quinta-feira, 30 de setembro de 2004

Páginas Escolhidas
- Being TheOldMan -

Um dia descobri que nunca poderia ser astronauta. Fiquei um pouco desiludido, pois aos cinco anos pensava que os Thunderbirds eram uma organização onde me poderia inscrever, mal tivesse idade para ir à tropa.

Durante anos não me preocupei mais com isso. Ao fim e ao cabo, toda a gente acaba por ser alguma coisa quer o queira ou não. E os resultados são bem melhores se o formos involuntariamente; embora nalguns casos o resultado mais comum, seja o de se conseguir ser um idiota bem sucedido por vocação interior.

Penso não ter chegado tão longe… Mas diverti-me imenso a não ser nada e a não me preocupar com isso.

Blog! O que eu me diverti nos anos de desprendimento em que pensava viver eternamente; pois quando morresse, a eternidade acabaria também pois é relativa “comó camandro”.

Foi então que cheguei a um ponto em que quis ser escritor. Mais um erro. Pode decidir-se ser electricista, político ou chulo. Ou seja; o que se faz. O ser é mais complicado do que isso, embora algumas vidas se possam equiparar a ser um amanuense de terceira num obscuro ministério durante setenta anos.

Comecei da maneira mais fácil, é claro. Dá um jeitão ser um poeta atormentado aos dezanove anos, mas foi uma fase transitória. Principalmente porque os meus dois trabalhos mais famosos, foram a letra para uma canção de intervenção política (que escrevi em cinco minutos); e a transformação da famosa canção de aniversário “Happy Birthday To You” em “Up Yours And Screw You” (um clássico que ainda hoje cantamos no aniversário de meu amo).

Passei então para a fase de prosador. Mas quando acabei de ler a primeira história que tinha escrito, cheguei à conclusão que necessitava de ganhar experiência; e foi aí que tudo se precipitou.

Porque alguns anos depois quando já tinha experiência, considerei que o mais importante seria ganhar juízo.

A vida é feita de decisões erradas…

É claro que foram necessários mais alguns anos, para que compreendesse que à medida que a nossa percepção do mundo aumenta, é proporcionalmente embotada pelo nosso envolvimento nesse mesmo mundo. Obviamente ser-me-ia impossível ganhar uma coisa que me era retirada à medida que a ia adquirindo.

E foi aí que decidi voltar ao princípio, e deixar de me importar em demasia com tudo isso.

Finalmente comecei a conseguir ler sem me arrepiar, a prosa que escrevia; e algumas pessoas mais bem intencionadas, tiveram até o arrojo de classificar de poesia outros textos meus. É claro que se me perguntarem se sou escritor ou poeta, farto-me de rir.

Sim! O que eu na verdade gostaria era ser astronauta.

Música de Fundo
“Fine Again”Seether

quarta-feira, 29 de setembro de 2004

Diálogos no Autocarro
- Com o patrocínio de Bagão Félix e da Câmara Municipal de Almada –

Decidi iniciar a nova era dos transportes públicos regressando ás origens, ou seja, ao autocarro.

Os principais responsáveis por esta importante decisão, foram, a saber:

A Câmara Municipal de Almada, que transformou o meu trajecto (cerca de 4Km) mais ou menos recto e breve desde o Laranjeiro ao Monte de Caparica, numa fila interminável de tráfego como não se vê em local algum (excepto talvez no Carnaval de Torres).

O segundo responsável directo é o Estrunfe dos Óculos que muito humoristicamente gere as nossas finanças, e não me permite pagar a exorbitância em que se tornou o meu trajecto matinal. Diga-se em abono da verdade, que extraordinariamente e contra tudo o que poderiam pensar, desta vez ele nem é o principal responsável.

Seguindo a lei dos vasos comunicantes que pode ser aplicada a quase tudo, inclusive até ás relações amorosas e aluguer de automóveis; tentei saber onde se teria formado um vazio equivalente àquela enorme quantidade de automóveis que se tinham atravessado no meu caminho.

Descobri pois, que já não é possível chegar ao Centro Sul pela Avª 23 de Julho por causa de uma obstrução provisória, e que a faixa de transportes está assim desimpedida dos “xicos espertos” que de qualquer modo não teriam nada que se meter por lá.

Senti pela primeira vez, que o município tinha feito algo por mim e pelos moradores da minha zona; pelo que hoje de manhã, alinhavei o meu ar mais sereno e preparei-me para as duas viagens de autocarro necessárias a percorrer os miseráveis quatro quilómetros (por outra estrada, claro).

Já me tinha esquecido da fecunda fonte de inspiração que é o povo português (francamente, até andava a tentar esquecer um pouco o assunto). Mas em segunda análise, aquilo que vemos na TV tem que vir de algum lado; e não pode ser da meia dúzia de acéfalos que gerem a comunicação e o entretenimento.

É claro que eles também andam de transportes públicos, e possivelmente aí se inspiram.

Escusam de me escrever a dizer o contrário, pois li numa revista há uns dias, ter sido visto um “pivot” no Metro acompanhado pelo seu filho; e que não deixava de olhar para o telemóvel (mas devia ser Domingo, pois na foto só se via mais um utente além dele e do rebento).

Mas continuando…

O primeiro trajecto (Laranjeiro-Cacilhas) correu sem história, pois os pobres passageiros teriam ainda que (a maioria deles) atravessar o rio, e não pareciam estar com uma disposição assaz prazenteira.

Já no segmento Cacilhas-Caparica a coisa animou um pouco, pois seguiam alguns estudantes universitários e um ou outro funcionário do Hospital, que normalmente são os que têm os diálogos mais interessantes.

O que eu escolhi para hoje decorria entre dois internos de cardiologia, bastante atrasados para o serviço, mas nem por isso preocupados. Que calmamente discorriam acerca de episódios das urgências, com uma sagacidade e profissionalismo exemplares. Tendo-me eu interrogado se não deveria também cursar medicina, pela vida fascinante e aventurosa que aparentemente levavam…

- Então e ontem, pá? Que tal foi? Houve muito movimento?...

- Ah, nem foi mauzito. Fiz dois cateterismos, e de madrugada safei uma gaja que queriam levar para a morgue.

- Essa é boa. Mas quê? Estava viva e não deram por isso?

- Bem, tás a ver o Santos, aquele bexigoso que tem pêlos nas orelhas e anda a comer a “segurança” magricela do piso dois?... Pois, estava eu a chegar do intervalo para o jantar, quando vejo o tipo a empurrar a maca para fora dos cuidados intensivos, e a mandar o auxiliar levar o corpo para a “tulha”.

- Tou a ver o gajo… mas até tem fama de ser bom. E foi promovido a principal há uns tempos…

- Pois, mas como vi dois altos no lençol levantei a ponta para espreitar a ver se alguma coisa se tinha perdido, quando vi que a cara da tipa estremecia ligeiramente. Chamei logo o Santos e disse-lhe.

- Mas como é que ele deixou escapar isso, pá? Não viu o EEG?

- Viu! Mas ela estava cerebralmente morta, e o gajo como estava com pressa para sair mandou-a embora. Nem se lembrou de ver se ela respirava ou não.

- Quer dizer que tu apesar de ela estar cerebralmente morta, foste ver se respirava…

- Nááááá…. Bastou-me olhar para as raízes do cabelo. A gaja era loura verdadeira…

Música de Fundo
“Só Mais Um Começo”Pluto


terça-feira, 28 de setembro de 2004

Estação

O meu Verão é um estado de espírito.

A maior parte do tempo apenas o adivinho, pois o ar é-me servido a 22ºC durante quase todo o ano, e as estações apenas são visíveis pela folhagem da árvore em frente à janela.

Ás vezes saía para sentir o sol, como que para me assegurar se teria o meu relógio certo ou não; mas deixei de o fazer. Deixei de me incomodar com o calor ou o frio.

As estações estão dentro de mim. E se tremo de frio ou transpiro de calor, nada tem a ver com o meu calendário pois são apenas condições atmosféricas.

E tal nada tem a ver com um dia invernoso, uma manhã primaveril ou um entardecer de Outono dentro de mim.

Podem começar a cair folhas castanhas e a cobrir o chão de uma pasta lamacenta, pode chover… ou até mesmo mudar a estação.

Mas continua a ser o meu Verão.

“Rádio América”The Libertines

domingo, 26 de setembro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- Sermão Dominical – A Perseverança –

Malta (é assim que na nossa igreja nos dirigimos ao rebanho pois dá um ar democrático e pouco paternalista), não tendo o que vos dar como pérola de sabedoria para hoje, decidi falar de uma das virtudes mais importantes; a perseverança.

Para aqueles/as em cuja face já se começou a desenhar um sorriso malicioso, aviso já que nada disto tem a ver com a contracepção; visto que a nossa doutrina não mete nem tira prego em estopa de todo esse assunto. Principalmente porque são assuntos íntimos que devem ser tratados no aconchego do lar, ou quanto muito numa pensão residencial com águas quentes e frias.

Mas lá estou eu a desviar-me do sítio, tal como é costume…

E decidi pois enveredar por este sermão, porque perseverança foi a palavra que me acompanhou por toda a semana. Pois tentei instalar um novo sintonizador de TV via USB2, tendo passado tratos de polé qual vítima da Santa Inquisição (mas em versão Monty Python).

Perseverança foi o que faltou a Eva (de Adão nem falamos; esse morcão aceitava toda a fruta que lhe dessem, e perdeu o emprego por ser um frouxo) quando escolheu a macieira.

Não tenho dúvidas – E nisso sou apoiado por Santo agostinho, que não me deixa mentir – que se tivesse procurado um pouco melhor, teria ficado muito melhor servida, com qualquer outro tipo de fruta muito mais indicada para a sua exuberante personalidade.

Mas não. Deixou-se convencer pela primeira cobra que apareceu, e ficou-se pela maçã com todas as consequências que já sobejamente conhecemos; principalmente aquela do “ganhar o pão com o suor do rosto”.

Que como devem calcular é uma alegoria, pois depende daquilo com que cada um trabalha; e não vou aqui dar exemplos, pois aos Domingos há crianças a assistir aos meus sermões.

Mas continuando na perseverança, Noé foi um bom exemplo. Pois apesar de ser um alcoólico inveterado (como consta no Sagrado Livro), e apenas munido de meia dúzia de ripas tiradas de caixotes de fruta, conseguiu com ferramentas da época (tipo serras para trabalhos manuais e marretas enormes) fabricar uma embarcação onde couberam todas as espécies de animais; não tendo faltado sequer lugar, para o antepassado do animal que costuma estar ao balcão do Posto 6 da Cova da Piedade.

A perseverança acompanhou os melhores exemplos da história universal. E para não estar agora aqui a maçar-vos, com o processo de instalação do tal dispositivo que me demorou uma semana, gostaria de vos contar um caso paradigmático (paradigmático, é um dos termos que segundo o Google se encontra mais em Blogs pseudo-intelectuais).

