quarta-feira, 30 de junho de 2004

A Sardinhada Zen
- A Tradição das Artes Marciais -

Algures há uns anos, autorizei o meu herdeiro a tornar-se aluno de artes marciais. Eu próprio em tempos percorri essa via, e a prová-lo tenho alguns ossinhos miúdos que devido a isso ainda me doem no Inverno.

Mas qualquer arte marcial é também uma disciplina mental, que nos ajuda a concentrar e a descobrir quem na realidade somos e o que queremos. Cenas esotéricas… e tal.

Só que hoje acabou a temporada de Shotokan, e o mestre imbuído de espírito democrático e talvez buscando contacto com o mundo real, decidiu organizar uma sardinhada para os pais. Um erro talvez, como se poderia avaliar depois.

Obteve-se autorização da escola onde eles treinam e montaram um assador no recinto, cercado por mesas judiciosamente escolhidas no refeitório. O tempo estava calmo e corria uma brisa fresca, enquanto compúnhamos as coisas já os miúdos disputavam uma partida de futebol, tendo adoptado todos eles os nomes da selecção nacional e mais alguns.

Preparei-me para me aborrecer.

E é natural. Sou um tipo que quando as coisas não correm bem transforma um dia soalheiro em manchas solares ou o tempo fresco numa tempestade antárctica. Talvez seja mesmo dramatismo a mais.

Á saída das primeiras febras assadas, já tinha sido caçado por um praticante de Reiki de cujos ensinamentos beneficiei por cerca de hora e meia; por essa altura já me encontrava quase habilitado a dar consultas. Pois segundo ele é uma questão de deixar fluir o Chakra.

Ora quem me conhece bem, saberá que deixar fluir o Chakra é daquelas coisas que são em mim uma segunda natureza.

É claro que para manter a fluir a energia vital do universo (o tal Reiki), eu e o iniciado fomos várias vezes ao “bidon” que era uma espécie de contentor plástico, no qual se guardavam hectolitros de uma agua-pé diabólica, cuja génese se deveria ter realizado em conjunções estrelares muito favoráveis, pois tinha um leve sabor a moscatel.

Na realidade pouco comi. O corpo não me exige muito quando nada lhe peço, mas o espírito encontrava-se sedento.

Neste interregno, o mestre brindou-nos com testes de quebra em barras de gelo, que depois de fragmentadas foram enriquecer a arca das bebidas. Felizmente nenhum espontâneo tentou imitar o mestre, ou a coisa teria sido mais animada.

Após as sardinhas e as febras, quando todas as crianças se encontravam suficientemente oleosas e escorregadias para poderem ir para o banho, decidiram então formar uma equipa de futebol para “bater os cótas”.

Note-se que não é fácil competir nestas condições. Além de se tratar de crianças a quem não se deve aplicar golpes sujos ou bater à sorrelfa, eram os nossos próprios filhos, o que limitava um pouco a nossa combatividade e instintos sanguinários.

Mas isso será objecto de outro estudo.

Após nos encontrarmos a perder 3 a 1 a coisa complicou-se. O primeiro sinal de que algo não estaria bem, foi quando o praticante de Reiki viu a sua baliza ameaçada e pontapeou o próprio filho (não a bola) para canto.

A mãe apareceu toda ofendida, tendo removido do campo o legítimo e o primogénito esférico, após o que os levou para casa; talvez para uma sessão de Reiki.

Mas a semente da discórdia estava lançada. Cerca de dez minutos depois parecia a guerra civil espanhola. Pais contra filhos sem quartel, e que ganhasse o mais manhoso (não sei se será esse o objectivo das artes marciais agora, mas será um caso a ponderar).

Conseguimos chegar a um empate. Alguns dos pais tinham já corrido para o banco, outros não tinham conseguido lá chegar e tinham-se ficado pelo bidon da água-pé, que era guardado por uma morena muito simpática que tinha ido sozinha com a filha (não sei porque conto isto, mas na altura pareceu-me uma informação deveras interessante).

E foi então que finalmente me coroei de glória.

Como todos devem saber, esses diabinhos só porque têm menos quarenta quilos e cinquenta centímetros do que nós, pensam que se podem esgueirar, roubar a bola e mesmo em casos mais graves fazer fintas e dizer “nha nha nha nhaaaaa”.

Encontrei-me subitamente só a meio-campo e na posse do esférico (eu detesto futebol), e como me encontrava numa situação deveras favorável corri com ele para a baliza adversária.

Primeiro fintei o filho do Augusto (fácil) que é gordo e corre pouco, pedi ao meu filho para ir ver se o telemóvel estava a tocar, segui mais uns metros e solicitei ao Filipe que me fosse buscar uma cerveja.

Mas no início da grande área ainda me encontrava rodeado por crianças ululantes.

Avancei mais nuns metros mas os meus passos tornavam-se pesados. Encontrava-me quase submerso numa moshe de corpos minúsculos que me queriam impedir de chegar ao objectivo. E que tentavam amarinhar por mim acima, quiçá para poderem daí melhor admirar a paisagem.

Fiz um último apelo ao meu Chakra, ao meu Chi, e mesmo ao espírito da água-pé e corri. Corri como nunca tinha corrido. Aliás nunca tinha corrido com três miúdos ao colo, e uma bola de futebol presa entre as costas de um e os meus órgãos reprodutores.

Mas enfiei-me pela baliza adentro como uma carga de tijolos, levando de enxurrada o guarda-redes e a avó deste que lhe estava a dar apoio técnico.

Mas ganhámos.

Levantei-me do monte de corpos mesmo a tempo de aceitar a fresca Carlsberg da vitória, e rumámos a casa após as comemorações da praxe; nas quais troçámos dos pobres infantes que não se conseguiam ainda bater com um monte de velhos acabados.

De qualquer modo acho que tenho que meditar sobre o meu Chakra. É que o ponto onde a bola se encaixou ainda me dói um pouco…

Música de fundo
“Spacelab”Kraftwerk

segunda-feira, 28 de junho de 2004

Pintura

Existe um espaço em mim a que nunca dei nome.

De onde são raspados todos os esboços, e quadros condenados que nunca consegui completar. Uma pele gasta onde se escondem fantasmas de gravuras apagadas, um enorme vazio percorrido por farrapos nevoentos de imagens passadas.

Uma tela vazia de onde raspei inúmeros quadros.

Gritos arrancados de cores fortes, pintados em dias sombrios sobre anteriores paisagens de sol e olhos sorridentes. Recordações diluídas em lágrimas de terebintina, unhas como espátulas, palavras como lâminas.

De cada vez fica uma marca, um indelével vestígio. Uma ruga de choro e riso, que vai caracterizando a tela quase em branco; à qual um dia chamarei “O Meu Auto-retrato”.

Música de Fundo
“Spade”Marilyn Manson

Desejo de Expressão

Acordei e levantei-me para encarar o dia em que o mundo veria um novo tipo de conceito, resolveria a última equação ou experimentaria um novo sentimento.

Fiz a barba, moldando mentalmente a forma da minha ideia, como quem tira pedaços de argila e suaviza a curva de um cântaro.

Lentamente, durante a manhã limei arestas e destaquei relevos. Comecei por me livrar de imagens demasiado elaboradas, que apenas iriam confundir quem me lesse; deixando assim antever toda a clareza e simplicidade do que sinto.

Almocei ausente de mim próprio. Consegui até concentrar-me plenamente em pensamentos técnicos; mas no fundo da minha mente, o que eu iria escrever encontrava-se em processo de simplificação.

Não escreveria muito. A ideia, como um cristal, deveria ser clara e não deixar dúvidas sobre a sua natureza; sem disfarces.

Finalmente encarei o teclado, e preparei-me para transformar em frases escritas tudo o que tenho dentro de mim. Mas não havia nada.

Apenas se pode dar o que realmente se tem…

Música de Fundo
“Clocks”Coldplay

domingo, 27 de junho de 2004

ULISSES
- Gomorra, essa bela localidade… -

Por muito sono que tenha, há coisas que não devem ser deixadas para depois; não só porque o mundo deve tomar urgentemente conhecimento delas, mas também porque se deixar passar muito tempo esqueço-me.

Como já escrevi antes o Tenente Figueiredo casa para a semana (tadinho). Aliás já tive ocasião para o felicitar, e dizer que toda a gente devia casar pelo menos uma vez. É daquele tipo de acontecimentos marcantes mas altamente didácticos, dos quais toda a gente deveria ter alguma experiência. Um pouco como a tropa, mas mais divertido nos primeiros anos…

E começa assim a nossa jornada.

Ungidos de humildade abandonámos a margem sul em transportes públicos, não fosse o demónio da alienação fazer-nos gastar uma pipa de massa em multas ou pregar-nos com os ossos numa cela fresca e acolhedora.

Íamos preparados para quase tudo. Não só porque somos corajosos, mas também porque
já estava tudo previamente organizado; além do que o noivo é quase tão bom como eu em programação de eventos.

Começámos por jantar todos ao molho num restaurante manhoso (O Bandolero), em que por uma determinada soma fixa, poderíamos comer o que quiséssemos e até talvez morrer em pecado. Bastando para isso exagerar na gula a ponto de se tornar suicídio.

Nessa altura pedi perdão a Blog e servi-me de mais umas deliciosas entradas de morcela assada.

Cerca da meia-noite, já tínhamos entretanto encontrado ousadia e motivação para nos fazermos ao caminho, e enfrentar todos os perigos que esperam o incauto viajante que se arrisque na senda do vício.

Pagámos e saímos ordeiramente, não sem antes termos tido que desfazer um mal-entendido respeitante ao pagamento da conta; visto que os nossos anfitriões teimavam que um de nós se tinha esgueirado sem pagar. Lá os convencemos a bem (éramos doze) e abandonámos aquelas paragens sem que acontecessem acidentes.

Estava lançada a semente da grande obra nocturna que iríamos erigir, e porfiar para que não decaísse antes da manhã.

