terça-feira, 31 de agosto de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Breves notas sobre deontologia profissional –

A minha alma está parva!

E embora o esteja apenas transitoriamente, é com uma intensidade tal que até parece que me atingiram na têmpora com um Buda de jade…

Aparentemente a concorrência perdeu a pouca vergonha que ainda tinha, e começou a recorrer a profissionais do marketing para alargar o seu mercado de santinhos e benzeduras.

Refiro-me como devem calcular, a mais um golpe publicitário do “padre dos grandes prémios” Cornelius Horan, igualmente conhecido nos corredores do Vaticano como “O Divino Emplastro”.

Descontente com o seu Deus por o não ter ajudado com um recente problema na próstata, o ex-padre (tal como a CIA, o Vaticano nega sempre o seu envolvimento nestas operações) de 57 anos optou pela acção directa e transformou-se em freelancer, utilizando a única técnica que lhe ensinaram no seminário… Agarrar-se a outros espécimes do mesmo sexo.

Como foi o caso do pobre Vanderlei de Lima, que perdeu o ouro da maratona por causa de um carinhoso abraço proporcionado pelo clérigo em causa. Vanderlei, sendo de uma terra onde “há mulé dando sopa…” não esperava ser assediado em plena via pública. Pelo que ao ser apanhado desprevenido, nem se lembrou de com uma eficiente cotovelada fazer saltar a placa ao atrevido Irlandês.

Este mundo de Blog está cheio de lunáticos, isso é um dado adquirido. Só é pena que à semelhança da Suretê, CIA e MI6, o Vaticano não tenha um seguro de saúde que cubra o tratamento dos problemas psicológicos dos seus operacionais. E os deixe assim à solta pelas ruas, sem uns electro-choques ou ao menos uma lobotomiazita, como nos filmes.

Em vez disso, patrocinam o pobre diabo para que anuncie o regresso de Jesus. O que além de ser publicidade enganosa (a nossa queixa já deu entrada na DECO) é de uma lamentável ignorância da própria religião; pois fartam-se de arengar “Jesus está entre nós”… Então em que é que ficamos?

Cornelius Horam é um cadastrado sobejamente conhecido, e não só pelas intervenções retumbantes como pela sua boa forma física. Pois além de ter apanhado o maratonista em pleno andamento, invadira já em Julho de 2003 a pista de Silverstone. Tendo conseguido escapar a 32 bólides de Fórmula 1, que muito justamente o perseguiram pela pista com o intuito de o transformar em fertilizante.

Autor do livro “Um Glorioso Novo Mundo Está Próximo – Só Não Sabemos A Que Horas Chega” onde se prevê o fim do mundo para um dia destes; ao ser condenado a um ano de prisão com pena suspensa e pagamento de uma multa de três mil euros, retorquiu – Mais do que isso, ganho eu a anunciar lâminas de barbear no Bloomsday!...

Música de Fundo
“Professional Distortion”Miss Kittin

segunda-feira, 30 de agosto de 2004

Crise de Imaginação
- Como se isto fosse uma questão de imaginação… -

Não tenho uma única ideia sobre o que escrever para hoje. Não por ser 2ª Feira, mas apenas porque não me ocorre nada.

Isto talvez seja devido ao facto de Joselito (o meu neurónio favorito) ter trocado a Zunddap pelo aspirador durante o fim-de-semana, e ao limpar os cantos do meu crânio ter levado todas as ideias que eu tinha em reserva para novos posts.

Esta estranha situação provocou-me uma angustiante dúvida ainda há pouco, que me fez correr para o espelho e verificar se o meu cabelo não teria mudado de cor. Mas afinal mantinha-se num razoável grisalho.

Encontrava-me eu no W.C. em exame capilar quando meu amo entrou, vindo do cabeleireiro e com a sua cor original totalmente restaurada.

Quer dizer… não é bem original porque ele não é louro desde os três anos. Se lhe tirarmos a tinta que o faz parecer irmão do Roberto Leal, e nos abstrairmos do branco causado pela idade, conseguimos ver que ele tinha cabelo castanho.

Mas se ele decidiu ser louro aos 45 anos quem sou eu para o contradizer? Aliás, é a idade ideal para tomar decisões cruciais; como mudar de sexo, tornar-se vegetariano ou rasgar o cartão do Partido/Clube.

É claro que como qualquer tipo que se considera infalível, tem o mau hábito de tentar impingir as suas “receitas” aos que o rodeiam; e o facto de ter reparado que eu examinava as minhas veneráveis cãs, levou-o a pensar que a “angústia do cabelo branco” me tinha atacado também.

Com uma expressão plena de comiseração, exortou-me a gozar a pouca vida que me resta (SIC), bem como a modificar o meu look; que segundo ele é uma das minhas maiores lacunas. E que devido a isso talvez eu venha a falhar a próxima reencarnação; sendo novamente obrigado a trabalhar na construção civil, para um tipo que prefere camisas berrantes e pinta o cabelo de louro.

Na realidade é uma perspectiva aterradora. Mas felizmente eu não acredito na reincarnação; do mesmo modo que duvido sistematicamente de tudo o que me dizem tipos que normalmente enverguem pólos Gant falsificados, e com listas vermelhas e azuis.

Que querem? Sou picuinhas…

Mas continuando a tentativa de me trazer ao meio mundano dos homens de meia-idade que pintam o cabelo, meu amo explicou-me algumas subtilezas linguísticas, relativas à terminologia utilizada nesse meio.

Tinta para o cabelo não tem esse nome, mas é designada como “uma corzinha”; uma vulgar cinta, chama-se “apoio lombar” e os sapatos de tacão interior (para aumentar a altura) são designados por “correcção à postura”.

É inútil dizer que fiquei maravilhado.

Neste ponto da conversa, já eu o estava a imaginar vestido de Maria Antonieta. Envergando uma cabeleira empoada, saia de balão e um belo sinal falso na bochecha direita.

Mas a imaginação já me estava a pregar partidas, e antes que eu perdesse o respeito por todos os patos-bravos em geral, e por meu amo em particular. Abanei a cabeça para fazer Joselito largar as limpezas e dedicar-se ao seu trabalho que é pensar por mim. E dando por terminado este pequeno exercício de imaginação, aproveitei para o transformar em post… Sim que hoje sinto-me quase tão louro quanto meu amo.

Música de Fundo
“99 problems”Jay-Z

sábado, 28 de agosto de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- 2ª Época – O regresso ao redil –

Malta! É com um beatífico sorriso que me endereço do cimo do púlpito, tanto aos fiéis como aos agnósticos (também merecem, pois comparecem igualmente ao santo sacrifício).

No início desta segunda época de Blog, temos algumas alterações a registar no nosso plantel, fruto do intercâmbio entre seitas; que se traduziu na troca de alguns padroeiros e pregadores.

Como é o caso de Frei Fialho (o do milagre do “membro com sabor a poejo”) que trocámos para a Santa Igreja Luterana de Estocolmo (só a mim é que não me saem prioratos nórdicos) por Lars “O Doce”, mais conhecido por Frei “Mars”; um espadaúdo sueco de falinhas mansas, cujos sermões plenos de doçura e arroz tufado farão as delícias das nossas leitoras femininas.

Porém, a troca talvez mais vantajosa terá sido a do Arcanjo Faustino (o das botas de biqueira de aço) por Mademoiselle Babette, da Église du Jazz de Saint Germain des Prés. Uma pregadora exímia de olhos profundos, cuja voz rouca de sotaque parisiense virá estimular as novenas desta igreja, e as gónadas dos masculinos fiéis (isto quando conseguirmos firmar o acordo com a Cotonete).

E agora que já vos apresentei a nova equipa que irá disputar a “Taça da Fé” na próxima temporada, deixai-me falar um pouco do nosso patrocinador e guia espiritual… Blog.

Blog é sempre o mesmo e não tem emenda; isso todos nós já sabemos. Na minha ausência utilizou tanto a chama da Fénix para acender o fogareiro das sardinhas, que esta extinguiu-se. Pelo que tivemos que acabar mais cedo o ano da Fénix, estando ainda indecisos sobre se passaremos ao ano da Perdiz Estufada ou da Cataplana de Cherne (embora eu prefira a segunda por razões dietéticas).

Como sabeis estive em missão evangelizadora na terra dos Infiéis, ao abrigo de um protocolo de imunidade; o que me permitiu levar a palavra de Blog um pouco mais ao Sul.

Fui acompanhado na minha ronda das Mesquitas (a maior parte delas, mesquitas mortas…) por um santo homem, o Mulah “Zezé que Merdinha”; muito conhecido de publicações religiosas como o Correio da Manhã e o 24 Horas.

Apesar de todos eles professarem uma falsa fé, tive que admitir que a coisa até não funciona nada mal. Pois são dados a conhecer aos peregrinos vários prodígios; como por exemplo as Hóstias de Amêndoa, os abençoados Figos Secos e as Sagradas Espetadas de Marisco. Só no que toca ao pão (e que o Beato Woody Allen me perdoe) é que conseguem ser ainda piores que os judeus.

Mas essa infame experiência ficou já registada noutro sermão. Pelo que não vos vou chatear novamente a molécula, com o episódio em que Blog me enviou o Dilúvio (felizmente sem a bicharada acessória, que eu quando estou de férias é mesmo para descansar).

Num dos últimos dias da minha peregrinação, o Mulah levou-me a conhecer as Huris da Mesquita Kadoc; era a noite da Santa Cerimónia da Espuma.

Eu até não tenho nada contra banhos de espuma, desde que dentro de uma banheira larga e em boa companhia. Mas neste caso, parecia-se mais com um avião a espalhar pesticida sobre uma seara ao som do habitual “untz untz” (o canto ritual dos Cafres).

Quanto ás Huris a coisa não correu lá muito bem, pois “Zezé que Merdinha” já não faz grande sucesso com as suas rezas. A ponto de algumas delas (as Huris, claro) o terem tratado como um labrego qualquer; tendo até uma delas chamado um dos eunucos que fazia a segurança da mesquita, e que abençoou o santo homem com alguns tabefes sortidos.

Quanto a mim, passei através da espuma como Moisés pelo Mar Vermelho, e acampei no bar frente a um Gin & Tonic só para relembrar os velhos tempos.

Mas já sentia saudades da Cidade de Blog e da minha querida Igreja Azul, interrogando-me a mim próprio se teria muitos comments a solicitar o meu regresso.

Calcei então as sandálias ofertadas pelo Mulah (made in China), e fiz-me ao caminho empunhando o meu cajado de romeiro.