É a história de Pieter, um menino de oito anos que evitou com o seu dedo indicador, que toda a Holanda ficasse inundada. O que inviabilizaria a construção de todas aquelas casas interessantíssimas, onde estão umas senhoras despidas à janela para anunciar as virtudes de um bom aquecimento central (os alemães também têm em Hamburgo uma EXPO dedicada a esse tema).

Regressava uma noite o pequeno Pieter a casa (a história não nos diz o que fazia um miúdo de oito anos à noite na rua) quando parou para fazer uma mijinha contra o dique. Tal como o seu defunto pai lhe tinha ensinado, sacudiu o “instrumento” três vezes apenas, e ia retomar o seu caminho quando ouviu um ruído de águas a verterem-se.

Pensando que seria alguém nas mesmas condições, preparava-se para desaparecer rapidamente (pois à noite e junto aos diques holandeses circula uma fauna muito estranha e nada recomendável) quando reparou num pequeno esguicho de água brotando da parede de pedra.

Apesar da sua tenra idade, o pequeno Pieter estava ao corrente do perigo que consistia um rombo no dique, pois ainda da última vez que isso acontecera tinham andado uma semana inteira lá em casa de esfregona na mão; e o avô Brezelius ficara com a cadeira de rodas toda enferrujada, o que provocava uma chiadeira medonha quando no silêncio da noite se esgueirava para o quarto da criada.

Usando o dedo de meter no nariz (o indicador), introduziu-o na fenda húmida conseguindo estancar um pouco da torrente de fluidos que já provocara algumas fissuras na estrutura, e que se propagavam a partir do orifício formando um padrão deveras artístico.

Enquanto reparava nisso passaram alguns minutos em que o dedo inchou, inviabilizando que mudasse de ideias e se pirasse para local seco atempadamente.

Sentindo-se preso ainda gritou por socorro. Mas os únicos seres humanos ao seu alcance eram os dois polícias de giro, Hans e Jan, que passeavam abraçados pelo topo do dique, distraídos no seu idílio e fumando uma ganza para comemorar o recente noivado.

O pobre Pieter sentia-se só e com frio (especialmente no dedo). Ao longe, as plantações de túlipas oscilavam mansamente sob a brisa mas não o podiam ajudar. E o que o pobre rapaz sofreu nessa noite…

Desde comichões no nariz que não podia escarafunchar, pois tinha o dedo ocupado; até à excruciante tortura que foi ter as cuecas invadidas por uma patrulha de curiosas formigas domésticas, que não tendo encontrado nada de assinalável regressaram ao formigueiro duas horas depois.

E assim se foi passando a noite, enquanto a lua se deslocava até ao seu zénite no Zuiderzee (vão ao Google ver o que é).

Pela manhã, o carteiro que tinha pernoitado no moinho (o moleiro tinha ido à cidade vender farinha), foi encontrar o pobre rapaz transido de frio e com um indicador inchado a proporções invejáveis.

Logo foi chamar o Presidente da Câmara que abriu um concurso público limitado, e que uma semana depois adjudicou a obra a um empreiteiro que a faria apenas por metade do preço, pois usava mão-de-obra de imigrantes ilegais.

O jovem Pieter ficou então livre e entregue aos cuidados do hospital da comarca, onde foi mimado por desveladas enfermeiras, que faziam bicha (salvo seja) para ver o dedo que nunca mais desinchara.

Mercê do trauma que sofrera por essa atroz experiência (e também por causa de algumas solícitas enfermeiras), Pieter tornou-se no primeiro caso registado de insucesso escolar; tendo-se tornado servente de pedreiro até à idade de dezanove anos.
Altura em que foi descoberto por uma realizadora Dinamarquesa, que o guindou ao cimo da fama como protagonista de vários filmes educativos – “Pieter e o seu dedo mágico”, “Salva o meu dique” e o famoso documentário “Um fim-de-semana com o dedo de Pieter”.

Morreu já em avançada idade, sem ter deixado descendência (como é evidente pela sua fixação no dedo); e o seu corpo repousa neste momento no Panteão Nacional Holandês, entre o túmulo do Príncipe de Orange e o do inventor do vibrador com ligação ao isqueiro do carro.

E assim termino por hoje, que já estou bastante atrasado e ainda tenho que ir tentar “dar a volta” aos canais codificados, pois deixei metade do software por instalar para vos vir aqui fazer este sermão sobre a perseverança.

Música de Fundo
“King of Love”Thomas Anders

sábado, 25 de setembro de 2004

Narcisismo

Estás no meu azul
és a luz que lhe dá brilho
o anil desmaiado
de prazer

Estás no meu som
o leit-motif que não se ouve
parte da estrutura
do que sou

E isso é estranho

Sei agora
porque não te reconheço
dos tempestuosos tempos passados

Não podia
porque és eu

Tu!

Sem música



sexta-feira, 24 de setembro de 2004

Conversas em Família
- A importância da televisão durante as refeições em comum, para a coesão e mecânica do núcleo familiar contemporâneo –

Vou propor-vos algo para reflexão.

Imaginem que trabalham (os que trabalham mesmo, estão dispensados deste esforço imaginativo), e que em vez de esforçarem o cabedal de sol a sol, utilizam o que têm entre as orelhas.

Bem, ao chegarem a casa e em vez de se sentarem em frente à televisão a ver alarvidades, amparados por uma lata de cerveja; talvez vos apeteça cortar todos os ruídos desnecessários, e pensar apenas em coisas agradáveis e simples (o que para alguns, continua a passar pela tal lata de cerveja).

É claro que a última coisa que um tipo quer quando se senta à mesa, é confusão… Mas, querer não é poder (ao contrário do que constava no meu livro da Terceira Classe).

Basta que uma das variáveis desta equação seja um miúdo prestes a fazer doze anos, e temos o caldo entornado.

E é natural. É a idade ideal para ter o sentido de humor de um José Carlos Malato ou de um João Baião. Coisa que o poderia guindar ao prémio Nobel da Aparvalhada Vulgaridade; não fora o facto de ser nosso filho e gostarmos muito dele.

Mas à terceira afirmação surrealista (incluindo trocadilhos mirabolantes com coisas absolutamente descabidas), a maior tentação de um pobre e cansado pai é a de ligar a televisão.

É saltar da frigideira para o lume!

Não bastando já a característica inteligência e isenção dos repórteres dos canais privados, passamos a ter algo que equivale a uma interferência electrónica, ou à saudosa mosca da TV (a maior parte de vós não se lembra, mas era um personagem divertidíssimo que nos dias do preto & branco abrilhantava as emissões da RTP, passando horas pousada na lente da câmara).

Dono de um “timing” perfeito, o rapaz em questão ouve religiosamente os anúncios enquanto come, aproveitando para falar quando aparecem as notícias. E não contente com isso, durante a notícia seguinte interroga-nos sobre o teor da anterior que não conseguiu nem deixou ouvir (pudera…), inviabilizando igualmente a possibilidade de daí a três minutos lhe podermos responder à mesma pergunta que fará sobre a notícia actual.

Confusos? É natural… mas eu já estou habituado. E nem preciso de recorrer ao método ditatorial do – “CALA-TE, QUE EU QUERO OUVIR AS NOTÍCIAS!!!” – o que iria minar futuros esforços, no sentido de lhe incutir valores básicos como a tolerância, a justiça e a democracia.

O método é simples. Consistindo em ignorá-lo “por defeito” (parece errado, mas não é) e decorar meia dúzia de palavras-chave, que me garantem as frases seguintes como minimamente inteligentes ou a-propósito, para que despertem a minha atenção.

É um método seguro e uso-o igualmente com meu amo (que tem uma idade mental aproximada à do meu filho), o que tem evitado que eu fique mais estúpido que a média dos homens de meia-idade e com falta de cabelo (um grupo muito importante nas amostragens, segundo o INE).

Mas a nossa hipótese de trabalho para hoje não tem muito a ver com o que escrevi anteriormente.

Tem sim a ver com o facto de ser (ou não) preferível ouvir as lucubrações de um espírito pré-adolescente, e aguentar estoicamente; ou se a televisão à hora do jantar, poderá eventualmente substituir um bom par de tampões de borracha para os ouvidos.

Eu até ontem estava convicto que a segunda solução seria a mais cómoda. Mas foi-me então revelada a verdadeira utilidade da televisão.

Esta serve, não para nos educar, entreter ou informar; mas a sua principal missão, a qual cumpre com invejável precisão, é lembrar-nos constantemente que o mundo é um local de morte e injustiça.

Tentem agora explicar durante o jantar ao vosso filho de onze anos, quais as motivações que levam uma mãe a matar por espancamento, a sua filha que tinha apenas oito…

Música de Fundo
“Survival Of The Sickest”Saliva

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

O Projecto Tenebroso
- Teorias da Conspiração -

Quem me conhece sabe que sou um espírito forte e que não quebro facilmente. Mas há alturas em que nos encontramos mais vulneráveis e expostos; como por exemplo quando estamos doentes e/ou em estado de sonolência (daí a famosa frase de P. G. Wodehouse, que mais tarde se tornou o lema da extinta Pide/DGS – “Podem acordar-me de noite e perguntar-me…”).

Mas hoje fui apanhado de surpresa, e por pouco que a minha sanidade não vacilou para se despenhar no abismo da loucura; onde as horríveis gargalhadas dos possessos se misturam com os sons musicais das a telenovelas brasileiras, e dos anúncios à Quinta das Celebridades.

Um abismo que é mistura de Dali, Hitchcock e Filipa Vá-Com-Deus.

Talvez eu não devesse ter comido bacalhau ao jantar, mas quando me sentei na sala de espera da Clínica para ser examinado pela Dr.ª. Inês, fui invadido por uma suave sonolência que aumentava à medida que eu olhava para o receptor de TV.

Em parte pelo efeito hipnótico do aparelho e igualmente pela programação, comecei a sentir-me como se vogasse num lago de calmas águas; quase que ouvindo as ondas marulhar contra o casco, enquanto me afundava inexoravelmente em direcção ao sono.

Nessa altura começou um vídeo-clip, mas eu encontrava-me já bem embalado na descida e nada evitou que adormecesse, embora tivesse ainda alguns vislumbres da realidade ligeiramente alterados pela perda de acuidade dos sentidos.

E tive um sonho. Sonho esse que possivelmente será responsável pela minha insónia de hoje; pois o seu conteúdo foi de tal modo aterrador, que hoje é bem possível que não pregue olho…

Começou tudo com um concerto dos Village People no início dos anos 70. A sala encontrava-se apinhada de dançarinos, que evolucionavam como moléculas em movimento “Browniano”.

No palco, o grupo totalmente vestido à moda (com calças à boca de sino e aqueles colarinhos tipo aeromodelismo) interpretava uma daquelas musicas que parecem nunca acabar, e que falavam da febre de sábado à noite e da ressaca das manhãs de domingo.