A grande desvantagem de todas as democracias, é que as pessoas além de poderem falar quando lhes apetece, podem igualmente dar ideias estúpidas sem serem perturbadas por caldaças no pescoço ou discretos beliscões em locais sensíveis.

Por isso fomos vogando ao sabor da maioria, o que nos conduziu em “s” (é a letra mais parecida que consegui encontrar) pelo interior do Bairro Alto por cerca de seis quilómetros, tudo isto sem ter bebido nada, o que começava a provocar algum mal-estar na maioria; que já se interrogava se isto da democracia seria o regime mais indicado para despedidas de solteiro.

Após algumas considerações mordazes sobre a sanidade mental dos elementos que guiavam o grupo, e termos igualmente constatado que tínhamos passado à porta do mesmo bar pela quarta vez consecutiva, parámos finalmente.

Mandámos então a baixo a primeira rodada de Shots de Tequilla, que como toda a gente sabe é o ideal para sacudir o tédio e eriçar todos os pêlos a quem a bebe. Infelizmente estava tanto calor no bar onde parámos que após trincar o limão, meu amo começou a comportar-se de modo estranho; suando copiosamente e balbuciando fórmulas cabalísticas enquanto se benzia com convicção. Soubemos mais tarde que ele nunca tinha bebido Tequilla.

Sem dúvida ele precisava de se sentar para retemperar forças. Amavelmente amparado por dois elementos mais enérgicos, foi transportado quase sem tocar no chão e seguro pelos sovacos até ao Largo do Chiado. E já que estávamos por ali aproveitámos para ir ao “Nina”, pois os sofás de cabedal vermelho seriam perfeitamente indicados para acomodar o delirante construtor civil.

Começou aqui a parte mais interessante da nossa noite. Por momentos lembrei-me de Bloomsday, e apesar de não ser grande apreciador de Joyce compreendi-o verdadeiramente nessa altura. Todo o frequentador do “Nina” é um Ulisses.

Ocupámos cerca de um quarto do recinto e acomodámo-nos para passar algum tempo, enquanto no palco central rodeado de bancos evolucionava uma falsa loura. Ou poderia ser uma falsa morena, dependendo do que teria sido tingido.

Meu amo, retemperado pelo ar-condicionado de boa qualidade tinha recuperado a sua vitalidade. Aproveitou uma ida à casa de banho para passar pela recepção, e aí encomendar uma “lap dance” para o futuro noivo.

Cumpre-me informar-vos que esta parte do ritual é muito importante, visto que serve para dar a saber ao esponsal que irá abdicar de um monte de coisas; é uma espécie de rito quase maçónico, em que lhe é dado a ver (e ás vezes a cheirar) algo que durante muitos anos lhe irá assombrar noites monótonas.

Ela começou muito bem. Aproveitou logo de início para remover algumas roupas que estavam a atrapalhar, e ao ritmo da música meteu a cabeça entre as pernas do homenageado, fazendo de imediato o pinho e encostando-lhe as nádegas à testa.

- Porra, que esta gaja já me estragou o gel! – disse o Tenente Figueiredo em voz abafada, talvez a contas com o fio dental da dançarina.

E na verdade a sua poupa encontrava-se totalmente despenteada. Mas alguns momentos depois isso já não importava muito, pois teve que dar atenção a outro tipo de informação, que lhe era metida pelos olhos a dentro.

Mas foi uma linda cerimónia, embora eu encurte aqui um pouco a descrição para benefício de personalidades mais sensíveis.

Infelizmente começou a correr o risco de se tornar monótono, porque se começaram a formar facções que se quotizavam para oferecer “lap dances”, a quem achavam que reagiria de modo mais divertido. E a coisa descontrolou-se um pouco. Até o Nunes ia tendo um problema com a hérnia, mas felizmente acabou tudo por se resolver.

Para evitar futuras más figuras, alguns de nós retiraram-se para os bancos que rodeavam o palco central, e aproveitámos para discretamente fumar um “brelaite” por debaixo do exaustor de fumo.

- Isso aí é um “baseado”, né? – Perguntou a dançarina de serviço com um evidente sotaque carioca. Mas como evidentemente tinha que se manter em permanente movimento, quando olhámos já não tínhamos a sua cara no horizonte visual.

A noite entretanto animou imenso. A gerência demonstrou a sua cordialidade para connosco, enviando um emissário com o pedido que não tentássemos mais pendurar notas na dançarina, sem que ela tivesse previamente vestido o fio dental. Parece que se tornava um pouco incómodo.

De qualquer modo nessa altura eu já não me encontrava ali. As mesas de canto eram muito confortáveis, e apesar do Whisky não ser grande coisa o DJ tinha um gosto eclético; e pelo menos a banda sonora conseguia aproveitar-se.

Mas tornava-se tarde. O peso das horas e de tudo o mais começava a fazer-se sentir em nós, e já eram cinco horas da manhã.

Saímos então ordeiramente para mais uma caçada aos gambuzinos. Um bar do qual não me lembro agora o nome (e é natural, porque nunca lá chegámos), cuja demanda nos custou duas intermináveis horas a pé, que aqui não descrevo porque seria outro post.

Posso apenas dizer que ás sete horas o sol brilhava alegre e limpo, enquanto na proa do “ferry” fazíamos o balanço da noite. Apenas meu amo sentado numa das cadeiras da coberta, roncava através do sono dos justos como um Renault Saxo todo “kitado”. Parecendo até ás vezes que derrapava um pouco nas curvas.

Mas eu tinha perdido o sono. Apesar da noite ter estado repleta de formas citrinas e vulvares, toda aquela performance tinha tido tanto sentido como ser executada por insectos de uma galáxia distante.

Maldisse Joyce mais uma vez, e em vez de dormir acabei por ir pedalar.

O vazio é fodido, quando ataca pela manhã…

Música de Fundo
“Heart on Ice”Emerson, Lake & Palmer

sábado, 26 de junho de 2004

Breve Apontamento

É Kafkiano um tipo sentir-se um inquilino de si próprio. Nem sei como me lembrei disto, assim sem mais nem menos.

Mas um inquilino de uma mansão de quartos vazios, está sempre dentro de si próprio. Pois é assim que se vê.

Música de Fundo
“What it Takes”Aerosmith

sexta-feira, 25 de junho de 2004

De regresso à “Fábrica de Saltos Mortais”

Não sou um grande apreciador de animais.

Na verdade a minha posição em relação à co-existência com os bicharocos, limita-se ao “viver e deixar viver” e a “não se mata se não for para comer”; o que pode ser já considerado um grande progresso em relação aos (por exemplo) que sendo apaixonados por cães, não falham no entanto um fim-de-semana a metralhar perdizes atarantadas recém-saídas de uma caixa de cartão.

Por isso esta manhã quando cheguei ao escritório, antevia já com prazer o momento em que iria matar saudades dos meus velhos amigos, os peixes do aquário.

Como já devem ter reparado, os bichos que melhor suporto são os peixes. Não só pela harmonia de formas e fluidez de movimentos, mas principalmente por uma razão que sobrepõe a tudo o mais, são silenciosos; e desde que os consigamos manter dentro do aquário, não chateiam ninguém.

Quando hoje me aproximei do enorme recipiente de vidro, constatei que este tinha apenas um ocupante, Henry.

June e Anais não se conseguiam encontrar em parte alguma, pelo que armei logo ali um alarido digno de meu amo e mentor; que nos últimos anos me tem ensinado sobre as grandes vantagens de um par de berros dados na altura certa.

Impulsionada pelas ondas sonoras Miss Entropia perfilou-se junto ao aquário, tendo balbuciado em voz compungida uma explicação altamente improvável, que envolvia amores traídos, duelos selvagens e um ajuste final de contas entre as duas fêmeas pela posse do bexigoso macho.

Quando chegou à parte do alucinante duelo com conchas partidas já eu me ria como um doido, o que inviabilizou as posteriores tentativas por parte dela para disfarçar a dolorosa evidência. Aquela parva tinha-os morto à fome!

Como todas as boas almas que não utilizam regularmente toda a sua capacidade cerebral, partiu do princípio que em caso de necessidade as algas e os fungos seriam comestíveis; pelo que não se importou com a periodicidade da alimentação dos peixes enquanto eu estava de férias.

Seria o mesmo que a fechar em casa durante duas semanas, dizendo-lhe que em caso de fome sempre poderia dar umas dentadinhas no sofá, ou mesmo na tábua de engomar.

Tive enormes tentações de a entaipar ao mais puro estilo de Edgar Allan Poe, utilizando o vão da escada e algumas tábuas avulsas; mas no momento em que me preparava para a insensibilizar com um pisa-papéis em formato de cenoura, apareceu o Tenente Figueiredo com animadoras notícias que logo fizeram esquecer as demais desgraças.

Amanhã à noite será a despedida de solteiro do Tenente Figueiredo, que casará (tadinho) daqui a uma semana; pelo que vai haver grande confusão ali para os lados do Bairro Alto amanhã à noite.

Quanto a Henry e à sua solidão, resolver-se-á um dia destes. Até lá, um bocadinho de isolamento só lhe será benéfico para pôr as ideias no sítio e repensar toda a sua existência (num aquário, pois…).

Além disso, a verdadeira razão pela qual não lhe vou arranjar já companhia, é que quem vai limpar o aquário é Miss Entropia, e eu não sei se ele sobreviverá a isso…

Música de Fundo
“Big Eyed Fish”Dave Matthews Band

quinta-feira, 24 de junho de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Esse delicioso pecado que é a gula… -

Tal como com os personagens de Tennessee Williams toda a minha vida é ditada pelas circunstâncias.

Quis pois o destino que chovesse no meu último dia de praia, o que me condenaria normalmente a qualquer tipo de “Indoor Activity”.

Como estava em maré de azar tive que me contentar com a minha nº 2 da lista dos favoritos, e aceitei a sugestão do Apóstolo para mitigar as minhas mágoas com as alegrias do pecado da gula.