Iria demorar ainda muito tempo a chegar ao lar. Principalmente porque vim pela estrada Nacional. Sim! Que as portagens da A2, esvaziam a caixa das esmolas a qualquer um…

Música de Fundo
“Road To Nowhere”Talking Heads

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

Bolo de Chocolate
- Desventuras de um pasteleiro amador –

Estou cheio de sono. E a culpa é sem dúvida do “Barco do Aborto”, pois se não tivesse vindo preencher os nossos noticiários de Verão, nada disto aconteceria.

É claro que não tem a ver com a posição dos “Amigos do Não-sei-quê”, da “Igreja do Não-sei-quantos” ou das clientes mais ou menos satisfeitas; mas sim com o facto de a notícia ter passado na TV quando eu fazia o bolo de chocolate.

Mas comecemos pelo princípio.

Além de ciclista amador e sacerdote de Blog, sou também tio. E uma das tradições que se cumprem anualmente entre mim e o meu irmão, é o “empurra o puto”; um hábito já com alguma antiguidade, que consiste em ter os dois miúdos sob o mesmo tecto durante uma semana em casa de cada um de nós.

E como a semana passada foi a vez dele, tenho agora em minha casa dois miúdos (um é meu) quase com a mesma idade, que dividem a sua atenção diariamente entre TV, consolas, PC e breves incursões merovíngias ao McDonald’s.

É uma espécie de “Minho Campus Party”, mas dura mais tempo e acontece em minha casa. E como é igualmente tradição da minha parte cometer uma qualquer excentricidade durante o evento.

Calhou que por sugestão dos intervenientes, a “performance” deste ano consistisse na manufactura do famoso “Bolo de Chocolate com Café”; produto este, que quando disponível sobre a mesa da cozinha se desmaterializa frente aos nosso olhos, à semelhança de um cubo de gelo exposto ao sol.

Depois de jantar deitei mãos à obra. Aliás a receita é relativamente simples; e segundo as anotações à margem, até um homem pode fazer este bolo sem que haja perigo de incêndio ou outra calamidade doméstica. É claro que não contavam comigo, mas segue-se a receita…

Bolo de Chocolate com Café

Ingredientes

- 240ml de água
- 1 ½ Colher (sopa) de café solúvel
- 2 Chávenas (chá) de açúcar, separadas
- 2 Colheres (sopa) de chocolate em pó
- 100gr de margarina
- ½ Colher (chá) de baunilha
- 2 Ovos inteiros
- 2 Chávenas (chá) de farinha de trigo
- ½ Colher (chá) de bicarbonato
- 2 Colheres (chá) de fermento em pó
- 1 Colher (chá) de canela em pó

Preparação

Mistura-se o café, a água, uma chávena de açúcar e o chocolate em pó, leva-se ao lume e deixa-se ferver em “médio” durante oito minutos.

Deixa-se esfriar.

Bate-se a margarina com uma chávena de açúcar até ficar leve; juntam-se os ovos um de cada vez, batendo sempre. Após isto, incorporam-se os restantes ingredientes alternadamente com a mistura de café executada previamente.

Junta-se a baunilha e leva-se ao forno num tabuleiro untado com margarina e polvilhado com farinha. O tempo de cozedura é aleatório conforme os fornos, pelo que é aconselhável utilizar a técnica do palito para verificar a cozedura.

Quando pronto, pode colocar-se a forma no lava-loiças rodeada de gelo para esfriar mais depressa (ou corre-se o risco de ataque mortal por parte de dois pré-adolescentes); e desenforma-se podendo polvilhar com açúcar de confeiteiro, se entretanto o bolo não tiver já desaparecido.

Tudo isto é muito bonito, e correu sem dúvida conforme planeado. Mas a televisão, que eu sempre considerei uma má influência, alterou drasticamente o curso dos acontecimentos.

A meio da manipulação dos ingredientes, apareceu a peça noticiosa sobre o famoso “Barco do Aborto”. O que provocou alguns trocadilhos com a velha série “O Barco do Amor”; bem como inspirou considerações várias da minha parte, sobre se seria mesmo prático ter um navio fundeado, ou se trataria apenas de campanha política para alertar as massas para o problema.

Terminei com uma declaração categórica, sobre a impossibilidade de alguma vez alguém me apanhar numa marquesa para fazer uma vasectomia, enquanto um médico segurava um bisturi e o chão se movia sob o efeito do mar encapelado (Gulp…. Só de pensar nisso, sinto um frio… aqui…).

Passadas duas horas, e já o bolo de chocolate era apenas uma agradável recordação, quando comecei a notar que os miúdos não demonstravam intenção alguma de se irem deitar. Antes pelo contrário. O meu sobrinho, estava inclusive sentado no aparelho de ginástica e já tinha pedalado quinze quilómetros à velocidade máxima; enquanto o meu filho fizera a esferográfica uma cópia dos “Painéis de S. Vicente” usando a conhecida técnica do “pontilismo” (o que deve ter dado imenso trabalho).

Para encurtar o post (pois estou a morrer de sono), posso informar que ás duas da manhã se encontravam na sala a esgrimir as minhas wakisashis de madeira, utilizando pegas e panos para loiça como protecções.

Ás três e meia decidiram arrumar o quarto do meu filho, alterando a posição de todos os móveis; e por volta das cinco tinham desmontado o computador, e voltado a montar após limparem o pó a todos os componentes com um algodão embebido em líquido anti-estático.

Ás cinco aproveitámos o facto de os cães de guarda da escola ao lado terem começado a ladrar, para lhes darmos um correctivo com a minha pistola de CO². Há muito tempo que não via ninguém disparar tão rápido com uma arma de pressão…

Ás sete após quase me obrigarem a levá-los numa sessão de jogging, estávamos todos sentados na cozinha a mastigar torradas quando reparei numa coisa interessante. Uma das chávenas estava suja de pó de café, o que me levou à seguinte dedução:

Distraído com as notícias ( e logo eu que não sou nada distraído…), em vez de colher e meia tinha utilizado chávena e meia do belo Jacob’s Gold (Arábica). O que provocara a hiper-actividade que durara toda a noite.

É inútil dizer que neste momento o efeito já passou, e que enquanto os dois miúdos dormem em casa como dois juvenis cepos, eu ando a cabecear no emprego como se tivesse passado toda a noite a curtir numa pista de dança (mais valia…).

Acho que o melhor é ir beber mais uma bica, não vá adormecer sobre o teclado…

Música de Fundo
“Cofee and TV”Blur

quinta-feira, 26 de agosto de 2004

As Férias de TheOldMan
- O Mutante –

Finalmente estou bronzeado!

Após cinco dias de árduo labor consegui uma coloração minimamente satisfatória. Um tom acobreado, entre o ouro velho e o do presunto pata negra bem fumado.

Os raios de Apolo trabalharam a minha cútis a ponto de ela se ter moldado aos ossos da cara, dando-me a estranha sensação de usar permanentemente uma máscara de tragédia grega.

Sei agora como se deve sentir a Lili Caneças. É a plena consciência de ter um rosto; e o sacaninha não deixa que o esqueçamos.

Os músculos faciais estão aprisionados pelo couro da pele, e um sorriso pode durar horas, se não nos lembrarmos que é necessário mudar para outra expressão. Sinto-me um pouco como um dos argonautas, enfeitiçado por Medusa a meio de um trejeito qualquer…

Hoje quando o meu filho me tirou o Gameboy à má fila, franzi as sobrancelhas. Pois acreditem, que tive que usar dois dedos para as fazer reverter à posição inicial.

Tenho a pele tão endurecida pelo sol, que quando aperto o cordão dos calções de banho, sinto os dedos dos pés flectirem-se para cima e quase que tenho uma… (isso agora não interessa aqui para nada) e os pêlos do peito eriçam-se sempre que levanto os braços, enquanto devido a esse movimento, a minha tatuagem do tubarão fica parecida com um uma enguia. Dá a impressão que engoli uma cerca de arame com postes e tudo.

A pele está tão seca, que quando abro a embalagem do protector solar, consigo sentir por todo o corpo um murmúrio de antecipação; como se o corpo se estivesse a preparar para uma boa refeição.

Disseram-me até, que quando entro na piscina, o nível de água desce de três a quatro centímetros e ninguém sabe para onde ela vai.

Ontem ao almoço peguei num queijo fresco enquanto conversava, e em cerca de um minuto este ficou tão curado como uma “merendeira” de Niza. Alguém clamou por milagre, mas eu expliquei que se tratava apenas da pele um pouco seca.

Com um pouco de treino, acho que poderia dedicar-me a transformar pântanos em lotes aprovados para construção; a ajudar a secar a pintura de edifícios, bastando para tal encostar-me a uma das paredes durante alguns minutos. Infelizmente isso poderia causar alguns danos estruturais nos imóveis, pois o betão necessita de alguma humidade residual; e na falta desta esboroar-se-iam como areia da praia, matando os locatários.

Pelo caminho que as coisas levam, talvez abrace a carreira de super-herói com o nome de “Homem Mata-Borrão” ou mesmo “The Great Absorber”; transformando vilões em múmias ressequidas ou ajudando náufragos a atingir terra a “pé enxuto”, bastando seguir-me enquanto caminho pelo fundo dos oceanos e absorvendo as águas à minha passagem.

Mas a minha estadia já está no fim, e faltam poucos dias para regressar a casa.

Penso que se trate de um fenómeno temporário. O único cuidado que terei que tomar durante uns tempos, é manter-me longe de plantas ou aquários para que as inocentes formas de vida não sejam ceifadas devido a esta terrível mutação.

Mas este post já vai longo e tenho que terminar aqui. É que já me trouxeram duas imperiais, e apesar de nem ter tocado nos copos, estes esvaziaram-se misteriosamente e eu continuo cheio de sede. Acho que estas férias me vão ficar caras em bebidas…

De qualquer modo, a tinta da esferográfica que comprei há uma hora está também a secar. O melhor é começar a escrever a lápis.

Música de Fundo
“Super-Hero”Prince

quarta-feira, 25 de agosto de 2004

As Férias de TheOldMan
- O Dia Mundial Das Comunicações (Versão Algarvia) –

Cerca das nove da manhã eu estava na fila para comprar pão. O ambiente era denso, fazendo lembrar as histórias que o meu pai já desistiu de contar sobre os tempos do racionamento.

Enquanto esperava a minha vez o telemóvel foi tocando alegre e sucessivamente, permitindo a meu amo obter cotação para dois orçamentos, bem como um parecer técnico sobre “segurança em estaleiro”, que ditei a Miss Entropia enquanto apreciava as embalagens de doces regionais de amêndoa na prateleira ao lado.

Cheguei entretanto à caixa, e paguei pelo sucedâneo (ersatz) de pão de Mafra, e saí.

