicional.

Parafraseando o meu agente secreto favorito, encarei a minha cunhada (da qual não gosto nem um bocadinho) e enviesando os olhos para ele, respondi – Se te dissesse, a tua mulher teria que te matar a seguir…

A dita cuja preparava-se para dizer que isso não era problema, quando os empurrei para dar lugar aos próximos visitantes. Decididamente isto começava a parecer-se com a cerimónia de distribuição dos Emmy’s.

Minha mãe estreitou-me num abraço digno de Hulk Hoogan, e beijocou-me profusamente enquanto tecia considerações várias sobre os transportes; meu pai um pouco mais circunspecto, endereçou-me um sorriso de cumplicidade e continuou em frente em direcção ao quarto do neto. Onde diversos pirralhos se divertiam a destruir formas de vida com modernas metralhadoras, enchendo o monitor de dedadas e cuspidelas.

Ia ser um vulgar almoço de família. Felizmente ao domingo tenho sempre outro tipo de visitas que animam o meu aborrecido fim-de-semana. O Telemarketing.

Desde tempos imemoriais, desenvolvi um mecanismo de defesa contra este tipo de ameaças. Possivelmente ficará impresso no meu código genético, e será passado a gerações vindouras; tão eficiente é o princípio pelo qual se rege.

“Nós temos tudo!”

Na verdade até não, mas não me queixo muito… A questão é que quando alguém telefona a impingir viagens, utilizo o meu conhecimento enciclopédico para lhe moer o juízo com as minhas pretensas férias em Belize ou na “Tierra del Fuego”.

Telemóveis? Por favor… até o Gustavo (o mais novo dos meus cinco) me manda MMS do colégio para mostrar ou os desenhos que fez, ou as saias da educadora filmadas de um confortável ângulo inferior.

Tudo isto para dizer que este domingo não foi nisso diferente dos outros.

Aparentemente a sujeita (talvez uma pobre licenciada em regime de trabalho escravo) não teria muita experiência. Começou por perguntar pela esposa, ao que eu respondi ser um viúvo com vários filhos, o que não me permitia deslocar ao local designado para a recolha do prémio; devido à escassez de baby-sitters a um domingo e sem pré-aviso.

Nessa altura aproveitei para gritar em direcção à estante – Vão até ao terraço que o pai está ao telefone; e quero esses lápis de cor longe do Mondrian – apenas para criar ambiente.

Engolindo o isco, esqueceu-se do telemóvel que queria oferecer e perguntou então, com voz compungida, como se tinha dado a infeliz tragédia.

Contei-lhe tudo. Como durante uma excursão de ski em St. Moritz, minha sogra encostara a língua ao glaciar; normalmente ficam lá presos. Mas no caso dela, as bactérias e a condição viperina do apêndice, teriam comprometido a integridade da massa de gelo; soterrando três aldeias e um acampamento de snow-boarders, arrastando-a na avalanche.

Falei-lhe das posteriores missões de busca e salvamento, em que nervosamente os são-bernardos se recusavam a escavar, talvez por crer que seria melhor não desenterrar o que o destino tão bem eliminara. E para terminar acrescentei que tinha convidados, e me estavam a saquear a garrafeira enquanto me encontrava ao telefone (esta parte era verdadeira).

Ela despediu-se entre risos, tendo-me agradecido por aqueles momentos bem passados. Após o que pude finalmente almoçar descansado, rodeado de todos aqueles inoportunos parentes; mas no fundo sabendo que fizera alguém feliz.

Aquela operadora vai ficar bem disposta toda a tarde.

Blog! Como eu adoro as operadoras de tele-marketing…

Música de Fundo
“The Good Book”Irakli Jazz Band

sábado, 15 de maio de 2004

O Último Unicórnio

Parou repentinamente e cheirou o ar. O odor estranho dos perseguidores distinguia-se mais forte, ouvia-se já nitidamente o ladrar dos cães e os incitamentos gritados em voz seca.

Nervosamente saltou em frente, galopando por uma nuvem de folhas castanhas, que se levantavam à sua passagem como borboletas. Corria sem destino certo, apenas sempre em frente sem poder parar…

As sombras desciam já sobre as árvores como negras cortinas de noite, por onde apenas sobressaía a sua pelagem clara, passando fulgurante numa mancha pálida de fantasma. O unicórnio era velho; um único e solitário sobrevivente da sua espécie.