Como sabeis a gula é um pecado muito importante. Apesar de não dar a mesma adrenalina e velocidade de ponta que a luxúria, tem também momentos de prazer; embora estes não se comparem em termos de qualidade.

Além disso pode ainda produzir efeitos secundários, tipo aumento de peso ou incapacidade para dançar em pontas sem o auxílio de maquinaria pesada.

Apesar de tudo apliquei-me, tal como com todos os pecados que possam dar prazer. Mas Blog mais uma vez enviou sobre mim a retribuição para a minha transgressão, e também diga-se a talhe de foice, possivelmente como vingança pelos posts lamurientos que tenho escrito.

Em todo o caso inviabilizou todo o prazer que eu pudesse ter tirado disso.

O facto é que após uma rapsódia de comida beirã regada com algumas garrafas de vinho da Covilhã, chego a casa para encarar um monitor com mensagens de erro em bela cor azul.

Fui logo buscar um digestivo.

Dizem alguns técnicos da Microsoft, que a única maneira de reparar o registry sem dar em doido é estar um pouco toldado. Apenas demorou quatro horas a resolver, pelo que achei um exagero o comentário técnico.

Mas com isto tudo acabei por não falar do pecado da gula. Nem falo, porque este tipo de avarias tira-me do sério, do mesmo modo que me corta a onda para escrever seja o que for.

Talvez amanhã…

Música de Fundo
“Darkness”Lamb

quarta-feira, 23 de junho de 2004

As minhas estúpidas férias estão a chegar ao fim.

Bronzeei-me e fiz mais introspecção que qualquer Guru de Los Angeles. Mas de nada serviu, pois sou sempre o mesmo e faço gala nos meus erros; acho que não tenho remédio mesmo…

Fui fadado um dia e não quis acreditar, mas tem dado sempre certo. Nada do que me disseram se tem alterado uma palavra.

Uma espécie de “Absolute Beginner” pela eternidade e mais um tempo. Algo que apenas produz insatisfação e recordações literárias. “O Homem como Modelo de Tentativa”, alguém que nunca chega a lado nenhum.

Estou apenas parado no meio do tempo, iludo os meus dias com as suas múltiplas facetas, como se contemplasse um eterno pôr-do-sol. Sei sempre o que esperar a cada minuto, embora gostasse de pensar que nem todos os pores-do-sol são iguais. Gostaria mesmo…

Mas as minhas férias estão a chegar ao fim.

E eu estou farto…

Música de Fundo
“Holiday”Scorpions

terça-feira, 22 de junho de 2004

Iniciação

O alvorecer pintava os céus de cores garridas. Saindo dos seus túneis Bi-lac e Tu-pac observaram o terreno, e constataram que a neblina nocturna tinha mais uma vez depositado a cordilheira oscilante como uma miragem no meio do deserto.

Dando pequenos estalos enquanto verificavam os exo-esqueletos, foram-se aproximando do local onde todos tarde ou cedo sempre iam; o lugar de iniciação.

A informação disponível baseada em relatos fragmentados e esparsos no tempo, não era mais que um monte de conjecturas; porque relato algum atestava a natureza da cordilheira oscilante. Um fenómeno periódico, que ás vezes se tornava desastroso em termos de protecção civil.

Todos os jovens acabavam por tentar a escalada e posterior exploração, mas raramente passavam do primeiro estágio. A mortalidade causada por este ritual controlava a demografia de toda a colónia, impedindo que se expandisse demasiado por falta de elementos.

Tu-pac agarrou-se com um dos apêndices a um caule serpentiforme que despontava da escarpa, e formou o salto utilizando os seus oito apêndices posteriores. O companheiro optara por fazer o salto a partir do terreno, e encontrava-se já bem acima seguro a uma excrescência exactamente igual.

O solo de vez em quando vibrava, como se dentro de si mil sóis estivessem em conflito contínuo, bem no interior de toda a formação.

Com dificuldade chegaram ao topo. Distinguiam-se ao longe e para o interior, depressões e colinas que terminavam num desfiladeiro central, protegido por uma floresta de caules emaranhados que pareciam esconder algo.

O calor do sol reflectia-se no terreno. Tratava-se de um meio hostil que lhes poderia secar os corpos em pouco tempo; por isso as práticas de iniciação duravam tão pouco tempo.

Calculando que não teriam mais de quinze fragmentos de tempo, Bi-lac fez sinal ao companheiro e lançou-se numa sequência de saltos rápidos, que quase o levavam à parte final do trajecto.

A muito pouca distância do final, uma das formações deslocou-se esmagando-o no caminho. Pelo que Tu-pac recuou aterrorizado e saltou a distância até terra firme de um único salto, o que lhe causou posteriores problemas físicos.

O sol avermelhado banhava a praia. Dando uma palmada ligeiramente abaixo do umbigo, Ana virou-se para a amiga e disse – Já reparaste que os pulgões do mar, parecem estar este ano muito mais espevitados?

Música de Fundo
“Surfin’ U.S.A.”The Beach Boys

segunda-feira, 21 de junho de 2004

Cadernos de Manutenção Preventiva

Fui hoje visitar a Dr.ª Inês. Estava na altura da minha 3ª dose de vacina e os comprimidos dos triglicéridos estavam-se a acabar.

Entrei de nariz no ar e preparei-me para a provação da sala de espera; o que não esperava era o cenário que se me deparou. Aquilo estava cheio de doentes!

Tipos com constipações de verão e alergias, mulheres desidratadas e quase liofilizadas por dietas milagrosas. E no meio daquele cenário digno de Bosch, eu com o meu bronzeado, montado nas minhas sandálias de praia; como se me tivesse enganado na sala de espera ou coisa assim.

Quando fui chamado já ostentava um ar muito mais abatido e adequado à ocasião, não há nada melhor para nos fazer pensar do que uma sala de espera.

- Está com bom aspecto – disse ela no seu humor retorcido – se tivesse mais dez anos, recomendava-o para o anúncio do mel “Granja S. Francisco”.

Encarei-a fixamente. Constatei que não descera demasiado fundo neste estado depressivo, pois ela ainda não me começava (nem vagamente) a parecer atraente. Havia pois esperança de cura.

- Porque é que um tipo com esse bronzeado me aparece com ar de carneiro? – perguntou sem meias medidas – Pensa que quando o mundo acaba, é só para si?

Esse momento deu-me vontade de rir. Pois sem saber, ela tinha enunciado algo que seria verdade noutro contexto. É para isso que servem os oráculos e os médicos.

Como eu não lhe respondera, concentrou-se na papelada. O que com os óculos sobre a ponta do nariz lhe dava um ar de raposa de fábula. É a única mulher que imagino como um personagem de banda desenhada.

Após me auscultar e agredir em diversos pontos nevrálgicos, considerou-me dentro do prazo de validade, e mandou em paz.

Olhei ainda para trás à espera de uma última observação, mas ela despediu-me com as seguintes palavras. – Não tenho um fato de banho que me sirva. Acha que isso me dá vontade de dar bons conselhos?

Música de Fundo
“Somebody to Love”Queen

domingo, 20 de junho de 2004

Tarot

Quando me dispo de tudo o que me acompanha consigo reconhecer-me. Há algo em mim que nunca muda, e que fica no fundo a aguardar o momento de aparecer novamente.

Como uma maldição recorrente para a qual não há solução, os ciclos fecham-se sobre mim. E é cada vez mais difícil encarar o fim de um universo, por mais pequeno que seja.

Sou um construtor de ruínas, pois na sua génese todos os meus castelos têm incluído o seu próprio fim. Construções com prazo de duração e sem salvação possível, com data de término sempre marcada em que tenho que voltar mais uma vez a arrumar o que sobra. Normalmente cinzas, claro…

Erijo impossíveis na palma das minhas mãos. E vejo-os materializarem-se gradualmente consistentes, até darem a impressão de realidade. Mas construo sobre a areia do tempo que inexoravelmente tudo arrasta.

Quando não há mais nada só resta virar a ampulheta, mais uma vez.

Música de Fundo
“King of Sorrow”Sade

sábado, 19 de junho de 2004

Arrumações

Estou a deitar fora toda a areia com que edificava os meus castelos. E talvez a praia, e mesmo o mar…

Mas há sempre coisas das quais não nos conseguimos desfazer.

Não se apaga parte de uma aguarela. Que sentido tem pois esquecer coisas, se as suas razões não puderem ser evitadas?

Estou a deitar fora toda a areia com que edificava os meus castelos. Mas posso sempre voltar a fazê-los com outro material…

Música de Fundo
“Black Wings”Tom Waits

Data Estrelar 19-06-04 15:16

A vida de comandante é muito atribulada. Encontrava-me no meu camarote a pedalar no velocípede estático, quando fui interrompido pelo Oficial de Máquinas. Vinha coberto de poeira branca e o seu ar não poderia ser menos mecânico; algo se passava para me ter interrompido um dos poucos prazeres terrenos a que me posso permitir. A dor…

- A escada está cheia de poeira, vizinho. Sem máquinas vai ser difícil fazer reverter a escada ao seu estado inicial, já gastei uma embalagem inteira de Sonasol Verde…

Sem dúvida que o momento era grave. Neste tipo de embarcações, a limpeza é um dos itens mais preciosos; faz com que toda a tripulação se sinta em casa, e permite-nos aguentar as intermináveis viagens a Warp 3.

- Olhe, D. Maria do Carmo – disse-lhe eu puxando dos galões que estavam em cima da mesa perto das torradas. – Seja como for, esta nave amanhã pela mesma hora deverá estar limpa como um apito, ou melhor, como uma tigela de mousse de chocolate distribuída num asilo de kosovares. Que é onde irei buscar o próximo 1º de Máquinas, se essa treta não estiver toda a brilhar amanhã pela manhã.