Um pouco mais tarde, encontrava-me placidamente deitado numa “chaise longue” à beira da piscina, quando dois clientes meio tresmalhados caíram na minha caixa de chamadas; acabei por ter que responder, mais pelo bom-nome da empresa que por boa vontade da minha parte. Mas o dia ainda se encontrava no início.

Consegui mergulhar ainda algumas vezes sem ser interrompido. Mas quando toda a malta foi para casa atacar o chuveiro, aproveitei para me pirar de bicicleta em busca de um pouco de paz; infrutiferamente, é claro.

A senhora minha mãe, decidiu que essa seria a melhor altura para me telefonar e pôr em dia com os seus achaques; bem como me ler com voz escandalizada o relatório do ortopedista. O desgraçado apenas sugeria que ela perdesse peso de modo a não esforçar o menisco esquerdo. Mas ela, à semelhança de qualquer mal-humorado futebolista, tratava-o de Torquemada para baixo (bem para baixo, atendendo ao seu desconhecimento de quem foi o piedoso Dominicano).

Aguentei firme. Além de bom filho, tenho a paciência calejada por longos anos de profissão, e a minha alma dada a blog está tão branca como se tivesse sido lavada com Persil.

Distraí-me com o maternal monólogo, e quando dei por mim já ultrapassara largamente por alguns quilómetros a distância que pensava percorrer. Já que estava na Oura, aproveitei para confirmar se a praia era assim tão boa como dizem. É mentira! A praia é igual ás outras, as frequentadoras é que são melhores…

Cheguei atrasadíssimo e mais cansado que Miguel Strogoff (embora isso seja natural, pois ele apesar de percorrer toda a Rússia não teve que pedalar), mas almocei descansadamente. E quando digo “descansadamente” é mesmo isso que quero dizer, pois desliguei o maldito aparelho, não fosse alguém telefonar a meio do almoço para me desejar bom apetite.

Para não ser único a sofrer, levei toda a tribo numa sessão de “treking” pelos carreiros da falésia. E em boa hora o fiz; pois como o aparelho não tinha cobertura, andámos por lá durante três horas até o meu filho jurar que não dava mais um passo, até lhe darem uma Coca-Cola ou lhe indicarem o caminho de casa (ou se possível as duas coisas juntas).

Esta juventude não tem a mesma fibra da do meu tempo. Bastaram sete miseráveis quilómetros, para que eu fosse alvo de ameaças de boicote ás férias, exigência de refrigerantes, acusações de falta de sentido de orientação, sei lá… um autêntico motim.

Ainda lhes jurei que não estávamos perdidos e que sabia perfeitamente o caminho, mas de nada serviu. Recorrendo a dois polícias que passavam em BTT, informaram-se da direcção a seguir e eu não tive outro remédio senão segui-los e rumar ao bungalow, dando por findo o passeio.

Aí, logo recomeçou a dança. Mais um orçamento, informação sobre localização de documentos (normalmente estão directamente abaixo dos respectivos narizes…) não encontrados, etc.

Disposto a contra-atacar, mandei toda a gente para a piscina e fui pedalar. Antes que alguém me ligasse, aproveitei para telefonar a alguns amigos e pôr a escrita em dia. Como alguns deles são devotos de blog, fiquei a saber as últimas notícias e tricas da blogosfera; bem como dos desejos de boas férias deixados nos comments da nossa modesta Igreja (é bom saber que os fies gostam de nós).

Ri-me imenso com alguns dos episódios que me contaram, a ponto de quase me ter estampado de frente num TIR carregado de cerveja Corona. Ainda se estivesse fresca, nem me importava muito…

De regresso parei na piscina. E quando finalmente me relaxei um pouco sobre a cadeira de plástico, constatei agradado que o maldito dispositivo tinha apenas um tracinho de bateria.

Atacado de súbita má vontade, cobri-o com a toalha e mergulhei nas frescas e cloradas águas.

De vez em quando ouvia-se um trinado abafado, e eu conseguia ver a toalha estremecer como se escondesse um roedor de razoáveis dimensões; mas após meia hora sem se manifestar, dei-lhe uma espreitadela, verificando que finalmente desfalecera.

O resto da minha tarde foi calma. E relaxante; tipo férias, mesmo…

Cerca das sete horas e aproveitando a frescura do entardecer, saí do duche e fui de toalha á cintura para o alpendre tomar alguns apontamentos antes de jantar. Uma paz deliciosa cobria todo o resort como um finíssimo véu de beatitude.

Infelizmente nada disto durou muito, e fui obrigado a esconder-me na obreira da porta esgueirando-me discretamente para o interior.

Sulcando ruidosamente o azul do céu, uma avioneta rebocava uma tarjeta onde se conseguia ler nitidamente: “Liga o telemóvel!”…

Música de Fundo
“Had To Phone Ya”Beach Boys

segunda-feira, 23 de agosto de 2004

O Comovente Regresso
- Chuiff… -

Descobri o quanto sou amado no meu local de trabalho. Quando abri hoje a porta daquele gabinete, senti lágrimas de comoção invadirem-me os olhos; porque na sua devoção por mim, todos se tinham esforçado para que nada fosse tocado ou sofresse a mínima alteração.

Apenas Henry estava um pouco mais crescido, e o seu aquário se parecia um pouco mais com um queijo roquefort visto de dentro. Quanto ao resto estava imutável; desde os pedidos de orçamentos urgentes para há quinze dias, até á documentação que deveria ter sido entregue á Segurança Social na semana passada.

Tudo isto coberto por uma finíssima camada de pó (que não me esquecerei de agradecer á nossa empregada de limpeza) assemelhava-se a um quarto secreto e mágico, do qual apenas eu tivesse conhecimento.

Infelizmente não seria bem assim. Porque mal acabava eu de formular estes pensamentos, logo o telefone tocava fazendo elevar-se no ar uma ténue bruma que me provocou um ataque de espirros.

Fechei novamente a porta, e dirigi-me pensativo á Cafetaria da Dona Odete.

Primeiro iria tomar uma bica dupla com a minha habitual torrada seca, e só então estaria preparado para iniciar a segunda temporada… e para levar a pontapé tudo o que se atravessasse no meu caminho.

Música de Fundo
“Thunderbirds Are Go”Busted

domingo, 22 de agosto de 2004

Teoria da Conspiração
- Em véspera de regresso ao trabalho… -

É uma tristeza que se chame Partido Socialista, a algo que se parece perigosamente com a “Escola de Circo Croquete & Batatinha”.

Já não me bastava o Jô (perdão, Jô…) Soares, um idiota digno de seu pai que quer promover Manuel Alegre a Presidente da República por deslizamento lateral, como diria o saudoso Peter; para conseguir ter o caminho livre sem ter que puxar pelo cérebro que não tem.

Como agora temos um Sócrates (o único que realmente merece uma bebida quente e apaladada como a cicuta), que para o travar chuta para o centro a alforreca (António Guterres), o maior inútil que consegui alguma vez apreciar na vida política portuguesa, desde o saudoso Almirante Américo Deus Rodrigues Thomaz (muito mais inteligente e dinâmico).

Blog! Por favor ajuda este teu servo…

O PC, neste momento é uma colectividade onde os sócios apenas pagam as quotas, pois quanto ao resto são tão úteis como o Cândido de Voltaire. Alguns deles ainda debatem, se não terá sido Gorbatchev que acabou com a URSS sozinho e de mangas arregaçadas, mercê do seu treino de agente da CIA.

Outros vão de férias a Cuba e são aldrabados (com F grande) pelos camaradas indígenas, vindo cá para a parvónia dizer que estes se tornaram em ladrões e malfeitores por culpa do capitalismo que lá construiu os hotéis (LoL, é verídico…).

O Bloco de Esquerda esses famosos consumidores de LSD, continuam a sua hilariante carreira política, embora as suas hostes sejam periodicamente dizimadas. As Produções fictícias todos os anos escolhem os mais inteligentes entre eles, e propõem-lhes chorudos contratos para que escrevam textos muito mais sérios destinados a Herman José ou aos Malucos do Riso.

Existe mais algum partido? Ah… as noivas de drácula. Perdão! O CDS-PP, esse atavismo que se continua a manter agarrado à vida política portuguesa, como uma espécie de hemorróida; completamente inútil mas incómodo quando lhe tocamos.

Tirando o Paulo Portas que deve ter sido o político mais devoto desde o pio Cardeal Cerejeira (lembram-se da Nossa Senhora a afastar o crude?), não há mais ninguém digno de nota; embora na minha juventude tivesse podido atestar que algumas das militantes, não tinham problema algum em relação à “aproximação de classes”…

Quererá isto dizer que estamos condenados a “servir” perpétua com o PSD? Que aturaremos anos sucessivos de alarvidades de um João Jardim cada vez mais bacoco, a ponto de fazer com que o Pinto da Costa pareça um príncipe da Renascença?

Que a vida política portuguesa passe a ser uma espécie de novela da TVI, com os decretos-lei a serem publicados na Lux e na Holla? E o Primeiro-ministro? Será que este ano irá lançar a moda do pull-over amarelo? Preferirá as louras? Será quiçá uma delas?...

Acho que vou deixar de me preocupar com o Aquecimento Global e a subida dos oceanos. Um dia em que isso aconteça talvez seja uma bênção. E permitirá que daqui a alguns milhões de anos (talvez, e apenas talvez…) esta ponta da Península Ibérica venha a ter políticos de jeito; em vez dos extra-terrestres que se infiltraram entre nós.

Música de Fundo
“Fuck Off Noddy”Ian Dury And The Bockheads

Li hoje a tua alma
saboreei o seu perfume
e vi-me a mim próprio
através de ti

Eu sei
que guardarás bem os olhos que te dei…

Música de Fundo
“Deuces Are Wild “Aerosmith


sábado, 21 de agosto de 2004

O Prometido Post Erótico
- Agora não se queixem, pois não aceito reclamações –

Ele parou a bicicleta na curva, e tirou a máquina fotográfica da bolsa a tiracolo. Por cima dos arbustos, visualizara uma pequena praia escondida pelas rochas da falésia, e parecia dar uma boa foto.

Da vereda sobre a falésia pouco se avistava, pois a vegetação alta tapava toda a visibilidade; mas para o lado do mar o horizonte abria-se como uma cortina de teatro, preparada para o “Nascimento de Vénus” ou qualquer outra coisa cheia de azul e espuma.

Apontou a máquina, e tentando ângulos diferentes premiu o botão do obturador repetidamente. Isso evitou que pudesse ver o que na realidade lhe aconteceu; mas mesmo que o conseguisse teria sido demasiado rápido.