Quando desembocou na clareira, o seu coração batia já descompassado. As patas enfraquecidas mal o aguentavam de pé, e os seus flancos eram percorridos por tremores; parou encharcado em suor. Pelo menos despistara os seus captores, que talvez tivessem que acampar para passar a noite.

Admirava os fetos sobre uma poça de água quando ouviu uma exclamação. Uma jovem mulher olhava-o de longe receosa, talvez com medo de o espantar. A sua primeira reacção foi fugir, mas farejou em redor e não detectou perigo; apenas um leve perfume que o vento lhe trazia.

Escoicinhou um pouco inquieto, enquanto a mulher se aproximava lentamente com o braço estendido. As mãos belas e esguias com ligeiras marcas (talvez provocadas por fogo), aproximaram-se das suas narinas em sinal de confiança. Cheirou-a longamente, percorrendo-a com o focinho do peito ao pescoço; era dali que vinha o perfume que notara antes. Um cheiro de flores silvestres e de corpo quente.

Docemente deixou-se conduzir por uma álea de fetos e avencas. Debaixo de enormes castanheiros, uma pequena casa expelia nuvens fracas de fumo através de uma chaminé de pedra, coberta por musgo castanho.

Sempre receoso das coisas humanas, recusou-se a entrar a princípio. Mas ela ternamente falou-lhe ao ouvido, palavras desconhecidas em tom meigo enquanto lhe afagava a crina do pescoço. Tendo finalmente conseguido conduzi-lo através da estreita porta, para uma única sala de soalho de madeira.

Devido à pequenez da sala, só lhe restou deitar-se num tapete de retalhos que se encontrava frente à pequena cama.

Bebeu sofregamente água de uma malga. Ela foi pôr mais uma acha na lareira e sentou-se também no tapete, fitando-o com os seus olhos claros.

Os ruídos da noite sobressaltavam-no, numa recordação de perseguições e lutas; mas o cansaço começava a vencer as suas defesas. O fumo da lareira juntamente com o calor, provocavam-lhe uma doce sonolência, a que já custava resistir.

Soltando o cabelo, ela pousou a cabeça sobre o pescoço do unicórnio, e respirou o cheiro a floresta e flores desconhecidas que ele trouxera consigo. Adormeceram calmamente, enquanto o fogo da lareira esmorecia, e a lua seguia no céu o seu caminho em direcção ás copas das árvores.

Na manhã seguinte, os batedores seguindo a pista com os cães chegaram frente à cabana. Engatilharam as armas, e silenciosamente abriram a porta prontos para disparar.

Na pequena sala em cima do tapete, uma mulher de cabelo vermelho e um homem, dormiam despidos envolvidos num abraço.

Música de Fundo
“Hearts” - YES

A Igreja do Imaculado Blog
- Belmiro o Anjo Extrovertido -

Belmiro é um dos alados seguidores de Blog, ou seja, um pombo. Além de pombo suspeito que seja mitómano, pois teima em afirmar que estava comigo naquela foto lá em cima, que tem quase quarenta anos; e que me vigia desde aí.

Hoje apareceu novamente e conversámos, ou melhor, ele conversou; porque para Belmiro uma conversa é apenas a sua. Só depois dele acabar conseguimos dizer alguma coisa.

Não contente por ter devorado quase metade da minha torrada, enquanto dissertava sobre o significado das coisas, decidiu acompanhar-me numa parte do trajecto. Afectou algumas vezes o meu equilíbrio velocipédico, particularmente numa altura em que esteve quase a afocinhar no pára-brisas de um autocarro; só para se manter a par de mim.

Demoradamente, falou, arrulhou e deu estalos com o bico. E embora eu não lhe ligasse muito (parece uma matraca quando começa a falar), estávamos a observar um grupo de Tai-chi perto das fontes de uma praça, quando me fez uma pergunta a que finalmente desejei responder – Se pudesses voar como eu, o que farias?

E eu disse-lhe. Falei-lhe da minha velha ânsia de voar, do sabor da liberdade e do vento na cara, da ausência de distância; contei-lhe onde estaria nessa altura e porquê…

Não compreendeu porque quereria eu voar, se apenas desejava estar noutro sítio. Os que são livres nunca compreendem estas coisas, pensam que se trata apenas de sonhos efémeros; não compreendem que voar é apenas uma via para aquilo que se deseja.