Endereçou-me um olhar enviesado. Desde que esta tripulação foi formada que não posso com o 1º de Máquinas. É desleixada, tem sempre desculpa para todas as falhas (o que lhe pode proporcionar uma boa carreira no meio político) e no fim quando as coisas aquecem, passa a responsabilidade para as chefias.

No fundo, talvez ela pense ser uma espécie de funcionário público. Que aterrou nesta escada para fazer a limpeza, ou não, conforme o horóscopo do Correio da Manhã lhe aconselhe.

Mas hoje estou muito mal disposto.

Além de termos perdido todo o contacto com a espécie humana, descobri que a missão principal desta nave é percorrer o cosmos aleatoriamente em busca de algo do qual não fazemos a menor ideia. É a vida apresentada como uma espécie de caça aos gambozinos. O pior pesadelo de qualquer comandante, quando finalmente descobre que nada faz sentido excepto vogar sem destino.

Enfureci-me, talvez um pouco em demasia. Mas alguém teria que pagar toda aquela solitária angústia que vem sempre com um comando que aceitamos

– Ó Dona Maria do Carmo – foi como eu comecei esta moratória, com fundo musical do malogrado Frank Zappa – atendendo a que nas últimas duas semanas e a coberto das obras que se têm efectuado no nosso imóvel, não efectuou nenhuma das (4) limpezas agendadas; o melhor que terá a fazer, será apresentar a escada não tão limpa como um bule de prata, mas pelo menos razoavelmente livre dessas poeiras e pedaços de entulho que vê para aí!

Agora – continuei – se realmente estará interessada em ser substituída por uma daquelas empresas ranhosas, que limpam tão mal como você mas levam metade do preço, não tenha problema que desembarcamo-la na próxima escala…
Saudando com todo o rigor militar, o 1º de Máquinas empunhou o balde e a esfregona dirigindo-se para o seu sector de detalhe.

Olhei para a vigia holográfica que cobre a parede. Aproximamo-nos de Beta Lirae, que já se deixa ver por entre névoas azuis esverdeadas. Se não fosse este tipo de espectáculo, pouco haveria que minorar a solidão de estar no topo; não como uma águia num penhasco mas “comme un oeuf dansant sur un jet d’eau”, sempre na fronteira de tudo.

Sempre a funcionar.

Esta nave tem que seguir o seu rumo. Uma espécie de Holandês Voador no meio de uma sessão de tiro aos pratos; mas temos que seguir por diante.

Felizmente já sinto o cheiro do Sonasol Verde… Warp 4 Mr. Sulu…

Música de Fundo
“Spaceman”Nuno Bettencourt

sexta-feira, 18 de junho de 2004

Captain’s Log

Segui hoje conselhos em tempos dados a outros. São daquelas verdades universais que debitamos ás vezes, e que não raramente se voltam contra nós.

De manhã, finalmente eu e o Apóstolo encontrámos a Monitora ideal. Era facilmente detectável, pela enorme concentração de elementos da Polícia Marítima e Nadadores Salvadores do ISN. Parecia uma espécie de presépio mas com hormonas…

Os Nadadores Salvadores inchavam o peito dentro das t-shirts, e pavoneavam-se em redor empunhando as bóias vermelhas como se estivessem em casting para o BayWatch. A Polícia Marítima examinava detalhadamente o terreno em busca de beatas ou garrafas vazias.

Era difícil encontrar tanto zelo junto em apenas 10m².

Agora corre uma brisa lá fora. Por momentos o vento assemelha-se ao ar do deserto, abrasador como a porta de um alto-forno onde ardem todas as paixões. Uma espécie de inferno para desocupados.

Escrever é talvez o melhor remédio para estas férias, em que tudo acontece de um modo estranho. Deve ser do calor.

É o “Mundo sem Ar Condicionado” onde o fogo é elemento base.

E onde está o fogo não existe mais nada…

Música de Fundo
“Tommy”The Who

quinta-feira, 17 de junho de 2004

O Mergulho Nocturno

Acelerou o passo embora não se tratasse de uma fuga. Na realidade apenas não queria ser visto, pois não saberia que responder ás perguntas que lhe fariam, ou como se comportar no meio deles.

Aproveitou a sombra das últimas árvores mais baixas, e fazendo-se mais pequeno esgueirou-se em direcção à ponta da falésia, onde se conseguia ainda vislumbrar à luz da lua, o rendilhado da água que embatia regularmente contra as rochas.

Agachou-se numa depressão entre árvores, e ficou ali a observar os reflexos prateados das águas, que por sua vez se reflectiam novamente nos seus olhos desmesuradamente abertos. Vinha-lhe ás narinas a sugestão do sal, um híbrido entre cheiro e sabor que acabava mas suas papilas gustativas como um chamamento.

Saboreou aquele cheiro, levemente indeciso sobre saltar ou não. Avaliou a profundidade e o comprimento da língua de água que se estendia à sua frente. A queda ainda seria longa…

As vozes tinham deixado de se ouvir. Aliás não fora para ali empurrado pela perseguição; tinha sido apenas um impulso que o levara na direcção do oceano, e na realidade não conseguia descobrir no meio de todos os pensamentos confusos, uma única razão para ali estar. Do mesmo modo que não encontraria razão, que igualmente o apoiasse em contrário.

Livrou-se das roupas. Por momentos a lua iluminou-o, arrancando-lhe reflexos cinzentos como se tratasse de um bloco de prata ou de algo feito a partir de metal líquido.

O quase-sabor salgado que se desprendia das águas, exercia um apelo urgente sobre todos os seus sentidos. Inspirou-o renovadamente, e com estudada lentidão deixou-se cair para a frente, entrando nas vagas como uma faca de gume afiado.

Como um projector de luz pálida, a lua iluminou pela última vez o dorso prateado no topo de uma onda que se espraiou; guardando no mar os reflexos metálicos do enorme peixe, enquanto este mergulhava.

Cada vez mais fundo…

Música de Fundo
“Loverman”Nick Cave

quarta-feira, 16 de junho de 2004

Os Dias da Rádio
(Título indecentemente plagiado)

Lembro-me que tínhamos um velho Normende a válvulas. Parecia uma caixa para pão, com uma enorme grelha iluminada onde se lia “Oslo, Brunswick, London”, etc.

O meu avô costumava barafustar da qualidade dos programas, mas quando havia ópera toda a gente tinha que se calar lá em casa. E no meio de um silêncio sepulcral, a voz de Elizabeth Shwarzekopf ou Maria Callas enchia o sexto andar com trinados e gritos de angústia.

Eu ia para a janela olhar o rio. Imaginando que aquelas mulheres choravam algo que talvez tivessem perdido, e eu não sabia o quê… pelo menos ainda.

O Sr. Matos Maia e o “Quando o Telefone Toca” eram mais para o público-alvo feminino (a minha mãe adorava a voz do tipo). Mas nós não tínhamos telefone, e assim o gineceu lá de casa tinha que limitar-se a ouvir as que tinham o privilégio de pedir as músicas. E comentavam, é claro, o que elas aproveitavam para dizer enquanto estavam no ar.

Era o tempo em que influenciado por Júlio Verne, eu pensava que as músicas vinham pelo éter, esse eflúvio que nos rodeava invisível.

Acho que recomeço a acreditar no éter, e em muitas outras coisas como a má sorte, e talvez com um pouco desta ainda acreditasse em muito mais coisas. Mas não faz o meu tipo.

Navegam no éter todos os meus romances por escrever, e por viver também… está tudo no éter; há apenas uma questão - Porquê escrevê-los se já existem?

Música de Fundo
“House With no Door"Van Der Graaf Generator
(Outra vez, eu sei…)


terça-feira, 15 de junho de 2004

Escrita Entrecortada

Ás vezes levanto-me a meio de uma música e vou escrever um pouco. Chama-se a isso filtragem, porque tem que ser algo suficientemente interessante para vencer a inércia; mas nem sempre resulta.

Nem sempre o que me sai da ponta dos dedos pode ver a luz, e sento-me novamente a escutar, tentando preencher o espaço que tenho de sobra, não sei bem onde…

Há que lidar com a realidade, como com uma nova história que se escreva; sem grandes hesitações ou pensamentos demasiado profundos. Apenas uma história de argumento leve que nos transporte nos dias turvos, enquanto não existe ligação entre o passado e o futuro.

Tentar travar o pensamento, é o mesmo que o fazer ao ritmo cardíaco ou à respiração.

Fico na esplanada a olhar as árvores da rotunda, e a escrever mentalmente textos infindáveis que não gastarão papel algum; apenas ficções alternativas que deveriam ter acontecido, mas que não passam de ficções.

E apenas no meu espírito…

Música de Fundo
“La Rossa”Van Der Graaf Generator

A Educação para Banhistas
- O futuro da raça está comprometido –

Mais uma manhã dourada passada no areal. Assim que chegámos foi-nos dado a reparar que hoje seria um dia dedicado à educação, talvez pelo grande número de autocarros de colégios estacionados no parque.

Saltaram-me à memória os velhos tempos de Colónia de Férias, em que espreitávamos a monitora Clara a despir-se à noite, através de uma janela da camarata.

A infância é uma fase altamente educativa…

Fomos então praia adiante, dispostos a avaliar a hipótese de trabalho que teriam os infantes de hoje para as suas fantasias; isto com base no pessoal acompanhante.

Pura desilusão.

A avaliar pelo leque de monitoras presentes na praia, está em risco a imaginação dos homens de amanhã, que não têm ninguém em quem a exercitar.

Algumas delas encontravam-se deitadas em toalhas, conseguindo assinalar-se o local ao longe; pelo facto de as gaivotas se afastarem dali apavoradas, soltando gritos lancinantes.

Saímos dali maldizendo a sorte daquelas pobres crianças, que teriam que viver com aquelas imagens até ao fim dos seus dias.

Quando nos retirávamos o Apóstolo ainda me perguntou – Ouve lá, ainda tens aquelas fotos da monitora Clara?...