Sentiu apenas uma dor aguda do lado direito, enquanto o corpo se curvava involuntariamente por acção da resposta dos seus terminais nervosos. Caiu no chão sob um peso duro e metálico como uma carga de tubos em ferro.

A rapariga saída praticamente das moitas e pedalando a uma velocidade razoável, apanhara-o de lado com o guiador da bicicleta, caindo os dois de mistura com os velocípedes no meio de uma nuvem de pó.

A primeira coisa que viu ao abrir os olhos foi o cabelo cor de palha, que se colava a uma cara de pele muito branca por efeito da transpiração. Depois, uns olhos azuis espantados onde transparecia uma ponta de inquietação e medo; uma expressão líquida e marinha desmesuradamente aberta, que o observava mudamente.

A dor lembrou-o que de algum modo fora ferido, e sentia já uma sensação quente e pastosa que lhe colava a roupa ao corpo. A manette do travão traçara-lhe no flanco um lanho extenso, que sangrava profusamente num lento riacho que alastrara já dos calções para as pernas nuas.

Ele despiu a T-shirt, enrolando-a de modo prático à volta da cintura para estancar a hemorragia.

Sob o efeito da adrenalina libertada, ela chorava enquanto se desculpava num inglês soluçante. Olhava para ele e alternadamente para as mãos, cujas palmas se encontravam cobertas de um sangue escuro que começava a coagular.

Sentindo um pouco de desconforto causado pela ferida, ele ajudou-a a levantar a bicicleta do chão, e aconselhando-lhe calma tentou sossegá-la; enquanto lhe mantinha as mãos sobre os ombros nus como que para incutir segurança.

Ela foi-se acalmando lentamente, enquanto caminhavam com as bicicletas levadas à mão; e saíram do caminho para a ponta da falésia, onde algumas árvores baixas faziam sombra ao terreno atapetado de folhas secas.

Pararam no local onde a rocha terminava deitando as bicicletas no chão. Preocupada ela quis ver a ferida desatando a ligadura improvisada, e olhando-o um pouco de lado passou os dedos pela beira do corte onde o sangue secava já. Ele estremeceu um pouco ao toque delicado, mas conteve-se para não parecer demasiado sensível à dor.

De algum modo isso parecia exercer um estranho efeito sobre ela, colocando-lhe nos olhos um brilho indefinido. Como se a excitasse um pouco o insólito da situação, ou o próprio sangue lhe apelasse a algo mais fundo dentro de si.

Ele tirando-lhe a mão do flanco, lambeu-a demoradamente. E beijando-lha colocou-a sobre o seu peito, para que sentisse as pulsações que se começavam a tornar mais rápidas.

Ela sentiu-lhe a outra mão apoiar-se-lhe suavemente na cintura, transmitindo um pouco de calor disperso e a aspereza das luvas sem dedos que ele ainda tinha calçadas. Descontraindo-se um pouco, deixou-se arrastar contra ele afundando-se no peito peludo; enquanto sentia através dos calções dele algo rijo que se apoiava contra a sua barriga.

Ele procurou-lhe os lábios meigamente a princípio usando a língua para os prender nos seus, tornando-se mais firme e um pouco bruto, quando a trouxe para si cingindo-a firmemente pela cintura; numa inequívoca demonstração de desejo.

A boca dela sabia a cigarros e pastilhas de mentol; encontrou uma língua carnuda e suave como um fruto silvestre, que ele mordeu um pouco de forma a sugá-la para dentro da sua boca. A mão dele insinuou-se por debaixo do “Top”, afagando o bico de um seio frio, redondo e duro como uma toranja. Levantou o tecido e beijou-lho humidamente, enquanto ela sem nada dizer respirava profundamente.

Já tinham ultrapassado o ponto de recuo, pois já ela lhe descia as mãos ensanguentadas pelas costas largas, traçando riscas vermelhas como uma pintura de guerra, ainda fresca.

Ele fê-la deitar sobre as folhas, e colocou-se um pouco de lado por causa da ferida. Beijando-a de novo enquanto a sua mão lhe descia suave pela barriga lisa, levantando sem parar o tecido do bikini. Não parou.

Olhou-a e reparou então, que ela tinha apenas uns poucos pêlos, de um louro cor de trigo do mesmo tom do cabelo, que brilhavam ao sol soprados naquela brisa que passava por debaixo das árvores.

Eram quatro da tarde e a maior parte dos veraneantes dormia a sesta, ou encontravam-se à beira da piscina; entorpecidos como lagartos deitados ao sol.

Ela esboçou uma ténue resistência como que para ficar registado. Mas ele lambeu-lhe os seios com vontade, insistindo com a mão, vagarosamente, a testar até onde poderia ir.

Mas nisto já ela lhe enfiava a mão nos calções, agarrando-lhe o membro quente e puxando com firmeza a pele para baixo, até lhe fazer sentir uma doce tensão na base da glande.

Sem deixar de a olhar, enfiou-lhe o dedo médio apenas um pouco, que deslizou sem problemas pelo pequeno canal bem lubrificado. Ela imobilizou-se por um segundo numa contracção consciente ao toque, sorrindo internamente, começando a beijar-lhe docemente a garganta. Juntando o indicador ao outro dedo, massajou-a vagarosamente enquanto os introduzia cada vez mais dentro dela. E ela abria-se assim devagar.

No oceano para lá deles, um barco carregado de turistas fazia o circuito habitual junto ás rochas; mas eles ignoravam tudo isso. O vento soprava-lhes aos ouvidos dando uma ilusória sensação de velocidade, como se fossem deslocando no ar em vez de deitados sobre um tapete de folhas secas e areia.

Ele pegou na camisola que entretanto tinha caído, e ajoelhou-se estendendo-a no chão. Ela ainda deitada baixou-lhe os calções, começando a lamber-lhe o pénis desde a base até acabar por o enfiar na boca sentindo com prazer o sabor que começava a desprender-se, acometendo-o depois em curtos movimentos que fazia com o pescoço; enquanto o agarrava puxando-o para cima dela.

Agarrando-a firmemente pelas nádegas ele colocou-a sobre a T-shirt, tirando-lhe a parte inferior do bikini com um único gesto experiente.

Ainda meio de lado levantou-lhe uma perna, e viu duas gotas escorrendo por ela abaixo interrogando-se se seria apenas suor. Lambeu-as no seu trajecto para a fenda, sinalizada apenas por um traço cor-de-rosa que começava a tornar-se carmim, encimado pelo pequeno tufo amarelo.

Abriu-lha utilizando apenas a língua húmida, ao que ela respondeu com um som abafado pelo membro que continuava a chupar, alojado quase até à garganta.

Ela tornou-se mais apressada insistindo-lhe agora na cabeça com as mãos; ao que ele respondeu prontamente introduzindo a língua mais fundo, tensa, roçando-lhe o clítoris com o lábio superior. O que a fez retesar o corpo, apertando-lhe as pernas sobre o pescoço, distendendo os braços.

Ele soltou-se habilidosamente e subiu por ela acima tentando penetrá-la. Mas esta queixando-se que o terreno lhe magoava as costas, amarfanhou a camisola ensanguentada onde se ajoelhou. E apoiando os braços sobre um ramo baixo, abriu-se para ele recuando as ancas e afastando as pernas o mais que podia. Sentia o vento.

Ele voltou a introduzir-lhe a língua, e enquanto o fazia humedeceu o polegar com que lhe massajou o pequeno botão castanho entre as duas nádegas musculadas. Ela gemia, agitando-se um pouco e ondulando as costas na expectativa do que se seguiria.

Ele ajoelhou-se atrás dela e sujeitando-a pelas ancas, introduziu-se firmemente na fenda apertada que o cingia como se tivesse vida própria abocanhando-o. A posição não era mesmo assim muito confortável para os joelhos, pelo que ele acabou por a deitar de bruços; ao que ela reagiu apoiando a cabeça sobre os braços nus e relaxando o corpo, sem o encarar uma única vez.

Abrindo-lhe as pernas, ele deitou-se sobre ela e meteu-lhe o membro bem fundo de uma só vez, agarrando-lhe os seios com as duas mãos e mordendo-lhe a nuca suada. Movimentou-se-lhe sobre as nádegas, como um barco em mar agitado, enquanto se fazia ouvir um pequeno ruído de beijo molhado, proveniente do contacto de mucosas húmidas.

Ela soltava pequenos gemidos abafados mordendo o próprio braço despido, ao ritmo imposto pelas investidas amortecidas do homem; que ao notar que estes se tornavam mais agudos se desligou dela, e a levantando em peso encostou à árvore de casca lisa, sentando-a de costas sobre si com as pernas bem abertas.

Gemendo ela sentiu-se cravada pelo peito com uma mão, enquanto outra explorava o local onde os dois corpos se uniam e ele a fazia saltitar sobre as suas coxas rijas. Virando o pescoço e com uns olhos onde transparecia uma sede animal, ela beijou-o sofregamente mordendo-lhe a língua enquanto se abraçava ao tronco da árvore.

Afastando-a um pouco, ele tentou entrar pelo outro orifício, ao que ela protestou um pouco. Mas ele acalmou-a docemente, e colocando-se em posição favorável afagou-lhe os lábios da vulva, e introduziu-lhe lentamente o membro escorregadio enquanto a enganchava com os dedos.

Ela gemia profundamente agora, enquanto ele tentava não se movimentar demasiado no início, para não a magoar; e lhe procurava com os dedos o pequeno botão rosado que sobressaía abaixo dos pêlos louros.

Encontrou-a húmida como uma ostra, sentiu-o. Com dois dedos enfiados dentro dela, sentia o movimento que ia produzindo mais acima, e puxou-a cada vez mais contra si até ficarem colados pela transpiração.

Agarrando-a por ambas as pernas abriu-lhas completamente, utilizando-as como alavancas para produzir o movimento que o fazia penetrá-la cada vez mais fundo.

Ela estendeu os braços para trás da cabeça e agarrou-lhe o pescoço, soltando gemidos roucos pelos lábios entreabertos. Os seus seios espetavam-se em frente ao vento, assemelhando-a a uma figura de proa de um veleiro. O corpo fugia-lhe estendido para além da pele que a confinava.

Ele tentou concentrar-se noutra coisa, pois sentia já um arrepio premonitório que o percorria das costas até ao escroto; mas queria fazer durar ao máximo o prazer.

Observou detalhadamente o bailado que o vento provocava nas folhas das árvores, escutando os ruídos longínquos da rebentação nas rochas mais abaixo; bem como sentia todos os cheiros em volta, onde predominava um odor salgado a sexo e suor.