É bem feito! Ninguém me mandou falar com um pombo…

Música de Fundo
“Solitary Man”HIM

sexta-feira, 14 de maio de 2004

Forças de Bloqueio
- Ao pé de certos chatos, o destino não é ninguém… -

Estou a ser vítima de uma cabala!

Quando cheguei ao escritório descobri que não tinha secretária; apenas uma montanha enorme de desenhos bem dobrados, como se estivessem preparados para atear uma fogueira; só a minha cadeira marcava o local onde eu me deveria sentar.

Ao escavar por esse sedimento lá consegui encontrar o botão do monitor e ligá-lo; a minha largura de banda estava toda a ser usurpada pelo Tenente Figueiredo, que tem estado toda a semana a sacar da net três filmes em simultâneo.

O Blog não abria, é claro. Com os 5kb/s que me sobravam mal dava para abrir o mail; distraidamente dei um toque nos cabos do router que se desligaram todos, excepto o meu, é claro… Preparei-me então para escrever alguma coisa rápida, aproveitando uns breves momentos de sossego.

Vãs expectativas. Mal iniciava a redacção das primeiras linhas, comecei por ouvir um ruído semelhante a toneladas de terra que se desprendessem de um penhasco.

Meu amo iniciava mais uma diatribe ás massas trabalhadoras, com particular incidência na pessoa do meu companheiro de downloads. Aproveitei a cobertura sonora para tirar a poeira ao meu CD dos Ramones, e lá consegui abafar a discussão com o inesquecível “Gimme, Gimme Schock Treatment”.

Infelizmente a coisa não acabou aí. Para comemorar o término do primeiro parágrafo deste texto, Miss Entropia decidiu vir compartilhar comigo alguns problemas existenciais, bem como considerações sobre a dificuldade em imprimir com o data-switch comutado para o computador errado.

Para evitar rebentar uma artéria ou parecer demasiado congestionado, fixei a vista no calendário da Pirelli e contei mentalmente dez top models em topless. Aparentemente resultou; pois fiquei muito mais calmo, aparte alguns efeitos secundários que me obrigaram a ficar sentado mais uns minutos.

Finalmente desisti de escrever por hoje. É inútil tentar lutar contra as forças de bloqueio.

Meu amo manifestando a sensibilidade que tanto o caracteriza, entrou no meu gabinete e constatando a minha expressão atormentada, aconselhou – Porque é que não escreves qualquer coisa para o blog? Vais ver que te ajudava a descontrair…

Música de Fundo
“Slither”Velvet Revolver

quinta-feira, 13 de maio de 2004

Payback Time

Sempre acreditei na retribuição, para o bem e para o mal. Quer se trate de um favor que acabo por pagar um dia, ou de uma vingança tardia e servida bem geladinha; mas acredito que tudo se acaba por pagar.

E eu tenho umas contas a ajustar com a leitura/escrita.

Aprendi a ler muito cedo. Aos cinco lia o Condor e o Mundo de Aventuras, que mais tarde me conduziram à Colecção Seis Balas e posteriormente à literatura propriamente dita.

Sempre me deu prazer ler, quer fossem os livros de Karl May nos anos 60, a Penthouse nos 70 ou Aldous Huxley nos 80.

O certo é que a leitura e o prazer estão para mim interligados; tal como a escrita que além de estar interligada com eles, me permitiu descobrir imensas coisas sobre mim próprio. Tal como me permitiu encontrar algo, que de outro modo teria ficado desconhecido para mim (permitam-me que não o revele).

Mas voltemos à leitura…

O meu hábito de ler sempre esteve estreitamente ligado a bibliotecas. Comecei por ser leitor da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian aos sete, e mais tarde na minha adolescência, colaborei sucessivamente nas bibliotecas de três colectividades Almadenses; sem contar com outras actividades que não têm a ver com este texto.

Para finalizar, e como já repararam pelos posts anteriores, fui publicado (uma página apenas, mas mesmo assim publicado) pela Rodapé – A Revista da Biblioteca Municipal de Beja.

Tudo isto me coloca em dívida para com a leitura/escrita em geral, e as bibliotecas em particular; e eu não sou tipo para carregar uma dívida muito tempo.