No intervalo entre duas músicas, a filha do embaixador da União Soviética dirigiu-se ao grupo convidando-os para a sua mesa, onde lhes fez o convite para uma digressão pelo “Paraíso Brejnev”.

Na realidade eles nem pareciam os Village People, porque tinham um aspecto bastante normal para a época e não tentavam dar ar de machos (só podia ser mesmo num sonho).

E o que me lembro logo a seguir é do aeroporto JFK numa manhã bastante nevoenta, em que se via um Tupolev da Aeroflot ganhando altura enquanto os fãs cá em baixo dispersavam em direcção ás suas casas.

E o mundo ocidental nunca mais seria o mesmo.

Por esta altura o sonho começou a tornar-se bastante inquietante, pois foi preenchido por uma sucessão de concertos, em Moscovo, Leninegrado, Murmansk e finalmente na Danceteria Dragosteia em Chisinau (Moldova); onde no fim do espectáculo foram levados para o hotel em duas limusinas Chaika Gaz-13. Não tendo sido vistos durante muito tempo…

Alguns dias mais tarde, Felipe (que devido ao trauma se passou a mascarar de índio) foi encontrado a vaguear pela cidade em trajes menores, enquanto dizia incoerências. Tendo sido levado para a embaixada dos Estados Unidos, onde a todas as perguntas respondia invariavelmente com – “Ma-ia-hii, Ma-ia-huu, Ma-ia-haa, Ma-ia-haha!” – Coisa que os peritos em linguística da NSA não conseguiram traduzir na altura.

Na semana seguinte apareceram finalmente os restantes membros do grupo, mas vinham num estado lastimável e a falar um dialecto estranho. Na verdade cantarolavam em coro, mas afectados pelos tiques que os caracterizaram para o resto da carreira. Pelo que foi necessário fazer-lhes um re-condicionamento mental, que apesar de efectivo ainda lhes deixou algumas sequelas.

Nunca mais foram os mesmos de antes. Glenn Hughes (o tipo dos cabedais) acordava imensas vezes durante a noite a gritar – “Alo, iubirea mea, sunt eu, fericirea.” – Tendo sido expulso do seu apartamento por um comité de vizinhos em fúria.

Felizmente conseguiu juntar-se aos companheiros, que tinham comprado uma vivenda amorosa na Florida onde faziam vida comunal; passando o dia a cantar e a praticar Arraiolos.

Contava-se pelos bastidores do meio musical, que tinham sido vítimas de experiências indescritíveis por parte de agentes do KGB disfarçados de extraterrestres; que lhes tinham extraído amostras de sangue, e submetido a diversos clisteres de substâncias estranhas.

Uma fuga de informações através de uma “toupeira” no Pentágono, trouxe a indicação que os soviéticos tinham um tenebroso plano para dominar o mundo com clones dos Village People; tendo iniciado em segredo um programa a longo prazo, nas instalações de um aviário abandonado nos arredores de Chisinau.

Eu tinha já conhecimento de todos estes factos, pois encontrara numa obscura BBS de Kharkov em 1993, alguns ficheiros onde os soviéticos tinham anotado o progresso das suas experiências. Na altura não tinha ligado muito, porque decorria nessa época uma campanha de mútua desinformação entre os serviços secretos dos dois blocos.

Mas esta noite quando adormeci na sala de espera da clínica por breves momentos, tudo se fez claro no meu espírito. Tentei acordar para tomar nota de todos estes factos, e quando abri os olhos estava ainda a dar o mesmo clip.

Subitamente recordei-me do nome, era o “Projecto Ozono”.

E recordei-me facilmente, porque eles estavam ali à minha frente apenas com roupagens diferentes; os primeiros clones dos Village People prontos para colonizar a terra e destruir a humanidade tal como a conhecemos.

Já nem fui à consulta, e escondi-me em casa para escrever estas últimas palavras antes que eles cheguem a Almada, e comecem a substituir todos os que eu conheço por tipos com calças “à boca-de-sino” com estrelas desenhadas.

Não conseguirei dormir enquanto ecoarem na minha mente, as últimas horríveis frases que me acompanharam quando fugi da sala de espera. Nos momentos mais silenciosos ainda consigo distinguir vindas de algures aquelas vozes esganiçadas que clamam – “Ma-ia-hii, Ma-ia-huu, Ma-ia-haa, Ma-ia-haha!”…

Música de Fundo
“Dragostea Din Tei”O-Zone

terça-feira, 21 de setembro de 2004

Recolha Etnográfica
- Os Ricos que pagam a crise -

Descobri hoje que sou rico. Aliás só o soube porque fui disso expressamente informado pela minha eminente colega Doutora Catarina, que frequenta o Lidl para estudar os hábitos alimentares das classes menos favorecidas.

Apesar de pertencermos à mesma classe (os Ricos, claro…) diferimos em alguns pontos, como por exemplo na minha visão económica de longo alcance que me fez prescindir do PPR (que sempre soube não ir sequer durar tanto como eu); pelo que acalento neste momento a ideia de em vez de mais tarde viver da reforma, vir a abraçar a romântica profissão de salteador de estradas.

Já me vejo aos oitenta anos vestido de Dick Turpin, a assaltar incautos automobilistas fugindo lestamente a pé (e apesar dos joanetes), enquanto eles continuam parados no meio de quilómetros de filas de trânsito… mas eu estava a falar da minha actual condição de Rico.

Sempre gostei que usassem esse termo para com a minha pessoa. Cada vez que me chamam – “Ó rico…” sinto os pêlos do pescoço a tricotarem um cachecol, e então desde que esta classificação me foi atribuída, adquiri uma especial apetência para frequentar os locais que acho mais indicados a tão confortável posição (social); tendo optado pelo Minipreço.

Nós lá em casa sempre fomos muito “Pingo Doce”, apesar da “Feira de Queijos e Enchidos” me ter dado imensas chatices com a Dr.ª Inês, que não percebe nada de etiqueta, e tem a mania que o colesterol é mais importante que a Casa de Bragança.

Mas lá fizemos um esforço para nos mantermos a par com a tendência geral de todos os ricos, e começámos a parar por ali. Apenas para recolha antropológica e umas compritas ocasionais.

E perguntareis vós – Para quê tanto esforço de investigação?

É simples! Para poder esclarecer todas as camadas sociais que não sendo Ricas, pensam que a vida de rico é fácil. Chegando até a existir um certo grupo de gente com rendimentos familiares mensais entre os quatro mil e dez mil euros (mas que não são ricos), que consideram que apenas os ricos fazem poupanças.

O que vale é que eu sou Rico e não ligo a isso. Estou ainda indeciso se deverei ou não aproveitar a grande promoção de iogurtes cremosos Longa Vida a 1,29€ o pack de 4 e o Vodka Mika Nof a 3,99 €.

Bem, o melhor é telefonar à Catarina. Quem sabe se no Lidl os preços estarão mais baixos…

Música de Fundo
“Amerika”Rammstein

segunda-feira, 20 de setembro de 2004

O Aconchego das Palavras

Há palavras como almofadas espalhadas em monte por um quarto.

Palavras em que nos sentamos, repousamos, ou nas quais mergulhamos como delfins… ás vezes acompanhados.

Que beijam, embalam, alentam, animam, abraçam…

São as boas palavras (que também as há) que nos aquecem por dentro, como um vinho generoso ou algo que se sente.

São estas as palavras que dedico, aos que as escrevem, as dizem, ou pura e simplesmente por mim as sentem.

Musica de Fundo
“More Than Words”Bangles

domingo, 19 de setembro de 2004

A Igreja do Imaculado Blog
- As Vidas Anteriores de Blog – A Primeira Vinda –

* O relato que a seguir se transcreve, é composto por excertos dos pergaminhos apócrifos de Blog. Sendo as lacunas preenchidas com dados compilados da National Geographic, e de alguns livros do aldrabão do Lobsang Rampa *

Há muitos anos, ainda Blog era um ranhoso mortal e andava pela terra, quando decidiu fazer uma peregrinação ao oriente.

Na verdade não era bem uma peregrinação, mas mais uma espécie de “Jornadas Internacionais da Fisioterapia Oriental”, pois envolvia massagens dadas por jovens de várias nacionalidades e maioritariamente asiáticas.

Não que eu critique Blog, pois considero o Moralismo uma espécie de disfunção sexual. Mas alguma entidade superior farta das tropelias da futura divindade, deu um toque nos dados do destino e recambiou-o para o Tibete; pressupostamente devido a um engano da agência de viagens.

Passou-se essa viagem nos bons velhos tempos (como se costuma dizer) em que os animais falavam, os americanos apenas chateavam as vacas e Rasputine ainda era um humilde oficiante da Igreja Onanista de Kiev.

Desembarcou Blog em Lhasa frente ao Palácio Potala, tendo saltado das costas do carregador para o chão lamacento. E com uma reverência profunda por todos os lugares santos que conseguia abarcar com a sua visão periférica, constatou – Não estamos em Bangkok…

Isso era mais que evidente. As mulheres estavam demasiado vestidas, e em vez dos folclóricos táxis-triciclo só se viam iaques fedorentos e tipos carecas vestidos de amarelo.

Como bom seguidor do catecismo positivista do Doutor Pangloss, decidiu não se deixar levar pelo lado negativo da questão; e aproveitou para entrar numa tenda onde lhe serviram a bebida nacional “tsampa”; que consiste em chá quente condimentado com manteiga.

Diz-se até que é daí que deriva o termo calão “trampa”, devido a Ele não ter percebido bem a resposta que lhe deram, quando perguntou como se chamava a estranha beberagem.

Após ter circulado (enjoadíssimo do chá) por cerca de uma hora, chegou à conclusão que já tinha visto tudo; e que Sogtsan Gampo bem podia limpar as mãos à parede, pois tinha feito por Lhasa ainda menos que João Soares por Lisboa.

Com o seu proverbial azar tinha chegado na altura errada. Não pelo facto de ter caído em pleno Festival Shoton, pois sete dias de iogurte e ópera tibetana não são assim tão aterradores; mas se tivesse chegado duas semanas mais tarde seria a “Semana do Banho”.

E a maior parte dos autóctones estavam bem precisados, a avaliar pelos miasmas que circulavam pelas ruas como se fossem espíritos de antepassados furibundos.

A Semana do Banho é uma das mais importantes ocasiões no Tibete. Pois quando o sagrado planeta Vénus aparece no céu, as águas dos rios tornam-se puras e curam todas as doenças (especialmente a falta de higiene); pelo que é uma das melhores épocas para visitar o país, visto que o habitual fedor local é muito menos acentuado.

Farto de ser acotovelado e agredido com moinhos de orações (uma espécie de antecessor dos martelinhos de S. João), Blog decidiu recolher-se no Mosteiro de Drepung por três anos, durante os quais aprendeu a nobre arte de dobrar as calças de modo a que não ficassem com vinco duplo.