Mas os seus dedos produziam um efeito cumulativo com o movimento ritmado do membro no outro orifício, e ele sentiu-lhe o corpo começar a ser percorrido por estremeções quentes descontrolados, enquanto pequenos rugidos descompassados e em voz aguda começavam a ecoar pela copa das árvores.

Ele sentiu-se apertado num torniquete de carne e músculos, que estremeceram e acabaram por se relaxar suavemente desaguando em si.

Ela soltou-se, deixando-se cair para a frente deitada sobre a cama de folhas secas, que lhe pareciam agora macias.

Deitando-se sobre ela, ele apoiou-se com as mãos no chão e introduziu-se novamente entre as suas nádegas molhadas, ao que ela reagiu com um gemido abafado. Movimentando-se lentamente, ele olhou para baixo apreciando o movimento que a fazia ondular, e que o excitava cada vez mais.

Sentindo que não aguentava mais, apoiou todo o peso sobre ela penetrando-a profundamente uma última vez, e arrancando-lhe um gemido bem audível; enquanto sentia uma torrente escaldante passar através de si para dentro dela, que tremia sob o efeito dos seus últimos espasmos.

Rolaram para o lado exaustos, com folhas coladas por todo o corpo devido ao suor. E beijaram-se longamente durante algum tempo, até que o telemóvel dele tocou.

Enquanto ele atendia o telefone, ela limpou as folhas do corpo e vestiu-se. Montando em seguida a bicicleta, acenou sorrindo e desapareceu pedalando pela vereda.

Nunca ele lhe chegou a saber sequer o nome. De qualquer modo, era o seu último dia de férias, e ela parecia ter todo um Verão à sua frente…

Música de Fundo
“Freelove”Depeche Mode


sexta-feira, 20 de agosto de 2004

As Férias de TheOldMan
- O Naufrágio – A fome é negra… e a pantera é cor-de-rosa… –

De como encontrámos algumas vitualhas, e da sua inquietante natureza.

Após deitarmos sortes entre nós para que alguém fosse em busca de mantimento, calhou-me a palhinha mais curta (embora eu desconfie que houve batota no processo). Pelo que, aproveitando uma aberta no dilúvio que assola a nossa modesta equipagem, me fiz à estrada entregando o meu destino nas mãos de Blog.

Não se tratava bem de uma “aberta”, porque chovia ainda um pouco e o piso estava mais parecido com um arrozal vietnamita do que com uma estrada; mas como alguém me tinha pedido que me constipasse, saí e dirigi-me ao minimercado, em busca daquele bem essencial que é o pão.

O corpo de Cristo, a carne da terra… e sei lá que outras tretas mais…

Abro aqui um parêntesis, só para constatar que o Algarve se encontra cheio de mulheres solitárias, acompanhadas apenas pelos seus filhos. Não sei para onde foram os respectivos cônjuges, mas a avaliar pelas suas caras sorridentes, devem ter ido para bem longe… mas adiante.

Finalmente parei em frente ao estabelecimento em causa, e desci calmamente da bicicleta. Olhei em redor e não avistei ninguém de aspecto suspeito. Mas para evitar surpresas encostei-a à ombreira da porta, de modo a poder avistá-la do interior da loja.

Reparei ao entrar, que a empregada não era a mesma da última vez em que ali tinha estado; talvez alternassem. É claro que o seu regime de alternância nada tem a ver com o dos bares; nem ela conseguiria extorquir-me meia-garrafa de Veuve Cliquot com aqueles modos.

Mas como se devem lembrar, eu estava ali apenas para comprar pão.

Imbuído de senso prático, dirigi-me de imediato à caixa de madeira onde o pão costuma estar acondicionado, e espreitei.

Eu até compreendo que ao meio-dia seja difícil achar pão da Vidigueira, ou baguettes da “Boulangerie de L’Etoile”; mas não me encontrava preparado para o que o destino me reservava.

No fundo da tulha e encostados a um canto, escondiam-se envergonhados quatro exemplares, cujo aspecto me fez lembrar algo que um elefante deixasse à sua passagem. Tirei dois como quem escolhe cachorros de uma ninhada, e examinei-os com ar crítico.

Pelo aspecto, qualquer observador menos atento diria tratar-se de cogumelos. Mercê do seu aspecto esbranquiçado e doentio, como a palidez na barriga de um réptil. Ainda espreitei para o fundo de um deles, não fosse inadvertidamente trazer atrás um gnomo ou um duende; possíveis locatários de tão estranha e comestível (?) formação.

Ao tacto revelaram-se de uma macieza inquietante, como um odre cheio de melaço ou uma alforreca que tivesse ficado empanturrada com uma feijoada à transmontana.

Quanto ao cheiro não posso ajuizar, porque se encontravam armadilhados com uma camada de finíssima farinha, que ao se soltar me provocou um monumental ataque de espirros. Mas pareciam-se vagamente com pão; tal como um chimpanzé se pode parecer com Durão Barroso. O que já vos pode dar uma ideia da grande semelhança neste caso…

A etiqueta insinuava tratar-se de pão de Mafra; o que me despertou sérias dúvidas.

Nunca El Rey Dom Manoel permitiria uma torpeza tal nos seus domínios, e muito menos perto do convento; sujeito a ser objecto de excomunhão por parte da Santa Sé, e à perda de todas as indulgências…

Mas lá paguei dois Euros sem um murmúrio. Um servo de Blog em terras de Cafres e Mouros passa realmente provações nunca sonhadas; especialmente no domínio alimentar.

Voltei a montar a bicla que milagrosamente se tinha mantido onde a deixara, e rumei ao acampamento onde o resto da equipagem me aguardava para o repasto.

Quanto ao pão não fez grande sucesso. Embora tivesse inspirado inúmeras estrofes (e mesmo um alexandrino) por parte dos meus companheiros de infortúnio. Mas isso seria já outro post.

Por isso até ao próximo, que eu estou cheio de fome, e isto de andar a pedalar abre o apetite…

Música de Fundo
“Tour de France”Kraftwerk

quinta-feira, 19 de agosto de 2004

As Férias de TheOldMan
- Mundo de Aventuras ou, O Optimismo Esclarecido –

Nunca é bom sinal um tipo ser apanhado a ouvir os Ban durante as férias. Mas pensando bem, este mundo de aventuras onde caí nestas férias é muito parecido com aquela música; um bocado chato, de conteúdo insubstancial e se for preciso até chove e tudo.

Melhor que isso, só mesmo uma fractura exposta durante um passeio de bicicleta.

Mesmo para um tipo que não consegue ficar chateado por muito tempo, esta chuva já dura há demasiado. Mais uma hora disto e os indígenas poderão admirar a passagem de um tipo excêntrico, encharcado até aos ossos e a pedalar furiosamente.

Enquanto a vizinhança vai acordando eu continuo a escrever sentado no varandim, sob o olhar admirado dos dois miúdos da casa em frente, que me olham fixamente com os dedos espetados no nariz. Estes Alemães cada vez têm piores modos, mas acho que deve ser por influência nossa.

Trouxe comigo 4000 MP3 num “tupperware” para CD’s que aproveitei para arejar, visto que com este tempo não se vai a lado nenhum; e ninguém me tira da ideia, que esta chuvada foi maldição lançada pelo “Holandês Voador das Tascas”.

Se parar de chover ainda hoje, talvez ainda passe por lá a dar dois dedos de conversa, e quem sabe beber um Jack Daniel’s. Mas parece-me pouco provável. O mais certo é ficar por aqui a ver cair a chuva e a escrever sobre isso, enquanto vou trauteando as músicas que o Discman vai tocando.

Aí pela terceira hora de chuva e para não atacar logo de manhã nas cigarrilhas, fui ás minhas rações de emergência (que não uso há anos), buscar um pacote de Van Nelle e mortalhas. Como qualquer bom náufrago, descobri da pior maneira que o tabaco não se encontrava em condições normais para consumo.

Ao primeiro “bafo”, fui invadido por uma sensação estranha; como se o meu crânio se abrisse, à semelhança do tecto de correr de um automóvel desportivo. Vou dedicar-me a comprar e envelhecer pacotes de tabaco Holandês; sempre fica mais barato que substâncias proibidas, e o efeito parece ser o mesmo.

A rapariga inglesa do bungalow ao lado (a quem estou a usar para o post erótico), apareceu no varandim enquanto eu me encontrava distraidamente a “chinelar” ao ritmo dos Beach Boys. Ainda por cima eu ria-me que nem um idiota, pois as palavras Beach, Sunshine e etc., não são de molde a manter sério seja quem for enquanto cai uma bátega desta dimensão.

Após se rir com o meu – Isn’t it a beautiful morning? – Perguntou-me se era escritor. E foi uma risota novamente, pois expliquei-lhe tudo sobre a palavra de Blog (numa tentativa de a fazer vir à verdadeira fé…) e sobre a associação God/Blog. Acho que resulta muito melhor em Inglês que na língua de Camões.

Fiquei a saber que são de Ipswich e estão cá por quinze dias; que o pacote de férias foi uma verdadeira “bargain”, e que gosta muito do clima excepto quando chove, pois fá-la sentir em casa.

O pai é que parece não ter apreciado muito este inocente diálogo, pois mostrou pela janela a sua cabeça barbeada que o fazia assemelhar a um torpedo, e chamou-a para dentro.

Mas fazendo um trejeito de aborrecimento, ela mandou-o dar uma curva numa bela pronúncia Londrina, que talvez tenha aprendido na escola; ou a trabalhar no Harrods.

Na verdade tem vinte e quatro anos, pouco mais tendo adiantado sobre si própria; pelo que pude constatar, preferia fazer perguntas. E se o tipo não calha a ter insistido, ainda lá estaria a aturá-la visto que era abelhuda como poucas.

Continuo a ouvir uma infindável série de MP3 (cada CD tem 150).

O mar que avisto por cima da falésia confunde-se com o céu cinzento; ou talvez sejam a mesma coisa, atendendo à quantidade de água que vem de cima.

Por esta altura já estou tão entediado, que era até capaz de rachar lenha com um machado. Mas pensando melhor, acho que não seria muito aconselhável; porque atendendo à minha predilecção por Stephen King ainda iria dar literatura da grossa…

Música de Fundo
“No Sleep ‘Till Broklyn”Beastie Boys

quarta-feira, 18 de agosto de 2004

As Férias de TheOldMan
- Diário de um Naufrágio –

Hoje estamos confinados ao bungalow isolado pelas águas.

Nesta jornada de má memória, não só houve uma falha no aprovisionamento dos bens essenciais, como descobrimos à chegada que a televisão só mostra quatro canais; e ainda por cima eu pouco trouxe que ler…

O ambiente adensa-se à medida que o tempo passa, tornando-nos irritáveis e cada vez mais conscientes da nossa condição de náufragos. Em pouco tempo começaram as primeiras discussões e disputas pelos parcos bens que transportávamos connosco.