Curiosamente, naquele mesmo número da revista em que apareço; o texto de abertura foca precisamente um problema que poderá eventualmente afectar o prazer da leitura, nomeadamente nas camadas e faixas etárias que mais necessitam de incentivo.

Por isso, excepcionalmente e contra tudo o que é hábito neste blog, vou deixar-vos com um texto do Director da Biblioteca Municipal de Beja – Joaquim Mestre – que conheci ontem. E que embora pareça ser doido por gajas, sem dúvida que o é também pela leitura…

*** Abertura ***

A Rodapé é uma revista da Biblioteca Municipal de Beja, daí que em algumas rubricas e na sua própria filosofia ela reflicta os problemas, os projectos e as ideias das bibliotecas públicas.

Hoje, e dentro desse espírito, iremos abordar o grave problema que se pretende criar às bibliotecas públicas, com a introdução de uma norma comunitária que impõe o fim da gratuitidade dos serviços de biblioteca ou seja, o empréstimo domiciliário e o acesso a documentos e tecnologias ficará sujeito a pagamento. Ora isso colide com o espírito universalista e democrático das bibliotecas públicas vertido em documentos de referência como são os casos do Manifesto da UNESCO sobre bibliotecas públicas e as Guidelines da IFLA, para além da secular tradição das bibliotecas públicas se assumirem como espaços culturais que asseguram a democratização do acesso à informação, à cultura e ao conhecimento.

Num país com as taxas de analfabetismo e iletrismo que todos conhecemos, num país que só agora tem uma rede estruturada de bibliotecas públicas, uma medida desse teor iria trazer gravíssimos problemas às bibliotecas e, principalmente, aos seus utilizadores.

A máxima utilizador/pagador, que tanto furor tem feito em meios neo-liberais, seria desastrosa para o trabalho que tem vindo a ser feito nas bibliotecas públicas portuguesas e que só agora começa a dar os seus frutos.

Entendemos que nos países do norte da Europa com uma fortíssima tradição e utilização das bibliotecas públicas, com populações leitoras consolidadas por dezenas de anos de acesso livre e gratuito e, com outros meios económicos, esta medida pode colher alguma simpatia ou indiferença. Agora em Portugal verter esta norma para a nossa legislação seria um verdadeiro desastre e, porque não dizê-lo, um crime de lesa cultura.

Joaquim Mestre

Música de Fundo
“The Last Few Bricks”Pink Floyd

O Aniversário

Esta minha amiga faz anos hoje. Comemora uma idade de renovação, tendo começado há pouco um blog.

A pouco e pouco tem descoberto coisas que esquecera, como o prazer de escrever, e o pensar nisso como uma forma de sentir as coisas mais intensamente.

O seu Espelho Mágico mostra a sua verdadeira idade. Por isso não a direi aqui.

Parabéns miúda!

Música de Fundo
“Your Painted Smile”Bryan Ferry

quarta-feira, 12 de maio de 2004

O Agradecimento

Cheguei um pouco mais tarde, e só hà pouco é que reparei que o Adufe se tinha antecipado. Por isso em meu nome e da Catarina do extinto 100nada, informo-vos (com a devida vénia ao autor) que aquele é o link do nosso agradecimento...

O Gigolo da Mexicana
- Comédia de enganos… -

Está um dia de Verão e são três da tarde.

Na “Pastelaria Mexicana” à semelhança dos iguanas das Galápagos, alguns frequentadores absorvem o calor voltando as faces impávidas para o sol; na esperança que os ultra-violetas lhes petrifiquem as peles enquanto estão esticadas…

Por detrás das lentes fumadas, os seus olhos atentos avaliam padrões e medem distâncias; viver numa esplanada requer atenção e visão treinada.

* Sobe o pano*

Sissí acorde! Vá… - diz uma delas abanando a companheira que cabeceava – Olhe-me para aqueles dois.

- Bolas, Mirita! Logo agora que tinha convencido o George Clooney a acompanhar-me ao hotel… Espero que valha mesmo a pena. – disse o velho traste, ajeitando a blusa de seda preta de modo a que não se vissem as alças do soutien.

Aquele casal ali… – volta a primeira à carga – com a da blusa verde ás ramagens. Não tá a ver? Olhe ela a passar-lhe o dinheiro.