Os monges de Drepung eram conhecidos como mestres de Lavandaria & Tinturaria, exercendo a terceira visão apenas quando não conseguiam encontrar a roupa do cliente – “No tickee, no shirtee”… era o seu mantra sagrado. Pois “Om mani padme hum” queria apenas dizer – “Não encontrei o seu fato, volte sexta-feira”…

No fim do segundo ano foi-lhe oferecido um contrato de manutenção para todos os moinhos de oração, que eram uma espécie de matracas que se faziam girar com uma chiadeira horrorosa.

Na realidade o ruído nem permitia que os pobres monges se concentrassem, mas era tradição e nessas coisas os tibetanos não transigiam; apesar das enormes enxaquecas que passavam de pais para filhos.

A primeira inovação introduzida por Blog, foi aproveitar a manteiga de iaque para lubrificar o movimento dos ditos moinhos (o sobejamente conhecido “Método Taveira”). Tendo os monges ficado tão gratos que o começaram a tratar como um deles, ensinando-lhe até alguns segredos guardados para os iniciados.

Entre estes preciosos segredos que compartilharam com Ele, veio a capacidade de distinguir os monges pela veste (“A veste faz o monge” é um antigo provérbio tibetano); tendo ele ficado a saber que os que vestiam de amarelo-canário eram quem oficiava os cânticos matinais, e os de veste amarelo-açafrão eram especialistas em caldeiradas e pratos de peixe (embora pouco requisitados, devido à falta do mesmo naquele sagrado local).

Mas a grande demanda de Blog era pela “terceira visão”, técnica que ainda lhe era vedada, talvez devido a ser um forasteiro ocidental. Pois os monges tinham receio que ao aprendê-la, ele se pusesse a milhas e fundasse negócio por conta própria na sua terra.

E assim foram passando vários anos, durante os quais aprendeu a levitar, tosquiar um iaque sem ser mordido e principalmente a sair do seu próprio corpo. Esta última técnica era divertidíssima, embora com algumas dificuldades acessórias.

Pois se ele e alguns colegas decidissem ao fim de semana desencorpar-se para ir à China assistir a um concerto dos “Yangtse Brothers” ou da minúscula e sexy Suzi Wong, teriam que pagar a um deles para que ficasse para trás (chamavam-lhe o “irmão arrumador”) e tomasse conta dos corpos; pois na ausência dos seus espíritos, alguns dos monges mais “esfomeados” poderiam ter a tentação de aproveitar a sua imobilidade forçada para “pôr a escrita em dia”.

Com isto Blog passou sete anos no Tibete, tendo quase apanhado uma doença cardiovascular por causa da maldita manteiga.

No fim do sétimo ano a um fim de tarde estava Ele a cerzir o seu manto cor de açafrão (especializara-se em Cataplana de Cherne), quando se aproximou o Lama Lobsang. Um aldrabão das arábias (neste caso do Tibete) que lhe começou a falar da “terceira visão”, e de como esta mudaria a sua vida para sempre.

Por essa altura já Blog estava farto de cânticos desafinados e tinha lido o Livro dos Mortos umas três vezes pelo menos, tendo achado que se chamava assim porque poderia levar alguém à morte por aborrecimento.

Mas um Lama é um graduado, e como aquela malta tinha a mania dos segredos podia ser que lhe tivesse escapado algum que ainda não conhecesse; pelo que decidiu escutá-lo. E em má hora o fez.

Após debitar um monte de frases feitas e teorias metafísicas, o Lama informou que teriam que se desencorpar para que o processo pudesse seguir o seu curso normal.

Sentaram-se em posição lótus (bestialmente incómoda, especialmente se tiverem os testículos assentes numa laje gelada) e iniciaram a recitação do mantra “Om Bhur bhuvah svahah Tat savitur varenyam”. Que em tradução livre significa “Vou sair do meu corpo, mas sem esquecer de desligar o gás…”

Blog após recitar duzentas e trinta e cinco vezes sentiu-se mais leve, ou porque resultara ou talvez tivesse apenas adormecido. O certo é que olhando para baixo, via o seu corpo em posição lótus com a testa apoiada na laje em frente, e um finíssimo cordão azul que deste saía unindo-se à sua aura; que flutuava na estratosfera perto do satélite militar chinês.

A aura do seu guia espiritual aproximou-se, seguida de inúmeras sombras doiradas de auras de antigos lamas, que nada tinham que fazer senão andar pelo mundo a meter o nariz na intimidade dos mortais.

E foi três mil quilómetros acima dos Himalaias que Blog aprendeu a olhar a aura humana e avaliar o seu possuidor pela cor, textura e opacidade (parece uma análise à urina, mas é o que mais se aproxima como descrição).

Quase no fim desta aula, um pensamento que reprimia há imenso tempo assaltou-o com carácter de urgência; tinham-se esquecido de pagar a um “irmão arrumador” que lhes tomasse conta dos corpos.

Virou-se para a aura do velho Lama mas era demasiado tarde, pois ouviu da parte deste o relato do que entretanto se passava no mosteiro. O irmão Chengdu mais conhecido pelo “rebarbado”, dera com os dois monges em meditação e preparava-se para iniciar uma cerimónia alternativa para abertura da “terceira visão”.

O venerável lama tinha sido o primeiro, notando-se pelo seu ar incomodado e pela dificuldade que a sua aura tinha em se manter sentada quieta. Blog não querendo ser iniciado em artes tão profundas, e constatando que não conseguiria regressar ao corpo em tempo útil, empunhou a tesoura da costura que tinha inadvertidamente trazido consigo, e cortou o ténue cordão azul que o unia ao corpo inanimado.

A sua aura ficou a flutuar placidamente no cosmos, enquanto em terra milagrosamente o seu corpo se desmaterializava dentro do manto, à semelhança do saudoso Obi Wan ao ser derrotado por Dart Vader.

Após vogar à deriva durante anos, um dia em que passava sobre o Atlântico vindo de Nova Iorque, foi apanhado pelo anti-ciclone a norte dos Açores e impulsionado em direcção à Península Ibérica.

Na verdade estava já farto de vogar sem destino, que isto de ser incorpóreo dá imenso jeito para entrar em festas ou ver sem ser visto, mas farta um bocado.

Passava nesse momento sobre a Praia do Castelo na Costa da Caparica, quando teve uma ideia que achou formidável; para a por em prática só precisava de um tipo que estivesse a dormir. O que era fácil de arranjar, atendendo à enorme quantidade de gente que tem o hábito de adormecer ao sol.

Após recusar alguns corpos que se encontravam já “bem passados”, pois não queria acordar com um escaldão. Escolheu um tipo que tinha adormecido com o nariz em cima da revista do Expresso; o que era bom sinal pois demonstrava inteligência.

Analisou-lhe bem a aura adormecida, e ao verificar que este precisava de umas férias bem longe de tudo aquilo antes que desse em doido, utilizou a tesoura que sempre o acompanhava, e libertou-lhe a aura que vogou rapidamente para oriente (quem sabe se para a Tailândia); tomando então posse do seu novo corpo.

Os nossos pergaminhos nada dizem sobre o possuidor original do corpo que neste momento alberga a aura de Blog. O certo é que segundo alguém que nos primeiros tempos contactou com ele, nunca mais pôs manteiga nas torradas e passou a detestar o amarelo.

Um dia em que encontreis alguém assim, tratai-o reverentemente, pois poderá ser Blog…

Música de Fundo
“Pay The Man”The Offspring

sábado, 18 de setembro de 2004

Coisas Difíceis de Explicar

A vida é feita de imensas coisas não escritas. Coisas das quais nunca se fala, porque as palavras são insuficientes para as descrever.

Para escrever há que catalogar, e não se pode descrever algo que se sente como azul ou negro, que são termos imprecisos porque não foram criados para este fim. Teria que inventar talvez novas palavras, ou utilizar símbolos de física e química.

Teria pois que ser ininteligível para a mente comum; nada pela sua transcendência, mas pelos conceitos novos que teria que entender.

É assim que se descreve o que não pode ser descrito, ou catalogado como uma cor.

Utilizando uma espécie de código numerado, que acompanhasse todas as gradações do que se sente; poder-se-ia até fabricar uma régua de cálculo em cartão para avaliar mais rapidamente um valor global aproximado.

Mas aí entraríamos na álgebra; e isso já iria complicar demasiado.

Música de Fundo
“The Dreaming Moon”The Magnetic Fields

sexta-feira, 17 de setembro de 2004

Génese

Nascemos para correr
mesmo que apenas em espírito
quase saltando de nós próprios

Saltamos da terra para uma voragem de fogo
como centelhas incendiárias
punhais de chamas
estrelas efémeras

Consumimo-nos
em tempo e gestos
fogueiras ateadas numa cova do firmamento

Vida
num vortex de ruídos
como gritos desfazendo-se em nuvens
suspiros oceânicos
rugidos de Sol.

Música de Fundo
“Big Machine”Velvet Revolver

quinta-feira, 16 de setembro de 2004

O Reencontro
- De como o nosso herói voltou ao “Tremidinho” de Cacilhas, e das inúmeras surpresas e prodígios que o aguardavam… -

Não é que não apreciasse o toque feminino na minha cabeça, ou o modo como manejavam a tesoura no cabeleireiro unisexo; mas havia algo que não se coadunava com o meu verdadeiro eu.

Talvez sentisse falta do ambiente de loja maçónica, ou da segurança de que pelo menos ali não tentariam fazer-me madeixas ou arranjar as unhas; o certo é que voltei ao tremidinho, franqueando a entrada daquele local de culto com a apreensão de um Miguel de Vasconcelos a entrar no Paço Real…

Mas os meus medos eram infundados. Pois fui recebido como se tivesse saído há cinco minutos para comprar tabaco; a única diferença é que bem ao contrário do habitual o Tremidinho estava deveras falador, parecendo estar a operar com base em pilhas alcalinas de longa duração.

Após ele ter dissecado as tendências da economia e a crise de liderança no PS, já eu estava convencido que alguma coisa de muito errado se passava ali. Talvez fosse apenas excesso de cafeína, mas o certo é que ele sempre tinha sido conhecido por ser tão falador como um periquito embalsamado.

Imerso nos meus pensamentos, reparei tangencialmente que uma incómoda mosca se passeava por cima do meu penteador (para os menos versados, penteador é aquela espécie de toalha de piquenique usualmente disposta à volta do pescoço do cliente; se bem que não evite que os cabelos caiam invariavelmente pela gola abaixo); pelo que a enxotei.

Não estivesse eu distraído e decerto teria evitado este gesto imprudente, pois como todo o frequentador de barbearias sabe sobejamente, mosca que se enxota só irá poisar em locais ainda mais incómodos (é a “lei de Murphy para as moscas e insectos voadores de pequeno porte”).