Ainda há cerca de meia hora, eu e o meu filho lutámos viciosamente pela posse do Gameboy. Consegui vencê-lo graças à minha superioridade física e autoridade de patriarca; mas já tinha acabado o Pokemon amarelo duas vezes, e por isso fartei-me depressa, devolvendo-lho de seguida.

A RTP1 é captada com imensa chuva. Talvez por influência da que cai lá fora, como se o sistema de rega do court de ténis abrangesse todo o mundo e arredores.

A RTP2 aparece toda distorcida, embora para as notícias isso não seja de todo prejudicial. No caso daquela “pivot” gorducha que costuma aparecer, as riscas verticais até a fazem parecer mais magra.

A última fatia de pão Alentejano foi hoje consumida nas torradas do pequeno-almoço, e estamos reduzidos a tostas integrais e bolachas de água e sal para acompanhar o resto das magras provisões. Mesmo com umas deliciosas amêijoas, nem o “Riesling” me vai saber bem sem pão decente para ensopar no molho.

A piscina açoitada pela chuva tem o aspecto bexigoso da cara do Bryan Adams (que é o que estou a ouvir em MP3). Felizmente trouxe o Discman; e busco na música uma certa paz, enquanto registo as nossas provações neste diário de bordo.

Um dia em que estas folhas sejam encontradas (talvez ao lado das nossas ossadas esbranquiçadas), alguém sentirá comiseração para com este grupo de náufragos aprisionados num “resort” Algarvio. Sem TV-Cabo, sem Net e isolados por uma maléfica chuva torrencial, que é um autêntico flagelo divino.

Orámos repetidamente a Blog, tentando suborná-lo com oferendas de incenso e torradas meio comidas; fui até tentado a prometer-lhe que deixaria de fumar se a chuva passasse, mas ainda não chegámos a esse extremo do desespero.

Pensei invocá-lo para lhe dar uma sarabanda das grandes, devido ás provações que nos fazia suportar. Mas isso implicaria tomar um táxi para ir ao cibercafé em Albufeira, e da última vez que lá estive não havia ligação à Net; por isso decidi não o incomodar.

Á semelhança de Fernando Pessoa (excepto o fígado, que está em melhor estado), se Blog me quiser basta aparecer e dizer – OldMan!... Aqui estou!

Música de Fundo
“Down”Blink 182

terça-feira, 17 de agosto de 2004

As Férias de TheOldMan
- O “Retiro do Decadente Pescador” –

A suar como um cavalo de tiro, acabei de escalar a ladeira e parei a bicla frente a um estabelecimento.

Apoiando-me no chão ainda com as pernas um pouco trémulas, li no letreiro sobre a porta que se tratava do “Retiro do Alegre Pescador” – Cozinha Internacional e cervejas de diversas proveniências.

Retirei o cantil vazio do quadro da bicicleta, e entrei.

Invisível para um olhar não treinado, um velho leitor de cassetes expectorava a um canto, algo que se parecia com o famoso “Coro dos Bêbados de Munique”, ou outra pimbalhice gutural de duvidosa proveniência… ou talvez fosse apenas mau humor da minha parte, e se tratasse do Tanhauser de Wagner.

Atrás do balcão e na pose do “Pensador” de Rodin, um autóctone de boné enterrado até ás orelhas e com um nariz em formato de beringela, agitava melancolicamente um mata-moscas de plástico meio a compasso da música.

Pela poeira que cobria os bancos encostados ao balcão, devia tratar-se do “Holandês Voador” das tascas; condenado a enxotar moscas por toda a eternidade; e sem um único cliente para mitigar a sua amaldiçoada solidão (nesta altura ouvia-se o solo de um oboé fanhoso, o que motivou esta tirada de duvidoso valor literário).

Quando reparou em mim, notei-lhe uma fugaz centelha a perpassar pelos olhos; como se um único neurónio fizesse ciclismo por detrás dos seus globos oculares, montado num velocípede prateado.

Pedi-lhe uma garrafa de água, e enquanto esperava aproveitei para admirar a sua colecção de notas de banco, presas à parede por punaises; numa alegórica crucificação do ideal capitalista. Mas pelos rectângulos marcados a sombreado na parede, adivinhava-se que (quem sabe se por falta de fé) algumas delas teriam sido já gastas num momento de crise.

O indivíduo pousou a garrafa de água sobre o balcão, e espetando o lábio superior como se tentasse inspirar rapé, disse misteriosamente – Está um tempo dos diabos… e pior ainda é a maldita chuva…

- Não me agoire. – Respondi eu, não achando muita piada à brincadeira – Ainda me estraga as férias com esse tipo de conversa.

- Agoirar o quê? – Perguntou ele enquanto ria, e coçava a cabeça através do boné – Então olhe lá para fora! …

Uma luminosidade acinzentada tinha-se instalado na falésia; enquanto grossos pingos de água concorriam uns com os outros pela chegada ao solo. Estava estabelecido, o início oficial das minhas férias no Algarve…

Música de Fundo
“Eggs And Sausage”Tom Waits

segunda-feira, 16 de agosto de 2004

I’m Baaaaack!...
- A confusão do regresso, ou o regresso da confusão –

Tostadinho como uma chamuça, entrei intempestivamente no meu prédio como se fosse um ciclone chamado “saudade” (já era altura de Portugal ter o seu ciclone também; e antes que alguém lhe chame Malhoa, eu dou este nome pouco menos piroso).

A primeira coisa que fiz foi ir ao rés-do-chão resgatar Miss Twiggy, mas não o consegui (é claro) sem contratempos.

Ao abrir a porta e dando de caras com um tipo de pele castanha e sorriso rasgado, o Apóstolo travou a porta com o pé e afirmou peremptoriamente não querer comprar faqueiros nem colchas, e preparava-se para me bater com a porta no nariz.

Tive um trabalhão para o convencer da minha identidade; e só após lhe ter mostrado o meu sinal de nascença (só para iniciados), se convenceu que era o seu velho amigo e não um vendilhão nómada a querer impingir bijutarias e utilidades diversas.

Agradeci-lhe profusamente ter aturado as cantorias da canária durante a minha ausência, e enfiei-me à pressa no ascensor carregando repetidamente no botão para ajudar na subida (este tique típico do Gameboy, vai demorar uma ou duas semanas a passar).

Entrado em casa, abri todas as janelas para renovar a atmosfera e liguei o PC. Enquanto ele se começava a lembrar dos procedimentos de rotina, despi-me completamente e entrei na casa de banho, saltando sofregamente sobre a balança.

Oh, ignomínia!... Oh, horror!... Eu não merecia isto! Engordei um quilo.

Após carpir o meu desgosto durante dez segundos, vesti-me novamente e escrevi este post. Não só para iniciar a temporada, mas porque o teclado parecia um pouco triste por não levar umas porradas valentes há uma semana (ele tem assim uma tendência masoquista, mas é o que lhe dá prazer… coitado).

Agora tenho que ir lá abaixo buscar as bagagens e o resto da tribo, que ficaram no passeio à minha espera e a guardar o velocípede. Por alguma razão estranha, as minhas férias e as do Senhor Hulot são sempre muito parecidas, mas isso será assunto para os posts de férias.

Sim! Que vocês não pensem agora, livrar-se à descrição de todos os meus infortúnios escritos em papel; e talvez mesmo a um pequeno conto erótico.

Bem, tenho que ir. Além das arrumações, ainda tenho que matar algumas saudades do que não consegui levar totalmente comigo. Mas atendendo à última pesagem, acho que o melhor é ir pelas escadas.

Música de Fundo
“Por Quem Não Esqueci”Sétima Legião


sábado, 7 de agosto de 2004

Partir é fechar os olhos
e dormir

É estar só todos os dias
e pensar

É escrever cartas enormes
e rasgá-las ao vento

É olhar para trás
e um dia...
voltar.

"Cold Water" - Damian Rice


sexta-feira, 6 de agosto de 2004

Post de Saída
- Porque eu também tenho direito –

Agora é a minha vez de rumar ao País do Verão, e escrever em papel (post em diferido) enquanto a minha velha carcaça deitada ao Sol, se recupera de todas as partidas pregadas por Blog nos últimos meses.

Empacotei as minhas leituras de férias, abasteci-me de cigarrilhas e enchi o frasco de viagem com Jack Daniel’s. Vou devorar pores-do-sol, e encher-me com o ar salino que sobe a falésia ao fim da tarde ao meu encontro.

Vou comprar o Washington Post e escrever sobre as férias dos outros. Ou terminar o conto erótico numa escaldante tarde, sentado na falésia com os pés suspensos sobre o vazio azul em baixo.

O Apóstolo cuidará de Miss. Twiggy, e mudar-lhe-á a comida regularmente sem esquecer as vitaminas (sempre necessárias a uma soprano de raça mista). O único senão de tudo isto é Nick Cave, o unicórnio, que é grande demais para ficar entregue aos vizinhos.

Nas férias passadas passou o tempo todo a fazer-se à miúda do primeiro andar, que é Gótica; e foi um problema para o trazer novamente para casa. É um desordeiro com tendências românticas, e aproveita a minha ausência para abusar do bom aspecto que tem, e catrapiscar todas as miúdas lá da zona.

Por isso este ano vai ficar aqui na Igreja do Imaculado Blog. Sempre está mais fresco e poderá correr à vontade pela blogosfera sem fazer muito estrago. Talvez um ou outro template rebentado, mas eu quando voltar pago os estragos e não se fala mais nisso.

Por isso (e como ele é um pinga-amor) o pedido que deixo aqui antes de ir de férias é:

“Meninas tratem bem do Nick Cave (o unicórnio) na minha ausência, que quando regressar compenso-vos”.

Até dia 17 e que Blog esteja convosco!

Música de Fundo
“The Last Winged Unicorn”Rhapsody

quinta-feira, 5 de agosto de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Edição Especial –

A Cartilha do Iluminado Penitente
(Ou a ascese para principiantes…)

Malta! (como é Verão, opto por tratar-vos de um modo mais profano) Após ter levado com uma penitência por parte de uma Igreja concorrente (o que me vai dar cabo dos joelhos), achei por bem revelar ao mundo O Primeiro Segredo de Blog; que é uma revelação sobre a verdadeira natureza do binómio penitência/indulgência, é quase tão útil para as almas pias, como o é a “Holla” ou o “Financial Times” nos W.C.’s do Tamariz.