É verdade – responde a outra – mas ele ficou corado, coitado. Realmente não faz o tipo; até tem ar de família.

- Família o tanas, Sissí. O tipo ficou ofendido! Olhe para ele a protestar, deve ter achado pouco. Realmente há tipas muito sovinas. E olhe que deve ter ficado bem servida, a avaliar pelas olheiras; e mira-o como se o quisesse comer outra vez.

Então, Mirita… - diz a amiga – Ele até já é entradote. Na volta era o troco; já reparou naquelas meias pretas ás riscas.

- Qual quê? Até parece que a sua filha se veste de modo mais recatado. Esta pelo menos, não parece ser do género de usar cuecas com portinhola. Até parecia um porta-moedas.

- Pois, realmente ela deve estar a fazer talvez quarenta. E também não parece assim tanto…

- Olhe Sissí! - diz a outra – afinal parece que o tipo aceitou. E vão-se embora sorridentes. Desavergonhados…

- Pois. Vê-se cada coisa… é degradante o ponto a que uma mulher pode chegar!...

*Dez metros mais à frente*

- Bolas pá! Estava a ver que vocês nunca mais se despachavam…

Desculpa – diz a das meias ás riscas – mas tive que tocar dinheiro para dar a ele, pois pagou a minha parte do almoço e não o queria aceitar. Armado em cavalheiro, imaginas? O mais estranho, eram duas velhas que não tiravam os olhos de mim…

(This is a true story!)

Música de fundo
“Drill Sargeant”N.E.R.D.

terça-feira, 11 de maio de 2004

História Universal
- A Antiguidade Clássica –

Nunca gostei muito da escola, embora tivéssemos momentos divertidos; o melhor que posso dizer, é que a disciplina de História sempre incutiu em mim um certo fascínio. Aquelas carnificinas entre milhares de homens, as pilhagens e as pestes na realidade prepararam-me para a vida.

O meu descendente é um tipo prático apesar da sua tenra idade. Escreve programas aos 11 anos, e quer um dia vir a ser parecido com o que sou (coitado); teve hoje uma aula prática de História. E para isso levaram-no ao teatro a ver uma peça intitulada “O Ulisses”.

Vocês não sabem, mas todos os Verões leio a “Ilíada” e a “Odisseia”. Ulisses foi um dos meus heróis de juventude, com os seus estratagemas; sempre com rumo marcado para um destino que acabou por alcançar; ao contrário de mim. Talvez seja por isso que continuo a ler o livro todos os anos. Na esperança que me forneça pistas, que um dia me permitam finalmente chegar a Ítaca, ou lá o que é…

Curioso, pedi-lhe que me descrevesse o que lhe tinham narrado, e após o jantar bebi as suas palavras aladas que aqui reproduzo; e que talvez venham a lançar uma nova luz sobre esta homérica saga (mas pelo que se segue, acho que a encenação não deveria ser das melhores).

Canto Único – Aquiles tinha um calcanhar fraco que o impedia de jogar, e passava a maior parte do tempo no banco; mais tarde havia de se arrepender de não ter abandonado a tempo um jogo importante. Havia também nessa altura um vento chamado Euro que soprava surpreendentemente de Leste e os outros também tinham nomes esquisitos.

Helena de Argos tinha fugido ao marido, e este pediu ajuda aos amigos para assaltarem a casa ao amante da mulher, e assim tentar fazer que esta regressasse ao lar. Ulisses era um deles e bem manhoso.

Havia também Nestor, um velho taxista a quem todos interrogavam sempre que não sabiam o caminho, mas enganava-se imenso nas moradas. Os Locrenses guiados por Ajax saíram das negras naus dispostos a limpar Tróia, encontraram-se com os Cefalenes de Ulisses e abriram imensas garrafas de vinho numa caractera para fazer uma hecatombe aos Deuses.

No dia seguinte construíram um cavalo de pau, montaram-se nele e foram para Tróia onde entraram sem problema; e quando todos estavam a dormir, abriram a porta para os amigos poderem entrar e dar cabo daquela malta toda.

Ulisses depois de tomar Tróia, disse que estava atrasado e tinha que ir para casa. Infelizmente pelo caminho o Deus das “Águas Neptuno” afundou-lhe o navio, e ele teve que seguir viagem de jangada.

Entretanto Telémaco vendo que seu pai Ulisses nunca mais chegava, foi à procura dele por todas as ilhas.