Ao princípio não foi muito grave. Mas após a ter enxotado sucessivamente da minha testa, nariz, queixo e orelha esquerda; o insecto em questão optou pelo Tremidinho, que parecia ser um sujeito muito menos inquieto que eu. Infelizmente fiquei a perder com a troca, pois foi no preciso momento em que este me começava a aparar as patilhas com a tradicional navalha tipo “estripador”.

Após resistir estoicamente durante alguns segundos durante os quais a mosca o martirizou, o Tremidinho destrambelhou totalmente quando esta se introduziu descaradamente na sua narina direita; o que me ia custando a vida, pois este ao se debater desesperadamente cortou o ar várias vezes com a navalha.

E só não me cortou também as carótidas, porque ao testemunhar pelo espelho o insólito bailado, este vosso narrador teve a presença de espírito suficiente para se baixar na cadeira evitando assim a afiada e fatídica lâmina.

Mas as minhas penas não tinham terminado. Desculpando-se pela exibição de esgrima, o meu tonsor retirou-se por breves momentos regressando munido de um spray de Baygon (300ml); com o qual criou uma pequena Chernobyl à minha volta.

A vista começou a falhar-me, enquanto ao longe ouvia uma suave melodia que me ia embalando; à medida que me ia aproximando de uma luz resplandecente, onde um anjinho bochechudo vestido de GNR, empunhava um sinal portátil de stop.

Tentei afastar-me rapidamente da luz, pois estou farto de ver filmes sobre o assunto; e sei perfeitamente que ao fim a conta da EDP é enorme. Pelo que resistindo com todas as minhas forças, recobrei a consciência para constatar que tinha sido mortalmente contaminado.

Eu nem aprecio muito o “Givenchy pour Homme” (não fui eu que o escolhi, e há até quem diga que se consegue cheirar até à próxima esquina), mas o odor familiar fora miscigenado com o do Baygon (contra insectos voadores); produzindo assim uma fragrância que se situava entre a de “rosas apodrecendo num pântano da Indochina” e “Zyklon B, pela manhã escapando-se pelas fendas da câmara de gás em Dachau”.

Em parte isso contribuiu para a insultuosa gorjeta de dez cêntimos. Mas penso que o Tremidinho recebeu a mensagem, porque quando saí já ele atirava raivosamente o insecticida para o cesto do lixo; partindo para o próximo cliente, enquanto afiava a navalha na correia com um olhar homicida.

Como ainda era muito cedo, decidi contra o que é hábito apanhar o autocarro para o escritório. E em boa hora o fiz, porque finalmente consegui a minha vingança sobre todos os utentes fedorentos, que me tinham calhado nas raras viagens anteriores.

Ao cheiro dos seus sovacos mal lavados, sobrepus o do letal arsénico (ou cianeto, sei lá…), a ponto de no autocarro quase apinhado ter conseguido um lugar sentado, à janela e com imenso espaço para me acomodar.

Quando saí do autocarro sentia-me como Gengis Khan. Por onde eu passava, as flores murchavam e os cães soltavam uivos confrangedores.

Tive que tomar o pequeno-almoço na esplanada, pois a dona Odete recusou-se a deixar-me entrar. Alegando que iria afugentar a clientela, e talvez iniciar algum boato sobre o armazenamento de armas químicas na sua arrecadação de vasilhame.

Escrevo estas últimas linhas de janela aberta, e com uma ventoinha apontada para mim.

Já circula pelo Bairro Amarelo o boato que nesta precisa zona, os ares são bons para as doenças respiratórias e para a falta de apetite; tendo até alguns elementos mais empreendedores, instalado frente à minha janela algumas cadeiras de piscina, que alugam a enfermos vindos de longínquas paragens, desde a Ramalha aos confins da Charneca de Caparica.

A “Madeirense” até se vestiu de “mãe-de-santo” (já que não pode trabalhar, pois anda com um corrimento…), e dá consultas no passeio por cinco euros.

A Associação de Comerciantes cá da zona, veio há pouco pedir-me que não desmistificasse o acontecimento pois o negócio nunca correu tão bem; e ofereceram-me uma percentagem dos lucros para que continue a usar Baygon (contra insectos voadores).

Despedimo-nos com um aperto de mão, como é de bom-tom selar qualquer acordo de cavalheiros. E ficou estipulado que ao fim de semana, serei substituído por dois queijos de Castelo Branco.

Sim! Este santuário de curas milagrosas não fechará sequer ao domingo. É uma nova e olorosa era de Blog que se aproxima; mas acho que a minha vida amorosa se vai ressentir um pouco…

Música de Fundo
“Personal Jesus”Marilyn Manson

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

Profund(a)idade

Percorre-me lava
num rio de sangue
saído da rocha que para mim se abriu

Cravo as minhas raízes
na terra do teu corpo

Como uma árvore de fogo
em busca de ti

Música de Fundo
“She Will Be Loved”Maroon5

terça-feira, 14 de setembro de 2004

O Destino Está nas Cartas
- Um destino irónico, claro... -


Como se não bastasse ter que estar fechado o dia todo, ao percorrer os blogs da Catarina, Duende e Robina (desculpem não pôr os links, mas estou a escrever isto a correr) fiquei convencido que o meu futuro se iria revelar nas cartas do Tarot.

Afinal parece que tenho é falta de praia...




The Sun Card


You are the Sun card. The light of the Sun reveals
all. The Sun is joyful and bright, without fear
or reservation. The childish nature of the Sun
allows you to play and feel free. Exploration
can truly take place in the light of day when
nothing is hidden. The Sun's rays fill you with
energy so that you may live life to its
fullest, milking pleasure out of each day. Such
joy and energy can bring wealth and physical
pleasure. To shine in the light of day is to
have confidence, to soak up its rays is to feel
the freedom of a child. Image from: Stevee
Postman. http://www.stevee.com/


Which Tarot Card Are You?
brought to you by Quizilla


Música de Fundo
"Calling All The Heroes" - It Bites


segunda-feira, 13 de setembro de 2004

A Desculpa
- Grandes Descobertas da Humanidade -

Tenho a mente tão vazia, que há pouco ao fazer uma introspecção consegui avistar a parede oposta do crânio. Deu-me a impressão que alguém lá pintara um grafitti (talvez Joselito descontente com a sobrecarga de trabalho), mas ultimamente leio mal ao longe e não consegui distinguir o que lá se encontrava escrito.

Como não sou apologista de escrever frases ao acaso e publicá-las no blog como afirmações de personalidade, tentei concentrar-me um pouco mais no sentido de arranjar alguma ideia que evitasse ter o meu blog vazio por dois dias; e depois cheguei à conclusão que me bastaria arranjar uma boa desculpa e ficaria desenrascado.

Mas uma boa desculpa é difícil de arranjar.

Não se trata bem de uma questão criativa, pois prende-se mais com a plausibilidade dos acontecimentos e/ou argumentos que poderemos alegar em nossa defesa.

Por exemplo… Será credível informar os leitores que não haverão posts, desculpando-me com o facto de estar prisioneiro num quarto de hotel sob a tutela de uma ninfomaníaca, que apenas me alimenta com Viagra e gemadas que manda vir pelo room-service?

Claro que não! Aliás toda a gente sabe que tenho problemas com o colesterol, por isso as gemadas estariam fora de causa…

Não me poderia desculpar com falta de Net, porque assim teria que abdicar de comentar alguns dos meus blogs favoritos.

Trabalho a mais também não é desculpa, pois como toda a gente sabe a maioria dos bloggers publica durante as horas de serviço; pelo que o trabalho nunca foi impeditivo a este tipo de actividade.

Foi quando tive uma ideia genial (desculpem esta minha humildade natural). Em vez de dar uma desculpa esfarrapada, ou mesmo criativa mas que quase todos os que me conhecem iriam achar tão falsa como uma nota de sete euros; iria antes falar sobre a desculpa, ou como dizem os ianques (que são barras nisto de desculpas) “talk my way out”.

O pior, é que a minha mente pecaminosa ao escolher exemplos para ilustrar esta tese, apenas se lembra de coisas idiotas desde “senhor doutor juiz, eu não queria, mas ele fez-me cócegas” ao clássico “deixei a carteira no outro casaco, se não te importas paga tu”. E aproxima-se a hora em que terei que invariavelmente recolher a casa, a não ser que apresentasse uma desculpa tipo “vou fazer serão pois meu amo necessita desesperadamente do meu precioso contributo”.

Mas um tipo inteligente nunca usa uma boa desculpa sem necessidade… Por isso, vou ser franco convosco…

Ando cheio de trabalho. E o meu carácter indolente não me permite usar os escassos momentos livres que tenho, para escrever ou tentar pensar em algo interessante que deleitasse os meus leitores. Estou cansado! E não me lembro de desculpa alguma que não insultasse a vossa inteligência.

Pensando bem, acho que com isto tudo já me livrei de ter que pensar em algo para escrever hoje…

Música de Fundo
“Ordinary Day”Matt Bianco

Aviso!

Após ter sido colhido esta manhã por uma avalanche de papelada, o titular deste blog encontra-se em parte incerta (talvez entalado entre alguns desenhos ou uma memória descritiva), pelo que não sabemos se hoje os caros leitores poderão ou não "ver o padeiro".

Atenciosamente

Os ajudantes do Pai Natal
(simpáticamente cedidos pelo adiposo velhinho)


sábado, 11 de setembro de 2004

A Toponímia
- Sobre a falta de orientação, e outros problemas do ouvido interno… -

Trazida pela mão de uma sociedade secreta que teimosamente lê o que escrevo, surge a interessante rubrica da toponímia; que como toda a gente sabe, é um problema que afecta todos aqueles que se conseguem perder nem que seja no seu próprio quintal.

E é neste primeiro episódio, que me encontro, aqui em pé sobre o Silo Nº 3 da Tagol na bela vila piscatória da Trafaria.

Desencantei no fundo dos meus baús um belo lenço “marialva”, e após ter empastado o pouco cabelo que me resta, tento ciciar este mágico nome com a entoação característica do professor Hermano.

Segundo Frei Luís de Sousa (que como toda a gente sabe é um personagem de ficção criado por Almeida Garrett) Trafaria será oriunda do vocábulo árabe “Tarifa”, que significa coisa extrema. Tal é bem possível se nos basearmos na periodicidade das carreiras de autocarros, e na dificuldade extrema que se tem em sair de lá a uma sexta à noite.

Outros exegetas (também não sei o que é) afirmam que tal se deveria à arte da pesca nomeada como Tarrafa, que era muito lucrativa; pois antes do 25 de Abril de 1974, como a maioria dos pescadores que protestavam pela falta de condições eram mandados para o Tarrafal, havia sempre lugar para os que chegavam. Sendo pois uma vila de muitas e desvairadas gentes, especialmente quando havia bar aberto no Salão de Festas da Colectividade.