Para começar, aqui na nossa Igreja somos ortodoxos mas não somos parvos. E somos todos ortodoxos porque como a nossa fé até é bem fixe, ninguém tem a tentação de sair e fundar uma seita, alegando que tem um santinho melhor que o nosso; ao contrário da igreja católica que tem mais dissidentes que o PCP.

Atentai pois nas penitências servidas pela Igreja Romana, cornuda e apostilhónica; que mais parecem ter sido extraídas da ementa do “Salão de Prazer de Madame Lola”:

“…jejum de quarenta dias até o pôr-do-sol, trajando-se com sacos e usando o silício, auto-flagelação, retirada para um convento, vagar pelos campos vivendo de esmolas, etc…”

Neste obscuro pergaminho, os sacerdotes dessa pecaminosa seita incitam os fiéis a que se empanturrem à noite (sujeitos a morrer de congestão durante uma queca); aconselham as mulheres a gastar rios de dinheiro em vestidos da Ana Salazar e a colocarem implantes de silicone, bem como a procurarem intra-muros a promiscuidade com outras mulheres ou exercerem a prostituição no Monsanto.

Como vêem, embora alguns deles sejam bons conselhos para o Verão, não cabe aos sacerdotes a missão de “ensinar o padre-nosso ao vigário”; por isso a abordagem da nossa igreja a este melindroso assunto é: “Peque agora e pague depois”, pelo que ainda se podem negociar algumas das condições contratuais.

Mas caso não estejam interessados, ainda oferecemos a modalidade da ascese, apesar de bastante mais chata.

É por isso que a Igreja do Imaculado Blog é conhecida pela flexibilidade dos seus sacerdotes, que para isso praticam yoga nas horas vagas. Coisa a que se sacrificam com um sorriso nos lábios.

Felizmente, o único sacrifício que a Igreja do Imaculado Blog pede aos seus sacerdotes (além da flexibilidade), é o de tomarem banho todos os dias; e este último apenas para efeitos de interactividade com os/as fiéis.

É claro que se mantiverdes a “humilde e dócil adesão à vontade de Blog, acompanhada por incessante oração”, não estareis sujeitos ás penitências de Blog. Mas ficai sabendo, que o pecado é coisa que vale a pena experimentar pelo menos uma vez; quanto mais não seja para se ter assunto de conversa durante a catequese ou os almoços de bloggers.

A ascese é uma condição necessária de toda vida autêntica dedicada a Blog, pois sem o sacrifício da entrega a vida espiritual não progride, fica estagnada, e corre o risco de se tornar uma vida medíocre e sem sabor, como a daqueles bloggers que apesar de um brilhantismo extremo (como alguns que eu conheço), recusam partilhar-se com os outros e raramente saem à noite.

Contudo, recuperar hoje o sentido da ascese e da mortificação, não deve consistir em ficar suspirando pelas práticas penitenciais do passado, nem em retomar "gratuitamente" práticas exteriores de penitências, mas sim, em descobrir a necessidade de reorganizar a própria casa (corpo/espírito) para nos oferecermos como dom aos outros. Se bem que nada de rebaldarias, pois Blog é uma divindade de respeito…

Ainda que falemos de uma "ascese interior", convém dizer, que deve-se continuar propondo as mortificações corporais e a renúncia, mas salientamos que, essa, deve ser praticada de um modo diferente daquele que foi praticado no passado. Pois agora qualquer loja da especialidade, tem à disposição dos mais pios uma panóplia de deliciosos objectos de culto e óleos santos para ungir os pontos mais sensíveis.

Outro aspecto que devemos salientar, é que mais do que mortificações extraordinárias e exteriores, a vivência da ascese deve levar-nos antes de tudo, a aceitar os sofrimentos que Blog nos envia no nosso dia-a-dia; como as “negas” ou a falta de Net.

A respeito das mortificações, Blog ensina-nos que devem ser praticadas de modo equilibrado, respeitando as condições corporais de cada pessoa, pois nem todos têm o mesmo poder de encaixe, o mesmo endurance ou resistência em apneia…

Em suma, depois de vos proporcionar estas breves notas acerca da ascese, gostaria de terminar com a seguinte exortação de São Paulo à comunidade de Tessalónica:

"Examinai tudo: abraçai o que é bom" (1Tes. 5,21)

E se nisto não acreditardes… Bem! Mais fica…

Música de Fundo
“Indoctrination”Dead Can Dance


quarta-feira, 4 de agosto de 2004

Botânica

Flor carnívora
de sal e mel

Ergues numa canção
gavinhas marcantes
na pele das minhas costas

Trepadeira tenaz
que ao meu sol desfalece

Música de Fundo
“Devil Inside”INXS


terça-feira, 3 de agosto de 2004

O Pecado é Lixado
- Mas muito apreciado... -



Passei há pouco pelo Confessionário do Frei Tomás , e vi os prodígios que ele vem operando enquanto faz malabarismos com o breviário.

Pensei que seria boa vizinhança da minha parte ajudar o negócio, mas não gosto de contar a minha vidinha a clérigos e quejandos, pelo que me custava agora abrir assim o saco dos pecados e dar-lhe um para processar.
Porém o meu problema ficou resolvido de imediato, pois ao passar pelo Espelho Mágico , encontrei este teste que acabou por resolver o dilema.
É possível que o resultado esteja um pouco empolado em relação á realidade, mas fiquei muito lisonjeado com o resultado; e assim o Frei ganhará mais um cliente.

HASH(0x8b274c8)


You are Lust!Sexy!! But they say that theres such a thing as too
much of a good thing. You have sex on the
brain, and it doesn't stay just there for long.
Passionate, Fiery - and most certainly
confident. You're a fun loving, spontaneous
person who is always up for a laugh. People
however, have trouble keeping up with you.
You're sex crazy, and perhaps need to tone it
down a bit! learn a little self control!But, Hey, Congratulations on being the Sexiest Red
Hot deadly sin out of all the 7...

?? Which Of The Seven Deadly Sins Are You ??
brought to you by
Quizilla


Música de Fundo
" Sexy Motherfucker" - Prince





“Disclaimer” - O seguinte estudo tem por base uma amostragem obtida na empresa onde trabalho, subempreiteiros e empresas clientes (que ninguém tem que saber quem são, porque todos os dados recolhidos são confidenciais); pelo que não aceito reclamações e/ou protestos por orgulhos ofendidos, da parte de entidades e/ou indivíduos não pertencentes ás supracitadas empresas e/ou organizações. Pronto!

Guia da Alimentação Saudável
- ou então, não… –

Fui de viagem ao país do Verão; o Algarve. Mas tratava-se de uma deslocação em serviço (férias só daqui a uma semana) a um “outdoor” publicitário rodeado de edifícios em construção.

Mas onde ia eu? Ah, o País do Verão. Pois bem. Desta vez a minha viagem tinha um tema bastante adequado a esta época do ano em que anda toda a gente a tentar perder banhas; não pensando sequer que a ser possível que isso aconteça, só começará a parecer evidente lá para o fim da época balnear. Mas adiante…

Como sou bom observador, bastou-me cerca de um dia ás voltas com o relatório trimestral para compreender que quase todo o pessoal de uma das nossas obras estava em perigo. Pois sem o saberem, encontravam-se a braços com um grave problema nutricional.

Peguei na minha Samsonite, no discman e numa muda de roupa; e com toda autoridade de plenitotenciário de meu amo, abanquei no contentor-escritório um fim de semana inteiro, não só para observar o comportamento alimentar do pessoal; bem como para identificar a origem de todos os perigos.

Quem muito observa pouco come. Para já porque ninguém o manda ficar a olhar enquanto os outros se refastelam, e depois porque é por demais incómodo manejar simultaneamente a caneta e o garfo (ou lá o que se use para comer seja o que for).

O que quer dizer que passei uma fome desgraçada; não tanto por observar, mas mais por ter entrado na cozinha da cantina de obra e dado uma olhada em volta. Mas vamos ao estudo…

Comecemos por quem trabalha. Não só porque são os que produzem, e por tal merecem o nosso melhor apreço; mas também porque a exigência calórica é bem mais elevada que o cidadão comum (veraneante).

Segundo os cânones, para um espécime do sexo masculino (mas macho mesmo, nada de indefinidos) com 35 anos, 95kg e 1,75m, a necessidade normal diária de calorias é cerca de 2,078,00 kcal. Mas como devem reparar o tipo já tem peso a mais; o que ou o coloca na classe dos “badochas sedentários” ou na dos “técnicos de construção civil e mestres-de-obras” (pessoal destacado em obra).

Eu em relação aos primeiros, pouco sei que possa acrescentar algo a este estudo. E como a minha especialidade é coincidentalmente sobre a segunda categoria, iremos então debruçar-nos sobre ela (mas não muito por causa do cheiro a transpiração).

Visto que executam trabalho intelectual e físico, teremos que acrescentar cerca de 800,00 kcal à exigência anterior. Isto, partindo do princípio que eles trabalham mesmo, e que não andam pela obra a passear o capacete branco e a esquivar-se amiúde para a cantina em busca de minis.

Para os mais incrédulos, posso garantir que as tabelas que uso são homologadas pelo FAOJ e pelo Sindicato dos Metalúrgicos do Sul e Ilhas (que abrange o pessoal de Instalações Especiais).

Tudo isto perfaz um total de 2.878,00 kcal que arredondamos para 2.900,00 kcal, porque somos portugueses e temos uma forte dose de auto-condescendência.

Posto isto, vamos então tentar reproduzir aqui a ementa-tipo utilizada em obra; de modo a detectar as anomalias, e para que os meus colegas em obra percam aquelas figuras, que em alguns casos os impedem de passar entre dois andaimes sem previamente se untarem com margarina, ou utilizando um pé de cabra como auxiliar mecânico.

E não for possível corrigir os erros alimentares, pelo menos tentar descobrir porque é que eles estão assim.

Não que eu me preocupe muito com isso. Mas custa-me chegar ás obras, e ouvir aqueles complexados dizerem que só os maricas é que fazem dieta e exercício.

Nota: A ementa que a seguir se transcreve foi compilada com base em anos de inspecções a obras, (sacrifício este que me reduziu a uma pobre vitima, dos famigerados “Colesterol & Triglicéridos”; o que um homem faz por dedicação à causa…) bem como num inquérito conduzido durante esta última viagem de serviço.