A jangada de Ulisses foi dar a uma praia cheia de mulheres a apanhar sol em combinação, e cantavam muito. Uma delas, Calipso, não o largava porque gostava muito dele. Mas o dos mil estratagemas estava atrasado, e Penélope já estava a bater o pé enquanto esperava por ele e ia fazendo uma camisola. Como era muito distraída, enganava-se e tinha que começar tudo de novo; e a camisola nunca mais estava pronta.

Ulisses finalmente escapou-se a Calipso, mas perdeu-se e foram todos parar à gruta de um zarolho, a quem roubaram comida e mataram depois.

Pararam na ilha Eólica que também estava cheia de mulheres. E havia uma chamada Circe que também gostava de Ulisses, que era muito namoradeiro. Eles tinham que se ir embora, mas alguns não queriam ir porque se estavam a sentir muito bem ali. Finalmente ele convenceu-os que já era tarde e tinham que ir para casa; meteram-se no barco e arrancaram.

Com isto tudo já era tarde, e em casa de Ulisses as visitas já andavam a incomodar a mulher dele, e a beber as bebidas todas do bar. Penélope estava farta de fazer tricot, e queixava-se a uma amiga, quando chegou Ulisses disfarçado juntamente com o filho, que entretanto o tinha encontrado.

Este vendo a confusão que ali andava, chateou-se e espetou uma flecha no relógio da cozinha. As visitas vendo que era tarde foram-se embora, apesar de alguns terem que ser empurrados porque nunca mais saíam.

Ulisses que já não gostava daquela casa, pegou na mulher e no filho e decidiram mudar-se. Pegou num remo e disse – quando chegar a um sítio, onde olhem para o remo e digam que é uma pá de forno, ficamos ali e torno-me padeiro.

E assim Ulisses nunca mais voltou a remar…

Música de Fundo
"Sonne" Rammstein

segunda-feira, 10 de maio de 2004

Eu vou bem… e vocês?
- An apple a day… -

Há pouco a Dr.ª Inês olhou-me com comiseração, e informou que eu estaria talvez destinado a morrer de velhice, desde que tivesse um pouco mais de juízo.

Comecei a reflectir nas implicações que advinham dessa possibilidade, mas eram tantas que tive que as trazer como trabalho de casa.

Apenas por exercício de imaginação, parti do princípio que viveria ainda outro tanto (o que não é tão provável assim…), ou mais ainda; e imaginei como seria o meu dia típico. Deixo-vos com um fragmento dos meus diários do futuro…

Almetroplex, 10 de Maio de 2064 – Querido diário, sei que não te deveria chamar assim pois és apenas uma máquina; mas como te programei com a voz daquela ingrata que há 14 anos me abandonou pelo robot de manutenção – aproveitando para levar o meu exo-esqueleto Spalding Mark II em titânio – é assim que te trato.

A torradeira está outra vez avariada. Esta mania da domótica e de ter tudo ligado em rede está a dar comigo em doido; as torradas da manhã saíram todas impressas com fotogramas do Terminator 12, e acabei por ver quase metade do filme barrado com creme vegetal. Nunca o Arnold Schwarzenegger me soube tão mal…

O frigorífico tem-se portado de modo estranho. Apanhei-o mais uma vez a usar o meu número de crédito, para aceder a sites de electrodomésticos miniatura; um dia destes vou preso por causa dele. Ainda se não tivesse aquela compulsão para compras… que irei fazer agora ás 144 embalagens de doce sintético de cereja? Se tivesse menos 40 anos talvez fizesse uma orgia; assim vão-se estragar.

Liguei mais uma vez para a Previdência para os avisar que ainda estou vivo, mas responderam-me que após seis tratamentos de regeneração celular – apenas por razões administrativas – terei que ser considerado oficialmente morto; pois já recebi umas cinco reformas e estão a ficar fartos de mim. Talvez tenha que me mudar.

De qualquer modo nunca devia ter comprado este apartamento. Não só é uma grande estopada quando o elevador avaria, mas o facto de morar no 73º andar das torres de Cacilhas só dá dores de cabeça, especialmente na altura das migrações.

Ontem tive que correr com um bando de patos que entraram pela varanda e não queriam sair da sala de modo nenhum; foi um problema.