Música de Fundo
“Cosmik Debris”Frank Zappa

segunda-feira, 14 de junho de 2004

38º (E não há sombra)

Apaguei o texto que estava a escrever e fui ler um livro. Dei por mim a ler coisas que não estavam escritas, e a ter pensamentos paralelos ao texto com o qual estes nada tinham a ver. Desisti de ler.

Olhei para a televisão, rejubilando-me pela coragem que tenho em a manter desligada; coloquei um CD na aparelhagem e tentei obter algum prazer da música. Nada feito. O aborrecimento instalara-se.

Decidi sair.

O calor atingiu-me na cara como uma estalada bem dada. Abanei ligeiramente a cabeça, compus os óculos escuros e encaminhei os meus passos pela alameda, caminhando ao acaso com a mente vazia em busca de algo que a preenchesse.

Nada de pensamentos criativos, ou episódios dignos de nota. Apenas uma vaga de calor intenso, como o bafo de um forno industrial ou uma pequena amostra do inferno para desocupados.

Acho que estou a tirar férias da escrita.

Estive cerca de 25 minutos frente a um balcão do McDonald’s, e não consegui fazer um post disso. Apesar do funcionário borbulhento, da sua deficiência em aritmética elementar e frequentes confusões sobre os conceitos “médio” e “grande”.

Sentei-me num Café pintado de verde e li um jornal que estava preso a uma ripa para que não o roubassem. A reforçar essas medidas, a empregada endereçava-me miradas periódicas, não fosse eu desaparecer com o dito.

Amanhã é dia de praia.

Talvez seja dia de blog, porque é um local onde as ideias surgem. Basta que tenha areia, água e espaço; e poderei deixar o meu espírito voar com as gaivotas enquanto caminho pelo areal.

Música de Fundo
“Strange Days”The Doors

domingo, 13 de junho de 2004

Passeio de Domingo

Interrompi o passo e parei, para pensar um pouco.

A meio do campo por um momento, peguei numa espiga amarela e vi-a desabrochar em chamas multicores que chegaram a todos os recantos de mim; levando consigo tudo o que havia para queimar.

O vento varreu cinzas de uma foto não tirada, há imensas noites num outro local; bem como de todos os futuros possíveis que adviriam daí.

O meu peito é agora um forno apagado,
sinto o vento soprar através de mim.

Não haverá sol que me chegue, ou fogo que me aqueça…

Este Verão, tenho o coração frio.

Música de Fundo
“Breaking The Habit”Linkin’ Park

sábado, 12 de junho de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Diálogos por entre uma multidão de banhistas –

- A mulher é asquerosa! – Bradou o Apóstolo em tom belicoso – Politicamente é a coisa mais baixa e nojenta que já apareceu por cá…

Obviamente tinha que o travar. Alguns narizes viravam-se já na nossa direcção, à medida que estas palavras aladas percorriam o areal.

Usando talvez de alguma teatralidade excessiva, ajeitei os calções de banho (que me ficam um pouco largos) e interpelei-o – Estás a ver aquela ali? A do bikini cor-de-laranja…

- Ah… Aquela com um grande par de…

- Exactamente essa, Zé António. – Assegurei eu

- Eu já a tinha visto – disse o Apóstolo surpreendido – mas pensei que não tinhas reparado.

- Eu sou como Blog que tudo vê – respondi-lhe – dou é um bocado menos nas vistas. Mas olha bem… Começa por admirar a cabeleira dourada, apanhada atrás por aquela fita.

- Sim e tem uns gran…

- Já sei – atalhei – mas espera, senão não vou conseguir expor o meu ponto de vista. Repara bem nas sobrancelhas bem desenhadas, como que a criar espaço para mostrar aqueles olhos cor de mel. Agora desce um pouco. Repara nos lábios vermelhos, e como ela lhes passa a língua; deve estar sequiosa…

- Já te tinha dito – desabafou o Apóstolo – Olha-me para aqueles…

- Sim. – Aquiesci – Já reparaste como são bicudos e se empinam arrepiados pela brisa, fazendo sobressair o seu peculiar formato de pêra? Desce agora entre eles, devagar…

- Ouve, pá! – Propôs-me ele – Não era melhor irmos dar um mergulho; falávamos o resto depois?

- Não! – Atalhei inflexível – Olha-me para aquele umbigo. Repara como é redondo e se contrai como uma pequena boca à medida que ela caminha. Um umbigo daqueles merece pelo menos dez minutos só para ele.

O Apóstolo aparentava já algum desconforto. Executava lentamente uma coreografia parecida com a do lago dos cisnes, mas mantendo as mãos firmemente enterradas nos bolsos.

Sem piedade alguma, continuei – Acompanha agora aquela leve linha de penugem que parte do umbigo; estás a ver onde se começa a formar um pequeno alto, que sobe orgulhoso e termina numa pequena rampa?

Nessa altura, o Apóstolo quiçá enfadado com a minha dissertação sobre geometria descritiva, lançou-se em corrida e mergulhou nas frescas águas do Atlântico, saindo um pouco mais calmo e retemperado.

- Mas afinal… – perguntou ofegante – essa conversa toda era para quê?

- É simples! – Respondi – O que queria dizer, é que se fosse ela que ocupasse o lugar de Ministra das Finanças; poupava-me a imensas dessa tuas conversas sobre política. Pois não te passaria pela cabeça dizeres dela o que dizes da MFL.

- É verdade – disse ele sensatamente – e se calhas a ter falado na outra antes, tinhas-me também poupado o mergulho pois deixava de ser necessário…

Música de Fundo
“On The Beach”Chris Rea

sexta-feira, 11 de junho de 2004

A minha fonte não me dá ironia,
nem um fogo agressivo,
nem um heroísmo inaudito.
- Fico a saber que ela longe cresce
como outra folha de erva.

Herberto Helder

Relatório de Férias (1)

Este primeiro dia não foi muito diferente do que esperava. Eu sabia que iria parar no cimo da duna a olhar para o mar com um ar ausente, como se nunca ali tivesse estado. É que a praia estava cheia de gente, e eu ainda não me habituei muito bem a multidões.

O Apóstolo bem me tentou chamar a atenção para as grandes vantagens das praias cheias de gente, tal como por exemplo a visão de febra fresca; mas eu preferia a praia mais vazia como em Outubro passado.

Pelo menos não teria que me preocupar com o local onde tinha deixado a toalha.

Não mergulhei. O que talvez queira dizer que estou a ficar mesmo velho, ou então que estou neura por estas férias não serem nada do que eu quis.

Acho que não existe mesmo coisa mais estúpida, do que estar neura no primeiro dia de praia…

“Everything is Everiyhing”Phoenix

O Aniversário

Fiquei tão surpreendido pelo que ontem não aconteceu, que ainda nem estou em mim. Mas isso talvez seja em parte devido ao facto de ter abusado um pouco do “Old Parr”, o que é apenas uma consequência lógica de ter o copo à beira da piscina.

E então perguntarão vocês – O que é que não aconteceu? – Bem, o que não aconteceu foi algo que me desse motivo para um post. Deve ter sido uma das festas mais calmas, e ao mesmo tempo divertidas a que assisti ultimamente. A ponto de eu ter adormecido duas vezes, o que me obrigou a vir à superfície um pouco precipitadamente para respirar.

Passei-a quase toda dentro de água. Ou a jogar à bola com os miúdos, ou pura e simplesmente a dar braçadas para me exercitar.

É claro que exagero quando digo que nada aconteceu digno de um post. Apesar de a maior parte dos intervenientes se ter comportado de modo surpreendentemente razoável.

Meu amo quase me provocou um ataque de coração, com a sua cordialidade e apurado bom-senso. Penso até que se não fosse a loura, não teria ninguém de quem dizer mal.

Mas a loura vale por tudo. Julga-se uma mulher moderna, inteligente e sofisticada; embora na opinião das outras (talvez com uma pontinha de inveja) não passe de uma cabra que fala demasiado alto, sem conseguir dizer seja o que for com um mínimo de sentido.

Enquanto dissertava aleatoriamente, o filho (um miúdo louro e bochechudo) que se encontrava um pouco mais longe, chorava desalmadamente parecendo uma espécie de fábrica de ranho, com as buzinas todas ligadas e sem chapéu ao sol das três da tarde. O pai deste, que curiosamente é apenas uma loura em versão masculina, olhava desagradado afirmando a quem o quisesse ouvir - …e a mãe não lhe liga nenhuma! Olhem para ele ali.

Esquecendo-se claro, que ele também ali estava a fazer uma triste figura, enquanto o miúdo parecia o órgão da catedral de Colónia. Aproveitei para lhe enfiar um boné até ás orelhas e ver se ele se calava, mas não deu resultado algum. Pelo que me voltei a refugiar na piscina.

De vez em quando e à semelhança dos crocodilos, lá trazia à superfície os meus globos oculares, mas nada se passava de novo. Tendo passado de molho quase o dia todo, para gáudio do meu filho cujo passatempo favorito é exactamente esse. Só que ele estava completamente untado com “Factor 60”, ou lá o que é, e eu não.

O que quer dizer que se daqui a pouco, algum de vocês vir na praia um vulto rosado espraiando-se na rebentação; não será uma lula gigante que deu à costa, mas este vosso amigo que está a banhos.

Só tenho é pena realmente, de não ter conseguido arranjar nada para dizer mal; mas que foi um belo aniversário foi…

Música de Fundo
“Apneia”Jim Dungo

quinta-feira, 10 de junho de 2004

Para alguém que possa eventualmente ter morrido hoje

Melhor faria o elogio de César, que de um político contemporâneo qualquer. Pois não existe obra pela qual se possa avaliar alguém, nunca antes de mil anos. Não se deve julgar um homem morto; caímos no risco de o massacrar ou transformar em Deus.

A avaliação mais correcta vem de Valentine Michael Smith, ao dizer que não passa de um monte de comida estragada. É claro que serei acusado de um sem número de delitos e pecados menores por parte de alguns que o odiaram visceralmente em vida, e que talvez agora não tenham a coragem de o admitir.