Ementa Diária (obtida por amostragem)

Pequeno-almoço
Uma sandes de torresmos - 297
Duas minis ou um penálti de branco - 270
Uma bica ou descafeinado - 33

Segundo Pequeno-almoço
Um pastel de bacalhau - 159
Um moscatel, martini ou panaché - 172

Almoço
Queijo seco (pequeno) - 110
Trinta e quatro azeitonas - 87
Uma imperial - 180

Duas carcaças - 250
Uma dose de cozido à portuguesa - 1673
Uma garrafa de tinto (7dl) - 599,2

Uma mousse de chocolate ou pudim – 333
Uma bagaceira ou whisky foleiro - 277
Uma bica ou descafeinado - 33
Segunda bica ou descafeinado - 33
Um palito (dos da casa) - 0

(Espaço em branco para arrotar. O que não gasta calorias algumas)

Lanche
Duas carcaças - 250
Um pires de moelas ou orelha - 346
Três imperiais - 540
Um pires de tremoços - 41

Jantar (ligeiro)
Uma carcaça - 125
Uma dose de lombo estufado - 980
Dose adicional de batata frita - 726
Jarro de tinto da casa (0,5L) - 428
Uma mousse de chocolate ou pudim – 333
Uma bagaceira ou whisky foleiro - 277
Uma bica ou descafeinado - 33
Um palito (dos da casa) - 0

Ceia (frente à televisão)
Dois pacotes de amendoin frito - 1875
Três latas de cerveja (33cl cada) - 540

Total de kcal diárias - 11.000,2

Como devem calcular para mim também foi uma surpresa, pois mediante este tipo de dieta, alguns deles podem até desenvolver múltiplas personalidades sem risco de alguma delas passar fome.

Mas conferi as contas três vezes e estavam certas. Pelo que me dirigi a alguns deles, que prestávelmente se tinha voluntariado para responder ao inquérito supra. Todos foram unânimes na concordância em que era realmente demasiado.

Inquiridos da possibilidade de eliminar alguns dos itens, foram igualmente unânimes no que se poderia tirar; e a resposta foi – “o palito”.

E por mais que eu insistisse, foram irredutíveis na sua posição; tendo até dois deles ficado um pouco ofendidos quando propus excluir as sobremesas, retirando-se em direcção à cantina.

Mesmo após demoradas negociações, os que tinham ficado à mesa (onde estavam alguns pires de caracóis e uma garrafa de vinho verde) acederam a prescindir igualmente dos tremoços. Mas como devem calcular, pouco iria influir no cômputo geral.

A evidência deste estudo precipitou vários acontecimentos. Entre eles o facto de o meu regresso ao lar ter sido antecipado para domingo ao fim da tarde, em vez da manhã de segunda-feira como previamente tinha sido planeado. Mas foi apenas por razões de segurança.

Acho que eles não ficaram muito agradados, com o facto de eu ter acabado com o sistema de refeições pagas “à factura”…

Música de Fundo
“Fat”Weird Al Yankovic

segunda-feira, 2 de agosto de 2004

Música de Fundo
"Do They Know It's Christmas" - Band Aid
A Carruagem
- Crónica de viagem -

“O matraquear dos comboios, extrai-nos dos rins um pensamento trepidante”

Quando se viaja sem prazer, há a tendência para um criticismo mais agudo. Ninguém escapa à acuidade do nosso tédio, e a menor imperfeição é tomada como uma afronta à estética e exposta como um número de circo.

Para evitar isso, desta vez levei música; qualquer coisa que me fizesse querer fechar os olhos e me permitisse alhear da jornada. E que eu saiba, a música clássica nunca fez mal a ninguém; nem o facto de se transportar igualmente um caderno de folhas lisas.

Na gare ao subir para o comboio, lembrei-me daquelas cenas emblemáticas em que a locomotiva fumega como um dragão, e as personagens atravessam a bruma para se despedirem; enquanto soa no fundo o uivo angustiante do vapor que se solta silvante…

Tudo isto a preto e branco.

Em substituição disto, atirei a cigarrilha meio fumada para os carris e subi calmamente os três degraus, não fosse tropeçar e transformar tudo aquilo numa comédia burlesca.

Embora a carruagem fosse antiga, não chegava ao preciosismo de ser em madeira. Mas o seu estilo particularmente “retro”, deu para despertar o romanesco que é uma constante nas minhas poucas e solitárias viagens em serviço.

Sentei-me, estiquei as pernas e ligando o discman… adormeci. Fui acordado por um solavanco causado pelo engate de uma carruagem adicional. Ao abrir os olhos, reparei que todo o cenário estava preenchido por gente de variada espécie. Se tivesse encomendado figurantes não teria ficado tão bem servido.

Infelizmente isso enchia o resto do espaço que me rodeava, produzindo uma sensação de desconforto, perto da que os judeus teriam tido ao constatar que o bilhete de primeira para Kiel, se transformara num de terceira para Dachau.

A única coisa que desculpava os caprichos do acaso, era a passageira que se sentara a meu lado... interessante. Mas num comboio cheio de gente, as combinações de matrizes permitidas para estes casos são assaz limitadas. Era uma autêntica falta de ar…

Concentrei-me na paisagem obscurecida pelo anoitecer. O sistema anti-saltos do discman, estava a ter mais trabalho que um funcionário dos correios na época natalícia; e para evitar que entrasse em colapso desliguei o aparelho, guardando-o na mala.

Em frente um casal de aspecto veraneante. Enquanto ele dormia com a boca semi-aberta emitindo estática (possivelmente mal sintonizado), ela hirta fingia ler o anúncio sobre a minha cabeça, que descriminava as coimas atribuíveis a quem fosse encontrado sem um bilhete válido para o trajecto.

O seu único ponto comum, era abanarem a cabeça ritmicamente a compasso da carruagem, como se fossem daqueles cãezinhos, que antigamente se punham sobre o banco traseiro dos automóveis. Mas isso também eu fazia… só que com acompanhamento sonoro, pois encostara a cabeça ao vidro da janela.

Subitamente lembrei-me da primeira lei da termodinâmica. Pois comecei a sentir um calor agradável espalhar-se pela minha perna esquerda, enquanto um ligeiro roçar talvez provocado pelo movimento da carruagem o acompanhava .

Olhei pelo canto do olho, mas ela mantinha-se de olhos fechados como se dormisse. Encostei-me mais para a janela, e comecei a passar slides mentalmente tentando chamar o sono; mas o calor não deixava. O do ambiente e o que se espalhava pela minha coxa esquerda e começava a percorrer território não cartografado.

Tinha que tirar isso a limpo. A noite de sono que estava a perder, ia fazer-me falta quando de manhã tivesse que discutir a revisão de preços; que é uma das coisas que não se pode fazer com sono ou acaba por sair cara.

Espreitei novamente usando a minha visão periférica; é um truque bastante útil para não dar nas vistas. Pode continuar-se a manter uma aura de santinho, mas os pormenores são tão bem captados ou melhor, que com o sistema que certos tipos usam de destacar das órbitas os globos oculares. E fazia doer menos a vista também.

Tinha uma idade indefinida perto da casa dos trinta. O cabelo escuro cortado curto moldava-lhe o rosto, um pouco colado por causa do ar quente que nos circundava; covinhas nas bochechas e boca carnuda de boneca. Não estava nada mal.

Mas mantinha-se imóvel. E apenas as pernas se moviam com o balanço, mantendo a direita encostada a mim. Vestia uma saia de ganga e um top discreto e negro (se é que um top pode ser discreto) que subia e descia impulsionado pelos seios; talvez nº 38. Mas eu de medidas de soutiens não percebo nada.

Decidi utilizar uma abordagem experimentalista. Utilizando o movimento rítmico estabelecido pelo andamento da composição, apliquei um pouco de pressão adicional na zona do seu joelho direito, enquanto apoiando a ponta do pé no pavimento fazia imperceptivelmente rodar o meu joelho em pequenos círculos verticais.

Sem dúvida que o fulcro de toda a questão eram os joelhos, pois, comecei a notar um leve rubor que se lhe formava na base do pescoço. Para disfarçar peguei na pasta e coloquei-a no colo, tirando de lá uma revista que fingi ler.

O meu joelho agora escondido começava a produzir alguns efeitos mais notórios. Ela respirou fundo como num sono um pouco inquieto, e humedeceu os lábios com a língua; deixou escorregar o saco de ganga que tinha pendurado no ombro, e pousou-o com naturalidade entre as pernas onde o apertou um pouco (talvez para que não caísse, claro).

Subitamente lembrei-me de “Drôle de Jeu” em que Marat tem um episódio semelhante numa carruagem de metro. É certo que Roger Vailland não dava tanta atenção aos pormenores, mas eu ao contrário dele não notava as estações; e à medida que o tempo passava, o comboio aproximava-se mais do seu destino.

Espreitei novamente para o lado. As pernas dela apertavam fortemente o saco, e eu recomecei o movimento com o meu joelho; encostando desta vez a face exterior da perna à dela. A permuta de calor começava a fazer os seus efeitos.

Não sei o que me excitava mais… Se o calor que sentia vindo dela, ou vê-la reagir; flectindo ligeiramente o corpo enquanto com lentidão apertava o saco repetidamente entre as coxas.

Comecei a imaginar um fim alternativo para esta tediosa viagem. Mas fui interrompido por um pequeno suspiro abafado, que vindo do meu lado indicava que as coisas se começavam a complicar.

Entretanto em frente, os outros passageiros começavam a despertar, desramelando-se e olhando pela janela a fim de se localizarem no espaço. Seriam talvez umas cinco da manhã. Não sei bem, porque o meu braço esquerdo se encontrava inocentemente pousado ao longo do corpo, para o caso de vir a ser preciso.

Subitamente, a composição deu entrada na gare com um irritante chiar de metal contra metal, detendo-se finalmente; e todos se afadigaram na arrumação final antes do desembarque. Ao olhar para o lado, desta vez sem disfarçar, reparei que ela pendurara o saco novamente no ombro e se preparava para sair.

Guardei a revista e pegando na pasta dirigi-me para a porta; equacionando mentalmente fórmulas de abordagem que ia excluindo por falta de contexto, ou fraco poder de argumentação.

Enquanto me debatia nos meandros da semântica, destacou-se da gare um rapaz que agitou o braço, e para o qual ela correu fazendo saltitar tudo o que tinha.

Bem… como dizem os brasileiros “araruta também tem seu dia de mingau…”

Olhei finalmente para o relógio. Eram cinco e um quarto e eu não tinha pregado olho; o tipo ao menos bem me podia ter agradecido, pois tinha toda a possibilidade de passar um resto de noite memorável.

O motorista da construtora esperava-me. Perguntou se eu queria que me levasse ao hotel, mas declinei indicando-lhe a direcção do estaleiro. Era quase manhã e ia aproveitar a espertina para rever os números uma última vez antes da reunião. Ele olhou-me um pouco surpreendido e arrancou.

Também de que me serve dormir, se para tudo o que quero é necessário estar desperto?

Música de Fundo
“Telephone X”Texas


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