Como são espécie protegida, os tipos da Quercus levaram a mal que eu tivesse preparado um para o jantar, e acho que um dia destes irei receber uma notificação de multa. Como tecnicamente estou morto talvez me safe do pagamento.

O meu neto que já tem idade para ter juízo – 44 anos – dorme cá esta noite pois vai a um concerto dos Canibais Hermafroditas, e à hora que este acaba já as cabines de tele-transporte estão em manutenção. Vai-me dar cabo da aparelhagem outra vez com aquelas músicas esquisitas.

O vidro anti-missil da sala ainda tem uma mossa no sítio onde lhe acertou o sub-woofer, quando ele pôs o volume no máximo da última vez que cá esteve.

Esta malta nova é do piorio; na minha juventude era tudo mais calmo. Ainda me lembro daquela cantora romântica do meu tempo, a Marilyn Manson. Era tão linda...

Também sendo filha da Marilyn Monroe e do Charles Manson, só poderia ser assim; e se tinha uma voz melodiosa… Cantava aquela música contra a droga “I don't like the drugs …”; eu nunca me fartava desse slow, sempre que o passavam nos chás dançantes do 2001.

Ou aquela cantora de ópera, a Nina Hagen… mas essa era feiinha coitada. Velhos tempos…

Infelizmente a minha memória já não é muito boa. Ainda há pouco quando vinha para casa entrei na cabine do Jardim da Estrela, enganei-me nas coordenadas e dei por mim no meio do Festival do Sexo em Bruxelas; felizmente ia prevenido com trocos senão nem podia pedir dinheiro emprestado, pois aquela malta nem bolsos tinha para guardar moedas.

Bem, por hoje já chega que me está a dar o sono. Amanhã tenho que me levantar cedo para levar o exo-esqueleto à revisão por causa dos hidráulicos (empenaram com a última queca que dei…). Acho que vou programar a almofada para sonhar com a Marilyn Manson.

Oh sim! No meu tempo é que era…

Música de Fundo
“Head Over Heels”Tears For Fears

Avalanche!...

Era só para dizer que ao ter sido atingido por uma avalanche de "blueprints", me encontro bloqueado a alguns metros da porta e talvez sem esperança de saída nas próximas horas.

Como vou ter que despachar tudo isto para poder estar na consulta a horas, é bem possível que hoje a única coisa de bom que vos possa dar seja a...

Música de Fundo
"Hey Mama" - Black Eyed Peas

domingo, 9 de maio de 2004

Teorema não-euclidiano
- Não há matemática que nos valha… -

No sentir…
o preço

No viver…
o amor

No prazer…
o excesso

No pensar…
a dor

O preço de sentir em excesso, é a dor…

QED (é latim)

Música de Fundo
“Memories of Green”Vangelis

Cores e Temperaturas
- Para todos os dias –

O dia de hoje é parado, frio, gelado; como a estadia de um insecto preso no âmbar.

Surpreendentemente o frio é também azul. Quase todos os estados extremos têm cores que gosto. A fúria é vermelha, a tristeza é negra, a calma e o frio de alma são azuis em tons diferentes; só a paixão não tem cor, ou pelo menos nunca tive tempo para reparar nisso…

Quem gosta de sentir gosta de cores, sejam elas suaves ou fortes; agradem ou não. O que interessa é sentir…

A cor de hoje é gelo azul, naquele tom em que o céu se funde no mar. Como um glaciar de vida congelada, que destila pouco a pouco pequenas gotas que vão aumentar o oceano; essa enormidade de água que é o nosso percurso.

Lágrimas geladas que se desprendem do que somos, por estalactites pontiagudas, a pouco e pouco, e se juntam para formar o que todos conhecem. Um sorriso simpático, um gesto… são resultados do desgaste da enorme massa de gelo que transportamos. É apenas o que sobra.

As coisas mais importantes continuam presas, na eterna transparência de um tempo suspenso; onde nunca virão a ser descobertas, ou então, talvez demasiado tarde noutra época.

Sou como um glaciar. Movo-me lentamente na mesma direcção há incontáveis eras, e nada pode deter essa deslocação, pois trata-se de algo inevitável que não pode ser detido; pois toda a água forma rios… e retorna ao mesmo sítio, o mar.

Acho que vou pôr mais gelo no meu rum…

Música de Fundo
“Antartica”Vangelis

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