Talvez por ser uma vila de águas muito piscosas, decidiram os que governam instalar um terminal petrolífero; para que as espécies que infestavam aquelas águas não se multiplicassem indiscriminadamente. A ecologia como sabem, sempre foi uma prioridade dos governos corporativistas…

Como se já não bastasse tudo isto, veio o Professor David M. Lopes meter mais uma vez a língua árabe no assunto (para gáudio dos apreciadores da mesma), afirmando que a palavra “Traf” que significa ponta ou cabo se teria aglutinado com o termo latino “Arena” que significa areia (por mais teimosos que sejam os esforços dos forcados de Montemor); o que daria “ponta ou cabo de areia”.

É realmente um esforço bastante louvável, especialmente da parte de alguém que quer juntar vocábulos de duas civilizações que nunca se entenderam bem, pois se encontravam em linhas diferentes no “continuum” espaço-tempo.

É claro que uma das coisas que o eminente professor decerto desconhecia, pois não faz parte da matéria escolar; é que já existia há muito o sobejamente conhecido “Bico na Areia”. Que apesar do seu nome sugestivo, se tratava de uma língua de areia que quase unia o extremo da Trafaria ao Farol do Bugio.

Este facto é de uma evidência histórica, tendo até dado origem ao termo “vai bugiar”, que significa em tradução livre do dialecto “Trafariense” - “Vai dar uma curva, e quando chegares ao Bugio avisa”.

Isto demonstra a fina ironia do povo dessa vila; pois todos sabiam que o trajecto estava infestado de perigosas santolas, que são uns bicharocos desagradáveis cujo principal alimento são os órgãos sexuais dos incautos nadadores.

Mas voltemos ao nome, pois à semelhança do professor Hermano já me desviei imenso do assunto, e aqui em cima está uma ventania do camandro.

A designação desta povoação está na realidade encravada na unha do dedo grande do pé esquerdo de Cronos. Sendo a sua criação datada da época em que Ulisses (o falinhas mansas) varou as suas negras naus em Olisipo (mais ou menos no Cais do Sodré).

Como na altura a Avª 24 de Julho ainda se encontrava em construção, uma bela sexta-feira à noite, um grupo de Argonautas e outros moluscos gregos decidiram ir explorar a outra margem do rio; em busca de pilhagens, violações e outros divertimentos nocturnos próprios da época.

A saírem do cacilheiro já se encontravam em acesa discussão. Pois enquanto alguns deles queriam ficar por ali e ir beber um copo aos bares de alterne em frente à Lisnave, outros queriam explorar o interior em busca de febra camponesa e algum pipo de “periquita” que tivesse escapado à pilhagem.

Ganhou a maioria, pois os Gregos nessa altura eram democratas (embora os seus ensinamentos se tenham perdido, excepto no que concerne a alguns pormenores de cariz sexual); e embrenharam-se pelo interior.

Ao subirem a pé com as suas pesadas armaduras até ao topo do monte onde agora pontifica o Cristo-rei, aproveitaram para dar a esse local o nome de Pragal. Pois só mesmo uma praga muito bem lançada, os faria percorrer novamente aquela ladeira íngreme.

Na altura o Monte de Caparica ainda não existia, pois não se manifestava ainda a necessidade de Bairros de Plano Integrado ou de um Instituto Português de Qualidade (nem hoje, atendendo à falta da mesma).

Um pouco mais além deste local onde só havia dragões (encontrava-se lá empanado há duas horas um autocarro da claque do FCP), chegaram a um pequeno aglomerado de casebres sem interesse algum que se acolhiam na encosta de um monte.

Alguns dos elementos do grupo amotinaram-se, pois a noite já ia avançada e ainda não tinham curtido nada; isto alegadamente por causa de Jasão que tinha sido o da ideia. Envolveram-se então, numa cena de pugilato entre eles e com a colaboração de alguns amáveis populares, que nada tinham igualmente para fazer. Provocando com isto tudo a intervenção do piquete da GNR, que só os não arrecadou porque se tratava de turistas e nós nunca quisemos causar má impressão nos forasteiros.

A partir dessa noite, a simpática localidade ficou a ser conhecida por “Pêra” devido ao arraial da mesma que lá houve, e do qual se falou durante anos à lareira em histórias de pasmar que passaram de pais para filhos; tendo até influenciado a poesia trovadoresca anos mais tarde. Periodicamente ainda se comemora a efeméride com grandes sessões de pêra, mas desde os anos 80 que essa tradição entrou em decadência, devido ao posto da GNR que entretanto foi construído para aqueles lados.

Fartos de andar e descompostos devido a terem andado a rolar sobre a poeira e os excrementos de cabra, os Gregos desceram uma estrada sinuosa em direcção ao rio. A paisagem era fabulosa; conseguiam-se ver ao longe as torres das Amoreiras e a marginal até Paço D’Arcos.

Gratos aos seus deuses, desembocaram na pacífica vila da qual não noticiaram o nome porque não o havia. Logo Plínio “O fresco” com os seus modos efeminados sugeriu que lhe dessem um nome; pois vila com uma paisagem tão prometedora assim o merecia e “o nosso papel na civilização ocidental” e etc.

É claro que levou logo uma caldaça nas orelhas, pois o pessoal estava cheio de sede e farto de caminhar, não tendo pachorra alguma para esse tipo de perdas de tempo. Infelizmente a razão ganhou.

Um efebo que tinha sido mandado em busca de algo que se bebesse, regressou apressado para informar que o bar da Sociedade Recreativa Musical fechava dentro de meia hora; pelo que sem tardança deveriam seguir ou ficariam a seco.

Jasão receando mais uma cena de pugilato, sugeriu então que cada um escrevesse um nome num pedaço de pergaminho e fossem a sortes tirando um deles de dentro de um elmo. E assim o fizeram. Mas os nomes eram tão estapafúrdios que era um desconsolo; desde “Nova Atenas” até “Reboleira”… Tudo nomes que envergonhariam o bom gosto da civilização helénica.

Até que um dos argonautas que tinha ido fazer uma mijinha contra um muro que se encontrava ali ao lado, apontou para um letreiro sobre o enorme portão e sugeriu – E se lhe puséssemos aquele nome alí?

No letreiro lia-se “Presídio da Trafaria”

E foi assim que os Gregos baptizaram a simpática localidade; tendo tido ainda tempo de beber uns copos valentes. É que afinal a colectividade só fechou de madrugada, pois era a noite do baile da “Micaréme”.

Música de Fundo
“Born Under Punches”Talking Heads

sexta-feira, 10 de setembro de 2004

A Nobre Arte da Vingança
- O emparedamento e outros exercícios respiratórios –

Visto que no mundo virtual o tempo passa muito mais depressa, amanhã vou partir para outra. E por isso hoje é o último post dedicado ás saladas, gelados, vinganças e outros pratos frios típicos do Verão.

Mas eu nunca me despediria de uma rubrica tão promissora, e que um dia ilustrará parte das minhas memórias (isto se não me mandarem executar antes de ter tempo para as escrever), sem falar da minha vingança e suplício favoritos; o emparedamento.

Segundo Edgar Allan Poe, o emparedamento quando executado segundo as normas é quase tão gratificante e repousante como uma visita a uma exposição de pintura; ou hora e meia de passeio de barco a remos em Sesimbra.

Existem porém várias condições a ser preenchidas, para que um emparedamento (ou entaipamento, como é igualmente usual referir-se este tipo de actividade) se possa considerar um sucesso sem que possam haver reclamações tanto do primeiro(s) ou do(s) segundo(s) outorgante(s).

Primeiro, a razão para tal. Se não tivermos razão basta apenas um motivo, desde que seja minimamente consistente; pois não vamos a correr à estância buscar uma palete de tijolos e três sacos de cimento Portland, apenas porque o gato da vizinha nos urinou no manjerico ou por causa de uma bica mal tirada no café da esquina.

É pois imperioso que se tenha uma boa razão/motivo, quanto mais não seja e mesmo que não sirva de atenuante perante um juiz não muito bêbado, para que alguma publicação se interesse pela nossa história; fazendo com que pelo menos tenhamos alguns trocos para melhor suportar vinte anos de reclusão, e pagar protecção de modo a podermos tomar duche descansados (segundo dizem, uma das coisas mais difíceis de conseguir sem sobressaltos).

Seguidamente temos a parte que diz respeito ao local e materiais a aplicar. Ao contrário dos filmes e textos de apoio (mesmo o de Poe falha neste ponto), não se deve escolher a própria casa nem local que tenha directamente a ver connosco.

Não só porque será um dos primeiros locais onde procurarão, como igualmente desvaloriza o imóvel pois diminui-lhe a área útil em cerca de 3m² (1m de profundidade por 3m de largura. - Medidas fornecidas pela Polícia Judiciária como sendo as mais usuais) o que em caso de quererem mudar de casa, não ajudará nada a subir o preço pedido para a transacção.

Quanto aos materiais, sugere-se a utilização dos tijolos “Ytong” manufacturados em aglomerado de cimento, pois ao contrário dos tradicionais que são feitos de argila, são pouco sensíveis à reverberação sonora e isolam melhor a humidade; o que é uma mais-valia adicionada à já vantajosa contingência de nos livrarmos do(a) incómodo(a) emplastro(invariável).

Agora que já temos o local e materiais, vamos arranjar a vítima que beneficiará do alojamento gratuito durante um longo espaço de tempo (presumimos).

Para não ser apelidado de tendencioso (como injustamente já o fui várias vezes) não vou aqui manifestar-me sobre isso, pelo que deixo ao critério de cada um a escolha do locatário; chamando porém a atenção para o facto de dever ser escolhido/a antes de se chumbarem as algemas à parede do fundo.

Esta precaução deve-se à necessidade de impedir que a vítima toque com os pés no chão, o que poderia causar constipações e gripes. Como devem calcular, seria muito incómodo alguém guiado pelo som dos espirros e catarro detectar o sujeito/a da experiência antes que este/a esticasse simpaticamente o pernil…

Mas adiante. A desculpa para engodar a vítima também é de critério variável, que pode ir desde “O Pipo de Amontillado” a “Sobe para tomar um café que a minha mulher está na terra com os miúdos”.

E como normalmente este tipo de coisas são de cariz íntimo, fazemos como os programas de culinária, e passamos para a vítima já algemada, pendurada na parede e completamente despida.

Esta última condição embora possa ser resultante da alínea anterior, serve principalmente para que vinte anos depois quando rebentarem com a parede, evitar que existam ainda farrapos sobre os alvos ossos; o que tira um pouco a cor local e perturba a mística desta tão artística “performance”.

Deixo-vos então como algumas últimas recomendações, principalmente para os neófitos:

- Usai na fabricação da argamassa a proporção de 3(areia) por 1(cimento) – Já não seria o primeiro colega prematuramente arrecadado devido à sua avareza com o cimento (tal como na Construção Civil, eu sei…)

- Lembrai-vos que ao pintar ou cobrir com papel de parede o local em questão, dever-se-á fazer o mesmo ás outras paredes para não despertar suspeitas; e é claro porque fica igualmente muito mal uma parede numa tonalidade diferente das outras.