As coisas que possa ter feito serão o seu testemunho, e valerá tanto como o tempo que perdurarem. Após isso, será apenas um nome de rua que será substituído após outros oitenta anos.

Quando eu morrer vou ter imensa pena de mim. Terei pena de não ter visto os meus inimigos descer à terra, e de não ter feito outras coisas, mas ninguém o saberá.

Não sei se não serei gabado por coisas que não mereço, ou por outras que fiz naturalmente, ou apenas por ter morrido…

Eu não consigo gabar a morte. Pois é apenas um pesadelo do qual não se acorda mais.

(Isto é apenas para se saber o que vale um elogio fúnebre)

Música de Fundo
“Doll Parts”Hole

Em Busca do Sonho Lusitano
- Prólogo -

Sei que hoje é dia da raça, e que o meu olhar deveria estar fixo em elevados ideais, como o sairmos da crise ou recuperarmos o império das Índias.

Infelizmente as minhas imperfeições terrenas puxam-me para baixo, pelo que vou vestir os calções de banho e passar o dia na mansão de meu amo (pois é o seu aniversário), a tostar junto à piscina e ao “barbecue” alternadamente.

Sem dúvida que prodigiosos acontecimentos me aguardam. Mais tarde (se a saúde mo permitir) serei o vosso humilde cronista, nesta jornada cultural em que encontrarei a fina-flor do Jet Set de Palmela, Azeitão e Casal do Marco.

Desejai-me sorte; pois esta é uma experiência que pode modificar irremediavelmente a vida de qualquer um.

Até logo, amigos…

Música de Fundo
“Venham Mais Cinco”José Afonso

quarta-feira, 9 de junho de 2004

O Mundo Sem Ar Condicionado
- Catástrofes possíveis para um futuro próximo –

Como toda a gente sabe, existem milhões de microorganismos que vivem em estreita simbiose connosco. E posso acrescentar que segundo uma estatística que tive a possibilidade de confirmar há pouco, o local onde é maior a taxa de mortalidade desses pequenos seres, é exactamente o autocarro.

Penso tratar-se de uma nefasta vibração emanada pelo veículo, para a qual alguns seres humanos (e por conseguinte os seus simbiotas) não têm a mínima defesa; pelo que nas poucas vezes em que me transporto nessa espécie de veículo, tenho a desagradável sensação de passear pelas trincheiras após a lendária Batalha de Verdun.

É claro que essas catástrofes naturais, bem como o facto de ter tido que calcorrear um Centro Comercial em busca de trapos (para mim… “mea culpa”), não contribui de sobremaneira para a minha boa disposição. Nem sequer me animou o facto de uma teenager no referido transporte, ter passado metade da viagem a compartilhar comigo alguns dos seus fluidos corporais.

Desculpem mas sou um tipo à moda antiga. Para mim compartilhar transpiração é algo íntimo que não faço em autocarros…

Cheguei pois a casa neste glorioso primeiro dia de férias, para constatar que o ruído que me acordara de manhã cedo e me acompanhara na saída, ainda se mantinha com a mesma intensidade.

Não me refiro como podem erradamente conjecturar, ao som de martelos pneumáticos ou berbequins industriais. Na verdade trata-se de Rex (o “Resíduo Tóxico) um lulu da Pomerânia, pertença do médico do prédio ao lado; que espantosamente se prepara para entrar para o Guiness com os seus latidos.

Num momento esqueci o calor e todas as minhas crises existenciais, concentrando-me na tarefa de municiar a Gamo.45 com esferas de aço.

Infelizmente quando apertei a garrafa de CO² e fechei a coronha, o amaldiçoado canídeo tinha-se sumido no interior da casa; deixando-me num estado de frustração, ao qual não era estranho o facto de me encontrar em cuecas na varanda em pose James Bond.

Desci ao café do Santos em busca de uma daquelas estranhas bicas, que segundo a clientela mais antiga servem apenas de regulador intestinal, e encontrei o Apóstolo. Pela cara que apresentava devia ter vindo a pé de Santiago de Compostela, ou parara de caminho numa casa de má nota. Tinha umas olheiras que ao longe poderiam ser confundidas com Ray Ban.

- Tás bonito… - disse-lhe com ar maroto – essas farras dão cabo de ti.

Mas não. Jurou-me a pés juntos que a sua última farra fora ainda durante o último mandato de Cavaco Silva, o que datava o acontecimento na época pré-Guterrista, perdida nas brumas do tempo.

- Foi o cabrão do cão do Doutor – disse-me, abatido – se o apanho a jeito nem respondo por mim. Não durmo desde as seis da manhã.

Tentei animá-lo de algum modo. – Sabes? Temos que ver isso pelo lado positivo; se a coisa continuar acabo por ter mais um personagem para as minhas histórias. O médico está quase a passar ao mundo de Blog com o cognome de Doktor Mengele.

- Não é grande consolação – respondeu-me sem muito entusiasmo – a minha vontade era mesmo “fazer-lhe a folha à má fila”; sei lá, um acidente misterioso ou coisa assim…

Pensei durante uns momentos enquanto a bica arrefecia – Podemos pensar nisso enquanto passeamos na praia durante os próximos dias. Alguma ideia terá que surgir. Entretanto vou andando para cima, porque acho que me vou vingar.

Entrei em casa com uma óptima disposição para ouvir música. Por coincidência, a aparelhagem do escritório tem as colunas apoiadas na parede que dá para o prédio ao lado.

Regulei a aparelhagem para uns adequados decibéis, e decidi experimentar o último CD dos Aerosmith. Sentei-me na máquina de remo e pensei – Vamos ver agora quem é que transpira mais…

Música de Fundo
“Honkin’ on Bobo”Aerosmith
(Audição Integral)

terça-feira, 8 de junho de 2004

O Doce Adeus
(É mais um até já…)

Meu amo fitou-me com os olhos marejados de lágrimas, e perguntou pela quarta vez – Rectificaste o orçamento da Teixeira Duarte? É que não queria incomodar-te nas férias…

Anotei mentalmente para uso futuro, e para não me esquecer de pôr o telemóvel em silêncio (ele telefona sempre a desoras…); dei um abraço ao Tenente Figueiredo que se encontrava com uma monstruosa dor de dentes, e que devido a isso ostentava uma expressão compungida.

Miss Entropia abraçava o seu siamês com um ar ausente, reflectindo quiçá nos nove processos cravejados de amarelos post-it que lhe tinha deixado; a hora era de tristeza (para mim não, claro).

O automóvel amarelo parou silenciosamente. Entrei olhando para trás pela última vez em quinze dias, e arrancámos numa marcha moderada.

Senti-me livre, e soltei uma sonora gargalhada.

Passadas algumas horas, ainda consigo ver o contentor de lixo onde por pouco nos estampávamos…

Lembrem-me para nunca rir subitamente dentro de um táxi.

Música de Fundo
“The Punk and the Godfather”The Who

Dormência
(S.A.F. – 3)

Acordei como se não existisse. Olhei o espelho indiferentemente e fiz a barba a alguém que ocupava o mesmo espaço que eu.

Já na rua, soprava uma leve brisa, mas não a senti. Soube disso porque as folhas das árvores mexiam levemente, dardejando pequenos raios de sol nas costas da minha mão.

O céu está de um azul claro como poucas vezes se vê. Mosaico de um outro local longe daqui, onde aviões deixam rastos esbranquiçados que levemente lembram escrita.

Apeteceu-me sentir algo, nem que fosse apenas olhar o sol e deixar-me cegar. Mas para dor já tenho que chegue.

Infelizmente, só sinto o que não devo…

Música de Fundo
“Hate To Feel”Alice In Chains

segunda-feira, 7 de junho de 2004

Síndroma de Aproximação de Férias (2)
- A rejeição -

Neste penúltimo dia de trabalho a situação começa a agravar-se. Alguns colegas olham-me de soslaio com um ódio mal disfarçado; alguns deles chegam ao ponto de lançar torpes alusões a como passarei as férias, enquanto eles se retorcem em agonia obrigados a trabalhar.

Até meu amo modificou um pouco a sua actuação para comigo. Encarando-me como se o tivesse defraudado numa importância equivalente ao subsídio de férias. Passou as últimas horas a lamentar-se da carestia de vida, e da dificuldade em arranjar reservas para S. Salvador. Realmente há vidas sem sorte…

Começo a sentir-me como um criminoso. Ou mais propriamente como um desertor que na véspera da batalha abandona os seus companheiros pela calada da noite, condenando-os a uma morte dolorosa e inglória.

Vou de férias e sou um monstro.

Quando entrei na cafetaria da Dona Odete para tomar o pequeno-almoço, esta virou-se para mim e perguntou em tom bem audível – Então, só faltam dois dias para as fériazinhas, não é?

Foi o suficiente para logo ali se instalar um desconfortável silêncio. Os frequentadores evitaram olhar-me nos olhos, e concluí que tinha sido condenado ao ostracismo assim que o meu lugar do costume vagou repentinamente, assim como toda aquela área do balcão.

De regresso ao escritório, as mães à minha passagem chamavam os filhos para casa, como se eu fosse alguma espécie de ogre que tivesse invadido aquela pacífica localidade.

Há pouco, o telefone tocou e a princípio não se ouvia nada. Finalmente uma respiração ofegante começou a soar no meu ouvido; desliguei assustado.

Porque será que todos os anos se passa o mesmo sempre que vou de férias?

Música de Fundo
“Mr. Crowley”Ozzie Osbourne

domingo, 6 de junho de 2004

Domingo à Noite

Ás vezes sinto-me mais velho que o meu próprio tempo. Nas noites em que ouço Billie Holliday e Ella Fitzgerald, ponho o meu “stetson” na cabeça e saio pela cidade.

Percorro ruas iluminadas de viés por candeeiros manhosos, e paro ás vezes em locais onde se toca música. Fico apenas a ouvir, como se estivesse à espera de um autocarro e não tivesse mais nada que fazer.

Cruzo as pernas e deixo-me levar pelo som, como se pudesse descansar de tudo. Por um momento não ser ninguém, mas apenas aquele que escuta.

Cumprimento luas-cheias e esquinas sombrias, saio sempre com o meu espírito aberto; ao fim e ao cabo nem estou lá. Deixo-me ir na música de um saxofone ou um trompete, e acabo por não estar em lado algum.

Navego uma ficção que li algures, e trata-se apenas de um passeio. Mas não evita que eu continue a querer sair de mim.

Estranho, eu sei…

Música de Fundo
“All over nothing at all”Ella Fitzgerald

A Igreja do Imaculado Blog
- A importância da transparência –

Fui invocado por um poeta. Não é coisa a que aceda muitas vezes porque além de não me considerar um espírito, detesto mostrar claramente o que tenho dentro de mim. Mas como um poeta é alguém que se expõe, não me ficaria bem tentar desviar o propósito que o movia, e acabámos por nos encontrar.

Trouxe com ele a sua musa. Como todos sabem, a musa é aquela parte sem a qual a poesia não teria sentido. Esta não se impressionou muito comigo, e é natural, as musas conhecem os poetas por dentro e por fora seja qual for a sua idade. São como uma espécie de enfermeiras literárias que já viram tudo.

Na maior parte dos casos, limitam-se a sorrir de um modo bem agradável… e a ouvir para registo futuro.

Parámos à beira do rio, numa esplanada da qual se conseguiam ver miríades de minúsculos peixes. E eu não consegui dizer-lhe os seus nomes, porque peixes daquele tamanho são apenas promessas incertas. E o que contava era a sua presença, e não o que poderiam ser mais tarde.

Encarei o poeta, e disse-lhe quem era. Enunciei claramente as minhas falhas e os meus defeitos, mostrei o que achei que despertaria nele um eco, algures num futuro, como uma mensagem numa flutuante garrafa, que nos dá um recado sem tempo.

Vi-o instantaneamente comparar-me a seu pai, nas fraquezas e qualidades apenas por eu ser mais velho. Mas pensei que deixaria uma melhor marca, se lhe conseguisse explicar algo sobre si próprio.

Disse-lhe apenas – quem eu sou, ou teu pai ou qualquer outro, seremos sempre o mesmo homem aos olhos do mundo. A única diferença ficará na escolha que fizeres. E nunca deixes que a façam por ti… Porque é sobre ti, que o bem e o mal tarde ou cedo recairão.

Separámo-nos um pouco mais tarde, como amigos que não sabem bem porque o são. Eu tinha-lhe dito praticamente tudo, excepto que a sua musa é bem bonita, daquelas que vale a pena lutar para conservar. Mas isso já ele saberá por esta altura…

Música de Fundo
“This Love”Maroon 5

Jazz Talk

Liberta-me! – Disse-lhe subitamente a ave interrompendo o canto enquanto o homem a observava. – Porque me manténs aqui?

Ele tinha estado apenas a fixar o vazio em frente durante muito tempo, e sobressaltou-se com a pergunta. Não lhe ocorreu sequer que as aves apenas cantam. Surpreendido olhou para dentro de um pequeno templo gradeado. – Porque gosto do teu canto, claro… se abrisse a porta da gaiola nunca mais te ouviria cantar. É apenas por isso…

Mas só vens aqui para me alimentar. Raras vezes apareces apenas para me escutar, ou estar comigo; se não gostas de mim, solta-me. – Gorjeou a ave em tom magoado – Não te faria diferença.

Cada vez mais admirado, o homem fixou-a nos olhos – Claro que gosto de ti! Mas se te soltar que farás?

Fujo claro. – respondeu-lhe ela debicando uma pena – ou talvez até não fugisse, e sabes bem porquê. De algum modo não consigo deixar de gostar de ti. É algo que não consigo explicar.

Pois. – disse ele com um tom preocupado – Por mais que eu pense que não me importo, não posso deixar-te ir. Talvez não venha cá muitas vezes, mas ouço-te ás vezes ao longe; e em outras alturas simplesmente lembro-me de ti. Nunca te poderei libertar… Porque gosto de ti, e isso far-me-ia infeliz.

Então, o melhor é continuar a cantar. – disse a ave como se sorrisse – Tens preferência por alguma música?

Música de Fundo
“How Long Blues” - Ray Charles

sábado, 5 de junho de 2004

Milestone (1)

Cheguei aqui uma noite sem um objectivo definido. Trazia-me a mim próprio como sou, e pouco mais. Passado um ano o espírito inicial mantêm-se; este blog não tem um propósito directo. Mas eu fiquei mais rico…

Esta é apenas a minha janela para o azul.

Um local para onde digo coisas, de onde ás vezes obtenho respostas; e onde já tive todas as minhas emoções dispostas, como um baralho de cartas abertas sobre uma mesa. De onde nasceram coisas que eu nunca imaginara serem possíveis.

Consigo sempre ver-me aqui.

Embora distribuído por parcelas, estou todo neste blog. Basta juntar as partes e formar um todo; apenas a ordem pode ser ou não a mais correcta. Mas isso, é apenas para servir como uma ténue barreira que resguarde de mim um mínimo necessário.

Não vou fazer balanço, ou antologia de acontecimentos que entretanto se deram. Não valeria a pena, pois tudo o que há para saber já foi lido aqui até hoje.

Apesar de ser um local de palavras não faria sentido repetir-me, pois está aqui tudo e nunca me arrependo do que escrevo.

Não iria falar de modificações que se operaram em mim, nem de como a escrita desenvolveu uma vida própria, ao sabor de tempestades e momentos felizes. Deixo isso para um outro ano.

Fica um pensamento para todos os que me acompanharam até aqui…

Música de Fundo
“Tubular Bells”Mike Oldfield

sexta-feira, 4 de junho de 2004

Soirée de Poesia na Capital do Reino

Não sei de será devido a este blog fazer amanhã exactamente um ano, mas o certo é que cada vez me convenço mais que não sou totalmente analfabeto (volta Bituxa, estás perdoada). Isto porque algumas pessoas que sempre apreciei, começaram a ganhar o hábito de me repetir que até nem escrevo mal.

E foi de acordo com este espírito, que decidi aceitar o convite que Miguel Soares me enviou por uma amiga comum, e arrastar a minha velha carcaça até Lisboa; isto para assistir ao lançamento de “Vertigem”. Um livro escrito pelo Miguel e ilustrado pelo seu amigo João Ferreira Duarte.

Desembarquei no Cais do Sodré, abri a “Exame Informática”, encostei-me a um poste e aguardei que a Vertigem (a do blog e não do livro) me recolhesse. O que amavelmente fez meia dúzia de minutos depois.

Após deixarmos o veículo numa catacumba do Largo de Camões, fomos para uma esplanada do Largo do Chiado, aguardar pacientemente pelo resto da equipa; enquanto aproveitávamos para pôr em dia todas aquelas informações, que não se escrevem num blog nem dá jeito enviar por e-mail.

Momentos depois aproximou-se sorridente uma bronzeada Lenia, que pousando os seus três telemóveis na mesa se juntou à conversa animadamente; algumas bloggers não são muito diferentes de como as imaginamos, e todas elas compartilham uma espécie de chama que talvez seja o que as faz escrever.

Começava a fazer-se tarde. Levantámo-nos, não sem antes termos visto algumas celebridades de médio porte, deambulando pelo passeio para marcar presença. Felizmente, nunca tive ilusões sobre o aspecto real das pessoas que se vêm na TV…

Fomos novamente ao Largo de Camões, desta vez para recolher o Webbmaster. Um non-blogger que nos acompanhou apenas pela novidade da experiência (ou algo mais), e a quem passámos toda a noite a moer o juízo para abrir um blog.

Para não se perder demasiado tempo, acampámos na “Trindade” pedindo os tradicionais bifes e cerveja preta. Entretanto chegou finalmente a jovem Soinico, um pouco atrasada mas ainda muito a tempo para jantar, após o que nos precipitámos para a rua; porque aí já estávamos realmente atrasados.

Após uma pequena passeata pelo bairro, conseguimos dar com a livraria "Ler Devagar" logo à primeira tentativa (milagre!). A apresentação estava quase a começar.

O autor cumprimentou-me com uma vénia, o que me ia fazendo perder todo o meu “savoir faire”. Não que eu seja modesto, mas apenas porque sei não merecer esse tipo de tratamento.

Vislumbrámos alguns bloggers mais ou menos famosos, por entre a mole de gente que começou a encher a livraria. E já que a maior parte dos presentes, pensavam que os marcadores de livros que se encontravam nas cadeiras serviam para a função de reservar lugar, aproveitámos para rebater essa teoria sentando-nos muito simplesmente. Deixando quiçá de pé, meia dúzia de intelectuais furiosos que eram demasiado polidos para protestar.

A representante da editora Tágide, abriu a noite com uma breve introdução na qual demonstrou ter o dom da palavra, após o que passou a bola para um poeta; poeta este com um apurado sentido comercial, bem como entendido em psicologia de massas que começou elogiando pela negativa; acabando por comparar o autor a Lobo Antunes. A sua única falha foi o não cumprimento da promessa de que “iria ser breve”. Mas ninguém se importou…

Seguiu-se a leitura de excertos do livro por amigos do autor, após o que se iniciou um breve período para perguntas sobre a obra. Mas que se vai perguntar a um poeta? Ou melhor, que pode um poeta responder sem deixar de ser franco?

Os poetas não devem dar respostas! E ainda bem que foi o que aconteceu.

Miguel Soares dedicou-nos a todos, o texto da página 62 que reproduzirei aqui para todos vós; apesar de isso me poder acarretar um processo sobre “royalties”.

O corpo é para gastar com os caprichos da vontade
Para lançar aos embates combinados dos dias
Para usar como um meio de possuir o tempo e o espaço

Assentemos a alma no seu meio, nas suas entranhas
E arrebatemos a existência contra as horas e os minutos
Contra as pessoas e as coisas, contra tudo!