- Sempre que possível seguir os ensinamentos do Feng-Shui, pois um bom equilíbrio no entaipamento conduzirá a uma estadia mais agradável e em harmonia com o fluir do universo (pelo menos é o que diz o Paulo Coelho)

4º e Último – Evitar a presença de animais a todo o custo. Pois nos casos conhecidos tem dado sempre mau resultado, nomeadamente no caso daquele relatado por Poe. Igual procedimento impõe-se em relação a dispositivos sonoros; desconfiai sempre que o locatário peça como última vontade o empréstimo de uma aparelhagem portátil.

E agora… Mãos à obra e boa sorte!

Bibliografia – “The Cask of Amontillado” by Edgar Allan Poe; “O Manual do Pedreiro” por Paz Branco; “Construir em Qualidade” por A. Neves da Silva e “Normalização e Certificação na Indústria da Construção Civil e Obras Públicas” da AECOPS.

Música de Fundo
“Firestarter”The Prodigy

quinta-feira, 9 de setembro de 2004

A Nobre Arte da Vingança
- Porque todas as dívidas devem ser saldadas. –

A vingança tal como todas as outras artes, tem os seus virtuosos e os seus merdongueiros. Gente sem o mínimo bom gosto ou senso comum; cujo objectivo é apenas atingir um fim, e não a expressão de uma força interior que os consuma, ou a manifestação extravasante de um apurado sentido estético.

Tal como na pintura ou na música, existem várias escolas que clamam para si a descoberta desta nobre arte; sem que até agora se tenha conseguido chegar a dados conclusivos, apesar das longas e vingativas disputas que datam da fundação da cidade de Bizâncio. Altura esta em que ao ser fundada a civilização “as we know it”, se passou a ter muito mais tempo livre, com a consequente necessidade de o ocupar com discussões inúteis.

A Escola Judaica é uma das mais famosas. Fundada por Judas Iscariotes (a.k.a. Maria Madalena) que ficou conhecida por ter vendido Jesus Cristo, como vingança por este a ter mandado retratar como homem em todas as iluminuras, para não ferir as susceptibilidades da comunidade Gay da época.

Os seguidores desta escola, também conhecida por este nome devido à sua predilecção por “judiar” com as suas vítimas, seguem em leitura livre o “Velho Testamento”; sendo o seu lema conhecido por qualquer respeitável Porteiro de Discoteca – “Olho por olho, dente por dente…”

São considerados uma corrente clássica, principalmente devido ao modo antiquado como se vestem. E podem ser reconhecidos na rua pelos seus ridículos chapéus redondos e trancinhas, que lhes causam imensos dissabores; especialmente se distraídos se curvarem para apanhar algo à porta do “Trumps”.

A Escola Bizantina, fundada por Constantino “O Brande” (assim conhecido por brandir sempre o órgão decepado que suscitara a vingança) teve uma duração relativamente curta. Principalmente devido ao facto de o seu fundador passar a maior parte de tempo preso; pois há certos órgãos que não se devem brandir na via pública, nem mesmo por vingança justificada.

Eu pessoalmente pertenço á “Escola Medieval Lusitana” fundada por Pedro I “O Cru”; por uma cisão directa na Escola Russa. Estes últimos proclamavam que “a vingança é um prato que se come frio”; mas isso seria devido talvez a terem inventado a salada russa e o sorvete de arenque (prato muito em moda entre os boiardos de Ivan “o Terrível”, que o usavam para extorquir confissões aos turcos aprisionados).

Pedro “O Cru” apesar da sua fama de vingativo, ficou conhecido devido a acontecimentos de duvidosa veracidade; como o episódio em que arrancou o coração pelas costas a um vizinho, que fizera umas festas no dorso da sua amada Inês, pensando erradamente que este acabava mais abaixo…

Ainda durante a minha fase adolescente (antes de me tornar um vingativo escolástico), contei com a com a colaboração de alguns vingativos amadores na tarefa de apurar a verdade sobre esse episódio. Pelo que recorrendo ao método experimental, constatámos não ser possível remover o coração pelas costas. Excepto talvez cortando algumas costelas; o que não seria muito prático para alguém com instrumentos da idade média, e séculos antes da abertura da fábrica ICEL na Benedita (a localidade, claro).

Felizmente a nossa experiência não teve que ser tornada pública, pois utilizámos para tal um Fiscal dos SMAS. Aparentemente os seus colegas ainda pensam que se baldou ao trabalho, e deve estar algures a beber uma imperial; pelo que o continuam (e a nós também) a encobrir.

Como vêm isto das vinganças é complicadíssimo; e só para explicar as várias tendências e escolas existentes é um post. Estou mesmo a ver alguns de vocês a interrogarem-se sobre o que poderão ter feito para eu me vingar assim.

Mas prometo que até ao fim de semana a coisa ficará resolvida. Porque apesar de (como propalado pela Escola Russa) a vingança ser um prato que se come frio; eu é mais “semi-frio de manga”, e mesmo assim só se não houver “profiteroles”.

Pelo que possivelmente amanhã, começaremos pelos “Exercícios para uma Vingança de Cariz Intelectual e de Argumento Literário Clássico” caluniosamente atribuídos a Eduardo Prado Coelho (talvez por causa do título pretensioso). Tendo na verdade sido escritos por um famoso apresentador de TV, sob o pseudónimo de Carla X.

Música de Fundo
“Getting Away With Murder”Papa Roach

quarta-feira, 8 de setembro de 2004

A Divina Previdência
- This is a true story… (tan, tarantan taaaaaaan…) –

A velha entrou resoluta no posto da Caixa, com o à-vontade proporcionado por visitas regulares, embora arrastando um pouco a perna esquerda ou não estaria ali.

O administrativo estava num dia mau. Talvez o facto de usar bigode não o ajudasse a encarar a vida de modo filosófico; o certo é que estava com uma disposição daquelas capazes de o fazer comer velhas, por mais encarquilhadas e intragáveis que elas fossem.

Talvez tivesse levado nega na noite anterior, ou tivesse finalmente descoberto porque tem a mulher ultimamente ostentado uma expressão tão sorridente e satisfeita. Mas os motivos não são para aqui chamados, porque o gajo do bigode é um profissional. Um tipo que é pago para fazer o trabalho de um Q.I. de 78, e que no entanto aufere um salário superior a um tipo que pavimente estradas ou pinte o topo dos mastros de bandeira; já não contando com a ADSE…

É um funcionário público, termo que por si só já devia definir a sua posição em relação ao dito, visto que é a sua entidade empregadora… Mas voltemos à velha.

A velha é uma provinciana analfabeta mas teve boa educação. Com bons modos solicitou a marcação para uma consulta, dando o nome da médica de família e citando de memória o seu número de utente. Pode dizer-se até, que para alguém que acha que Camões é o zarolho da “Minhota”, se trata de um feito assaz louvável.

Mas o tipo não se comoveu com esta exibição de desenvoltura. E mesmo sem consultar a base de dados, ler o “print” que tinha ao lado ou perguntar à médica (que casualmente passava por ali), afirmou não haverem inscrições vagas até ao fim da semana (era 2ª Feira). Aconselhando-a a recorrer ás desistências, o que a faria estar à porta do posto ás seis da manhã, na esperança que algum dos privilegiados oportunamente falecesse, legando-lhe a sua vez.

A velha não é estúpida. Tem aquele ar meio calmo e pacífico, mas está mais que habituada a citadinos que têm uma inexplicável fé na sua suposta supremacia. Meteu a viola no saco e recolheu a penates para participar o caso á família, em cujos membros se insere um tipo de mau feitio que tem um blog.

Para que não fossem cometidas injustiças, recorreu-se ao telefone directo para o mesmo balcão onde a velha acostara horas atrás; e após breve conversação com uma simpática e eficiente funcionária (o que prova que não se deve generalizar, mas sim particularizar), ficou então marcada uma consulta para o dia seguinte (3ª Feira).

Eu sei que não me devo exceder nem ser calunioso, principalmente porque este é um blog lido por idosos e crianças (devido aos poucos posts eróticos), por isso peço aqui o vosso conselho.

Meus amigos, que acham vocês que devo eu fazer ao filho da puta do administrativo de bigode, que está colocado no Posto Nº 6 da Cova da Piedade?

Aceitam-se sugestões.

Música de Fundo
“Fuck You” - 50 Cent

terça-feira, 7 de setembro de 2004

Promenade
- No campo com TheOldMan -

Nada como uma falésia para nos despedirmos do último sol do Verão. Parar entre os pinheiros e sentir o cheiro salgado transportado no vento, olhar o mar e talvez um pouco mais além… para o Outono que espreita por detrás do horizonte, pintado a cores ofuscantes de meio-dia.

Nem faltou um dos pombos de Blog que me observou demoradamente, escondido atrás de uma árvore. Pelo menos foi o que eu pensei, até constatar que se tratava de um artefacto integrado na camuflagem de um observador de aves.

A experiência (incluindo a de hoje) ensinou-me que o campo é muito bonito, especialmente para redacções e folhetos da Secretaria de Estado de Turismo. Pelo que vou repetir a experiência mas em local menos ventoso, e que não esteja juncado de lixo e mirones disfarçados de ornitólogos.

Mas gostei desta pequena pausa, apesar de curta e de saber a pouco. Espero que mais para o Inverno, a zona de piqueniques não esteja tão apinhada de gente…

Este breve momento bucólico foi patrocinado por meu amo, a quem me pirei para ir respirar fundo o ar dos pinheiros, ver os passarinhos e espetar caruma nos joelhos. Caí! Ou pensam o quê?

Música de Fundo
“Close to You”The Carpenters


Crise de Conteúdos
- In Heaven Everything is Fine… -

Parece-me que hoje não me apetece chatear ninguém, nem contradizer seja quem for nas suas convicções.

Isto segundo Pirro seria a maneira mais acertada de pôr a questão. Mas eu sou um céptico por conta própria, e se alguma escola tivesse que seguir seria eu a fundá-la; quanto mais não fosse para poder lucrar com as propinas.

O facto é que, as segundas-feiras produzem em mim um anti-corpo que combate tudo o que seja vontade de produzir intelectualmente; pelo que muitas vezes dou por mim a ver filmes à noite, em vez de dar ao dedo para satisfazer os leitores neste blog.

Mas hoje fui castigado (ou por Blog, ou por outra entidade igualmente mesquinha e vingativa) pois o único filme que ainda me restava em casa para ver era “Eraserhead” de David Lynch.

Acho que a minha apreciação do filme, nada tem a ver com o facto de o protagonista ter muito mais cabelo que eu e se parecer com um dos elementos dos Spandau Ballet; tem a ver sim com o facto de ser mortalmente chato.

Mais chato ainda que o histórico “Lost Highway”, que há uns anos provocou nos Estados Unidos enormes engarrafamentos; devido a ter feito com que durante muito tempo, toda a gente evitasse as auto-estradas só para fugir ao imaginário de David Lynch.