Sejamos aríetes da vida, lançados, lançados sempre
A muitas fortalezas, novidades e desafios
E não nos cansemos de sorrir nem de sonhar

Queiramos sempre – com o corpo animado
Descobrir a claridade das revelações
Escondidas nas proezas da vida


Claro que após isto só podia mesmo comprar o livro, com o qual percorri uma pequena via sacra, até que o autor o autografou com uma lisonjeira dedicatória.

Entretanto a maior parte dos incógnitos não se tinham revelado, pelo que iniciando uma investigação por conta própria, me dirigi a um dos presentes; em com toda a desfaçatez que me permite o meu estatuto de filho de Alfama, perguntei – Desculpa lá… és um Puto?

E não é que o tipo era mesmo (e era novo também, o que pode ter falseado a resposta). As minhas amigas perderam-se em considerações sobre qual deles seria, mas uma coisa é certa; do modo como ele fugiu à questão só poderia ser o Puto Manhoso.

Visto que os outros incógnitos não se denunciaram, ou pura e simplesmente não apareceram (mariquinhas…); fomos acabar a noite num bar com Jazz ao vivo (e bem tocado), onde estivemos na conversa mais um monte de tempo.

Começo a convencer-me cada vez mais que isto de ter um blog, é apenas uma maneira de dar largas ao vício de falar pelos cotovelos. Felizmente a música estava alta e não incomodámos ninguém.

Ás 2h o “Ferry” já não estava a funcionar muito regularmente, pelo que apanhei um táxi e aproveitei a caminho de casa o ar fresco do rio que entrava pela janela.

Lembrei-me de todos os que gostaria que lá tivessem estado, e olhando a lua cheia que se reflectia nas águas; pensei apenas que - se poesia é um pouco de nós, escrevê-la será talvez darmo-nos aos outros com a confiança de uma entrega amorosa.

Talvez um dia eu volte a ser poeta…

Música de Fundo
“Confortably Numb"Pink Floyd

quinta-feira, 3 de junho de 2004

Just call me Godfather…

Espreguicei-me, e senti os meus braços erguerem-se como ramos em direcção ao céu. Acordara demasiado cedo, aliás como tem sido hábito ultimamente, e o sol apresentava ainda um tom alaranjado e sonolento.

Pelo vidro da varanda, verifiquei que a fila de trânsito ainda não se havia formado; estalei a articulação do pescoço e dirigi-me para o chuveiro, antegozando uma cascata tépida que me prepararia para encarar mais uma jornada. Nada!...

Quando digo nada, é exactamente isso que quero transmitir em absoluto.

Pela ponta do artefacto de latão cromado ouvia-se passar uma pequena brisa, como se eu tivesse uma pequena ligação directa ao mar, mas apenas à parte seca.

A minha memória aclarou-se quando encarei o garrafão de água de nascente. Estou sem água desde o dia anterior; a coluna de adução de águas ao imóvel onde vivo, colapsou sob efeito da oxidação que afectou o tubo galvanizado que conduzia o precioso fluído.

Usando a velha técnica dos submarinos, lavei-me com um litro de água e saí. A parede da escada tem um sulco vertical, que poderia ter sido causado por um terramoto grau 4 (Mercali), mas trata-se apenas de uma tentativa para a localização da rotura.

Segundo a previsão do canalizador, que sob chantagem consegui convencer a tomar conta do trabalho sem qualquer pré-aviso; haverá água provisoriamente, mercê de um remendo, por volta das 12h.

Espero bem que sim… porque no final da tarde tenho que estar impreterivelmente barbeado e lavado (se leram os posts anteriores saberão porquê). Se não o estiver, ficarei muito desapontado com a falta de profissionalismo demonstrada.

Tenho o Apóstolo de guarda à mulher e aos dois filhos do tipo; caso não resolva o problema atempadamente, vamos lançá-los ao rio envolvidos num casaquinho de Cimento Portland.

Não se pode ter piedade neste tipo de coisas. That's nothing personal… just business as usual…

(This is a true story)

Música de Fundo
“Talk Shows on Mute”Incubus

quarta-feira, 2 de junho de 2004

Órbita de Espera

Tenho uma ilha à minha volta
feita de fotos e ausências

Retalhos de mundos destruídos como uma cintura de asteróides
rodeando um astro azul prestes a explodir

Mas explodir para quê? Se não haverão mais mundos…

É um universo frio e parado
como um lago eternamente à espera
de uma primeira gota de chuva

Ou de uma pedra

Música de Fundo
“Don’t Let Me Down and Down”David Bowie

Corte de Cabelo V2.10ª (Upgrade)
- O maravilhoso mundo dos cabeleireiros unisexo –

Entediado da atmosfera marialva que sempre rodeou as minhas tonsuras periódicas, decidi pôr fim a mais uma etapa da minha vida, e optei finalmente por colocar a cabeça em mãos mais sensíveis e que não cheirassem a Pitralon e Português Suave.

E quis o destino que fosse “Chez Marie Claire” o local escolhido para tal.

Cheguei pela manhã, na hora em que o aborrecimento aconselhava a leitura da “Holla” e de outras publicações similares. O salão continha já um naipe heterogéneo de mulheres em diversas fases de produção, como convém a qualquer boa linha de montagem.

Uma delas, descobri mais tarde ser um rapaz que não se sente à vontade com roupas masculinas… mas os trapinhos que usava também não o ajudavam muito.

Sentei-me numa cadeira de cabedal, e enquanto esperava li prazenteiramente alguns artigos do “consultório sentimental” de uma revista feminina. Na realidade aprendi imenso, inclusivamente sobre as diversas possíveis localizações do ponto “G”.

Tomei apressadamente algumas notas para posterior análise experimental, e levantei-me para ocupar um cadeirão de cabeleireiro; junto ao qual já esperava com um ar sorridente a assistente pessoal, que iria manusear e embelezar o meu penteado.

Havia um leve odor a frutos doces, que se desprendia da sua esguia figura confortavelmente acondicionada numa bata azul; e logo a minha cor favorita…

Começou por inquirir sobre as minhas preferências em matéria de corte – que são aliás bastante espartanas – e aconselhou-me o uso de um bom revitalizador; conselho este que aceitei agradado. Aliás, na minha provecta idade, tudo o que seja para revitalizar é bem-vindo.

Para poupar tempo e encurtar o inquérito preliminar, coloquei-me incondicionalmente nas suas mãos competentes, e visto que era a minha iniciação em locais do género, aquiesci num tratamento completo; incluindo lavagem, massagem capilar, e outros etecéteras que não compreendi mas optei por aceitar.

Após a primeira passagem de máquina, iniciou-se o processo de lavagem ao qual se sucederia a massagem capilar. Nessa altura, talvez mercê da voz suave com que a cabeleireira debitava a sua conversa de circunstância, ou talvez pelos seus dedos diligentes, já eu estava imerso nos meus pensamentos privados.

A minha mão esquerda encontrava-se de molho numa pequena tigela, como uma qualquer posta de bacalhau, enquanto a direita era cuidada por uma rapariga simpática de bata cor-de-rosa; que muito meigamente me aparou as peles, limou as unhas e lhes colocou uma camada de protector transparente (não é verniz, nada de confusões!).

A certa altura penso que passei um pouco pelo sono, pois vi-me vestido de guerreiro grego numa ilha verdejante; onde mulheres em diáfanos “negligés” me colocavam uvas na boca, enquanto cítaras invisíveis soavam por entre um zéfiro refrescante. Na verdade, acho que adormeci mesmo.

O certo é que quando abri os olhos era um homem novo. O meu olhar era mais claro, as rugas do riso tinham-se atenuado, e até o cabelo se encontrava cortado e penteado.

Paguei o triplo do que é usual no covil do “Tremidinho”, e saí para a rua sentindo-me mais leve, pelo que tive que regressar para recuperar o blusão do qual me tinha esquecido.

Finalmente coloquei os óculos escuros e saí pela cidade em direcção à empresa. Sentia-me bem; e compreendo agora porque vão algumas mulheres ao cabeleireiro, mesmo que o seu penteado esteja impecável.

Entrei no escritório assobiando alegremente e de mãos nos bolsos, preparado para mais um dia arrasador na contagem decrescente até ás férias. Miss Entropia encarou-me agradada – Vejo que finalmente aderiu ao século XXI! Está a ver como lhe fica bem?

Sentei-me ao PC, e inspirado iniciei a redacção deste post que dedico a todas as cabeleireiras que se esforçam diariamente por um mundo melhor.

Só espero que no sábado, não trocem das minhas madeixas no almoço do “pt.conversa”…

Música de Fundo
“Pallas Athena”David Bowie

terça-feira, 1 de junho de 2004

Atenção, Ó Gentes!...

Dia 3 de Junho ás 21h 30m na Livraria Ler Devagar, será lançado "Vertigem". Que segundo denúncia dos Putos, é um livro da responsabilidade do Chapeleiro Maluco e do Puto Poético.

Decerto vou lá estar (Incógnito, é claro)...

Música de Fundo
"Take Your Mamma" - Scissor Sisters

Cores Gastas

Chamava-se Anabela e na altura eu nada sabia, excepto que me tirava a vontade de fazer fosse o que fosse. Ficava amiúde sentado num degrau à espera que ela saísse de casa, sempre à mesma hora.

Encontrámo-nos todos os dias durante imenso tempo. Planeávamos casar, e combinámos todos os pormenores; a cor das cortinas, quantos filhos teríamos. Até treinámos para isso… um pouco ao acaso, é claro.

Mas mesmo os dias felizes (e principalmente estes) têm sempre um fim.

Passado algum tempo, fizemos sete anos e fomos para escolas diferentes…

Música de Fundo
“Colours In Waves”South

Dia Mundial da Criança

A melhor maneira de mudar o Mundo, é começar por mudar o mundo de alguém...

- Feliz dia, miudagem!...

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