A minha análise mais apurada do argumento, conduz-me a algo parecido com a história um economista honesto que aceitasse neste momento a pasta das finanças. Tirando aquela senhora estranha que aparentemente vive no radiador, o tipo não encontra em todo o filme ninguém que diga coisa com coisa. Dando a impressão de partes dele terem sido filmadas em S. Bento, com a colaboração de alguns deputados que não conseguiram fugir em viagens de serviço.

Talvez o papel principal ficasse beneficiado se fosse desempenhado por João Soares ou Ferro Rodrigues. Embora eu ache um excesso de horror (mesmo para David Lynch) dar o papel principal feminino a Manuela Ferreira Leite; bem mais apropriada para representar o Leatherface em “Texas Chainsaw Massacre”.

É um filme angustiante, que faz lembrar a vida política em Portugal. Não se percebe o que eles querem ou o que fazem, o cenário parece o Poço do Bispo e calculo (pois não o consegui ver todo) que no final hajam eleições.

Segundo um perito do ramo - "Eraserhead" tornou-se desde seu lançamento um filme culto aclamado pela crítica e transformou-se num ícone do cinema de vanguarda.

Acho que vou rever o “Finding Nemo”. Estou mesmo precisado de estimular o meu intelecto.

Música de Fundo
“Mystery Roach”Frank Zappa

domingo, 5 de setembro de 2004

Origami de Alma
- Cenas Dadaístas -

Pego minha alma e sopeso-a
dobro-a
vinco-a
e amarfanho-a

Lanço-a no ar repetidas vezes
mas não voa

Apenas as almas mortas voam
e não se devem amarfanhar
ou não entrarão
na caixa de correio dos céus
por mais selos que levem

Sopeso-a novamente

É a mesma
mas perdeu a sua antiga forma

Talvez não chegue a entrar
pela fenda dos céus
registada e com aviso de recepção

Mas ainda assim servirá
para entretanto jogar basket
no cesto dos papéis…

Música de Fundo
“The Joker”The Steve Miller Band


sábado, 4 de setembro de 2004

Durante o meu sono
capto memórias de ti
em todas as minhas extremidades
como urgentes mensagens
plenas
de palavras eléctricas

Música de Fundo
“Crystal Days”Echo & The Bunnymen


sexta-feira, 3 de setembro de 2004

Vamos Lá a Ser Polémicos Mais Uma Vez
- Eu sei, é a minha cruz… -

É uma barbárie, uma infâmia e principalmente um grande etecétera, isto de arrastar crianças para uma guerra. Qualquer atrasado mental o sabe, e nem é preciso chegar a primeiro-ministro da nossa república para o ficar a saber.

Os media deliram sempre com as criancinhas. E um dia (que chegará, por certo) em que haja material suficiente para isso, assistiremos ao aparecimento de um canal especializado em desgraças acontecidas a crianças.

Eu sou pai, e não sou nem mais nem menos frio que os meus congéneres; mas há uma coisa que me chateia imenso… eu conheço os russos.

São uns tipos impecáveis, quando estão à roda de um samovar a comer aquele fedorento esturjão empurrado para baixo à conta de chá e vodka; choram como umas crianças ao ouvir uma boa história piegas.

Em contrapartida, aperfeiçoaram a técnica publicitária do tiro na nuca e do enforcamento com cordas de piano. E em 1917 descobriram praticamente a pólvora, quando Lenine lhes deu a melhor desculpa que alguém poderia inventar, para invadir as casas aos seus vizinhos e saqueá-las com um sorriso.

Na minha modesta (e pessoal) opinião, os americanos no que toca a imperialismo são um bocado primários, e em certo aspecto se os compararmos com os russos; até talvez uma espécie de otários chegados há pouco a Santa Apolónia…

É claro que a época áurea da CCCP já ficou para trás. Mas como qualquer herdeiro pelintra de fortunas gastas, a Putin sobra-lhe a pretensão e a saudade dos velhos tempos, em que todos os vizinhos se curvavam à sua passagem (na maior parte dos casos para se desviarem das balas).

Claro que tenho pena das crianças Russas. Seria insensível se não tivesse. Mas já tive pena de imensas crianças… desde as Montenegrinas e Arménias até ás Húngaras e Checoslovacas. Algumas delas mortas pelos avós e pais dos russos que hoje choramingam porque foram atingidos onde dói mais.

Sei que vou ter que aturar muita gente à conta disto, mas uma coisa é certa… os Chechenos que fizeram o golpe já foram crianças, e talvez alguns deles tenham bastantes motivos para estarem muito, mas mesmo muito chateados…

Musica de Fundo
“In A World Gone Mad”Beastie Boys


quinta-feira, 2 de setembro de 2004

Intelectualite
- …ou os estranhos cogumelos do jantar de ontem… –

Ultimamente não me tenho sentido muito inteligente. É claro que esta afirmação poderá tentar-vos a comentar algo como - “Isso é natural, porque não é só ultimamente…”, etc. – Só que isso seria tão óbvio, que se transformaria numa espécie de “tiro pela culatra”.

É verdade. Nos últimos tempos o meu espírito tem sentido uma sede de conhecimento e pensamentos elevados, a necessidade de ir mais além e descobrir algo; nem que seja apenas como irá acabar a novela das nove.

Mas como sabem trabalho numa empresa de construção, que tem sede no interior de um bairro que parece a Xangai dos anos 20 (isto num dia bom); pelo que nunca esperei nada demais dos que me rodeavam.

Mas como eu estava enganado…

Hoje de manhã o meu espírito abriu-se como um melão caído de uma camioneta. Não só estava rodeado de intelectuais (sim, aqui no Bairro Amarelo) mas espíritos verdadeiramente brilhantes, capazes de meter num chinelo todos os frequentadores da “rive gauche” do Sena; desde Boris Vian ao meu tio Arménio (que servia à mesa num bistro em Rosny).

O meu tio Arménio (era mesmo Arménio) chamava-se Vlad. Quer dizer, era mais alcunha por causa de certas manias que tinha; porque o seu verdadeiro nome era Vafa Melkov. Mas estava sempre a ser preso cada vez que mostrava o bilhete de identidade; por isso deixou de ser Arménio, naturalizando-se Francês com o nome Arménio em vez de Vafa.

Agora que já vos confundi o suficiente sigo em frente, porque isto em nada tem a ver com o meu tio Francês que agora é Arménio em vez de Vafa…

E aconteceu hoje com a Dona Odete. A minha musa das torradas bem passadas, que surpreendi num momento de rara e cultural beleza, em discussão com o Xico “vidraceiro” que se encontrava bêbado logo ás nove da manhã; talvez para manter o horário que cumpria escrupulosamente quando estava empregado.

O debate baseava-se num diferendo alimentar, em que a Dona Odete teria servido uma sandes de chourição ao Xico, que clamava ter pedido de torresmos pois o chourição não ligava com o “penálti” de branco. E apoiava a sua reclamação no testemunho do Edgar “bexigoso”, que se encontrava ao seu lado saboreando uma Macieira em curtos e filosóficos goles.

A Dona Odete tem pêlo na venta (literalmente). Pelo que virando-se para ele, ameaçou-o parafraseando Gertrude Stein – Uma sandes, é uma sandes, é uma sandes… E não penses em ficar a dever outra vez, senão é melhor ires já a casa buscar as “canadianas”.

O Xico embatucou. Apesar de se lembrar que o último livro que leu era verde, pouco mais sabe sobre literatura; excepto da literatura explicativa anexa aos comprimidos para o fígado. Pelo que pagou a sandocha e se retirou envergonhado como Galileu; embora com um passo um pouco mais hesitante (devido ao branco).

Como se não bastasse este indício; regressando do pequeno-almoço vi a esposa de meu amo dentro da “loja dos 300” do Hamed (o nosso monhé, como carinhosamente o chamamos), a escolher livros usados de um caixote que se encontrava a um canto.

Maravilhado, constatei que escolhera quatro volumes de “Em Busca do Tempo Perdido” de Proust; e entrei para a felicitar pela feliz escolha, chegando mesmo a tempo de a ouvir afirmar doutamente – Pelo menos estes têm a capa rija, senhor Hamed. Os do Fernando Pessoa que me vendeu há dois meses não aguentaram nada; porque a porcaria da estante dos acessórios pesa uns duzentos quilos e furou-lhes logo a capa…

Música de Fundo
“Camarillo Brillo”Frank Zappa

quarta-feira, 1 de setembro de 2004

Histórias dos meus Neurónios
- Joselito “El Guapo” –

Como já mencionei algumas vezes Joselito é o meu neurónio favorito. Tem um fraquinho por motociclos de baixa cilindrada e mulheres de alta, talvez por passar o tempo quase todo a cavalo na XF 17 Super de 1978.

Nunca lhe conheci outra. Embora tenha sido amor à primeira vista, começou pelo poster que acima reproduzo, e cuja legenda para a campanha desse ano era – “Monte-se nela que não o desiludirá…”

Os publicitários sempre foram conhecidos pelo seu proverbial exagero, mas Joselito enamorou-se da sua montada apesar desta funcionar a dois tempos (acho que se dizia assim, porque o fato de banho da modelo se despia em duas etapas).

Mas voltando um pouco atrás.

Um dia, ao quase ser decapitado pelo balancé do Jardim da Cova da Piedade, compreendi que em vez de morrer na cama descansadinho e talvez a meio de algo interessante, iria decerto ter um fim apoteótico. Foi nessa altura que nasceu Joselito, o campeão do poço da morte e herói de todas as causas inúteis e gratuitas.

Na verdade nunca se interessou muito por motorizadas, “ele era mais” adrenalina… e “penduras” femininas também. O que não o impediu de retirar da Zundapp todos os componentes metálicos supérfluos, fazer não sei o quê ao pistão e arranjar uma cremalheira maior.

Joselito é um tipo de bom gosto. Nunca alguém conseguiria ver uma grade “Domplex” atravessada na maquineta, nem que fosse para transportar barras de ouro. Era mais do estilo de se lançar por entre os rodados de camiões TIR, e aparecer do outro lado a sacudir a poeira das “Jeans Machine”. Maluquinho, sem dúvida…

Os seus outros irmãos são uma espécie de contabilistas honestos (deve ser raro) e bem comportados, com óculos tipo Clark Kent e que me ajudam a levar a vida direitinha; ou mais ou menos…

Mas quando ele toma o comando das operações, normalmente acabo metido em sarilhos; e o pior é que o sacaninha, ao contrário de mim não envelhece. O que me obriga a um monte de malabarismos para o acompanhar, acarretando ainda um acréscimo na despesa com Reumon-Gel e anti-inflamatórios.

Mas é o mais divertido dos meus neurónios. E Para o homenagear, a foto lá em cima fica até ao fim de semana; principalmente porque é agradável à vista e tem boas linhas, aquela montada a dois tempos…

Música de Fundo
“Born To Be Wild”Steppenwolf

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